16 de nov de 2014

Como ficarão os seguidores radicais de Lobão depois que ele abandonar o barco de vez?

Enquanto isso, na Paulista
A última passeata pelo impeachment de Dilma ficou marcada pelo quórum baixo, pela declaração ridícula de Rachel Sheherazade de que “milhões” haviam saído às ruas, pela presença em São Paulo do senador Aloysio Nunes — e, sobretudo, pela defecção de Lobão, o grande “líder” da coisa.

O cantor chegou à Avenida Paulista, ponto de encontro da passeata, e deu de cara com um caminhão de som com pessoas pedindo a intervenção militar. Ficou irritado e deu marcha à ré, indignado com o que entendeu como não cumprimento do suposto combinado.

Lobão acha que essa reivindicação, especificamente, não cabe nos protestos. Olavo de Carvalho, seu guru, considera que, para tirar o PT, vale até o PCC. O deputado eleito Eduardo Bolsonaro, que levou uma pistola à manifestação passada, desta vez disse que tinha gente armada por ele (??). O Coronel Telhada desfilou e lembrou que “lugar de bandido é na cadeia, e não governando”.

Lobão acabou se encaminhando, mais tarde, para a praça da Sé, mas sua atitude provocou um tsunami entre seu povo escolhido. O ex-artista, eventualmente, deve estar se perguntando onde se meteu.

Sua surpresa ao ver malucos pedindo o retorno dos militares não tem lógica. Não existe almoço grátis. Não faz sentido apregoar o ódio, a obsessão, o golpismo, a histeria, a paranoia e ficar surpreso quando monstros aparecem.

Ainda vai ser objeto de estudo o que leva alguns milhares de brasileiros a tê-lo como chefe de seja lá que movimento seja. “Fale o que devemos fazer e nós faremos”, escreveu-lhe uma senhora no Twitter.

Abusando da Lei de Godwin, há um paralelo com os alemães sob o nazismo. Um bom livro sobre essa relação controversa é “Apoiando Hitler: Consentimento e coerção na Alemanha nazista”, do canadense Robert Gellately. Ele reforça a tese de que os alemães, ao contrário do que crê uma corrente, era cúmplice do führer e sabia de tudo.

“Hitler prometeu ‘limpar as ruas’, e a maioria das pessoas aprovou a medida. Algumas acreditavam de fato. Outras queriam proteger seu país e lutar como nacionalistas e patriotas”, disse o autor numa entrevista. “E provavelmente a maioria lutou para manter distantes os russos e os comunistas, que eram amplamente temidos e odiados no país”.

Não faz muito tempo, o neonazi Ernst Zündel lançou alguns panfletos. Num deles, chamado “O Hitler que Amamos e Por quê”, são elencados alguns motivos para curtir o velho Adolf. Um deles: “Nós o amamos porque ele falava de tal maneira que todos pudessem entender. Ele não simplificava demais os nossos problemas. Ele os esclarecia. Ele não deu ‘garantia’ de um mundo melhor. Ele nos pediu para lutar por isso”.

“Lobão tornou-se forte, querendo ele ou não é um dos pilares do movimento, visto por muitos como grande patriota”, escreveu um sujeito nas redes sociais. O roqueiro pode inventar alguma fuga do teatro que inventou, mas a malta que resolveu transforma-lo em liderança não lhe dará sossego.

Kiko Nogueira
No DCM
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“Quem cospe pra cima, na cara lhe cai”. Operação Lava Jato esbarra em contratos da CEMIG


Em nota divulgada nesta tarde, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) sinalizou que trabalha pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (leia aqui). Além disso, também neste sábado, manifestações realizadas em São Paulo e em algumas capitais pediram, abertamente, a derrubada da presidente reeleita há menos de um mês.

Aécio, no entanto, pode encontrar um obstáculo pela frente, nessa movimentação que, segundo o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, pretende transformar a Operação Lava Jato numa espécie de “terceiro turno” da disputa presidencial. A “pedra no caminho” está citada na decisão judicial do próprio juiz federal Sergio Moro, que embasou as prisões de diversos executivos de empreiteiras nesta sexta-feira.

Trata-se do inquérito 5045104-39.2014.404.7000. Eis o que escreveu Sergio Moro a respeito:

A Investminas Participações S/A confirmou, em petição de 21/10/2014 pagamento de 4.600.000,00 (R$ 4.317.100,00 líquidos) à MO Consultoria. Alegou que remunerou conta indicada por Alberto Youssef em decorrência de intermediação e serviços especializados deste na venda de suas ações na Guanhães Energia S/A para a Light Energia S/A, com intervenção a CEMIG Geração e Transmissão S/A. Juntou como prova os contratos e notas fiscais pertinentes, todos com suspeita de terem sido produzidos fraudulentamente. Alegou que Alberto Youssef seria ‘empresário que, à época, detinha conhecimento do setor elétrico e reconhecida expertise na área de assessoria comercial’. Aparentemente, trata-se de negócio que, embora suspeito, não estaria relacionado aos desvios na Petrobras.

Pelo que se lê do texto de Sergio Moro, a Investminas, do empresário Pedro Paulo Leoni Ramos, ex-ministro do governo Collor, pagou uma propina de R$ 4,6 milhões à MO Consultoria, do doleiro Alberto Youssef, para vender alguns ativos à Light, empresa do Rio de Janeiro, controlada pela Cemig, estatal que é a joia da coroa mineira. Moro não tomou nenhuma providência relacionada ao caso – ao menos, até agora – porque, segundo ele próprio disse, não estaria relacionado aos desvios na Petrobras.

No entanto, não há nenhum motivo para acreditar que todos os pagamentos de empresas ligadas à Petrobras a Youssef são propina e que os outros, relacionadas a outras empresas ou outros governos, de outros partidos, como o próprio PSDB, são normais. Haveria, no mínimo, uma diferença de tratamento.

Por isso mesmo, é possível que o Congresso se movimente para que, em breve, a CPI da Petrobras amplie seu escopo e atinja também outras estatais – como a própria Cemig.

No Poços10
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FHC sobre a necessidade de diversificar a mídia: “eu não falo de amigos”

Questionado sobre a necessidade de diversificar os meios de comunicação do país, o ex-presidente arranca risos da plateia ao esquivar-se de responder, alegando amizade

Questionado neste sábado 15 sobre a necessidade de se diversificar os meios de comunicação no Brasil, e se isto não envolveria “quebrar alguns grupos econômicos”, Fernando Henrique Cardoso respondeu: “Eu não falo de amigos”. Segundo o Jornal Folha de S. Paulo, que noticiou de forma discreta a colocação do ex-presidente, a resposta de FHC “arrancou risos da plateia”.

Fernando Henrique participava do Festival Piauí de Jornalismo, promovido pela revista Piauí no Colégio Dante Alighieri, no bairro paulistano dos Jardins. Na ocasião, o tucano atacou o governo federal e a presidenta reeleita Dilma Roussef diversas vezes ao ser questionado sobre mídia. Disse que, apesar de nos Estados Unidos e na Inglaterra haver regulação econômica da mídia, no Brasil haveria “falta de confiança na agência reguladora”.

Em seguida, deu a resposta sobre ser “amigo” dos grupos empresariais de mídia, arrancando gargalhadas do público ao insinuar que, por esta proximidade, não iria se aprofundar sobre a necessidade de se diversificar a mídia no Brasil.

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Sobre a Petrobras


Capturado do Face, vejam que interessante o que a funcionária da Petrobrás fala sobre essa palhaçada:

Hoje depois de ouvir tantas “abobrinhas” sobre a Operação Lava Jato da Polícia Federal e ver novamente o nome da Petrobras e do Partido dos Trabalhadores ser enxovalhado pela imprensa sem escrúpulos do meu país não pude me conter. Quando vi então o comentário de que José Dirceu teria indicado o ex-diretor Duque fiquei ainda mais indignada.

Não sei se todos sabem, mas, sou funcionária de carreira da Petrobras e, antes de ser presidente do sindicato onde milito hoje, trabalhei quase 30 anos na Petrobras Distribuidora e passei por vários setores, desde a área de comunicação até as áreas comerciais, de atendimento, preços e recursos humanos. Cheguei na empresa em 1986 e até hoje minhas ligações com todo o sistema Petrobras são profundas e, no sindicato, me considero também fiscal de qualquer malfeito dentro da empresa, como nosso sindicato já teve, inclusive, a oportunidade de denunciar.

Nesses 28 anos de trabalho tive a oportunidade de, como funcionária da empresa, ver e conviver com o aparelhamento político de vários matizes, que sempre foi acobertado pela imprensa e pelos políticos que aparelhavam a empresa com seus apadrinhados. Em 1983 fiz um processo seletivo para a Petrobras e passei em sétimo lugar e consegui entrar? Não. Sabem por que? Por que havia 20 pessoas que tinham que entrar na minha frente indicadas pelo então vice-presidente da época que tinha as suas ligações políticas dentro da antiga ARENA que veio a se tornar depois PDS e posteriormente PFL, e que hoje estão divididos entre o DEM e o PP. Partidos de direita, ligados ao Golpe Militar. Por isso, só consegui ser admitida em 1986.

Nessa época a empresa tinha dentro de seus quadros muitos militares e indicados de militares. Muitos dos quadros técnicos da empresa se formaram na linha dura do regime e vários foram admitidos de empresas como Atlantic, Texaco, Castrol, todas empresas multinacionais que sempre rivalizaram com a Petrobras.

entreguistas-x-o-petroleo-e-nossoQuando cheguei na empresa em dezembro de 1986 tive um choque ao verificar o tratamento que existia entre os funcionários de nível médio e nível superior. Não se falavam, não se sentavam juntos, existia uma espécie de “apartheid” onde uns eram superiores e outros inferiores. A turma de “superiores” mandava na empresa. Essa era a cultura. Diretoria, Executivos, Gerentes de segundo nível eram todos indicados politicamente. Todo mundo era “Deus”, decidiam e mandavam como verdadeiros deuses. Ai de quem quisesse afronta-los. Dentro da empresa todo mundo sabia quem era afilhado de quem, as propinas que recebiam, o nepotismo que corria solto, mas, ninguém ousava questionar qualquer coisa. A empresa tinha oligarquias e feudos formados em vários setores. Eram outros tempos. Difíceis.

Com FHC nada mudou nesse esquema, exceto que ele soube colocar as suas pessoas certas nos lugares certos. Sua política de privatização desmantelou a empresa e deixou a míngua os funcionários, retirando direitos com a conivência de alguns sindicatos, inclusive o meu, na época. Era preciso acabar com todas as empresas do sistema, deixar a Petrobras falida, sem investimentos, a força de trabalho desmotivada para que tivessem uma forma de influenciar a opinião pública a favor da privatização assim como fizeram com as teles. Mas, o movimento sindical mais progressista reagiu e pagou o preço e com a Petrobras ele não conseguiu fazer o que queria.

Quando Lula entrou em 2003 no Governo a empresa não dava lucro, estava com poucos funcionários, não se fazia concursos, e a terceirização grassava solta. Inúmeros executivos da empresa ganhavam rios de dinheiro. Todo mundo sabia e comentava pelos corredores que havia roubalheira em licitações, contratos, entrega de produtos, serviços realizados. Aliás, era tudo tão informal. Poucos controles para que ninguém pudesse saber ou questionar. Sistemas de informação? Precários e obsoletos.

Depois de 1988 com a Constituição promulgada não se podia mais fazer processos seletivos. A entrada na empresa tinha que ser somente por Concurso Público. É aí que entra a terceirização como pano de fundo para esconder apadrinhados de políticos, de executivos da empresa que começaram a se entranhar dentro do sistema corporativo. FHC também foi o culpado disso! Ele aprofundou a terceirização na Petrobras. É importante dizer isso.

Depois de 2003, com a vitória do PT, os investimentos vieram, o aparelhamento tecnológico também, os lucros cresceram, os acordos coletivos passaram a ser cada vez melhores. As empresas do sistema Petrobras se desenvolveram e cresceram vertiginosamente. O Governo queria a Petrobras funcionando e sendo uma força motriz para o desenvolvimento do país. Assim aconteceu… Mas, como aconteceu?

Considero esse o grande pecado do PT no Governo. Não mexer com as oligarquias e feudos que habitavam a Petrobras desde a ditadura. E o mais interessante é que acabou levando a fama de aparelhar a empresa. O máximo que fez foi mudar algumas diretorias com técnicos da própria empresa, alguns do movimento sindical, mas, podemos contar nos dedos quem são. O tão decantado aparelhamento que a mídia tanto comentou todo esse tempo, sempre soubemos ser uma falácia mentirosa. E toda hora tinha luta encarniçada dentro da empresa para fazer andar projetos voltados aos interesses do país. As exigências para lidar com pessoas em um sistema corporativo de empresas com a complexidade concernente a produção e comercialização de petróleo e seus derivados, que trabalhavam dentro de uma visão voltada somente ao mercado e não queriam mudanças dava e continua dando muito trabalho. E a mídia sempre esteve de olho. O PT nunca teve o apoio da mídia como FHC teve. Não havia e não há interlocução com eles por conta das mudanças de rumo que Lula e Dilma deram ao país favorecendo a grande parcela do povo brasileiro que sempre foi abandonada.

Assim, acredito que muitos que operavam esses feudos continuaram fazendo o que sempre fizeram. Atendendo os interesses dos políticos interessados em engordar os caixas de campanha, em empregar pessoas nas empresas contratadas e fazer o que queriam para continuar tendo seus privilégios. O que o Governo fez foi criar vários mecanismos de controle que até então não existiam. Isso, com certeza, além de trazer muita antipatia por parte dos desonestos, também tornou mais transparente a administração não só da Petrobras como de todas as estatais, o que facilitou que os órgãos controladores e fiscalizadores conhecessem melhor o sistema de gestão.

Agora escuto a imprensa dizer que o engenheiro Renato Duque, preso pela Polícia Federal na Operação Lava Jato é indicado de José Dirceu. Isso é uma barbaridade!!! Duque trabalha na Petrobras desde 1978. É Engenheiro Elétrico formado pela UFF e tem especialização em Engenharia de Petróleo pela UFF. Foi Gerente de RH e Contratos da área de Exploração e Produção e de Engenharia e Tecnologia de poços do E&P. Não é de hoje que trabalha no sistema Petrobras. Se estava envolvido em malfeitos, provavelmente, não aconteceu nesse governo e já acontecia antes.

A imprensa manipuladora e seletiva sabe muito bem o quanto é complexo lidar com uma corporação como a Petrobras e todas as empresas que fazem parte do sistema. Diz o que diz por que tem interesses políticos envolvidos. Faz política de sobrevivência, pois, sabe de seu envolvimento em muito dos casos investigados.

RefinariaO que ela não diz é que foi o PT com Lula e Dilma que criaram uma política que exigiu controles e procedimentos nessas empresas que até então não existiam. Foi o PT com Lula e Dilma que criaram em 2003 a Controladoria Geral da União – CGU responsável por detectar casos de corrupção e desenvolver mecanismos de prevenção à corrupção. Foi no o PT com Lula e Dilma que possibilitou à Polícia Federal trabalhar como nunca antes havia trabalhado totalizando de 2003 até 2012 o número de 1.273 operações com 15.754 presos. Isso nunca tinha acontecido até então.

Assim, é totalmente espúrio dizer que o PT é responsável por qualquer tipo de corrupção. O partido, o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma foram sim, responsáveis por trazer luz ao que estava obscurecido pela falta absoluta de controles e transparência. Há corruptos, corruptores, sonegadores e todo tipo de gente em toda instituição. É da natureza humana e, principalmente, da natureza do sistema capitalista o estímulo para que as pessoas “se deem bem”, “tirem vantagens”, “busquem privilégios”. Todas as instituições estão sujeitas a isso e em todas elas há pessoas capazes ou não de se corromper ou de corromperem outras.

É totalmente descabido a Polícia Federal ter entre seus agentes pessoas que, trabalharam nas redes sociais na campanha eleitoral de Aécio Neves do PSDB integrando essa operação e fazendo vazamentos seletivos da investigação para a imprensa de acordo com seus interesses partidários. E no caso, estamos falando de uma delação premiada cujo processo corre em “segredo de justiça”. Ora, que segredo de justiça é esse que pode ser violado pela PF ou pelo Judiciário? Em nome de quem ou de que partido isso foi feito? É antiético, ilegal e imoral!

Não sou contra qualquer investigação da Polícia Federal. Quero que todo o dinheiro que essa gente vem usando tanto para a corrupção como na sonegação venha integrar os cofres públicos para que os serviços públicos sejam melhores e mais eficientes para o nosso povo. O que não dá para aceitar, e contra isso me insurjo, é que a PF e o Judiciário sejam cúmplices da oposição para fazer com que a Petrobras seja enxovalhada pela imprensa e os crimes cometidos por eles sejam colocados no colo do Governo que está combatendo a corrupção pela primeira vez no país. Isso para mim é Golpe e de Golpe já basta o “Mensalão” ou “Mentirão” como gosto mais de chamar…

Não mais podemos deixar que reduzam a pó as mudanças que foram realizadas no país pela força da manipulação de grupos ligados ao que existe de mais retrógrado em nossa sociedade. Não mais podemos deixar que o combate à corrupção seja um instrumento de golpismos e retrocesso. O Brasil não merece retroceder! O Brasil não quer outra ditadura!

A Petrobras é a maior e mais eficiente empresa brasileira. O sistema Petrobras é maior que politicagens e servilismos. Não podemos nos iludir. Toda essa história está servindo de pano de fundo para esconder alguns problemas graves que temos em nossa sociedade e que estamos começando a debater com mais força. Temos políticos hoje que detêm concessões de rádio, jornal e TV. Isso é proibido pela Constituição. Por que então o Governo permite isso? As concessões de rádio, jornal e TV precisam ser reguladas como a Constituição assim determina. Isso não aconteceu ainda por que? O sistema político permite que empresas façam doações para partidos e assim as empresas na verdade estão fazendo investimentos em políticos para que eles façam o que for de seu interesse e não do interesse do povo. Isso tem que acabar. Como? O Judiciário não pode ser porta voz do interesse das elites. Como acabar com os privilégios do judiciário?

Temos que ir para as ruas mostrar nossa indignação e falar cada vez mais com o maior número possível de pessoas sobre todos esses assuntos! A Petrobras é nossa e não podemos deixar que ela sirva de comida para tubarões que há muito tempo tentam derrubá-la! À luta! O final de 2014 está quente e ano de 2015 promete fortes emoções…
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O ateísmo sai do armário

Pesquisas apontam crescimento acelerado dos que se declaram sem religião nos EUA, parcela que hoje corresponde a 20% da população adulta. Para estudiosos, tanto o aumento da descrença quanto eventuais reações conservadoras religiosas estão diretamente vinculadas ao ambiente político do país.

Pela Constituição do Tennessee, um cidadão não pode concorrer a cargo público se não acreditar em Deus; mas em Nashville, a capital do Estado, um grupo de 150 pessoas se reúne semanalmente na Assembleia dos Domingos, um fórum de ateus praticantes, que conta com mil inscritos.

Nos encontros, de uma hora de duração, revezam-se os "mestres de cerimônias". "Não queremos que uma figura carismática se repita na condução", explica um dos organizadores, o designer gráfico Landry Butler, 47. Durante o encontro, uma dona de casa lê, de um púlpito, escritos de Margareth Mead e J. R. R. Tolkien; uma assistente social relata sua evolução como mãe solteira e seu trabalho com pacientes de Alzheimer; e um grupo desfila um repertório que vai de "Start Me Up", dos Rolling Stones, a "The Cave", dos Mumford & Sons. "Quantas chances você teria de cantar em público regularmente sem ser um artista?", indaga o vocalista Adam Newton, 39.
"INRI (Lo Des)", 1998
Nashville ainda é conhecida como "a fivela do Cinturão da Bíblia", formado pelos Estados mais religiosos do Sul dos EUA — título que disputa com Dallas, no Texas.

Um fazendeiro que viajou 75 km com a mulher para não perder o evento dominical dos não crentes relata uma conversa que ouviu na fila para fazer compras em um entreposto agrícola. O vendedor contava a uma freguesa que um dos candidatos a xerife, escolhido em eleição direta, não frequentava nenhuma igreja. A mulher reagiu dizendo: "Esse não leva o meu voto, deve ser imoral". O fazendeiro calou-se. "Fiquei no armário", diz.

Apesar da compreensível cautela do visitante, o fato é que ateus, agnósticos e os "sem religião" estão saindo do armário em um dos países mais religiosos do mundo. O número de adultos menores de 30 anos que se encaixam nesta última categoria já é mais que o triplo do observado no Brasil.

O crescimento é recente e acelerado: em 2007, 15% dos americanos não tinham religião, contra 20% em 2012, segundo pesquisa do Pew Research Center. No Brasil, entre 2000 e 2010, os sem religião oscilaram de 7% para 8%.

O índice de norte-americanos sem religião sobe de 20% para 32% se considerada somente a faixa de 18 a 30 anos. Entre brasileiros, 8% dizem não ter religião e apenas 10% dos que têm de 15 a 29 anos se enquadram nessa categoria, segundo o IBGE (2010). Ateus no Brasil são 0,8% da população -enquanto o cálculo do Pew, que soma ateus e agnósticos, é de 6% da população americana.

Nesse cenário, ateus famosos começam a tratar do assunto -ainda tabu- em público, caso do ator Brad Pitt ou do criador do Facebook, Mark Zuckerberg. Promovem-se conferências anuais para os não crentes, chamadas "Skepticons" (conferência dos céticos), e "paradas do orgulho ateu" são organizadas pelas redes sociais.

"Hoje é mais fácil ser ateu também por causa internet. De repente, começamos a nos achar na rede, a marcar encontros e a nos expor", diz P. Z. Myers, 57, cientista e professor de biologia da Universidade de Minnesota, autor do best-seller "The Happy Atheist" (o ateu feliz), lançado no ano passado.

Com essa onda, coexiste a maioria da população, que preserva um fervor religioso pouco comum em países ricos: a frequência semanal a igrejas e templos nos EUA ainda é quatro vezes superior à europeia. Os que acreditam no criacionismo são 44%, enquanto 55% dizem rezar diariamente.





São o rebanho de uma nação cuja história foi forjada pela presença inaugural de puritanos e outros grupos religiosos em fuga da Europa, que estreitavam os laços com Deus na busca da nova terra prometida. Um país em que se popularizou uma imagem retratando Jesus, entre George Washington e outros patronos da nação, segurando a Constituição como se fossem os Dez Mandamentos.

Especialistas concordam que o enfraquecimento da religiosidade nos EUA tem relação direta com a política. "George W. Bush [2001-09] prestou grande ajuda à causa ateísta", ironiza Myers.

"O que vemos é uma reação a anos em que forças religiosas se colocaram do lado errado da história, apoiando guerras, atitudes machistas, homofobia e doutrinas cada vez mais associadas à crença. No quesito 'relações públicas', foi um desastre para a religião", diz o professor, que tem mais de 150 mil seguidores no Twitter e um blog, premiado pela revista "Nature", no qual mistura ciência, feminismo e ativismo antirreligioso.

O estudioso britânico Nick Spencer, diretor de pesquisa do centro de estudos Theos, frisa que os EUA são "um raro país ultracientífico, onde grandes descobertas tecnológicas acontecem desde o século 19, que ainda é muito religioso". Autor do recém-lançado "Atheists: the Origin of the Species" (ateus: a origem das espécies), Spencer lembra que, como pastores e religiosos abraçaram a revolução americana e participaram do processo de independência, os "pais fundadores" asseguraram na primeira emenda da Constituição a liberdade de culto, proibindo o Estado de legislar sobre o tema e de se assumir oficialmente como cristão.

Foi, na realidade, no século 20, em oposição ao socialismo e seus regimes de ateísmo forçado, que os governos americanos passaram a abraçar com mais convicção a identidade cristã.

Em 1952, por exemplo, foi criado pelo presidente Harry Truman (e aprovado pelo Congresso) o Dia Nacional de Oração, celebrado até hoje em 1º de maio — data em que diversos países comemoram o Dia do Trabalho, escolhido pela Internacional Socialista para marcar um atentado contra grevistas em Chicago, em 1886. Os americanos, no entanto, celebram seu "Labor Day" em setembro.

O juramento à bandeira, repetido em repartições públicas, escolas, quartéis e no Congresso americano, foi modificado em 1954, em plena Guerra Fria, para acrescentar a expressão "uma nação sob Deus". E a célebre inscrição "In God we trust", nas cédulas de dólar, nasceu em 1956, no governo do general Dwight Eisenhower.

Eram os anos do auge do macarthismo, quando o Senado promoveu investigações sobre atividades consideradas "un-american", e o senador Joseph McCarthy (cujo nome veio a batizar a era), via comunistas por todos os lados -do Departamento de Estado a Hollywood.




Em seu primeiro discurso famoso, de 1950, quando denunciou diplomatas de seu país como "comunistas infiltrados", McCarthy disse que a "grande diferença entre o mundo ocidental cristão e o mundo comunista" não era política, "mas moral". "Hoje estamos em uma batalha final, de tudo ou nada, entre cristãos e ateus", anunciou. Pouco depois, pessoas consideradas comunistas, homossexuais e ateus entraram em "listas negras" -centenas foram presas.

Contracultura

Não tardaria muito para que a crise de identidade da Guerra Fria, com a contestação do conflito no Vietnã, o florescimento de movimentos de liberação sexual e a onda da contracultura, nos anos 1960, passassem a colocar em xeque esse processo de exacerbação persecutória e religiosa. Nas décadas seguintes, situações como a aprovação do aborto pela Suprema Corte, em 1973, e a maior visibilidade dos gays, associada à epidemia de Aids, terminaram por acirrar conflitos e despertar uma nova reação.

Uma espécie de segundo macarthismo desenhou-se a partir do final da década de 1980, época em que líderes religiosos cada vez mais assertivos passaram a condenar a "ruína moral da América". Evangélicos, que vinham conquistando espaço nos meios de comunicação, mostravam-se mais diretamente preocupados com o ativismo político. Chegou-se a ensaiar um impeachment contra um presidente adúltero (Bill Clinton, 1993-2001) e o primeiro episódio da clássica série de TV "The West Wing", sobre os bastidores da Casa Branca, trazia um grupo de evangélicos cobrando compromissos de um presidente democrata.

A reação religiosa-moralista fez a então superstar Janet Jackson ser praticamente banida da TV por ter exibido, acidentalmente ou não, um mamilo durante o show no intervalo da final do Super Bowl, o campeonato de futebol americano, em 2004. E o marqueteiro do então presidente George W. Bush, Karl Rove, estimulou a realização de plebiscitos contra o casamento gay, como garantia de que muitos eleitores sairiam de casa para votar contra — o que favoreceria a reeleição do mandatário naquele ano, que de fato aconteceu.

"Os evangélicos abandonaram o mutismo e encontraram sua voz, às vezes problemática e grotesca. Como resposta, assistimos a um recrudescimento do ateísmo. Não em nome da ciência, mas porque Deus voltou à arena política americana", diz Spencer.

Alguns ateístas têm adotado a política dos decibéis a mais praticada pelos evangélicos -mas para metralhar religiões. Myers diz que "gosta do confronto" e que "precisamos denunciar as loucuras dos crentes". Nessa trincheira também se aloja Sam Harris, um dos principais ativistas ateus do país, presente na lista dos livros mais vendidos desde setembro, com sua segunda obra, "Waking Up" (acordando). A primeira, "O Fim da Fé", de 2004, virou best-seller e fustiga não apenas religiões cristãs mas especialmente o islã.

Foi no programa de Bill Maher — um show de humor político e entrevistas há 20 anos no ar na TV americana — que Harris se meteu em uma arenga a respeito da islamofobia de parte dos ateus que, como ele, fomentam o confronto.

Maher, que já produziu um documentário hostil às religiões ("Religulous", de 2008), disse que "a esquerda americana, em nome do multiculturalismo, é muito tímida em denunciar os absurdos do mundo islâmico". Acrescentou que o islã se tornou "como a Máfia, que mata quem ousa falar mal dela". Harris pegou a deixa e foi mais longe: "O islã é a mãe de todas as más ideias do presente", atacou.

Ben Affleck, o ator e diretor de "Argo", disse que Maher estava generalizando e que "os EUA já mataram mais muçulmanos do que qualquer grupo fundamentalista muçulmano, mas nós não somos acusados disso". O vídeo do embate viralizou em 24 horas.

Maher também fez piada com os pacatos ateus da Assembleia dos Domingos. "A graça de ser ateu" — disse ele — "é não ter que ir a uma igreja. Frequentar essa assembleia é um contrassenso. É como convidar um membro do Tea Party para uma feira de ciências".

Raul Juste Lores
Ilustração Fernando Zarif
No fAlha
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Adieu, adieu, adieu

Encontrei o livro numa livraria de língua inglesa em Munich. O título era irresistível: “Nabokov’s Shakespeare”. O William Shakespeare de Vladimir Nabokov! Escrito por um americano de quem eu nunca tinha ouvido falar, Samuel Schuman, especialista em Nabokov e ex-presidente da Sociedade Internacional Vladimir Nabokov, que eu também não sabia que existia.

O que Schuman faz no livro é catar todas as referências a Shakespeare na obra de Nabokov e descobrir paralelos nas peças de um nos romances do outro. Levando o leitor, numa viagem de prospecção intelectual fascinante, a descobertas insuspeitadas.

Você imaginaria que o “Lolita” do Nabokov tem muito a ver com “A tempestade” de Shakespeare? As alusões do russo ao inglês que Schuman encontra às vezes aparecem como ouro em areia lavada, só visível a olhos treinados e exigindo algum esforço, e às vezes são explícitas.

Só um exemplo: o predador Humbert Humbert do Nabokov, um monstro assumido tanto quanto o Caliban do Shakespeare, diz que meninas da idade da sua presa Lolita “não são humanas mas nínficas (isto é, demoníacas)” e habitam, metaforicamente, o que ele descreve como “uma ilha encantada, que assombram, rodeada por um mar vasto e brumoso” — o que é exatamente a descrição da ilha mágica em que Próspero se despede da vida, na peça em que Shakespeare — que não escreveria mais nada depois — se despede do público.

Além de “A tempestade”, quase todas as peças de Shakespeare forneceram citações a Nabokov, algumas escondidas e outras à tona, e cada uma tem seu capítulo no livro de Schuman. O capítulo mais longo trata de “Hamlet”, que era a peça preferida de Nabokov.

Sabe-se muito pouco sobre a vida de Shakespeare, e ninguém pode dizer ao certo o que é verdade ou invenção no pouco que se sabe. Nabokov — para quem “Hamlet” era “provavelmente o maior milagre da história da literatura” — gostava de uma história sobre o Shakespeare ator, mesmo sem poder saber se era fato.

Shakespeare teria interpretado o fantasma do pai de Hamlet, que aparece no começo da peça e pede que seu filho vingue sua morte. (Quando perguntaram ao Nabokov que cena ele gostaria de ver filmada um dia, ele respondeu: “Shakespeare no papel do fantasma do rei”). Para Nabokov, Shakespeare só queria se apropriar da última fala do fantasma, antes de voltar para a noite da morte:

“Adieu, adieu, adieu. Remember me. Remember me.”

Lembrem-se de mim... Shakespeare não precisava ter se preocupado.

Luís Fernando Veríssimo
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Para presidenta Dilma “caso da Petrobras não é algo engavetável”




Em Brisbane (Austrália), logo após o encerramento da Reunião de Cúpula do G20, neste domingo (16), a presidenta Dilma Rousseff afirmou que a investigação feita na Petrobras mudará as relações entre sociedade, Estado e empresas privadas. “O fato de nós, neste momento, estarmos com isso de forma absolutamente aberta, sendo investigado, é um diferencial imenso”, afirmou Dilma.

De acordo com a presidenta, este é o primeiro caso de corrupção efetivamente investigado no Brasil: “Esse não é, de fato, eu tenho certeza disso, o primeiro escândalo de corrupção do país. Agora, ele é sim o primeiro escândalo na nossa história realmente investigado, o que é muito diferente”, reforçou Dilma.

“Nós tivemos o primeiro escândalo da nossa história investigado. Há aí uma diferença substantiva e eu acho que isso pode de fato mudar o país para sempre. Em que sentido? No sentido que vai se acabar com a impunidade. Essa é, para mim, a característica principal dessa investigação. É mostrar que ela não é algo engavetável”.

A presidenta ressaltou ainda que é preciso tomar cuidado para que a sociedade brasileira não “condene” a Petrobras pelos atos de corrupção que foram cometidos por alguns funcionários da estatal. Também destacou que o fato de a Lava Jato ter colocado atrás das grades “corruptos e corruptores” é uma questão simbólica para o País.

Ao final da entrevista, Dilma afirmou que os contratos das construtoras investigadas com Petrobras já estão sendo revistos, mas que isso não representa a revisão dos contratos de todas as estatais do País. De sexta feira até este domingo (16), a operação Lava Jato já resultou na prisão de 23 pessoas, incluindo a de um ex-diretor da Petrobras.

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Não é porque a eleição acabou que Aécio está livre de explicações sobre coisas como o aeroporto e suas rádios


O comportamento triunfal de Aécio na dupla derrota — perdeu o Brasil e Minas nas eleições — é uma aberração.

O que Aécio deveria fazer — além de dar expediente no Senado, coisa para a qual recebe um bom salário do contribuinte — é explicar tudo que ficou malcontado em sua campanha.

Primeiro, o aeroporto de Claudio. Não é porque a mídia o poupou, e as eleições passaram, que este caso está resolvido.

Não está.

Até aqui, ele não deu uma única explicação convincente. O máximo que fez, na campanha, foi chamar Luciana Genro de leviana quando ela tocou no assunto.

Outro ponto vital que exige transparência são os meios de comunicação de propriedade da família Neves em Minas.

Em si, é um absurdo um político ter rádios, o que aliás a Constituição — teoricamente — proíbe.

A proibição é driblada por políticos de baixa taxa de escrúpulos com diversas gambiarras jurídicas de legalidade amoral. Uma delas é colocar um dono de araque na papelada. Outra é você constar na documentação não como dono, mas como sócio.

Que os órgãos públicos não consigam impedir esse assalto à Constituição conta muito sobre o que Darcy Penteado definiu como o maior problema do Brasil: um pequeno grupo que trata de manter, a que preço for, mamatas e privilégios.

A questão das rádios de Aécio tem um complicador que ficou em aberto.

Quanto o governo de Minas, sob ele e depois sob seu pupilo Anastasia, colocou em publicidade nelas?

A Folha levantou esse ponto, mas — como tantas vezes ocorre com o jornal — frustrou os leitores ao não fazer o serviço completo.

A Folha simplesmente esqueceu o assunto.

Lembremos: no comando das verbas publicitárias de Minas com Aécio estava a “voluntária” Andrea Neves.

Ela que trabalha muito sem ganhar nada, como disse Aécio, ao contrário do irmão de Dilma, Igor.

Segundo afirmou Aécio num debate, Igor “ganha muito para não trabalhar nada”.

Apenas depois das eleições o Estadão se dignou a ver como vivia Igor, o alegado marajá. O jornal encontrou ali uma espécie de Mujica, um homem simples, dono de um carro velho numa cidadezinho do interior, avesso a qualquer coisa que o identifique com a irmã poderosa.

E mesmo assim, com uma infâmia dessas, Aécio ainda ousou falar em “desconstrução” como arma de campanha de Dilma — e não dele mesmo.

O debate em torno da “desconstrução”, aliás, é uma das maiores estupidezes da política nacional contemporânea.

Algum candidato “constrói” o adversário? Elogia-o, enche-o de palavras generosas?

Ora, faça-me o favor.

Marina, a coitadinha, já chegou dizendo que os adversários eram a “velha política” e ela a “nova”. O que é isso senão desconstruir?

Será uma decepção se o novo governo de Minas não trouxer à cena informações que permitam aos brasileiros conhecer melhor Aécio.

As rádios da família e o dinheiro público posto nela, por exemplo.

Há ainda um assunto particularmente complicado nos arredores de Aécio: o helicóptero com 450 quilos de pasta de cocaína de propriedade de um de seus maiores amigos, Perrela.

Ninguém é culpado pelo que os amigos fazem, é verdade. Mas a sociedade tem que pelo menos saber com clareza o que fazem os amigos diletos de candidatos à presidência.

Aécio, em suma, tem muita coisa a explicar antes de posar como um herói da República do alto de sua dupla derrota.

Paulo Nogueira
No DCM
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Os EUA e a Europa agradecem - O Congresso e a desnacionalizção do mercado aeronáutico brasileiro

http://www.maurosantayana.com/2014/11/os-eua-e-europa-agradecem-o-congresso.html


Acordo “costurado” ontem, no Senado, permitiu a aprovação, em comissão especial, de medida provisória que prevê subsídios à aviação regional, da forma como pretendia a Azul Linhas Aéreas.

Isso evitou que o projeto viesse a beneficiar indiretamente, fabricantes estrangeiros de grandes aviões, como a Boeing e a Airbus, e ajudou a indústria brasileira, por meio da Embraer, que, no entanto, adquire boa parte das peças de suas aeronaves no exterior.

A surpresa ficou por conta de uma alteração feita de última hora no texto, aprovando a compra de até 100% do capital de companhias de aviação brasileiras por estrangeiros, indo contra o que se pratica em boa parte do mundo.

Se nossas grandes empresas, como a Gol, forem totalmente desnacionalizadas, o que ocorrerá quando gerentes norte-americanos ou europeus começarem a destratar funcionários nacionais de companhias aéreas aqui adquiridas, ou fizerem o mesmo com viajantes brasileiros em nossos aeroportos ?

Ou se a ANAC - Agência Nacional de Aviação Civil, ou as autoridades do Governo Federal tiverem suas regras contestadas, e forem processadas em tribunais de Atlanta ou Forth Worth, onde ficam situadas sedes de empresas estrangeiras, quando tentarem fazer valer sua autoridade, ou tomarem alguma decisão que contrarie, eventualmente, interesses de grupos como a Delta e a American Airlines ?

Isso, sem falar de outros riscos, ligados à segurança nacional, como a entrada clandestina de pessoal ou de equipamento não autorizado de outras nações em nosso território, caso a maioria das ações - e o comando de nossas companhias de aviação - venha a ficar em mãos estrangeiras, como se pretende, sem a exigência, ao menos, de uma maioria de capital nacional.

Mas o pior de tudo é a cabotinice, a cessão apressada de vantagens, com o mais absoluto desprezo pelos critérios de isonomia e reciprocidade.

Nem na Europa, nem nos Estados Unidos, empresas estrangeiras de aviação - incluídas as brasileiras - podem voar no mercado doméstico, e está vedado ao capital estrangeiro o controle de companhias locais de aviação. Na União Européia, empresas de fora desse grupo de países não podem adquirir mais de 49.9% das ações. E nos EUA, toda uma legislação protege o mercado com a intenção expressa de “garantir a proteção dos consumidores e dos empregos nos Estados Unidos.”

Enquanto isso, no Brasil, queremos abrir, graciosamente, com uma canetada, aquele que já é o segundo maior mercado do mundo em número de aeroportos, e será, segundo a IATA - Associação Internacional de Transportes Aéreos, depois dos EUA e da China, o terceiro maior mercado doméstico do planeta, em 2017, daqui a apenas três anos, sem exigir absolutamente nada em troca.

O mercado brasileiro de aviação passou de 37,2 milhões de passageiros de avião em 2003, para mais de 100 milhões de passageiros em 2012, 88,7 milhões deles transportados em voos domésticos e 18,5 milhões nas rotas internacionais. O número alcançado em 2012 representou uma proporção de 55 passageiros transportados no modal aéreo para cada 100 habitantes no Brasil, enquanto que em 2003 essa mesma proporção era de 21 para 100.

É esse gigantesco negócio, com um enorme potencial de lucro e crescimento, que estamos entregando, de mão beijada, aos estrangeiros. Isso, caso não seja vetado o dispositivo apresentado ontem, pelo relator da MP 652, o senador Flexa Ribeiro, do PSDB do Pará, que revoga a parte do Código Brasileiro de Aeronáutica, que exige que ao menos quatro quintos do capital votante das companhias aéreas instaladas no Brasil pertençam a cidadãos brasileiros.
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Pedro Serrano: Lava Jato é a melhor e maior apuração da história da PF


O advogado e professor de Direito da PUC, Pedro Serrano, foi um dos maiores críticos do processo do mensalão, que ele considerava “um caso fake e  inventado pela imprensa”. Sua opinião é completamente distinta na avaliação da Operação Lava Jato. Ele entende que  ela se trata de algo muito sério e que “tem que redundar em apuração e prisão de gente muito importante”. Para Serrano “a Lava Jato é a melhor e maior apuração da história da PF”.

Serrano, porém, considera que houve exagero nas prisões realizadas ontem e teme que isso possa vir a atrapalhar o processo. “Houve abuso porque as prisões temporárias servem apenas para os investigados realizarem seus depoimentos e a grande maioria dos que foram presos já haviam se colocado à disposição da Justiça. Ao que parece essas prisões foram apenas para criar um clima de espetáculo”. Na opinião dele, o que vale num processo desses é conseguir punir os culpados ao final do julgamento. E fazer barulho na apuração mais atrapalha do que ajuda.

O advogado não acredita que a Lava Jato tenha motivação política ou interesse em criar clima para impeachment ou algo neste sentido. “A investigação tem fatos concretos, provas, nove delações e deve atingir empresários e políticos de alto coturno. Ao que parece tende a ser a maior apuração já realizada de desvio de dinheiro e Caixa 2 da história da República. Mas não me parece algo que guarde relação apenas com um ou outro partido. É algo muito maior”, avalia.

O que Serrano considera mais prejudicial em todo esse processo é a forma como alguns documentos e informações têm sido vazados para a imprensa. “O Ministério da Justiça deveria ter substituído imediatamente todos que estavam sob suspeita de passar dados da investigação, porque o vazamento pode criar problemas futuros ao julgamento”, alerta.

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Quem nos protege destes "deuses"?


Então é assim: o cidadão está sem documentos, dirigindo um automóvel sem placas, é parado por uma agente de trânsito, tenta dar a famosa carteirada na linha "você sabe com quem está falando" e diz que é juiz.

Ouve da moça que "juiz não é Deus" e está estabelecido o bafafá que, ao contrário do que determinaria qualquer lei, ou qualquer lampejo de bom senso, em qualquer país civilizado, acaba com a moça sendo processada e condenada por "ofender" o magistrado.

Condenada, aliás, em segunda instância, porque o desembargador que assinou a sentença no Tribunal de Justiça disse que ela, com sua mais-do-que-óbvia observação, ofendera toda a magistratura do país.

Ai, meus sais...

Ok, uma advogada de São Paulo se mobilizou e conseguiu angariar na internet, em regime de financiamento coletivo (crowdfunding), dinheiro para a moça pagar a indenização estabelecida, e sobra até um pouco mais para as despesas com o processo.

Ok, mesmo sem se referir diretamente ao caso, o ministro presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski,, informou a quem quisesse ouvir, ou seja, também ao juiz que moveu a ação e ao desembargador que condenou a moça, que não, juiz não é Deus. Espera-se, portanto, que ao menos quando chegar ao Supremo esta bizarrice seja corrigida.

* * *

Então é assim: a mais famosa, prestigiada e de fato importante faculdade de medicina do país, a da Universidade de São Paulo, está envolvida num escandaloso, vergonhoso, inacreditável emaranhado de denúncias em que diversas calouras revelam casos de assédio moral, assédio sexual, estupro, racismo, intolerância religiosa, abuso de substâncias ilegais e "otras cositas más".

Os detalhes (levantados em boa série de reportagens do site "Ponte Jornalismo") são escabrosos, de corar gigolô, e vão desde ofensas raciais dirigidas a negras, referências pouco lisonjeiras ao órgão sexual feminino, extremando-se em pormenores sobre estupros, mesmo. Sabe-se agora que humilhações, violência, abusos por parte de veteranos contra os calouros, sobretudo as mulheres, fazem parte, há anos, do dia-a-dia da instituição, tudo acobertado por uma tão ameaçadora quanto conveniente lei do silêncio.

Além das reportagens citadas, o caso ganhou notoriedade por conta de audiências públicas promovidas pela Assembleia Legislativa de São Paulo, em que as vítimas relataram as sevícias, e também por iniciativa desta Folha.

Vejam o que o professor encarregado de conduzir as investigações disse à jornalista Claudia Colucci dias atrás: "A faculdade nunca fez nada. Como professor, sinto que falhei, não desempenhei meu papel. Todos os professores deveriam se sentir assim. Isso diz respeito a todos nós."

Disse mais: "A faculdade [de medicina da USP] se comportou mal. Houve demora da congregação, ficaram na defensiva [sobre as denúncias de estupro das alunas]. Há uma crise de conduta, de valores. Cansei de engolir sapo".

A referência ao batráquio indigesto se dá porque o mestre, o professor titular de patologia Paulo Saldiva, decidiu não apenas demitir-se do cargo de coordenador da comissão de investigação, como afastar-se inteiramente da Universidade.

Imagine a vergonha que deve estar sentindo...

Agora, imagine nós, pobres mortais pagadores de imposto, que podemos a qualquer momento de nossas vidas cair nas mão de um médico que se formou em meio a tão "saudável" e "instrutivo" ambiente e que por qualquer razão que seja carregou para a vida profissional estes "valores".

Ou que venhamos, por uma dessas ironias do destino, a depender do senso de justiça e da capacidade de discernimento de um magistrado deste jaez, ou seja, que se julga acima do bem e do mal.

Adaptando uma piadinha antiga de redação de jornal, pergunto: você sabe a diferença entre o médico e o juiz? O primeiro se julga Deus, o segundo tem certeza...

Ah, estes médicos e juízes são exceções, me diz aqui o bom senso, a maioria é correta e qualificada, não merece ser julgada genericamente por desvios de condutas de uns poucos.

Beleza. Então que médicos oriundos da USP e juízes do bem venham a público para repudiar claramente aqueles que denigrem sua tão nobre profissão, por favor...

Luiz Caversan
No fAlha
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“Injusto é pagar imposto no Brasil”: a 1ª reportagem da série do DCM sobre a sonegação da Globo


Com esta matéria, inauguramos a série sobre o processo de sonegação de impostos da Globo envolvendo os direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002. É o terceiro projeto financiado pelos nossos leitores através de crowdfunding no site Catarse. O repórter Joaquim de Carvalho está apurando o caso em várias cidades. No final, teremos um documentário. Fique ligado.

Em um dos momentos curiosos da eleição deste ano no Rio de Janeiro, a apresentadora da TV Globo Mariana Gross, após entrevistar ao vivo o candidato a governador Antony Garotinho, olha para a câmera, o que significa se dirigir aos telespectadores, e diz:

— A Globo não sonega. A Globo paga seus impostos.

Era a resposta a um comentário do candidato:

— A Globo, por exemplo, é acusada de sonegar milhões em um esquema envolvendo laranjas. É uma acusação. Pode não ser verdade, eu até acredito que seja, mas é a minha opinião.

O caso levantado na entrevista remete à assinatura do contrato de concessão de licença para a transmissão da Copa do Mundo de 2002, assinado no dia 29 de junho de 1998. De um lado, a ISMM Investments AG, da Suíça, representante da Fifa. De outro, a TV Globo e Globo Overseas, uma empresa holandesa controlada pela família Marinho. O valor do contrato era de 220,5 milhões de dólares, o equivalente hoje a 600 milhões de reais e dava direito à transmissão de 64 jogos da Copa e de todos os eventos relacionados.

Oito anos e duas Copas depois, o auditor fiscal Alberto Sodré Zile, da Delegacia da Receita Federal do Rio de Janeiro, encerrou uma investigação sobre a aquisição dos direitos de transmissão pela Globo e concluiu:

“A Globo sonegou impostos, mediante fraude, no montante de 183 milhões de reais, em valores atualizados em 2006. Por considerar a fraude uma agravante da sonegação, aplicou multa em percentual dobrado, no valor de 274 milhões de reais. Com os juros de mora, calculados até 29 de setembro de 2006, Zile entregou à Globo uma conta de 615 milhões de reais.”

O auditor fiscal fez ainda uma representação para fins penais, que deveria ser encaminhada ao Ministério Público. Nela, como um anatomista diante de um cadáver, descreve cada pedaço de um quebra cabeças que revela uma intrincada engenharia financeira.

“Em um ano e meio, diversas operações societárias foram engendradas para que, ao fim, a TV Globo e a Globosat pudessem transmitir a Copa em que o Brasil se sagrou pentacampeão. Foram seis alterações sociais e duas empresas constituídas e destituídas neste curto espaço de tempo”, escreve.

Segundo ele, as operações tinha “um único objetivo”: esconder das autoridades brasileiras a aquisição dos direitos de transmissão da Copa do Mundo pela TV Globo e, com isso, “fugir da tributação mais desfavorecida”.

Alberto Zile reconhece o direito das empresas de buscar reduzir o pagamento de impostos. Mas diz que o chamado “planejamento fiscal” tem um limite: a fraude. E ele cita o caso da empresa Empire, constituída nas Ilhas Virgens Britânicas.

A Empire não tinha uma câmera sequer, muito menos microfone ou antena de transmissão, mas até alguns meses antes do início da Copa de 2002 eram dela os direitos de transmissão de um dos maiores eventos esportivos do planeta.

A TV Globo pagou pela Empire cerca de 221 milhões de dólares, mesmo sabendo que a Empire, além de não contar com equipamentos, não tinha sequer um escritório. Sua sede era uma caixa postal nas Ilhas Virgens Britânicas, a PO Box 3340, compartilhada com a Ernst & Young Trust Corporation (BVI) Ltd.

Na investigação, o auditor descobriu que, por trás da Empire, estava a própria TV Globo. Em sua defesa, o grupo sustentava que a compra da Empire fazia parte de uma estratégia de ampliação dos negócios da Globo no Exterior. Mas a farsa caiu por terra quando a Receita Federal fez um questionamento por escrito sobre a propriedade da Empire.

Documento na Receita Federal
Documento da Receita Federal

O advogado José Américo Buentes admitiu: “Existe vínculo indiretamente”, porque os controladores da Globo e da Empire sempre foram as mesmas pessoas. Para o auditor fiscal, tudo não passou de “simulação”.

O teatro que o auditor fiscal Zile descreve tem mais três capítulos: um no Brasil, outro no Uruguai e mais um na Ilha da Madeira. Depois de comprar a Empire, a Globo repassou as cotas da empresa a outra companhia, criada por ela no Rio de Janeiro, a GEE Eventos Esportivos Ltda, que, a exemplo da empresa das Ilhas Virgens, não tem estrutura para gravar em vídeo uma só entrevista, muito menos transmitir a Copa do Mundo. É empresa de fachada.

Nas vésperas da abertura da Copa de 2002, a Globo fechou a GEE e dividiu com a Globosat (canal fechado) os direitos de transmissão. O dinheiro usado para pagar o ISMM, representante da Fifa, saiu da própria Globo, via uma simulação de empréstimo a uma empresa do Uruguai, a Power, e outra simulação de empréstimo com uma empresa chamada Porto Esperança, na Ilha da Madeira.

Nos dois casos, empresas credoras e devedoras são controladas pelas mesmas pessoas: os irmãos Roberto Irineu Marinho, João Roberto Marinho e José Roberto Marinho.

Um trecho da representação contra os filhos de Roberto Marinho diz:

“De fato, as operações arroladas, de forma sintética, no item 1.3, dão a clara ideia de que vários dos atos praticados pela fiscalizada estavam completamente dissociados de uma racional organização empresarial e, consequentemente, de que a aquisição dos direitos de transmissão, por meio de televisão, da competição desportiva de futebol internacional, com intuito de fugir da tributação mais desfavorecida.”

globo 2

Com a engenharia financeira, a Globo deixou de pagar à época o tributo pela aquisição dos direitos de transmissão: 15% sobre valor total, caso o negócio fosse feito diretamente com a Suíça, ou 25% caso se concretizasse nas Ilhas Virgens Britânicas, como a rigor se concretizou. As alíquotas são diferentes para locais considerados paraísos fiscais, como é o caso das Ilhas Virgens.

A Globo recorreu da autuação junto ao Conselho do Contribuinte que, por unanimidade, deu razão ao auditor fiscal.

Algumas semanas depois, quando o processo estava pronto para ser remetido ao Ministério Público Federal, que teria a prerrogativa para denunciar criminalmente os irmãos Marinho, uma funcionária da Receita Federal interrompeu seu período de férias para entrar na Delegacia e levar embora toda a documentação.

Essa funcionária foi presa, mas com a ajuda de uma banca de cinco advogados, conseguiu habeas corpus no Supremo Tribunal Federal, numa decisão que tem, entre outras, a assinatura do ministro Gilmar Mendes.

Dois especialistas tributários que entrevistei nesta semana falaram sobre o caso da sonegação, sem que soubessem os nomes dos envolvidos. Ambos consideraram os fatos graves, mas disseram que o risco dos culpados serem punidos é zero.

Na Itália, até Sophia Loren passou uma temporada na cadeia pelo crime de sonegação fiscal. Nos Estados Unidos, a proprietária do Empire State passou uma temporada presa por deixar de pagar impostos. Recentemente, na Alemanha, o presidente do Bayern foi condenado pelo mesmo crime.

No Brasil, o Código Tributário Nacional, de 1969, dá ao sonegador a chance de se acertar com o Fisco até a abertura do processo na Receita Federal. O Código está em vigor, mas, nesse ponto, virou letra morta, em razão de sucessivas decisões judiciais que estenderam a extinção da punibilidade até a aceitação da denúncia pela Justiça.

Agora, uma corrente que já coleciona algumas vitórias nas cortes superiores, advoga que a punibilidade se extingue a qualquer tempo, desde que o sonegador pague seus débitos, mesmo com o processo judicial em andamento ou até concluído.

De alguns anos para cá, o Congresso Nacional aprovou algumas vezes o chamado Refis, uma colher de chá para o devedor. A justificativa é ajudar o contribuinte em dificuldade e elevar a arrecadação do Fisco. Com isso, multas e juros de mora caem quase a zero.

Em 2009, o Legislativo concedeu o Refis, e a Globo fez circular a versão de que quitou seu débito nessa leva de inadimplentes. A empresa nunca mostrou o DARF, e no processo da Receita Federal que vazou na internet consta apenas um DARF em nome da Globo. É no valor de R$ 174,50 e diz respeito a uma taxa de recurso.

O ex-presidente da Comissão de Direito Tributário da OAB-SP, Raul Haidar, é um firme defensor da extinção da punibilidade a qualquer tempo. Perguntei a ele se esse entendimento não acaba por tornar a sonegação um crime que compensa. O contribuinte deixa de pagar e, apanhado no crime, adere a um Refis e segue a vida, sem pena, juros ou multa. Para quem paga impostos, é uma injustiça.

“Injusto é pagar impostos neste país”, disse ele, encerrando a entrevista.

Para o atual presidente da Comissão de Direito Tributário da OAB-SP, Jarbas Machioni, a extinção da punibilidade depois de iniciado o processo na Receita, é uma norma, de fato, injusta.

globo3

No caso da sonegação de impostos sobre o direito de transmissão da Copa de 2002, não são apenas os ventos do Judiciário que sopram a favor da Globo. O caso era desconhecido até que uma mão invisível vazou os primeiros papéis do processo na Justiça, sete anos depois.

Pressionado por entidades civis do Rio de Janeiro, o Ministério Público determinou a abertura de inquérito na Polícia Federal, que recebeu o número 926/2013, e para tocá-lo foi designado o delegado Rubens de Lyra Pereira. Seu currículo despertava algum otimismo sobre o desfecho da investigação. Formado em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, faz mestrado e tem outras duas graduações em universidades públicas, Filosofia e Direito.

Na semana passada, fui procurá-lo para falar da investigação. Rubens foi transferido. Ele deixou a Delegacia Fazendária e foi trabalhar no plantão da Polícia Federal, num movimento que revela desprestígio. Seu sucessor no inquérito é Luiz Menezes, que estava viajando.

O chefe interino da Delegacia Fazendária, Rafael Potsch Andreata, não quis falar sobre o caso. “É sigiloso”, disse ele. O inquérito 926/2013 vai completar um ano, os fatos que deram origem à sonegação, dezesseis. A investigação realizada pelo auditor fiscal Alberto Sodré Zile terminou há oito anos e sua conclusão foi endossada pelo conselho que julgou o recurso da Globo:

— A fiscalização, em face dos fatos descritos, constatou a simulação e, então, afastou o ato aparente para viesse à tona o negócio real: não recolher o imposto de renda na fonte devido pelo pagamento, ao exterior, em razão da aquisição do direito de transmissão, por meio de televisão, de competições desportivas.

Com esta reportagem, começamos uma série sobre o caso da sonegação da Globo. Como mostra o relatório da Receita Federal, nosso ponto de partida, é um caso que se reveste de alto interesse público. Vamos procurar suspeitos e testemunhas, apurar o que houve nos paraísos fiscais e nos escaninhos do poder. Vamos dar nomes e mostrar o rosto que estão por trás de assinaturas de contratos, distratos, remessas de divisas, constituição de empresas.

Há quase 50 anos, em plena ditadura militar, a Globo foi acusada de buscar um sócio estrangeiro para montar a sua rede de televisão, o que era proibido na época. A prova de que havia essa sociedade oculta era uma escritura pela qual a Globo vendeu ao grupo Time-Life o prédio onde hoje funciona o seu departamento de jornalismo, na rua Von Martius, no Rio de Janeiro.

A escritura foi arrancada do livro de registro do 11º Ofício de Notas. Na época, o jornal O Estado de S. Paulo chegou a dar a notícia, e depois o assunto desapareceu da imprensa. De lá para cá, o número de publicações foi reduzido, e a Globo se consolidou como uma das maiores empresas de comunicação do mundo.

Com esse projeto, financiado pelos leitores do Diário do Centro do Mundo, trabalhamos com a firme convicção de que um expressivo segmento da sociedade decidiu escrever uma nova página na história da mídia.

Roberto Marinho e os filhos
Roberto Marinho e os filhos
Joaquim de Carvalho
No DCM
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Abaixo e acima de tudo

Falta muito, e faltam muitos, para que as primeiras prisões de altos corruptores os levem, mais do que à efêmera experiência de humilhação, aos julgamentos que merecem há tanto tempo. Nem é certo que haja tais julgamentos e, havendo, que condenações sejam prováveis. Para isso, provas suficientes são tão necessárias quanto difíceis, dados os métodos preventivos e os recursos defensivos dos poderosos corruptores da administração pública.

A par do seu traço inaugural, a megaoperação das prisões teve dois outros efeitos mais destacáveis. Por um deles, proporcionou à oposição um estoque explosivo de grande resultado na opinião pública. Estoque posto em uso enquanto ainda ocorria a operação da Polícia Federal, simultânea a evento de Aécio Neves e do PSDB em São Paulo. Artilharia de oposição, como se as prisões se dessem em ação da PF sob governo dos atuais oposicionistas, e não dos atacados. É política e, pior, política brasileira.

O outro efeito se destaca, não por implicação política, mas no sentido, mais grave, institucional e social.

A megaoperação, com toda a cinematografia própria da polícia federal brasileira, foi desfechada apenas 24 horas depois que os delegados responsáveis pelo caso Petrobras apareceram comprometidos, como autores, com manifestações explicitamente agressivas contra Dilma e Lula. E de apoio a Aécio Neves, exibido com diferentes mulheres e recomendado pela mensagem "Esse é o cara!!!!!".

Depois da incidência, sobre a disputa eleitoral e a candidata Dilma, dos "vazamentos" de delações bem premiadas feitas àqueles delegados, era inevitável que o conhecimento do que escreveram então tivesse alguma consequência. Apesar do modesto interesse que a imprensa demonstrou pela revelação da repórter Júlia Duailibi, em "O Estado de S. Paulo", uma investigação foi determinada por José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, para averiguar desvio de conduta.

A megaoperação das prisões precipitou-se obre o caso dos delegados e sua sugestiva atitude, abafando-o. Não tem como emergir, ao peso do sucesso de empreiteiros presos.

Os dois assuntos têm componentes em comum, mas são distintos na essência. Ainda que por atos de delatores, e não por investigações policiais, os modos e os responsáveis da corrupção em negócios da Petrobras se esclarecem, mesmo que não seja de todo. As interferências impróprias em disputas eleitorais, porém, repetem-se desde a primeira eleição pós-ditadura, sem que qualquer delas recebesse a resposta exigida pelo regime de eleições democráticas. Nas eleições recentes houve condutas extravagantes, e a Polícia Federal, mais uma vez, foi parte óbvia em algumas e ficou sob suspeita de participação em outras.

É possível que os delegados do caso Petrobras não tenham relação alguma com qualquer tentativa de influência imprópria no eleitorado. Mas há o que ser investigado sobre tentativas com uso de informações, verazes ou não, tidas como procedentes do material coletado na ação conjunta de PF, Ministério Público e Judiciário. E é lógico que a conduta dos delegados seja investigada. A lisura eleitoral e a liberdade integral do eleitorado estão acima de tudo. 

Janio de Freitas
No fAlha
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Sérgio Porto # 46


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Essa é do Barão... 104


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