2 de dez de 2014

Sem o fim do financiamento privado de campanhas todo combate à corrupção vai fracassar

Costa na CPI: ninguém é santo
Você quer combater de verdade a corrupção?

Então leve a sério a frase do delator Costa pronunciada hoje na CPI da Petrobras. “Isso aconteceu em todos os governos. Todos!”

“Isso” são os sistemas de propinas utilizados para irrigar políticos e partidos.

Você quer fingir que combate a sonegação?

Então faça o seguinte: finja que tudo de ruim aconteceu depois da chegada do PT ao poder.

Na primeira opção, você estará combatendo o bom combate. Na segunda, estará fazendo demagogia barata.

É isso, demagogia barata, que vem fazendo figuras como FHC, Aécio e Gilmar Mendes.

Eles não contribuem em nada para o avanço do país.

É o oposto disso que vêm fazendo figuras como Luciana Genro e Ivan Valente ao se bater pelo fim do financiamento de campanhas por empresas privadas.

Porque é aí que está a raiz da corrupção. É quando, para usar uma expressão recente do Nobel de Economia Paul Krugman, a plutocracia toma de assalto a democracia.

Ninguém dá dinheiro de graça. Seja para Aécio, seja para Dilma, seja para o Pastor Everaldo, seja para quem for.

É uma troca: eu dou dinheiro e depois você, caso ganhe, me retribui.

Dilma voltou a falar que é contra o financiamento privado de campanhas. Falta passar à ação, e o primeiro passo para isso é deixar isso claro de forma categórica em algo como um pronunciamento em rede nacional.

Mas que ninguém se iluda.

Está claro que reformas que conduzam ao avanço da sociedade só serão alcançadas com mobilizações nas ruas, como as Jornadas de Junho.

Se você deixar por conta dos Aécios, dos Eduardos Cunhas, dos Serras e dos Gilmares, passarão o céu e a terra — mas não passará o dinheiro bilionário que as grandes empresas dão a políticos para que atendam aos interesses delas, delas e ainda delas.

Paulo Nogueira
No DCM
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MP investiga pagamento de bônus a diretores de estatal paulista


O presidente do Conselho de Administração da CPP, Andrea Calabi,
é citado por ter autorizado os pagamentos ao diretores da empresa
Foto:  Mauricio Garcia de Souza
O Ministério Público de São Paulo apura denúncia de que diretores e conselheiros da estatal Companhia Paulista de Parcerias (CPP), do governo de São Paulo, estariam recebendo bônus originários de juros de recursos captados para parcerias e aplicados no mercado financeiro

Diretores da estatal Companhia Paulista de Parcerias (CPP), do governo de São Paulo, são citados em um inquérito civil aberto no Ministério Público do Estado por receberem bônus (participação nos resultados) da empresa, supostamente, de forma ilegal. O MP paulista investiga a denúncia, que pode virar uma ação. Os diretores são suspeitos de “violação a princípios” da Lei de Improbidade Administrativa (8249/92). Eles estariam, segundo a denúncia, recebendo bônus originários de juros de recursos captados para parcerias e aplicados no mercado financeiro. Para que o dinheiro a ser destinado aos projetos não fique parado, a empresa investe esses recursos. O secretário da Fazenda, Andrea Calabi, presidente do Conselho de Administração da CPP, é citado por ter autorizado os pagamentos.

A CPP foi criada por lei, em 2004, sob a forma de sociedade por ações, para representar o Poder Executivo nos programas de Parcerias Público-Privadas (PPPs). São citados no inquérito, além de Calabi, o presidente da CPP e secretário-adjunto da Fazenda, Philippe Duchateau, e o diretor Tomás Bruginski de Paula, além da procuradora da Fazenda Estadual Cláudia Polto da Cunha e o engenheiro Pedro Benvenuto, que já não integram mais os quadros da CPP. Benvenuto era secretário-executivo do conselho gestor do programa de PPPs da Secretaria de Planejamento de São Paulo e membro do conselho do Programa Estadual de Desestatização. Ele foi afastado dos dois cargos, em setembro de 2013, após ser acusado de vazar dados da CPTM e do Metrô para uma empresa envolvida no esquema de pagamento de propina à Alstom.

Secretaria diz que pagamento é legal

A Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo diz que o pagamento do bônus aos diretores da CPP “é regular” e tem amparo na legislação em vigor. A Secretaria afirma ter prestado todos os esclarecimentos ao Ministério Público no dia 14 de outubro deste ano. “Os critérios para apuração e pagamento de bônus aos diretores da Companhia Paulista de Participações (CPP) atendem à regulamentação definida para todas as empresas estaduais e estão baseados no desempenho da empresa. O pagamento estabelecido pelo governo é limitado à metade do montante autorizado pela legislação societária”, diz a nota da Secretaria.

Gilberto Nascimento
No Brasil Econômico
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Divergências na condução da prestação de contas de Dilma e Aécio


Coligação de Dilma pede mais prazo para analisar contas de Aécio, depois de decisões do TSE que atrasaram pedido de impugnação

A paridade justificada pela ministra do TSE, Maria Thereza de Assis Moura, para digitalizar as contas da campanha de Aécio Neves prejudicou possíveis pedidos de desaprovação, por parte dos partidos políticos, candidatos, coligações ou Ministério Público. No sábado (29), último dia para entrar com petição, documentos ainda estavam sendo digitalizados pela Assessoria de Contas Eleitorais e Partidárias do TSE.

A decisão da ministra relatora ocorreu na noite do dia 26 de novembro, faltando apenas dois dias para o prazo legal de pedidos de impugnação. Maria Thereza explicou que tomava a medida buscando "garantir a paridade de tratamento nos processos de prestação de contas de campanha", uma vez que o ministro Gilmar Mendes havia solicitado a disponibilização na internet das cópias dos gastos da campanha de Dilma. A decisão de Gilmar foi protocolada na terça-feira (25).

De acordo com reportagem de O Globo, a coligação de Dilma Rousseff preparou um documento, no último sábado, solicitando que o prazo seja estendido. Se, por um lado, a petição do PSDB foi registrada pela Seção de Protocolo Judiciário do TSE às 22h29 daquele dia e acatada por Gilmar Mendes no domingo, por outro, o mencionado pedido do PT e aliados não foi, sequer, registrado no acompanhamento processual das contas de Aécio.

Também são observadas divergências nos processos do TSE de prestação de contas da presidente.

A petição do PSDB de impugnação contra os gastos eleitorais de Dilma (nº 188992) registra que o seu protocolo ocorreu às 22h29 do sábado e atualizada às 12h10 do dia seguinte. No domingo, a Seção de Gerenciamento de Dados Partidários, setor no TSE que armazena os documentos dos partidos, teria recebido a petição às 12h17 e encaminhado a Gilmar Mendes que, por sua vez, teria recebido às 12h31.


Entretanto, no processo de Prestação de Contas do PT, a mesma Seção de Gerenciamento de Dados Partidários informa no domingo, às 14h22, que o prazo para a impugnação havia terminado sem nenhum pedido de desaprovação das contas. "Decurso de prazo em 29.11.2014 sem impugnação, referente ao Edital de Apresentação das Contas Finais de Campanha Eleitoral - Eleições 2014, publicado em 26.11.2014".


A informação é contrariada no processo de Prestação de Contas de Dilma Rousseff. Já na segunda-feira (01), a Seção publica o seguinte andamento: "Informação: apresentada impugnação (protocolizada sob o nº 35.487/2014)".


De acordo com a legislação eleitoral, o pedido de impugnação das contas de campanha é direcionado, simultaneamente, ao candidato e ao partido político que arca com os gastos eleitorais. Ainda que sejam dois processos distintos, os ministros relatores são os mesmos, as decisões e despachos são iguais, assim como a movimentação dos autos no TSE. A conclusão pela aprovação ou desaprovação das contas é única para os dois processos.

PT pede mais dias

No sábado, a digitalização das contas de Aécio não haviam sido concluidas, e a coligação Com a Força do Povo solicitou mais prazo para a análise de inconsistências. Entre elas, a contratação dos escritórios dos ex-ministro do STF Ayres Brito e Carlos Veloso para pareceres sobre o aeroporto do município de Cláudio, em Minas Gerais, construídp na fazenda de um tio de Aécio, durante o seu mandato como governador do estado.

O gasto foi de R$ 114 mil para os pareceres e o PT alega que a construção do aeroporto, em 2009, foi anterior à campanha, fato considerado irregular, uma vez que os gastos só podem ser feitos para fatos e situações ocorridas durante o período de campanha eleitoral. A Coligação questiona, também, a emissão de três notas fiscais de gráficas, de R$ 1,7 milhão, depois do fim do pleito, e outras irregularidades no lançamento de outras notas de despesas.

Patricia Faermann
No GGN
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O fantasma das demissões na TV Cultura

A situação da TV Cultura, comandada pelos tucanos paulistas há quase duas décadas, é cada dia mais grave. Em novembro, a emissora atrasou o pagamento dos funcionários terceirizados e das empresas prestadoras de serviços. Já na semana passada, ela cancelou a produção do programa diário “Mais Cultura”. Diante deste cenário sombrio, a jornalista Keila Jimenez, da Folha, alerta que “o fantasma das demissões voltou a rondar a TV Cultura”. O clima na emissora pública, segundo relatos de lideranças sindicais, é de medo!

O programa “Mais Cultura”, que era exibido de segunda a sexta-feira, foi extinto sem qualquer explicação. Ele será substituído pela animação infantil “Doug”. Segundo Keila Jimenez, “a produção do ‘Mais Cultura’ foi surpreendida com a notícia e já se fala internamente na rede que mais dois programas podem sair do ar até o final do ano. Os cerca de mil funcionários contratados na TV Cultura estão também preocupados com o pagamento da segunda parcela do décimo terceiro salário”. O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo tem pressionado a direção da empresa.

Recentemente, a Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, informou que terá uma redução de cerca de 21% de sua verba em 2015, segundo previsões do orçamento do governo de São Paulo. A verba da emissora em 2014 foi de R$ 218 milhões. Aos poucos, o PSDB destrói todo o patrimônio da TV Cultura, além de partidarizar descaradamente a sua programação “jornalística” — que se transformou num palanque dos tucanos mais hidrófobos. O governador Geraldo Alckmin já conta com a blindagem da mídia “privada” e menospreza a emissora pública!

Altamiro Borges
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DEA veio ao Brasil, após mídia internacional envolver Aécio Neves com tráfico internacional de drogas


Depois das denúncias a respeito das irregularidades em relação ao aeroporto de Cláudio (MG) envolvendo a polêmica pista de pouso com o tráfico de drogas, a Drug Enforcement Administration (DEA) esteve no Brasil no mês de novembro.

Depois da repercussão nacional e internacional envolvendo o nome do senador Aécio Neves (PSDB) com helicóptero pertencente, a Agropecuária Limeira, preenchido com 450 quilos de cocaína, no qual foi divulgado amplamente pelo canal Telesur e um dos sites mais famosos dos EUA, o TMZ. O juiz federal Marcus Vinícius Figueiredo de Oliveira Costa do Espirito Santo, recebeu em seu gabinete o agente da Polícia Federal Rafael Pacheco. Ele estava acompanhado de dois homens que falavam português com sotaque.

Apresentaram-se ao juiz como agentes da DEA — a agência antidrogas americana. Os investigadores estrangeiros queriam saber o local do pouso do helicóptero que trouxe de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, pelo menos 445 quilos de pasta base de cocaína. O local do pouso estava registrado no GPS da aeronave.

A conversa era informal e se alongou. Os agentes da DEA contaram ao juiz que, assim como o México é a rota da droga para os Estados Unidos, o Brasil se transformou no principal corredor da cocaína exportada para a Europa, e assim como no México o tráfico de drogas alimenta a política, no Brasil não seria diferente, e essa especulação que envolve o nome do Senador Aécio Neves, "os interessa e muito"!.

Telesur é um dos maiores canais de televisão da America Latina, já TMZ ganhou notoriedade quando o artista Michael Jackson faleceu. O TMZ foi a primeira mídia a divulgar sua morte superando grandes redes de notícias mundiais. 4 Horas mais tarde, a informação foi confirmada e o TMZ se tornou oficialmente uma referência de informações sobre celebridades.



Foco da investigação do DEA

A policia investiga se o aeroporto de Cláudio foi utilizado como rota para o tráfico de drogas, uma vez que já é pública a informação de que o helicóptero da empresa Limeira Agropecuária, da família do senador Zezé Perrela, apreendido no Espírito Santo transportando 445 quilos de cocaína em novembro passado, chegou a pousar antes em um ponto do povoado de Sabarazinho (apenas 14 km de distância do aeroporto mineiro de Cláudio), três horas antes de seguir viagem para um sítio na cidade capixaba de Afonso Cláudio. A PF chegou a tal confirmação baseando-se no rastreamento do GPS do helicóptero, assim como nas anotações do plano de voo dos pilotos. e apreendido pela Polícia Federal do Espírito Santo, no sudeste do país, no último ano.



Fabiano Portilho
No i9
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Usina de família de novo ministro foi flagrada cinco vezes com escravos

O senador Armando Monteiro Neto (PTB-PE), anunciado como novo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, afirmou que o maior desafio é aumentar a competitividade dos produtos brasileiros no mercado mundial.

Desejo que o caminho que o governo Dilma encontre para fazer isso não passe pela depreciação da qualidade de vida no país.

Porque a história mostra que toda vez que alguém fala em ampliar a competitividade em um mercado globalizado tende a optar pela saída fácil de reduzir os direitos trabalhistas e sociais.

De tentativas de impor restrições à fiscalização do trabalho à busca pela aprovação de leis que ampliem a terceirização da mão de obra e mandem INSS, FGTS, férias e 13o para o espaço.

Para isso, espero que o ministro não tome como referência o histórico de uma empresa da própria família.

O governo federal flagrou trabalhadores em condições análogas às de escravo em, ao menos, cinco oportunidades na Destilaria Araguaia (antiga Destilaria Gameleira), em Confresa (MT). De acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego, em 2009, foram 55 resgatados; em 2005, outros 1.003; em 2003, mais 272; em 2001, 76; e, em 1997, 45 pessoas. O maior dos resgates aconteceu quando a empresa estava sob a gestão de Eduardo Queiroz Monteiro, irmão de Armando — que não aparece, hoje, entre seus proprietários.

O caso ficou conhecido por episódios nonsenses que dizem muito sobre a política brasileira. No dia 1º de junho de 2005, o então presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PR-PE), telefonou para o Sindicato Nacional das Distribuidoras de Combustíveis e empresas distribuidoras de combustível “questionando'' o motivo pelo qual grandes distribuidoras haviam cancelado contratos de compra da Destilaria Gameleira — então inserida na “lista suja'' do trabalho escravo, cadastro do governo federal com os empregadores flagrados com esse crime. Apesar do lobby, as distribuidoras mantiveram o boicote à empresa enquanto ela ficou na lista.

A empresa voltou a figurar na “lista suja'' do trabalho escravo, em 2013, sob novo nome — “Zihuatanejo do Brasil Açúcar e Álcool — Destilaria Araguaia''. De acordo com o Conselho Monetário Nacional, está proibida de receber financiamento agrícola.

Torço para que o ministro faça uma boa gestão da imagem dos produtos brasileiros no exterior e incentive o crescimento do comércio interno. O que, certamente, inclui evitar a promoção de corporações flagradas com escravos e seus sócios.

E levando em conta que ele já foi conselheiro da empresa, torço para que seus conselhos para o desenvolvimento do país sejam, de fato, sustentáveis.

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O papel da máfia no assassinato de John F. Kennedy

A ninguém, nem à família, interessava revelar as ligações de Kennedy com a Máfia, os complôs para assassinar Fidel Castro e comprometer a CIA.

[Nota do autor: Maiores detalhes sobre esses episódios podem ser encontrados, com as respectivas fontes, nos meus livros "Formação do Império Americano" e  "De Marti a Fidel - A revolução cubana e a  América Latina", ambos da Civilização Brasileira]

“Es una mala noticia” - exclamou Fidel Castro, ao saber do assassinato do presidente John Kennedy, no dia 23 de novembro de 1963. No momento, ele estava almoçando, em Varadero, com o jornalista francês Jean Daniel, editor internacional de L’Express, que passara antes por Washington e a quem Kenndey solicitara que o sondasse sobre a possibilidade de normalizar as relações entre Cuba e Estados Unidos, caso ele adotasse uma linha de não-alinhamento, como a da Iugoslávia [1]. Ele, outrossim, havia instruído o embaixador William Attwood, adjunto de Adlai  Stevenson na ONU, no sentido de explorar a possibilidade de acomodar a situação com Fidel Castro, mediante a cessação de suas atividades subversivas na América Latina e a completa neutralização de Cuba, com a retirada dos militares da União Soviética, que lá ainda ficaram [2].

O presidente John Kennedy, aparentemente, havia desistido de invadir a ilha, dado o alto custo político  e de vidas humanas, bem como por causa do acordo com a União Soviética, para a retirada dos mísseis (outubro/novembro de de 1962) que lá estava a instalar. E daí que passou a jogar outras cartas para resolver o problema com Cuba, antes da eleição presidencial a ocorrer em 1964.

Não obstante, ao mesmo tempo em que Kennedy experimentava abrir um caminho para a negociação, em 22 de novembro de 1963, o agente Desmond FitzGerald (1910 -1967), substituto de William Harvey como chefe da Cuban Task Force W, da CIA, apresentou em Paris, como representante pessoal de Robert Kennedy, ao major Rolando Cubela Secades, antigo dirigente do Directorio Revolucionario, representante de Cuba na UNESCO e recrutado pela CIA desde 1961, a fim de tramar o golpe de Estado, em Havana, e entregou-lhe uma caneta com um dardo envenenado, para que disparasse contra Fidel Castro, operação  esta conhecida pelo criptônimo de AM/LASH. Se Fidel Castro fosse eliminado até novembro de 1964 e se instalasse em Cuba um governo aceitável para os Estados Unidos, Kennedy poderia apresentar-se ao eleitorado americano como o presidente que impediu o avanço do comunismo no hemisfério.

Conforme alguns dos seus colaboradores, talvez a CIA não houvesse informado ao presidente Kennedy sobre o projeto AM/LASH, embora ele não tivesse preconceito contra assassinatos políticos. Quando a CIA, 1961, articulava o golpe contra Leónidas Trujillo, na República Dominicana, Kennedy declarou que os Estados Unidos, “as a matter of general policy, could not condone assassination” e também autorizou o golpe de Estado contra o presidente do Vietnã do Sul, Ngo Dinh Diem, assassinado em 2 de novembro de 1963, em negociações secretas com o Vietnã do Norte. Entretanto, em 23 de novembro, no dia seguinte à entrega da caneta com dardo envenenado a Rolando Cubelas por Desmond Fitzgerald, foi Kennedy que tombou assassinado, em Dallas, por Lee Harvey Oswald. O projeto AM/LASH fracassou como dezenas de outras tentativas de matar Fidel Castro.

O assassinato do presidente John F. Kennedy constituiu um ato de terrorismo individual, cujas causas a razão de Estado (Raison d´État) obstaculizou a investigação realizada pela President's Commission on the Assassination of President Kennedy, conhecida como Warren Commission, nome do chefe da Justiça dos Estados Unidos, Earl Warren. Sua conclusão foi que Lee H. Oswald atuara, isoladamente, assim, como Jack Leon Ruby, quando o matou na estação de polícia [3].

Houve um "covert-up", acobertamento, usual nos Estados Unidos. Embora a viúva, Jacqueline Kennedy, estivesse convencida de que seu marido fora morto não pelos comunistas, como J. Edgar Hoover e outros queriam crer, mas como resultado de uma conspiração doméstica, a ninguém, nem à família, interessava revelar as ligações de Kennedy com a Máfia, os complôs para assassinar Fidel Castro, comprometer a CIA. O presidente Lyndon B. Johnson temia que um inquérito mais profundo indicasse algum envolvimento da União Soviética e de Cuba na morte de Kennedy e tornasse inevitável uma guerra nuclear [4], ou, quiçá, por algum motivo pessoal.

No entanto, após exaustiva investigação, o Select Committee on Assassinations of the U.S. House of Representatives (HSCA), estabelecido, em 1976, constatou que foram dois os atiradores que dispararam contra o presidente Kennedy, que o terceiro tiro partiu de Lee Oswald e que, com bases nas evidências disponíveis, se podia assentar "that President John F. Kennedy was probably assassinated as a result of a conspiracy" [5].

O professor G. Robert Blakey, chefe do Conselho e diretor da equipe da House Select Committee on Assassinations, e Richard N. Billings, diretor editorial da House of Commmitte e antigo diretor da revista Life, assinalaram que Lee Oswald tinha estabelecido significativas conexões com ativistas anti-Castro e o crime organizado, e afirmaram que “we concluded from our investigation that organized crime had a hand in the assassination of Presidente Kennedy” [6].

De fato, todas as evidências apontaram para a existência de um complô, com a participação da CIA e da Máfia e de cubanos asilados [7]. Segundo o gangster Sam Giancana, Lee Harvey Oswald trabalhava para a CIA, participara de uma série de sessões de intensivo treinamento em inteligência, quando servira como marine, servira como espião na União Soviética, onde se casara, em Minsk, com Marina Prusakova, e tinha ligações com a Máfia desde a juventude [8]. Quando voltara aos Estados Unidos, em 1962, proclamava-se abertamente a favor de Fidel Castro e não só distribuíra material de propaganda do Fair Play for Cuba Committee [9] como tentara obter, no México, visto para Cuba, que lhe foi várias vezes negado [10].

Ele estava preparado para representar o papel do terrorista no complô contra Kennedy [11] . Tinha características similares às de  Marinus van der Lubbe, o autor do incêndio do Reichstag, na Alemanha (1933) [12] e que fora fichado como comunista, de acordo com o plano dos dois próceres do nazismo, Joseph Goebbels e Hermann Goering, a fim de possibilitar que Adolf Hitler obtivesse poderes extraordinários e implantasse a ditadura, legalmente, sem revogar uma linha sequer da Constituição de Weimar.

A CIA, logo após o assassinato, havia elaborado um Memorandum com as informações de que Lee H. Oswald estivera no México, entre 23 de setembro 2 de outubro, e visitara o vice-cônsul Kostikov [13], conhecido agente do KGB, especialista em sabotagem, e previu que ele seria assassinado, a fim de que nada pudesse revelar às autoridades americanas, se estivesse realmente envolvido em uma conspiração estrangeira. E cumpriu-se a previsão.

Dois dias depois, 24 de novembro, Lee H. Oswald foi executado por Jack Ruby, proprietário de cassino em Dallas e, vinculado ao crime organizado de Chicago [14]. Ele prestara serviços à Máfia, contrabandeando dinheiro de Cuba, nos anos 1950, quando o sargento Fulgencio Batista era o ditador. Sua eliminação, dentro da própria estação de polícia, sob o olhar impassível dos detetives, que o agarravam para impedir qualquer reação, teve como objetivo impedir que ele revelasse a extensão do complô. Tornava-se necessário apagá-lo [15].

Sam Giancana revelou ao irmão Chuck, que escreveu suas memórias, haver escolhido Jack Ruby para executar essa tarefa, porquanto ele havia trabalhado com a CIA, na invasão da Baía dos Porcos, e sempre tivera entendimento com os policiais de Dallas [16].  Cada homem envolvido no complô para matar Kennedy recebeu US$ 50.000,00, revelou Sam Giancana, confessando que ele, pessoalmente, ganhara milhões em petróleo, “from the wealth right-wing Texas oilmen” [17].

O complô, no entanto, não se restringiu aos membros da Máfia, Jimmy Hoffa, Sam Giancana, Johnny Rosselli, articulados com Frank Fiorini Sturgis, que também trabalhara com a CIA na invasão da Baía dos Porcos e recrutara Marita Lorenz para envenenar Fidel Castro [18].  Giancana afirmou que o complô envolveu “right up to the top of the CIA” e "meia dúzia de texanos de direita fanáticos, o vice-presidente Lyndon Johnson" e Richard Nixon, que havia encorajado os preparativos para a invasão da Baía dos Porcos, sob o governo do presidente Dwight Eisenhower [19].

O general Alexander Haig, secretário de Estado no governo de Ronald Reagan, declarou que o presidente Lyndon Johnson, de quem fora assessor, acreditou até morrer que o “obsessivo desejo” de matar Fidel Castro [20], alimentado por Bob Kennedy, estava por trás do assassinato e  ressaltou que a existência do grupo secreto, que o tramava, não fora revelado à Comissão Warren nem à opinião pública, e o operação de cobertura visou a proteger a reputação do Presidente [21].

O jornalista Seymour M. Hersh escreveu que o custo de uma completa investigação seria muito alto, porquanto revelaria a verdade a respeito do presidente Kennedy e de sua família [22] , os vínculos com Sam Giancana e Johnny Rossely, que se consideravam traídos por causa do processo contra eles movido por Bob Kennedy, como procurador-geral. Robert Kennedy talvez por isso se evadiu de prestar depoimento perante a Warren Comission [23]. O custo seria, realmente, muito alto.

A investigação revelaria que Sam Giancana, que lhe fora apresentado por sua amante (de ambos) Judith Campbell Exner, ajudara-o durante a campanha presidencial nas eleições primárias em West Virgínia e Chicago, juntamente com outros gangsters, tais como Joseph Frischetti e Meyer Lansky, e entendimento com a Máfia foi intermediado por Frank Sinatra e conduzido por seu pai, Joseph Kannedy.

Os que tramaram o assassinato do presidente Kennedy, provavelmente, tiveram o propósito de compelir os Estados Unidos a invadir Cuba, sonho acalentado pela Máfia, pelos Cuba Project plotters da CIA e do Pentágono [24], assim como pelos mobsters Sam Giancana, Johnny Rosseli, Joseph Frischetti, Meyer Lansky, Santo Trafficante e outros capi da Máfia, ansiosos para reabir os cassinos em Havana.

Estavam todos inconformados com o esforço de Kennedy para conseguir uma acomodação com Fidel Castro. Frustraram-se, porém. Lyndon B. Johnson (1963-1968), ao assumir a presidência, não deu maior atenção ao conflito com Cuba, como o fizeram os irmãos Kennedy, que se deixaram dominar pelo compulsivo anseio de revanche, após a humilhante derrota da Brigada 2506 em Playa Girón. Em 7 de abril de 1964, ordenou à CIA que cessasse as operações de sabotagem e não mais participasse dos raids contra Cuba, assim como cancelou um plano elaborado durante a administração de Kennedy para uma segunda invasão, que deveria ocorrer entre março e  junho de 1964 [25].

Entre 1975 e 1976, quando Senate Select Committee to Study Governmental Operations with Respect to Intelligence Activities (Church Committee), tratou de esquadrinhar as ações da CIA, FBI etc., seu presidente, o notável senador Frank Church, do Partido Democrata, ampliou seu raio  de investigação até o assassinato de Kennedy e intimou vários gangsters a prestar depoimento. Nenhum, porém, pôde comparecer perante o Church Committee. Foram misteriosamente assassinados, a fim de que não rompessem ou traíssem o código de silêncio, a omertà.

San Giancana, que mantinha relações pessoais com Kennedy e colaborava com a CIA para matar Fidel Castro, morreu com um tiro na nuca e seis em torno da boca, em 19 de junho de 1975 [26]. “Undoubtedly, Giancana was murdered to prevent him from talking about CIA-Castro plot or any other Mafia secret”  - afirmou o advogado do gangster (mob lawyer) Frank Ragano em suas memórias [27]. Cerca de dez dias depois, em 30 de julho de 1975, o líder sindical James (Jimmy) R. Hoffa, vice-presidente da Teamsters Union, que fizera doações para a campanha de Nixon, desapareceu, misteriosamente, quando viajava para encontrar-se, em Detroit, com o gangster Anthony Giacalone [28]. Ele também estava convocado pelo Church Committee, dado ter ligação com os gangsters Santo Trafficante, proprietário de extensa rede de jogo em Cuba, fechada por Fidel Castro, e Carlos Marcello, cujo nome aparecera vinculado ao assassinato de Kennedy. Sam Giancana, conforme seu irmão Chuck, revelou que articulara, antes dele próprio ser assassinado, a execução de Hoffa, por solicitação da CIA, tarefa empreendida por cinco soldados: dois de Chicago, um de Boston, um de Detroit e um de Cincinnati [29].

Muitos anos depois, em 14 de janeiro de 1992, o New York Post afirmou que Hoffa, Santo Trafficante e Carlos Marcello participaram do complô para matar Kennedy. O advogado Frank Ragano, em suas memórias, confirmou que, em começo de 1963, Hoffa lhe incumbira de levar a Trafficante e Marcello mensagem relativa a um plano para assassinar Kennedy: “The times has come for your friend and Carlos to get rid of him, kill that son-of-a-bitch John Kennedy” – disse-lhe Hoffa [30].

Quando o encontro se realizou no Royal Orleans Hotel, Ragano falou: “Vocês não acreditarão no que Hoffa quis que eu lhes dissesse. Jimmy quer que vocês matem o Presidente”. Ambos - Trafficante e Marcello – deram-lhe a impressão de que pretendiam efetivamente executar a ordem.

Em sua autobiografia, publicada em 1994, Ragano contou ainda que, em julho de 1963, Hoffa lhe mandara outra vez a New Orleans, com outra mensagem sobre o assassinato de Kennedy. Conforme contou, Carlos Marcello, Santo Trafficante e Jimmy Hoffa tiveram de fato importante participação na morte de Kennedy [31].

Santo Trafficante odiava Kennedy e dizia haver ele traído os cubanos anti-Castro, não dando apoio aéreo à invasão da Bahia dos Porcos, em 1961 [32]. Hoffa, por outros motivos, destestava também os Kennedy [33]. E todos esperavam que Lyndon Johnson, ao assumir a presidência, demitisse Bob Kennedy da procuradoria-geral [34] e cessasse a investigação por ele promovida contra o crime organizado.

Os Kennedy haviam violado o compromisso assumido pelo pai, Joseph Kennedy, quando buscou seu apoio financeiro e político para a campanha do filho, John, em 1960 [35]. Com efeito, alguns poderosos chefões da Máfia e Frank Sinatra, a eles vinculado, apoiaram financeiramente a campanha de Kennedy, o que foi constatado por um agente do FBI, em New Orleans, em março de 1960 [36]. Sam Giancana e os mobsters do nordeste dos Estados Unidos, sobretudo de Chicago, julgavam que haviam colocado John Kennedy na Casa Branca e tinham direito a um "quid pro quo" [37]. Todos, os cubanos anti-Castro e os mobsters, julgavam-se também traídos [38].  Seu assassinato configurou, portanto, uma vendetta.

NOTAS 

[1] Schlesinger Jr., 1965, pp. 998-1000. U.S. Senate - Alleged Assassination Plots Involving Foreign Leaders, pp. 173 e 176.

[2] Memorandum by William Attwood, Washington, September 18, 1963;  Memorandum for the Record. Subject: Minutes of the Special Meeting of the Special Group, 5 November 1963. Washington, November 5, 1963; Memorandum from William Attwood to Gordon Chase of the National Security Council Staff, New York, November 8, 1963. Ibid. pp. 868 a 870, 878 e 879 .

[3] Report of the President's Commission on the Assassination of President Kennedy - United States Government Printing Office - Washington, D.C. U.S. Government Printing Office, Washington : 1964

[4] Trento, 2001, pp. 265-270.

[5] Report of the Select Committee on Assassinations of the U.S. House of Representatives - Union Calendar No. 962 - 95th Congress, 2d Session - House Report No. 95-1828, Part 2 - Findings and Recommendations March 29, 1979.--Committed to the Committee of the Whole House on the State of the Union and ordered to be printed - U.S. Government Printing Office, Washington: 1979.
http://www.archives.gov/research/jfk/select-committee-report/

[6] Blakey & Billings, 1981, pp.  177-180.

[7] Ibid.,  pp. 173, 174 e 176. Schlesinger Jr., 1965, p. 1029.

[8] Giancana & Giancana, 1992, pp. 330-333.

[9] Movimento em favor de Cuba existente no Estados Unidos, sustentado em grande parte pelos militantes do Socialist Works Party (trotskista) e também pelo Partido Comunista, com apoio financeiro, ao que tudo indicava, do Governo de Havana.

[10] Hinckle & Turner, 1992, p. 241. .Dobrynin, 1995, pp. 112.

[11] Sam Giancana explicou que Oswald nunca foi simpatizante de Castro, porém “CIA all the way”, um fuzileiros naval treinado para falar russo e infiltrar-se na União Soviética. Hinckle & Turner, 1992, pp. 271 e 272.

[12] Em 1933, agentes da Gestapo induziram Marinus van der Lubbe, doente mental e fichado como comunista a empreender o incêndio do Reichstag (Parlamento alemão), conforme a idéia de dois próceres do nazismo, Joseph Goebbels e Hermann Goering. Esse que permitiu a Adolf Hitler obter poderes extraordinários e implantar a ditadura, legalmente, sem revogar uma linha sequer da Constituição de Weimar.

[13] U.S. Senate - The Investigation of the Assassination of President John F. Kennedy: Performance of the Intelligence Agencies, Book V, Final Report of the Select Committee to Study Governmental Operations with Respect to Intelligence Activities, April 23, 1976, pp. 91 e 92.

[14] Hersh., 1997, pp. 450 e 451.  Hinckle & Turner, 1992, p. 246.

[15] Vide Bakley & Billings, 1981, p. 279.

[16] Giancana & Giancana, 1992, pp. 330-333.

[17] Id., ibid., p. p. 332.

[18] Frank Fiorini Sturgis foi um dos cinco que arrombaram o Comitê Nacional do Partido Democrata, no complexo hoteleiro de Watergate, em 1962.

[19] Giancana & Giancana, 1991, p. 333.

[20] Johnson, após o assassinato de Kennedy, comentou: “Kennedy tried to get Castro, but Castro got Kennedy first”. Haig, 1992, 114.

[21] Id., ibid., p. 115.

[22] Hersh, 1997 , p. 456.

[23] A Warren Commission on the Assassination of President Kennedy foi criada por uma order executive do presidente Johnson. Seus trabalhos foram presididos Earl Warren, chefe da Justiça da Suprema Corte. Sua conclusão de que o assassinato de Kennedy resultou de um ato individual de Lee H. Oswald não convenceu e as controvérsias sempre existiram.

[24] Hinckle & Turner, 1992, p. 239.

[25] Essa decisão Johnson tomou, não porque respeitasse a soberania de Cuba, e sim porque Robert Kennedy, a quem odiava, era o mentor do projeto.

[26] Giancana & Giancana, 1992, pp. 353-354.

[27] Ragano & Raab,  1994, p. 325.

[28] Em 1983, Hoffa foi declarado legalmente morto.

[29]Giancana & Giancana, 1992, p. 354.

[30] Ragano & Raab, 1994, pp. 144-145

[31] Id., ibid., pp. 348-349.

[32] Id., ibid., p. 154.

[33] Dallek, 2003, p. 299.

[34] Ragano & Raab, 1994, p. 359.

[35] Id., ibid., p. 358.

[36] Dallek, 2003, p. 298.

[37] Ragano & Raab, 1994, pp. 357-359.

[38] Id., ibid., p. 357.

Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira
No Carta Maior
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“Nós somos um país em que a desigualdade é nossa marca”


Para o economista e presidente da Fundação Perseu Abramo, Márcio Pochmann, o Brasil está mais preparado para lidar com a desigualdade, mas certamente, está longe de superá-la

Em 1980, o Brasil posicionou-se entre as oito principais economias capitalistas do mundo e uma das mais desiguais do planeta. Desde então, o país conseguiu subir uma posição no ranking da economia e acumular um crescimento de 36,4% no índice de Desenvolvimento Humano (IDH), avançando em pontos importantes como o aumento da expectativa de vida, renda e tempo de estudo.

No entanto, ainda está longe de ocupar um lugar de destaque no ranking da desigualdade social compatível com sua representação na economia mundial. Muito caminho está pela frente para tentar lidar da melhor maneira possível com a exclusão social no Brasil, uma vez que não se pode superá-la completamente, já que é parte integrante do desenvolvimento capitalista. É o que aponta o economista e presidente da Fundação Perseu Abramo, Márcio Pochmann.

Nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, ele fala sobre os dados do recém-lançado Atlas da Exclusão Social no Brasil: Dez anos depois, que organizou junto ao economista Alexandre Guerra e o geógrafo Ronnie Aldrin Silva. A publicação traz índices de exclusão social e seus derivados para todos os municípios brasileiros com base em dados publicados em 2010, atualizando a última edição publicada em 2002.

Pochmann afirma que, em comparação ao ano de 2000, mudanças significativas são observadas, principalmente em relação à educação, ao emprego e renda. Mas ainda há problemas visíveis, como é o caso da violência “que se manifesta cada vez mais como uma problemática das metrópoles urbanas”.

Sobre as mudanças entre o campo e a cidade, ainda que diferenças marcantes existam, o economista aponta para uma diminuição da pobreza na área rural e que não há mais uma radicalidade na separação com o urbano, com forte aumento do setor de serviços na região rural.

“Quando a gente olha, por exemplo, o tema da educação, nós tivemos uma difusão de novas universidades públicas e federais, institutos de técnicos federais que terminaram se interiorizando, ganhando uma presença em cidades pequenas. Então isso, de certa maneira, é um diferenciador em relação ao que nós tínhamos”, diz.

Nesta entrevista, o economista fala também sobre o significado da reeleição de Dilma Rousseff no enfrentamento à desigualdade social e sobre a influência da crise mundial no país.

Brasil de Fato – Quais são os principais pontos que vocês observaram na comparação com o atlas produzido em 2002?

Márcio Pochmann – A metodologia permitiu olhar o Brasil novamente de uma maneira bastante ampliada a partir desta perspectiva da exclusão social. Percebe-se que o país ainda tem como marca a exclusão do ponto de vista territorial. Ela é um conjunto de indicadores que olha a partir do município. Mas não há dúvida que, em comparação do ano de 2000, nós tivemos uma redução importante, especialmente no que diz respeito às questões referentes à educação, à renda, ao emprego, até mesmo em relação ao item da desigualdade. Mas há certamente ainda problemas como é o caso da violência, que se manifesta cada vez mais como uma problemática das metrópoles urbanas ainda que ela tenha uma faceta no passado que é a violência no meio rural.

O que mudou em relação às metrópoles e as regiões do campo?

O que a gente percebe é que o Brasil vem difundido certa modernização no interior do país. Nós tínhamos um território demarcado pela forte diferença entre o urbano e o rural. O que nós estamos percebendo é que de certa forma, algo que já se reconhecia nos centros urbanos, que era a presença dos serviços (já que estamos falando de uma sociedade que vive a transição para serviços sociais, educação, saúde, serviço de mobilidade, a presença de tecnologia de informação e comunicação). O que se percebe nesta primeira década é que de certa maneira estes serviços passaram a cada vez estar mais presentes no interior do Brasil, seja em cidades que tenha presença urbana, mas também no meio rural. De forma que já não há mais uma radicalidade na separação entre o urbano e o rural, ainda que as diferenças sejam inegáveis nesse sentido. Mas a presença dos serviços tem sido um elemento importante que abre certamente agora cada vez mais uma perspectiva de uma política de serviços que o Brasil precisa constituir. Quando a gente olha, por exemplo, o tema da educação, nós tivemos um difusão de novas universidades públicas e federais, institutos de técnicos federais que terminaram se interiorizando, ganhando uma presença em cidades pequenas. Então isso de certa maneira é um diferenciador em relação ao que nós tínhamos até anteriormente que era uma concentração de políticas públicas mais nas regiões metropolitanas nas grandes cidades brasileiras e há agora este movimento mais de interiorização, embora estejamos muito longe de condições equivalentes de vida do campo e da cidade.

Então a gente pode dizer que a desigualdade no campo tem diminuído?

Na verdade, a pobreza no campo caiu, mas a desigualdade ainda é expressa quando nós analisamos o termo da propriedade que se mantém fortemente contaminada pela presença de latifúndios, que em alguma medida são cada vez mais latifúndios produtivos. Não temos mais a velha questão de forma tão presente como tinha no passado, que era o latifúndio improdutivo. Hoje, as escalas de produção no campo, especialmente no quesito do agronegócio, é de certa maneira em escalas de produção como a alta produtividade. Mas há, por outro lado, também uma contradição que é a presença crescente de certa dependência do Brasil do exterior em relação ao uso de agrotóxicos que nos faz certamente dependentes de tecnologia externa e, ao mesmo tempo, do ponto de vista da qualidade de vida e o efeito que tem os agrotóxicos na vida humana.

Trabalhadores vasculham o Lixão da Vila Estrutural (DF). Marcello Casal Jr./Abr
Qual a análise que se faz do ponto de vista das políticas públicas no combate da desigualdade?

As políticas públicas da primeira década deste século apontam para uma reconfiguração geográfica do país. Nós temos, vamos dizer assim, desde 1870 até o ano 2000 (para dar uma marca temporal, embora nunca seja tão preciso assim), mas foi com a ascensão da economia cafeeira no final do século 19, e por todo o período do ciclo da industrialização a partir de 1930, que nós constituímos uma parte do Brasil que foi vista sempre com a ideia do “Sul maravilha”, “São Paulo, a locomotiva do país”. A região Sudeste e a região Sul como sendo as regiões do protagonismo brasileiro porque foram aí que nós tivemos, no caso de São Paulo, a economia cafeicultora pegando o Rio de Janeiro que fez com o Brasil se inserisse na economia mundial no final do século 19, criassem as bases da expansão industrial e entre 1930 e 1980, na verdade uma concentração industrial no Sudeste com alguma participação da região Sul. O que nós estamos observando nessa primeira década do século 21 foi de certa maneira o protagonismo de regiões que eram vista como regiões atrasadas como é o caso da região Nordeste, Norte e Centro-Oeste, que são regiões que absorveram indústrias pela força do movimento de deslocamento de indústrias. Nós tivemos investimentos públicos que estão constituindo uma estrutura produtiva bem diferente do que eram originalmente essas regiões. E, simultaneamente, observamos que a região Sul e Sudeste perderam a base industrial, são regiões hoje cada vez mais apegadas ao agronegócio, ao setor financeiro, aos serviços. Então isso fez com que essas regiões não tivessem um crescimento tão exitoso como observado nas regiões identificadas anteriormente como regiões subdesenvolvidas, regiões mais pobres. O Norte, Nordeste e Centro-Oeste foram regiões que mais cresceram economicamente, mais emprego tiveram. Então estamos tendo aí um Brasil a ser melhor descoberto. Talvez, em alguma medida, o próprio resultado eleitoral nas eleições presidenciais deste ano, demonstraram esta divisão que temos do ponto de vista da perspectiva política e de futuro do país. Isto de certa maneira tem haver com a forma com que o Brasil vem se modificando em relação ao seu federalismo renovado.

Você acha que o aumento do número de empregos na área de serviços e essa paralisação do emprego na indústria têm relação com isso nas regiões ao Norte?

Eu acredito que o Brasil não apresenta sinais tão nítidos de desindustrialização, embora nós tenhamos um esvaziamento da participação da indústria no PIB nacional. São Paulo vem perdendo participação relativa no Brasil e isso certamente tem a ver com o que aconteceu com a indústria no estado – se quisermos, na região Sudeste – mas, simultaneamente, nós temos o crescimento da indústria tanto no nordeste quanto no centro-oeste. Então, a ideia da desindustrialização seria o esvaziamento completo da indústria. A gente tem regiões que perdem indústrias, mas temos regiões que ganham indústrias. Tem algo diferente que está se constituindo no Brasil pouco conhecido, pouco estudado, diga-se de passagem. Este protagonismo de algumas regiões em base na expansão do emprego, da indústria, dos investimentos, da expansão dos serviços tem gerado novas elites regionais; a descentralização da educação através dos institutos técnicos e das universidades. Isso fez com que, na verdade, se consolidassem novas formas de pensar e olhar a realidade que muitas vezes não estão sendo bem representadas pelas instituições de representação de direitos: partidos, sindicados, instituições e associações de moradores. Então de certa maneira o que a gente percebe é que as regiões que anteriormente lideravam o Brasil já não tem mais este protagonismo e há uma certa tensão, polarização em relação aos novos rumos do Brasil. Se a gente olhar o próprio resultado eleitoral nós tivemos sete estados dos 26 mais o Distrito Federal, onde houve uma polarização muito grande em relação ao PT e o PSDB. No entanto, na maior parte dos estados, esta polarização não se apresenta desta maneira como ocorrida em alguns estados da região Sudeste e Sul.

No Atlas, vocês colocaram São Paulo como um dos estados menos violentos do país. Mas, recentemente, o Fórum de Segurança Pública divulgou relatório que coloca São Paulo como o segundo estado em que os policias mais matam pessoas aqui no Brasil.

Na verdade, nós optamos por um indicador síntese da violência. Ele não necessariamente é um indicador que expressa a problemática da violência em geral. Como São Paulo é um estado muito populoso – é a maior população dos estados brasileiros – o que se trabalha sempre é com um número relativo. Então são mortes por mil habitantes. Muitas vezes, nós temos estados com menos mortes, no entanto, a população é menor. Isso que permitiu perceber que não se trata de São Paulo ser o estado com a maior presença em relação desta violência extrema, que seria a perda de vida humana. Obviamente que podemos olhar a violência por outros indicadores, como é o caso da relação da polícia com o enfrentamento do crime. Você tem de fato aqui em São Paulo, uma polícia mais violenta do que em outros estados do país. Então como o índice de exclusão é um índice sintético ele tem este tipo de dificuldade de não permitir uma visão tão abrangente. Mas ela é mais ampla na medida em que envolve diferentes situações no ponto de vista da própria violência, do emprego, da renda, da desigualdade, da presença juvenil e assim por diante.

O que significa a reeleição da Dilma no combate da desigualdade social?

Eu acredito que dois tipos de expressões nós podemos identificar no resultado eleitoral. Primeiro, uma expressão em termos internacionais. A vitória da presidenta Dilma de certa maneira rea reafirma a possibilidade de construção de projeto de desenvolvimento alternativo, a perspectiva neoliberal que segue ainda colocado nos países ricos, mesmo os Estados Unidos e a União Europeia. Então a vitória da presidenta constitui uma marca que é possível enfrentar uma crise do capitalismo a partir de outra perspectiva. Isso é um elemento que anima as experiências de governos pós-neoliberais. Não apenas o ambiente latino-americano, mas também em outro contexto internacional. Ao mesmo tempo, a vitória da presidenta no âmbito internacional é uma questão-chave na construção de uma alternativa, de um novo sistema de Bretton Woods do ponto de vistas das finanças internacionais, no mês de pagamento, do comércio, porque inegavelmente o Brasil representa um elemento articulador dentro dos Brics. Então a vitória da presidenta de uma certa maneira dá consistência a essa possibilidade crescente de organizar o mundo sob bases diferentes daquelas que representam a dominação dos Estados Unidos, que se constituiu a partir da Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, em relação à expressão interna, a vitória da presidenta Dilma é uma marca inegável de que a economia deve estar a serviço da elevação do padrão de vida da população.

Nós tínhamos certamente dois projetos distintos. Um projeto que entendia a economia como um fim em si mesmo, ou seja, o país não pode ter inflação e se devem tomar todas as medidas independentes de suas consequências para que a inflação se encontre num patamar “aceitável”. Diferentemente do projeto da presidenta Dilma que é um projeto que se entende que a economia deve estar a serviço da elevação do padrão de vida, portanto a economia é um meio e não um fim em si mesmo. Infelizmente, na economia, a diferença entre o “remédio” e o “veneno” é somente a dose. Então se combate a inflação considerando que não é possível combater isso destruindo empregos, destruindo rendas. Neste sentido, eu entendo que o segundo mandato da presidenta Dilma tem um caminho a percorrer que é justamente enfrentar as desigualdades que foram colocadas historicamente, que implica inclusive enfrentar privilégios porque parte importante das nossas desigualdades tem haver com os privilégios que foram constituídos de forma circular no país. Entendo que essa vitória é uma vitória com expressão com termos nacionais e termos internacionais.

Você falou da questão internacional que a Dilma tem a enfrentar. De que modo a crise mundial influencia o Brasil e que modo e como pode-se enfrentar esta situação?

A crise internacional especialmente nos países ricos, que é uma crise de dimensão global, embora quem esteja em crise sejam países ricos, ela apresenta na verdade duas possibilidades. Uma são os efeitos maléficos no ponto de vista das exportações, do ponto de vista da competição internacional e seus efeitos desfavoráveis, vamos dizer assim, nas possibilidades do Brasil crescer de uma forma mais autônoma. Mas, ao mesmo tempo, tem um impacto positivo porque nesses períodos de crises de dimensão global é que o Brasil constrói alternativas de se reposicionar em termos mundiais. Nós já fizemos isso em outros períodos históricos, como foi no final do século 19, como foi a partir da década de 1930, quando o capitalismo apresentou crises de dimensão global. E o Brasil aproveitou esta crise para também se reposicionar no mundo. No final do século 19, o Brasil, por exemplo, construiu uma maioria política que se demonstro antiescravista, foi o momento que o Brasil abandono o trabalho escravo, construiu a própria economia cafeicultora. Na década de 1930, diante a crise de 1929, também se reposicionou no mundo, criou um projeto urbano industrial, coisa que se desconhecia até então. E acredito que nesse período de crise que estamos vivendo, especialmente de 2008 pra cá, o Brasil tomou medidas que dificilmente teria tomado sem que houvesse o constrangimento da crise que foram medidas de, por exemplo, fortalecimento dos bancos públicos, fortalecimento do investimento público, uma tentativa de reenquadramento do sistema financeiro. Parece que a crise internacional tem um efeito que nos constrange no ponto de vista na possibilidade de crescer mais rapidamente, mas ao mesmo tempo nos dá força para que através de uma maioria política sejamos capazes de fazer nesse período agora as reformas que se almeje, que há muito tempo não fizemos, como é o caso da reforma política, do Estado, tributária; que são questões que estão colocadas há muito tempo e nós demonstramos incapacidade de construir uma maioria para viabilizar estas reformas.

Estamos no mês da consciência negra. O Atlas, além de análise por municípios, faz alguma avaliação racial?

Nós somos um país em que a desigualdade é nossa marca, e ela pode ser vista por vários prismas: racial, étnico, de gênero, etário. No entanto, o Atlas da Exclusão Social terminou se concentrando em elementos que se você abrir, você vai perceber que tem a suas expressões de ponto de vista etário, de gênero e de raças. De fato esta é uma grande lacuna a se decidir para o Brasil dos próximos anos, que deu um passo importante na construção de políticas de cotas, por exemplo, mas que se demonstram insuficientes para avançar além da construção de uma elite negra. Precisamos, obviamente, ter políticas de caráter universal, mas, inegavelmente isso começa com as políticas de cotas. É necessário avançar para além disso buscando a universalidade do acesso ao ensino médio e ao ensino superior, por exemplo, que são questões importantíssimas em termos de barreiras aos avanços em termos de igualdade racial.

O Brasil está pronto para superar, vai conseguir superar a desigualdade social?

Não. Superar eu não acredito porque enquanto existir o capitalismo, o capitalismo é uma máquina de desigualdades, havendo em economia de mercado, havendo um modo de produção capitalista, a desigualdade ela é um elemento intrínseco, que exige justamente a presença constante de parte do Estado de políticas que, senão esvazie esta geração de desigualdade, amenizem a desigualdade gerada pela modo de produção capitalista. Eu diria que o Brasil está mais preparado para lidar com a desigualdade, mas certamente nós estamos longe de superar. Em 1980, o Brasil era a 8º economia do mundo e era 3º país mais desigual do mundo. Hoje nós somos a 7º economia do mundo e somos o 17º país mais desigual do mundo. Melhoramos a nossa posição relativa, mas ainda estamos entre os 20 países, de 200 existentes, mais desigual. Então é uma tarefa gigantesca pela frente e seu sucesso vai depender também da capacidade de luta do povo brasileiro.

Simone Freire
No Brasil de Fato
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O TSE derrubou as suspeitas do PSDB contra as urnas, mas as de Gilmar Mendes continuarão

Ele
Por unanimidade, o TSE isentou as urnas eletrônicas das suspeitas apresentadas pelo PSDB três dias após a derrota de Aécio Neves.

De acordo com uma petição assinada pelo deputado federal Carlos Sampaio, coordenador da campanha aecista, cidadãos brasileiros “foram às redes sociais” demonstrar o que definiu como “a descrença quanto à confiabilidade da apuração dos votos e a infalibilidade da urna eletrônica”.

Sampaio, obviamente, não levantava dúvidas sobre o primeiro turno, em que ele próprio e Alckmin saíram vencedores. Deixava claro que sua atitude nada tinha a ver “com pedido de recontagem ou questionamento do resultado”.

Ora, então para que o trabalho? A situação era tão estranha que os advogados que atuaram na candidatura de Aécio tiveram de esclarecer que não foram consultados.

O tapetão do PSDB proporcionou aos juízes uma perda de tempo temperada com momentos de relativo humor. A íntegra do acórdão registra que Henrique Neves lembrou que, na internet, em tese, Elvis Presley está vivo. A ministra Luciana Lóssio acrescentou Michael Jackson à lista.

Mas coube a Gilmar Mendes um voto verborrágico que conseguiu atribuir a Lula e a Dilma a responsabilidade pela atitude dos tucanos.

Segundo ele, “a impressão que chega à população, de que só se abriu o processo quando determinado candidato estava à frente, gera esse tipo de suspeita. Vamos agora conter esse imaginário popular?”

E foi além: “Eu não cometo nenhuma imprecisão ao lembrar a declaração da candidata, agora eleita, presidente Dilma. Percebam que as palavras têm força: ‘A gente faz o diabo durante a eleição’. Nós podemos entender essa expressão de diversas formas, mas ‘fazer o diabo’, essa expressão tem uma carga figurativa muito grande. Será que isso significa ‘a gente é capaz até de fraudar a eleição’?”

Pode significar tudo, é claro, ou nada. O fato é que isso foi dito em João Pessoa, em março, numa reunião de Dilma com aliados. A declaração completa é a seguinte: “Podemos fazer o diabo quando é hora de eleição, mas quando se está no exercício do mandato, temos de nos respeitar, pois fomos eleitos pelo voto direto”.

Gilmar cita Lula, que falou, no dia 26 de outubro, que “eles não sabem do que somos capazes para garantir sua reeleição”. Faz um alerta: “Vejam o impacto disso na cabeça dos eleitores. Será que as pessoas não podem imaginar que quem diz isso é capaz de fraudar uma eleição?”, indaga. Sim, podem. Como podem achar que é uma bravata. Ou não achar nada.

Sentenças de políticos em campanha são boas, ruins, equivocadas, estapafúrdias, sensatas. A indignação seletiva de Gilmar, pinçando duas delas para justificar as suspeitas com o pleito, servem não para “pacificar os espíritos”, como ele mesmo afirmou, mas para acirrar os ânimos.

“As pessoas devem ter responsabilidade – e pessoas que ocupam ou ocuparam cargos públicos devem se comportar com alguma dignidade.”

Gilmar Mendes precisa ler Gilmar Mendes.

Kiko Nogueira
No DCM
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O presente de Aécio

Ela se apropriou da política econômica defendida por Aécio, mas Aécio não se deixa abater e já demonstra que pode fazer o mesmo: adere à redução da desigualdade social por meio da distribuição de renda, defendida por Dilma na campanha.

A reviravolta de Dilma foi mais surpreendente, mas a de Aécio é mais original no método. Veio pela TV, na amenidade noturna do fim de semana, e naquele estilo de elegância chamado "curto e grosso".

Nas próprias palavras do ainda pretendente à Presidência da República: "Na verdade, eu não perdi a eleição para um partido político, eu perdi a eleição para uma organização criminosa que se instalou no seio de algumas empresas brasileiras patrocinada por esse grupo político que aí está".

De fato, Aécio não perdeu para um partido político. Perdeu para os eleitores, petistas, peemedebistas e nada disso, que lhe negaram o voto e o deram a Dilma. Qualquer deles agora habilitado, desde que capaz de alguma prova de sua adesão a Dilma, a mover uma ação criminal contra Aécio Neves por difamação, calúnia e injúria, e cobrar-lhe uma indenização por danos morais.

Uma foto em manifestação, uma doação ou um serviço para a campanha, um cartaz ou um retrato na janela, uma propaganda no carro, em qualquer lugar do país podem se juntar às demais provas para dar uma resposta à acusação de Aécio Neves tão gratuitamente agressiva e tão agressivamente insultuosa.

É difícil admitir que Aécio Neves esteja consciente do papel que está exercendo. A situação social do Brasil não é de permitir que acirramentos, incitações e disseminação de ódios levem apenas a efeitos inócuos, de mera propaganda política. Para percebê-lo, não é preciso mais do que notar a violência dos protestos com incêndios ou a quantidade de armas apreendidas.

Se Aécio acha, como diz, que está sendo "porta-voz de um sentimento de indignação", pior ainda: fica evidente que não sabe mesmo o que está fazendo, e aonde isso o leva.

Jango

O mistério vai persistir, porque as três linhas de perícia foram incapazes de produzir a resposta definitiva sobre a causa da morte de João Goulart. A identificação apenas de drogas para cardíacos não nega, como reconhecem as perícias, possíveis vestígios de veneno extintos pelo tempo. Mas não se justifica utilizar essa ressalva, que segue o critério científico das possibilidades hipotéticas, para questionar a validade com que, desde a exumação técnica do ex-presidente, todo o trabalho foi conduzido pela Comissão da Verdade e demais entidades envolvidas.

A família Goulart tem todo o direito de manter suas suspeitas e a procura de dar-lhes resposta final. Mas a exumação antes do que seriam outras investigações, por exemplo na Argentina, não influiu no exame pericial e não o reduz em nada.

Vai?

O governo tenta logo mais, pela quarta vez no Congresso, a alteração nas exigências legais em que suas contas deste ano não se enquadram. É um assunto conduzido com inabilidade em proporções raras. A oposição festeja, mas o governo padece é nas mãos de muitos dos seus aliados, inclusive petistas. Ainda que afinal consiga livrar-se do problema, fica um prenúncio para votações de arrochos e outras maravilhas que esquentam os tamborins para o próximo ano.

Janio de Freitas
No fAlha
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Sérgio Porto # 62


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Essa é do Barão... 120


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Humberto Costa responde a Aécio Neves


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Aécio ainda não entendeu que perdeu perdendo

E foram felizes para sempre
Há uma coisa estranha em Aécio: passado mais de um mês das eleições, ele está com um discurso de quem ganhou as eleições.

Isso ficou claro na entrevista que ele concedeu a Roberto Risadinha d’Ávila, o homem-Caras do jornalismo brasileiro: sorrisos antes, durante e depois do programa.

Se não se imaginasse vencedor, Aécio não diria que encarnou o “sentimento de mudança” da sociedade brasileira. Porque esta é uma coisa que só quem vence pode dizer, e com moderação — ou passará por arrogante.

Mas Aécio é Aécio: ele consegue ser arrogante na derrota.

Compare sua atitude com a do candidato uruguaio derrotado neste final de semana, Luis Lacalle Pou.

Pou telefonou elegantemente a Tabaré Vázques, o vitorioso, para lhe dar os parabéns pela vitória “legítima” assim que os números mostraram que o resultado estava definido.

Aécio não.

Ainda agora, ele não parece ter aceitado que foi batido. “Perdi ganhando”, disse ele a d’Ávila. Dilma, segundo ele, “ganhou perdendo”. Aécio estava citando não Churchill, não Lincoln, não Napoleão, não de Gaulle. Estava citando Marina, que também reivindicou uma vitória na derrota.

A primeira providência para Aécio retornar ao Planeta Terra é ele entender que perdeu perdendo. Mesmo com toda a ajuda que teve da mídia, mesmo com Marina e a viúva de Eduardo Campos a seu lado, mesmo com os vazamentos seletivos da Polícia Federal – mesmo assim ele conseguiu perder.

Foi uma façanha.

Quando puser os pés nos chãos, Aécio tem que explicar algumas coisas. O aeroporto de Cláudio, por exemplo. Para citar mais um caso, o dinheiro público que sua irmã Andrea colocou nas rádios da família quando ele era governador de Minas.

Demagogo, no sentido clássico, é quem faz coisas na política que acusa os inimigos de fazerem.

Aécio se queixa de ter sido “ofendido” na campanha, mas fez coisas como usar a expressão “mar de lama” para caracterizar o governo de sua adversária.

Repetiu inúmeras vezes que Dilma estava destruindo o Brasil, se valendo para isso de pseudoestatísticas feitas para enganar os leitores.

Luciana Genro também experimentou o veneno de Aécio durante os debates: foi chamada de “leviana” e acusada de comandar um partido que é “linha auxiliar” do PT.

E este é o homem que se declara vítima de “desconstrução”.

No programa de d’Ávila, o construtor Aécio chamou o PT de “organização criminosa” em duas ocasiões — sem que d’Ávila fizesse nada além de sorrir. D’Ávila reagiu como se Aécio estivesse falando sobre o tempo, ou sobre o resultado da última rodada.

Aécio falou em “aparelhamento”, mas como governador ele aparelhou até a mídia mineira com sua política de anunciar apenas em quem não o criticasse.

Aécio condenou o “crime de responsabilidade fiscal” cometido agora por Dilma ao tentar mudar algumas regras relativas ao orçamento.

Mas um momento: como noticiou um insuspeito colunista do G1, FHC fez também uma gambiarra com os mesmos propósitos em 2001.

“O Brasil acordou”, disse uma hora Aécio a d’Ávila.

Eis uma das raras frases em que ele acertou, embora ele tenha se atrasado uma enormidade para perceber o fenômeno.

Foi exatamente por terem acordado que os brasileiros não elegeram Aécio e tudo aquilo que ele representa.

O final ideal para o programa teria sido uma imagem de Aécio e d´Ávila com a seguinte inscrição: “E foram felizes para sempre.”

Paulo Nogueira
No DCM





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