28 de nov de 2014

Devaneios direitistas?

"Devaneios esquerdistas" é o título da coluna assinada por Merval Pereira, no jornal O Globo de 28 de novembro de 2014.

O texto de Merval é reproduzido ao final deste comentário.

O simpático título faz referência a um abaixo-assinado divulgado há poucos dias, intitulado "Em defesa do programa vitorioso nas urnas".

O texto do abaixo-assinado pode ser lido aqui:


Segundo Merval, "as diversas facções em que se divide a esquerda brasileira aliada ao governo petista estão atônitas com a chegada ao ministério do segundo mandato de Dilma de Joaquim 'mãos de tesoura' Levy, que pretende, como anunciou ontem em linguagem diplomática, colocar ordem na bagunça em que se encontra a economia nacional".

Procurando bem, sempre se pode achar alguém atônito. Mas a questão é muito simples: como os dois mandatos do presidente Lula e como foi seu primeiro mandato, o segundo mandato da presidenta Dilma será o de um governo em disputa.

Nas eleições, impedimos o retrocesso que seria resultante de uma vitória de Aécio Neves. Mas para conseguirmos um segundo mandato Dilma que seja superior ao primeiro — entendo por superior principalmente contribuir para a implementação de reformas estruturais — será preciso muito mais esforço.

Dada a correlação de forças no Congresso, bem como dadas as debilidades da esquerda política e social, para não falar dos constrangimentos objetivos derivados da economia nacional e internacional, está claro que não existem condições para fazermos o governo "ideal".

Agora, reconhecer a correlação de forças não é igual a capitular frente ao inimigo.

Quem capitula, faz concessões que nos impedem de alterar para melhor a correlação de forças.

Para evitar este tipo de situação, esperamos que governo faça a parte que lhe cabe na democratização da comunicação, na reforma política, na manutenção e progresso da vida material e cultural da classe trabalhadora etc.

E para isto, não basta termos a presidenta Dilma; é necessário que ela nomeie uma equipe que sinalize e contribua no sentido indicado.

O abaixo-assinado significa que, do ponto de vista de uma parte dos/das que apoiaram e elegeram a presidenta Dilma Rousseff, nomes como o de Joaquim Levy e Kátia Abreu não correspondem ao que esperamos de seu segundo mandato.

Na nossa opinião, Kátia Abreu é defensora de uma política favorável ao agronegócio, política esta que vem desde 2003 e que precisa ser alterada.

Também na nossa opinião, Joaquim Levy é partidário das políticas gerenciadas por Palocci entre 2003 e 2005, políticas danosas então e agora.

Portanto, quem assinou o abaixo-assinado, seja pelas razões acima indicadas ou por outras, não está "atônito"; está apenas fazendo um movimento contrário ao que é feito por Merval. Com a legitimidade de quem lutou em favor de Dilma e contra o oligopólio a que Merval presta obediência.

Segundo Merval, o que "esse pessoal [do abaixo-assinado] "não quer enxergar, e que Dilma foi obrigada a entender, é que a vitória eleitoral do PT em outubro não correspondeu a uma vitória política, pois forjada à base do abuso da máquina pública e mentiras, sejam as divulgadas pela propaganda eleitoral, ou as espalhadas em diversas formas pelo país para amedrontar os menos informados".

Para quem não entendeu o raciocínio, Merval desenha assim: "Da mesma forma que Collor espalhava em 1989 que Lula confiscaria a poupança dos brasileiros para depois fazer ele mesmo o que criticava no adversário, também hoje estamos vendo o governo Dilma anunciar 'medidas impopulares' que seriam a base do governo de seu adversário 'neoliberal'."

Ou seja: Merval apóia-se na nomeação de Levy para acusar Dilma e o PT de estelionato eleitoral.

Contra esta interpretação, vários porta-vozes de setores do PT ou do governo já disseram o óbvio: que é a presidenta quem decide e que a decisão da presidenta é manter o desenvolvimento com bem-estar social.

É bom que isto seja dito, mas se é assim, por qual motivo era necessário nomear especificamente Levy? Afinal, dentre os eleitores e apoiadores de Dilma há vários empresários e economistas, inclusive gente conservadora e comprometida com o rigor fiscal.

A escolha de Levy, entre seus muitos defeitos, tem este: abre espaço para que digam que "a presidente Dilma viu-se obrigada a dar um salto triplo carpado para tentar recuperar a credibilidade".

Se ficasse só nisto, não seria um grande problema (especialmente se o PT tivesse um jornal para afirmar outro ponto de vista).

Ocorre que a oposição de direita irá muito além das piadinhas: fará de tudo para tentar converter Levy num "super-ministro", autônomo em relação à presidenta da República.

A mesma operação foi feita entre 2003 e 2005, contra Lula e em favor da dupla Meirelles/Palocci. E não existe memória seletiva capaz de esconder os danos causados.

Então como agora, era dito que tais ministros teriam como tarefa garantir "uma política econômica que os petistas chamam de 'neoliberal' mas que na verdade é apenas sensata e equilibrada, que usa o mercado privado para ajudar o governo a atingir metas que, sozinho, ele não conseguiu nos últimos quatro anos e nem conseguiria nos próximos quatro, mantidas as mesmas premissas que vigoravam e foram formalmente rejeitadas pela nova equipe econômica."

A oposição de direita, que em geral comemorou a escolha de Levy, incorporou ao seu "plano" o seguinte: 1) impedir o governo Dilma de aplicar o programa vitorioso nas urnas, 2) obrigar nosso governo a aplicar ao menos parcialmente o programa derrotado e 3) tirar vantagens eleitorais disto (a exemplo do que busca fazer uma recente manchete de capa do Correio Braziliense: "Trio do arrocho vai subir juros e cortar despesas".)

Parte da esquerda subestima as consequências da escolha de Levy & Cia. E acha que o plano resumido acima não passa de um devaneio direitista.

Pode ser. Mas basta observar os resultados eleitorais entre 2002 e 2014 para perceber que não estamos em condições de errar; e que um dos graves erros que não podemos repetir é o de afastar aquela parte do eleitorado e da militância de esquerda que não estiveram conosco no primeiro turno, mas que foram decisivos no segundo turno.

Para os setores do PT que percebem isto, será preciso ter muita paciência e perseverança.

Afinal, lutamos contra a pressão da mídia, que é na sua maioria favorável ao neoliberalismo e ao desenvolvimentismo conservador.

Lutamos contra tucanos infiltrados em nossas fileiras (sempre é bom lembrar que Marina não se "converteu" depois que saiu do PT).

Lutamos contra os que acham que conciliação é não apenas uma tática eventual, mas uma estratégia.

E, por fim, temos que lembrar que acabamos de sair de uma dura campanha, momento em que as pessoas defendem primeiro e perguntam depois.

Nada disto é novo: vivemos situação similar, por exemplo, em 2003-2005. E mesmo em agosto de 2014, parte da esquerda acreditava em vitória fácil no primeiro turno, o que dá uma boa medida da dificuldade que alguns setores têm para analisar a realidade é perceber nossas falhas.

Considerando tudo isto, talvez o mais importante seja não repetir, agora, os erros cometidos naquele momento pela parte mais crítica da esquerda, por exemplo: a impaciência, achar que cada batalha é a última, perder de vista o cenário mais amplo da luta de classes no Brasil e da luta entre estados no mundo.

Assim, paciência, perseverança, didatismo e método. A disputa será longa. E o papel decisivo será jogado pela classe trabalhadora, por sua disposição de lutar por mais mudanças.

Segue o texto:
Devaneios esquerdistas


MERVAL PEREIRA28.11.2014 08h00m


As diversas facções em que se divide a esquerda brasileira aliada ao governo petista estão atônitas com a chegada ao ministério do segundo mandato de Dilma de Joaquim "mãos de tesoura" Levy, que pretende, como anunciou ontem em linguagem diplomática, colocar ordem na bagunça em que se encontra a economia nacional.


Num primeiro momento, correntes diversas uniram-se para tentar barrar a nomeação, sob o argumento fantasioso de que ela ia de encontro ao modelo econômico que fora vitorioso nas urnas. Como se a presidente Dilma, reeleita por estreita margem, tivesse perdido a noção de que era a grande vencedora das eleições de outubro e, do nada, tivesse escolhido um ministro da Fazenda para fazer tudo ao contrário do que defendia no seu primeiro mandato.


Como se o próprio Lula, que batalhou para nomear Luiz Trabuco, o presidente do Bradesco, para o ministério da Fazenda, tivesse perdido a sanidade da noite para o dia. O que esse pessoal não quer enxergar, e que Dilma foi obrigada a entender, é que a vitória eleitoral do PT em outubro não correspondeu a uma vitória política, pois forjada à base do abuso da máquina pública e mentiras, sejam as divulgadas pela propaganda eleitoral, ou as espalhadas em diversas formas pelo país para amedrontar os menos informados.


Da mesma forma que Collor espalhava em 1989 que Lula confiscaria a poupança dos brasileiros para depois fazer ele mesmo o que criticava no adversário, também hoje estamos vendo o governo Dilma anunciar "medidas impopulares" que seriam a base do governo de seu adversário "neoliberal".


Os que assinaram o tal manifesto contra a nomeação do economista Joaquim Levy para o ministério da Fazenda acreditam piamente que banqueiros roubam comida dos pratos dos pobres, e se chocaram com a decisão de colocar o Bradesco no lugar do Itaú na Fazenda, e de ter um colaborador de Arminio Fraga em seu lugar no ministério.


Quem, ao que tudo indica, já desconfiava do que seu marqueteiro dizia era a própria Dilma, insegura de suas próprias convicções que na prática deram errado, e talvez por isso se enrolasse toda quando tentava explicar alguma coisa. Provavelmente nem mesmo o próprio João Santana acreditasse no que seus filmetes mostravam, já que ele confessadamente diz que não lida com conceitos como verdade, mas com a percepção do cidadão.


O fato é que, acreditando ou não no que defendia, a presidente Dilma viu-se obrigada a dar um salto triplo carpado para tentar recuperar a credibilidade de um governo que termina seu primeiro mandato com os piores indicadores econômicos de todos os tempos de nossa República, salvo dois outros governos, um dos quais o do próprio Collor.


E a nova equipe econômica pontuou durante sua apresentação o que talvez seja a chave para o entendimento do que está acontecendo: ter uma economia saudável é bom para as famílias brasileiras, e garante a manutenção dos avanços sociais conquistados.


O que estava sendo ameaçado com a performance dos últimos anos era justamente a jóia da coroa petista, os programas sociais, que agora serão garantidos por uma política econômica que os petistas chamam de "neoliberal" mas que na verdade é apenas sensata e equilibrada, que usa o mercado privado para ajudar o governo a atingir metas que, sózinho, ele não conseguiu nos últimos quatro anos e nem conseguiria nos próximos quatro, mantidas as mesmas premissas que vigoravam e foram formalmente rejeitadas pela nova equipe econômica.


Talvez constatando que espernear não levará a nada, o futuro ex-ministro Gilberto Carvalho, que já tem até substituto dentro do próprio PT no Palácio do Planalto, tentou ele sim dar um salto triplo carpado para encontrar uma explicação que não deixasse mal os petistas revoltados.


Disse Carvalho que, ao contrário do que parece, é Joaquim Levy quem está aderindo ao projeto econômico petista. Por este estranho raciocínio, o mesmo economista que já trabalhou no primeiro governo Lula e era execrado pelos petistas assim como outros do mesmo grupo, como Murilo Portugal e Marcos Lisboa, teria sido chamado de volta ao governo petista não por suas virtudes necessárias à mudança de rumos, mas por que aderiu ao projeto que está para ser mudado.


Por essa lógica, Mantega pode perfeitamente substituir Levy no Bradesco, afinal pensam de maneira semelhante. O que estraga a tentativa de Carvalho de fingir que não houve mudanças de orientação econômica é o estranho caso de um ministro nomeado para um governo de continuidade fazer parte da equipe de transição desse mesmo governo, formalizando assim a mudança de postura.
Valter Pomar
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A fase oral que não passa

Toda a imprensa brasileira parou na quinta-feira (27/11) para acompanhar a primeira entrevista coletiva dos futuros comandantes da política econômica. Nas principais emissoras de rádio e nos canais noticiosos da televisão, o assunto dominou o período até o último programa, e na sexta-feira (28) os jornais fazem a retrospectiva das declarações, com as interpretações a cargo dos porta-vozes de praxe.

O conjunto do material jornalístico que um ser humano pode acessar nesse dia de trabalho é composto quase exclusivamente por declarações. A palavra, principalmente aquela que é proferida num sentido esperado pela comunidade da imprensa, ganha poder de imagem, e mesmo frases dúbias por sua natureza ou intencionalmente ambíguas ganham ares de sentença. Então, a mídia tradicional conclui: a presidente da República se rendeu à lógica do mercado.

A entrevista de Joaquim Levy, futuro ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, que vai para o Planejamento, e Alexandre Tombini, que continua no comando do Banco Central, mostrou um trio afinado, pelo menos no discurso. E esse “pelo menos” é maximizado no noticiário e no opiniário dos jornais, que apostam numa guinada na política econômica.

Alguns articulistas chegam a afirmar que o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff vai se parecer mais com as propostas do candidato que ela derrotou na última eleição do que com seu programa de governo. No entanto, não há nada no conteúdo das declarações que justifique tal interpretação.

As respostas dadas pelos entrevistados, principalmente as do futuro titular da Fazenda, sobre o qual pesavam as maiores expectativas, foram mornas, superficiais, planejadas para funcionar como calmantes sobre o mercado. E a imprensa as sobrevaloriza, tentando dar um tom definitivo a expressões genéricas centradas no senso comum.

Basicamente, os futuros ministros disseram que “o Ministério da Fazenda reafirma o compromisso com a transparência”; “o dia a dia vai mostrar quanta autonomia a equipe econômica vai ter”; e “o equilíbrio da economia é feito para garantir o avanço das política sociais”.

Trocando em miúdos, o que se afirmou é que a política econômica seguirá perseguindo a meta do crescimento com justiça social, com mais clareza quanto ao controle dos gastos públicos.

Brasil, Venezuela

Com exceção da Folha de S.Paulo, que foi buscar opiniões negativas sobre as possibilidades de entrosamento de Joaquim Levy, tido como mais conservador, com Nelson Barbosa e Alexandre Tombini, mais afinados com o modelo petista, os jornais parecem otimistas. De modo geral, o noticiário e as opiniões de analistas escalados para refletir o pensamento da imprensa conduzem a uma visão positiva diante do desafio de superar as dificuldades conjunturais e evitar que as agências de avaliação de risco venham a rebaixar a nota brasileira no próximo semestre.

O desejo de ver suas teses aceitas pelo governo faz com que a imprensa leia nas palavras dos futuros ministros uma realidade que não conseguiu impor com seu protagonismo na eleição presidencial. O cenário econômico é escorregadio, e uma declaração tem o poder de induzir os ânimos para cima ou para baixo na escala das expectativas. Portanto, não se pode fazer profecias a partir de uma entrevista claramente planejada para desanuviar o ambiente.

Mais interessante é observar como a mídia tradicional busca se satisfazer com o verbo, ou seja, como a imprensa brasileira vive infantilmente presa ao prazer da oralidade, talvez como reflexo de certa imaturidade da própria sociedade. Essa tendência de tomar por real o que é meramente declaratório tem efeito nas instituições, cujos representantes eventualmente são tomados por alucinações criadas pela palavra.

Veja-se, por exemplo, o caso relatado pela Folha, sobre um procurador do Ministério Público Federal de Goiás, que abriu uma sindicância para apurar suposta ação do governo da Venezuela para alistar adolescentes e crianças brasileiras em “brigadas bolivarianas de comunicação”. O nobre procurador não se deu conta de que o comunicado do Ministério das Comunas da Venezuela — equivalente ao nosso Ministério das Cidades —, publicado em 2011, se referia a um bairro chamado Brasil, da cidade de Cumaná, no estado venezuelano de Sucre.

Provavelmente foi contaminado pelo palavrório segundo o qual o Brasil vai aderir ao “bolivarianismo”, suspeitou de uma rede de tráfico humano comandada pelo governo da Venezuela e se cobriu de ridículo.

Luciano Martins Costa
No OI
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Piketty estaria frito se tivesse nascido no Brasil

Piketty
Thomas Piketty estaria frito se tivesse nascido no Brasil.

Que economista com ideias parecidas com as suas recebe qualquer destaque da mídia?

Ele estaria condenado às sombras, ao mais espesso anonimato.

Teria que se contentar em ver, do seu cantinho humilde, os holofotes projetados em economistas e comentaristas econômicos como Rodrigo Constantino, Míriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg.

Piketty jamais seria o que é hoje: uma referência para todos os homens públicos dos países desenvolvidos.

No Brasil, a mídia esconde quem fala as coisas que ela fala e defende as causas que ele defende.

Os “especialistas” em economia que aparecem na mídia nacional criaram “consensos” que Piketty simplesmente atropela.

Na questão dos impostos, por exemplo.

Quem acredita no que jornais e revistas divulgam tem certeza de que a carga tributária brasileira é uma das maiores do mundo, e que cortando os impostos vamos crescer aceleradamente.

Piketty diz coisas bem diferentes nesse campo. Ele lembra que não existe caso de país que tivesse florescido com uma carga de impostos na faixa de 20%, o sonho dos Constantinos.

Lembra, também, que temos no Brasil uma taxa de imposto de herança ridiculamente baixa: coisa de 4%.

Nos Estados Unidos e na Europa, é dez vezes mais.

Isso sim promove meritocracia, uma palavra tão malempregada por Aécio. Existe um mérito inegável no empreendedor que monta um negócio de sucesso.

Mas qual o mérito de seu herdeiro?

São coisas bem distintas, e uma taxação justa da herança é um estímulo à meritocracia.

Piketty nota também o absurdo que é o imposto regressivo que vigora no Brasil. O porteiro da Globo e Roberto Irineu Marinho são igualmente taxados na taxa que pagam para comprar o leite que bebem e o pão que comem.

Um sistema progressivo é a resposta a essa injustiça fiscal. No bolo da arrecadação, contribui mais quem ganha mais.

Alguém consegue imaginar Piketty, caso fosse brasileiro, falando disso na Globonews, ou na CBN, ou na Veja, ou no Estadão?

Em compensação, os Constantinos e as Mírians são ubíquos. Estão em toda parte, o tempo inteiro.

Uma amostra do fim que ele teria no Brasil foi fornecida nestes dias em que ele veio a São Paulo lançar seu livro, um extraordinário sucesso mundial.

Numa nota pequena, o site do Globo conseguiu dar como título de um debate do qual ele participou o seguinte: “Piketty desafia o socialismo.”

A melhor cobertura, como tem ocorrido com certa frequência, foi feita pela BBC Brasil. Para financiar educação, dizia ele na entrevista, é preciso taxar os ricos.

Não é só a mídia que foge desta ideia: para evitar atritos com os ricos, até o governo se refugia na teoria de que o dinheiro do pré-sal resolve o problema.

Somos a terra dos Constantinos com sua esquerda caviar, e dos vaticínios apocalípticos de Míriam Leitão.

Piketty teve sorte de haver nascido na França.

Paulo Nogueira
No DCM
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É um erro achar que Brasil precisa de mais mercado, diz Piketty

No dia em que o governo brasileiro oficializou um novo ministro da Fazenda simpático ao mercado, o economista francês Thomas Piketty, autor do best-seller “O Capital no Século 21″, afirmou considerar um erro pensar que o Brasil precisa de mais mercado e menos intervenção na economia.

Piketty, que está no Brasil para promover o livro que lhe rendeu status de celebridade no debate econômico, não quis discutir especificamente a nova equipe econômica, mas afirmou que “seria um erro pensar que o Brasil fez demais na área social e para reduzir a desigualdade”.

Em seu livro, o francês sustenta que a desigualdade voltou a aumentar nas últimas décadas, beneficiando herdeiros e prejudicando a ascensão social, o que colocaria em risco a democracia.

Em entrevista à Folha, Piketty, que já foi citado em discurso pela presidente Dilma Rousseff, reclamou que dados de má qualidade fazem com que a desigualdade brasileira seja subestimada, e sua redução, alardeada pelo governo, talvez exagerada.

Recentemente, Dilma disse que o Brasil vai contra a corrente internacional de alta da desigualdade que seu livro aponta. O sr. concorda?

Políticas de educação e transferências sociais como as que foram aplicadas em certa medida no Brasil nestes dez últimos anos podem permitir ir contra a corrente de aumento da desigualdade, mas ela realmente diminuiu?

Não é tão certo, é possível que tudo tenha sido puxado para cima, inclusive os mais pobres, mas não necessariamente em maior proporção que os mais ricos.

A forma como medimos a desigualdade sem dúvida a subestima. No Brasil, ela é sem dúvida ainda mais alta do que muitas estatísticas oficiais dizem porque a maior parte delas se baseia em pesquisas familiares com autodeclaração. O problema dessas pesquisas é que temos tendência a subestimar o topo da distribuição. Infelizmente, tem sido muito difícil acessar os dados fiscais do Brasil.

Falta transparência?

Estudo recente (de pesquisadores da Universidade de Brasília) sugere que, se utilizamos dados fiscais, o nível das desigualdades no Brasil aumenta. Não sabemos muitas coisas sobre a distribuição da renda no Brasil e precisamos de mais transparência para ver melhor em que medida os diferentes grupos sociais se beneficiam do crescimento.

É evidente que todo o mundo se beneficiou do crescimento dos últimos 15 anos. Agora, em qual proporção exatamente os diferentes grupos se beneficiaram dele não sabemos muito bem. É possível que se tenha exagerado um pouco a [divulgação da] redução das desigualdades no Brasil.

Dilma também disse preferir investir em consumo e educação para lutar contra desigualdade a fazer taxação, como o sr. defende. Isso é suficiente?

Também é preciso reforma fiscal, de um imposto progressivo sobre a renda e sobre o patrimônio. Precisamos da reforma fiscal para financiar a educação. Acrescento que uma parte das desigualdades grandes do Brasil se explica pela relativamente baixa progressividade do sistema fiscal.

Como seria a reforma?

A faixa mais alta de Imposto de Renda no Brasil é de 27,5%, inferior à menor dos Estados Unidos. Creio que uma das razões pela qual há muito desigualdade no Brasil é a progressividade de IR relativamente baixa. Há também muitos impostos indiretos, que são regressivos e pesam sobre as camadas populares.

É importante também tratar de forma diferente as rendas anuais de R$ 100 mil e de R$ 1 milhão, R$ 5 milhões e R$ 10 milhões. Poderíamos ter faixas mais elevadas, de 50%, 60%.

Como na sua França natal?

Também como os EUA, o Reino Unido, a Alemanha, que têm taxas que vão até 40%, 50%. É ainda mais impressionante o imposto sobre herança, 4% [na maioria dos Estados] é realmente baixo, muito perto de zero.

É possível ter uma economia dinâmica e sistema capitalista próspero com imposto sobre herança alto. Para as novas gerações que não têm patrimônio familiar e procuram comprar apartamento em São Paulo, é muito difícil se você só tem a renda de seu trabalho. Não é normal que você ganhe R$ 100 mil por ano com seu trabalho e pague muito mais de imposto do que se você recebesse R$ 100 mil de herança de sua família.

O governo oficializou uma nova equipe econômica com um ministro da Fazenda mais ligado ao mercado e vindo de uma escola liberal. Que avaliação o sr. faz disso?

Não conheço o contexto político brasileiro, não posso me pronunciar. Quem quer que seja colocado no comando da política, qualquer que seja a orientação, os níveis de desigualdade muito altos que temos no Brasil devem ser questionados e tratados pelo governo, assim como a baixa progressividade do sistema fiscal.

Mas abordagem liberal e pró-mercado é boa ideia para enfrentar tais desafios?

Precisamos de mercado e também de poder público que tome decisões que permitam a cada um de se beneficiar da globalização e dos mercados.

Eu tento ir além dessas oposições um pouco teóricas e ideológicas. Creio que que seria um erro pensar que o Brasil fez demais na área social, que fez demais para reduzir a desigualdade, que agora é preciso mais mercado, menos intervenção, eu acho que isso seria um erro.

Apesar dos esforços que foram feitos em políticas sociais nos últimos 15 anos, o Brasil continua extraordinariamente desigual. O nível de investimento social, educacional para os desfavorecidos da população brasileira continua insuficiente.

O sr. defende que os estudos em economia levem em conta aspectos históricos, sociais, políticos e culturais. Isso é importante também para a gestão econômica do governo?

Sim, é importante para o governo também. A questão econômica é importante demais para ser deixada para economistas, que às vezes tentam fazer crer que dispõem de uma ciência realmente complicada que os outros não podem compreender e que é preciso deixá-los em paz. Isso é uma piada gigantesca.

O nome de seu livro, que remete a Karl Marx, e algumas de suas opiniões fazem que muitos o considerem anticapitalista.

O problema é que há gente que vive ainda na Guerra Fria e tem necessidade de inimigos anticapitalistas. Não sou esse inimigo. Creio no capitalismo, na propriedade privada e nas forças do mercado.

Nasci tarde demais para ter a menor tentação que seja pelo comunismo de tipo soviético. Isso não me interessa. Ao mesmo tempo, acho que temos necessidade, basta ver a crise de 2008, de instituições públicas muito fortes para regular o mercado financeiro e as desigualdades produzidas pelo capitalismo.

Sua defesa de um imposto global sobre grandes fortunas já foi feita por outros autores e nunca avançou. Não é ingênuo crer que seja realmente possível contrariar tantos interesses contrários?

Não precisamos esperar ter um governo mundial, um imposto unificado mundial para fazer progressos, se não arriscamos esperar um longo tempo. Podemos fazer progresso por etapas e a nível nacional. Há diferentes formas de imposto sobre capital e patrimônio em cada país, que podem ser melhorados de forma mais progressiva. Em seguida podemos progredir na cooperação internacional, como já tem sido feito quanto aos paraísos fiscais.

Como o sr. demonstra, a desigualdade no século 20 só caiu em um contexto de crise e reconstrução das sociedade após duas guerras mundiais. Seria mesmo possível algo tão ambicioso em tempos de paz?

As lições de história são importantes, as elites que não querem pagar mais impostos no Brasil, nos EUA e na Europa devem se lembrar que não é uma boa solução esperar a crise. Todo o mundo precisa de uma globalização que seja mais justa, que beneficie diferentes grupos sociais em proporção equilibrada. Se não, é a própria globalização que arrisca ser questionada.

No Viomundo
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“Vai pra Cuba!” é um grito que escorre como bílis dos lábios do neo-reacionários

Havana
Foi o Facebook, como nenhuma outra rede social da internet, que iniciou um processo inédito e ainda não dimensionado de histeria ideológica que, ao menos no Brasil, foi cristalizado sob um complexo manto de silêncio.

Digo complexo porque, até surgir uma plataforma tecnológica capaz de lhe dar cor, forma e conteúdo, esse manto foi sendo lentamente consolidado por diferentes processos de acomodação moral, política e social, sobretudo a partir das gerações subsequentes ao golpe militar de 1964.

Até então, ninguém sabia ao certo quais eram as consequências de cinco décadas de construção conservadora dentro de uma sociedade naturalmente autoritária como a brasileira, nascida e moldada na cultura do escravagismo, do fisiologismo, da separação de classe e da carteirada.

Com a internet e, especificamente, com o Facebook, tornou-se possível entender como a overdose de doutrina anticomunista rasteira, aliada a uma visão de mundo ditada por interesses ligeiros, acabou por gerar essa multidão de idiotas que se aglomeram no espectro ideológico da direita nacional.

Essas pessoas que travestiram de piquenique cívico as manifestações de rua nas quais, em plena democracia, foram pedir intervenção militar. Uma multidão raivosa, mentecapta, de faixas na mão, cevada por uma mídia mais irresponsável do que, propriamente, conservadora.

Essa mistura explosiva de ressentimento político com déficit educacional fez explodir nas redes sociais jovens comentaristas com discurso roubado de velhas apostilas da Escola Superior de Guerra dos tempos dos generais.

“Vai pra Cuba!”

Ir para Cuba.

Onde, exatamente, erramos ao ponto de ter permitido o surgimento de mais de uma geração cujo insulto essencial é mandar alguém ir morar em Cuba?

Desconfio, que no centro dessa questão habita, feroz, a tese de que é preciso viver em pobreza franciscana para ser de esquerda. Essa visão macarthista do socialismo impregnada no imaginário da classe média brasileira e absorvida, provavelmente por falta de leitura, de forma acrítica por grande parte da sociedade.

“Vai pra Cuba!”, aliás, na boca torta da direita brasileira, não é apenas um insulto, mas uma praga horrenda, um desejo de morte lenta, um pelourinho necessário e elogiável, como bem cabe a traidores de classe.

“Vai pra Cuba!” é um grito que escorre como bílis negra pelo canto dos lábios do neo-reacionários brasileiro.

De minha parte, não vou a lugar nenhum, enquanto esse tipo de gente ainda estiver por aqui.

Leandro Fortes
No DCM
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Desfazendo mitos sobre o Nordeste

O Nordeste de hoje é muito diferente daquele do passado. É a região que mais cresce no Brasil, aumentando investimento, renda, emprego, escolaridade, acesso à banda larga, produtividade, exportação. Conheça alguns dos principais mitos sobre o Nordeste e os nordestinos, que a desinformação alimenta.

Desfazendo mitos que contam por aí...

1 Foi o Nordeste que elegeu a Dilma

Por que não é verdade

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A eleição é nacional e Dilma teve votos em todo o país. Ela conquistou suas maiores votações no Nordeste e no Sudeste. As duas regiões praticamente “empataram” na opção pela presidenta: foram 20,1 milhões de votos no Nordeste, apenas 300 mil a mais do que no Sudeste (19,8 milhões). O Brasil é um só, mas quem se deixar levar pelo preconceito e tentar dividir o país entre eleitores supostamente “informados” e “desinformados” vai ter que brigar com as urnas: Dilma teve mais votos no Sul-Sudeste (26,6 milhões) do que no Norte-Nordeste (24,5 milhões).

2 O Bolsa Família transformou o Nordeste num curral eleitoral do PT

Por que não é verdade

Um dos principais avanços do Bolsa Família foi justamente acabar com a dependência — inclusive política — dos mais pobres. O beneficiário é titular de seu cartão magnético. Vai todos os meses ao caixa eletrônico e saca o valor a que tem direito. Não troca voto por cesta básica. Não deve favores a ninguém. Vota no partido ou candidato que julga mais comprometido com a melhoria da qualidade de vida de sua família e de sua comunidade.

São Paulo é o vice-campeão nacional do Bolsa Família: tem mais famílias beneficiadas do que todos os estados nordestinos, à exceção da Bahia. No entanto, o candidato mais votado em São Paulo, nos dois turnos da última eleição para presidente da República, foi Aécio Neves, do PSDB.

5461a0a5437d711f04f12602_nordeste-mito-02-SP%402x.pngA verdade é que quem vota no PT — seja no Nordeste, Sudeste, Sul, Norte ou Centro-Oeste — tem diversos motivos para fazê-lo: as 422 novas escolas técnicas e 18 novas universidades federais (com 173 novos campus), os mais de 20 milhões de empregos com carteira assinada, as 80 mil bolsas do Ciência Sem Fronteiras, o aumento real de 73% do salário mínimo, as obras de mobilidade urbana, as 8 milhões de matrículas no Pronatec, as grandes obras de infraestrutura do PAC, os novos aeroportos, rodovias e ferrovias, os 3 milhões de jovens carentes no ensino superior privado graças ao ProUni e ao Fies, as 3,4 milhões de moradias entregues ou em construção do Minha Casa Minha Vida, o R$ 1 trilhão do Pré-Sal para a Educação e a Saúde, o crédito farto para a agricultura familiar, o Bolsa Família e uma infinidade de outras políticas públicas, que promoveram a inclusão e a ascensão social de dezenas de milhões de brasileiros.



3 O Nordeste é atrasado

Por que não é verdade

O Nordeste foi atrasado enquanto os governantes ignoraram a região e o seu povo. A partir das políticas de desenvolvimento com distribuição de renda e o combate às desigualdades sociais e regionais implementadas pelos governos Lula e Dilma, o Nordeste tornou-se o exemplo mais vibrante do novo Brasil que estamos construindo.

A região cresceu o triplo da média nacional. Só nos primeiros cinco meses deste ano, o crescimento foi de 4%. A infraestrutura turística desenvolveu-se como nunca; a matriz industrial diversificou-se, com destaque para as indústrias naval e petroquímica; grandes obras mudaram e estão mudando a paisagem e a história do Nordeste, como a integração do rio São Francisco, a ferrovia Transnordestina, a refinaria Abreu e Lima, e o Complexo Industrial Portuário de Suape, entre tantas outras.

Nos últimos cinco anos, o Nordeste passou a atrair grandes investimentos. Somente nos três maiores polos de desenvolvimento da região – Suape (PE), Pecém (CE) e Camaçari (BA) – os investimentos captados nos últimos cinco anos e projetados até 2015 somam cerca de R$ 100 bilhões.



Principal responsável pela oferta de crédito na região, o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) teve um crescimento nominal de 776% no volume de recursos investidos, em apenas dez anos: em 2002, foram R$ 2,6 bilhões, em 686 mil operações; em 2012, nada menos que R$ 22,8 bilhões, em 3,1 milhões de operações.

E mais: as exportações nordestinas quadruplicaram, saltando de US$ 4,6 bilhões em 2000 para US$ 18,8 bilhões em 2011.

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4 Nordestinos são desinformados

Por que não é verdade

54619d6aeda5e620048f5ffa_nordeste-mito-06-universitarios%402x.pngO nordestino é tão informado quanto qualquer outro brasileiro. Tem acesso às mesmas fontes de informação: televisão, rádio, jornal, revista, internet. Aliás, a internet — que, ao contrário dos outros meios de comunicação, se destaca pela diversidade de informações e opiniões — está bombando no Nordeste.

Nos últimos quatro anos, o número de acessos em banda larga fixa cresceu mais no Nordeste que em todas as outras regiões do Brasil: o aumento foi de 136%, totalizando 2,68 milhões de acessos. Em banda larga móvel (via smartphones e tablets), o crescimento foi ainda mais extraordinário: 920%, com 27,68 milhões de acessos, atrás apenas da região Norte.

E mais: com Lula e Dilma, o Nordeste ultrapassou o Sul e tonou-se a segunda região do Brasil com maior número de estudantes no ensino superior (só perde para o Sudeste). O número de universitários mais do que triplicou: de 413 mil em 2000 para 1,4 milhão em 2012.



Das 18 novas universidades federais criadas pelo governos do PT, sete estão no Nordeste, sendo que cada uma delas mantém unidades em mais de um município. A Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), por exemplo, tem campus em Itabuna, Porto Seguro e Teixeira de Freitas. No total, 28 municípios nordestinos foram contemplados com campus de universidades federais.

Entre 2010 e 2012, o número de cursos de mestrado e doutorado cresceu 33% no Nordeste, enquanto o Sul e o Sudeste, regiões com maior número de programas de pós-graduação, tiveram crescimento bem menor: 25% e 14%, respectivamente.


5 Nordestinos são tão pobres que trocam votos por migalhas

Por que não é verdade

5462c45e0e1030ba0c03b1c3_nordeste-mito-07-classe-media%402x.png 
Só nos primeiros cinco meses de 2014, o Nordeste criou quase um milhão de novos postos de trabalho. Os investimentos públicos e privados, as grandes obras de infraestrutura, a instalação de novas indústrias, a geração recorde de postos formais de trabalho e o crédito farto para a agricultura familiar, além da transferência de renda e da valorização do salário mínimo, promoveram a ascensão social de milhões de nordestinos.

O Nordeste teve o maior aumento de renda per capita entre todas as regiões do Brasil, permitindo que mais de 20 milhões de pessoas deixassem a pobreza. Há uma década, apenas 22% da população nordestina estava na classe média. Hoje, esse percentual chega a 45%.

Um dos principais responsáveis por essa extraordinária ascensão social é a criação de postos de trabalho com carteira assinada. Nada menos que 4,1 milhões de empregos foram gerados no Nordeste durante os governos Lula e Dilma. Somente no governo Lula (2003/2010), o número de trabalhadores nas indústrias da região – sem contar os outros setores da economia – mais do que duplicou: de 800 mil para 1,7 milhão.

Dois terços dos empregos criados no Brasil no segundo trimestre de 2014 foram no Nordeste, de acordo com a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, elaborada pelo IBGE. Entre abril e junho deste ano, a ocupação na região aumentou em 999 mil novos postos de trabalho.


6 O Nordeste e os nordestinos serão sempre miseráveis, por causa da seca

Por que não é verdade

“A maior seca na vida de um sertanejo sempre foi a seca de oportunidades”. Mais do que apenas uma frase perdida num discurso, a afirmação da presidenta Dilma traduz o empenho dos governos do PT na promoção da segurança hídrica do Nordeste.

Hoje, um extenso conjunto de obras de canalização minimiza os efeitos das longas estiagens, garantindo o abastecimento de água para consumo e irrigação. Além disso, Lula e Dilma construíram 1 milhão de cisternas no semiárido, com capacidade de armazenamento de 16 mil litros de água cada, o suficiente para suprir, por até seis meses, as necessidades básicas de uma família com cinco pessoas.

Em casos de estiagem prolongada, o governo federal deflagra a distribuição emergencial de água por caminhões-pipa. A operação é coordenada pelo Exército Brasileiro, o que impede a utilização dos veículos como instrumento político, fato que ocorria antes do governo Lula.

Os investimentos em segurança hídrica incluem ainda a Bolsa Estiagem, auxílio financeiro emergencial pago aos agricultores familiares, no valor total de R$ 400, transferidos em cinco parcelas mensais de R$ 80; o apoio à atividade econômica por meio de linha especial de crédito; a antecipação dos pagamentos do Programa Garantia-Safra; e a venda de milho para alimentação animal a preços subsidiados.

Isso explica porque o Nordeste atravessou, em 2013/2014, a maior seca dos últimos 50 anos e, ao contrário do passado, não houve saques a armazéns, nem populações famintas comendo calangos, nem levas de famílias retirantes abandonando a terra natal, por causa da fome e da sede.


7 As obras de integração do rio São Francisco estão abandonadas

Por que não é verdade

54659189ad5ef59373f50460_image-sao-francisco.jpgTodas as etapas do empreendimento estão 100% contratadas e a previsão de entrega está confirmada para 2015. Onze mil trabalhadores e 4 mil máquinas já executaram 2/3 da obra, que beneficiará 12 milhões de pessoas em 390 municípios de quatro estados: Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco. São 477 km de canais, organizados em dois Eixos de transferência de água – Norte e Leste. A obra engloba a construção de quatro túneis, 14 aquedutos, nove estações de bombeamento e 27 reservatórios.

A Integração do Rio São Francisco faz parte de um grande conjunto de obras de segurança hídrica — o maior da história — que o governo federal realiza em parceria com os governos estaduais. Estão em andamento ou já foram concluídas: no Ceará, o Eixão das Águas e o Cinturão das Águas; no Piauí, a Adutora de Piaus e a Adutora de Bocaina; em Alagoas, o Canal do Sertão Alagoano; na Bahia, a Adutora do Algodão e a Adutora do Feijão; em Pernambuco, a Adutora do Pajeú (fases 1 e 2) e a Adutora do Agreste; na Paraíba, Vertentes Litorâneas; no Rio Grande do Norte, a Adutora do Alto Oeste.

Ou seja: depois de enfrentar condições climáticas adversas e séculos de descaso por parte dos governos do passado, o Nordeste provou que nada mais o impede de seguir mudando – para melhor, juntamente com o Brasil.


8 O Brasil está dividido

Por que não é verdade

O Brasil nunca esteve dividido. Apenas passou por uma eleição bastante disputada, a exemplo de vários outros países ao longo da história, como a França em 2012 (quando Hollande venceu Sarkozy por apenas 3,2% de diferença) e os Estados Unidos em 2000 (George W. Bush chegou a perder nas urnas para Al Gore, mas acabou eleito pelo colégio eleitoral) e em 1960 (Kennedy bateu Nixon por uma diferença de 0,1%!!!). E tanto a França quanto os Estados Unidos continuam inteirinhos da silva.

Por causa do falso mito de que “foi o Nordeste que elegeu a Dilma”, teve até gente falando em separar a região do resto do país, o que seria um completo absurdo, além de um prejuízo irreparável para o Brasil.

Primeiro, porque o Nordeste é hoje uma das grandes locomotivas da nossa economia, crescendo o triplo da média nacional e sendo responsável pela geração de 2/3 dos empregos do país, como explicamos no item 3. Segundo, porque o Nordeste é também responsável por grande parte da nossa extraordinária riqueza cultural: a prosa de Ariano Suassuna, Jorge Amado e Graciliano Ramos, a poesia de João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, os ensinamentos de Celso Furtado, Paulo Freire e Josué de Castro, a sabedoria dos mestres populares, a música de Luiz Gonzaga, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Raul Seixas... Já pensou se o forró deixasse de ser brasileiro? Se as praias mais lindas do Brasil não fossem mais do Brasil?

E acima de tudo, seria muito ruim perder o Nordeste – ou qualquer uma das partes que formam este nosso país-continente – porque a grandeza do Brasil está justamente em sermos um.

Nossa força reside na extraordinária diversidade que nos une. Somos todos brasileiros, da Amazônia aos pampas gaúchos, do cerrado ao sertão, passando pelo litoral. Cada qual com seu sotaque, sua cultura, seu jeito próprio de ser brasileiro – mas todos unidos pelo mesmo idioma, o mesmo espírito de luta, a mesma alegria que encanta o mundo.

Sem o Nordeste, o Sudeste, o Sul, o Norte ou o Centro-Oeste, o Brasil seria menos Brasil.

No Brasil da Mudança
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Dilma fez o que devia e deixa oposições sem discurso


O que eles queriam, afinal?

Que Dilma deixasse tudo como está e nomeasse um companheiro revolucionário ou um burocrata anódino para comandar a economia no seu segundo governo?

As primeiras críticas feitas pelas oposições ao seu governo, à direita e à esquerda, antes mesmo do anúncio oficial, mostram que a presidente Dilma Rousseff estava certíssima ao montar sua nova equipe econômica com Joaquim Levy, na Fazenda, Nelson Barbosa, no Planejamento, e mantendo Alexandre Tombini no Banco Central.

Já que é impossível agradar a todos ao mesmo tempo, ainda mais num momento tão convulsionado da vida nacional, a presidente fez o que devia: acima de rótulos ou de siglas, nomeou três profissionais de competência reconhecida, com o objetivo central de restabelecer um clima de confiança, tanto entre investidores, aqui dentro e lá fora, como na sociedade dividida pela campanha eleitoral.

A primeira entrevista coletiva do novo trio econômico, que ainda não tem data para tomar posse, me passou uma sensação de tranquilidade, de saber o que estão falando e o que pretendem fazer para que o país volte a crescer sem atropelos, sem soluções mágicas, sem pacotes, sem sustos.

Quem pode ser contra o que disse Joaquim Levy, o chefe da nova equipe, que trabalhou na gestão econômica de Fernando Henrique Cardoso e foi Secretário do Tesouro no primeiro governo Lula, destacando-se tanto nas funções públicas como na iniciativa privada? Veja suas primeiras declarações:

"Temos a convicção de que a redução das incertezas em relação às ações do setor público sempre é ingrediente importante para a tomada de risco pelas empresas, trabalhadores e famílias brasileiras, especialmente as decisões de aumento de investimento (...) Essa confiança é a mola para cada um de nós nos aprimorarmos e o país crescer".

"A gente vai ver no dia a dia como a autonomia no cargo ocorre. Mas evidentemente quando uma equipe é escolhida é porque há confiança. Não tenho indicação nenhuma em contrário. O equilíbrio da economia é feito para garantir o avanço na área social que nós alcançamos".

"O Ministério da Fazenda reafirma o compromisso com a transparência de suas ações e manifesta o fortalecimento da comunicação de seus objetivos e prioridades e a comunicação de dados tempestivos, abrangentes e detalhados que possam ser avaliados por toda a sociedade, incluindo os agentes econômicos".

"Nossa prioridade tem que ser o aumento da taxa de poupança. Aumentando sua poupança, especificamente o primário, o governo contribuirá para que os outros agentes de mercado e as famílias sigam o mesmo".

É importante registrar que, antes de conceder esta entrevista, Joaquim Levy e seus dois colegas de equipe almoçaram com a presidente Dilma Rousseff e com ela acertaram os ponteiros. Quem já joga num confronto entre os novos ministros e deles com a presidente da República, como os "analistas independentes" do apocalipse, que sempre aparecem nestas horas para dar fundamento "científico" aos colunistas do pensamento único do Instituto Millenium, podem ir tirando o cavalinho da chuva.

Quem define política de governo e dá as ordens é quem senta na cadeira de presidente no terceiro andar do Palácio do Planalto, não os eventuais ocupantes de ministérios, aliás, por ela escolhidos. Se Dilma nomeou estes três é porque confia neles e não tem esta besteira de que daqui a dois anos, feito o ajuste fiscal com um "saco de maldades", vai trocar a equipe e voltar a ser tudo como era antes. Isso é papo de quem continua jogando no quanto pior melhor e não aceita o resultado das urnas, achando que nada neste governo pode dar certo, para ver se fatura algum na especulação financeira.

O fato é que Dilma deixou sem discurso esta turma do contra e setores do PT e da base aliada inconformados com a ousadia da presidente em dar um cavalo de pau na economia para colocar o navio novamente no rumo certo. Por falar nisso, o economista Joaquim Levy também é engenheiro naval e sua primeira missão, certamente, será consertar os rombos no casco.

Mais do que das palavras e intenções, gostei da cara boa dos três, gente comum capaz de sorrir mesmo em horas graves, falando coisas que a gente entende, sem querer mascarar as dificuldades, mas também sem nos tirar o ânimo para enfrenta-las. Por isso, fiquei mais otimista ao olhar para 2015, na contramão dos profetas do fim do mundo.

Kátia Abreu, não

Se Dilma Rousseff provou que estava certa na indicação de Levy, Barbosa e Trombini, o mesmo não se pode dizer da anunciada nomeação de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura. Tem coisa que pode e tem coisa que não pode. Kátia Abreu não pode, pelo conjunto da obra pregressa. Seria o mesmo, por exemplo, que nomear Paulo Maluf para o Ministério das Cidades ou lhe entregar as chaves do Banco do Brasil.

Parceira de Ronaldo Caiado e seus coronéis na famigerada União Democrática Ruralista (UDR) dos tempos da ditadura militar, que de democrática nada tinha, Kátia Abreu sempre esteve lutando do lado exatamente oposto aos que, no PT e fora dele, defendem como razão de viver a reforma agrária, a proteção do meio ambiente, a agricultura familiar, a demarcação das terras indígenas e dos quilombolas.

A política também é feita de símbolos — e Kátia Abreu, hoje presidente da Confederação Nacional da Agricultura, simboliza o que há de mais reacionário, intolerante e autoritário neste importante setor da vida nacional. Não é possível que Dilma não encontre outro representante do agronegócio para ocupar este ministério. Alguém com o perfil de Roberto Rodrigues, por exemplo, um líder realmente democrático e capaz em seu ofício, que fez campanha para José Serra, em 2002, foi ministro da Agricultura de Lula, a partir de 2003, e agora apoiou Aécio Neves. Não tem problema. Como dizia o velho amigo José Alencar, vice de Lula, um sábio sem diploma, o importante não é a cor do gato, mas que ele seja capaz de caçar o rato.

Governo tem que procurar escolher os mais competentes e mais representativos em cada área, sem se preocupar com críticas de adversários nem muxoxos de aliados. Pode até descobrir depois que errou, mas não pode já começar errando. Ainda está em tempo de Dilma pensar melhor neste assunto.

Vida que segue.

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Regina Casé, o dançarino DG e os 22 mil jovens negros mortos por ano no Brasil

Regina Casé e o dançarino DG
A apresentadora Regina Casé, do “Esquenta”, respondeu às acusações da mãe do dançarino DG, assassinado numa viela. Num vídeo que viralizou, Maria de Fátima chamou Regina de “mentirosa”, “farsante” e “cretina”, além de falar que foi proibida nos bastidores de abordar a ação da polícia.

Regina ficou “triste e perplexa”. “Quando fizemos um programa de despedida, foi de coração, recebemos todos os convidados desse dia com o mesmo cuidado de sempre”, escreveu no Facebook. “A minha história sempre foi de luta contra o preconceito, a desigualdade e as injustiças sociais, mas ela sempre foi também de respeito à transparência e à verdade.”

Ainda que Maria de Fátima esteja cometendo uma injustiça completa, uma coisa é inegável: jovens da periferia, como DG, servem, sobretudo, de figuração para Casé. DG serviu para dar audiência, vivo ou morto. Deveria ser assim?

Como já apontou nosso colunista Marcos Sacramento, o “Esquenta” apresenta uma versão estilizada da favela, com negros fazendo o papel de negros — sambando, usando gírias, vestindo roupas de negros — na televisão. Regina vive desse pobrismo.

Se ela realmente se importa em lutar “contra o preconceito, a desigualdade e as injustiças sociais”, se ficou chocada com o que aconteceu a DG — e não há razão para crer que não tenha ficado –, poderia se manifestar contra a matança cotidiana na periferia. Periferia esta que é a estrela de seu show.

A seção brasileira da Anistia Internacional divulgou dados alarmantes. Em 2012, 56 mil pessoas foram mortas no país. Destas, 30 mil são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por arma de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados. Esse é o mote de uma nova campanha.

Os Estados Unidos estão enfrentando protestos violentos por causa da morte suspeita de Michael Brown em Ferguson, no Missouri. O policial que atirou em Brown foi inocentado no início da semana.

Dada a frequência, esse tipo de ocorrência foi completamente banalizado aqui. “A indiferença da sociedade com tantas vidas perdidas é uma das nossas maiores vergonhas”, disse Atila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional, ao Brasil 247. “Todas as mortes representam uma tragédia e uma perda irreversível. A sociedade tem um papel estratégico na pressão para que esta realidade mude”.

DG é um a mais. Regina Casé, obviamente, não é culpada pelo que lhe aconteceu. Mas, já que garante se preocupar com o mundo que explora todos os domingos, talvez devesse encarar esse drama de outra maneira que não colocando seus convidados da “comunidade” para sorrir e tocar pandeiro. A vida real não deveria ser tão diferente do Projac.

Kiko Nogueira
No DCM
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Roubar ou não roubar?

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=6729

O cronista Carlos Heitor Cony escreveu que a corrupção faz parte do nosso DNA. Citou o prefeito do Rio, Mendes Âncora, e o Maracanã, JK e a construção de Brasília, Maria Andreazza e a ponte Rio-Niterói e Itaipu binacional como exemplos tratados pela mídia como de corrupção sem precedentes. O empresário Ricardo Semler, 55 anos, sócio da Semco, disse em artigo na Folha de S. Paulo que “nunca se roubou tão pouco”. Segundo ele, hoje a corrupção engole 0.8% do PIB brasileiro contra 3.1% e até 5% no passado. Semler é tucano de carteirinha. Fez campanha para Aécio. Mas denunciou a hipocrisia dos que criticam a impunidade e vão gastar em Miami o muito que ganham irregularmente.

Semler lembrou também que quase todo mundo pratica diariamente pequenos atos de corrupção no Brasil como “aceitar um pagamento sem recibo para o médico” ou dar uma cervejinha para o guarda aliviar isto ou aquilo. A direita ironizava o PT por se colocar como o criador de tudo, até da roda, no Brasil com o famoso “nunca na história deste país”. De repente, passou a dizer que “nunca história deste país se roubou tanto”, atribuindo ao petismo praticamente a invenção da corrupção em grande escala. Há, ao menos, cinco problemas nessa abordagem.

O PT, que pregava contra a corrupção, atolou-se nela. Nunca pagará suficientemente por suas contradições e por sua arrogância moralista, o que é uma forma de seus adversários dizerem que o odiavam mais quando estava certo.. Mas fez a melhor política social do país desde Getúlio Vargas, a melhor na vigência da nossa tão esquálida democracia. O bolsa-família, mesmo como ampliação de mecanismos anteriores, e o ProUni são revoluções na paisagem excludente brasileira. Isso absolve o PT? Não. A corrupção, porém, também não anula esse feito. O roubas, mas faz não vale. O que foi feito tampouco deixa de valer. Então? O simplório fica complicado. O simples vira complexo. O PT costuma ter o PMDB, o PP e outros na sua companhia nos grandes escândalos que marcam a sua biografia. O PSDB, principal crítico da roubalheira petista, tem o privilégio da precedência no mensalão e o ônus da semelhança com o Petrolão no propinoduto de São Paulo.

Falar dessas equivalências provoca uma reação ensaiada: defesa dos ladrões petistas? Chantagem barata. Atribuir ao petismo a invenção da corrupção ou o seu recorde tem a ver com uma estratégia ideológica destinada, antes de tudo, a invalidar suas políticas sociais. É isso que incomoda realmente. Por causa disso se deve perdoar ou tolerar o PT que manda no país? Não. O petismo não perdoa. Se o petrolão fosse tucano, o PT estaria exigindo pena de morte para todos os envolvidos. Aqui se faz, aqui se paga. É o lema da corrupção que faz a festa das empreiteiras e o caixa de campanha dos partidos. Sempre se roubou. Sempre se roubará? Somos um país de ladrões?

Não há lugar para a dúvida shakespeariana entre nós: roubar ou não roubar? Roubar.

Nossa dúvida existencial é outra: como preservar e ampliar as políticas sociais do petismo acabando, ao mesmo tempo, com o triste hábito nacional da corrupção? Certamente isso não aconteceria pela simples entrega do poder aos tucanos. Só quem acredita em Papai Noel se convenceu de que nada havia de irregular nos aeroportos nas terras da família de Aécio Neves. Nosso único consolo é que nunca se investigou e puniu tanto a corrupção no Brasil. A impunidade começará a chegar ao fim quando deixarmos de falar ao celular enquanto dirigimos.

É isso.

Talvez.
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Piketty a Levy: quanto ganham os ricos?

Que tal um imposto sobre a herança, para ajustar o superavit fiscal?


Os merválicos pigais ainda não sabem exatamente o que dizer da nova trinca de responsáveis pela Economia — a que vai preservar o emprego e a inclusão social.

Não sabem se elogiam as metas — 2% de superavit e 4,5% de inflação — que serão perseguidas GRADUALMENTE, ou se espinafram a ausência de um choque paralisante de medidas impopulares, como defendiam os fragorosamente derrotados Aécio Never e seu economista americano NauFraga.

Nessa sexta-feira (28/11), a Urubóloga, no Mau Dia Brasil — antes que acabe — meteu os pés pelas mãos.



Ganha um doce que tiver entendido o que ela disse.

É a perplexidade dos que sofrem de TPF — Tensão Pós-Fracasso, mas isso passa.

Um dos pontos centrais do provisório entusiasmo dos merválicos pigais é com o que chamam de fim da “maquiagem”, como aquela que o Fernando Henrique praticou na campanha de 1998.

Uma semana depois de reeleito — sabe-se como… — o Príncipe da Privataria desvalorizou o Real e mandou o Presidente do Banco Central para a rua!

Os ministros ressaltaram ontem a transparência!

Ou seja, o Fundo Monetário e as agências de risco vão saber tudo!, comemora a Urubóloga.

O ansioso blogueiro tem lá as suas dúvidas.

Por exemplo, ele leu a obra magnífica do Piketty, antes da tradução brasileira (sabe-se lá o que a Intrinseca fez do livro…).


E, numa entrevista ao Estadão, na página B8 (não se deixe levar pelo título, amigo navegante, porque é falacioso…), Piketty faz gravísssima advertência aos novos Ministros da área econômica, exatamente nesse capítulo da TRANSPARÊNCIA.

Mas, é uma transparência de que os patrões da Urubóloga não querem nem ouvir falar…

Piketty diz que não é possível estudar a distribuição de renda no Brasil sem ter acesso à declaração de renda dos ricos!

Bingo!

Porque os ricos escondem!

(A Globo Overseas que o diga.)

E, portanto, a desigualdade no Brasil deve ser maior do que mostram os números do IBGE.

“Provavelmente há mais desigualdade no Brasil do que se pode medir pelas estatísticas oficiais… foi impossível acessar os dados do Imposto de Renda no país. Acredito que o Brasil precisa de mais transparência sobre renda e riqueza,” diz ele.

E agora, Levy?

Disse Piketty:

O sistema tributário do Brasil não é muito progressivo (ou seja, não cobra dos ricos – PHA).

É regressivo (cobra dos pobres – PHA).

O que faz com que os pobres e a classe média paguem pesadas taxas no consumo.

É possível reduzir a taxação indireta (que castiga os pobres e a classe média – PHA) e aumentar a taxação progressiva da renda e na propriedade.

Se olharmos para a taxação do Imposto de Renda, o topo recolhido não é muito alto no Brasil: 27%.

A taxa sobre a tributação em propriedades é baixa, assim como nos casos de herança.

“Se não criarmos formas de confiar no Governo e no sistema de tributação, todos perdem!”

Bingo!

E aí, Levy?

Vamos aumentar a transparência?

Quanto ganham os filhos do Roberto Marinho?

A garotada da Friboi?

E que tal aumentar a arrecadação com a progressividade do Imposto de Renda?

Vamos ser transparentes para as agencias de risco, ou para os brasileiros?

Bingo, Piketty!

Em tempo:

Clique aqui para ler o depoimento do Z. Guiotto, que assistiu à palestra do Piketty na USP, quando jantou com farofa dois luminares do pensamento neolibelês pátrio: o Paulo Guedes e o Andre Haras Resende.

Como o Piketty não sabe quem são, tratou-os sem a reverência que o PiG lhes dedica.

(Paulo Guedes escreve no Globo e Haras Resende era o cérebro por trás da vacuidade da Bláblárina.)

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Definição

Dependendo de quem você é, a que tribo pertence e que valores tem, suas referências são diferentes das do vizinho. O Garrincha, por exemplo, quando quis contar que estivera em Paris com a seleção não recorreu à Torre Eiffel, ao Arco do Triunfo ou ao Sena para identificar o lugar, como você e eu faríamos. Disse: “Aquela cidade em que o seu Feola caiu na banheira” (Como todas as histórias sobre a inocência do Garrincha, esta também deve ser apócrifa, mas, como ensinou o John Ford, na dúvida publique-se a lenda). Há alguns anos, por motivos nunca explicados, latas de leite em pó cheias de maconha foram dar numa praia do Estado do Rio. Muitas latas, contendo maconha da melhor qualidade — e era só pegar e levar. Houve quem agradecesse a Deus pelo milagre, pois a origem de tanta erva só podia ser divina. E até hoje o ano de 1987, em que muitas outras coisas importantes aconteceram (Gorbachev começou a abertura na União Soviética, houve o acidente com o césio radioativo em Goiânia, morreram Drummond e Golbery, o Brasil derrotou os Estados Unidos no basquete etc.), é lembrado em certos círculos apenas como o ano em que deu maconha na praia.

Fiquei pensando no que eu escolheria como sendo emblemático dos tempos atuais. Um fato, uma pessoa, uma curiosidade que resumisse tudo o que estamos passando. Escolher a frase símbolo destes dias seria fácil: é “Às favas com os escrúpulos”, dita pela primeira vez na reunião do alto-comando do golpe de 64 que instituiu o AI-5. Os escrúpulos mandados às favas, então, eram quaisquer considerações de direitos humanos e processos democráticos — ou seja, qualquer frescura que atrasasse a ditadura. Com o passar do tempo os escrúpulos mandados longe adquiriram outros significados — ética, moral, honra, vergonha na cara — e sua falta trouxe os escândalos em série que nos assolam. Frases podem definir eras — já se disse que a frase símbolo do século 20, o século dos campos de extermínio e das bombas nucleares, poderia ser “Estávamos apenas cumprindo ordens” —, mas só frases não satisfazem nossa necessidade de uma definição perfeita, pela qual vamos nos lembrar destes tempos para sempre. E acho que a encontrei.

A notícia saiu nos jornais sem muito destaque: membros do batalhão de elite do Exército que formam os Dragões da Independência foram pegos assaltando um posto de gasolina. Claro que a corporação não tem nada a ver com o comportamento de três ou quatro delinquentes, que serão castigados, mas a posteridade não vai querer saber disso: o lembrado será que houve um tempo no Brasil em que a falta de escrúpulos era tanta que membros da guarda cerimonial da Presidência da República estavam assaltando postos de gasolina. Gente: Dragões da Independência!

Luís Fernando Veríssimo
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Uma sombra no bastidor

Sinto a presença de Antonio Palocci por trás do esforço de recompor o esquema inicial do primeiro governo Lula

Essa figura esgueira-se nos meus pensamentos
Nilton Cardim
Pergunto de abrupto aos meus botões: seria Antonio Palocci um saudosista? Se os botões pudessem piscar maliciosamente, assim o fariam. Trafega uma sombra pelos meus pensamentos, a deslizar sorrateira no bastidor da cautelosa gestação do futuro governo da República. Algumas nomeações certamente gozam da aprovação paloccica. Mas não seria a sombra dele mesmo, ministro da Fazenda de Lula no primeiro mandato e chefe da Casa Civil de Dilma por alguns meses? Não se teria abalado, o indomável Palocci, a distribuir um ou outro palpite, um ou outro conselho?

É aí que se revela a saudade alimentada pela personagem, como se o projeto fosse reconstituir os começos do primeiro governo Lula, dirigidas as devidas mesuras à casa-grande, aquietados os terrores de quem gostaria de viver em Dubai, tranquilizados os fiéis do deus mercado. Obra capital da operação sorriso, a “Carta aos Brasileiros”. De autoria de quem mais se não Antonio Palocci? Sinto que o homem está em plena atividade, ainda que se esgueire pelos cantos.

Se valem estas minhas arriscadíssimas... procuro a palavra... sensações? Intuições? Suposições? Fantasias? Pois é, caso tenham alguma relação com a verdade factual, a quais conclusões nos levam? Que o entendimento entre Lula e Dilma é muito mais profundo neste exato instante do que se imagina. O filtro entre Palocci e Dilma só pode ser o ex-presidente, sabidamente intérprete magnífico da Realpolitik.

Inquietos, os botões me puxam pelo paletó. Calma lá, suspiram, mas valeria hoje o mesmo esquema que funcionou há 12 anos? Medito antes de responder, e penso em Severina e Maria das Dores, e em todos os brasileiros que nestes 12 anos melhoraram de vida. São eles que, na reta final do pleito recentíssimo, contra o golpismo do mercado, da mídia nativa, dos brasileiros que gostariam de viver em Dubai, da reação tucana, garantiram a sofrida vitória de Dilma.

Houve avanços nestes 12 anos, sociais e na independência brasileira assentada na política exterior que nos convém. O Brasil atual não é mais aquele. A política do poder, destinada a garantir a chamada governabilidade e a enriquecer ilicitamente várias categorias de graúdos, ainda causa, contudo, estragos e atrasos monumentais em um sistema patrimonialista capaz de bater recordes mundiais em termos de cifras envolvidas.

Mudaram, eles sim, os saídos da miséria mais funda, cidadãos como todos os demais. Os graúdos sabem que não se trata do proletariado de décadas atrás nos países mais progredidos, e, antes ainda, dos sans-culottes da Revolução Francesa, o que, de certa forma, os tranquiliza, até sem se darem conta da situação, aceita como fato natural. Nem por isso as circunstâncias atuais deixam de ser bem diferentes em relação ao momento em que Lula chegou à Presidência. Mesmo porque, a crise econômica mundial só eclodiria em 2008 e seus efeitos alcançariam o País ainda mais tarde.

O que está em jogo, de todo modo,  são as esperanças realizadas e aquelas estimuladas. Creio que mais poderia ter sido feito em proveito da inclusão social, mas animadores passos adiante foram dados, e os beneficiados, ou aspirantes aos benefícios, no momento, e por incrível que soe, não pesam na balança.

Que acontecerá com movimentos sociais importantes como o MST? Que acontecerá com o próprio Partido dos Trabalhadores, aviltado por seus pecados, a exibir sua incapacidade de formar quadros à altura das circunstâncias? Nem me atiro a formular este gênero de perguntas aos meus botões, poupo-os nesta hora de grande perplexidade. De saída, sei que citarão um sábio: quem perde a ideologia, ou, se quiserem, a fé, destina-se inexoravelmente à contemplação. O que, sublinho, o qualifica à condição de súcubo.

Tenho uma última pergunta, a subir ao céu para se dissolver nas alturas nevoentas, como o fogo dos peles-vermelhas ao ameaçar a diligência ousada que singra o território hostil no fundo do vale. Se a opção é crescer ou crescer, qual seria o nexo entre o propósito e sua realização se nos rendermos ao deus mercado? Ou é admissível que os empresários brasileiros, abandonados irresponsavelmente, e de várias maneiras ao seu destino, tornaram-se todos, sem distinção, rentistas?

Mino Carta
No CartaCapital
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O manifesto e a malandragem de O Globo

Na segunda-feira (24), um grupo de intelectuais, lutadores sociais e ativistas digitais — de várias origens e partidos políticos — lançou o manifesto “Em defesa do programa vitorioso nas urnas”. O objetivo era criticar a violenta ofensiva da direita derrotada nas eleições, que tenta enquadrar a presidenta Dilma Rousseff e, ao mesmo tempo, cobrar do novo governo uma postura mais ousada para avançar nas mudanças no Brasil. O texto teve ampla repercussão nas redes sociais, ecoou no Palácio do Planalto e foi objeto das intrigas e das futricas da mídia oposicionista. Nesta quinta-feira (27), o jornal O Globo reconheceu publicamente o impacto do documento e dedicou um editorial — intitulado malandramente de “Cegueira ideológica no manifesto petista” — para desqualificá-lo.

Os barões da mídia — que fizeram campanha aberta e criminosa contra a reeleição de Dilma Rousseff, conforme comprovado pelo site “Manchetômetro” e que agora esperneiam para impor o programa dos derrotados ao novo governo — não aceitam a legítima pressão de outros setores da sociedade. Para eles, a luta de classes deveria ser extinta, de preferência nos porões da ditadura ou por um decreto tucano. O jornal da famiglia Marinho, que faz pressão para impor seus ministros e seu programa neoliberal de austeridade fiscal, aperto monetário, privatização, arrocho salarial e desemprego, sentiu o impacto do manifesto e, por isso, tenta ridicularizá-lo. Trata seus signatários como esquerdistas que não enxergam a realidade e que vivem num “mundo visto pela lógica das ideologias”.

Para o jornal O Globo, que defende os interesses dos banqueiros e dos latifundiários, o documento peca por criticar as escolhas do rentista Joaquim Levy e da ruralista Kátia Abreu para o ministério de Dilma. A tentativa de demonizá-los, afirma o diário, confirmaria a visão maniqueísta de setores da esquerda, que “parecem acometidos de um purismo tardio e fora de época”. Para o jornal, a confirmação destes nomes seria a prova cabal da força do “deus-mercado”. “Esses militantes poderão se sentir traídos por Dilma. Mas terá de ser reconhecido que a presidente reeleita demonstrou admitir algo, de forma implícita, por sobre suas convicções ideológicas: que o Estado brasileiro ruma para a insolvência, devido ao fracasso da sua política do ‘novo marco macroeconômico’”.

“O manifesto falseia ao afirmar que possíveis nomeações de ministros ‘sinalizam uma regressão da agenda vitoriosa nas urnas’. Faltou atenção aos redatores: se em nenhum momento a candidata Dilma disse dos palanques o que faria em termos de política econômica, também não foi enfática na defesa da manutenção dos rumos. Alardear que está a favor da manutenção de empregos e dos pobres é o mesmo que defender em praça pública a luz elétrica e a água encanada. Ninguém discorda. O problema é fazer com que não faltem nem luz nem água. E esta é responsabilidade direta da presidente, e não do PT e de seus militantes”, concluiu o editorial, que não esconde o seu titânico empenho em impor a agenda dos derrotados à presidente reeleita.

Em síntese: O Globo reconheceu a força do manifesto, que reproduzo abaixo — só para irritar os editorialistas a soldo da famiglia Marinho:

* * *

Em defesa do programa vitorioso na urna

A campanha presidencial confrontou dois projetos para o país no segundo turno. À direita, alinhou-se o conjunto de forças favorável à inserção subordinada do país na rede global das grandes corporações, à expansão dos latifúndios sobre a pequena propriedade, florestas e áreas indígenas e à resolução de nosso problema fiscal não com crescimento econômico e impostos sobre os ricos, mas com o mergulho na recessão para facilitar o corte de salários, gastos sociais e direitos adquiridos.

A proposta vitoriosa unificou partidos e movimentos sociais favoráveis à participação popular nas decisões políticas, à soberania nacional e ao desenvolvimento econômico com redistribuição de renda e inclusão social.

A presidenta Dilma Rousseff ganhou mais uma chance nas urnas não porque cortejou as forças do rentismo e do atraso e sim porque movimentos sociais, sindicatos e milhares de militantes voluntários foram capazes de mostrar, corretamente, a ameaça de regressão com a vitória da oposição de direita.

A oposição não deu tréguas depois das eleições, buscando realizar um terceiro turno em que seu programa saísse vitorioso. Nosso papel histórico continua sendo o de derrotar esse programa, mas não queremos apenas eleger nossos representantes políticos por medo da alternativa.

No terceiro turno que está em jogo, a presidenta eleita parece levar mais em conta as forças cujo representante derrotou do que dialogar com as forças que a elegeram.

Os rumores de indicação de Joaquim Levy e Kátia Abreu para o Ministério sinalizam uma regressão da agenda vitoriosa nas urnas. Ambos são conhecidos pela solução conservadora e excludente do problema fiscal e pela defesa sistemática dos latifundiários contra o meio ambiente e os direitos de trabalhadores e comunidades indígenas.

As propostas de governo foram anunciadas claramente na campanha presidencial e apontaram para a ampliação dos direitos dos trabalhadores e não para a regressão social. A sociedade civil não pode ser surpreendida depois das eleições e tem o direito de participar ativamente na definição dos rumos do governo que elegeu.

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