13 de nov de 2014

Carta contundente: Cuba, España y los médicos emigrantes

El embajador de Cuba en España, Eugenio Martínez, ha enviado una carta al diario español ABC que se explica por sí misma.

En referencia al artículo publicado en ese diario el 12 de noviembre, titulado “Quince médicos cubanos huyen cada semana a Estados Unidos”, quisiera expresar mi sorpresa por considerar este hecho no verificado como una noticia de gran destaque, cuando acabo de leer en otros medios de prensa españoles que lamentablemente “3.400 médicos (de España) han pedido ya este año el certificado para emigrar“. El pasado año fueron 7.000 médicos españoles según las mismas fuentes. Si ambos datos fueran ciertos (claramente no doy fe del que refiere sobre Cuba), por cada cubano que abandona su misión en Venezuela cinco abandonan España. ¿No le parece anormal el seguimiento y escrutinio malicioso que hace sobre un programa de cooperación internacional como el que desarrolla Cuba en Venezuela que reporta muchos beneficios de salud a esa nación?

Sólo agregaría que ABC no dice que existe el Cuban Medical Professional Parole, una inicativa que coordinan, desde el año 2006, el Departamento de Estado y el Departamento de Seguridad Nacional de Estados Unidos. Su objetivo es estimular que profesionales de la salud que integran las brigadas de solidaridad cubana abandonen a sus pacientes y marchen a Estados Unidos, donde muchas veces no han podido obtener un empleo a la altura de su formación. Coincidentemente ABC “informa” cuando el mundo entero se admira con la “enorme contribución” — en palabras de The New York Times — de los médicos cubanos en la batalla contra el virus del ébola en África Occidental, reconocida hasta por el propio gobierno estadounidense.

Una preguntilla adicional, ¿cuál sería la cifra de médicos españoles emigrantes, de existir un Spanish Medical Professional Parole y un bloqueo de Estados Unidos contra España?

Iroel Sánchez
No CubaDebate
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Revista IstoÉ condenada a indenizar Fernando Pimentel

Por exceder o direito de informação e publicar informação sem provas, a revista IstoÉ, da Três Editorial, terá de indenizar em R$ 60 mil o governador eleito de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT). Para a 30ª Vara Cível de Belo Horizonte, a revista teria distorcido fatos ao publicar notícias sobre um suposto envolvimento de Pimentel no esquema do mensalão, julgado na Ação Penal 470.

O político reclamou de uma notícia de 2013 e de outras duas de 2014. A chamada de capa da notícia de 2013 foi: “Exclusivo: Como o coordenador da campanha de Dilma, o ex-prefeito mineiro Fernando Pimentel, operou o Caixa 2 para pagamentos no Exterior”. No ano seguinte, a revista publicou: “A um passo de virar réu: Ministério Público só aguarda conclusão de inquérito para denunciar o ex-prefeito Fernando Pimentel à Justiça”. E, ainda em 2014, noticiou: “Fruet mira Pimentel: Documentos sigilosos da CPI dos Correios mostram pelo menos 71 telefonemas que relacionam o coordenador da campanha de Dilma ao mensalão”.

Representado por Marcos Perez e Raul Borelli, do escritório Manesco, Ramires, Perez e Azevedo Marques Advogados, Pimentel pediu indenização por danos morais e que a revista publicasse a sentença da própria condenação. Ele aponta que a informação publicada é “de cunho supostamente jornalístico, mas no fundo é apenas para perseguir e caluniar o autor [da ação], associando-o ao chamado mensalão e práticas ilícitas”.

Na ação, o político diz que a revista praticou o “chamado jornalismo marrom, com narrativas distorcidas, sem nada provar, para apenas abalar a sua honra, macular seu prestígio político e empanar sua história pessoal”.

A revista afirmou que as reportagens são de interesse público e que os textos constam reproduções de informações oriundas de documentos e investigações oficiais. A empresa alegou também a ilegitimidade passiva do grupo de Comunicação Três S/A, já que a publicação da revista IstoÉ é da Três Editorial, sendo empresas distintas.

A empresa alegou que em nenhum momento as notícias acusaram Pimentel de participação em esquema criminoso decorrente de sua conduta política supostamente irregular com dinheiro público.

Em relação à legitimidade passiva do grupo, o juiz Geraldo David Camargo lembrou que o Superior Tribunal de Justiça já se manifestou no sentido de que a legitimidade para compor o polo passivo do processo indenizatório é da empresa exploradora do veículo que divulgou a matéria. Além disso, afirmou que o jornalista que assina a notícia é civilmente responsável pelo conteúdo, segundo Súmula 221 do STJ.

O juiz apontou que na instrução não se fez nenhuma prova de que Pimentel tivesse algum envolvimento com o mensalão do PT. Além disso, afirmou que o procurador da República Salgado Martins, citado nas reportagens como sendo o investigador que teria documentos que comprovariam o envolvimento do governador com o mensalão, “negou em todas as oportunidades tal afirmação da revista ou do jornal”.

“Os réus tentaram a qualquer custo envolver o autor com atos ilícitos penais, sem mínima prova, ou sequer indício razoável, sempre o associando ao chamado mensalão [...]”, afirmou.

Para o juiz, “não se pode negar que os réus excederam, e muito, no direito de informação, praticaram abusos, distorcendo fatos, atribuindo em manchetes jornalísticas a condição do autor de mensaleiro, ou seja, envolvimento no escândalo político do chamado mensalão do PT, que deu causa à Ação Penal 470”.

IstoÉ foi condenada a pagar indenização a Pimentel no valor de R$ 60 mil e deverá publicar a sentença na revista sob pena de multa diária de R$ 5 mil e que a decisão fique no site da revista por, pelo menos, 21 dias.

Clique aqui para ler a decisão.
Processo 0024.10.085.270-6
No Conjur
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Os safanões e a autoridade

Na segunda passada, foram divulgados os resultados de uma pesquisa que a Fundação Getúlio Vargas realizou para o Fórum de Segurança Pública. Nada surpreendente: 81% dos brasileiros concordam com a ideia de que, no Brasil, é fácil desobedecer às leis, e 57% acreditam que há poucos motivos para segui-las.

Há diferenças segundo a renda e os Estados, mas nada que altere a sensação de que existe, em geral, uma desconfiança do cidadão em relação à Justiça, à polícia e à autoridade pública.

Alguns dirão que ainda é um efeito da exclusão social: por que eu seguiria as regras de um clube que não me deixa frequentar sua sede? Outros, para explicar essa desconfiança, colocarão o acento na impunidade (embora talvez ela seja menos manifesta do que no passado).

Entendo. Às vezes me encontro numa fila infinita de carros, e um espertinho ultrapassa todo mundo pelo acostamento. Rezo para que, lá na frente, meus colegas de fila não deixem ele voltar para a pista — ou, então, para que, na próxima curva, haja um policial. Mas acontece o oposto: aos poucos, meus colegas de fila começam a seguir o exemplo do espertinho. Logo, o acostamento se torna mais uma pista, engarrafada e parada como as outras — com sorte, nenhuma ambulância precisará passar por lá.

Será que eu respeito a lei porque sou "do bem" ou porque me falta coragem, mesmo na óbvia ausência de fiscalização? Será que nós, os que ficamos na fila, somos apenas otários?

Enfim, a pesquisa da FGV levanta uma questão clássica e cotidiana: qual é o fundamento da autoridade da lei? Se você duvida que seja uma questão cotidiana, pergunte para qualquer jovem pai, quando ele é acusado pela mulher de não saber "colocar limites" nos filhos (essa expressão volta, aliás, como se todas as jovens mães tivessem lido o mesmo livro).

Subentendida nessas acusações está a ideia de que o marido, se não conseguir controlar as crianças, não deve ser homem de verdade. Mas, obviamente, a maioria das mães não está pedindo que o marido e pai conquiste a obediência das crianças à força de safanões e porradas. O que se pede é que alguém imponha uma autoridade "simbólica", ou seja, que alguém faça que as crianças obedeçam aos pais — por ele ser o pai e por ela ser a mãe. Cá entre nós: se você leu essa última frase sem rir (ou, no mínimo, sorrir), é porque você não tem filhos.

Em suma, é uma pergunta cotidiana: qual é a origem da autoridade? Existe uma autoridade que não comece com o safanão ou a ameaça do safanão?

Há muitas respostas possíveis a essa pergunta. Aponto dois caminhos divergentes.

Primeira resposta: não. Em última instância, a violência ou a ameaça da violência real seria a única fonte de qualquer autoridade. Claro, o mistério é que a autoridade sustentada pela violência real deve se transformar, aos poucos, em autoridade simbólica. Se a autoridade continuar fundada apenas na violência, o que acontecerá, por exemplo, quando os filhos crescerem e se tornarem mais fortes do que os pais? Os pais vão apanhar?

Outra resposta: sim, a autoridade pode se fundar sem violência e sem ameaça. Por exemplo, ela pode ser o efeito de uma dívida: estamos em dívida com os que nos oferecem amor e cuidados, e portanto obedecemos, escolhemos respeitá-los. Isso valeria tanto para os pais provedores quanto para o Estado, do qual seguiríamos as leis na medida em que ele nos ampara. A autoridade, em suma, seria fundada na gratidão. Os partidários da violência como origem da autoridade comentarão (com ironia) que para eles também a gratidão funda a autoridade: por exemplo, cada um reconhece a autoridade de quem poupa sua vida.

Enfim, uma famosa observação de Max Weber: existe Estado quando só UMA autoridade pode exercer a violência. Se alguém estiver exposto a várias violências de origens diferentes e conflitantes, nenhuma delas tem chance de se transformar em autoridade reconhecida espontaneamente.

Acabo de ler um artigo de Joanna Wheeler ("Accord", nº 25) sobre autoridade e cidadania em várias favelas cariocas. Entre as razões pela falta de uma autoridade simbólica, Wheeler aponta, justamente, a variedade das fontes da violência (tráfico, milícia, polícia) e, portanto, a dificuldade de os cidadãos enxergarem uma legitimidade qualquer.

Contardo Calligaris
No fAlha
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Força moral

Quando o Barack Obama lançou seu plano nacional de saúde, muitos americanos foram para as ruas manifestar seu apoio e agradecer a novidade. Que tardava, já que os Estados Unidos eram a única potência industrial do mundo que não tinha um plano de cobertura universal. Isso pensaria você, e pensaria errado.

As manifestações, insufladas por seguradoras e pelo lobby dos programas de saúde particulares, eram contra o plano. O chamado “Obamacare” teve um começo meio turbulento, mas agora funciona bem, beneficiando principalmente pobres e desempregados — o que não impediu que continuasse a ser combatido pelos interesses contrariados e pela oposição republicana, que vê nele mais uma prova de que Obama quer levar o país para o socialismo.

Durante todo o primeiro mandato do presidente, os republicanos, com maioria na Câmara dos Deputados, não fizeram outra coisa senão tentar boicotar seu governo e frustrar todas as suas promessas na área social. O Baraca tinha uma escassa maioria democrata no Senado com a qual dialogar. Depois das eleições da semana passada, não tem mais. O país foi para a direita e o deixou falando sozinho.

Você e eu pensaríamos que um plano abrangente de saúde que assegurasse atendimento a todo mudo teria uma força moral capaz de derrotar qualquer conveniência política ou econômica. “Força moral”, eu sei, não é um poder reconhecido num mundo regido pela ganância e pelo cinismo. Nem na esquerda, onde soa como sentimentalismo burguês inútil.

Mas há dias li uma matéria da Naomi Klein (canadense, autora de “No logo”, “A doutrina do choque” e outros livros de crítica aos desmandos do capitalismo) que trouxe um novo alento a este coração ingênuo. Naomi comparava a campanha pela abolição da escravatura ao atual movimento para salvar o planeta das agressões dos humanos à Natureza, que estão nos levando para uma cucuia de proporções ainda indefinidas.

E ela lembra que foi uma revolta contra a desumanidade da escravidão, portanto uma reação moral, que forçou a abolição. Não foi pouco o que o império britânico, por exemplo, perdeu junto com o direito de explorar a escravidão. Só as suas plantações de açúcar no Caribe no século XVIII, totalmente dependentes do trabalho escravo, davam mais lucro aos ingleses do que todas as suas outras colônias reunidas.

E foi no Parlamento inglês que a revolta moral contra a escravidão tomou forma relevante, apressando a abolição. Nos Estados Unidos, entre várias outras razões econômicas e geopolíticas para forçar o Sul a renunciar à escravidão, sua simples imoralidade anticristã foi decisiva. No Brasil só demoramos um pouco mais para nos escandalizarmos.

A direita republicana que agora domina os Estados Unidos não acredita que os humanos estejam causando o envenenamento do planeta. Ou que, se estão, isso seja razão para mudar os velhos hábitos e atrapalhar os negócios. Vamos ver o que a força moral pode contra eles.

Luís Fernando Veríssimo
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Bolsonaro no Exército



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De onde vêm os factóides

Não há nada mais interessante nos jornais de quinta-feira (13/11) do que a reportagem do Estado de S.Paulo revelando que os delegados federais responsáveis pela Operação Lava-Jato compunham uma espécie de comitê informal do candidato Aécio Neves à Presidência da República enquanto vazavam seletivamente para a imprensa dados do inquérito. A repórter Julia Duailibi teve acesso a perfis restritos do Facebook, nos quais autoridades da Superintendência da Polícia Federal do Paraná agem como os mais fanáticos ativistas da polarização política que marcou a campanha eleitoral. 

O texto não explica como a jornalista teve acesso ao material, nem quando, o que autoriza o leitor a considerar que o jornal podia já saber, na ocasião, que a fonte das especulações publicadas pela revista Veja na véspera da eleição era o próprio núcleo de investigações, atuando a serviço do candidato do PSDB. Segundo o relato, praticamente todos os agentes envolvidos na apuração, inclusive o chefe da Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários e a titular da delegacia de Repressão a Crimes Financeiros e Desvios de Recursos Públicos do Paraná, onde estão os principais inquéritos da operação, agiam como cabos eleitorais na rede social.

Entre as manifestações coletadas pela repórter há xingamentos vulgares à presidente Dilma Rousseff e ao ex-presidente Lula da Silva, e elogios de todo tipo a Aécio Neves – entre eles uma página em que o ex-governador de Minas aparece em montagem de fotografias na companhia de mulheres atraentes. Nessa página, o responsável pela Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado, a quem estão vinculados os delegados empenhados na Operação Lava-Jato, escreveu: “Esse é o cara!”

Os policiais citados participam de um grupo fechado autointitulado Organização de Combate à Corrupção (OCC), cujo símbolo é uma caricatura da presidente da República com dois grandes dentes incisivos e coberta por uma faixa onde se lê: “Fora, PT!” O conteúdo repete factoides, mitos, boatos e todo o arsenal usado durante a campanha eleitoral contra a reeleição da presidente.

Inquérito contaminado

A página inicial da organização ainda pode ser acessada (ver aqui) no Facebook, embora a participação seja exclusiva para inscritos sob convite, e apresenta a OCC como “um instituto de orientação da cidadania, da democracia, da promoção do desenvolvimento econômico e social e de outros valores universais”.

Ela remete ao blog da suposta entidade (ver aqui), onde se desenvolvem campanhas em defesa da ditadura militar, teorias conspiratórias e textos que procuram desacreditar alguns profissionais da imprensa – num deles, os autores expõem os repórteres Gustavo Uribe, da Folha de S.Paulo, e Ricardo Chapola, do Estado de S.Paulo.

A OCC tem todas as características de outra organização de extrema-direita que atuou como força auxiliar da repressão nos tempos da ditadura militar: o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) também começou como uma entidade da sociedade civil preocupada com a defesa de supostos “valores universais” e acabou transformado em milícia terrorista, praticando ações extremas como a depredação de uma emissora de rádio, atentados a bomba e o assassinato de um padre católico no Recife.

A reportagem inclui entrevistas com especialistas em Direito Administrativo e Penal para os quais o posicionamento político de delegados na condução de uma investigação pode colocar em xeque a neutralidade e conduzir até mesmo à nulidade de um inquérito. Alguns dos consultados citam a Operação Satiagraha, que levou à destituição e condenação do delegado federal Protógenes Queiroz por vazamento de informações sigilosas. Como se sabe, com essa justificativa a Operação Satiagraha foi esvaziada por decisão do Supremo Tribunal Federal, deixando livre o principal acusado, o banqueiro Daniel Dantas.

A revelação feita pelo Estado de S.Paulo e o que se pode apurar sobre os personagens dessa história compõem um escândalo dentro do escândalo da Petrobras e expõem a perigosa contaminação de toda uma superintendência regional da Polícia Federal por interesses externos ao da atividade policial, o que coloca em dúvida a qualificação de seus agentes para conduzir essa investigação, e, por consequência, de todo o noticiário que se seguiu.

Além disso, revela de onde vêm os factoides utilizados pela imprensa para exercer sua influência em questões importantes para a sociedade brasileira, como a eleição para a Presidência da República.

Luciano Martins Costa
No OI
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Mauricismo X Bolivarianismo, uma tendência

À esquerda, o mauricinho presidenciável Lacalle Pou, do Uruguai.
Tive a antevisão dessa ofensiva tempos atrás, no início dos anos 2000, quando assisti os mauricinhos abandonarem suas trincheiras na Vila Olímpia, bairro coxinha por excelência, e invadirem a Vila Madalena, tradicional bairro boêmio e alternativo de São Paulo. Naquele momento, pressenti e temi que algum dia eles quisessem ir além e decidissem tomar o poder. A ideia de uma revolução mauricinha me deu calafrios. Pronunciei mentalmente um “no pasarán” apaziguador e fui afogar as mágoas tomando umas cervejas no Empanadas. Mais de dez anos depois, porém, para meu desgosto, a profecia se cumpriu.

Mauricinhos, playbas, coxinhas. Chamem-nos como quiserem: trata-se do mesmo personagem de corte de cabelo impecável e com uma preferência indesculpável pelo mocassim. Hugo Chávez os chamava “esquálidos”. Na Argentina e Uruguai, são apelidados “chetos”. No Chile os chamam “cuicos”. Em comum, em primeiro lugar, o fato de serem homens jovens, brancos e bem-nascidos, uma espécie de versão sul-americana dos WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant). Nem tão brancos, portanto, e católicos. Para quem acha que foi o PT quem inventou a luta de classes, não deixa de ser curioso observar que a disputa entre a esquerda e os filhos da elite política, econômica e midiática é, na verdade, uma tendência no continente.

O figurino coxinha pode até ser emulado por wannabes de várias classes sociais, mas só o legítimo mauricinho tem berço: descende de famílias poderosas há gerações e trilha o mais atapetado dos caminhos para chegar lá. Boas escolas, boas relações, bons empregos — sobretudo no aconchego das empresas da família. Self-made men são raríssimos no seleto clube dos maurícios, onde o sobrenome é tão imprescindível quanto as camisetas gola pólo ou as camisas de algodão azul clarinho no guarda-roupa. O mais gozado disso tudo é que, com uma vida tão facilitada pela família, todos eles adoram defender a “meritocracia”.

Graças ao apoio ostensivo da mídia, os mauricinhos vêm se tornando, nos últimos anos, os principais rivais dos governos de esquerda na América do Sul. Eles são a antítese dos ditos “bolivarianos” em tudo. Falam inglês, ao contrário de Lula; estudaram nos melhores colégios, em contraste com a falta de polidez de Chávez ou Nicolás Maduro; se vestem de maneira elegante, em contraponto ao estilo mal-ajambrado de Pepe Mujica ou Dilma Rousseff; e são jovens contra coroas de esquerda como Mujica, Dilma, Lula ou Tabaré Vázquez.

O precursor dos playbas anti-bolivarianos foi, sem dúvida, Henrique Capriles, na Venezuela. Herdeiro de empresas de comunicação, imobiliárias e indústrias por parte de pai, e de uma cadeia de cinemas por parte de mãe, o advogado Capriles, de 42 anos, elegeu-se deputado pela primeira vez aos 26, em 1998. Em 2013, deu muito trabalho a Chávez na disputa pela presidência e mais ainda a Nicolás Maduro, que substituiu o comandante em nova eleição após a morte deste.

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Os mauricinhos venezuelanos Henrique Capriles e Leopoldo López
Apesar de ter perdido o pleito por uma diferença de pouco mais de um ponto percentual, Capriles só não se tornou o grande nome da oposição venezuelana porque passou a travar uma disputa, digamos, mauricida com um companheiro da própria MUD (Mesa da Unidade Democrática), Leopoldo López. Aos 43 anos, López é descendente do primeiro presidente da Venezuela, de ministros, médicos famosos, e, garante, do próprio Simón Bolívar (Capriles, aliás, diz o mesmo). Sua mãe foi uma importante diretora da PDVSA antes da estatização promovida por Chávez. Formou-se em economia nos Estados Unidos e, aos 29 anos, tornou-se prefeito de Chacao, um dos municípios que formam a área metropolitana de Caracas.

No Brasil, confesso que cheguei a temer que o rei dos coxinhas em pessoa, Luciano Huck, resolvesse se candidatar à presidência ou a vice de algum candidato este ano. Mas quem se lançou foi seu amigo Aécio Neves, do PSDB, com perfil em tudo similar ao dos venezuelanos. Neto de Tancredo Neves, Aécio conseguiu cargos públicos ainda bastante jovem e sem maior esforço. Foi diretor de loterias da Caixa Econômica aos 25 anos, nomeado pelo presidente José Sarney, e em seguida se elegeu deputado federal com uma votação esmagadora, alavancado pelo sobrenome de peso.

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O mauricinho brasileiro Aécio Neves e seus bons companheiros Luciano Huck e Ronaldo
Aécio pode ser considerado um pioneiro do movimento mauricista, porque é mais velho do que seus congêneres sul-americanos: todos eles em geral estão entrando nos 40 anos, enquanto o mineiro tem 54, conservadíssimos pelo estilo de vida jovial de quem passou boa parte da vida na zona sul do Rio de Janeiro. No entanto, é inegável que o grande patrono do fenômeno dos maurícios entre nós é o hoje senador da base governista (!) Fernando Collor de Mello.

Eleito para a presidência da República em 1989, aos 40 anos, Collor exibiu todas as características de um mauricinho no poder. Bons restaurantes, bons vinhos, carros velozes, jet-skis e até marcas de caneta (Montblanc) e relógio (Breitling) viraram símbolo de sua era. Na economia, cercou-se de jovens como ele, economistas liberais capitaneados por Zélia Cardoso de Mello, de 37 anos a equipe que iria tungar a poupança dos brasileiros em 1990. Seu governo, sem apoio no Congresso, terminaria em impeachment.
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Collor, um pioneiro do mauricismo na política, e seu jet-ski
Aécio, como todos os demais mauricinhos anti-bolivarianos, não assume o neoliberalismo do pensamento econômico tucano e se diz preocupado também com o social. Depois de uma disputa voto a voto com Dilma Rousseff, do PT, pode-se dizer sem chance de errar que o neto de Tancredo se tornou o maior expoente do mauricismo pátrio não à toa, tem a seu lado nomes de peso da tendência, como o já citado Huck, o baiano ACM Neto ou Ronaldo, o Fenômeno. Mas será que a mauricidade de Aécio resiste até 2018, quando terá 58 anos e a cabeça toda branca? Ou será substituído por um maurício mais jovem, como… Huck? Argh.

Atualmente, a novidade mais quente entre os mauricinhos da política do Cone Sul é o uruguaio Lacalle Pou, que irá enfrentar o esquerdista Tabaré Vázquez no próximo dia 30 de novembro, no segundo turno das eleições para a presidência do Uruguai. O advogado de 41 anos é tão bem-nascido que tem até nome de nobre: Luis Alberto Aparicio Alejandro Lacalle Pou de Herrera. Um verdadeiro príncipe. Seu pai, Luis Alberto Lacalle, foi presidente do país entre 1990 e 1995, e foi derrotado por Tabaré em sua tentativa de voltar ao cargo, em 1999. Em 2009, se lançou à presidência novamente e perdeu para Mujica.

Lacalle Pou estudou na British School, a mais seleta escola de Montevidéu, e, como todos os mauricinhos anti-bolivarianos, entrou cedo na política, com o empurrãozinho do sobrenome paterno e também materno, de longa tradição entre os “blancos” (Partido Nacional). Aos 27 anos, em 2000, se elegeu deputado. Agora, se tornou a grande surpresa da eleição ao levar a disputa no país para o segundo turno. A mãe do candidato, Julita Pou, também foi senadora, e, segundo diz a imprensa uruguaia, é a grande financiadora da campanha do filho, o que ele nega.

Em agosto, o candidato causou polêmica ao “desafiar” Tabaré, de 74 anos, a repetir uma estripulia física chamada “bandeira” com um poste, o que lhe rendeu o apelido de “Lacalle Pole” e muita gozação na internet, além de críticas por zombar do adversário por ser “velho”.

 

O pai de Lacalle Pou foi um presidente em cujo governo se acentuou a desigualdade social no Uruguai e que se notabilizou pela privatização de empresas e pelas denúncias de corrupção. Lacallito rejeita para si o epíteto de neoliberal ou de “Chicago Boy” (os economistas responsáveis pelo “milagre” chileno durante a ditadura de Pinochet que anteciparam o neoliberalismo). Pelo contrário, elogia as conquistas da Frente Ampla de Mujica e Tabaré e diz que irá mantê-las. Quem nunca viu este filme antes?

Se ganhar a eleição, Lacalle Pou será o primeiro dos mauricinhos anti-bolivarianos a conseguir derrotar um esquerdista e chegar ao poder. Felizmente, ao contrário do que fez Chávez na Venezuela, são remotas as chances de, eleito, mudar o nome do país para República Maurícia do Uruguai ou República “Cheta” do Uruguai. Pelo sim, pelo não, melhor preparar a camiseta pólo e o mocassim para a posse.

Cynara Menezes
No Socialista Morena
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Neofascismos, eles passarão? O sintoma das urnas

Mussolini e Hitler em Veneza, Junho de 1934
Cena do filme  alemão  A Onda, de 2008. Mostra como experimento de classe constituiu uma verdadeira ditadura fascista e discute o quão longe o regime de Hitler realmente está dos nossos dias
assista o filme aqui

Fascismo é uma palavra que, por vezes, aparece vulgarizada. Ela se origina de fascio (do latim fascis: feixe), símbolo da autoridade dos antigos magistrados romanos, que utilizavam feixes de varas com o objetivo de abrir espaços entre as pessoas para que passassem (exercício de poder no corpo do indivíduo).

Em sua origem, portanto, os feixes eram instrumentos a serviço da autoridade e, por essa razão, passaram a ser utilizados como símbolos do poder do Estado. Não por acaso, durante o regime fascista italiano (Fascismo Clássico) essa insígnia foi recuperada com o objetivo de simbolizar a força em torno do Estado.

O fascismo recebeu seu nome na Itália, mas Mussolini não estava sozinho. Diversos movimentos semelhantes surgiram no pós-guerra com a mesma receita que unia voluntarismo, pouca reflexão e violência contra seus inimigos.

Hoje, parece existir consenso de que existe(m) fascismo(s) para além do fenômeno italiano ou, ainda, que o fascismo é um amálgama de significantes, um “patrimônio” de teorias, valores, princípios, estratégias e práticas a disposição dos governantes ou de lideranças de ocasião (que podem, por exemplo, ser fabricadas pelos detentores do poder político ou econômico, em especial através dos meios de comunicação de massa).

Note-se que, ao comentar o surgimento do fascismo clássico, Mariátegui deixou consignado que os “fascistas provêm dos diferentes partidos e setores burgueses. O ‘fascismo’ não constitui, portanto, um conglomerado homogêneo. Em suas fileiras há elementos de filiação e origem claramente reacionárias e conservadoras”(MARIÁTEGUI, José Carlos. As origens do fascismo. PERICÁS, Luiz Bernardo (org.). São Paulo: Alameda, 2010. p.179).

Para seus idealizadores e teóricos, o fascismo era uma ideia política com peso semelhante ao do socialismo ou do liberalismo (curioso notar que, ainda hoje, alguns que se afirmam liberais defendem posições que são típicas do fascismo, como, por exemplo, o boicote a artistas ligados a projetos políticos diversos daqueles a que aderem).

O discurso legitimador das práticas fascistas é de que a ideia que leva a essa prática (que, em regra, não se assume fascista) não teria surgido de abstrações teóricas, mas da necessidade de ação (da vontade de conquista). Bobbio percebeu que o fascismo italiano tinha como programa imediato “pura e simplesmente a conquista do poder” (BOBBIO, Noberto.Do fascismo à democracia: os regimes, as ideologias, os personagens e as culturas políticas. Trad. Daniela Beccaccia Versiani. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007, p. 28).

Hoje, os neofascistas se contentam em disseminar o ódio contra o que existe para conquistar o poder, sem maiores preocupações com a formulação de um projeto alternativo (outras vezes, apostam em projetos reacionários de retorno a um passado mítico, na verdade, uma representação que funciona como “fantasia”, capaz de dar conta e suporte ao desejo fascista).

Todavia, o fascismo possui uma ideologia: uma ideologia de negação. Nega-se tudo (as diferenças, as qualidades dos opositores, as conquistas históricas, a luta de classes, etc.). ]

O fascismo é cinza, enquanto a democracia é multicolorida. A ideologia fascista, porém, deve ser levada a sério, pois não só é tão criticável quanto todas as demais ideologias como também apresenta soluções “fáceis” para os mais variados problemas sociais modernos (nesse sentido: MANN, Michael. Fascistas. Trad. Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 13).

Como ensina Bobbio, os fascistas “talvez não soubessem o que queriam, mas sabiam muito bem o que não queriam. Não queriam, em uma palavra, a democracia, entendida como laborioso e difícil processo de educação na liberdade, de governo através do controle e do consenso, de gradual e sempre contestada substituição da força pela persuasão” (BOBBIO, Noberto. Do fascismo à democracia: os regimes, as ideologias, os personagens e as culturas políticas. Trad. Daniela Beccaccia Versiani. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007, p. 29).

Essa mistura de pouca reflexão (o fascismo, nesse particular, aproxima-se dos fundamentalismos, ambos marcados pela ode à ignorância) e recurso à força (como resposta preferencial para os mais variados problemas sociais) produziu reflexos no sistema de justiça criminal.

No fascismo, tanto a pena quanto o processo penal, por exemplo, orientam-se à proteção do Estado (o indivíduo é visto como um inimigo em potencial) com a ampliação do poder penal e correlata diminuição das garantias individuais. O afastamento de direitos fundamentais, a ampliação do encarceramento (com a transformação do preso em mercadoria), a correlata redução da idade penal e o incremento do controle social das populações indesejadas são medidas que sempre se adequaram ao projeto fascista.

No fascismo, o Estado apresenta-se como superior a todos os indivíduos. Estes, portanto, ficam subordinados às razões estatais e a um poder praticamente sem limites. Há uma tentativa de edificação de um Estado total, isto é, um Estado que se sobreponha ao indivíduo a ponto de anulá-lo. Não por acaso, a intolerância torna-se uma constante, o que leva à repressão da diferença (revela-se, pois, natural que sexistas e homofóbicos identifiquem-se com projetos neofascistas).

Nega-se, portanto, a alteridade e acentua-se a criação e a preocupação com os inimigos do Estado, com aqueles que criticam ou não acatam as razões do Estado. Note-se que as tentativas de solucionar os problemas de saúde pública (como as questões das drogas etiquetadas de ilícitas e do aborto) e de controlar reivindicações populares (basta pensar no fenômeno da criminalização dos movimentos sociais) através do sistema penal são manifestações desse Estatismo que se vinculam ao ideário fascista.

Outra característica marcante é o fato do fascismo se apresentar como um fenômeno racional ou mesmo natural. O fascismo e as práticas fascistas aparecem para os seus adeptos como consequências necessárias do Estado, dessa relação entre homens que dominam outros homens através do recurso à violência que se apresenta como legítima. Assim, como toda forma de ideologia, o fascismo não é percebido como tal por seus agentes: tem-se, então, a naturalização de práticas fascistas, mesmo em ambientes formalmente democráticos.

Também é reconhecida como característica dos movimentos fascistas o seu pronunciado ativismo, com o recurso à força como meio preferencial à solução dos diversos problemas sociais. Por evidente, os frequentes excessos gerados por esse ativismo passam a exigir uma ampla cumplicidade entre os membros do establishment: magistrados, promotores de justiça, policiais, militares, jornalistas, homens de negócio e etc.

Mario Sznajder, ao pesquisar sobre o fascismo, declarou que “não há dúvida de que o fascismo é uma ideologia política, baseada em certas afirmações de origem filosófica e cultural, adotada por movimentos intelectuais, sociais e políticos para transformar-se em partido e regime onde as circunstâncias históricas o permitissem. Ou ainda para proporcionar aspectos propagandísticos e operacionais a movimentos políticos que não podem ser definidos como fascistas, mas que vêem no fascismo ideológico e prático uma fonte de inspiração (…).

Também são componentes essenciais do tipo de nacionalismo que o fascismo adota e opera o seu caráter guerreiro e violento” (SZNAJDER, Mario. Fascismo e Intolerância. In: Tempos de fascismo: ideologia – intolerância – imaginário. CARNEIRO, Maria Luiza Tucci e CROCI, Federico. (orgs.). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2010. p. 25).

Os vários fascismos também sempre tiveram a necessidade de um inimigo demonizado em razão do qual a utilização da força estaria legitimada. Esse inimigo é o “estranho” (no recente processo eleitoral, o inimigo era o “desinformado”, o “nordestino”, o “pobre” ou o “petralha”).

Na pós-modernidade, o estranho a ser demonizado (e, portanto, objeto em potencial do sistema penal e das práticas fascistas) é aquele que não está inserido funcionalmente na sociedade (e que, para o neofascista, nunca poderá ser inserido) de consumo ou que se opõe ao status quo.

Hoje, mostra-se cada vez mais crível a hipótese de que as crises do capitalismo fazem aflorar movimentos em direção ao fascismo. Na linha desenvolvida tanto por Leandro Konder (KONDER, Leandro. Introdução ao fascismo. São Paulo: Expressão Popular, 2009, p. 53) quanto por Robert Owen Paxton (PAXTON, Robert. A anatomia do fascismo. Trad. Patrícia e Paula Zimbres. São Paulo: Paz e Terra, 2007, p. 43) pode-se afirmar que as forças capitalistas, incapazes de assegurar a expansão contínua dos mercados, o amplo acesso à matéria-prima e à mão barata (e obediente) e o controle sobre os movimentos reivindicatórios (que não interessam à logica da produção e circulação de mercadorias) por meio de operações adequadas ao modelo democrático, viram-se obrigadas a encontrar novas maneiras de alcançar esses objetivos pela força, ou seja, o projeto capitalista, não raro, tem que assumir a forma de um movimento fascista.

Hoje, vivenciam-se os efeitos de mais uma crise do capitalismo e, no Brasil, acentua-se o sentimento de que o risco de fascistização se faz presente.

O assassinato de um militante do Partido dos Trabalhadores (PT) que fazia campanha para o seu candidato, as agressões e ofensas a eleitores de vários partidos, o crescimento da bancada parlamentar que aposta tanto no recurso à violência quanto nos discursos de ódio e de negação da alteridade (fundamentalistas religiosos, “bancada da bala”, etc.), a naturalização com que foi encarada a proposta de um dos candidatos à presidência de reduzir a idade penal e as apostas eleitorais/eleitoreiras de reforma da legislação penal, com o aumento de penas e a redução das garantias processuais (como lembra o Marcelo Semer, “aderir a estado policial pode ser opção eleitoral; sair dele nunca é”), são sintomas de que a ameaça da fascistização da sociedade brasileira é real.

O grande problema é que as condutas que flertam com o fascismo funcionam como uma válvula de escape do irracional.

Quem, por exemplo, defende a redução da idade penal não pode ser convencido com argumentos racionais (como, por exemplo, a apresentação dos resultados das diversas pesquisas que apontam que os países que diminuíram a idade penal não reduziram a criminalidade), isso porque argumentos racionais só surtiriam efeito se a opção pela defesa da redução da idade penal (ou a opção eleitoral que encarna esse desejo) tivesse se dado através da argumentação, isto é, de maneira crítica, através da aceitação de argumentos racionais.

Não por acaso, os discursos nos comícios do Nacional-Socialismo distinguiam-se pela habilidade dos oradores (todos com boa dicção e presença de palco impecável) em recorrer à emoção e evitar ao máximo uma argumentação objetiva (gritos, ofensas e acusações bastavam à manipulação das massas). Não por acaso, nestas eleições, os discursos de ódio ao outro substituíram a apresentação de propostas concretas ou o confronto entre os projetos políticos que cada candidato representava.

O quadro que se avizinha não parece promissor. A nova composição do Congresso Nacional, apontado pelo DIAP como o mais conservador desde 1964, e o crescimento do potencial eleitoral dos candidatos que mais se aproximam do ideário fascista é um risco à democracia.

Impõe-se, portanto, uma postura ética que sirva de obstáculo aos movimentos antidemocráticos. Uma postura ético-poética (TIBURI, Marcia. Filosofia prática. Rio de Janeiro: Record, 2014): ética, porque entendida como um processo comprometido com o outro (em especial, com aquele que mais necessita); poética, uma vez que voltada à criação (poiesis) de vida (plena/digna), uma atitude de concretização dos direitos fundamentais de todos, como forma de resistir às tendências que apostam no ódio e na violência.

Apesar das muitas críticas que podem ser feitas à atual gestão federal, são inegáveis os avanços percebidos com o crescimento econômico, os baixos índices de desemprego, o sucesso de políticas de distribuição de renda e a redução de desigualdades tanto sociais quanto regionais. Nada justifica o ódio ao governo e a violência dirigida aos programas que criou (Bolsa Família, Mais Médicos, etc.).

Violência que, no mundo-da-vida, se volta à população que deles se beneficia.

Importante lembrar, com Zizek, que a violência não se limita à sua expressão vulgar/subjetiva (a violência em que os protagonistas são facilmente identificados), posto que existem formas simbólicas e estruturais de violência (ZIZEK, Slavoj.Violência: seis reflexões laterais. São Paulo: Boitempo, 2014).

Ao reforçar a tradição autoritária e elitista em que está inserida a sociedade brasileira, esses ataques aos programas sociais do governo caracterizam-se como manifestações de violência simbólica. De igual sorte, eventual eliminação desses programas, que reduziram a miséria e a desigualdade, consistiria em grave violência estrutural.

Rubens Casara, Doutor em Direito, mestre em Ciência Penais, professor do IBMEC/RJ e membro da Associação Juízes para a Democracia e do Corpo Freudiano

Giane Ambrósio Álvares, advogada, mestranda em Processo Penal pela PUC/SP e membro da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares

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Os delegados da Lava Jato agem como políticos e não como policiais


Palmas, de pé, à jornalista Julia Duailibi, pelo artigo publicado no Estadão de hoje.

Julia jogou luz onde há escuridão, uma das missões mais nobres do jornalismo — e menos seguidas, lamentavelmente, pelas grandes companhias jornalísticas brasileiras.

As luzes iluminaram a completa, abjeta, despudorada falta de isenção dos delegados da Polícia Federal incumbidos da investigação do caso Petrobras.

Julia teve acesso a mensagens que eles compartilharam durante a campanha — e a investigação — em grupos fechados na internet.

O conteúdo das mensagens é brutalmente incompatível com o espírito isento que deve nortear investigações.

Eles ali já condenaram antes de apurar.

Imagine entregar um caso policial que envolva políticos à redação da Veja: é, na essência, o que vem acontecendo na Polícia Federal na Operação Lava Jato.

Os delegados têm que ser imediatamente afastados dessa investigação, e substituídos por policiais que concluem apenas depois de apurar os fatos.

A dúvida é se a PF foi deliberadamente aparelhada por grupos políticos antipetistas ou se a ela costumam acorrer, como na época da ditadura militar, pessoas para as quais a esquerda come criancinha.

O delegado Igor Romário de Paula, sob o qual trabalham policiais incumbidos da Lava Jato, participa de um grupo no Facebook chamado Organização de Combate à Corrupção.

O símbolo deste grupo, conta Julia Duailib, é “uma caricatura de Dilma, com dois grandes dentes incisivos que saem da boca, e coberta por uma faixa vermelha na qual está escrito: Fora, PT!”

Paula responde diretamente ao superintendente da Polícia Federal do Paraná, Rosalvo Franco.

O coordenador da Lava Jato, o delegado Marcio Anselmo, se referiu a Lula numa mensagem como “anta” — termo usado por muitos anos pelo colunista da Veja Diogo Mainardi.

A Polícia Federal deveria, em tese, ser uma solução para o Brasil.

É, na realidade, um problema, e um problema de enormes proporções.

O que a jornalista Julia Duailibi revelou aos brasileiros foi um dos maiores escândalos da história recente do país.

Não basta fazer uma reforma superficial na PF.

Ela tem que ser reinventada para que seus agentes se comportem como policiais — e não como políticos que, longe dos holofotes, conspiram contra a democracia.

Tudo da Lava Jato tem, agora, que ser revisto à luz das informações de Julia Duailib.

Mais uma vez, palmas para ela.

De pé.

Paulo Nogueira
No DCM
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PSDB inspira-se no Tea Party


Com déficit de votos, tucanos copiam extrema direita norte-americana e querem austeridade que eleitor rejeitou

Pouco a pouco, a oposição brasileira assume sua nova vocação política — o Tea Party norte-americano, movimento ultra reacionário, nascido para impedir o qualquer recuperação nas políticas públicas daquele país depois dos ataques ao Estado de Bem-Estar Social promovido a partir dos anos 1980, nos 12 anos de Reagan-Bush pai.

Em 2014, no Brasil, país onde é comum encontrar situações de ganhar e não levar, o PSDB não ganhou as eleições presidenciais — mas quer levar uma decisão fundamental para o destino do país e dos brasileiros. A derrota de Aécio Neves para Dilma Rousseff ainda não completou um mês mas os tucanos já tentam impor “medidas impopulares” ao país.

É um truque conhecido da anti-democracia. Através de uma legislação que impõe limites ao endividamento do Estado, sem similar no Brasil, periodicamente o Tea Party norte-americano tenta paralisar investimentos e gastos do governo. Ameaça forçar a suspensão de todos pagamentos públicos — a medida inclui até salários de funcionários públicos —, o corte em benefícios sociais, áreas inteiras da administração e até o fechamento de escolas.

Ao debater mudanças no cálculo de superávit primário, no Brasil de 2014, a oposição procura reproduzir essa situação, numa postura destrutiva e predatória.

Num comportamento que foi observado pelo professor da USP Paulo Arantes, estudioso do conservadorismo dos países desenvolvidos, no momento o PSDB não está preocupado em propostas para melhorar a vida das pessoas comuns. Não quer oferece alternativas nem tenta discutir projetos. Não tem uma “ideia melhor. ”Contenta-se em tentar impedir o governo Dilma de “acontecer”.

Vamos entender a discussão. O Planalto quer modificar o cálculo para permitir o prosseguimento das obras do PAC e diminuir as carências de nossa infraestrutura. Dilma falou isso no governo e repetiu o compromisso na campanha de onde saiu com 3,5% votos a mais do que o adversário — e teria feito mais, sabemos todos, não fosse a tentativa de golpe midiático na reta final.

Brasília também quer conservar as desonerações, que ajudam a manter o desemprego da história.

É fácil entender estes cuidados. Interromper o PAC implica em desempregar milhares de trabalhadores e atrasar por anos — e quem sabe cancelar para sempre — obras essenciais para o país.

Modificar as desonerações implica em criar uma nova tensão entre as regras tributárias e o setor privado. Quem pode ganhar com isso, neste momento?

O que se quer é um sinal político.

A oposição quer dar um empurrão para tentar colocar o país em recessão, rebaixando o crescimento, que está fraco, e queimando o segundo mandato de Dilma antes dele começar. Imagine aonde eles pretendem chegar. Quem sabe 2018.

Os mais delirantes chegaram a falar em crime de responsabilidade contra Dilma — a Folha de hoje informa que nem há previsão legal para tanto. A verdade é que, embora tenha leis fiscais duríssimas, responsáveis pela asfixia de governos de Estado e municípios, o Brasil não se tornou, pela herança legal deixada por Fernando Henrique Cardoso, um país tão reacionário como os Estados Unidos de Reagan & Cia.

Este é o debate — num país onde é pura fantasia falar em crise de boca cheia, com as reservas acumuladas em US$ 300 bilhões e um quadro geral com números semelhante e equivalentes, com variações para pior e para melhor, aqui e ali, às economias do mesmo porte.

Na vida real, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, vai a Brasília de chapéu na mão, pedindo R$ 3,5 bilhões para fazer investimentos contra a seca. Não é o único caso.

Governadores e prefeitos, de todos os partidos, pressionam Brasília, noite e dia, para amenizar o sufoco financeiro.

Sem sair do palanque, a oposição tenta criar o ambiente de terrorzinho, falando até em “discutir, inclusive do ponto de vista judicial, quais as demandas cabíveis porque a presidente da Republica incorre em crime de responsabilidade se não cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal,” disse Aécio Neves, numa tentativa de criminalizar um debate que é político. Não há lei que impeça mudanças no superávit fiscal.

Em 2002 a economia estava em desordem, e Fernando Henrique Cardoso foi pedir empréstimo ao FMI. Na Carta ao Povo Brasileiro, Lula se comprometeu a elevar o déficit até onde fosse necessário — porque este era o caso, na época.

Organização extremista infiltrada dentro do Partido Republicano, com disciplina própria e um caixa de campanha que não surpreende pelo volume nem pela generosidade, o Tea Party vive uma situação que causa inveja a seus admiradores brasileiros. Seus parlamentares exercem uma influência infinitamente maior, no dia a dia, do que sua reduzida base social, o que se explica por uma combinação de vários fatores, a começar pelo fato de que o voto não é obrigatório, o que facilita a exclusão do mais pobres das urnas.

Evitando rejeitar — de modo categórico e sem deixar dúvidas — as manifestações a favor de um golpe de Estado promovidas por uma fatia dos eleitores de Aécio, o PSDB agora luta para aplicar, em Brasília, um programa de austeridade que a população não apoiou.

Com déficit de votos, PSDB cobra superávit do governo.

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Palavra de ministros

Aos olhares simplificadores, as atitudes da ex-ministra Marta Suplicy e do Gilberto Carvalho pareceram críticas de igual intenção. E até de igual importância. Muitos precisam alegrar-se com o que apareça, para reconstruir-se depois de lançarem a desconstrução como programa eleitoral. E ruírem.

Se alguém esperasse que Marta Suplicy se demitisse com uma carta de agradecimento pela oportunidade recebida, poderia supor também algum significado maior na carta pontiaguda que cravou na presidente e, claro, divulgou na internet. Mas Marta Suplicy foi só a Marta Suplicy.

Gilberto Carvalho também foi Gilberto Carvalho. Calmo, delicado, com a franqueza de sempre, disse verdades sobre o governo, sobre a Presidência de que é o secretário-geral e sobre Dilma Rousseff. Suas constatações resultam em críticas que são inquestionáveis no fundamento e não ficam nas estreitezas temáticas dos economistas e dos jornalistas.

Dilma Rousseff não lidou bem com os políticos, de fato, em seu primeiro mandato. A par da maneira de ser, e de ter com políticos uma experiência sobretudo de convívio entre companheiros, Dilma sucedeu o traquejo e flexibilidade de Lula. Contraste estiolante. O mesmo em relação ao que Gilberto Carvalho chamou de "movimentos sociais", em cujas "demandas [Dilma] avançou pouco". Nesse quesito, Dilma e o governo apegaram-se a poucas diretrizes, com realce para a distribuição de renda pelos salários e a saúde pelo Mais Médicos. O demais ficou por conta dos seus responsáveis, com resultados variáveis.

O apoio para tornar os assentamentos produtivos pode ter aumentado, mas a reforma agrária como um todo "não foi o que os movimentos esperavam". Muito longe disso. E mais longe ainda, sem possibilidade de ressalva alguma, foi o descaso com a demarcação de terras indígenas e com a proteção devida às aldeias sob o tiro de tomadores de terras, quando não caem por fome e doença mortíferas.

O crescimento da "resistência ideológica e econômica fortíssima à questão indígena" leva Gilberto Carvalho a uma conclusão mais ampla, como causa: "A direita cresce porque cresce". Mas a verdade é pior. No problema dos indígenas, a ação "da direita" cresceu porque o governo lhe cedeu espaço e força. E é duvidoso que busque recuperá-los.

Gilberto Carvalho acentua a deficiência, com resultados graves, "de diálogo com os principais atores na economia", por falta de "competência e clareza" do governo. Sem dúvida. Nesse caso, ainda que mantido o diagnóstico do ministro, a responsabilidade deve ser compartilhada pelos dois lados. Os "principais atores na economia" investiram muito na pressão e na chantagem. No país em que ter dinheiro é tudo, os portadores deste justificado sentimento, ainda por cima, chegaram a Dilma viciados por 16 anos de Fernando Henrique e Lula e respectivas curvaturas.

Nesse capítulo, cabe um acréscimo à deficiência de diálogo citada pelo ministro: a deficiência de comunicação com o país foi imensa. Dilma e o governo pagaram, pagam e pagarão muito por isso. E o país também.

A propósito, Gilberto Carvallho fez, à margem do seu tema, uma afirmação também útil, quando indagado se continuaria ministro: "Qualquer ministro que falar qualquer coisa [sobre o novo ministério] estará falando bobagem". Imagina os jornalistas.

Operações

A Polícia Federal "nega veemente que houvesse agido de forma parcial em investigação sobre dinheiro apreendido com três passageiros" no aeroporto de Brasília, assunto de artigo aqui há quatro dias. A PF afirma haver recebido informações, a respeito, "de fontes diversas, uma delas do Ministério Público Federal". Nega também haver fornecido a foto do embarque publicada "com exclusividade pela própria Folha de S.Paulo".

A foto de autoria misteriosa não foi exclusiva da Folha. Ocupou farto espaço, sem autoria definida, na primeira página do "Globo" de 9 de outubro. Está aceita a negativa da PF, mas não era esperável que confirmasse motivações estranhas em sua conduta durante o segundo turno. Note-se, aliás, que condutas similares a PF teve também no Ceará, quando submeteu familiares do candidato Eunício Oliveira a investigação constrangedora e frustrada; e no Maranhão, quando fez o mesmo com o candidato Lobão Filho, familiares seus e no avião em que viajavam. Com fotos.

Em tempo: a citação ao Ministério Público Federal também não surpreende.

Janio de Freitas
No fAlha
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Aécio, um mero instrumento da revanche de FHC


Aécio reassumiu sua cadeira no Senado prometendo cobrar "violentamente" os compromissos de campanha de Dilma. Não basta cobrar assertivamente, persistentemente. Tinha que ser "violentamente".

Depois, registrou seu repúdio "mais violento e radical" aos manifestantes que pedem a volta da ditadura militar.

Finalmente, repetiu o mantra da "campanha honrada" que teria feito em contraposição à "campanha perversa" de Dilma. Corta! O baixo nível da campanha foi similar nas duas pontas. O figurino de “moralista honrado” não cabe em quem, nos debates, tratava as adversárias – Dilma e Luciana Genro – como “levianas”.

Com sua agressividade reiterada, Aécio abriu a guarda para Dilma, orientada por João Santana, encaixar meia dúzia de uppercuts fatais.

* * *

Com a morte de Eduardo Campos e o posterior esvaziamento de Marina Silva, Aécio saltou de quase nada para quase tudo. Tornou-se conhecido no curtíssimo período a partir dos dois últimos debates do primeiro turno.

Mais natural na televisão, durante alguns dias Aécio incorporou a imagem do bom moço de família mineira. Perdeu até o olhar malicioso-agressivo que o perseguia em todas as fotos na fase inicial da campanha.

Retomou o segundo turno na liderança. Aí incorporou a euforia bélica de seu guru, FHC. Foi o estilo bélico que o fez perder a liderança e as eleições.

* * *

Agora, novamente mostra uma notável falta de timming político, ao pretender manter o estilo bélico durante a trégua que se segue a toda campanha encarniçada.

Não entendeu nada.

A grande marca política de Aécio parecia ser a arte da composição, a habilidade política que demonstrou quando se compôs com Fernando Pimentel, do PT, para o pacto mineiro. Ali aparentemente desenhava-se o futuro grande político nacional, o estadista da conciliação, herdeiro da tradição política mineira.

* * *

Engano.

Em um momento em que a disputa deveria se dar na conquista do público novo, não alinhado, cansado da política tradicional, Aécio incorporou em si a pior cara do PSDB: a de José Serra e sua tropa de vikings da terceira idade, Aloysio Nunes, Alberto Goldman, e do inexcedível Roberto Freire.

* * *

Não se vá exigir de Aécio o que escapa à sua compreensão.

Assim como no varguismo, o lulismo é composto de duas partes: o lulismo e o antilulismo. O antilulismo não tem vida própria, não tem projeto próprio, é apenas um apêndice do lulismo.

O próximo momento político brasileiro é o do pós-lulismo. Para a história, FHC sempre será o apenas anti-Lula, a parte derrotada do passado. Grupos de mídia, mercado, o establishment só investiram em sua imagem porque o antil-ulismo precisava de uma cara. Apenas isso.

Assim como o mito Marina, o personagem FHC é muito menor do que o mito criado em torno dele.

* * *

Ao contrário de Aécio, Alckmin é duríssimo na ação, conservador até a medula, anacrônico até o fundo da alma; mas cordato nas palavras e gestos.

Seu aceno para uma trégua visou não apenas reduzir as críticas contra as barbeiragens da Sabesp, mas ocupar o espaço na oposição.

Quando acontecer o segundo tempo do jogo – na tentativa futura de tentar alijar Dilma no rastro da Operação Lava-Jato – a liderança será de quem simulou o entendimento inicial; não de quem se comportou "violentamente" antes da hora.

Luís Nassif
No GGN

O Discurso Perdedor de Aécio

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Sérgio Porto # 43


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Essa é do Barão... 101


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