17 de nov de 2014

Dilma e a ameaça de golpe pós-moderno


Sem condições de enfrentar consciência democrática do país, oposição tenta transformar vitória de presidente eleita em caso de polícia

Embora o significado geral da campanha presidencial de 2014 ainda não tenha permitido uma análise final por parte de nossos analistas, há um consenso em torno de duas constatações. A primeira: jamais a política brasileira assistiu a um conflito eleitoral onde os interesses de classe ficaram tão nítidos para a maioria dos eleitores. A segunda constatação: consumando a quarta vitória eleitoral consecutiva de um bloco de poder historicamente excluído do comando do Estado, a eleição impôs uma derrota sem precedentes aos sistemas de poder que governaram o país ao longo da maior parte de sua história. Mesmo em países cuja democracia é rotulada de madura pelos estudiosos é raro observar tamanha sequência de vitórias consecutivas de partidos ligados aos interesses das camadas subalternas.

Mesmo assim, o país assiste hoje, quando falta um mês para a cerimonia de inauguração do segundo mandato de Dilma, em 1 de janeiro de 2015, a um esforço articulado para cercar o novo governo e tumultuar sua posse, se não for possível impedir que ela ocorra.

Como se não tivessem ocorrido eleições, vencidas de forma limpa e clara. Ainda que a vontade do eleitor tenha sido influenciada por um golpe eleitoral midiático nas ultimas 72 horas, Dilma venceu por uma margem semelhante aquela que se verifica com frequência em países de tradição eleitora consolidada. Mesmo assim, a oposição tenta emparedar Dilma e produzir um ambiente de crise, através de um ambiente de permanente rebelião conservadora.

A derrota nas urnas de 26 de outubro teve um efeito nada surpreendente para enfraquecer as convicções democráticas — historicamente fracas e ambíguas — de boa parte da oposição, inclusive do PSDB, legenda que abriga quadros que participaram da oposição ao regime militar.

Em condições normais, a descoberta de que as investigações sobre a Petrobras são conduzidas por um núcleo de delegados que se engajaram abertamente, nas redes sociais, para ajudar a campanha de Aécio Neves e tentar desmoralizar Dilma e Lula, deveria ter sido seguida da abertura imediata de investigações, seu afastamento dos trabalhos e a apuração de responsabilidades. É um caso óbvio de aparelhamento, ilegal, típico de tempos autoritários, quando delegados ligados aos serviços de espionagem e repressão política não escondiam simpatias políticas, achavam muito natural não reconhecer fronteiras entre as preferências pessoais e as obrigações públicas, e davam as costas para regras disciplinares.

Vinte e quatro horas depois da denúncia, a Polícia Federal deu início a uma operação de busca e prisões pelo país inteiro, em busca de material para novos depoimentos sob o regime delação premiada, que costumam ser obtidas por formas modernas de tratamento desumano. Pessoas sem culpa formada podem ser mantidas por dias, semanas e meses em regime incomunicável, enfrentando interrogatórios destinados a quebrar o moral e o equilíbrio psicológico.

De grande utilidade para alimentar a campanha política antipetista, novas delações premiadas devem esquentar o ambiente nas próximas semanas. Podemos imaginar quem se procura atingir com elas. Talvez nem seja necessário, se depender da vontade do Estado de S. Paulo, para quem Lula e Dilma desde já devem ser enquadrados em “crime de responsabilidade” e “pagar pelo que fizeram e não fizeram.”

Nas próximas semanas teremos o exame das contas da campanha de Dilma no TSE, agora a cargo do ministro Gilmar Mendes, um adversário tão escancarado das causas petistas na Justiça que um número razoável de juristas acredita que o partido deveria entrar com pedido de suspeição para impedir que examinasse o caso.

(Não deixa de ser amargamente irônico lembrar que caberá justamente a Gilmar Mendes, partidário integral da participação das empresas privadas em financiamentos de campanha, capaz de paralisar a decisão do STF em função disso, julgar as contas do partido que se propõe a eliminar as contribuições de pessoas jurídicas).

No planos das possibilidades práticas, cabe lembrar que a legislação não permite que uma autoridade eleita não seja empossada caso a Justiça encontre uma irregularidade em suas contas. Mas é possível pedir a cassação dos direitos políticos de uma autoridade eleita, desde que se aponte para uma “falta grave” nas contas.

Será que isso pode aparecer com as delações premiadas? Pode ajudar? Logo veremos.

Vale à pena recordar, em 2014, a lição de um dos mais importantes pensadores da política no século XX, Isaiah Berlim. Acadêmico de clara visão conservadora — um de seus admiradores era Winston Churchill — Berlim ensinou uma lição essencial de um período de crises, revoluções e ditaduras. Explicou que não vale gostar dos princípios democráticos quando eles nos beneficiam e favorecem nossos amigos. Contestou a noção, tão arraigada, que as boas eleições são aquelas que favorecem nossos próprios candidatos.

Para Isaiah Berlim, os princípios verdadeiros são justamente aqueles que contrariam nossos interesses.

Em 1992, quando Fernando Collor foi afastado cargo por decisão do Congresso, surgiu dentro do PT um movimento contra a posse de Itamar Franco.

Com o argumento de que Collor e Itamar eram a “mesma coisa”, até porque os dois estavam ligados pela mesma campanha que teve PC Farias como tesoureiro, uma corrente de petistas e não-petistas queria aprovar a palavra-de-ordem “Fora Itamar” num encontro do partido. Adversário dessa ideia, o então deputado José Dirceu, no apogeu de seu prestígio, foi à tribuna para encaminhar o voto contra. Dirceu dobrou aquele plenário com vários argumentos e uma ameaça. Seria capaz, disse, de deixar o PT, do qual era o principal dirigente depois de Lula, caso o Fora Itamar fosse aprovado. O “Fora Itamar” foi derrotado, mas o episódio jamais foi devidamente reconhecido na biografia de Dirceu, que na época recebia críticas internas por sua postura moderada. Mas, com sua intervenção, ele contribuiu para que o calendário político fosse respeitado. A voz das urnas — vitoriosa em 1989, válida até 1994 — foi atendida.

O comportamento agressivo que se vê nas ruas de 2014, os protestos, os pedidos de impeachment e até o chamado aos militares é o resultado esperado a partir de um conjunto de artifícios e operações de caráter antidemocrático produzidos pelo PSDB ao longo da campanha. A propósito: você já viu o número 2 do PSDB, ou o 3, o 4, o 5, ou sei lá, o número 100, o 2 000, fazer uma ameaça — sem volta — equivalente àquela de Dirceu no pós-impeachment?

Embora as derrotas sejam contingencias naturais das democracias, o comportamento do PSDB no segundo turno contribuiu de forma decisiva para aquilo que ocorre agora. Ajudou a tornar a derrota de Aécio Neves em 2014 como politicamente inaceitável e moralmente suspeita aos olhos de seus eleitores.

A retórica e um conjunto de medidas práticas tomadas pela campanha tucana práticas ajudaram a preparar o universo de intolerância e extremismo. Não estamos falando do ambiente “nós contra eles” que também marcou a campanha do PT e tem uma função educativa e politizadora numa campanha eleitoral, impedindo a formação de um clima de geleia geral tão apreciada pelos adversários de propostas claras.

É significativo que a campanha do PSDB tenha alimentado seus eleitores com dados sabidamente falsos das pesquisas eleitorais. Vantagens absurdas na reta final da eleição, que seguiram sendo divulgadas depois que os principais institutos de pesquisas diziam de forma unanime que Dilma já se encontrava na dianteira, fora da margem de erro, eram divulgadas como se pudessem ser verdadeiras.

O efeito ia além do truque bisonho de impedir uma debandada nas próprias fileiras. O que se fazia era alimentar a ilusão de que o candidato seguia na frente, com larga vantagem. Essa fabricação não era gratuita. Ajudava a cultivar a noção, antidemocrática e sociologicamente falsa, de que a derrota jamais poderia ser expressão da vontade legítima dos eleitores, mas poderia ser urdida através de operações inaceitáveis.

Esta mentira é o combustível dos protestos que se vê nas ruas.

Ao tratar como fato sabido e comprovado que Lula e Dilma tinham conhecimento — e, por consequência, davam aprovação — das tramas corruptas no interior da Petrobras, VEJA contribuiu para criar um ambiente eleitoral de confronto além da política, dos interesses e visão de mundo que marcaram o segundo turno – mas entre pessoas indignadas e seus cúmplices, entre os honestos e os aproveitadores e malandros.

Mascarada por seus inimigos, a democracia, desse ponto de vista, tornou-se um sucedâneo da questão social nos tempos da República Velha: um caso de polícia.

O caminho do golpe, claro está, reside na tentativa de desmoralização de Dilma e Lula.

As rupturas democráticas sempre são produto de medidas de força, ainda que, em respeito a consciência de cada época, seja conveniente lhes dar uma cobertura democrática. John Kennedy deu sinal verde para a conspiração militar que derrubou João Goulart mas, depois de denunciar o regime comunista de Cuba e exigir sua expulsão de organismos internacionais, era obrigado a assumir compromissos com a liturgia democrática.

Por isso Kennedy apoiou o golpe, mas estabeleceu a condição de que era preciso encontrar uma base constitucional para afastar Goulart da presidência. Essa foi a raiz de exigências formais dos golpistas, como a declaração da vacância da presidência — cumprida de forma bastante atabalhoada, quando Jango sequer deixara o país.

E essa é a questão agora.

A vitória de 26 de outubro revelou aos brasileiros que elegeram Dilma contra todas as adversidades que eles são detentores de uma força insuspeita, que muitos sequer sabiam possuir. Essa força estava nos comícios que antecederam a votação, e marcaram as celebrações após a contagem dos votos.

Este é o principal obstáculo para as manobras contra a vitória democratica de 26 de outubro.

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Com “fora PT”, direita resgata nas ruas o higienismo sobre o chão social do fascismo



Beatriz Macruz e Caio Castor acompanham as manifestações de rua desde junho de 2013. No vídeo acima, eles fazem um balanço dos protestos, à direita e à esquerda.

No protesto mais recente, de sábado passado, eles registraram a divisão na direita: um bate boca via trios elétricos entre os que pedem o impeachment de Dilma Rousseff e os que defendem uma intervenção militar.

O encontro reuniu monarquistas e conservadores em geral, muitos dos quais não se consideram representados pelo sistema partidário — nem PT, nem PSDB.

Como tem escrito o Viomundo, com o megaescândalo da Petrobras, não é apenas o governo Dilma e o PT que estão em xeque, mas todo o sistema de representatividade, uma vez que as empreiteiras são as maiores financiadoras de campanhas eleitorais no Brasil.

O indício apontado pela Polícia Federal (PF) no relatório de inteligência [Nota do Viomundo: de que doações legais eram parte do esquema] tem potencial para comprometer metade do Congresso Nacional. Levantamento do Valor, com colaboração do Valor Data, mostra que oito das nove empreiteiras listadas nesta fase da operação ajudaram a eleger 259 dos 513 deputados federais eleitos com a distribuição de R$ 71 milhões em doações. Trata-se de 50,4% da futura Câmara.

Os dados, que contabilizam repasses das empreiteiras e principais subsidiárias de cada grupo, constam da prestação de contas entregue pelos candidatos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Apenas a Iesa Óleo e Gás não tem nenhuma doação registrada. O grupo com maior volume de doações — e aliados na futura Câmara dos Deputados — é a Odebrecht, que transferiu R$ 37,9 milhões para 141 deputados eleitos. Em seguida aparecem os grupos Queiroz Galvão (R$ 9,8 milhões para 88 eleitos), OAS (R$ 8,4 milhões para 84 deputados), UTC (R$ 5,6 milhões para 58 eleitos) e Galvão Engenharia (R$ 4,3 milhões para 14 deputados). Os repasses de Camargo Corrêa, Engevix e Mendes Júnior totalizaram R$ 4,9 milhões, para 45 deputados eleitos.

As doações foram feitas para partidos de todos os espectros políticos. Estão na lista deputados do PT, PMDB, PP, PDT, PCdoB, DEM, PSDB, PR.
Os dados acima dispensam comentários.

No Viomundo
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A receita de Eduardo Cunha para virar herói da mídia

Cunha na TVeja
Eduardo Cunha, candidato à presidência da Câmara, descobriu uma coisa aos 56 anos: basta ser contra o governo para virar um herói da mídia.

Cunha concede entrevistas, nestes últimos tempos, como se fosse um supercraque da Champions League.

Ele é um personagem ubíquo em jornais, revistas e sites das grandes empresas jornalísticas.

Bater em Dilma e no governo opera um milagre da transformação em seu perfil como personagem da mídia.

Cunha agora aparece dando sermões sobre corrupção – ele que no A a Z da malandragem preenche virtualmente todas as letras.

É que ele passou a ser amigo da imprensa.

Um fenômeno parecido ocorreu, algum tempo atrás, com Joaquim Barbosa. Era visto com extrema reserva por ter sido indicado por Lula para o STF.

Depois que passou a dar cacetadas no PT no Mensalão, virou manchete diária. Numa de suas capas já clássicas pelo bestialógico, a Veja o chamou de “o menino pobre que mudou o Brasil”.

Pausa para rir.

JB, está claro, não mudou nem a si próprio, ou o Supremo, ou o Judiciário — e muito menos o Brasil.

No site da Veja, antes que Eduardo Cunha fosse promovido a aliado, ele foi incluído num levantamento chamado “Rede de Escândalos”.

Ali você lê que ele é alvo de inquéritos no STF por crimes tributários.

Repare: crimes, plural, e não crime, singular.

Você fica sabendo também que ele responde a ações por crimes de improbidade administrativa.

Fora do levantamento, o jornalista Lauro Jardim, da seção Radar, informa que Eduardo Cunha é mentiroso.

“Eduardo Cunha andou falando que não conhecia o lobista Fernando Soares, o Baiano, citado por Paulo Fernando Costa em seus depoimentos.

Admitiu, no máximo, ter estado com ele sem saber quem era.

Elogiado até por adversários por sua memória prodigiosa, Cunha deve ter tido, sabe-se lá por que, um lapso.

Baiano já esteve diversas vezes na casa de Cunha, no Rio de Janeiro, em companhia de outras pessoas.”

Cunha, se não fossem suficientes ao dados da Veja, agride a Constituição como dono de rádio. Político, diz a Constituição, não pode ter rádio. Mas Cunha, como tantos outros representantes do atraso, tem — mediante gambiarras jurídicas de moralidade abaixo de zero.

Era assim que ele era apresentado pela mídia enquanto era aliado de Dilma.

Hoje, ele parece Catão, o último reduto da moralidade romana, se você acreditar em jornais e revistas.

Numa entrevista à tevê da Veja, a apresentadora Joice Hasselman, a Sheherazade loira, prostrou-se diante de Cunha.

O colunista do UOL Josias de Sousa, em sucessivos textos, vem tratando com reverência Cunha, e repercutindo prazerosamente suas previsões apocalípticas sobre Dilma, bem como suas palavras edificantes contra a corrupção.

E eis Cunha então como um quase santo, aos olhos da mídia.

Sua obra suprema para a beatificação: ser contra Dilma.

Paulo Nogueira
No DCM
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Os impactos da Operação Lava Jato no mercado de infraestrutura


A Operação Lava Jato ganhou uma nova dimensão com a prisão dos presidentes de grandes empreiteiras nacionais. A Polícia Federal emitiu mais de 30 mandatos de prisão preventiva e de condução coercitiva, e quase 40 mandatos de busca e apreensão. Já foram detidos executivos da OAS, Camargo Corrêa, UTC, IESA e Queiroz Galvão. Irão completar a lista, nomes da Engevix, Mendes Junior e Odebrecht.

O Ministério Público Federal revelou que essas empresas têm contratos com a Petrobras que somam R$ 59,4 bilhões. A Justiça já bloqueou R$ 720 milhões dos executivos investigados. A Polícia Federal chegou a solicitar que fossem bloqueados 5% dos bens das empresas, mas o juiz Sérgio Moro negou, alegando que isso poderia prejudicar a saúde financeira das companhias. No entanto, ele não descarta que essa medida possa ser adotada futuramente.

Se por um lado é um bom sinal que corruptos e corruptores estejam sendo descobertos e presos, por outro, causa uma profunda preocupação que as maiores empresas brasileiras de infraestrutura estejam envolvidas no escândalo. Se essas companhias forem declaradas inidôneas, o que acontecerá com as obras do país?

De acordo com Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Estudos Jurídicos da Infraestrutura (IBEJI), ainda não há nenhuma medida anunciada de ação de improbidade contra as empresas que possa leva-las à inidoneidade. “Por hora, o que há são medidas de natureza criminal que podem levar eventualmente à punição das pessoas físicas. Mas caso se encontre atos de improbidade nos contratos travados pelas empresas com a Petrobras, pode sim haver ações que trariam consequências graves para empresas condenadas”, explica.

Ele não vê possibilidade de aplicação da Lei Anticorrupção. “Na minha interpretação, é inaplicável nesse caso. Embora não seja uma lei criminal, a Lei Anticorrupção estabelece sanções civis, então, ela não pode ter efeito sobre atos praticados antes de sua entrada em vigência”.

Em sua opinião, o que pode ser aplicado é a Lei de Improbidade. “Essa sim pode ser aplicada e traz consequências graves para as empresas, por exemplo, sanções de inidoneidade para licitar, de contratar com o poder público, de receber financiamento. Praticamente acaba com a vida dessas empresas”, garante.

Para Pedro Serrano, é preciso pensar no custo benefício que essas medidas de controle trazem para a sociedade. “Se todas as empresas forem no futuro condenadas você vai acabar com o mercado brasileiro. Significaria extinguir as empresas nacionais e abrir o mercado para as estrangeiras. Isso é trágico, em minha opinião, para os interesses nacionais. Nós temos setores dos serviços de engenharia onde somos reconhecidos mundialmente. Nós vamos perder esse espaço, perder essa tecnologia”, acredita.

Ele entende que a alternativa é seguir a tendência internacional e buscar preservar a vida das empresas nacionais, punindo com multas, firmando acordos para que essas companhias adotem medidas mais rigorosas de compliance, “como foi feito com a Siemens e a Alstom lá na Europa”. “Essa investigação do Lava Jato é um caso concreto, real, verdadeiro, onde houve crime grave. Deve-se punir corrupção, mas o custo disso não pode ser liquidar com o mercado nacional”, defende.

Sobre a possibilidade de enquadras as estatais na Lei de Acesso à Informação, Serrano só faz ressalva para que isso não prejudique a concorrência no mercado privado. “A Petrobras atua no mercado global de petróleo, em concorrência com outras empresas internacionais. Não é interesse do Brasil que essa atividade seja prejudicada nesse plano. Mas apenas nisso. Agora, contratos, por exemplo, travados com prestadores de serviço, são públicos. Então não há porque ter sigilo em relação a isso”.

Luiz de Queiroz
No GGN
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Paulo Francis não morreu

Os jornais do fim de semana registram o que pode vir a ser o ponto de inflexão das relações viciadas entre a política e os interesses privados no Brasil. A prisão de 24 altos executivos, entre os quais quatro presidentes de grandes empresas e um ex-diretor da Petrobras, coloca nas mãos da Justiça o material necessário para aprofundar as investigações sobre a corrupção e passar a limpo o sistema de financiamento de campanhas eleitorais.

A última etapa da ação policial está sendo chamada de “Juízo Final”. Os jornais dizem que serão citados pelo menos 70 senadores e deputados. Também está publicado que todos os partidos, com exceção do PSOL, foram financiados pelas empreiteiras acusadas no escândalo.

O evento coloca o Brasil diante da possibilidade de levar à frente uma “Operação Mãos Limpas” como a que sacudiu as instituições italianas nos anos 1990. O alto risco dessa operação reside no fato de que sua continuidade pode depender do empenho da imprensa em dividir com equilíbrio e de forma equânime as responsabilidades, sem omitir ou dissimular as culpas conforme a filiação partidária dos acusados. Deve-se lembrar também que o esquema descrito pelos jornais na segunda-feira (17/11) é uma cópia exata do “clube de fornecedores” revelado no escândalo do metrô de São Paulo.

Entre as muitas páginas publicadas desde sábado (15), apenas a Folha de S. Paulo dá espaço para os dois pontos que irão definir o alcance da ação policial. Num deles, o colunista Luiz Fernando Viana (ver aqui) critica a omissão da imprensa em buscar as origens do esquema de corrupção que envolve gestores públicos e fornecedores de produtos e serviços ao Estado. O jornalista questiona: “Por que passamos a achar que nos cabe apenas noticiar os acontecimentos mais recentes, sonegando ao leitor informações que ampliariam sua capacidade de discernimento?”

No outro exemplo, o articulista Ricardo Melo observa (ver aqui), muito a propósito, que, em 1997, o jornalista Paulo Francis afirmou, em comentário no programa Manhattan Connection, que havia um esquema de roubalheira na Petrobras. O então presidente da empresa, Joel Rennó, em vez de tomar alguma providência, abriu um processo de US$ 100 milhões contra Francis, lembra o articulista da Folha.

Um fantasma nas redações

Portanto, está definido o ponto mínimo de movimentação da imprensa diante do escândalo, sem o qual o noticiário deixa de merecer credibilidade: quais eram os fatos a que se referia o polêmico comentarista.

O jornalista Franz Paul Heilborn, que assinava sua coluna nos jornais e se apresentava na TV como Paulo Francis, morreu menos de um mês depois de ser informado por seus advogados de que não tinha como se defender no processo movido pela Petrobras na corte de Nova York. Como havia acusado sem provas, baseado em fontes que não podia revelar, entrou em depressão e sofreu um estresse que causou sua morte por um ataque cardíaco, segundo revelou sua mulher, a jornalista e escritora Sonia Nolasco.

A lembrança de sua denúncia vem agora assombrar antigos dirigentes da empresa petroleira e colocar a imprensa brasileira diante de um dilema: se persistir em circunscrever o escândalo aos fatos recentes, datando o processo a partir do ano 2013, o noticiário ficará marcado pelo partidarismo e a manipulação. Se for investigar as origens do escândalo, completando a pauta levantada por Paulo Francis há 17 anos, terá que reconhecer que a corrupção na Petrobras tem raízes mais profundas, e estará aberto o caminho para uma operação de larga escala contra a roubalheira. O ponto de partida dessa pauta é sua afirmação de que, em 1997, diretores da Petrobras engordavam contas bancárias na Suíça com dinheiro de propinas obtidas na compra de equipamentos.

O escritor e colunista Carlos Heitor Cony já havia feito pelo menos duas referências à sua história, em março e setembro deste ano (ver aqui e aqui), na própria Folha, mas nenhum jornal teve interesse em revisitar o passado. Cony e outros jornalistas que trabalharam com Francis, como este observador, sabiam que ele não era um repórter investigativo, mas tinha fontes poderosas. Os fatos que agora vemos expostos nos jornais demonstram que sua denúncia tinha fundamento.

A revelação de que policiais federais do Paraná envolvidos na Operação Lava Jato atuavam como cabos eleitorais do PSDB cria para a instituição um dever de honra: levar o inquérito aos níveis de uma “Operação Mãos Limpas”, acabando com o vazamento seletivo de informações.

Os jornais não poderão seguir com seu joguinho de mostra-e-esconde. O fantasma de Paulo Francis vai assombrar as redações.

Luciano Martins Costa
No OI
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Desabafo Coxinha


Rebelde de Lantejoulas

Uma das maiores fontes de humor involuntário, hoje, no Brasil, são esses depoimentos de guerrilheiros de shopping centers de São Paulo.

A mocinha em questão, cansada de tanta guerra, faz um desabafo comovente contra a luta de egos na Coxinlândia, sobretudo entre os grupos que querem o impeachment de Dilma e outros, favoráveis à intervenção militar.

Logo ela, que ajudou na organização, mas acabou impedida de subir no trio!

Vai ver, estava com o abadá errado.

Mas, ao menos, teve uma vitória importante: colocou, dentro da manifestação, "gente influente da Veja"!

Hahahahahaha!


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"Advogado de Youssef operava para o PSDB"


A entrevista de Rodrigo Janot, procurador-geral da República, ao jornalista Severino Mota (leia abaixo), tem um trecho importantíssimo. Segundo ele, houve uma tentativa indevida de interferência na sucessão presidencial deste ano, por parte do advogado Antonio Figueiredo Basto, que defende o doleiro Alberto Youssef e foi indicado pelo governador tucano Beto Richa para o conselho da Sanepar, a empresa paranaense de saneamento.

"Estava visível que queriam interferir no processo eleitoral", disse Janot. "O advogado do Alberto Youssef operava para o PSDB do Paraná, foi indicado pelo Beto Richa para a coisa de saneamento, tinha vinculação com partido."

O resultado dessa vinculação foi a profusão de vazamentos seletivos, que visavam atingir a campanha presidencial de Dilma Rousseff. "O advogado começou a vazar coisa seletivamente. Eu alertei que isso deveria parar, porque a cláusula contratual diz que nem o Youssef nem o advogado podem falar", disse Janot. "Se isso seguisse, eu não teria compromisso de homologar a delação."

Prisões vão levar executivos a abrir o jogo, diz procurador

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, espera que a prisão de executivos e presidentes de grandes empreiteiras do país na operação Lava Jato faça com que muitos dos detidos busquem o instituto da delação premiada para tentar reduzir o tamanho de suas penas.

"Isso é um rastilho de pólvora. Quando um começa a falar, o outro diz: Vai sobrar só para mim?'. E aí eles começam a falar mesmo."

Questionado sobre a possibilidade de haver uma quadrilha operando no desvio de recursos da Petrobras, Janot afirma que "em princípio sim, tudo indica que sim, mas está cedo para falar ainda".

À Folha, o procurador fez ainda um balanço de sua gestão no comando do Ministério Público e rechaçou críticas de que recomendou o arquivamento de muitos inquéritos no Supremo Tribunal Federal desde que assumiu o cargo, em setembro de 2013.

Novas delações

Isso é um rastilho de pólvora. Quando um começa a falar, o outro diz: Vai sobrar só para mim?', e aí eles começam a falar mesmo. Todos vão negociar. Se um abrir a boca, abre todo mundo. Um me perguntou: E se eu não tiver ninguém para entregar?' Eu disse: Sempre tem, você pode se entregar, se entregue, autodelação'. Eu só não aceito perdão judicial [no acordo de delação]. Se for um crime que tenha já semiaberto, sempre que for possível eu vou botar o aberto. Vá cumprir pena em casa, sem problema nenhum.

Empreiteiros

Em principio é fraude em licitação, lavagem de dinheiro, crime contra o mercado e corrupção ativa.

Elas [empreiteiras] diziam que eram alvo de concussão [exigência de dinheiro por parte de funcionários da Petrobras]: Eu sou obrigado a dar, senão eu não consigo participar desse negócio e eu morro à míngua'. Se puder me explicar como a fraude à licitação decorre de concussão, eu concordaria com a tese. Como a concussão te obriga a fazer um cartel, fraudar uma licitação e ganhar um dinheirão? Está sendo extorquido para ganhar dinheiro? Para ter que botar US$ 100 milhões no bolso? Vamos combinar, não é. A delação quebrou com essa ponte.

Presídios

A gente ainda vai pegar esse dinheiro. Hoje são cerca de R$ 700 milhões bloqueados [dos empreiteiros]. Se as empreiteiras vierem [fazer delação], nas cláusulas do acordo, vamos colocar a exigência para a construção de presídios. Nós vamos ter que fazer licitação para construir? Não. Eles vão me dar é in natura'.

Políticos

São muitos fatos e muitas pessoas. Há também muita gente que não tem foro, mas tem relação com o fato. O que estamos investigando? Pagamento de propina com dinheiro desviado da Petrobras. As empreiteiras faziam o retalho das licitações. Teu lote é aquele, teu lote é aquele outro. Eu pego meu lucro, engordo ele, os outros engordam mais. Essa diferença entre meu lucro e o que engordei vai irrigar o sistema. Desse dinheiro, pelo que entendi do [ex-diretor da estatal] Paulo Roberto Costa, você tem dinheiro destinado a caixa dois de campanha.

Interferência

Estava visível que queriam interferir no processo eleitoral. O advogado do Alberto Youssef operava para o PSDB do Paraná, foi indicado pelo [governador] Beto Richa para a coisa de saneamento [Conselho de administração da Sanepar], tinha vinculação com partido. O advogado começou a vazar coisa seletivamente. Eu alertei que isso deveria parar, porque a cláusula contratual diz que nem o Youssef nem o advogado podem falar. Se isso seguisse, eu não teria compromisso de homologar a delação.

Legado da Lava Jato

O sistema republicano e a Justiça começam a mudar de paradigma. A Justiça de três, quatro anos para cá, não é mais uma justiça dos três Ps, de puta, de preto, de pobre. Ela está indo em cima de agente político e de corruptor. Acho que [essas novas operações e prisões] serão o grande propulsor da reforma política. E esse sistema é corruptor mesmo, se continuar esse sistema não vai mudar nada, pois vamos derrubar essas pessoas e outros virão ocupar esses espaços. O efeito que estou apostando é a reforma política.

Arquivamento

Eu arquivei 65 inquéritos, desses, cinco envolvem o senador Cícero Lucena (PSDB-PB). Em dias separados pegou uma motoca, botou caixa de som e começou a fazer propaganda eleitoral. Instauram-se cinco inquéritos, crime eleitoral, ambiental e de trânsito. Outros cinco da Kátia Abreu (PMDB-TO). Uso de armas da República em papel da CNA (Confederação Nacional da Agricultura). Há caso de deputado que cometeu crime quando era prefeito, mas foi verificar e ele não era prefeito no período. Arquivei um do senador Fernando Collor (PTB-AL). Alguém num avião ouviu que o Collor havia mandado matar o PC Farias e abriram inquérito de homicídio. Você precisa ter um mínimo de elementos para abrir inquérito. No STF se perguntavam como esses casos poderiam estar lá, ocupando a pauta do Supremo. O que eu fiz? Tirei o que tinha de lixo. E mais vai sair. Dizem que eu arquivei só do PT. São 20 do PMDB, 8 do PSDB e 3 do PT.

Inquéritos abertos

Eu requisitei a instauração de 29 inquéritos. Coisas que têm fundamentos. Também apresentei 11 denúncias contra parlamentares. Isso sem contar o trabalho na Lava Jato, na operação Ararath [que apura crimes contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro em Mato Grosso]. A atuação está visível.

Severino Motta
No fAlha
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Dilma e direita se movem no tabuleiro


Ainda que os debates do segundo turno das eleições tenham sido polarizados em temos mais simbólicos do que programáticos — petismo versus anti-petismo, nordeste versus sul, respeito à pluralidade versus intolerância fundamentalista — a candidatura Dilma Rousseff reuniu em torno de si um amplo campo de esquerda.

Reuniram-se de dissidentes do PSB a apoiadores do PSOL, passando pelos movimentos sociais minimamente irmanados na ideia do combate ao retrocesso e na sinalização clara de que o próximo mandato precisa avançar mais em questões sociais e conquistas concretas para os trabalhadores.

Por sua vez, a oposição esteve muito próxima de ganhar as eleições e tem pautado para que o vencedor governe com o programa do derrotado, nitidamente baseado na austeridade fiscal, que em termos práticos significa manter os ganhos do mercado transferindo a conta para os trabalhadores.

Desde o fim do segundo turno, o caminho que a presidenta reeleita optará é uma incógnita, com sinais difusos, que ora acenam ao mercado, ora para os setores que sustentaram sua vitória. O anúncio dos novos ministros deverá ser a primeira sinalização efetiva de por onde o novo mandato caminhará.

Por hora, a esquerda aguarda esses sinais. Entretanto, há outras movimentações que merecem a atenção dos partidos e movimentos sociais, integrantes ou não da base governista, mas alinhados com a ideia de avanços sociais. São ações que efetivadas podem bloquear e comprometer os desejos de mudança à esquerda.

O primeiro deles se desenrola no Supremo Tribunal Federal. Ministros do STF, em especial Gilmar Mendes, articulam com líderes do PMDB a votação de uma emenda constitucional que altera a aposentadoria compulsória dos seus integrantes dos 70 para os 75 anos. Nos próximos quatro anos, metade da composição da Suprema Corte será alterada com a aposentadoria de ministros.

Na prática, a emenda retira o direito da presidenta Dilma de indicar os próximos ministros durante todo seu mandato e forma uma maioria no STF. A bandeira tem atraído o novo líder do baixo clero parlamentar Eduardo Cunha (PMDB), candidato à presidência da Câmara dos Deputados. Resumindo de forma simplista, Mendes e o PMDB se comportam como aquele juiz de futebol de várzea que prorroga os acréscimos da partida infinitamente até que seu time ganhe.

A segunda movimentação a receber atenção a curto e médio prazo são as manifestações dos setores que apoiaram a candidatura Aécio Neves e que pedem a supressão da vontade popular manifestadas nas urnas, seja por um impeachment, seja por uma “intervenção militar”. Sua motivação não é baseada em nenhum argumento legal ou racional: simplesmente não aceitam as regras da democracia, em se reconhecerem como minoria e derrotados.

Até o momento, essas mobilizações receberam a adesão de poucos milhares e estão limitadas a um caráter folclórico, como a foto que circulou nas redes sociais de uma senhora pedindo “intervenção militar por 90 dias”. Provavelmente, uma descendente, ideológica de Carlos Lacerda na vontade golpista e na ingenuidade de quem foi derrubado pelo mesmo veneno, ao ter cassado dos direitos políticos pela mesma ditadura que articulou e apoiou.

Porém, até quando esse setor, mesmo que minoritário, irá se contentar apenas com as caixas de comentários das redes sociais e com seus pequenos atos? E quando os manifestantes perceberem que suas ações são de fato ineficazes para seus sonhos golpistas, simplesmente irão para a casa?

Com exceção dos latifundiários e seus jagunços, a direita brasileira nunca precisou de organizações paramilitares e milicianas, porque sempre teve o Estado para fazer o seu serviço, mas o exemplo venezuelano de provocar tumultos e promover a violência está bem próximo e pode ser uma inspiração dos defensores do apartheid social brasileiro.

Há, por fim, a mídia. É verdade que Dilma Rousseff se elegeu apesar da campanha midiática contra a sua candidatura, mas isso não significa que tenha derrotado os proprietários dos meios de comunicação e seus veículos. Em parte, é uma resposta à própria política complacente e vacilante, que o primeiro mandato teve até agora com esse setor político-empresarial.

Enquanto os partidos políticos se ocupam apenas da fisiologia do poder, tem cabido à mídia a responsabilidade de dirigir ideologicamente a direita e de fazer a batalha das idéias. A Operação Lava-Jato é didaticamente ilustrativa.

A ação da Polícia Federal se refere a um esquema de corrupção existente há pelo menos 15 anos, portanto, desde o segundo governo Fernando Henrique Cardoso, envolvendo alguma das maiores empresas brasileiras, em especial as empreiteiras e, ao que se sabe, um quinto do Congresso Nacional e todos os seus partidos.

Em vez de ressaltar que uma ação como esta só pode ser realizada num ambiente democrático, o esforço midiático joga lama não nos investigados, mas sob o atual governo. Uma pergunta a se fazer é: houve uma investigação independente contra a corrupção realizada na ditadura militar?

A capacidade da mídia de tornar o falso em senso comum é suficiente para convencer até mesmo o atual ministro da Justiça, que por sua postura mais vez vacilante, assim como no episódio da reforma política em 2013, já seria suficiente para desautorizá-lo a permanecer num segundo mandato.

Note-se que o Congresso Nacional não consta nas listas das preocupações. Isso, porque se trata de um caso perdido. É evidente que sua futura composição impedirá qualquer avanço social que passe pelo Parlamento, incluindo a reforma política, a menos que seja fruto de uma poderosa mobilização popular.

E esta, sim, deveria ser a principal preocupação da esquerda brasileira no próximo período: independente de siglas e legendas, de atuar no campo institucional ou nas ruas, partidos ou movimentos sociais, é necessário criar uma frente de esquerda social capaz de mobilizar e pressionar para que as verdadeiras reformas estruturais se realizem.

O governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro já sugeriu quais deveriam ser as bases de unidade desta frente: impedir o sequestro do Estado pelo capital financeiro e ampliar os canais de participação popular.

Os movimentos sociais, também favoráveis à constituição dessa frente, também já pontuaram suas bandeiras: reforma política, regulamentação das concessões de comunicação, a questão da moradia e da mobilidade urbana, um amplo programa de produção de alimentos saudáveis combinado com uma reforma agrária verdadeira e a taxação das grandes fortunas.

O tabuleiro está montado e os próximos movimentos das peças brancas e pretas serão decisivos para o desenrolar do jogo.

Miguel Enrique Stédile, do blog Escrevinhador
No Blog do Miro
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A “batalha do impeachment” em andamento: Congresso sob suspeição não ajuda a direita


A batalha do impeachment está em andamento antes mesmo de termos acesso aos desdobramentos da Operação Lava Jato, que desmontou o megaesquema de corrupção na Petrobras. Antes mesmo que se saiba o destino dos R$ 9 bilhões que teriam sido desviados, sempre segundo a mídia. Se as empreiteiras envolvidas tinham contratos de R$ 95 bilhões com a empresa, isso significa que como um todo a propina andava na casa dos 10%. Quem embolsou? Se a pretensão é mesmo ir fundo no caso, basta agora seguir o dinheiro.

Em Crime de Responsabilidade, no domingo 16, o Estadão entrou na campanha pelo impeachment de Dilma antes mesmo dela assumir o segundo mandato.

A lógica do matutino é de que o ex-presidente Lula e a presidente Dilma devem pagar pelo que fizeram ou deixaram de fazer:
“Diante das surpreendentes proporções do esquema de corrupção armado dentro da maior estatal brasileira com o objetivo de carrear recursos para o PT e seus aliados, não surpreende que os dois presidentes da República no poder durante o período em que toda essa lambança foi praticada soubessem perfeitamente o que estava ocorrendo”, diz o jornal. Prossegue: “Somente alguém extremamente ingênuo, coisa que Lula definitivamente não é, poderia de ignorar de boa-fé o que se passava sob suas barbas. Já Dilma Rousseff de tudo participou, como ministra de Minas e Energia e da Casa Civil e, depois, como presidente da República. Devem, todos os envolvidos no escândalo, pagar pelo que fizeram — ou não fizeram”.
Para os Mesquita o caso vai além da esfera criminal. No campo político, Lula e Dilma cometeram crime de responsabilidade, dizem eles. Trata-se de uma tentativa dupla de impeachment: contra uma presidente em exercício e contra um ex-presidente e possível futuro candidato. O Estadão, assim, atira em 2018!

Há duas explicações subsidiárias à intenção dos Mesquita: sonhos de grandeza ligados aos ecos do caso Watergate — quando o Washington Post atirou em Richard Nixon quanto este ainda era candidato a um segundo mandato, que conquistou antes de se afastar — e a tentativa de emplacar um ministro da Fazenda amigável aos banqueiros controladores do Estadão. Esta, afinal, é a verdadeira batalha política do momento: quem vai ditar os rumos da economia. O resto, como lembraria Paulo Henrique Amorim, é o luar de Paquetá.

As pretensões dos Mesquita, no entanto, esbarram nos fatos. Fernando Brito, no Tijolaço, lembrou:
A mídia vai tentar esconder isso, mas não será possível. Os procuradores que respondem pela Operação Lava Jato afirmaram ontem, em coletivas de imprensa, que o esquema de cartel das empreiteiras em obras da Petrobrás teve início antes da chegada dos diretores Paulo Roberto Costa e Renato de Souza Duque. Aliás, sempre é bom lembrar que Costa e Duque estavam na Petrobrás desde os anos 70, e que assumiram cargos de responsabilidade bem antes da eleição de Lula. Voltando aos procuradores, eles afirmaram que o esquema dura há, no mínimo, 15 anos, ou seja, desde 1999, bem antes de Lula. Sem esquecer que as mesmas empreiteiras envolvidas no esquema junto a Petrobrás, desbaratado pela Polícia Federal, também estão envolvidas com escândalos relacionados à oposição, como o Rodoanel de São Paulo.
Que as empreiteiras financiam todo o sistema político brasileiro não é novidade. Basta consultar as provas levantadas em outra operação da Polícia Federal, a Castelo de Areia, que divulgamos aqui. Além disso, se o esquema foi montado em 1999 é preciso incluir entre os envolvidos em crime de responsabilidade o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso!


A presidente Dilma, ainda na Austrália, marcou sua posição:
Eu acho que isso pode mudar, de fato, o Brasil para sempre. Em que sentido? No sentido de que vai se acabar com a impunidade. Nem todos, aliás, a maioria absoluta dos membros da Petrobras, os funcionários, não é corrupta. Agora, têm pessoas que praticaram atos de corrupção dentro da Petrobras. [...] Não se pode pegar a Petrobras e condenar a empresa. O que nós temos de condenar são pessoas. Pessoas dos dois lados: os corruptos e os corruptores. Eu acredito que a questão da Petrobras é simbólica para o Brasil. É a primeira investigação efetiva sobre corrupção no Brasil que envolve segmentos privados e públicos.
Em outras palavras, Dilma neste momento tenta tirar uma casquinha da investigação, lembrando que investigar corruptos e corruptores acontece pela primeira vez sob seu governo.

De sua parte, a direita tenta articular o embrião de um movimento parecido com o dos caras pintadas, que ajudaram a apear Fernando Collor do poder. Isso esbarrou, pelo menos em São Paulo, na divisão que se viu na manifestação de sábado: aqueles que pedem intervenção militar marchando ao IV Exército acabam parecendo doidivanas à opinião pública.

É impossível prever, a esta altura, quais serão os desdobramentos da Operação Lava Jato. Só o conhecimento oficial dos nomes dos parlamentares envolvidos vai permitir uma avaliação. Quem vai aderir à delação premiada? O que dirão os acusados em seus depoimentos? Seja como for, um Congresso enfraquecido e sob acusação não é um parceiro ideal para o pedido de impeachment de uma presidente em exercício.

O envolvimento de algumas das maiores empresas brasileiras em um megaescândalo de corrupção no interior de uma das petrolíferas mais importantes do mundo, com o objetivo de financiar políticos, coloca em xeque muito mais que o PT e o PMDB, mas todo o sistema político brasileiro. Não duvidamos que, em breve, vazamentos das próprias empreiteiras — com objetivos políticos — deixem claro que este é o caso.

Seja como for, Dilma Rousseff sabe que manter a economia em crescimento é essencial para não gerar descontentamento popular — o que poderia colocar lenha na fogueira de uma campanha pelo impeachment. Portanto, repetimos: a escolha do futuro ministro da Fazenda é, pelo menos no curto prazo, a decisão da presidente que realmente importa, para vitoriosos e derrotados nas eleições presidenciais recentes.

Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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Comédia divina – a Operação Lava Jato chegará ao PSDB

Percam todas as esperanças, vós que acreditais que a maldição do PT arrastará junto o amaldiçoado PSDB.


Vejo pelas terras do reino da esquerda a esperança de que, a partir da Lava Jato, o republicanismo tome conta do nosso sistema judiciário e que passemos o país a limpo, punindo todos os envolvidos, sejam de que partidos forem.

Não são em outro sentido as declarações da presidente Dilma neste domingo, 16/11/2014.

“[A Operação Lava Jato da Polícia Federal] mudará para sempre a relação entre a sociedade brasileira, o Estado brasileiro e a iniciativa privada. O Brasil mudará para sempre porque acabará a impunidade”.

O passado recente não me permite nutrir tais esperanças.

Ao PT será cobrado que desça ao nono ciclo do inferno. Para os outros, os corruptores, creio que tudo não passará de uma estada dura, ainda que breve, pelo Vale dos Ventos. Sem dúvida, neste instante, a vida deles foi colhida em um vendaval, mas eles têm nas suas contabilidades paralelas o passaporte para o purgatório e, de lá, a passagem para um dos sete céus.

Agora, e para alguém do PSDB pego em caso de fogo amigo? Para esse, haverá sempre o limbo. Junto aos pagãos virtuosos.

Não existe, por certo, corruptor ideológico ou doleiro de esquerda. PT e PSDB dividem o poder há duas décadas utilizando-se dos mesmos métodos. Mas não são tratados, de modo algum, da mesma maneira pela imprensa e pela Justiça. Sobre o segundo, recai o protetor manto da invisibilidade midiática que retarda a cobrança de ação do letárgico braço judiciário sempre para tempos ainda vindouros.

Vejamos.

No que este escândalo da Petrobras é diferente do escândalo envolvendo a Alston-Siemens em São Paulo? As propinas milionárias do trensalão, chamadas eufemisticamente pela nossa imprensa de "cartel". 

Há a delação premiada da Siemens, informações suficientes vindas da Suíça, sabe-se quem pagou, quanto pagou e para quem pagou. Um presidente do TCE – Tribunal de Contas do Estado, apontado como beneficiário do esquema, tinha, ou ainda tem, uma ilha em Paraty-RJ e uma mansão no Morumbi, o bairro dos milionários de São Paulo.

Um envolvido no esquema, filho da nossa alta burguesia, foi indiciado pela PF, mas isso não o impediu de ser coordenador da campanha de Aécio, nem lhe trouxe maiores problemas na Câmara dos Vereadores de São Paulo.

Um procurador que cuidava do caso literalmente engavetou-o por dois anos. Declarou que havia, pasmem, colocado o pedido de informações da justiça suíça na “pasta errada”.

A que levou tudo isso? Como está o caso do trensalão?

Já ouço que o Caso Petrobras-Lava Jato é o “maior escândalo da história” do Brasil. Ora, esse não era o mensalão do PT?

Afundar a P-36, na época, a maior plataforma de petróleo do mundo, ao custo de 11 trabalhadores mortos não é escandaloso, por certo. Quem fim deu esse caso? E o da Petrobrax, dos asfaltamentos da Baía de Guanabara e dos rios Birigui e Iguaçu no Paraná?

E FHC diz que está envergonhado com o que o PT fez com a Petrobras.

Pois bem, os petistas foram condenados na AP470 e estão cumprindo pena.

Mas e o mensalão do PSDB?

Os PSDBista não serão julgados.

Eduardo Azeredo renunciou ao mandato na ultimíssima hora para escapar do julgamento no STF. E, embora já houvesse consenso de que isso não o livraria – ver caso Donadon e desdobramentos do caso Cunha Lima, livrou-se. Seu caso foi enviado à primeira estância mineira onde aguarda a prescrição. Pimenta da Veiga, que levou R$ 300 mil de Marcos Valério por “serviços internos” está soltíssimo. Foi até candidato a governador de Minas Gerais.

José Roberto Arruda, do mensalão do DEM, foi “atrevido” ao se candidatar a governador do DF. Acabou, para desgosto de FHC, seu benfeitor, tendo a candidatura impugnada, mas chegou a liderar a campanha e está por aí, livre, leve e solto. A impugnação revoltou de tal maneira ao ministro Gilmar Mendes que este chegou a classificar a Corte que assim decidiu como um "tribunal nazista". 

Alguém se recorda de como foi a atuação do ministro Gilmar Mendes no caso do mensalão do PT?

Soltos também estão Cachoeira e Demóstenes Torres. Falar de Policarpo Jr. seria um ataque contra a liberdade de imprensa.

Sem maiores cuidados está o pessoal da “Castelo de Areia”.

Assim como José Serra e a “privataria tucana” feita no “limite da irresponsabilidade”. E seu envolvimento no "cartel" do metrô paulistano – sobre o qual só deu depoimento à PF depois de eleito senador? E o Paulo Preto?

Assim como Alckmin e o buraco do metrô — mais sete mortos. Fora alguns massacres. Quem se lembra do Pinheirinho ou da Castelinho? Quem não reagiu está vivo. E a eminente crise humanitária por falta de água, mas com alguns bilhões de reais pagos aos acionistas da SABESP, aqui e em Nova York? Ninguém se interessa em saber quem são eles, os acionistas?

A FHC, nada o perturba. Nem os R$ 200 mil por cabeça para comprar a emenda da reeleição, nem os seus apartamentos. Um, em Higienópolis-SP, comprado do mesmo banqueiro envolvido na lavagem de dinheiro do trensalão, o outro, em Paris, não sei se já foi declarado à Receita Federal. Nem sua fazenda em Burutis-MG.

Não, FHC não é o dono da Friboi, essa é do filho do Lula. Mas quando FHC começou a carreira política, que eu saiba, de terras, só possuía um pequeno sítio em Ibiúna-SP. Ninguém parece ter estranhado tal aumento de patrimônio, fora da política, FHC era um professor aposentado da USP. Nem ele parece estar preocupado em explicar nada.

É pouco?

E o aeroporto construído pela Camargo Correia na fazenda vizinha a de FHC e gentilmente cedido para seu uso? Que coincidência feliz.

PSDBista gosta de aeroporto particular, quem gosta de miséria é intelectual.

Veja Aécio Neves e seus dois aeroportos em Minas. Um em Claudio — fazenda do tio, outro em Montezuma — empreendimentos do pai já falecido. Aécio está se empenhando em conseguir um terceiro turno para as eleições de 2014 e não em dar explicações sobre essas duas “obras públicas”.

E tome Lista de Furnas, pasta Rosa e caso SIVAM.

Assunto nunca faltou, mas o PSDB ser responsabilizado, algo respingar-lhes as penas?

Não, de tapioca à Lava Jato, passando pela AP 470, é o PT o partido mais corrupto da história brasileira. E só.

Todo o mais que poderia acrescentar aqui fica por conta da ironia sábia e desesperançada de Stanislaw Ponte Preta:

“Que se restaure a moralidade, ou que nos locupletemos todos”.

Fora disso, é comédia.

Sérgio Saraiva
No GGN
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Requião defende afastamento de delegados da Lava Jato

Igor Romário de Paula e Márcio Adriano Anselmo
Maurício Moscardi Grillo e Erika Mialik Marena
Na quinta-feira passada, 13 de novembro, a reportagem de Júlia Duailibi, publicada em O Estado de S. Paulo, revelou que, no período eleitoral, quatro delegados da Polícia Federal usaram o Facebook para atacar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidenta Dilma Rousseff, que disputava a reeleição, e apoiar Aécio Neves, do PSDB.

Os quatro são responsáveis pela Operação Lava Jato, que investiga o esquema de corrupção na Petrobras, e a eles foram feitas delações premiadas, cujo suposto conteúdo foi “vazado” no período eleitoral.

A imprensa deu pouca importância ao caso, observa Janio de Freitas, que afirma mais:

 A megaoperação das prisões precipitou-se sobre o caso dos delegados e sua sugestiva atitude, abafando-o.

A megaoperação, com toda a cinematografia própria da polícia federal brasileira, foi desfechada apenas 24 horas depois que os delegados responsáveis pelo caso Petrobras apareceram comprometidos, como autores, com manifestações explicitamente agressivas contra Dilma e Lula. E de apoio a Aécio Neves.

“O comportamento desses delegados não anula a existência nem diminui um fato grave, que é o escândalo da Petrobras, mas compromete a investigação”, diz  ao Viomundo o senador Roberto Requião (PMDB-PR).

“Esses delegados acreditam que são os salvadores da pátria, quando, na verdade, estão comprometendo a investigação”, enfatiza Requião.

“Na tentativa de alterar o resultado eleitoral, eles estavam evidentemente fazendo vazar depoimentos, quebrando o sigilo da investigação”, alerta o senador. “Internet não é espaço privado”.

“Tem que se afastar esses delegados, eles estão impedidos de continuar atuando nesse caso da Petrobras”, defende Requião.

Os delegados denunciados são: Igor Romário de Paula, da Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado, a quem responde todos os policiais envolvidos na investigação; Márcio Adriano Anselmo, coordenador da Operação Lava Jato; Maurício Moscardi Grillo,  chefe da Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários; e Erika Mialik Marena, da Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros e Desvios de Recursos Públicos do Paraná

Conceição Lemes
No Viomundo
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Agora vai?

Sempre é bom lembrar. Em 1997, o jornalista Paulo Francis denunciou esquema de roubalheira na Petrobras num programa de TV. O presidente da empresa, Joel Rennó, em vez de tomar alguma providência, abriu um processo de US$ 100 milhões contra Francis.

Tampouco ocorreu ao governo de então — primeiro mandato de FHC — realizar qualquer esforço investigativo para coibir práticas conhecidas por gente da alta roda e mesmo empresários medianos. Era mais fácil intimidar o jornalista com uma multa impagável do que apurar. Como efeito colateral, o esquema contava silenciar a imprensa em geral. Sabe-se como tudo acabou.

Foi preciso que a antiga situação e hoje oposição saísse do Planalto, pelas urnas, para que a roubalheira espalhada na estatal viesse a público. Ironia, não? Mas é isso que vem acontecendo. De forma inédita, empresários desse tamanho são investigados e detidos por ligações suspeitas com financiamento eleitoral, pagamento de propinas e superfaturamento ancorados em negociatas com empresa pública.

Apesar do espalhafato costumeiro de parte da PF, é óbvio que a Lava Jato lancetou um tumor instalado há tempos. O estrago ainda está para ser medido, tanto o financeiro quanto o político. No pinga-pinga dos vazamentos, sobra para quase todo mundo, de PT, PMDB e PP a PSDB e PSB. Não à toa houve rapidinho um acerto multipartidário para impedir a convocação de políticos acusados.

Agora vai? Ao menos duas razões recomendam o ceticismo. A primeira está nos antecedentes. Em operações similares, a Satiagraha e a Castelo de Areia, réus de bolso cheio de repente viraram vítimas, delegados foram afastados e juízes, removidos. Pagas a peso de ouro, bancas de advogados estrelados pinçaram erros formais sem tocar no mérito das denúncias. A ponto de não se saber qual escândalo foi maior, se o que motivou as operações ou a missão de abafar os casos. Toda vigilância é pouca para evitar a repetição do enredo, respeitando-se, claro, o direito pleno de defesa (algo que nem sempre ocorre quando os réus são uns, e não outros).

A outra razão é o envenenamento presente nas investigações. A reportagem da jornalista Julia Duailibi dando conta do grau de partidarização da Polícia Federal provoca frio na espinha. Trata-se de uma corporação armada, não de profissionais liberais debatendo posições políticas. Que delegados tenham preferências eleitorais ninguém discute. Mas o teor de suas mensagens eletrônicas, associado ao vazamento seletivo de depoimentos supostos ou verdadeiros, fere o limite que separa convicções ideológicas da utilização tendenciosa de um processo oficial.

Fora de dúvida, por enquanto, é a urgência de mudança no financiamento da política brasileira. Sem prejuízo da ação da Justiça contra réus de culpa provada, evidente que se vai ficar enxugando gelo a se manterem as regras atuais.

Impressionante é notar justamente um juiz da Corte mais alta travar uma providência que, se não resolve, ao menos pode dar alguma transparência à dinheirama das campanhas: a proibição do financiamento por parte de empresas. Embora a maioria do STF já tenha se manifestado pela proibição, o ministro Gilmar Mendes resolveu, em abril!, pedir vistas durante um prazo, ao que tudo indica, a perder de vista.

Ricardo Melo
No fAlha
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Sérgio Porto # 47


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Essa é do Barão... 105


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Fantástico omite que mensalinho é tucano


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