1 de dez de 2014

PT processará Aécio Neves por acusação infundada, afirma Rui Falcão


Tucano, que enfrenta dificuldade para aceitar a derrota nas urnas, referiu-se ao PT como organização criminosa. Henrique Fontana, Humberto Costa e Lindbergh Farias criticaram afirmações no Senado



O presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, Rui Falcão, informou, nesta segunda-feira (1º), que a legenda interpelará na justiça o senador e candidato do PSDB derrotado nas eleições presidenciais, Aécio Neves (MG), por ter chamado o PT de “organização criminosa”.

O tucano fez a declaração em entrevista transmitida pelo canal “Globonews” no sábado (29). “Na verdade, eu não perdi a eleição para um partido político. Eu perdi a eleição para uma organização criminosa que se instalou no seio de algumas empresas brasileiras patrocinadas por esse grupo político que aí está”, acusou o tucano.

“Já estamos interpelando o senador mineiro derrotado. Em seguida, processo crime no Supremo Tribunal Federal. O PT não leva recado para casa”, afirmou Rui Falcão, pelo Twitter.

De acordo com o líder do governo na Câmara dos Deputados, Henrique Fontana (PT-RS), com as declarações, Aécio perde todos os limites da razoabilidade. Segundo ele, o candidato derrotado não tem o direito de partir para a agressão contra o PT.

“Alguém tem de dizer para o senador Aécio que ele não é juiz e que ele não tem o mínimo direito de agredir todos os eleitores da presidenta Dilma, do mesmo jeito que não tem o direito de agredir nosso partido”, defendeu.

Derrotado em exercício

Ainda segundo Fontana, é preciso que o tucano aceite a derrota sofrida nas eleições presidenciais. “O senador Aécio Neves precisa compreender de uma vez por todas que ele perdeu a eleição, porque a presidenta Dilma foi reeleita com 54,5 milhões de votos. Ele tem que parar de contestar o resultado da eleição.”, diz o deputado.

O líder do PT no Senado, Humberto Costa (PT-PE), também repudiou a afirmação de Aécio Neves. Em sessão no plenário da Casa, o senador afirmou que as declarações “desastradas” reduzem a estatura política do tucano.

Para Costa, “a derrota subiu à cabeça” de Aécio. “O candidato derrotado, que tem se sentido cada vez mais à vontade na sofrível interpretação do papel de vítima do processo eleitoral, quer agora reinventar a história ao negar que tenha perdido a disputa para a presidenta Dilma”, disse Costa.

“É uma infame ópera-bufa, essa protagonizada pelo que chamo de candidato derrotado em exercício”, completou o senador.

Também no plenário, o senador Lindbergh farias (PT-RS) disse que Aécio Neves age como “mal perdedor”. “É hora de enterrar esse debate eleitoral. Aécio tenta radicalizar o discurso porque está perdendo espaço dentro do PSDB”, disse Farias

Mariana Zoccoli
No Agência PT de Notícias
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Telecomunicações e o jornalismo que bate à porta

A Ericsson publica, a cada quatro meses, um relatório sobre o estado em que se encontram as telecomunicações móveis em todo o mundo. Acho-o muito legal, mas admito que a maioria das pessoas não concorde comigo, pois, da maior parte dos ângulos que se olha, é um tanto chato com aquele monte de números, tabelas e gráficos (coloridos, mas ainda assim…). Por isso, não pediria para ninguém ler se não achasse importante (pelo menos para quem se preocupa com coisas de somenos como o futuro do jornalismo).

O motivo de achar importante que você dê uma olhada no relatório da empresa sueca é a análise do bravo Alan D. Mutter. No artigo, o “newsosaur” avisa que, nos EUA, cerca de metade dos acessos às notícias já acontece por meio de aparelhos móveis (smartphones e tablets) e que o jornalismo feito para este tipo de dispositivo é, necessariamente, diferente do que é realizado hoje até mesmo para sites.

O primeiro argumento do pessoal mais antigo quando se depara com dados e análises desse tipo é que essa situação levará muito tempo para chegar aqui, no Bananão e, portanto, não há motivos para preocupações por enquanto. É aqui que entra o relatório da Ericsson. Ele mostra que a América Latina terá cerca de 600 milhões de smartphones em 2020, ou 65% do total – um crescimento de 30 pontos percentuais (hoje, os “telefones espertos” são 35% do total), sendo que Brasil e México responderão por 50% desses aparelhos. Em termos de assinaturas, a tecnologia dominante será a WCDMA/HSPA+ (em linguagem de gente e de marketing, 3G e 3G+), com 65% (40% hoje) ficando a LTE (4G) com 30%. Já a cobertura chegará a 90% para 3G e 65% para 4G.

Por que isso é importante? Porque a maior parte do tráfego será composta por imagens, principalmente vídeo, como mostra o relatório da Ericsson. E isso influencia o modo de fazer jornalismo, como diz Alan, porque os usuários de dispositivos móveis não têm disposição para ler longos textos escritos, exigindo gráficos, fixos e com movimento, e vídeos para facilitar o entendimento do contexto, de maneira, ao mesmo tempo, mais profunda e rápida. O “newsosaur” acredita que jornais e revistas estão reagindo lentamente a essa nova ecologia informacional – e se ele acha isso lá, imagine a opinião dele se conhecesse o panorama daqui.

Por enquanto, fica a lista de leitura:

1. Relatório da Ericsson (e um sumário da parte referente à América Latina dos coleguinhas das publicações especializadas da editora Glasberg).

2. Artigo de Alan D. Mutter.



O governo está a fim de acelerar o processo de avanço das telecomunicações no país, o que, como vimos semana passada, tem o potencial de mudar o tipo de jornalismo que é (mal) praticado aqui no Bananão. O veículo para atingir esse objetivo é o Plano Nacional de Banda Larga 2.0, mais conhecido, desde a campanha presidencial, como Banda Larga Para Todos.

O nome é muito marqueteiro, mesmo para os padrões do governo. Diferentemente da energia elétrica, a qual realmente pode atingir 99% da população (100% se forem usados meios alternativos como energia solar), a Banda Larga baseada em fibra ótica (FFTx no jargão, para saber mais clique aqui e é bom que você o faça) não vai chegar a todo mundo. Para um país enorme como o nosso, se chegar a 80% é para ser premiado pela ONU. O próprio ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, já disse (depois da campanha, et pour cause) que a meta para os quatro anos de governo dilmal é chegar a 45% dos domicílios no país.

O custo? Uma cacetada. Pelos cálculos do Minicom, a conta para atingir esses 45% na chamada “última milha” é de R$ 40 bilhões. Obviamente, o governo não terá bala para tanto. Daí, a presença da iniciativa privada é fundamental. A ideia do governo é licitar o projeto por meio de leilões reversos – neles, ganha quem botar mais dinheiro no negócio, necessitando, pois, menos do dinheiro público. Muito bom, claro, mas vai ter que combinar bem com os “russos”, pois as empresas de telecom são meio cabreiras com o Executivo federal, que, para elas, sempre acaba cedendo muito para os radiodifusores nos arranca-rabos entre as duas indústria (sem contar a mania de mudar regra com o jogo começado).

A grana é monstra, sem dúvida, mas poderia ser maior. É que a fibra ótica não precisa chegar até a residência (FTTH) ou prédio (FTTB) (eu disse que era você para ter clicado no link do terceiro parágrafo… ) Ela pode chegar apenas na Estação Rádio-Base (ERB, a antena que a gente vê por aí) de 4G e esta distribuiria o sinal com velocidade de banda larga (em teoria, a 4G pode chegar de 100 Mbps no dowstream – para efeito de comparação, a 3G chega a meros 384 kbps). Segundo o previsto pelas normas das concessões de 4G, as telecoms devem levar essa tecnologia a todos os municípios com mais de 30 mil habitantes até o fim do ano que vem (usando a faixa de 2,5GHz), o que viabilizaria boa parte do objetivo governamental

Para que esse sistema de alta velocidade tenha suporte, haverá necessidade de, paralelamente, ser construída as estruturas de backhaul , que hoje só chegam a 47% dos municípios, percentual que, o Minicom acredita, pode chegar a 90% em quatro anos. A melhor imagem para entender o que é backhaul é o dos nervos que saem da espinha dorsal (backbone) levando e trazendo os impulsos ao resto do corpo. Assim, quando você liga o seu celular (os dedos na imagem do corpo), o sinal é captado pela ERB (os nervos periféricos), que o levam para backhaul (os nervos principais) e este para o backbone, que, por sua vez, encaminha o sinal para o outro ponto, onde o processo é invertido. Assim, quanto mais capilarizado (e capacitado em termos de velocidade) for o backhaul, melhor (ou seja, mais veloz e estável) será a comunicação. O custo para atingir 90% dos municípios, calcula o Minicom, é de R$ 10 bilhões, o que elevaria o custo de todo esse projeto a algo em torno de R$ 50 bi.

Bem, se esses planos do governo Dilma forem concretizados, além de abrirem oportunidades de ouro para a melhoria de educação (via EAD) e saúde (telemedicina), têm tudo para mudar a maneira como se faz comunicação no país, incluindo aí o jornalismo. Mas isso já expliquei semana passada.

No Coleguinhas, uni-vos!
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Dilma: capitulación y después

¡Dilma se entregó sin luchar! Con su lamentable decisión de entregar a los banqueros los resortes fundamentales del estado se vino abajo toda la mistificación del “posneoliberalismo” construida a lo largo de estos años por los publicistas del PT. ¿Tenía opciones Dilma? ¡Claro que sí! En momentos como éste es más que nunca necesario no ceder ante el chantaje tecnocrático y antipolítico de los resignados del PT y sus partidos aliados que, parafraseando lo que decía Margaret Thatcher, aseguran que “no había alternativas”, que esto es doloroso pero “era lo único que podíamos hacer”.

Si en vísperas del balotaje propuse, en contra de quienes propiciaban el voto en blanco o nulo, votar por Dilma era por dos razones: primero, porque era imprescindible cerrarle el paso a Aecio, representante de la derecha neoliberal dura, neocolonial hasta la médula y sin el menor compromiso con ninguna causa o estructura popular, cosa que el PT tuvo y decidió arrojar por la borda; segundo, porque me parecía razonable apostar a que, ante el horror del abismo, Dilma y los petistas tendrían todavía una mínima capacidad de reacción y lucidez para, por lo menos, tratar de pasar a los anales de la historia con algo de dignidad. Reconozco haber sobreestimado la capacidad de Dilma y los petistas para conservar ese reflejo elemental sin el cual la vida política se convierte en un interminable calvario. Pero aún así sigo sosteniendo que la apuesta era válida; que el desperdicio de una oportunidad única no significa que ésta no existiera; y que de haber triunfado Aecio estaríamos ante una situación todavía peor que la que hoy debemos enfrentar.

Mi planteamiento se sustentaba, desde el punto de vista tanto epistemológico como práctico, en la tesis que  afirma que los procesos históricos no obedecen a un patrón determinista. Si así fuera el sólo desarrollo de las fuerzas productivas conduciría ineluctablemente a la revolución y a la abolición del capitalismo, cosa que todos los marxistas -desde Marx y Engels hasta nuestros días, pasando por supuesto por Lenin, Gramsci y Fidel- se encargaron de refutar por ser una creencia equivocada que alentaba la desmovilización y el quietismo de las clases y capas explotadas y desembocaba, en el mejor de los casos, en el tibio reformismo socialdemócrata.

Como lo señaló cientos de veces Lenin, el capitalismo no caerá si no se lo hace caer, y para se requiere de un componente esencial: la voluntad política. Esto es, la firme decisión de combatir en todos los frentes de la lucha de clases, organizar al campo popular, promover la concientización y la batalla de ideas y, por supuesto, adoptar la estrategia general y la táctica puntual más apropiada para intervenir en la coyuntura sorteando los riesgos siempre presentes y simétricos del voluntarismo, que ignora los condicionamientos histórico-estructurales, y el triunfalismo fatalista que confía en que las ciegas fuerzas de la historia nos conducirán a la victoria final.

Quienes adhieren al determinismo histórico no son los marxistas sino los economistas y gobernantes burgueses, siempre prestos a disimular sus opciones políticas como resultado de inexorables imperativos técnicos. Si para abatir la inflación se congelan los salarios, y no se controla la formación de los precios, es por un razonamiento despojado de todo vestigio de política e ideología, tan puro en su abstracción como un teorema de la geometría. Si para mejorar las cuentas fiscales se recortan los presupuestos de salud, educación y cultura en lugar de hacer una reforma tributaria para que las empresas y las grandes fortunas paguen lo que les corresponde, se dice que aquella alternativa es la que brota de un análisis puramente técnico de los ingresos y egresos del estado. ¡Otra impostura!

Fue producto del rechazo a cualquier concepción fatalista o determinista que llegué a la conclusión, que ratifico el día de hoy, de que pese al fortalecimiento de la derecha  Dilma y el PT aún tenían una oportunidad; que les quedaba una bala en la recámara y que si tenían la lucidez y la voluntad de avanzar por izquierda todavía podrían salvar algo del proceso iniciado con la fundación del PT (y que tantas esperanzas había suscitado) y evitar un retroceso brutal que significara, para el movimiento popular brasileño, tener que subir una difícil cuesta para relanzar su proyecto emancipatorio.  Por eso me permito reproducir lo que escribí  después de la pírrica victoria de Dilma (y ahora sí se entiende porque fue pírrica, porque el triunfo hizo más daño al vencedor que al vencido, a Dilma y al PT que a Aecio). Decía en esa nota lo siguiente: 

“Para no sucumbir ante estos grandes factores de poder se requiere, en primer lugar, la urgente reconstrucción del movimiento popular desmovilizado, desorganizado y desmoralizado por el PT, algo que no podrá hacerlo sin una reorientación del rumbo gubernamental que redefina el modelo económico, recorte los irritantes privilegios del capital y haga que las clases y capas populares sientan que el gobierno quiere ir más allá de un programa asistencialista y se propone modificar de raíz la injusta estructura económica y social del Brasil.

En segundo término, luchar para llevar a cabo una auténtica reforma política que empodere de verdad a las masas populares y abra el camino largamente demorado de una profunda democratización.  … Pero para que el pueblo asuma su protagonismo y florezcan los movimientos sociales y las fuerzas políticas que motoricen el cambio –que ciertamente no vendrá ‘desde arriba’- se requerirá tomar decisiones que efectivamente los empoderen. Ergo, una reforma política es una necesidad vital para la gobernabilidad del nuevo período, introduciendo institutos tales como la iniciativa popular y el referendo revocatorio que permitirán, si es que el pueblo se organiza y concientiza, poner coto a la dictadura de caciques y coroneles que hacen del Congreso un baluarte de la reacción.

¿Será este el curso de acción en que se embarcará Dilma? Parece poco probable, salvo que la irrupción de una renovada dinámica de masas precipitada por el agravamiento de la crisis general del capitalismo y como respuesta ante la recargada ofensiva de la derecha (discreta pero resueltamente apoyada por Washington) altere profundamente la propensión del estado brasileño a gestionar los asuntos públicos de espalda a su pueblo. …  Nada podría ser más necesario para garantizar la gobernabilidad de este nuevo turno del PT que el vigoroso surgimiento de lo que Álvaro García Linera denominara como ‘la potencia plebeya’, aletargada por décadas sin que el petismo se atreviera a despertarla. Sin ese macizo protagonismo de las masas en el estado éste quedará prisionero de los poderes fácticos tradicionales que han venido rigiendo los destinos de Brasil desde tiempos inmemoriales.”

Al anunciar la designación de Joaquim Levy como Ministro de Hacienda, un ‘Chicago boy’ y hombre de la banca brasileña e internacional, Dilma y el PT capitulan cobardemente de su responsabilidad histórica. En los Cuadernos de la Cárcel hay una nota titulada “La fábula del castor” en la cual Gramsci dice lo siguiente a propósito de la incapacidad de las fuerzas de izquierda para resistir eficazmente al ascenso del fascismo: “El castor, perseguido por los cazadores que quieren arrancarle los testículos de los cuales se extraen sustancias medicinales, para salvar su vida se arranca por sí mismo los testículos. ¿Por qué no ha habido defensa? ¿Poco sentido de la dignidad humana y de la dignidad política de los partidos? Pero estos elementos no son dones naturales … son ‘hechos históricos’ que se explican con la historia pasada y con las condiciones sociales presentes.” 

Al invitar a Levy y sus tenebrosos doctores de la ‘terapia del shock’ -Naomi Klein dixit- a tomar por asalto al estado (y especular con la posibilidad de que se le ofrezca a la senadora Katia Abreu, acérrima enemiga del Movimiento Sin Tierra y líder de la Confederación Nacional de la Agricultura, el lobby del agronegocios, el Ministerio de Agricultura) el gobierno petista obró como el castor de la fábula: se castró a sí mismo y traicionó el mandato popular, que había repudiado la propuesta de Aecio, al servirle el poder en bandeja a sus declarados enemigos perpetrando una gigantesca estafa postelectoral sin precedentes en la historia del Brasil. Esto explica el júbilo de los grandes capitalistas y sus representantes políticos y mediáticos, que celebraron este gesto de ‘sensatez’ de Dilma como una extraordinaria victoria.

En efecto, perdieron en las elecciones porque el voto popular no los favoreció, pero la burguesía no sólo mide sus fuerzas y disputa el poder en el terreno electoral. Sería un alarde de cretinismo electoralista pensar de esa manera. Para corregir las erróneas decisiones del electorado están los ‘golpes de mercado’ y su fiel escudero: el ‘terrorismo mediático’ ejercido impunemente en Brasil en la reciente coyuntura electoral. Triunfadora en las urnas y derrotada y humillada fuera de ellas, Dilma asume como propio el paquete económico de sus enemigos, que ha hundido a Europa en su peor crisis desde la Gran Depresión y que tantos estragos ocasionó en América Latina.

¿Había alternativas? Claro: en línea con lo que observaba Gramsci, ¿por qué Dilma (y Lula) no denunciaron la maniobra de la burguesía y le dijeron al pueblo que se estaba a punto de cometer un verdadero desfalco de la voluntad popular?, ¿por qué no se convocó a los sectores populares a ocupar fábricas, parar los transportes, bloquear bancos, comercios, oficinas públicas y los medios de comunicación para detener el “golpe blando” en ciernes? En una palabra, ¿por qué tanta pasividad, tanta resignación? ¿Cómo explicar una derrota ideológica y política de esta magnitud?

Lo que se viene ahora es la vieja receta para seducir a los mercados: ajuste fiscal ortodoxo; estímulos para acrecentar la rentabilidad empresarial, sobre todo del sector financiero; recorte de la inversión social (peyorativamente considerada como un ‘gasto’), todo para restaurar la confianza de los mercados lo que equivale a una imposible tarea de Sísifo porque estos jamás confían en otra cosa que no sea el crecimiento de sus ganancias. Pruebas al canto: jamás en la historia brasileña los bancos ganaron tanto dinero como durante la gestión de los gobiernos del PT. ¿Se apaciguaron por ello? Todo lo contrario. Se cebaron aún más, quieren más, quieren gobernar directamente sin el estorbo de una mediación política. Su adicción a la ganancia es incontrolable, y se comportan como adictos.

La medicina que sin contrapeso alguno en el sistema político aplicaran estos hechiceros de las finanzas es un cocktail explosivo que no servirá para promover el crecimiento económico de Brasil pero que, sin dudas, potenciará el conflicto social hasta niveles pocas veces visto en ese país. La feroz respuesta represiva que tuvo lugar cuando las grandes movilizaciones desencadenadas por el aumento de la tarifa del transporte público en junio del 2013 puede ser un juego de niños por comparación a lo que podría suceder en el futuro inmediato una vez que Levy y los banqueros comiencen a aplicar sus políticas.

Atilio Borón — Argentino de nacimiento y latinoamericano por convicción. Sociólogo y analista político. Obtuvo su Licenciatura en Sociología y posteriormente, su Magister en Ciencia Política. Tiene un Ph. D. en Ciencia Política en la Universidad de Harvard.
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Como Murdoch tornou-se o inspirador da mídia brasileira


Foi simbólica a entrega do Prêmio Emmy por Rupert Murdoch a Roberto Irineu Marinho - representando as Organizações Globo.

Em um período em que a Internet e as redes sociais jogaram os grupos de mídia globais no maior desafio da história, Murdoch tornou-se o modelo, o campeão branco a fornecer a fórmula da sobrevivência aos grupos de mídia de todo mundo, especialmente aos brasileiros.

Em algum período escondido na memória, o jornalismo brasileiro inspirou-se na sofisticação do New Journalism de Tom Wolfe, Gay Talese e Norman Mailer; nas reportagens-verdade de Truman Capote; e até no jornalismo gonzo, do repórter vivendo os riscos relatados na reportagem.

Mas nenhum estilo influenciou mais do que o do australiano Rupert Murdoch.

Ele surgiu no rastro da globalização. Valeu-se do mercado de capitais, promoveu uma série de aquisições nos diversos continentes, adquiriu uma rede social, a 21st Century Fox e, através da News Corporation, jornais em diversos países.

Mas, principalmente, pavimentou sua escalada com um estilo jornalístico que remetia às origens dos "barões da mídia".

Ressuscitou o mais abjeto estilo da história, continuador de William Randolph Hearst e outros "barões da mídia"; que transformaram o jornalismo em uma máquina de assassinar reputações, em um instrumento rude, truculento de participação no jogo político, sem nenhuma sofisticação a não ser a exibição permanente da força bruta, o jorrar intermitente do esgoto.

Coube a Roberto Civita, presidente da Editora Abril, captar o novo movimento e importá-lo para o Brasil.

A partir de 2005, tornou-se o padrão dos grupos de mídia brasileiro, inaugurado pela revista Veja, imitado pela Folha e disseminado por diversos comentaristas da Globo.

Da noite para o dia, o cenário jornalístico brasileiro ficou coalhado de imitações de personagens funambulescos, tentando emular o estilo grosseiro da Fox.

O início do estilo Murdoch

O modelo Murdoch consiste nas seguintes características:

1. Buscar na extrema direita — no caso o Tea Party — o linguajar chulo e agressivo e o compêndio de preconceitos. Usa o preconceito como recurso jornalístico para conquistar a classe média.

2. Criar um inimigo externo, não mais a União Soviética, mas um novo fantasma. No caso, o Islã; por aqui, a Bolívia ou Venezuela.

Assim como a ultradireita brasileira, o Tea Party criou toda uma mitologia em torno da ameaça histórica do islamismo sobre a civilização cristã ocidental.

Não há mais o receio das bombas da Guerra Fria, mas de outros fantasmas imemoriais, as ideias que penetram subliminarmente no cérebro dos incautos levando-os para o reino das trevas.

Como diz Arnaldo Jabor, o comunismo explodiu e disseminou milhares de vírus pelo mundo todo, contaminando a cabeça de todos os democratas.

Essa versão dramatizada da “Guerra dos Mundos”, do “Monstro da Lagoa Negra”, da propaganda subliminar — consagrada no auge da Guerra Fria — acabou se constituindo no roteiro geral do grupo Fox e de seus emuladores brasileiros.

3. Valer-se do conceito de liberdade de imprensa para se blindar e promover uma ampla ofensiva de assassinatos de reputação contra adversários: jornalistas de outros veículos, políticos, empresários e intelectuais. E, por trás do macarthismo, montar jogadas comerciais de interesse do grupo.

4. Promover a ridicularização do cidadão comum — e dos críticos e adversários —, como maneira de ressaltar a superioridade intelectual do seu leitor.

O fenômeno Fox

O ponto central da disseminação desse modelo foi a Fox News.

Lançada em 1996, a emissora conquistou uma audiência diária de 2 milhões de telespectadores, mais do que a soma da CNN e da MSNBC. Contratou diversos pré-candidatos republicanos à presidência, promoveu o Tea Party, contribuiu financeiramente com o Partido Republicano e grupos de ultra-direita e foi relevante para a vitória republicana em 2010.

Disseminou teorias conspiratórias, falseou informações, espalhou boatos — como a de que Barack Obama era terrorista, ou que teria estudado em uma escola islâmica.

Em 2008, tentou ligar Obama com Bill Ayers — terrorista americano da década de 70, e a Louis Farraknan (líder da Nação islâmica nos EUA). Memorando interno do grupo recomendava aos repórteres enfatizar que no livro “Sonhos de meu pai”, Obama divulgava ideias simpáticas ao marxismo.

Um e-mail que chegou a outros veículos de mídia explicitava melhor o espírito Murdoch. Ordenava aos repórteres que "evitem dizer que o planeta aqueceu (ou resfriou) em qualquer frase sem apontar em seguida que tais teorias são baseadas em dados que críticos questionam".

Seis meses após a invasão do Iraque, 67% do seus telespectadores acreditavam que Sadam Hussein tinha se associado à al-Qaeda, e 60% juravam que a maior parte dos cientistas garantia que não havia aquecimento global.

Políticos e jornalistas que ousassem criticar a Fox News tornavam-se alvos de seus ataques.

Apenas um jornalista ousou se erguer contra aquela máquina de assassinar reputações, Jon Stewart que, em seu "Daily Show", ironizava a paranoia da rede.

O restante dos jornalistas amarelou — da mesma maneira que no Brasil — mesmo sabendo que aquele estilo contaminava a todos indistintamente. E o principal fator foi o medo de ser emboscado por uma equipe de filmagem, atacado nos shows de televisão, ou ser acusado de esquerdista.

Mesmo após a vitória de Obama, a Fox continuou espalhando seu terror. Durante o debate sobre o aumento do teto da dívida pública, foi a Fox quem estimulou, através de seus comentaristas em rádio e televisão, o extremismo de muitos republicanos no Congresso (leia aqui reportagem de Michael Massing para The New York Review).

O tabloide News of The World

O escândalo maior foi com o tabloide News of The World, até então o jornal mais vendido aos domingos no Reino Unido.

Em 2005 foi alvo de uma série de denúncias, de contratar detetives particulares e policiais para grampear celebridades e membros da realeza.

Algum tempo depois, The Guardian denunciou o jornal por ter grampeado os atores Jude Law e Gwyneth Paltrow.

O auge do escândalo foi a descoberta de que chegou a grampear o celular da menina Milly Dowler, de 13 anos, sequestrada e morta. Na tragédia do atentado ao metrô de Londres, em 2005, o jornal interceptou mensagens dos celulares dos parentes.

Os abusos reiterados levaram à prisão do editor do jornal, Clive Goodman, e o detetive particular Glen Mulcaire. E ele nem chegou à ousadia da revista Veja, que se associou a uma organização criminosa — Carlinhos Cachoeira —, praticou grampos ilegais, manipulou notícias envolvendo no próprio STF (Supremo Tribunal Federal), sem ser incomodada pelo Ministério Público Federal e outros órgãos de controle.

Entre Pulitzer e Hearst


Na origem do moderno jornalismo empresarial, há duas figuras centrais, Joseph Pulitzer e William Randolph Hearst.

Pulitzer foi autor de máximas:

“Para se tornar influente, um jornal tem que ter convicções, tem que algumas vezes corajosamente ir contra a opinião do público do qual ele depende”.

“Acima do conhecimento, acima das notícias, acima da inteligência, o coração e a alma do jornal reside em sua coragem, em sua integridade, sua humanidade, sua simpatia pelos oprimidos, sua independência, sua devoção ao bem estar público, sua ansiedade em servir à sociedade”.

E a mais conhecida delas:

“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.

No lado oposto, Hearst e sua “imprensa marrom”, derrubando de vez os limites entre os fatos e a ficção. Os repórteres saiam das redações com a incumbência de trazer fatos que se adaptassem à pauta pré-definida. Se não encontrassem, que inventassem.

Nos anos 40, o império Hearst juntava 25 jornais diários, 24 revistas semanais, 12 estações de rádio, 2 serviços de notícias mundiais, um serviço de notícias para filme.

Em 1948 colocou o pé na televisão, adquirindo a WBAL-TV em Baltimore, uma das primeiras emissoras dos EUA. Foi peça central no macarthismo que, nos anos 50, envergonhou o mundo civilizado.

Entre Pulitzer e Hearst-Murdoch, a mídia brasileira fez a sua escolha, jogou os escrúpulos às favas e caiu de cabeça no velho estilo que renascia do lixo da história. Abriu mão de qualquer veleidade de legitimar sua atuação, de justificar a liberdade de que dispõe, ou as concessões que recebeu.

Conservadores até a medula, Ruy Mesquita e seu irmão Júlio tinham rasgos de grandeza e a preocupação permanente em legitimar a atividade jornalística. No dia em que Fernão Mesquita, herdeiro dos Mesquita, colocou Roberto Civita no mesmo nível que seu pai, Ruy Mesquita, estava claro que a perda de rumo havia sido total.

E foram esses abusos, disseminados por vários países, em um momento em que as redes sociais davam voz a todos os setores, que transformaram a regulação da mídia em bandeira universal de direitos humanos.

Nesta sexta-feira, no Rio de Janeiro, a Comissão Estadual da Verdade discutiu uma série de recomendações para a ampliação da liberdade de expressão.

No mesmo dia, em Marrakech, o Fórum Social Mundial alçou o direito à informação ao mesmo patamar dos demais direitos fundamentais: à vida, à liberdade, à saúde e à educação.


Luís Nassif
No GGN
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Todos atentos olhando pra TV

"Sabe, Chaves, quando assisto tevê, não consigo dormir." "Pois pra mim é o contrário: quando estou dormindo, não consigo assistir tevê", respondia o Chaves.

Meus pais tentaram, por muito tempo, criar os filhos ao abrigo da televisão, do chocolate. Não durou muito tempo até perceber que ambos são tão inevitáveis quanto a catapora, e quanto mais tarde chegam, pior é. A primeira vez que comi chocolate, me lembro da sensação de revolta: onde é que isso estava escondido esse tempo todo?

Aconteceu também com Chaves e o Chapolin. Amava Bolaños como a um irmão -mas não certamente como o meu irmão o amava- João tinha todos os bonecos de banheira, e o álbum, e o xampu. Talvez para se eximir da culpa de estarem deixando os filhos assistirem ao SBT, os pais declaravam em voz alta: "isso não é tevê, isso é teatro". E se juntavam a nós, perplexos, tentando entender como aquele ser chapliniano tinha garantido seu espaço na tela, e sobretudo naquele canal, espremido entre aviõezinhos de dinheiro e mulheres seminuas procurando um sabonete na jacuzzi.

Chaves conseguiu um milagre: erigiu-se na grade selvagem da TV aberta brasileira sem nudez ou palavrões, pegadinhas ou pirotecnias.

Numa cena célebre, Quico está mostrando o desenho que fez para o Professor Girafales: é um pão com ovo. Chaves mostra o que preparou -mas apenas uma folha em branco. O professor, revoltado, alega que Chaves não desenhou nada. E ele responde que desenhou, sim. "Esse é o meu café da manhã de todas as manhãs." Toma. Quem não chora é tucano. Bolaños mistura "commedia dell'arte" com humor nonsense e o talento mexicano para o melodrama, temperando com denúncia social.

Todas as famílias da vila são fracionadas: Quico não tem pai, Chiquinha não tem mãe, a Bruxa do 71 não tem ninguém, seu Madruga é desempregado e Chaves mora num barril (embora eu, quando pequeno, preferisse imaginar que ali dentro tivesse um fundo falso onde se escondia uma casa espaçosa).

No episódio "Ladrão da Vila" Chaves é acusado injustamente de roubar um ferro de passar. Em outro episódio clássico, ele é o único que não tem dinheiro para passar as férias em Acapulco. Quando criança, chorava de raiva e de pena. Queria invadir a tela e dar pro Chaves tudo o que eu tinha.

Chorei de novo ao reassistir às cenas. Chaves é do tamanho de Chaplin: hilário e humano. Neles, as duas coisas andam juntas -as duas coisas são a mesma coisa.

"Chaves, você sabia que a cada duas horas um indivíduo é atropelado na rua?" "Pobre indivíduo! Se eu fosse ele nem saía mais na rua." 

Gregório Duvivier
No fAlha
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A história da funcionária da Receita que sumiu com o processo de sonegação da Globo

Cristina
Quando o processo da Globo desapareceu no posto da Receita Federal em Ipanema, no dia 2 de janeiro de 2007, o Leão teve que se mexer.

Uma sindicância interna pegou um bagrinho, a funcionária pública Cristina Maris Ribeiro da Silva, agente administrativa, o cargo mais modesto da carreira na Receita Federal.

Mas, ao identificar Cristina, topou com um esquema de fraude gigantesco. Por trás do bagrinho, estão tubarões do empresariado brasileiro.

Cristina era dona da senha que abre os portões da sonegação e fecha os olhos do Leão. Literalmente.

Retirar o processo da Globo dos escaninhos da Receita foi a ação mais ousada de Cristina. Mas o que a sindicância apurou é que ela tinha uma intensa atividade criminosa, contra os interesses do Fisco.

A sindicância se desdobrou em processos judiciais e Cristina soma, até agora, pelo menos sete condenações, uma delas na ação pelo desaparecimento do processo de sonegação da Globo.

Em praticamente todas as varas federais criminais do Rio de Janeiro, há pelo menos uma condenação com o nome de Cristina, todas ligadas ao Fisco, todas iniciadas depois do desaparecimento do processo da Globo.

Lendo um dos processos, descobre-se, pela informação de uma procuradora da república, que, depois das condenações, Cristina mudou o nome.

Quando flagrada dando sumiço no processo, ela se chamava Cristina Maris Meinick Ribeiro. Hoje, seus documentos trazem o nome Cristina Maris Ribeiro da Silva.

A mudança dificultou a pesquisa que realizei nos arquivos da Justiça Federal, mas, uma vez localizados os processos, o que se descortina é uma história que alguns poderiam entender como assombrosa.

Cristina já foi condenada por emissão de CPFs novos para pessoas com nome sujo na praça. Delito pequeno, comparado ao que fazia no Comprot, o sistema informatizado que registra os dados dos processos físicos em tramitação na Receita.

Ela não tinha poderes para criar novos processos, mas podia modificá-los.

Num processo em que um taxista carioca pedia isenção do IPI para  um carro novo, ela mudou os dados da ação. Tirou o nome do taxista, João Pereira da Silva, e colocou o da empresa Cor e Sabor Distribuidora de Alimentos Ltda.

Também alterou a natureza do processo. Em vez da isenção de IPI, passou a constar crédito tributário para a empresa.

A Cor e Sabor Distribuidora de Alimentos, que é a maior fornecedora de quentinhas para os presídios do Estado do Rio de Janeiro, obteve assim declaração de compensação tributária e, em consequência, a certidão negativa de débito, necessária para celebrar contratos com o poder público.

Depois de cinco anos, a homologação da compensação se torna automática, ainda que o processo físico nunca tenha existido, e as informações colocadas no sistema sejam fictícias.

Em outro processo, uma pequena empresa, a Ótica 21, pediu seu reenquadramento no Simples, mas, com a inserção de dados falsos, se transformou num caso de compensação tributária em favor da Cipa Industrial de Produtos alimentares Ltda., dona da marca Mabel.

O Ministério Público Federal denunciou o presidente da empresa, Sérgio Scodro, como mandante do crime e pediu sua prisão preventiva, depois que os oficiais não conseguiram localizá-lo para entregar uma intimação.

A Justiça negou a prisão e, mais tarde, retirou seu nome do processo, por entender que a ação de Cristina não tinha produzido os efeitos pretendidos.

cristina - globo 2

Não foi o que aconteceu no processo em que a Megadata, que faz parte do grupo Ibope, foi denunciada por crime semelhante.

Até o presidente da empresa, Homero Frederico Icaza Figner, sócio da Carlos Augusto Montenegro, foi condenado.

Homero tem o prenome e um dos sobrenomes (Icaza) de um antigo consultor de pesquisas da Globo, o panamenho Homero Icaza Sanchez, conhecido como El Brujo, morto em 2011.

Em 2013, o outro Homero Icaza, também envolvido com o negócio das pesquisas, foi condenado, inclusive pelo artigo 171 (estelionato), juntamente com Cristina.

Porém, um habeas corpus trancou o andamento da ação e um despacho do Tribunal Regional Federal determinou a extinção da punibilidade.

O processo tramitou na Segunda Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro.

No Judiciário, as condenações dos empresários acusados de contratar os serviços de Cristina estão caindo uma a uma, por decisões de tribunais superiores. Já as condenações da ex-funcionária pública se acumulam.

Mas não se pode dizer que o Ministério Público Federal tenha deixado de ser rigoroso com os empresários.

Exceto num caso, o do sumiço do processo de sonegação da Globo.

Os proprietários da emissora nunca foram chamados a depor, e não houve tentativa para apurar o mandante (ou mandantes) do crime.

Lendo o processo, o que se vê é que ela agiu por conta própria, embora a cronologia indique uma ação coordenada para beneficiar a Globo.

No dia 16 de outubro de 2006, o auditor fiscal Alberto Sodré Zile conclui sua investigação e autuou a Globo em mais de 600 milhões de reais, incluindo juros e multa, por sonegar os impostos que deveriam ser pagos na aquisição dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002.

Ao mesmo tempo, ele assina uma representação para que o Ministério Público Federal denuncie os donos da emissora por crimes contra a ordem tributária.

Zile qualifica os responsáveis pelo que ele considera crimes. Dá nome, endereço e número de documento dos irmãos Roberto Irineu Marinho, João Roberto Marinho e José Roberto Marinho.

No dia 7 de novembro, um advogado da emissora recebe cópia de todo o processo, com a notificação da multa e a representação para fins penais.

No dia 29 de novembro, a emissora apresenta recurso a uma instância superior da Receita.

Num texto de 53 páginas, a defesa da Globo tenta desqualificar o trabalho de Alberto Sodré Zile, mas os três auditores da Delegacia de Julgamento não concordam.

Rejeitam a apelação, no julgamento realizado em dia 21 de dezembro.

No dia 29 de dezembro, o processo volta para o posto da Receita em Ipanema para que, dali, siga para a execução, incluindo o envio para o Ministério Público Federal.

É uma sexta-feira, e Cristina está de férias.

Na terça-feira seguinte, 2 de janeiro, o primeiro dia útil depois da remessa do processo, a agente administrativa vai ao escritório, embora ainda estivesse em período de férias, e sai de lá com dois volumes mais o apenso que compõem o processo.

A Receita abre sindicância para apurar desaparecimento e chega até Cristina.

Com o fim da investigação de caráter administrativo, manda cópia ao Ministério Público, com a comunicação do crime. Os procuradores a republicam a denunciam.

Em janeiro de 2013, Cristina Maris Meinick Ribeiro é condenada.

Mas quem foi o mandante do crime que ela cometeu?

O processo não tem nenhuma indicação de mandante (ou mandantes), embora o maior beneficiário do crime seja amplamente conhecido, a Globo, que paralisou um processo que tinha endereço certo: o Ministério Público Federal.

Em seus depoimentos, Cristina negou que tenha subtraído o processo, apesar dos testemunhos contrários.

Chegou a dizer que nem se lembrava de ter estado no escritório.

Nos processos que Cristina responde por beneficiar sonegadores, o padrão de defesa é o mesmo: seus advogados apresentam receitas médicas, para dizer que ela tomava remédios psiquiátricos e que, se cometeu algum erro, foi “num momento de ausência”.

Os advogados alegam que a ex-funcionária teve síndrome de pânico, mas o laudo médico que juntaram num dos processos é de 2008, posterior à época do crime.

Seus advogados apresentaram extratos bancários para dizer que Cristina não teve vantagem financeira, e informaram que ela vivia “de favor” no apartamento da mãe.

Uma procuradora contestou as informações com o argumento de que o dinheiro poderia estar na conta de outras pessoas. E outras vantagens poderiam estar ocultas.

O apartamento que ela diz ser da mãe é na avenida Atlântica, um dos metros quadrados mais caros do Brasil, e vale, segundo corretores, mais de 4 milhões de reais.

A mãe de Cristina, Vilma Meinick Ribeiro, não é nenhuma milionária.

Em 1971, segundo uma publicação do Diário Oficial da União, era datilógrafa no Ministério da Fazenda.

Por coincidência, um posto equivalente ao que Cristina viria a ocupar na Receita Federal, órgão do Ministério da Fazenda, vinte anos mais tarde e no qual permaneceu por quase trinta anos, até perder o cargo em consequência de uma das sentenças condenatórias.

O apartamento na Avenida Atlântica, no Rio
O apartamento na Avenida Atlântica, no Rio
Eu estive lá e, como era de se esperar, não fui recebido.

Em seu Facebook, Cristina tem uma foto recente, em que aparece num restaurante segurando uma taça. Tem também uma foto de rosto e duas de um cachorrinho.

Apresenta-se como aposentada e não faz nenhuma indicação de que tenha pertencido aos quadros da Receita.

Quem mandou Cristina sumir com o processo de sonegação da Globo?

Algumas pistas podem ser encontradas em outros processos nos quais Cristina aparece e já foi condenada.

O advogado Darwin Reis Martin, que tem escritório de contabilidade e consultoria tributária no centro do Rio, é um nome recorrente nas ações.

Ele aparece em algumas denúncias do Ministério Público Federal como o advogado contratado por empresas que, mais tarde, acabariam se beneficiando da ação fraudulenta de Cristina.

Segundo as denúncias, o papel dele seria fazer mover a mão de Cristina no interior da Receita.

Em um dos casos, Darwin aparece como intermediário entre os empresários Arthur César Menezes Soares e Eliane Pereira Cavalcante, sócios do Grupo Facility.

Em agosto deste ano, Arthur e Eliane foram condenados por fraude no sistema da Receita Federal, juntamente com Cristina.

A condenação de Arthur pela fraude no sistema da Receita ainda não foi publicada no Diário Oficial, mas Arthur se tornou bastante conhecido no Rio de Janeiro depois que o jornal O Globo, em março de 2010, publicou reportagem de uma página em que o chama de Rei Arthur.

Segundo o texto, Rei Arthur, “amigo íntimo do governador Sérgio Cabral”, tinha os maiores contratos com a administração pública estadual, coisa de R$ 1,5 bilhão.

A matéria teve desdobramento, com a notícia de que deputados se movimentavam para criar uma CPI em razão da aparente ilegalidade no aditamento de contratos.

O jornalista Dácio Malta escreveu em seu blog, o “Alguém Me Disse”, que o assunto depois sumiu do noticiário e o jornal publicou uma carta do governo do Estado “maior que a reportagem”, para dizer que as acusações eram infundadas.

O deputado Anthony Garotinho, ex-governador do Rio, inimigo declarado da Globo, escreveu também que Rei Arthur era quem mais se beneficiava das denúncias veiculadas no Fantástico que execravam concorrentes do Grupo Facility, na mesma linha da série atual “Cadê o Dinheiro que Estava Aqui?”.

Essas publicações na internet que vinculam o Rei Arthur à TV Globo são anteriores à descoberta de que, de fato, ambos têm um nome comum na Receita Federal.

Num momento, Cristina Maris insere dados falsos no sistema para ajudar o Grupo Facility. Em outro momento, posterior, faz sumir o processo de sonegação da Globo.

Pode ser tudo coincidência, mas, no que diz respeito à Globo, a investigação parou na funcionária pública. Já o Rei Arthur teve seu nome lançado no rol dos culpados juntamente com o de Cristina.

A segunda instância pode derrubar, como tem feito em outros casos, mas hoje eles estão no mesmo barco, quer dizer, na mesma lista.

A ligação do nome de Cristina Meinick a uma das maiores empresas de comunicação do mundo não teria vindo a público não fosse o advogado Eduardo Goldenberg, carioca da Tijuca.

Ele publicou em sua conta no Twitter a informação de que o processo de sonegação havia desaparecido da Receita.

Goldenberg informou o número do processo e o nome de Cristina, que depois foram parar em blogs e sites da internet.

Não foi a primeira vez que Eduardo constrangeu a Globo.

No ano 2000, durante um festival de música da emissora, ele foi entrevistado ao vivo pela repórter Renata Ceribelli e gritou: “Faz um 12, Brizola!”

Eduardo Goldenberg conta que planejou a cena quando estava em casa, se arrumando para ir ao festival, quando soube que a apresentação de sua amiga Beth Carvalho havia sido vetada pela Globo.

“Ela faria o encerramento do festival, mas tinha começado o horário eleitoral na TV e Beth Carvalho cantava o jingle do ‘Velho’ (é assim que se refere a Brizola).”

A chance de ser entrevistado era uma em alguns milhares, mas, no intervalo da apresentação, Eduardo se viu diante da repórter, que perguntou o que ele achava do festival e estendeu o microfone.

“Faz um 12, Brizola!”.

“A Globo sempre ferrou o Brasil, e não me arrependo do que fiz”, afirma.

Iniciou-se assim uma amizade com Brizola, que quis conhecê-lo. Hoje, quando fala das vezes em que esteve com o ex-governador do Rio, se emociona.

Numa das últimas vezes, numa reunião de amigos, encontrou também Beth Carvalho.

“Foi a única vez que vi o Velho beber e ficar um pouco alterado. Ele até cantou”, recorda.

Brizola, acompanhado por violão, silenciou a todos com os versos “felicidade, foi-se embora e a saudade no meu peito ainda mora…”

Quando fala de como soube do processo da Globo, é um pouco vago. “Eu sabia que existia o processo e, como sou advogado, pesquisei”, afirma.

Eduardo deu outras notícias quentes em seu twitter. Anunciou, em primeira mão, que o senador Aécio Neves havia sido parado numa blitz da lei seca.

Também escreveu que Soninha Francine tinha parentes empregados no governo do Estado de São Paulo.

“Já publiquei coisas a pedido de amigos”, admite. “Se é por uma boa causa, eles sabem que podem contar comigo, e pedem para eu colocar uma notinha”.

Não fosse a sua conta no twitter, Cristina seria apenas uma anônima caminhando pela calçada de Copacabana.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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O dia em que os santos protetores de Minas abandonaram Aécio


Aécio Neves não foi talhado para as grandes aventuras políticas. Essa vocação exige dedicação integral.

Nem sempre é necessário abdicar da vida pessoal. Em meio ao trabalho estafante de construir a nova etapa da indústria nacional e Brasilia, Juscelino Kubitscheck arrumava tempo para as serestas e para agradáveis encontros diários em final de expediente.

No gabinete parlamentarista, Tancredo Neves e San Tiago Dantas trabalhavam pesado até o final da tarde. Depois, trancavam-se na sala de um deles, abriam o uísque e relaxavam em boa companhia.

João Baptista Figueiredo dava escapulidas de madrugada. E Jânio Quadros fugia do turbilhão de Brasilia em um apartamento discreto do Rio, emprestado pelo amigo Julio Barbero. Na fase de maior pressão, que antecedeu a renúncia, ficou vários dias com uma das mais belas atrizes da história.

Mas, em todos esses casos, o exercício da política era a atividade central. O relaxamento era a hora do recreio.

Aécio inverteu. Herdou um nome e uma legenda e só recentemente pareceu abrir mão da vida pessoal. Antes, sua vida havia sido um eterno recreio com alguns intervalos para a política.

O pacto mineiro e o paulista

Saliente-se que sempre foi bom político, em grande parte auxiliado pela competentíssima estrutura partidária que o velho PSD mineiro lhe legou. Enquanto político restrito a Minas, não precisou cair de cabeça na política.

Certa vez, em Belo Horizonte, fui convidado para um almoço com velhas raposas políticas mineiras — ligadas a Aécio, que as alocou nos conselhos de algumas estatais do Estado.

Aécio tinha montado o "pacto mineiro", um monumento à esperteza política, onde PSDB e o PT de Fernando Pimentel bancaram a candidatura vitoriosa de Márcio Lacerda (PSB) à prefeitura de Belo Horizonte.

Pouco depois, o então governador paulista José Serra deu uma facada nas costas do seu próprio partido e lançou Gilberto Kassab à prefeitura. Colunistas ligadas a Serra apressaram-se em louvar a sagacidade carcamana de Serra, que "agiu em silêncio" dando um drible em Aécio.

Com a sutileza tipicamente mineira, um dos sábios glosou:

— Como todo mundo diz que Serra é supercompetente, a tática dele deve ser muito boa, mas tão sofisticada que não conseguimos entender. Aqui em Minas pensamos que essa estratégia vai indispo-lo com o PSDB e criar um novo futuro adversário para ele. Mas como todo mundo diz que Serra é muito competente, nós é que não temos capacidade de entender o alcance da sua jogada.

Serra tornou-se o líder tucano mais odiado pela militância da capital, a ponto de Geraldo Alckmin precisar intervir nas prévias do partido para garantir sua candidatura à prefeitura em 2012; e Geraldo Kassab montou seu partido e ganhou vida própria.

De seu lado, mesmo sem frequentar Minas, Aécio tornou-se um caso de sucesso político.

A perda de rumo

A perda de rumo veio após a última campanha presidencial.

Aécio confiava tanto no seu taco que escolheu como candidato para o governo de Minas o mais anódino politico ao seu alcance: Pimenta da Veiga. Quando as primeiras pesquisas indicavam vitória massacrante do candidato do PT, Fernando Pimentel, o fenômeno da auto-ilusão fazia os estrategistas de Aécio tergiversarem. Pimentel estava na frente porque os eleitores ainda não tinham sido informados de que ele não era o candidato de Aécio. Ou então, estão confundindo Pimentel com Pimenta.

Quando acordou, era tarde: estava prestes a perder a cidadela mineira, a rede de segurança contra qualquer tombo nas eleições presidenciais. Ou vencia as eleições nacionais ou seria varrido do mapa político.

Foi aí que o rapaz que apenas sonhava com os Beatles e os Rollings Stones nas areias do Leblon  foi empurrado para o sentido histórico que estava ao seu alcance: tornar-se o presidente da República. Estourou mais uma vez o conflito interno poderoso, a guerra monumental periódica entre o espírito do destino manifesto versus o espírito folgazão. Até então, o espírito folgazão sempre vencia de goleada. Desta vez, pela primeira vez venceu o espírito do destino manifesto e Aécio imbuiu-se da responsabilidade de governar o país.

Durante um mês vestiu o terno do avô e lançou-se à guerra. E viu a taça Jules Rimet da política a meio metro das suas mãos. Até meia hora antes do anúncio da apuração, esteve na frente. De repente, tudo foi se desvanecendo, virando fumaça. Foi como se aos 90 minutos na final de uma Copa do Mundo o favorito levasse um gol contra.

A dupla derrota deslocou-o do seu eixo, invertendo os fluidos da política: o espírito de Minas baixou em Serra; e o estilo carcamano em Aécio.

E Aécio, que era bom em política; em conspiração mostrou-se um aprendiz. Só um amadorismo exemplar para explicar essa campanha carbonária para propor abertamente a guerra política.

Serra sabe que, em todo momento de catarse, a fúria deflagrada volta-se contra seus criadores. Desde a Revolução Francesa, é uma máxima histórica. Agora, enquanto Serra se recollhe e articula nos bastidores com seu amigo Gilmar Mendes, Aécio dá a cara para bater.

Vez por outra, Aécio tem pesadelos horríveis com a gaveta da escrivaninha de Roberto Gurgel sendo aberta e dela saltando o número cabalístico 2009.51.01.813801-0. São as benzedeiras de Minas alertando o filho dileto. Mas Aécio faz ouvidos moucos, enquanto os fantasmas protetores de Minas gradativamente vão se afastando da sua vida.

Ontem, ao declarar-se derrotado por uma “organização criminosa” Aécio abdicou definitivamente de Minas.

Luís Nassif
No GGN
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É preciso alguém avisar Aécio que a eleição acabou


Manhã de segunda-feira, 1º de Dezembro.

Já se passaram 35 dias desde que o Tribunal Superior Eleitoral anunciou o resultado do segundo turno, na noite de 26 de outubro, com a reeleição da presidente Dilma Rousseff. Mas tem muita gente até hoje, na oposição e na mídia tucana que, simplesmente, não aceita a quarta derrota consecutiva.

Algum amigo precisa urgentemente avisar o candidato derrotado Aécio Neves e seu mentor Fernando Henrique Cardoso que a eleição já acabou, os palanques foram desmontados e a vida continua. Quem ganhou, ganhou; quem perdeu, perdeu. Agora, para tentar voltar ao poder novamente, é preciso esperar a próxima eleição presidencial, daqui a quatro anos. É assim que acontece nas democracias.

Até lá, cabe à oposição fazer oposição, dentro das regras do jogo, apresentando críticas e alternativas ao programa de governo do partido vencedor, que ainda nem foi anunciado em detalhes pelos ministros já indicados. A posse de Dilma e de sua nova equipe no segundo governo só se dará no dia 1º de janeiro de 2015.

O que importa, daqui para a frente, é saber o que será melhor para o nosso país, independentemente do que cada candidato falou ou deixou de falar durante a campanha eleitoral, uma página virada na nossa história. Não há mais candidatos, mas apenas uma presidente da República reeleita pela vontade da maioria do povo brasileiro, de forma tão inconteste como foi o bicampeonato do Cruzeiro no Brasileirão, conquistado dentro de campo.

Ao afirmar, em entrevista a Roberto D´Ávila, exibida na noite de sábado pela Globonews, que perdeu a eleição para uma "organização criminosa", Aécio Neves em nada contribui para desmontar as orquestrações golpistas dos que fazem protestos nas ruas defendendo o impeachment de Dilma e a volta dos militares ao poder. Ao contrário, não contribui nem mesmo para o seu futuro político como novo líder da oposição, ao se inspirar no triste papel desempenhado por Henrique Capriles na Venezuela. Não foi esse o Aécio que conheci nas lutas pela redemocratização do país.

Vejam o que ele disse ao meu amigo Roberto D´Ávila:

"Na verdade, eu não perdi a eleição para um partido político. Eu perdi a eleição para uma organização criminosa que se instalou no seio de algumas empresas patrocinadas por esse grupo político que está aí".

Ainda em clima de disputa eleitoral, o tucano fez duras críticas à campanha da sua adversária: "Essa campanha passará para a História. A sordidez, as calúnias, as ofensas, o aparelhamento da máquina pública, a chantagem para com os mais pobres, dizendo que nós terminaríamos com todos os programas sociais (...) Essa sordidez para se manter no poder é uma marca perversa que essa eleição deixará".

Esta postura radicalizada de Aécio, na linha dos discursos do cantor Lobão, só se justifica se ele estiver preocupado em garantir desde já sua liderança no PSDB para as eleições de 2018. Mais do que ninguém, ele sabe que, até lá, seus principais concorrentes não estão no PT, mas dentro do seu próprio partido, em que o governador paulista Geraldo Alckmin já se perfila para a sucessão de Dilma, e nunca se pode esquecer da sombra de José Serra, agora de volta à ribalta do Senado.

A resposta aos ataques fora de época de Aécio não demorou. O secretário nacional de Comunicação do PT, José Américo, qualificou a declaração de irresponsável e anunciou que vai pedir ao departamento jurídico do partido uma análise da entrevista para estudar alguma ação contra o tucano na Justiça.

"É desagradável. Aécio mostra que não sabe perder. Não é um problema político, ele está abalado psicologicamente. A derrota em Minas abalou Aécio porque, ao perder no seu estado, perdeu também a corrida dentro do próprio PSDB. Está em desvantagem na sociedade e no seu partido. E aí faz uma acusação irresponsável deste tipo".

É melhor todo mundo agora esfriar um pouco a cabeça. Papai Noel já está chegando.

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Aécio, o Capriles brasileiro, tem de ser interpelado judicialmente — Assista


Ou Aécio perdeu o juízo ou então se presume intocável e impune com as declarações que fez dizendo que perdeu as eleições para uma 'organização criminosa'.


“Na verdade, Roberto, eu não perdi a eleição para um partido político. Eu perdi a eleição para uma organização criminosa que se instalou no seio de algumas empresas brasileiras e patrocinada por esse grupo político que aí está”.
Programa Conexão Roberto D´Ávila, Globo News, 30/11/2014.

A obsessão histérica de certos integrantes do judiciário, da oposição e da mídia com o “risco bolivariano” [sic] atende ao objetivo de “venezuelizar” a maneira de fazer oposição ao governo. É um simulacro da direita para legitimar a torpeza do padrão político e de oposição selvagem ao governo Dilma.

Com grande cinismo, usam uma lente e uma linguagem delirante para atribuir ao governo Dilma supostas características “bolivarianas” que, em contrapartida, justificariam a adoção de comportamento idêntico ao da direita fascista da Venezuela.

Ritos ordinários fixados na Constituição Brasileira, como a nomeação de Ministros para o STF, são denunciados como provas do tal “risco bolivariano”. O que dizer, então, da proposta de participação da sociedade civil que está concebida na Constituição e Leis do país!?

A cultura política venezuelana não tem identidade com a do Brasil. O processo político venezuelano tem sua singularidade e uma dinâmica própria. Aquela é uma realidade complexa, onde tanto governo como oposição têm problemas sérios e cometem erros importantes.

Goste-se ou não do processo em andamento na Venezuela, é essencial se reconhecer que ele é legitimado por uma ordem constitucional fundada nos princípios da democracia representativa e participativa, inclusive com previsão para interromper mandatos através de referendos e plebiscitos. Apesar disso, a oposição conservadora venezuelana, inconformada com as sucessivas derrotas eleitorais, parte para a sabotagem das regras constitucionais, promove enfrentamentos, violência e caos para incendiar o país.

Henrique Capriles Radonski, governador do Estado de Miranda, é uma das principais expressões dessa direita, cuja delinquência política só é eclipsada pelo “cachorro louco” Leopoldo López, seu antigo parceiro de aventuras golpistas que optou por uma tática insurrecional para derrubar o governo do Presidente Nicolás Maduro.

No Wikipédia, Capriles está assim apresentado: “Apesar da origem judaica, é católico praticante, tendo até integrado a seção venezuelana da organização católica Tradição, Família e Propriedade na década de 1980. Começou sua carreira na política pelo partido de direita Copei. Em 2000, ao lado do conservador Leopoldo López, fundou o partido Primera Justicia. Ainda em 2000, Capriles aproximou-se do International Republican Institute (IRI), organização vinculada ao Partido Republicano dos Estados Unidos. Desde então, passou a ser conhecido como um dos principais opositores do governo venezuelano. Em 2002, participou ativamente do golpe de Estado contra o Presidente Hugo Chávez. No pleito presidencial de 7 de outubro de 2012, Capriles saiu derrotado por Hugo Chávez, por mais de 10% dos votos”.

Em 14 de abril de 2013, na eleição convocada devido à morte de Hugo Chávez, Nicolás Maduro foi eleito com 50,66% dos votos contra 49,07% de Capriles. Inconformado com a derrota, Capriles tentou, sem êxito, lançar uma campanha internacional contra a democracia venezuelana, e deu início à escalada de violência política, sabotagem econômica e desestabilização do governo que marca a sociedade venezuelana ainda nos dias de hoje.

No Brasil, a inconformidade da direita com a derrota eleitoral foi idêntica. O PSDB inventou um pedido de auditoria no TSE para lançar suspeição sobre o resultado eleitoral.

Lamentavelmente, na sua ação política, a direita brasileira adota os mesmos critérios da direita fascista e antidemocrática venezuelana. Com a reeleição da Dilma, o PSDB e partidos satélites [DEM, SDD, PPS], certos setores do Judiciário, o capital financeiro e a mídia oposicionista passaram à truculência sem limites.

Assumem, dessa forma, as consequências de uma radicalização que poderá dominar a sociedade, porque a maioria democrática do país certamente não silenciará ante as ameaças golpistas.

Aécio, como seus gestos e discursos demonstram, vestiu o figurino de Capriles da sociedade brasileira, e inaugurou um perigoso padrão de disputa. Esse padrão tem encorajado manifestações tresloucadas de impeachment, assim como movimentos que afrontam a Constituição e as Leis ao apregoar golpe militar — acompanhados com o surpreendente silêncio do Ministério Público e do Poder Judiciário.

Ou Aécio perdeu o juízo ou então se presume intocável e impune com as declarações que faz. Afirmar que perdeu a eleição “para uma organização criminosa que se instalou no seio de algumas empresas brasileiras e patrocinada por esse grupo político que aí está”, é uma acusação da maior gravidade que merece ser apurada com o máximo rigor.

Se espera que o PT e o governo interpelem judicialmente Aécio, para que ele tenha a oportunidade de comprovar essa grave acusação.

Ao invés de se converter nessa sucursal bastarda da direita venezuelana, Aécio poderia se civilizar lendo o artigo “Nunca se roubou tão pouco”, do empresário e peessedebista Ricardo Semler na FSP.

Lendo este insuspeito autor, Aécio e a direita poderiam finalmente aprender que uma oposição digna e democrática no Brasil não só é necessária, como é possível.

Jeferson Miola
No Carta Maior

A entrevista completa:

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'Regulamentar mídia pode ser bom para o Brasil, diz enviado da ONU

Presidente Dilma Rousseff propõe 'regulamentação econômica' da mídia brasileira
Uma regulamentação da mídia que garanta uma "multiplicidade de vozes" no espaço público pode ser positiva para o Brasil - como o é para qualquer democracia.

É a avaliação do advogado especializado em direitos humanos David Kaye, desde agosto enviado especial da ONU para liberdade de expressão.

Formado pela Universidade da Califórnia em Berkeley, Kaye trabalhou por dez anos no Departamento de Estado americano e, desde 2005, é professor da Escola de Direito da Universidade da Califórnia em Irvine.

Ocupante de um posto da ONU criado em 1993, ele faz parte do Conselho de Direitos Humanos da organização e tem como missão monitorar violações à liberdade de expressão em países ao redor do mundo, além de cobrar explicações de governos, instituições independentes e outras entidades quando o direito de buscar, receber e compartilhar informação estiver sob ameaça.

Em entrevista à BBC Brasil, Kaye comenta as diferentes formas de regulamentação da mídia aplicadas em vários países, entre eles o Reino Unido e os Estados Unidos, e como isto pode tanto favorecer quanto prejudicar a liberdade de expressão:

— Qual é o papel da mídia para a liberdade de expressão?

David Kaye — É crucial. O artigo 19 da Declaração Universal de Direitos Humanos diz que todos têm direito a buscar, receber e compartilhar informação. Também está previsto aí o direito a receber informação correta de nossos governos e outras autoridades. Isso se refere não só a jornalistas, mas a qualquer pessoa que use qualquer tipo de mídia. Mas isso é muito mais difícil para indivíduos comuns do que para a imprensa. Por isso, a mídia é fundamental para a participação pública e para os valores democráticos. É difícil imaginar qualquer democracia sem imprensa livre. Então, quando falamos de qualquer proposta de regulamentação da mídia, devemos nos perguntar: ela preserva este espaço fundamental para a imprensa reunir e compartilhar informação?

— Como o senhor vê a discussão sobre regulamentação econômica do mercado de mídia levantada pela presidente Dilma Rousseff?

— É difícil falar de uma proposta sem algo concreto. A presidente falou de forma geral da necessidade de regulamentação sob o argumento de que é preciso evitar a concentração de empresas de mídia nas mãos de poucos. A ideia é justa. Se você quer implementar uma regulamentação, ela deve favorecer a competição entre as empresas para que haja uma constante competição por leitores. Isso cria uma situação em que nenhum veículo é dominante. Encontrar uma forma de incentivar a diversidade na propriedade de mídia é bom para a liberdade de expressão.

David Kaye, enviado especial da ONU para liberdade de expressão, monitora violações a este direito
— Muitas pessoas veem qualquer proposta de regulamentação como sinônimo de censura. Isso é correto?

Quanto ao propósito, não dá para alguém dizer que a regulamentação por si só seja um problema para a liberdade de expressão. Mas temos de ter em mente que o Brasil tem uma história de controle da mídia estatal ou privada, assim como muitos países da América Latina, que basicamente leva a uma censura direta ou prévia, não permitindo que certos assuntos sejam publicados ou punindo (os veículos de comunicação) depois da publicação. Entendo que a discussão sobre este tema seja algo sensível. Isso é saudável, porque você não quer voltar àquela situação (de censura) ou criar meios de voltar a ela no futuro.

Como a regulamentação da mídia pode favorecer a liberdade de expressão?

Ao aumentar o número de lugares onde indíviduos podem encontrar informação e se expressar. Se jornais competem por histórias, há mais incentivos para se investigar algo que pode não ser positivo para o Estado, mas que é uma informação de interesse público. Se não há competição, a mídia se torna um pouco preguiçosa e não investiga como faria se houvesse concorrência.

A diversidade é importante por essa perspectiva, mas também para haver uma multiplicidade de visões no espaço público. Quando a imprensa é controlada por poucos veículos, isso reduz a quantidade de vozes às quais as pessoas têm acesso. Quando houver uma proposta concreta de regulamentação no Brasil, é preciso garantir que ela encoraje a multiplicidade de veículos de imprensa.

— E quando esta regulamentação pode ser uma ameça à liberdade de expressão?

— Há todo um espectro de controle da mídia pelo governo. Há governos repressores que censuram ativamente, especialmente na Ásia e no Oriente Médio. Controlam a mídia e prendem jornalistas, como vimos no Egito recentemente. Esse país é um exemplo do efeito negativo. O país tem, em geral, uma mídia ativa. Mas, no último ano, houve grande pressão sobre a imprensa para que ela conte histórias de acordo com a visão do governo. Isso levou a uma autocensura nos altos escalões da mídia egípcia.

Ao mesmo tempo, na outra ponta deste espectro, há uma regulamentação da mídia feita em países desenvolvidos e em desenvolvimento que trata da propriedade de empresas da área ou determina as frequências que podem ser usadas na radiodifusão. Você vê isso em lugares como os Estados Unidos e a Europa, onde já existem leis antitruste para garantir que nenhuma empresa tenha o monopólio de várias indústrias. Não há motivos para não se aplicar isso também à mídia. Só é preciso ter mais cuidado para que esta lei não dê ao governo uma forma de controlar o conteúdo.

— O senhor cita os EUA, um país que preza muito pela liberdade de expressão. Pode explicar melhor como o mercado americano de mídia é regulado e o que isso promove?

— A regulamentação nos EUA garante que nenhuma companhia controle um certo mercado. Você vê isso em nível local e nacional. A lei diz, por exemplo, que uma empresa não pode ter emissora de TV ou rádio e um veículo mídia impressa num mesmo mercado. Nos últimos anos, tivemos uma grande concentração de mídia nos Estados Unidos, e isso vem sendo monitorado pelo governo para que nenhuma empresa tenha uma vantagem injusta, monopolizando um mercado.

É algo bem parecido com o que vemos na União Europeia, em que há regras para evitar a concentração da mídia. Nem sempre é fácil garantir a diversidade, especialmente porque é muito caro lançar um novo veículo de imprensa. Uma coisa que o governo pode fazer em prol disso é apoiar novos veículos desde o início. Não há isso nos Estados Unidos, mas emissoras públicas têm apoio do governo. Isso é feito para que haja garantias de que exista uma voz independente, além dos veículos privados.

Mercado de mídia americano é regulado para evitar o monopólio de um mercado por uma empresa
— Recentemente, o Reino Unido também regulamentou seu mercado. Por que o governo britânico fez isso?

— A regulamentação no Reino Unido é menos sobre a propriedade da mídia e mais sobre o comportamento de jornalistas. Foi uma resposta ao clamor público gerado pela invasão da privacidade dos cidadãos por tabloides. O Parlamento determinou que isso era ilegal e inaceitável. Mas é preciso ter cuidado porque, especialmente no Reino Unido, há pressão sobre a mídia feita por agências de segurança e vigilância, que dizem o que pode ou não ser publicado.

Isso também é uma forma de regulamentação, e é muito problemática, porque interfere no conteúdo. Apesar de a legislação internacional de direitos humanos permitir restrições à liberdade de expressão em casos de segurança nacional, isso deve ser feito em casos restritos, senão a cartada da segurança nacional pode ser usada para controlar a mídia.

— Por que criar regras especiais para jornalistas quando é possível usar leis existentes para coibir excessos?

— Acho que isso nunca deveria ser feito, o que não significa que os jornalistas sejam livres para violar as leis. Um jornalista sabe que será processado se facilitar um crime. Mas, de forma geral, não acho que deveria haver regras para limitar o que a imprensa pode ou não investigar. Ao redor do mundo, vemos formas ilimitadas de controlar o que jornalistas podem fazer. Em certos países, por exemplo, o governo usa princípios religiosos para dizer o que não pode ser publicado.

— Além da lei, quais são as outras formas possíveis de controlar a mídia?

— A pressão política pode impedir a mídia de realizar seu trabalho. Um jornalista precisa de acesso a autoridades. Negar este acesso é uma forma não jurídica de o governo pressionar a mídia, dificultando o seu trabalho e, assim, controlando o que é publicado. Isso ocorre em todo lugar.

Empresas e empresários também exercem tanta ou mais influência negativa sobre jornalistas. Uma história pode ser contra os interesses do dono da empresa de mídia. Isso é muito sério: uma ameaça tão séria ao noticiário econômico quanto a pressão política ao noticiário político.

— Há como evitar isso?

— Uma forma é ter transparência, para que o público saiba o nível de controle editorial exercido pelo dono da empresa de mídia. É algo difícil de regular por meio de lei, mas é possível que uma ONG e outros repórteres façam esse monitoramento. As pessoas poderiam, então, fazer suas escolhas com base numa lista que mostra o nível de controle exercido pelo dono da empresa nas decisões editoriais.

— No Brasil, famílias de políticos são donas de veículos de comunicação. Como isso afeta a liberdade de expressão?

— Isso é um problema por algumas razões. Uma delas é que, se estas famílias usam a mídia para promover as carreiras destes políticos, isso cria uma desigualdade em relação aos políticos que não são donos de veículos. Veja a Itália, por exemplo, onde (o ex-premiê) Silvio Berlusconi controla o principais veículos. Em geral, há liberdade de expressão no país mas, como as maiores empresas de mídia são de Berlusconi, era difícil conseguir notícias controversas sobre ele. Isso é um problema para qualquer processo democrático.

— Ao mesmo tempo, há Michael Bloomberg, dono de uma grande empresa de comunicação e ex-prefeito de Nova York.

— Sim, mas ele era apenas um de muitos. O mercado de mídia de Nova York é muito competitivo, e Bloomberg é um dos seus menores atores. Por isso, a diversidade de vozes na mídia é importante.

Rafael Barifouse
No BBC Brasil
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