12 de nov de 2014

Dilma e a suíte do Catar: Como subir na vida em um dos jornalões brasileiros


Para colaborar com jovens jornalistas em busca de emprego, analisaremos notícia publicada no Estadão desta quarta-feira 12 de novembro, em página que trazia como manchete principal assunto relacionado à presidente Dilma Rousseff, que viajou para cúpula de chefes de Estado na Austrália.

Trata-se de uma aula em como sobreviver nas redações dos jornalões: a transformação de uma série de meias verdades numa “grande verdade” mentirosa.

Notícia real: o avião presidencial que leva Dilma Rousseff não tem autonomia para voar direto até a Austrália; o emir do Catar pediu ao Planalto que a escala no emirado fosse transformada em visita de Estado e bancou todas as despesas. O Catar não fica fora da rota. O Catar é o terceiro maior exportador de petróleo do mundo. O Catar é escala de centenas de vôos internacionais, todos os dias. Quem viajou para a Ásia sabe disso.

Porém, o leitor de manchetes fica intrigado: “Escala com hotel de luxo se torna visita de Estado”. Poxa, diz ele, essa Dilma não vale nada. Programou uma visita ao Catar só para se hospedar em hotel de luxo!

Isso é confirmado pelo subtítulo do texto: “Parada do avião de Dilma no Catar vira agenda oficial e justifica estada de presidente em suíte de R$ 30 mil por diária”.

Notaram o JUSTIFICA?

Escandaloso, diz o leitor. Vamos torrar 30 mil reais para a Dilma ficar em hotel de luxo numa escala desnecessária!

Pobre repórter que assinou o texto. Provavelmente o título e o subtítulo foram “envenenados” na redação. Colocaram o nome dela para segurar o rojão. Ossos do ofício.

O texto diz que Dilma vai “desfrutar de uma suíte de 720 metros quadrados, com serviço de mordomo”.

É preciso chegar à metade da notícia para ter uma informação essencial: “tudo pago pelo emirado”.

“O local tem dois andares, três quartos, três banheiros, sala de jantar com 10 lugares e salas de estar com janelas voltadas para o Golfo Pérsico”, continua o texto, depois de ter dito que Dilma e a filha Paula “devem” ficar hospedadas na suíte.

Só quando o texto se encaminha para o final é que aparecem duas outras informações essenciais: Dilma “vai aproveitar pouco desse luxo” e o avião não tem autonomia para voar direto.

Sim, pois se a presidente partiu do Catar às 18 horas e teve encontros durante o dia com o emir, tudo o que fez foi passar a noite na suíte.

Ficava ruim de dizer: Dilma dorme em suíte luxuosa paga pelo emir do Qatar, né mesmo?

Melhor deixar no ar a ideia de que a presidente torrou dinheiro do contribuinte num capricho desnecessário. É este veneno diário, em pequenas doses, que corrói a imagem de qualquer um.

No Viomundo

Leia também: A suíte de Dilma no Qatar é notícia?
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Coronelismo eletrônico: os veículos de comunicação da família Neves

O jornalista e doutorando em Comunicação da UFRJ, Luiz Felipe Ferreira Stevanim, em artigo sobre "coronelismo eletrônico", publicado em meio à última eleição presidencial, evidencia a relação da família do então candidato Aécio Neves (PSDB) com empresas de comunicação. Aécio, como se sabe, detém ligações com três rádios, um jornal impresso e uma TV em Minas Gerais, Estado que governou entre 2003 e 2010. A TV foi garantida à família em 2002, pelo tucano Pimenta da Veiga, ministro das Comunicações à época.

Aécio, dessa forma, descumpre a Constituição Federal, que proíbe que os parlamentares sejam proprietários, diretores ou controladores de empresas concessionárias de serviço público. O tucano, contudo, não é o único que comete a irregularidade. Segundo levantamento do Fórum Nacional da Democratização das Comunicações, pelo menos metade do Congresso possui vínculo com algum veículo de comunicação.


Aécio e as vertentes do coronelismo eletrônico

Desde os tempos de Sarney e de seu ministro das Comunicações, Antonio Carlos Magalhães, o coronelismo eletrônico não se mostrava tão próximo da presidência da República.

Neto de um tradicional político, o candidato Aécio Neves possui ligações com três rádios, uma emissora de TV e um jornal. O fenômeno — que chamamos de “coronelismo eletrônico” — inclui o uso político dos meios de comunicações e uma rede de favores e apadrinhamento que busca perpetuar o poder de determinado grupo nas comunicações e na política. Aécio, que é senador, descumpre o que está disposto no artigo 54 da Constituição Federal, que proíbe que os parlamentares sejam proprietários, diretores ou controladores de empresas concessionárias de serviço público.

O candidato é sócio da Rádio Arco-Íris (FM 99,1 MHz), sediada em Betim, na zona metropolitana de Belo Horizonte, e retransmissora da Jovem Pan para a Grande BH. Uma breve consulta no Sistema de Informação dos Serviços de Comunicação de Massa (SISCOM) da Anatel comprova este fato. Segundo matéria da Folha, o governo de Minas se recusou diversas vezes a divulgar os repasses estaduais às emissoras ligadas ao candidato.

Mas isso é só o que aparece aos olhos. O coronelismo eletrônico é mais sutil, menos evidente, mais sorrateiro. Para entendê-lo, é preciso ir mais fundo, em busca do rabo da palavra, como diria o bom mineiro Guimarães Rosa.

Uma vertente importante deste fenômeno é a relação das rádios e TVs com familiares de políticos. O principal acionista da Rádio São João Del Rei (970 AM) é Tancredo Augusto Tolentino Neves, que tem o mesmo nome do presidente eleito em 1985, seu pai. Advogado, Tancredo Augusto é tio de Aécio Neves e assumiu em 2010 a presidência da Prominas, empresa pública estadual encarregada de promover eventos na área de turismo e administrar grandes centros de convenções, como o Minascentro e o Expominas.

A irmã de Aécio, Andrea Neves da Cunha, jornalista responsável pelas principais decisões referentes à comunicação na campanha do candidato à presidência, é a principal sócia e diretora da rádio Vertentes (FM 95,3), na mesma São João Del Rei. A rádio é conhecida pela programação musical, voltada principalmente para o público jovem.

Cidade histórica encravada no coração de Minas, com cerca de 88 mil habitantes, São João Del Rei possui uma TV educativa, a TV Campos das Vertentes. Minas é o estado com mais televisões educativas, uma parcela considerável delas controlada por políticos, como Suzy dos Santos e eu apontamos em nosso artigo “Porteira, radiodifusão, universidade etc.” publicado na Revista Brasileira de Políticas de Comunicação da UnB.

A TV compõe o conjunto de veículos sob influência direta da família de Aécio Neves. A concessão para o canal é de 2002, quando o ministro das Comunicações era Pimenta da Veiga, candidato derrotado ao governo do estado de Minas. O presidente da Fundação Cultural Campos das Vertentes é José Geraldo D´Ângelo, aliado de Aécio que assumiu a presidência do Instituto Cultural Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG Cultural), em 2003, quando o neto de Tancredo era governador. A fundação também possui uma outorga de rádio FM (a rádio Campos de Minas, 95,3 MHz).

A influência do coronelismo eletrônico alcança também as velhas letras. O jornal “Gazeta de São João Del Rei” tem como diretor de honra (in memoriam) o cunhado de Aécio, Herval Cruz Braz, marido falecido de Andrea. Com tiragem de 10 mil exemplares, a notícia que estampava a capa da edição de 11 de outubro de 2014 era: “Aécio dispara no segundo turno”.

As vertentes do coronelismo eletrônico, que deságuam nas condutas políticas de nomes como Sarney, ACM, Collor e Aécio Neves, é um prejuízo à liberdade de expressão e ao direito dos cidadãos à comunicação. Esse direito pouco compreendido, mas essencial à democracia, inclui o acesso à informação livre e de qualidade e a possibilidade real de expressão e participação política.

Dos sinos da velha São João Del Rei ou das montanhas de Belo Horizonte, uma pergunta ecoa até nós: O que esperar das políticas de comunicação do candidato pleiteante ao principal cargo da República? O silêncio não pode ser a resposta.

Luiz Felipe Ferreira Stevanim, jornalista, doutorando em Comunicação pela UFRJ e membro do Grupo de Pesquisa em Políticas e Economia Política da Informação e Comunicação (PEIC/UFRJ)
No GGN
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Morre Leandro Konder

Leandro Augusto Marques Coelho Konder
* 3 de janeiro de 1936  + 12 de novembro de 2014

Leandro Konder, presente!

“– Leandro Konder nasceu em 1936, em Petrópolis (RJ), filho de Valério Konder, médico sanitarista e líder comunista. Formado em Direito, Leandro exilou-se em 1972, após ser preso e torturado pelo regime militar, e morou na Alemanha e depois na França até seu regresso ao Brasil em 1978. Doutorou-se em Filosofia em 1987 no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. É professor do Departamento de Educação da PUC-RJ e do Departamento de História da UFF. Tem vasta produção como conferencista, articulista de jornais, ensaísta e ficcionista. Em 2002 foi eleito o Intelectual do Ano pelo Fórum do Rio de Janeiro, da UERJ.” Boitempo





Entrevista com o filósofo Leandro Konder

30/01/2011

Aos 75 anos, publicando seu 22 livro, o filósofo Leandro Konder se diz em situação de orfandade. Foi como resposta às “dores e frustrações” diante da falência do pensamento marxista, ao qual dedicou boa parte de sua vida, que ele escreveu “Em torno de Marx” (Boitempo), tentativa de releitura das ideias do pensador alemão por meio do diálogo com as obras de seis marxistas heterodoxos: Walter Benjamin, Theodor Adorno, Hebert Marcuse, Jean-Paul Sartre, György Lukács e Antonio Gramsci. São autores que o próprio Konder ajudou a divulgar no Brasil, e aos quais ele retorna agora com a intenção de repensar o marxismo.

O senhor defende em seu livro que é necessário pensar Marx como um filósofo. Em sua opinião, a dimensão filosófica da obra de Marx foi negligenciada, ou subestimada?

LEANDRO KONDER: Marx se formou em filosofia e faz filosofia desde o começo em sua obra, embora uma filosofia que assuma vínculos com a sociologia nascente, com a reflexão sobre a História, com a crítica da economia política. Ao longo da história, no entanto, predominou uma leitura não-filosófica de Marx.

O que se poderia recuperar nessa releitura de Marx, e como isso seria diferente das leituras predominantes feitas ao longo do século XX?

KONDER: A noção de que o real é inesgotável, irredutível ao conhecimento crítico, dialético, que ele tem sempre algo a nos dizer que não entendemos ainda. Isso contrasta com o tipo de análise que você encontra, por exemplo, em muitos historiadores marxistas. Existem alguns bons historiadores marxistas, mas há vários que são incapazes de se surpreender com os acontecimentos — adotam sempre um mesmo tom conclusivo, como se tudo que acontece pudesse ser previsto de antemão.

Seu livro reúne artigos sobre seis pensadores que divergiram, em diferentes medidas, do marxismo ortodoxo: Walter Benjamin, Theodor Adorno, Hebert Marcuse, Jean-Paul Sartre, György Lukács e Antonio Gramsci. Que diálogo é possível pensar entre eles?

KONDER: Li muito todos esses caras e eles me marcaram, mas lembro que entre os comunistas muitas vezes eram tratados como inimigos, antimarxistas. Quis fazer uma contribuição modesta a um esforço de repensar a obra de Marx, e achei que um bom caminho era confrontar a ideia desses pensadores com as do próprio Marx. Esses pensadores heterodoxos cabem dentro do campo do marxismo? E se cabem, que mudanças isso implica para o marxismo? Não posso dar uma resposta conclusiva, peremptória, a respeito do que deve ser considerado marxista ou não. O mais importante é reconhecer as dores e frustrações que nos atacam quando olhamos em volta para a situação do marxismo hoje. O marxismo oficial totalmente esfacelado, a falência do modelo leninista, e por outro lado a prática de um marxismo difuso, pouco rigoroso, nas áreas vizinhas.

O senhor sente-se hoje mais próximo a algum desses pensadores incluídos no livro?

KONDER: Se eu leio qualquer um dos seis, me sinto sensível ao poder se sedução de qualquer um deles. Talvez, por causa da preocupação com a ação prática, da contribuição que me sinto obrigado a dar na política, escolhesse Gramsci. Mas quando leio Gramsci também discordo de muita coisa. Eu me sinto, e o livro expressa isso, em estado de orfandade. O esvaziamento, a diminuição da importância das referências proporcionadas pelo velho Marx não está sendo compensada hoje por nenhum autor.

Numa certa crítica pós-moderna à pretensão totalizante de alguns pensadores do século XIX, Marx é um dos autores imediatamente lembrados. O senhor reconhece em Marx essa ambição de explicar a totalidade da vida social?

KONDER: A teoria burguesa condena no século XIX tanto Marx como Hegel, de forma ainda mais radical do que hoje. Certas críticas podem ser tomadas como uma homenagem à força do pensamento de Marx, vindo de onde vêm. Mas diria que Marx trabalha sim com um conceito de totalidade, à maneira dele.

Marx considerava necessário escapar à ideologia, à visão de mundo parcial ligada à classe social, para chegar a uma percepção verdadeira da sociedade. Como o senhor vê essa luta contra a ideologia? É possível saber quando afinal conseguimos de fato escapar à ilusão e chegar à verdade? Ou há sempre uma dúvida, a possibilidade de que continuemos equivocados?

KONDER: Não acho que possamos estar certos de ter escapado à ideologia, mas é preciso conservar esse ímpeto de ir além da percepção unilateral dos problemas. Não devemos pensar o movimento teórico como uma superação definitiva da ideologia, é necessária perceber e respeitar a complexidade ilimitada da realidade. Mas, tendo isso em mente, é possível avançar na descoberta da verdade. O conceito de verdade é incômodo, amargo, mas inevitável. Sem ele, não há teoria do conhecimento que resista.

O seu livro é todo remetido à atuação política, a partir da atenção dada ao conceito de práxis desenvolvido por Marx. Como o senhor avalia hoje a política brasileira?

KONDER: Há um movimento muito forte, embora pouco estruturado, no sentido de adotarmos aqui critérios liberais. Existe uma tentativa de aproximar as noções de liberalismo e democracia. Eu sou um democrata. Democracia é outra coisa: transformação econômica, social. Nossos liberais não chegam lá. Param no meio do caminho, pedindo mercadorias. Essa é uma realidade mundial que tem no Brasil uma história particular.

E o governo Lula? Algum candidato empolgou o senhor nas últimas eleições?

KONDER: Lula é um líder carismático, mas ele fez coisas importantes, coisas que não queremos que sejam destruídas. Achei interessante a sucessão de um ex-operário por uma mulher, mas sem ilusões. Temos pela frente um caminho pedregoso.
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Água para Todos


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Muro separará Brasil ocidental do Nordeste

Romero Britto dará a segunda demão de tinta no muro já erguido nos Jardins
POTSDAM - Votação realizada em urnas natalinas no Shopping Cidade Jardim mostrou que 96% dos paulistanos são a favor da construção de um muro que colocará o Brasil que produz e paga impostos de um lado, e a ameaça assistencialista bolivariana de outro. "Vamos separar o Brasil ocidental do Nordeste", anunciou João Doria Jr. "Do lado de cá das trincheiras, estaremos guarnecidos pelo superávit de masculinidade do blogueiro Rogério Constantinopla e pela verve verborrágica de Lobão, além de podermos contar com os lançamentos da Globo Filmes para alegrar nossos finais de semana nos cinemas. Em caso de balbúrdia ou rolezinhos, sempre teremos à mão o arsenal da família Bolsonaro", esclareceu. "Do lado de lá, restam a barbárie, o Brasil 247, o cinema pernambucano e a água encanada", completou.

Após encomendar 144 toneladas de mármore para revestir o lado ocidental do muro, Doria Jr. liderou uma legião de cidadãos de bens, que produzem e pagam impostos, concitando-os a arregaçar as mangas e colocar a mão na massa. "Também fizemos um crowdfunding para contratar ajudantes de pedreiro nordestinos radicados no Largo 13 de Maio", explicou.

Estarrecida com a iniciativa, Dilma Rousseff exigiu a imedita paralisação das obras. Em seguida, abriu uma licitação para a construção do muro. "Caberá ao Consórcio formado pela Odebrecht, Camargo Corrêa e Friboi a concretização do projeto", discursou. "Orçado em 189 bilhões, o muro deverá ficar pronto em 2514, quando ainda estaremos no poder", concluiu.

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Os pilares da estupidez

http://www.maurosantayana.com/2014/11/jornal-do-brasil-esta-em-curso-ha-anos.html


Está em curso, há anos, nas "redes sociais" insidiosa campanha de agressão à democracia e crescentes ataques às instituições.

Quem cala, consente. Os governos do PT têm feito, em todo esse período, cara de paisagem. Nem mesmo quando diretamente insultados, ou caluniados, os dirigentes do partido tomaram qualquer providência contra quem os atacava, ou atacava as instituições, esquecendo-se de que, ao se omitirem, a primeira vítima foi a democracia. Nisso, sejamos francos, foram precedidos por todos os governos anteriores, que chegaram ao poder depois da redemocratização do país.

Mergulhados na luta política e na administração cotidiana dos problemas nacionais, nenhum deles percebeu que o primeiro dever que tínhamos, nesta nação, depois do fim do período autoritário, era regar e proteger a frágil flor da Liberdade, ensinando sua importância e virtudes às novas gerações, para que sua chama não se apagasse no coração dos brasileiros. Se, naquele momento, o da batalha pela reconquista do Estado de Direito, cantávamos em letras de rock que queríamos votar para presidente, hoje parece que os polos da razão foram trocados, e que vivemos sob a égide da insânia e da vilania.

Em absoluta inversão de valores, da ética, da informação, da própria história, retorna a velha balela anticomunista de que Jango — um latifundiário liberal ligado ao trabalhismo — ia implantar uma ditadura cubano-soviética no Brasil, ou que algumas dezenas de estudantes poderiam derrubar, quatro anos depois, um regime autoritário fortemente armado, quando não havia nenhuma condição interna ou externa para isso.

Agora, para muitos que se manifestam pela internet, quem combatia pela democracia virou terrorista, os torturadores são incensados e defendidos, e prega-se abertamente o fim do Estado de Direito, como se o fascismo e o autoritarismo fossem solução para alguma coisa, ou o Brasil não fosse ficar, política e economicamente, imediata e absolutamente, isolado do resto do mundo, caso fosse rompida a normalidade constitucional.

Ora, os mesmos internautas que insultam, hoje, o Judiciário, sem serem incomodados — afirmando que o ministro Toffoli fraudou as eleições — já atacaram pesadamente Aécio Neves e sua família, quando ele disputava a indicação como candidato à Presidência pelo PSDB em 2010. São eles os mesmos que agridem os comandantes militares, acusando-os de serem "frouxos" e estarem controlados pelos comunistas, e deixam claro seu desprezo pelas instituições brasileiras, incluindo as Forças Armadas, pedindo em petição pública à Casa Branca uma intervenção dos Estados Unidos no Brasil, como se fôssemos reles quintal dos EUA, quando são eles os que se comportam como abjetos vira-latas, em sua patética submissão ao estrangeiro.

São eles os que defendem o extermínio dos nordestinos e a divisão do país, como se apenas naquela região a candidata da situação tivesse obtido maioria, e não estivéssemos todos misturados, ou nos fosse proibida a travessia das fronteiras dos estados.

São eles que inventam generais de araque, supostos autores de manifestos igualmente falsos, e usam, sem autorização, o nome de oficiais da reserva, em documentos delirantes, tentando manipular, a todo momento, a base das Forças Armadas e as forças de segurança, dando a impressão de que existem sediciosos no Exército, na Marinha, na Aeronáutica, quando as três forças se encontram unidas, na execução de projetos como o comando das Operações de Paz da ONU no Haiti e no Líbano; as Operações Ágata, em nossas fronteiras; o novo Jato Cargueiro Militar KC-390 da Embraer; o novo Sistema de Mísseis Astros 2020 da Avibras; ou o novo submarino nuclear brasileiro, no cumprimento, com louvor, de sua missão constitucional.

O site SRZD, do jornalista Sérgio Rezende, entrou em contato com oficiais militares da reserva, que supostamente teriam "assinado" um manifesto, que circula, há algum tempo, na internet. O texto se refere a "overdose de covardia, cumplicidade e omissão dos comandantes militares" e afirma que, como não há possibilidade de tirar o PT do poder pelas urnas, é preciso dar um golpe militar, antes que o Brasil se transforme em uma "Cuba Continental".

Segundo o SRZD, todos os oficiais entrevistados, incluindo alguns generais, negaram peremptoriamente terem assinado esse "manifesto" e afirmaram já ter entrado em contato com o Ministério do Exército, denunciando tratar-se o e-mail que divulgava a mensagem de uma farsa e desmentindo sua participação no suposto movimento.

Por mais que queiram os novos hitlernautas, os militares brasileiros sabem que o governo atual não é comunista e que o Brasil não está, como apregoam os “aloprados” de extrema direita que tomaram conta da internet, ameaçado pelo comunismo internacional.

Como dizer que é comunista, um país em que os bancos lucram bilhões, todos os trimestres; em que qualquer um — prerrogativa maior da livre iniciativa — pode montar uma empresa a qualquer hora, até mesmo com apoio do governo e de instituições como o Sebrae; no qual investidores de todo o mundo aplicam mais de 60 bilhões de dólares, a cada 12 meses, em Investimento Estrangeiro Direto; onde dezenas de empresas multinacionais se instalam, todos os anos, junto às milhares já existentes, e mandam, sem nenhuma restrição, a cada fim de exercício, bilhões e bilhões de dólares e euros em remessa de lucro para e exterior?

Como taxar de comunista um país que importa tecnologia ocidental para seus armamentos, tanques, belonaves e aeronaves, cooperando, nesse sentido, com nações como a França, a Suécia, a Inglaterra e os Estados Unidos? Que participa de manobras militares com os próprios EUA, com países democráticos da América do Sul e com democracias emergentes, como a Índia e a África do Sul?

Baboso, atrasado, furibundo, ignorante, permanentemente alimentado e realimentado por mitos e mentiras espatafúrdias, que medram como fungos nos esgotos mais sombrios da Rede Mundial, o anticomunista de teclado brasileiro é sobretudo hipócrita e mendaz.

Ele acredita "piamente" que Dilma Rousseff assaltou bancos e matou pessoas e que José Genoíno esquartejou pessoalmente um jovem, começando sadicamente pelas orelhas, quando não existe nesse sentido nenhum documento da ditadura militar.

Ele vê em um site uma foto da Escola Superior de Agricultura da USP, a Esalq, situada em Piracicaba, e acredita, também, "piamente", que é uma foto da mansão do "Lulinha", que teria virado o maior fazendeiro do país, junto com seu pai, sem que exista uma única escritura, ou o depoimento — até mesmo eventualmente comprado — de um simples peão de fazenda ou de um funcionário de cartório, que aponte para alguma prova ou indício disso, como de outras "lendas urbanas", como a participação da família do ex-presidente da República na propriedade de um grande frigorífico nacional.

Ele crê, piamente, e divulga isso, todo o tempo, que todos os 600 mil presos brasileiros têm direito a auxílio-reclusão quando quase 50% deles sequer foram julgados, e menos de 7% recebem esse benefício, e mesmo assim porque contribuíram normalmente, antes de serem presos, para a Previdência, durante anos, como qualquer trabalhador comum.

Nada contra alguém ser de direita, desde que se obedeçam as regras estabelecidas na Constituição. Nesse sentido, o senhor Jair Bolsonaro presta um serviço à democracia quando diz que falta, no Brasil, um partido com essa orientação ideológica, e já se declara candidato à Presidência, por essa provável agremiação, ou por essa parcela do eleitorado, no pleito de 2018.

Os mesmos internautas que pensam que Cuba é uma ditadura contagiosa e sanguinária, da qual o Brasil não pode se aproximar, ligam para os amigos para se gabar de seu novo smartphone ou do último gadget da moda, Made in República Popular da China, que acabaram de comprar.

Eles são os mesmos que leem os textos escritos, com toda a liberdade, pela opositora cubana Yoami Sanchez — já convenientemente traduzidos por "voluntários" para 18 diferentes idiomas — e não se perguntam, por que, sendo Cuba uma ditadura, ela está escrevendo de seu confortabilíssimo, para os padrões locais, apartamento de Havana, e não pendurada em um pau de arara, ou tomando choques e sendo espancada na prisão.

Mas fingem ignorar que 188 países condenaram, há alguns dias, em votação de Resolução da ONU, o embargo dos Estados Unidos contra Cuba, exigindo o fim do bloqueio.

Ou que os EUA elogiaram e agradeceram a dedicação, qualidade e profissionalismo de centenas de médicos cubanos enviados pelo governo de Havana para colaborar, na África, com os Estados Unidos, no combate à pandemia e tratamento das milhares de vítimas do ebola.

Ou que a Espanha direitista de Mariano Rajoy, e não a Coreia do Norte, por exemplo, é o maior sócio comercial de Cuba.

Ou que há poucos dias acabou em Havana a XXXIII FIHAV, uma feira internacional de negócios com 4.500 expositores de mais de 60 países — aproximadamente 90% deles ocidentais — com a apresentação, pelo governo cubano, a ávidos investidores estrangeiros, como os italianos, canadenses e chineses, de 271 diferentes projetos de infraestrutura, com investimento previsto de mais de 8 bilhões de dólares.

Radical, anacrônica, desinformada e mais realista que o rei, a minoria antidemocrática que vai, eventualmente, para as ruas e se manifesta raivosamente na internet querendo falar em nome do país e do PSDB, pedindo o impeachment da presidente da República e uma intervenção militar, ou dizendo que é preciso se armar para uma guerra civil, baseia-se na fantasia de que a nação está dividida em duas e que houve fraude nas urnas, mas se esquece, no entanto, de um "pequeno" detalhe: quase um terço dos eleitores, ou mais de 31 milhões de brasileiros, ausentes ou donos de votos brancos e nulos, não votaram nem em Dilma nem em Aécio, e não podem ser ignorados, como se não existissem, quando se fala do futuro do país.

Cautelosa e consciente da existência de certos limites intransponíveis, impostos pelo pudor e pela razão, a oposição tem se recusado a meter a mão nessa cumbuca, fazendo questão de manter razoável distância desse pessoal.

Guindado, pelo voto, à posição de líder inconteste da oposição, o senador Aécio Neves, presidente do PSDB, por ocasião de seu primeiro discurso depois do pleito, no Congresso, disse que respeita a democracia permanentemente e que "qualquer utilização dessas manifestações no sentido de qualquer tipo de retrocesso terá a nossa mais veemente oposição. Eu fui o candidato das liberdades, da democracia, do respeito. Aqueles que agem de forma autoritária e truculenta estão no outro campo político, não estão no nosso campo político".

Antes dele, atacado por internautas, por ter classificado de "antidemocráticas" as manifestações pedindo o impeachment da presidente Dilma e a volta do autoritarismo, o agrônomo e assessor de marketing Xico Graziano, também do PSDB, já tinha afirmado que "a truculência dessa cambada fascista que me atacou passa de qualquer limite civilizado. No fundo, eles provaram que eu estava certo: não são democratas. Pelo contrário, disfarçam-se na liberdade para esconder seu autoritarismo".

E o vice-presidente nacional do PSDB, Alberto Goldman, também negou, no dia primeiro, em São Paulo, que o partido ou a campanha de Aécio Neves estivessem por trás ou apoiassem — classificando-as de "irresponsáveis" — as manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff.

É extremamente louvável a iniciativa do presidente da OAB, Marcus Vinícius Furtado Côelho, de pedir a investigação e o indiciamento, que já estão em curso, pela Polícia Federal, com base na Lei do Racismo por procedência, dos internautas responsáveis pela campanha contra os nordestinos, lançada logo após a divulgação do resultado da eleição.

Mas, se essa campanha é grave, mais grave ainda, para toda a sociedade brasileira, tem sido a pregação constante, que já ocorre há anos, pelos mesmos internautas, da realização de um Golpe de Estado, do assassinato e da tortura de políticos e intelectuais de esquerda, e de "políticos" de modo geral, além do apelo à mobilização para uma guerra civil, incluindo até mesmo a sugestão da compra de armas para a derrubada das instituições.

Cabe ao STF, ao Ministério Público, ao TSE, e aos tribunais eleitorais dos estados, que estão diretamente afeitos ao assunto, e à OAB, por meio de seus dirigentes, pedir, como está ocorrendo nos casos de racismo, a imediata investigação, e responsabilização, criminal, dos autores desses comentários, cada vez mais rançosos e afoitos, devido à impunidade, e o estabelecimento de multas para os veículos de comunicação, que os reproduzem, já que na maioria deles existem mecanismos de "moderação" que não têm sido corretamente aplicados nesses casos.

A Lei 7.170 é clara, e define como "crimes contra a Segurança Nacional e a Ordem Política e Social, manifestações contra o atual regime representativo e democrático, a Federação e o Estado de Direito".

Há mais de 30 anos, pelas mãos de Tancredo Neves e de Ulisses Guimarães — em uma luta da qual Aécio também participou — e de milhões de cidadãos brasileiros, que foram às ruas, para exigir o fim do arbítrio e a volta do Estado de Direito, o Brasil reconquistou a democracia, pela qual havia lutado, antes, a geração de Dilma Rousseff, José Dirceu, José Serra e Aluísio Nunes, entre outros.

Por mais que se enfrentem, agora, essas lideranças, não dá para apagar, de suas biografias, que todos tiveram seu batismo político nas mesmas trincheiras, enfrentando o autoritarismo.

Cabe a eles, principalmente os que ocupam, neste momento, alguns dos mais altos cargos da República, assumir de uma vez por todas sua responsabilidade na defesa e proteção da democracia, para que a Liberdade e o bom-senso não esmoreçam, nem desapareçam, imolados no altar da imbecilidade.

Jornalistas, meios de comunicação, Judiciário, militares, Ministério Público, Congresso, Governo e Oposição, precisamos, todos, derrubar os pilares da estupidez, erguidos com o barro pisado, diuturnamente, pelas patas do ódio e da ignorância, antes que eles ameacem a estabilidade e a sobrevivência da nação, e da democracia.
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O desabafo do coronel



O desabafo do Comandante Geral da Policia Militar do Estado de São Paulo.

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A falta de pudor do judiciário

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=6672

Eu sou um idiota. Assumido. Acredito em bom senso, responsabilidade e até em comportamento republicano. Discuti, faz mais de um ano, com um senhor do judiciário sobre auxílio-moradia.

– O senhor acha justo? Eu, como professor e jornalista, não tenho.

– Não é auxílio-moradia.

– É o quê?

– Parcela Autônoma de Equivalência.

– Equivalência a quê?

– Aos ganhos dos deputados.

– A diferença não está no que eles receberam de auxílio-moradia?

– Por isso é Parcela Autônoma de Equivalência.

Ah, bom! Passou. Veio o segundo. Agora é auxílio-moradia mesmo. Continuo não tendo como professor e jornalista. Além disso, os togados recebem os tais “subsídios”, um pacote à prova de penduricalhos. Quebrei a cabeça. Concluí: remuneração é tudo que certas pessoas ganham sem levar em consideração o que precisam gastar. Vulgo teta. Só a plebe paga moradia com o seu salário. Uau!

Aí veio o caso do juiz João Carlos de Souza Corrêa, esse que foi parado num blitz dirigindo sem a carteira um veículo sem placas. O magistrado deu carteiraço na azulzinha. Em Palomas, é falta de decoro, o suficiente para uma exoneração. A agente de trânsito, diante da prepotência do dito cujo, disse que ele era juiz, mas não Deus. Ofendida, a divindade foi reclamar para os seus pares, que condenaram a moça a pagar-lhe indenização por ter zombado do seu cargo. Eu sou idiota. Acredito em papai-noel e na mula sem cabeça. Tenho certeza de que não foi por corporativismo que a justiça tomou tal decisão. Foi certamente para a proteger a nobre instituição.

Alice Tamborindeguy, a zelosa esposa do juiz achincalhado, garante que o maridão “está tão massacrado” e deprimidinho. Ela tem certeza de que a azulzinha foi “desrespeitosa, debochada, grosseira”. Pobre, juiz! Tão injustiçado pela ralé. Ganha Parcela Autônoma de Equivalência, ganha auxílio-moradia, dirige sem carteira, sem placas e ainda precisa enfrentar zombarias no meio da rua. Que desrespeito! Eu tenho uma sugestão a fazer ao Conselho Nacional de Justiça: punir o juiz ou fechar as portas na hora. Carteiraço é falta muito grave.

– Você sabe com quem está falando?

– Com um juiz sem noção, que dirige sem carteira, sem placas e sem senso ético. Um cidadão como qualquer outro que merece uma multa.

O problema é que o sistema não ajuda: por que um homem que, tendo casa para morar e bom salário, recebe auxílio-moradia? Por que esse cidadão privilegiado teria de carregar carteira de motorista e emplacar o carro? Isso é coisa para gente comum. Uma coisa puxa a outra. Os vasos se comunicam por baixo das togas. O desembargador José Roberto Nalini, presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, nem esconde: “Esse auxílio-moradia na verdade disfarça um aumento do subsídio que está defasado há muito tempo. Hoje, aparentemente o juiz brasileiro ganha bem, mas ele tem 27% de desconto de Imposto de Renda, ele tem que pagar plano de saúde, ele tem que comprar terno, não dá para ir toda hora a Miami comprar terno”. Só tem terno em Miami? Será que esse juiz faz parte da direita Miami? Sou idiota.
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Os bonecos de ventríloquo

O leitor e a leitora que ainda se divertem com a análise dos jornais podem fazer uma constatação curiosa: representantes da oposição ao governo federal praticamente desapareceram das editorias de Política Nacional e Economia nos últimos dias. Se não considerarmos as colunas de notas curtas, feitas com frases e eventos protagonizados por políticos, pode-se contar nos dedos de uma mão o total de referências a parlamentares e dirigentes do PSDB e do Partido Democratas nos principais diários do país.

Na edição do Globo de quarta-feira (12/11), por exemplo, há citações em apenas uma reportagem, na qual aparecem o senador Aloysio Nunes Ferreira, líder do PSDB, o representante do Democratas José Agripino Maia e o líder do PSB na Câmara, deputado Beto Albuquerque, todos convocados a falar sobre a proposta do Executivo de mudar a Lei de Diretrizes Orçamentárias. Na Folha, o mesmo assunto merece apenas uma curta referência a nomes da oposição, e no Estado de S. Paulo há um pouco mais de destaque, com um texto exclusivo para os mesmos Agripino Maia e Nunes Ferreira.

Note-se que o assunto, segundo a imprensa, suscitou um “debate intenso” no Congresso. Economistas ouvidos pelos diários e citados em blogs especializados e portais da internet oferecem uma grande variedade de argumentos contra e a favor da proposta do plano governamental, de abater da meta de superávit primário todas as despesas referentes a obras de infraestrutura do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). O conteúdo que se pode ler em cerca de duas horas não resolve as controvérsias geradas entre especialistas, o que indica que se trata de assunto de alta complexidade.

As declarações produzidas pelos representantes da oposição se restringem aos aspectos políticos da iniciativa e são exatamente iguais nos principais diários, cujas agências de notícias também alimentam a imprensa regional. Pouco se avança no debate sobre os aspectos exclusivamente econômicos da proposta, que tanto pode sinalizar uma mudança na estratégia para o segundo mandato de Dilma Rousseff como uma manobra para encobrir a falta de recursos do governo para equilibrar as contas públicas.

O problema é que, se depender da mídia tradicional, o cidadão fica sem fontes para formular sua própria opinião.

Porta-vozes da redação

Observe-se que, até o final de outubro, logo após o segundo turno da eleição presidencial, os jornais de circulação nacional traziam regularmente uma média de oito a dez citações diárias de representantes de partidos da oposição, que eram convocados a opinar sobre qualquer coisa.

O que poderia explicar a concessão de “férias” às fontes preferenciais da mídia tradicional, justamente quando a presidente da República começa a preparar o futuro ministério e se torna mais interessante acompanhar os sinais de mudança que suas iniciativas estarão emitindo?

O leitor e a leitora que desenvolveram a habilidade para interpretar a linguagem da imprensa podem levantar muitas hipóteses, mas há um aspecto importante a ser considerado: os principais protagonistas da política nacional se tornaram dependentes da pauta jornalística e já não têm vida própria fora do ambiente midiático. Se, durante a campanha eleitoral, os porta-vozes da oposição encontravam amplas vitrinas para vocalizar o que quisessem, ou o que os marqueteiros consideravam conveniente, na rotina eles passam a depender do interesse específico dos editores.

A cumplicidade de correligionários entre a imprensa e um dos lados da política cria uma relação de dependência que desfavorece a política e os políticos, que se transformam em meros porta-vozes daquilo que é imaginado nas reuniões de pauta dos jornais. Por mais que caprichem na contundência de seus discursos, com os quais tentam assegurar um espaço relevante nos noticiários, muitos daqueles que deveriam fazer o contraponto ao poder central estão emasculados, reduzidos ao papel de vocalizadores de frases construídas nas redações.

Esse é, provavelmente, um dos mais graves danos causados à democracia pelo protagonismo político das grandes empresas de comunicação: aqueles atores que deveriam cumprir o papel central na agenda republicana acabam se tornando dependentes da mídia tradicional. Já não pensam por si – raciocinam conforme a pauta dos jornais.

São bonecos de ventríloquo.

Luciano Martins Costa
No OI
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Democratizar a mídia é uma questão de governo, diz Miro


O programa entrevistaFPA realizado nesta segunda-feira, 10 de novembro, ouviu o jornalista Altamiro Borges, um dos fundadores e presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, entidade que luta pela democratização da comunicação, visando a conquistar maior pluralidade e diversidade informativa e cultural no país.

Assista a íntegra do programa


Miro iniciou sua participação no programa comentando o período atual e a ação da mídia no processo eleitoral. Para ele, a capa da revista Veja, na véspera da eleição, foi "um risco à democracia e à soberania do voto. Esse setor, se não for modificado, sempre irá se comportar assim. Democratizar a mídia é uma questão de governo."

Em sua análise sobre a conjuntura e atuação da mídia nacional, Miro afirmou que "a mídia é poder político e econômico, muitas vezes associada aos interesses econômicos. Eles não vão falar da reforma agrária, por exemplo, porque estão associados ao capital financeiro e ao agronegócio".

Ele diz também que apesar de os governos do PT não terem enfrentado a contento o tema da comunicação, o segundo mandato da presidenta Dilma irá agir diferente, mas para que o projeto da mídia democrática elaborada pelo Fórum Nacional de Democratização da Comunicação possa ser levado em conta, deverá haver pressão dos movimentos sociais.

Identidade nas manchetes

Segundo comentou o jornalista, "as empresas jornalísticas concorrem entre elas, disputam espaço e audiência, mas quando chegam nos grandes temas, aí estão unidos. Quando é contra o avanço dos trabalhadores é uma unidade de aço".

"Eles se dividem na disputa de mercado, mas é histórico o alinhamento deles nos outros interesses. Como foi no golpe de 1964 ou contra Getúlio Vargas. Mas hoje são complexos midiáticos muito maiores. Um exército poderosíssimo", alertou.

Joaquim Soriano, diretor da FPA, comandou esta edição do programa. Para ele, "nesta eleição, outra direita apareceu ou se mostrou. Democratizar a mídia não é só questão de ter opinião na sociedade, mas é pressuposto que ela colabore na formação de uma cultura política democrática. É um problema específico da democratização mas também da constituição de outra narrativa", alertou.

Para Miro, o caminho será o contra-ataque, com "nossos sites, blogues, redes sociais. Fazemos uma guerrilhazinha, mas eles estão incomodados com nossa ação nas redes sociais". Na pauta futura estão dois grandes desafios: fortalecer e qualificar os vários instrumentos, como é a experiência da tevêFPA, da TVT, das rádios comunitárias, blogues e sites e lutar para acabar com o monopólio midiático, "dois movimentos simultâneos".

Miro citou os ensinamentos de Perseu Abramo, sobre manipulação e informação e também respondeu às questões dos internautas que abordaram o conselho nacional de comunicação, internet e tecnologia, políticos e radiodifusão e formação de novos comunicadores. E também relembrou os países que já fizeram suas leis relacionadas à comunicação, como Estados Unidos e Reino Unido.

Direito à comunicação

Durante a entrevista, foi abordado também o lançamento da publicação Para Garantir o Direito à Comunicação, uma coedição da Editora Fundação Perseu Abramo, da Fundação Maurício Grabois e do Centro Barão de Itararé. O livro é organizado pelo professor Venício de Lima, com prefácio de Franklin Martins. Saiba mais aqui.

EntrevistaFPA

O programa entrevistaFPA é composto por quatro blocos de 15 minutos, sendo que o último bloco conta com perguntas enviadas pelos internauMamberti: 'PT precisa realimentar a esperança das pessoas'tas. O programa já contou a participação do economista João Sicsú, do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, do professor Reginaldo Carmelo de Moraes, do sociólogo Jean Tible, o diretor do Instituto Lula, Luiz Dulci, de Rosane Bertotti, da CUT, Paulo Vannuchi, membro da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Genoíno, deputado federal, e Rogério Sottili, secretário municipal de Direitos Humanos de São Paulo, João Pedro Stédile, membro da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e o ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas.

Também já participaram Jefferson Lima, secretário nacional de Juventude do PT, Miriam Nobre, da Marcha Mundial das Mulheres, William Nozaki, da Coordenação de Promoção do Direito à Cidade da Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo; Alessandro Melchior, da Coordenação de Políticas LGBT da Prefeitura de São Paulo; o advogado Marcelo DiasMamberti: 'PT precisa realimentar a esperança das pessoas', presidente da Comissão da Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil, do Rio de Janeiro, e o ministro Gilberto Carvalho, que falou sobre a política nacional de participação social; Antônio Silva Pinto, secretário da Promoção da Igualdade Racial da prefeitura de São Paulo, com o ator Sergio Mamberti e com o deputado estadual João Paulo Rillo.

No Fundação Perseu Abramo
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Quando imprensa vira notícia, uma das duas está doente


Estarrecido como sói acontecer com almas sensíveis, este observador admite que já usou o axioma do título dúzias de vezes. Além de flagrante autoplágio, trata-se de descarada clonagem do dito caipira segundo o qual pobre só come galinha quando um deles está enfermo.

A imprensa detesta ver-se refletida nas manchetes; não é discrição ou timidez, é sabedoria: holofotes são incontroláveis, exibem muito mais do que deles se espera.

Em seguida ao estresse provocado pelo pedido de demissão do cronista esportivo Xico Sá, que se revoltou contra o embargo imposto ao artigo onde se proclamava eleitor de Dilma Rousseff, a Folha de S.Paulo resolveu voltar ao pódio para se autoproclamar campeã em matéria de isenção.

Na edição de sábado (8/11), com grande destaque e nenhum constrangimento, o jornal afirma na p. A-9: “Cobertura eleitoral da Folha é aprovada por 77% dos leitores” (ver aqui). A fonte é, naturalmente, o Datafolha. Uma pesquisa no Google revelará que a mesma pesquisa é repetida religiosamente depois de cada eleição com resultados sempre brilhantes. Se fosse pessoa, a Folha seria extremamente carente, sedenta de reconhecimento e aceitação.

No domingo (9/11), quando o México começava a pegar fogo com as declarações do procurador-geral sobre a chacina dos 43 estudantes em Iguala (ver aqui), a Folha teve novo surto de inovação e sapecou na manchete da primeira página a retumbante constatação: “Jornalismo profissional alimenta redes sociais” (aqui).

A Folha só descobriu isso agora? Se acompanhasse este Observatório com mais atenção teria publicado a mesma matéria há alguns anos. De qualquer forma, trata-se de uma edição histórica e não apenas pela insólita manchete.

“De folga”

Na página A-3, no “Painel do Leitor”, outras novidades: quatro leitores mencionam a saída dos colunistas Eliane Cantanhêde e Fernando Rodrigues, que se revezavam há pelo menos uma década na retranca do “Brasília” na nobilíssima Pagina Dois.

Como assim, onde é que os leitores descobriram esta informação? Logo se descobre, no pé do painel, uma Nota da Redação”: “Sobre o encerramento da colaboração na ‘Folha’ dos colunistas Eliane Cantanhêde e Fernando Rodrigues leia reportagem à página A-10”.

Antes de chegar à página A-10, o observador dá uma paradinha na página A-6, onde aos domingos publica-se a coluna “Ombudsman”. Não há coluna com este nome. Com letra microscópica o jornal informa que neste domingo, excepcionalmente, não se publica a coluna da ombudsman — a mais importante contribuição ao processo de transparência jornalística.

Enfim, na página A-10: no alto destaca-se o título “Manifestantes buscam inspiração em direita americana”, e no corpo da xaropada com forte entonação conservadora o jornal informa que foi ouvir alguns dos 2.500 manifestantes que no dia 1/11 foram à Avenida Paulista protestar contra Dilma Rousseff e o PT. O redator tem o cuidado de informar que os manifestantes ouvidos não pediram a intervenção militar, a reivindicação “partiu de uma minoria”. Matéria estranhíssima.

Agora, sim: no pé da página A-10, com destaque “- D” (isto é, destaque nenhum): “Folha estreia novos nomes na coluna Brasília em dezembro”. Na parte final da matéria, depois de introduzidas as novas atrações, fica-se sabendo que substituirão Eliane Cantanhêde e Fernando Rodrigues, ela com 17 anos de casa e ele, 27 (ver aqui).

Só isso? Só isso. Desfecho insólito mesmo para os padrões da Folha.

No “Painel do Leitor” de segunda-feira (10/11), duas novas cartas sobre a saída de Cantanhêde e Rodrigues. E como um dos missivistas cobrou uma explicação sobre o súbito desaparecimento da ombudsman, Vera Guimarães Martins, em seguida veio a indefectível “Nota da Redação”: a coluna não foi publicada porque “a titular estava em semana de folga”.

Folga? Curioso.

Ato político

Desses fatos surgem três grandes evidências:

1. Como é que os leitores souberam da saída de Cantanhêde & Rodrigues se o jornal só publicou a informação um dia depois? Certamente pelas redes sociais, estúpido. Mas se as redes sociais só se inspiram no “jornalismo profissional” (segundo a manchete de domingo), alguma coisa escapou do controle, né?

2. Na sexta-feira (7/11) já corria a informação na blogosfera e alhures de que as demissões obedeciam a um drástico plano de contenção de gastos na redação do mais respeitado jornalão do país. Outros cortes viriam/virão. A crise econômica é visível a olho nu: pode ser detectada nas noites da Vila Madalena de quinta a sábado, na retração da publicidade em todas as mídias, nos pífios lançamentos da moda de verão. Pode ser notada, sobretudo, na própria Folha.

Na edição de sábado (8/11), com 92 páginas distribuídas em 9 cadernos, havia 38 anúncios de página inteira mais 12 inserções de grande porte (maior do que meia página), só no segmento de imóveis. No segmento automotor, três páginas inteiras; em outros segmentos (inclusive supermercados e eletroeletrônicos): 4 páginas.

E daí, perguntará o leitor. Eis o que informa a própria Folha na capa do caderno de classificados de imóveis, no domingo (9/11): “Preços em desaceleração e vendas em queda em São Paulo”. Construtoras, imobiliárias e incorporadoras gozam de tabelas especiais, os jornais oferecem generosos descontos ao setor, os anúncios de página dupla começam a substituir os de uma página. A Folha está oferecendo seu precioso espaço por preços insignificantes, quase de graça.

3. Outra evidência da crise e da absurda subserviência às chantagens dos anunciantes: o “informe publicitário” na capa e contracapa da edição da segunda-feira (11/11) nos exemplares destinados aos assinantes paulistanos. Com o patrocínio da operadora Vivo, da espanhola Telefônica, uma pseudocapa — verdadeiro trambique jornalístico — com a data e algumas notícias da terça-feira, 1 de fevereiro de 2000 (há 14 anos), quando o tenista Rafael Nadal, igualmente espanhol, iniciou a sua formidável coleção de prêmios. Mote das quatro páginas que envolvem a edição: “A vida passa em velocidade 4G”. Isso cheira a Navarra.

Quando grandes jornais abrem mão de seus traços e compostura vão se apequenando nos demais atributos. Demitir — ou o eufemismo de “interromper a colaboração” — acontece em qualquer empresa ou instituição. Afastar do quadro duas estrelas de primeira grandeza ao mesmo tempo e dessa forma descuidada, pusilânime, não é acidente, ou casualidade. É causal, tem um sentido, é ato político (não necessariamente partidário ou ideológico).

Quando a imprensa é notícia, um dos dois está doente. Ou os dois. A Folha adora surpreender: é o seu charme. E a sua perdição.

Alberto Dines
No OI
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A suíte de Dilma no Qatar é notícia?


Gostaria de ouvir a opinião da ombudsman.

É notícia que a família real do Qatar ofereça a Dilma, convidada especial, uma suíte que a Folha calcula que custe 30 mil reais a diária?

Ou é apenas uma forma dissimulada de agredir Dilma?

Para mim, a segunda opção — a agressão — é a resposta certa.

Onde Dilma seria colocada senão num quarto de um dos melhores hotéis do Qatar?

Ela é presidente do Brasil, uma das maiores economias do mundo. Recebeu um convite de um país rico para fazer uma escala antes da reunião do G-20. O Qatar tem interesse presumível em ampliar suas relações comerciais com o Brasil, e a recíproca é verdadeira.

Fora tudo isso, como seus vizinhos, o Qatar é a terra da extravagância luxuriosa, patrocinada pelos petrodólares.

Notícia, no caso, seria darem a Dilma um quarto banal para turista que viaja com milhas.

A maldade da Folha seria irrelevante não fosse pelo fato de que incentiva em seus leitores ideias estapafúrdias.

É um artigo que deseduca, em vez de educar.

Passei os olhos pelos comentários. Lá estavam os antipetralhas usuais falando na “esquerda caviar”. Alguns diziam até que é o contribuinte brasileiro que paga, quando a própria nota esclarece que as despesas correm por conta do convidado.

Inépcia da Folha não deve ser. É improvável que seus jornalistas não saibam que tipo de hotel é reservado a presidentes convidados para uma visita, e não apenas no Qatar, aliás.

Se não é inépcia, é má fé.

Mesmo assim, gostaria de ver a opinião da ombudsman sobre o caso.

Paulo Nogueira
No DCM
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Abastecimento de água em Nova York é "bolivariano", ao contrário da "moderna" Sabesp

Onde já se viu os habitantes de Nova York afrontar a Fox, a revista Veja e preferir o "bolivarianismo" na hora de abastecer com água suas casas?

Para piorar, esses novaiorquinos "bolivarianos" não seguiram a cartilha do Consenso de Washington, como a Sabesp segue.

Horror dos horrores, ainda pagam "bolsas" para fazendeiros da agricultura familiar preservar os mananciais.

E, cruzes! Os fazendeiros são organizados em um Conselho. Que coisa mais "bolivariana" esse troço de conselhos.

Agora termina a ironia sobre os fatos reais, e continuam as informações:

O serviço de abastecimento de água em Nova York é estatal e sem fins lucrativos.

A cidade não privatizou o serviço, como recomendava o Consenso de Washington e o FMI aos países em desenvolvimento na década de 90.

Também não criou nenhuma empresa com ações em Bolsa para distribuir dividendos às custas da tarifa d'água paga pelo cidadão.

Apesar da cidade ser cortada pelo Rio Hudson, cujas águas poderiam ser usadas para abastecer estações de tratamento, a solução adotada é diferente.

Há mais de um século, a cidade prefere trazer água pura das montanhas distantes cerca de 200 km. A água dispensa estações de tratamentos complexas, sendo apenas filtrada e desinfectada.

Quando as águas começaram a ser ameaçadas de poluição, um funcionário "bolivariano" do Departamento de águas da Prefeitura, em vez de aderir ao projeto de gastar bilhões com grandes empreiteiras para construírem estações de tratamento, preferiu negociar diretamente com fazendeiros que habitam as montanhas com nascentes, para receberem dinheiro como remuneração para preservar a água limpa. Eles preservam as matas ciliares e criam rebanhos de forma a não contaminar as águas.

O custo para preservar revelou-se 85% menor do que aquilo que seria necessário investir nas estações de tratamento. Já foram investidos cerca de US$ 1,5 bilhão nos fazendeiros para manejo ambiental. Isso economizou cerca de US$ 10 bilhões em estações de tratamento.

Se os novaiorquinos quiserem comprar ações de alguma empresa de abastecimento de água, não encontrará empresa que abastece sua cidade. Mas encontrará em Wall Street ações da Sabesp, empresa controlada pelo governo de São Paulo, em mãos tucanas há 20 anos.

A Sabesp não deixa faltar ações e dividendos na Bolsa de Nova York, mas se por acaso esse novaiorquino precisar vir à São Paulo, corre o risco de não ter água da Sabesp, pelo menos em alguns dias ou horas do dia, dependendo de onde se hospedar.

Para quê serve a privataria na Sabesp?

A prefeitura de Nova York investe no sistema de abastecimento todo dinheiro arrecadado da tarifa de água. A tarifa não visa ser acima dos custos e investimentos necessários. Não visa gerar lucros para distribuir dividendos para ninguém.

O prefeito de Nova York não vai à Obama pedir R$ 3,5 bilhões para não faltar água na cidade. Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin foi à presidente Dilma pedir socorro de R$ 3,5 bi para fazer obras, apesar de já ter distribuído em dividendos aos acionistas da Sabesp um valor maior do que isto.

Os "gênios" dos banqueiros demotucanos alegavam que abrir o capital da Sabesp era para atrair capitais privados nas Bolsas de Valores para investimentos. Para a Sabesp ficar atrativa aos investidores precisava pagar dividendos altos a partir do rico dinheirinho pago pelo cidadão na conta d'água. Na hora em que precisa de R$ 3,5 bilhões para investir, cadê os investidores privados da Bolsa? Não existem. Alckmin foi bater na porta do Planalto.

Sem querer, até o Globo Rural detona indiretamente Alckmin:

Em 2010, bem antes do "apagão" de água do Alckmin, o Globo Rural fez uma reportagem com os "bolivarianos" de Nova York:



No Amigos do Presidente Lula
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“Mídia é cúmplice do governo Alckmin na crise da água em SP; ajudou a acobertar as reais razões”

Marzeni Pereira da Silva: “A mídia ajudou o governador a acobertar as reais razões da crise hídrica”
Durante o primeiro semestre de 2014, a mídia corporativa praticamente ignorou a crise de abastecimento de água na Região Metropolitana de São Paulo.

E não foi por falta de alerta de especialistas.

Em 24 março, em entrevista ao Viomundo, o engenheiro Júlio Cerqueira César Neto, professor aposentado de Hidráulica e Saneamento da Escola Politécnica da USP, denunciou:

“Apesar de o nível do sistema Cantareira diminuir dia após dia, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) insiste: o racionamento de água está descartado em São Paulo”.

“Só que o governador e a Sabesp já estão fazendo racionamento e dizem que não vão fazer. Ao não contar todas as coisas que está fazendo, o governador mente”.

“O governador está preocupado com o dia 5 de outubro. Ele acha que se falar em racionamento, a população não vai votar nele. Então começa a inventar uma série de jogadas demagógicas”.

“Na verdade, o racionamento começou há mais de dois meses. A Sabesp já está cortando água em vários pontos da cidade de São Paulo e em municípios da região metropolitana, como Osasco, Guarulhos, São Caetano do Sul. Em português, o nome desses cortes é racionamento”.

“Só que essa forma de fazer o racionamento me parece completamente injusta, pois é dirigida aos pobres; vão deixar os ricos para o fim”.

“O problema não é falta de chuvas, mas a falta de investimento em novos mananciais”.

“A partir da década de 1990, a Sabesp aderiu ao modelo neoliberal e passou a buscar o lucro a qualquer custo, independentemente dos direitos fundamentais do homem. Assim, deixou de considerar o saneamento básico como problema de saúde pública. E passou a encará-lo como um negócio qualquer”

“A Sabesp se transformou num balcão de negócios. Sucesso total no mundo dos negócios, fracasso total no mundo sanitário, na saúde pública”.

Quase nove meses se passaram desde essa entrevista e Alckmin continua a rejeitar OFICIALMENTE a possibilidade de racionamento ou rodízio.

Mas a real realidade é outra.

Os moradores de São Paulo — principalmente os das periferias, entre os quais esta repórter se inclui — sabem que isso é mentira. Eu moro na Penha, Zona Leste da capital, e por volta das 19h a água some da torneira e só reaparece por volta das 7h do dia seguinte. Dia a após dia, há vários meses.

Curiosamente, a grande imprensa não detona Alckmin por isso. E, ainda, corrobora a versão do governador, jogando a culpa das costas de São Pedro.

“A mídia ajudou o governador a acobertar as reais razões da crise”, denuncia Marzeni Pereira da Silva. “Houve a clara preocupação de poupá-lo, relacionando a falta de água somente à estiagem.”

“No noticiário, a falta de água era atribuída somente à estiagem. Toda vez que a matéria falava em falta de água, ela vinha junto com a previsão do tempo, numa manobra para relacionar uma coisa à outra e não deixar espaço para questionamento”, observa Marzeni.

“Tudo era efeito do clima. Não havia a preocupação em mostrar que a crise hídrica decorria de falta de planejamento do governador Alckmin e de seu antecessor, José Serra.”

“A mídia é cúmplice do governo Alckmin na crise de abastecimento de água em São Paulo”, detona.

Marzeni Pereira da Silva é ativista sindical, trabalha com saneamento básico e integra a oposição no Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema-SP). É membro da corrente LSR – Liberdade Socialismo e Revolução.

Eis a íntegra da nossa entrevista.

Viomundo — O governador culpa a falta de chuvas pela crise hídrica em São Paulo. Como trabalhador do setor de água e esgoto, você concorda?

Marzeni Pereira da Silva — De jeito nenhum.

— Por quê?

É verdade que estamos passando por uma estiagem bastante severa, mas por período curto, quando comparado a outras regiões do Brasil. Além disso, a estiagem é um fenômeno natural, que pode ocorrer em qualquer lugar e que não controlamos. Mas já é possível prevê-la e prevenir seus efeitos. Ou seja, precisa planejamento, coisa que aqui não houve.

Não é de hoje que os sistemas de abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo trabalham próximo ao limite. Há mais de uma década especialistas vêm alertando para o risco de colapso, pois há um crescimento substancial da demanda, sem contrapartida na disponibilidade.

Para piorar, as perdas por vazamentos na rede ainda são muito altas. Segundo a Aresp [Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo], estão em torno de 30%. Mesmo que fossem 20%, já seriam muito altas.

Pouca coisa foi feita no sentido de aumentar a capacidade das represas, melhorar a eficiência na distribuição, no desenvolvimento de novas opções de abastecimento e no uso diferenciado da água.

Nos últimos 20 anos, não houve a construção de um único sistema de tratamento de água na Região Metropolitana de São Paulo. Menos ainda na preservação e recuperação dos mananciais.

— O governador mentiu para a sociedade?

— Eu não tenho a menor dúvida que sim. O tempo todo ele omitiu a gravidade do problema. Também deixou o entendimento de que não havia falta de água e nem a possibilidade de faltar.

Se considerarmos que 50% da população o reelegeu [teve 57% dos votos dos votos válidos], é porque confia nele. Portanto, se ele afirma que não tem risco de faltar água, essas pessoas tendem a acreditar. Fator que induz uma parcela da população a continuar desperdiçando.

No debate da Globo, por exemplo, Alckmin disse:

“… não está faltando água em São Paulo, não vai faltar água em São Paulo. Nós estamos trabalhando com planejamento, obras, investimento. As mudanças climáticas atingiram a Califórnia, atingiram a Austrália, 20% dos municípios dos estados brasileiros estão em estado de emergência ou de calamidade pública e nós aqui, com 22 milhões de pessoas, a 700 m de altitude, temos garantido abastecimento e temos uma grande reserva para frente e investimentos!

Só que, nessa data [30 de setembro], vários bairros da região metropolitana e da capital já estavam com frequente falta de água e cerca de 65% da primeira parcela do volume morto já tinham sido utilizados.

Portanto, uma situação muito delicada. Alckmin sabia que não tinha como garantir que não haveria falta de água e que sabia que havia risco de colapso total do sistema. Por outro lado, onde está a grande reserva de água que o governador afirmou ter no debate?

— O que acha comportamento da mídia na crise hídrica paulista?

A grande mídia teve comportamento parcial o tempo todo. Ela teve a clara preocupação de poupar o governador.

— De que forma?

No noticiário,a falta de água era atribuída somente à estiagem. Toda vez que uma matéria falava em falta de água, ela vinha a previsão do tempo junto.

Ou seja, uma maneira de relacionar uma coisa à outra e não deixar espaço para questionamento. Tudo era efeito do clima. Não havia a preocupação em mostrar que a crise hídrica decorria da falta de planejamento do governador e de seu antecessor, José Serra.

— A mídia ajudou o governador acobertar as razões reais da crise?

Claro! Não tenho dúvidas quanto a isso. A grande imprensa procurou passar à população o tempo todo que o problema era geral no país e que, aparentemente, nada poderia ter sido feito antes.

Pois bem, se nada poderia ter sido feito nos últimos 10 anos para evitar os efeitos de uma estiagem, então não tem solução, certo? Errado.

Não tem a curtíssimo prazo, como a situação atual exige. Mas a médio e longo prazo tem solução, sim!

— Que medidas poderiam ter sido postas em prática e não foram?

Várias:

1. Fortalecimento da Sabesp, uma empresa de âmbito estadual, que tem o melhor corpo técnico e melhor estrutura. Portanto, é preciso eliminar a terceirização e isso implica contratação de quadro próprio. Já o lucro deve ser investido no saneamento e não ser desviado pagar dividendos.

Nos últimos 20 anos, foi feito exatamente o inverso: reduziu-se o número de empregados próprios de cerca 20 mil para 14 mil e terceirizou-se a maior parte dos serviços, comprometendo a qualidade. Além disso, parte do lucro que deveria ter sido aplicado no saneamento foi para os acionistas.

2. Aumentar a coleta e o tratamento dos esgotos e fazer o reuso planejado dessa água para diversos fins, essencialmente não potáveis. Não é razoável que, na região metropolitana mais rica do País, grande parte do esgoto ainda vá para os córregos.

3. Proteção e recuperação dos mananciais. Há conivência dos governos das diversas esferas quanto à ocupação das áreas de mananciais, e em alguns casos com construções de classe média. O próprio governo estadual ocupa essas áreas. Caso concreto é o traçado do Rodoanel Mario Covas, que passa por vários mananciais.

Faz-se necessário um plano habitacional que ofereça alternativa para as famílias pobres que moram em áreas de risco e de mananciais. Além disso, é preciso reflorestar e proteger o que restou das matas ciliares. Para que essas ações tenham sucesso, a especulação imobiliária tem que ser combatida fortemente.

— A mídia foi cúmplice do governador na crise hídrica?

Evidentemente que sim. A mídia foi cúmplice, já que pouco ou quase nada divulgou sobre o histórico de deficiência no sistema de abastecimento de água.

Assisti várias reportagens e não vi nenhuma informando que o Cantareira quase secou entre 2003 e 2004. Naquela época, houve rodízio, foram provocadas chuvas artificiais e o governador era também o Alckmin.

Pouco se falou também sobre os compromissos firmados em 2004 para a concessão da outorga do Cantareira e que não foram cumpridos, como a construção de barragens na bacia do Rio Piracicaba, redução de dependência desse sistema, reuso de água, etc.

Outra coisa foi a conivência ou cumplicidade com a administração perigosa ou inconsequente da pouca água disponível, a partir do início do ano de 2014, em função da Copa do Mundo e dos interesses eleitorais.

Os especialistas em recursos hídricos, saúde pública e saneamento com os quais eu conversei foram unânimes em dizer que usar todo o estoque de água poderia ser perigoso. Ainda, que o correto seria tomar medidas para garantir, pelo menos, a segurança no abastecimento até março de 2015. A mídia deu pouca importância para isso.

— Um rodízio oficial que atingisse todos os moradores na Região Metropolitana de São Paulo?

Seria uma medida adequada. Transparência num caso tão sério quanto esse é essencial!

— Tem leitor que a essa altura está dizendo: “Ah, mas está faltando água em outros estados…” O que diria a essas pessoas?

Até o momento não ouvi ninguém colocando a culpa pela falta de chuvas no governador ou na Sabesp, o que seria realmente absurdo.

Mas o Alckmin tem culpa pela falta de planejamento voltado para os interesses da população, pela política de sucateamento da Sabesp com redução de pessoal e terceirização dos serviços. Portanto, pela falta de água Alckmin tem culpa, sim. Pela falta de chuva, não.

— E agora?

Agora é hora de a população participar e dizer o que quer. Vejo duas maneiras de isso ocorrer: uma como indivíduo e outra como ser coletivo.

Como indivíduo, a pessoa pode mudar hábitos para reduzir o consumo, reusar a água e captar água de chuva para diversas atividades não potáveis. Para esta forma de participação já existem diversos materiais sendo distribuídos pela própria Sabesp e propaganda nos meios de comunicação.

Como ser coletivo, nós podemos exigir medidas de curto, médio e longo prazo. São medidas de muito maior efetividade e alcance.

— Por exemplo.

Há várias:

1. Em caráter de emergência, incentivo à coleta de água de chuva, com distribuição de hipoclorito, caixas d’água e filtros para a população de baixa renda. Distribuição prioritária de água para as casas, hospitais, postos de saúde, escolas e creches.

2. Construir comitês populares de luta pela água nos bairros, que tenham o direito de fiscalizar e deliberar sobre as prioridades do uso da água. Criação de um conselho estadual de usuários com representantes de movimentos urbanos, sindicatos e bairros afetados para fiscalizar e deliberar sobre as questões de abastecimento de água e saneamento.

3. Exigir a preservação e recuperação dos mananciais e nascentes. Um plano de reflorestamento. Plano habitacional que ofereça alternativa às famílias que moram em áreas de risco e combate à especulação imobiliária.

4. Combate às perdas de água com utilização de materiais mais modernos (como o PEAD*), com fim da terceirização e do cartel das empresas prestadoras de serviço.

5. Exigir coleta e tratamento de 100% dos esgotos e reuso planejado da água do esgoto tratado (para fins não potáveis).

6. Reestatização imediata da Sabesp e de outras empresas de saneamento, sob o controle e gestão dos trabalhadores. Todo o lucro da Sabesp e das outras empresas tem que ser investido no saneamento. Água não pode ser mercadoria!

7. Constituir uma Comissão Popular de Inquérito, composta por representantes dos movimentos sociais e trabalhadores da Sabesp e outras empresas de saneamento, para apurar a responsabilidade pela crise.

8. Pedir a responsabilização criminal do governo do Estado pela crise hídrica. Podemos ter uma crise de saúde pública, já temos danos irreversíveis ao meio ambiente e gente perdendo o emprego. E tudo isso poderia ter sido evitado!

*Polietileno de Alta Densidade

Conceição Lemes
No Viomundo
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Tucano condenado por desvio de dinheiro público, vai continuar solto

Como diz José Simão: Tucano rouba há tanto tempo que os crimes estão todos prescritos!

A Segunda Turma julgou parcialmente procedente, nesta terça-feira (11), a Ação Penal (AP) 556 para condenar o deputado federal Marco Tebaldi (PSDB-SC) à pena de 3 anos e 2 meses de reclusão, em regime aberto, pela prática de desvio de dinheiro público, nos termos do artigo 1º, inciso I, do Decreto-Lei 201/1967, e declarou extinta a punibilidade pela prescrição. No julgamento, ele foi absolvido da acusação de lavagem de dinheiro.

O ministro relator Gilmar Mendes rejeitou, no início da sessão, a questão de ordem posta pelo réu, que requereu o adiamento do julgamento até a decisão da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5175. Nela, se questiona a alteração no regimento interno da Corte que transferiu do Plenário para as Turmas a competência para julgar crimes comuns imputados a deputados federais e senadores. O ministro destacou que “a propositura da ação direta não é, por si só, causa para suspensão da aplicação da norma impugnada”. Por unanimidade os ministros da Turma indeferiram o pedido de adiamento.

Consta nos autos que o tucano foi denunciado junto com mais sete acusados de participarem do desvio do valor de R$ 100 mil reais, em agosto de 2001, período em que Tebaldi foi vice-prefeito e prefeito em exercício da cidade Joinville (SC). O dinheiro foi destinado a um convênio da prefeitura com a empresa de um dos envolvidos no esquema, a Convention Visitors Bureau, para a realização do 15º Congresso Nacional de Vereadores, em março de 2002.

No entanto, o Ministério Público Federal afirma que o valor foi desviado, sua origem ocultada, e envolveu pagamentos para a União dos Vereadores do Brasil e a empresa Tripservice de Itajaí, sendo depois dividido entre os demais acusados e Tebaldi, que teria ficado com a quantia de R$ 35 mil. A acusação sustentou que as provas indicam que o réu praticou os delitos narrados na denúncia, na qualidade de vice-prefeito e prefeito em exercício, e para receber sua quantia de R$ 35 mil dissimulou uma dívida entre ele e um dos participantes.

Decisão

Em seu voto, o ministro Gilmar Mendes afirmou que o desvio de renda pública está comprovado na investigação. “Os elementos deixam claro que os R$ 100 mil foram, então, desviados da prefeitura municipal, muito embora fossem destinados a custear o evento dos vereadores, terminaram apropriados de forma privada sem destinação ao evento”, explicou o relator.

Quanto ao crime de lavagem de dinheiro, o ministro votou pela absolvição do réu por falta de provas de autoria. De acordo com o relator, não ficou comprovada sua participação da ocultação dos recursos.

Por fim, estabeleceu pena de 3 anos e 2 meses de reclusão, em regime aberto. No entanto, reconheceu a prescrição, que no caso ocorre em 8 anos nos termos dos artigos 109, inciso IV, e 110, parágrafos 1º e 2º, do Código Penal. De acordo com o ministro, a consumação do crime foi registrada em 19 de setembro de 2001 e o recebimento da denúncia foi em 6 de abril de 2010, “portanto ocorreu a prescrição da pretensão punitiva”.

Os demais ministros da Segunda Turma seguiram o voto do relator, julgando procedente em parte a denúncia e reconhecendo a prescrição da pretensão punitiva. 

No Amigos do Presidente Lula
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