10 de nov de 2014

O “odiojornalismo” não pode ser patrocinado pelo dinheiro público

Odiojornalista
Está confirmado: o governo de Dilma não vai mais anunciar na Veja.

Paulo Henrique Amorim deu primeiro essa informação.

É uma decisão ao mesmo tempo tardia e acertada.

É absurdo você colocar dinheiro público — e quanto, e há quanto tempo — numa publicação nociva à sociedade.

A melhor definição para o que a Veja faz veio de uma acadêmica da UFRJ, Ivana Bentes: “odiojornalismo”.

O ódio que a revista semeia com tanta obsessão se refletiu, recentemente, em coisas como as manifestações criminosas, nas redes sociais, contra os nordestinos.

Diogo Mainardi,o primeiro “odioarticulista” da Veja, há poucos dias chamou os nordestinos de “bovinos” num programa de televisão que vai se tornando igual à revista, o Manhattan Connection.

O blogueiro da Veja Augusto Nunes, o gênio cosmopolita de Taquaritinga, acha que está sendo engraçado ao tratar Lula como o “presidente retirante” e Evo Morales como “índio de topete”.

Em 2006, ainda militando na mídia impressa, escrevi um texto que dizia que Mainardi “mainardizara” a Veja. Sua má fé, sua falta de princípios jornalísticos — tudo isso saiu de sua coluna e se espalhou pela revista, notei então.

Agora, passados alguns anos, é possível dizer que a Veja “mainardizou” toda a grande mídia. Mainardis e derivados infestam jornais, revistas, rádios, tevê.

O “odiojornalismo” não pode, naturalmente, ser patrocinado pelo dinheiro público.

O anunciante privado que quiser prestigiar este tipo de pseudojornalismo tem inteira liberdade para fazer isso.

Mas o dinheiro público não pode ser torrado numa coisa tão predadora.

É patética a dependência do “odiojornalismo” do Estado. Patética porque essa dependência é a negação do espírito capitalista, tão defendido pelas grandes empresas de jornalismo.

Empresas genuinamente capitalistas não se alimentam do Estado. Isto é um fato.

Se houver mercado para o “odiojornalismo” — mercado, não dinheiro público — que ele financie “jornalistas” como Reinaldo Azevedo, Arnaldo Jabor, Rodrigo Constantino, Pondé, Merval, Noblat etc.

O dinheiro público é sagrado. Deve ser usado para construir escolas, hospitais, portos e todas aquelas coisas que compõem uma sociedade digna.

Anunciantes e investidores privados podem e devem patrocinar o “odiojornalismo”, se entenderem que isso é bom para o país.

É um direito deles. Assim como será um direito dos consumidores eventualmente retaliar, se considerarem que certas marcas estão bancando causas ruins.

Mas esta é outra história.

Parar de queimar dinheiro público na Veja foi um passo importante — ainda que, repito, tardio, dado o comportamento criminoso da revista.

Mas é preciso mais.

O “odiojornalismo” não se limita à Veja. Onde ele estiver, os recursos dos contribuintes não podem estar.

Silvio Santos tratou de manter calada Sheherazade, outra “odiojornalista” bancada por tanto tempo pelo dinheiro público.

Ele sabe que quebra se o governo cortar a verba do SBT — 150 milhões de reais por ano.

Caso decida dar voz novamente a ela, Silvio Santos que vá procurar outros anunciantes que compensem um eventual corte da publicidade do governo.

Seja capitalista, em suma, se puder e se souber.

É disto que o Brasil precisa: um choque de capitalismo na mídia.

É hora de passar a um estágio superior de mídia no capitalismo nacional — sem a “Estadodependência” de empresas tão dedicadas ao “odiojornalismo”.

Paulo Nogueira
No DCM
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Queda do Muro virou mito de vencedores

Conjugação de uma incrível máquina de propaganda foi capaz de atrair para essa comemoração amplos setores progressistas e de esquerda

Imagem de 9 de novembro de 1989: hoje completa-se 25 anos da queda do Muro de Berlim

O noticiário internacional está marcado, nos últimos dias, pelas festividades comemorativas dos 25 anos da queda do Muro de Berlim. A maioria da imprensa celebra o evento com galhardia.

Trata-se, afinal, do símbolo mais emblemático da derrocada do socialismo e da possibilidade histórica de qualquer sistema distinto do capitalismo triunfante.

A conjugação de uma incrível máquina de propaganda com o complexo de vira-lata comum aos perdedores foi capaz de atrair para essa comemoração amplos setores progressistas e de esquerda, que simplesmente mandaram às favas qualquer espírito crítico.

Alguns porque honestamente concordam com a retórica sobre o muro maligno. Outros porque temem ser apontados como antidemocráticos e fora de moda.

A submissão intelectual chega ao ponto de não se questionar sequer a legitimidade dos grandes agitadores contra a obra do mal.

Onde está, afinal, a autoridade dos Estados Unidos e seus meios de comunicação?

No muro da morte que separa seu território dos aliados mexicanos, matando por ano os oitenta caídos durante três décadas na Berlim dividida?

Na base de Guantánamo, onde centenas de muçulmanos estão presos sem o devido processo legal e são sistematicamente torturados?

Ou teria a Europa ocidental mais credibilidade, com sua política discriminatória contra os imigrantes?

Ou ainda Israel, pródigo em adotar práticas de pogrom contra os palestinos e expeditivos em construir sua própria muralha de isolamento dos territórios ocupados?

A lista de participantes desse festim é bastante longa, vários com muitas contas a acertar, e de cada qual deveria ser solicitado o devido atestado de idoneidade.
Não é o caso, obviamente, de se justificar um pecado com outro, mas evitar comportamentos cuja índole é hipócrita.

Vamos aos fatos, portanto.

O Muro de Berlim costuma ser apresentado, pelos campeões da liberdade, como produto de um sistema político tirânico, cuja natureza seria a divisão dos povos e sua subordinação ao tacape de uma ideologia totalitária.

Centenas de pessoas usaram ferramentas para derrubar o muro que separava Alemanhas Oriental e Ocidental

Quando terminou a 2ª Guerra Mundial, a Alemanha foi dividida em quatro zonas de influência, entre norte-americanos, ingleses, franceses e soviéticos.

A capital histórica, Berlim, pertencente ao território controlado pelo Exército Vermelho, acabou igualmente repartida em áreas controladas pelos países vitoriosos.

Quem se der ao trabalho de ler as atas das conferências de Ialta, Potsdam e Teerã, se dará conta que Moscou era contrário a essa divisão.

Sua proposta era dotar a Alemanha de um governo provisório, sem divisão do território, que organizasse em dois anos um processo eleitoral nacional.

Os demais aliados, temerosos que o país caísse nas mãos dos comunistas, exigiram o modelo adotado.

A União Soviética acatou, depois que viu garantido seu direito de hegemonia sobre os demais países fronteiriços, além de preservado seu controle militar sobre a antiga Prússia Oriental.

Em nome de sua política de segurança e da manutenção da aliança que derrotou o nazismo, abdicou de parte da sua influência na porção ocidental da Alemanha e do antigo Império Austro-Húngaro, apesar de os comunistas já serem maioria na Áustria.

Outro compromisso que constava da agenda pós-guerra era a constituição de um fundo mundial para a reconstrução europeia.

O papel principal, nesse trâmite, cabia aos Estados Unidos, a potência que menos havia sofrido com o esforço de combate, cuja economia havia sido vitaminada pelo conflito e dispunha de imensos recursos financeiros.

Mas a vitória eleitoral dos comunistas na então Tchecoslováquia, seguida de resultados espetaculares na Itália e França, em 1946, provocou uma reviravolta.

A Casa Branca decidiu-se por quebrar o pacto da reconstrução e inundar de financiamento apenas sua área de influência, dando origem ao Plano Marshall, em 1947. Cerca de 140 bilhões de dólares, em valores atualizados, foram injetados no ocidente europeu.

Tinha início a chamada Guerra Fria, antecipada, em março de 1946, pelo famoso discurso de Winston Churchill em Fulton.

A União Soviética, que havia arcado com um incalculável custo humano e material ao ser o grande vetor da vitória contra Hitler, passou a enfrentar uma outra guerra, financeira e de sabotagem, contra suas posições. Especialmente na Alemanha Oriental, constituída em 1949 como República Democrática da Alemanha.

A estratégia norte-americana era roubar os melhores profissionais alemães, atrai-los a peso de ouro a partir de sua cabeça-de-ponte em Berlim Ocidental, que recebia aportes formidáveis para ser exibida como vitrine esplendorosa da pujança capitalista.

A fuga de cérebros e braços asfixiava a jovem RDA, que pouco podia contar com a ajuda material soviética, pois estava o Kremlin às voltas com o dificílimo reerguimento do próprio país.

Foram mais de 12 anos em uma batalha árdua e desigual.

A URSS tinha quebrado a máquina de guerra do nazismo, retesando cada músculo e cada nervo da nação, e se via diante de uma situação que poderia levar à desestabilização de suas fronteiras, exatamente a aposta maior da Casa Branca.

Essa escalada teve seu desfecho no dia 13 de agosto de 1961, data inaugural do Muro de Berlim.

O fluxo entre os dois países e as duas áreas da antiga capital foi militarmente interrompido, obstaculizado por uma construção que chegou a ter 66,5 km de redeamento metálico e murado.

Famílias e amigos foram separados por quase 30 anos.

Aprofundou-se a fratura entre ocidente e oriente na Europa.

Uma nação histórica foi dividida. Oitenta pessoas morreram e 142 ficaram feridas ao tentar ultrapassar o muro, finalmente derrubado em 1989.

Sua construção foi um ato de guerra, mas de caráter defensivo. As hostilidades e operações de sabotagem, que impediram a permanência de uma Alemanha unida e a coexistência pacífica de dois sistemas, foram iniciadas pelas potências que romperam o acordo de paz, impondo ao leste europeu e socialista, com sua economia ferida pela guerra, um longo estado de exceção.

Claro, havia outras alternativas.

A URSS e seus aliados poderiam, por exemplo, ter capitulado de antemão à ideia de desenvolver outro sistema de produção e poder, pois era essa tentativa dissidente o motivo da Guerra Fria. Afinal, não foi assim que tudo terminou, lá se vão 25 anos?

Mas com seus erros e seus acertos, suas glórias e seus desastres, seus feitos e até seus crimes, o socialismo foi, durante gerações, a bandeira e o sonho de povos que aceitaram pagar com sacrifício, dor e sangue por um outro mundo possível.

Teria sido impensável, se assim não fosse, a extraordinária vitória na guerra de trinta anos que vai da Revolução Russa à caída de Berlim nas mãos do Exército Vermelho, em 1945.

O muro de Berlim talvez tenha sido a criatura disforme de um processo no qual seus protagonistas tiveram que enfrentar circunstâncias e teatros de batalha escolhidos, no fundamental, por inimigos poderosos.

De certo modo foi, durante décadas, marco de resistência e de equilíbrio entre dois sistemas. Caiu quando a força propulsora de um dos lados já tinha se esgotado.

O resto é a mitologia dos vencedores.

(*) Texto originalmente publicado no Blog Breno Altman

Observação: este texto é uma adaptação, com poucas alterações, de artigo que escrevi há cinco anos. Também foram poucas as mudanças na narrativa tendenciosa e falsificada dos fenômenos históricos que precederam a queda do Muro de Berlim.
No Opera Mundi
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Haddad repudia matéria da Folha que tenta associá-lo a golpista


A fAlha de S. Paulo publicou neste domingo 9, a matéria sobre esquemas de fraudes na Câmara dos Vereadores de São Paulo.


A casa pertence  Roberto de Faria Torres, engenheiro que entrou na Prefeitura de São Paulo por concurso em 2006,  cujo salário é de cerca de R$ 4.000.

Roberto foi flagrado em uma operação do Ministério Público Estadual — em parceria com o Fantástico, da TV Globo — achacando um comerciante.



Ele pediu R$ 15 mil em troca de um laudo que livraria o comerciante da CPI dos Alvarás, criada pela Câmara Municipal para verificar a situação de locais com capacidade para mais de 250 pessoas.

Antes disso, a própria CGM (Controladoria Geral do Município) abrira investigação contra Roberto Torres, depois de constatar um patrimônio suspeito do engenheiro.

Acontece que, no subtítulo da matéria, a Folha destaca: Engenheiro da gestão Haddad tem salário de R$ 4.000 e 9 carros de luxo. 

Depois, no meio, o jornal volta a mencionar Haddad: “A Câmara enviou ao menos três pedidos para que a gestão Fernando Haddad (PT) o liberasse para a comissão [da CPI dos Alvarás]“.

Má-fé da Folha para tentar associar Haddad e a sua administração ao servidor golpista.

A Folha esconde que:

1. O flagrante de propina se deu quando o servidor atuava na Câmara e não na atual gestão da Prefeitura.

2. Roberto Torres supostamente acumulou bens de 2006 em diante, período em José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (na época, DEM, atualmente PSD) estavam à frente da Prefeitura.

3. O golpista é ligado ao vereador Eduardo Tuma (PSDB).


Esclarecimento sobre servidor investigado da CPI dos Alvarás da Câmara

Prefeito Fernando Haddad esclarece que o flagrante de propina se deu quando o servidor atuava na Câmara e não na atual gestão da Prefeitura

“O prefeito Fernando Haddad repudia a maliciosa tentativa de envolver seu nome e a reputação de sua administração na edição da reportagem Servidor da Prefeitura de SP tem mansão com sete suítes. (C1; 9/11/14).

Sem que exista qualquer justificativa de fato ou jornalística, o subtítulo da matéria é Engenheiro da gestão Haddad tem salário de R$ 4.000 e 9 carros de luxo, imputando a responsabilidade dos atos de um servidor concursado à gestão Haddad, quando é sabido que o flagrante de pedido de propina ocorreu quando o mesmo atuava no legislativo municipal, poder ao qual o funcionário estava cedido.

Além disso, a incompatibilidade de patrimônio já vinha sendo investigada pela Controladoria Geral do Munícipio (esta sim, criada por Haddad), fato que permitiu a rápida ação do Ministério Público.

O período do suposto acúmulo ilegal de bens data de 2006 em diante, período que coincide com outras gestões municipais e com a atuação de outro notório suspeito de corrupção, Hussain Aref Saab — porém, o jornal escolhe, estranhamente, não citar as gestões José Serra e Gilberto Kassab”.

No Viomundo



As lições da prefeitura de São Paulo contra a corrupção


Para desmascarar uma quadrilha que atuava há pelo menos uma década da prefeitura de São Paulo foi suficiente uma equipe de meia dúzia de pessoas e a vontade política do prefeito Fernando Haddad.

Haddad trouxe de Brasilia o auditor Mário Spinelli, lotado na CGU (Controladoria Geral da União). Foi firmado um acordo com o governo federal que permitiu trazer cinco servidores da CGU e dois da Receita Federal.

* * *

As medidas tomadas, de tão simples e óbvias, chamam a atenção do fato de jamais terem sido implementadas nas gestões anteriores.

Há uma obrigação legal dos servidores apresentarem sua declaração de bens. Só que elas eram entregues em envelopes, que ficavam fechados devido à dificuldade de conferir os dados.

Criou-se, então, a obrigatoriedade dos servidores entregarem a declaração eletronicamente. Montou-se um banco de dados com as declarações de 160 mil servidores. Foram firmados acordos com outros órgãos para cruzar os dados.

Em seguida, montou-se uma matriz de risco, para identificar as áreas mais expostas a propinas A certeza de impunidade era tanta que muitos dos corruptos não se preocupavam em ocultar patrimônio ou coloca-los em nome de laranjas.

Na gestão do ex-prefeito Gilberto Kassab, o Secovi (Sindicato da Habitação) encaminhou um relatório com denúncias sobre os achaques sofridos pelo setor. Kassab encaminhou o dossiê justamente para o chefe da máfia dos fiscais, Ronilson Bezerra Rodrigues — que, entre outros feitos, foi responsável pelo vazamento do ISS de Antônio Palocci.

Não havia nenhuma forma de cercar um golpe óbvio. A Secretaria das Finanças não tinha sequer o registro eletrônico das notas fiscais das obras, sobre as quais incidiria o ISS.

* * *

A segunda etapa das fiscalização consistiu em buscar os “laranjas”. Para isso, foi importante a análise das redes sociais. Através de um perfil do Facebook, por exemplo, chegou-se a um servidor público que tinha uma pousada no Rio de Janeiro avaliada em R$ 6 milhões.

* * *

Para tornar permanente o combate à corrupção, o prefeito enviou projeto à Câmara dos Vereadores criando a figura do auditor. O projeto empacou na Câmara e só saiu depois de denúncias envolvendo um dos vereadores.

* * *

Outra dificuldades foi o viés político imprimido pelos jornais paulistanos ao tema, permitindo à quadrilha jogadas de contrainformação.

Em muitas reportagens, os escândalos revelados foram apresentados como se fossem da gestão atual — e não fruto das suas investigações.

Também tentou-se incriminar um secretário de confiança do prefeito, Antônio Donato, baseado exclusivamente em declarações dos chefes da quadrilha. Nem se levou em conta o fato de Donato ter participado de todas as etapas da investigação e a denúncia não vir acompanhada de um elemento concreto sequer.

Outra “denúncia” armada pela quadrilha consistiu em expor o próprio Spinelli, acusando-o de receber acima do teto da Prefeitura e informando sobre sua vida pessoal, incluindo o clube que frequenta. Não adiantou Spinelli informar o repórter que, sendo cedido pelo CGU, seu parâmetro salarial era a própria CGU. A divulgação de dados pessoais, além disso, expôs o auditor e a família a eventuais represálias da organização criminosa.

Luís Nassif
No GGN
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Por que o governo não confronta as empresas que sonegam via paraísos fiscais?

Roberto Setúbal do Itaú
Acabo de ler num site sueco em inglês.

A ministra da Economia da Suécia, Magdalena Andersson, deseja novas leis tributárias depois que explodiram denúncias sobre como empresas locais estão usando o paraíso fiscal de Luxemburgo para evitar o pagamento de impostos.

A Ikea é uma das corporações suecas que estão listadas.

“Jantei há poucos dias com ministros da Economia de países da União Europeia e este foi o assunto debatido”, disse ela. “Estamos focados em encontrar medidas que evitem a evasão de impostos.”

A ministra chamou a atenção para o que representa para a Ikea o desgaste de imagem pelo recurso a paraísos fiscais.

Da Suécia me desloco para o Brasil.

Dois bancos brasileiros foram citados no caso de Luxemburgo: o Bradesco e o Itaú Unibanco.

O jornalista Fernando Rodrigues deu na Folha. A investigação sobre Luxemburgo foi feita por uma associação internacional de repórteres da qual Rodrigues faz parte.

A mídia brasileira deu atenção zero ao caso. A Globo tem uma jornalista nesta associação, e simplesmente ignorou o assunto — um dos mais importantes da agenda econômica mundial, simplesmente.

Mas isso não surpreende.

O que de fato chama a atenção é que nenhuma autoridade econômica brasileira tenha falado deste tema até o momento.

Na Inglaterra, o Parlamento convocou presidentes de algumas das empresas que mais usam paraísos fiscais e exigiu explicações.

Starbucks, Apple e Amazon estavam entre as corporações intimadas a dar satisfações aos parlamentares britânicos.

A estratégia é, como se dizem os ingleses, “name and shame” os que fazem espertezas fiscais.

No Brasil, o silêncio governamental apenas contribui para as espertezas fiscais.

O Bradesco apareceu na mídia nestes dias — mas no seio de uma informação segundo a qual seu presidente teria rejeitado um convite para ser ministro da Economia.

Seria o triunfo do absurdo, um ministro da Economia vinculado a esquemas de fuga de impostos por meio de paraísos fiscais.

Listar as empresas que fazem este tipo de coisa é o primeiro e essencial passo para combater esse enorme problema brasileiro e mundial.

Dilma, em sua entrevista de ontem, falou que vai olhar “com lupa” as despesas do governo.

Pois tem que olhar também com lupa as receitas que não estão se materializando por artimanhas fiscais.

A sociedade tem que saber mais sobre aqueles que, já tão cheios de dinheiro, subtraem dos cofres públicos recursos que dariam em escolas, hospitais, portos e saneamento básico, entre tantas outras coisas de que o Brasil precisa muito mais que a rica Suécia — que está esperneando contra a evasão fiscal enquanto paira um intolerável mutismo entre nós.

Paulo Nogueira
No DCM
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Como funciona a lavagem de impostos


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Itaú e Bradesco economizam R$ 200 mi em impostos com operações em Luxemburgo


Uma simples troca de papéis resultou numa economia de R$ 200 milhões nos impostos pagos pelo Bradesco e pelo Itaú-Unibanco, dois dos maiores bancos brasileiros. Essas operações foram concluídas em 2008 e 2009 em Luxemburgo, um pequeno paraíso fiscal europeu.

A prática é conhecida como elisão fiscal — deixar de pagar impostos usando ao máximo todas as brechas possíveis que a lei oferece. Não se trata, em princípio, de um crime. Tampouco é algo novo, mas desta vez tudo está comprovado e detalhado em 1.028 documentos inéditos que expõem essas operações de uma forma nunca antes vista.

Esses arquivos secretos foram obtidos pelo ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos), uma ONG com sede em Washington, capital dos Estados Unidos. O acervo contém informações de 343 empresas de diversos países. Os documentos foram produzidos pela consultoria internacional PwC (PricewaterhouseCoopers), que presta serviços de "assessoria tributária".

A PwC é a mesma empresa que faz a auditoria dos resultados financeiros da Petrobras. Tem assessorado a estatal brasileira em meio ao atual escândalo de corrupção descoberto neste ano pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal.

A Folha teve acesso aos documentos produzidos pela PwC em Luxemburgo por meio de uma parceria com o ICIJ. Durante cerca de seis meses, o jornal e veículos de comunicação de outros 25 países checaram e analisaram extensivamente as informações para publicar nesta quarta-feira (5) reportagens relatando como empresas pagam menos impostos por meio de operações contábeis em Luxemburgo. Trata-se de uma das mais amplas investigações jornalísticas internacionais a respeito desse tema. (Confira os documentos em link ao final desta reportagem).

O processo tem peculiaridades em cada país. No caso do Brasil, os bancos usam suas operações em Luxemburgo para reduzir o valor do lucro declarado em suas subsidiárias nesse paraíso fiscal.

O lucro de bancos brasileiros obtido no exterior é taxado tanto fora, na sede de suas subsidiárias, como dentro do Brasil.

Em Luxemburgo, as instituições financeiras brasileiras recebem generosos descontos contábeis no momento de consolidar seus balanços. Registram assim lucros menores. O procedimento adotado está descrito nos documentos da PwC, mas tem uma linguagem hermética que dificulta a compreensão imediata.

O benefício que os bancos brasileiros têm em Luxemburgo é concedido por meio de um acordo de reconhecimento de "tax goodwill". Uma tradução mais aproximada para o português é "direito creditório sobre uma rentabilidade prevista no futuro", na explicação de Everardo Maciel, que ocupou o posto de secretário da Receita Federal do Brasil de 1995 a 2002.

Dentro desse acordo de "tax goodwill", os bancos são autorizados a lançar em seus balanços em Luxemburgo o que se chama, em inglês, "intangible tax asset". Em português: ativo fiscal intangível.

Nas cartas que a PwC envia ao governo luxemburguês formalizando propostas em nome dos bancos Bradesco, Itaú e Unibanco, há um pedido de reconhecimento de supostos ativos fiscais intangíveis. Os documentos analisados contêm um carimbo e uma assinatura da autoridade luxemburguesa aceitando o pedido. Dessa forma, o lucro da instituição bancária é reduzido. Em consequência, paga-se menos imposto — tanto em Luxemburgo como no Brasil.

Imposto reduzido

A lei brasileira impõe uma cobrança de 40% sobre o lucro bancário, assim divididos: 25% de IRPJ (Imposto de Renda da Pessoa Jurídica) e 15% de CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido).

Para calcular o quanto um banco deixa de pagar de impostos quando tem uma operação em Luxemburgo, é mais fácil observar uma situação hipotética.

Por exemplo, digamos que o lucro de um banco brasileiro em Luxemburgo tenha sido de 100 milhões de euros. Se o governo luxemburguês aceitar reduzir esse valor para 75 milhões de euros (por conta de um "ativo fiscal intangível"), a instituição financeira deixará de recolher impostos sobre a diferença, que foi de 25 milhões de euros.

Quando esse banco do exemplo acima declarar seus lucros no Brasil, deixará de pagar o equivalente a 10 milhões de euros (40% sobre 25 milhões de euros). Tudo com base no acordo tributário secreto entre a instituição financeira e o governo de Luxemburgo.

A Folha consultou técnicos da Receita Federal do Brasil que analisaram detalhadamente os contratos firmados separadamente por Bradesco, Itaú e Unibanco com o governo de Luxemburgo. A conclusão de todos, em entrevistas reservadas, é que foram operações contábeis para reduzir o pagamento de impostos no Brasil.

O subsecretário de Fiscalização da Receita Federal, Iágaro Martins, também analisou os documentos da PwC a pedido da Folha. Eis sua avaliação:

"A Receita Federal não se manifesta sobre casos concretos. Esclarece, todavia, que tem identificado e autuado operações praticadas por empresas situadas no Brasil com empresas vinculadas ou pertencentes ao mesmo grupo no exterior quando essas operações são estruturadas para gerarem, de forma artificial, perdas no país e ganhos no exterior que não serão tributados, seja por ocorrerem em paraísos fiscais ou por estarem acobertadas por acordos de não tributação. Trata-se de mais um planejamento tributário internacional abusivo, com o único propósito de gerar redução dos impostos a serem pagos no Brasil".


Contribuições ocultas

O aspecto mais obscuro contido nas cartas da PwC ao governo de Luxemburgo é a descrição de como é calculado o "ativo fiscal intangível". Não há propriamente uma fórmula. Os bancos simplesmente sugerem um valor que pretendem considerar, o que é aceito pelo governo luxemburguês.

Os documentos preparados pela PwC para Bradesco, Itaú e Unibanco são quase idênticos: informam que o benefício deve ser concedido por conta de uma "contribuição oculta" que as instituições financeiras brasileiras fazem para suas subsidiárias em Luxemburgo.

O termo usado em inglês é "hidden contribution". Os bancos preferem traduzir como "contribuição não mensurável" (e não "oculta"). Mas em que consiste essa "contribuição"? Bradesco, Itaú e Unibanco informam ao governo de Luxemburgo que trabalham no Brasil (e por essa razão teriam custos) para alavancar seus negócios no paraíso fiscal.

Nos documentos preparados pela PwC, esses gastos "não mensuráveis" são descritos de maneira genérica como propaganda dos serviços oferecidos, captação de clientes, desenvolvimento de produtos financeiros, orientação para empresas e pessoas físicas do Brasil que desejam ter contas em Luxemburgo, compartilhamento do trabalho de pesquisa feito pela matriz, oferecendo conhecimento e know-how para áreas de gerenciamento de risco e "compliance", entre outras.

Bradesco, Itaú e Unibanco afirmam que 95% dos clientes e negócios que mantinham em Luxemburgo à época dessas operações derivavam dos esforços de suas matrizes no Brasil.

Em resumo, os bancos prestam um serviço para si próprios no Brasil. Declaram então ao governo de Luxemburgo que esse "trabalho" deve ser lançado no balanço da subsidiária no paraíso fiscal — o tal "ativo fiscal intangível". Assim, reduzem o lucro e pagam menos impostos.

Não existe evidência de irregularidade nessas operações. Do seu lado, os bancos negam ter feito os contratos com Luxemburgo apenas para reduzir seus impostos devidos no Brasil. A partir da divulgação dos documentos revelados nesta reportagem, caberá à Receita Federal do Brasil decidir se abre algum procedimento formal para analisar essas operações.

O governo brasileiro não tem uma estimativa de quanto os bancos e outras empresas deixam de pagar de impostos com base em operações em paraísos fiscais como Luxemburgo. A Receita Federal do Brasil tem um departamento que cuida da fiscalização de grandes contribuintes. Em 2013, a equipe dessa área fez autuações que resultaram num total de R$ 105 bilhões em autuações que incluem multas e impostos supostamente não pagos -mas esse valor raramente é pago, pois os bancos e as empresas recorrem ao Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), dando início a processos demorados e que às vezes resultam em absolvição.

Além disso, já se tornou uma praxe o governo federal reeditar regularmente programas de perdão fiscal.

Impostos não pagos

Os documentos analisados pela Folha indicam que o Bradesco conseguiu o direito de abater o equivalente a até R$ 25.258.766,40 de impostos em 2009 no Brasil — não se sabe se esse benefício foi usado de uma vez ou se parte foi "carregada" para anos seguintes.

O benefício foi desfrutado pelo Bradesco no Brasil porque o banco recebeu autorização do governo de Luxemburgo para abater 25,2 milhões de euros de seu lucro no balanço de 2008 naquele país, a título de "ativo fiscal intangível".

Para calcular quanto o Bradesco ganhou com essa operação, basta aplicar o percentual de 40% (a alíquota de imposto cobrada no Brasil) sobre os 25,2 milhões de euros. Chega-se a 10,080 milhões de euros. Como o imposto é pago sempre no ano seguinte ao lucro apurado, converte-se o benefício usando a taxa de câmbio de 31 de dezembro de 2009, quando 1 euro era cotado a R$ 2,50583. Chega-se então aos R$ 25,258 milhões de impostos que o Bradesco pode não ter recolhido no Brasil.

No caso do Itaú, usando-se a mesma fórmula, encontra-se uma redução de seus impostos no Brasil equivalente a até R$ 111.977.364,00 no ano de 2008. O Unibanco teve um abatimento de R$ 62.695.866,60 em 2009. À época, Itaú e Unibanco eram instituições separadas -fundiram-se alguns anos depois.

Os valores dos três bancos totalizam R$ 200 milhões de impostos que deixaram de ser recolhidos ao Tesouro Nacional com base na operação de planejamento tributário acertada com as autoridades luxemburguesas.

Os documentos da PwC aos quais a Folha teve acesso referem-se apenas aos anos de 2008 e 2009 no caso de empresas brasileiras. Não há como saber o que se passou de lá para cá. Tampouco vazaram dados de outras consultorias. Esses contratos são protegidos pelas leis de sigilo em Luxemburgo.

As autoridades brasileiras não têm acesso aos dados detalhados sobre as operações de empresas em Luxemburgo. Trata-se de situação idêntica à verificada em vários outros paraísos fiscais nos quais as empresas do Brasil operam livremente para reduzir o que pagam de impostos aqui.


Impostos pagos

Não há dados disponíveis de todas as operações no exterior de bancos brasileiros. Por essa razão, é impossível saber com precisão o total que cada instituição economizou de impostos com os contratos em paraísos fiscais, incluindo Luxemburgo.

O Bradesco, que fez sua operação com o governo luxemburguês em 2008, pagou à Receita Federal naquele ano R$ 1,793 bilhão de IR e CSLL, em valores da época. O direito de desconto obtido em Luxemburgo (R$ 25 milhões) equivale a apenas 1,41% do que desembolsou com tributos.

Já no caso do Itaú-Unibano, o valor total de impostos pagos em 2008 foi de foi de R$ 1,249 bilhão. Nesse ano, o abatimento máximo obtido em Luxemburgo representou uma economia de 8,97% do total pago. Em 2009, o percentual foi de 3,75%.

Leia, no link abaixo, a íntegra dos documentos vazados em Luxemburgo.


Confira todas as reportagens

Fernando Rodrigues
No fAlha
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Miami é apontada por revista como a cidade mais miserável dos EUA

Ranking da Forbes se baseia em fatores como desemprego e criminalidade. Desigualdade de renda disparou nos últimos anos, disse editor da revista

Apesar do sol, das praias e das mansões, Miami conquistou o nada confortável título de cidade mais miserável dos Estados Unidos, segundo uma nova pesquisa.

Playground dos ricos e famosos, a cidade da Flórida passa por uma paralisante crise habitacional, tem uma das mais elevadas taxas de criminalidade do país, e seus habitantes passam horas demais no transporte todos os dias — fatores que contribuíram para a liderança de Miami no ranking da “Forbes.com”.

“Miami tem sol e tempo bonito, mas outras coisas tornam a cidade intratável. Você tem essa sociedade de dois escalões: a reluzente South Beach atrai celebridades, mas a desigualdade de renda disparou nos últimos anos”, explicou Kurt Badenhausen, editor-sênior da Forbes.

Os rankings se baseiam em fatores como desemprego, criminalidade, despejos, renda e impostos sobre os imóveis, e também leva em consideração o clima, o tempo gasto nos transportes e a corrupção política.

Há décadas ressentindo-se do declínio da indústria automobilística dos EUA, a turbulenta dupla Detroit e Flint, em Michigan, ficou em segundo e terceiro lugares, respectivamente.

West Palm Beach (Flórida) e Sacramento (Califórnia) completam a lista das cinco piores cidades dos EUA.

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Gilmar Mendes, o juiz da Lei Seca e Deus são a mesma pessoa?

João Carlos de Souza Correa, aka Deus
O juiz que mandou prender a fiscal da Lei Seca porque ela ousou lembrar que ele não era Deus não é uma exceção, mas uma regra no Brasil. Nos últimos dez dias tivemos provas incontestes da onipotência e onisciência da categoria.

João Carlos de Souza Correa já havia se envolvido em outras encrencas e é sintomático que, até hoje, nada lhe tenha acontecido. Em dezembro de 2007, por exemplo, quis entrar no free shop de um navio de cruzeiro.

Diante da negativa do comandante, obrigado a declarar que as lojas atendiam apenas os passageiros, ele chamou a Polícia Federal. Naquela ocasião o estratagema deu errado — mas não é difícil supor quantas vezes Correa deve ter passado em branco com uma carteirada desse tipo.

Correa foi investigado pelo Conselho Nacional de Justiça por causa de decisões em processos sobre disputas de terra em Búzios. A mais grave das denúncias fala num favorecimento de um advogado numa disputa de terras. Sete anos atrás, ele ordenara a prisão de uma jornalista que escreveu uma carta aberta sobre seus desmandos no litoral fluminense.

A única palavra de solidariedade a Correa partiu da ex-mulher, Alice Tamborindeguy, advogada e ex-deputada estadual pelo PSDB, irmã de Narcisa Tamborindeguy, a coisa mais próxima da caricatura de uma socialite cabeça oca que pode existir.

O período eleitoral serve para que juízes aprovem benefícios em causa própria sem ser notados. Um desses casos foi o auxílio moradia de 1 bilhão de reais. São 4,4 mil por mês para cada um deles, independentemente, claro, de o sujeito já ter casa.

Numa participação no Jornal da Cultura, o desembargador José Roberto Nalini, presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, deu uma resposta cândida sobre a premência da medida. “Hoje, aparentemente o juiz brasileiro ganha bem, mas ele tem 27% de desconto de Imposto de Renda, ele tem que pagar plano de saúde”, disse, elencando dramas comuns a virtualmente todo brasileiro.

“Ele tem que comprar terno e não dá para ir toda hora a Miami comprar terno. Cada dia da semana ele tem que usar um terno diferente, ele tem que usar uma camisa razoável, um sapato decente, ele tem que ter um carro.” O aumento é necessário para que o profissional “fique um pouquinho mais animado, não tenha tanta depressão, tanta síndrome de pânico, tanto AVC”.

Curiosamente, essa montoeira de absurdos foi dita diante do âncora e do filósofo Luiz Felipe Pondé, que não mexeram uma sobrancelha. Pondé, especialmente, sorria como se lhe declamassem um poema. Se Nalini houvesse falado em “bolivarianismo”, talvez Pondé se ajeitasse naquela cadeira.

Coube a Gilmar Mendes mencionar numa entrevista à Folha o risco do STF se transformar numa corte bolivariana. Gilmar tem medo de que a instituição passe a “cumprir e chancelar” vontades do Executivo. “Isto tem de ser avisado e denunciado”, afirmou.

Gilmar é o oposto do que se espera de um juiz — ou exatamente o que se espera, dependendo do grau de realismo do espectador. Fala sem pensar, não mede consequências, ofende quem quer etc etc.

Faz isso porque sabe que não acontece nada. O doutor Correa está correto: eles são deuses. O presidente do TJ-SP resumiu a questão naquela conversa na televisão. “No momento em que a população perceber o quanto o juiz trabalha, eles vão ver que não é a remuneração que vai fazer falta: se a justiça funcionar, vale a pena pagar bem o juiz”.

Você não poderá pegar seu dinheiro de volta porque não existe onde pegar seu dinheiro de volta.

Kiko Nogueira
No DCM
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Catalães votam a favor da independência em consulta simbólica

Numa consulta simbólica, mais de 1,6 milhão de pessoas votaram, neste domingo (9), a favor da independência da Catalunha da Espanha.

Resultados preliminares, baseados nos votos de 88% dos colégios eleitorais, mostravam que 81% dos eleitores apoiavam a criação de um Estado independente para a região.

Aproximadamente 2,25 milhões de pessoas participaram da consulta, de 5,4 milhões que estavam aptas a votar. Houve boicote por parte dos eleitores contrários à independência da Catalunha, já que o pleito não foi considerado legal pelas autoridades espanholas.

Após votar, o presidente da Catalunha, Artur Mas, assumiu total responsabilidade pela consulta e pediu para que um plebiscito válido fosse feito em breve "para decidirmos o futuro de nosso país dentro da lei e de forma legal e correta".

O primeiro-ministro Espanhol, Mariano Rajoy, afirmou que a votação "não teria efeito algum".

A Catalunha é uma região espanhola com 7,5 milhões de habitantes e apresenta um histórico de movimentos separatistas.

Votação simbólica

Entidades e partidos independentistas, sob o amparo do Executivo autônomo, foram os responsáveis por organizar a consulta.

As votações simbólicas, chamadas de "processos participativos", haviam sido suspensas pelo Tribunal Constitucional a pedido do governo da Espanha.

A execução da consulta contou com a ajuda 40.930 voluntários — incluídos funcionários e docentes — que se encarregaram de organizar a votação, presidir as mesas e ajudar na apuração, que foi coordenada pelo Executivo catalão (Generalitat).

Segundo a Generalitat, o processo contou com 1.317 colégios eleitorais e 6.695 mesas, nas quais se instalaram milhares de urnas.

O governo catalão também deu a opção de impressão da cédula por meio de uma página na internet.

A consulta ocorreu sem transtornos. Algumas filas puderam ser registradas.

No final de 2012, nas eleições regionais da Catalunha, os partidos separatistas obtiveram 1,8 milhão de votos de um total de 3,7 milhões.

Comparações com a votação atual devem ser feitas com cautela, dada sua natureza informal.

A votação simbólica na Catalunha ocorre pouco tempo após a votação realizada em setembro na Escócia, na qual se rejeitou a separação do Reino Unido. Esse referendo, no entanto, foi autorizado pelo governo central, em Londres.
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Dilma e seus dilemas

Manchete de alguns dos principais veículos de comunicação do mundo, o esquema de sabotagem tributária praticado por bancos e multinacionais dá ideia dos desafios colocados para governos como o de Dilma Rousseff. A reportagem é produto de uma ação colaborativa de jornalistas de diversos países.

No Brasil, Fernando Rodrigues, do UOL, orientou o trabalho investigativo e a publicação da papelada. O resultado mostra números estarrecedores, com a licença do adjetivo tão caro à presidente (o conjunto do material está disponível aqui).

Para falar apenas daqui, em 2008 e 2009 os bancos Itaú e Bradesco "economizaram" R$ 200 milhões em impostos graças a um esquema montado num paraíso fiscal europeu "Luxemburgo". Formalmente, a negociata atende pela rubrica de elisão fiscal, eufemismo usado por bilionários para explorar brechas da lei com o objetivo de fugir de tributos. A sutileza obviamente não está ao alcance da maioria trabalhadora e assalariada: esta é mordida pelo Leão diretamente no holerite.

A essência da jogatina é declarar lucros muito menores do que os obtidos. Uma imoralidade completa. Para "lavar" a mentira, os grupos entram em acordo com empresas de auditoria para desbravar os caminhos da "elisão fiscal".

No momento seguinte, as mesmas firmas de controle endossam os balanços dos clientes. A promiscuidade lembra a tabelinha entre agências de risco, auditorias e a banca internacional que desembocou na crise de 2008. Vários nomes, aliás, aparecem nos dois momentos. Uma diferença: enquanto em países como os Estados Unidos e Grã-Bretanha a banca tem sido obrigada a devolver ao menos parte dos prejuízos, por aqui nada acontece.

Os sonegadores, claro, juram respeitar a Justiça. É o cinismo vendido como verdade. Citam em sua defesa uma lei escrita a quatro mãos com o paraíso fiscal justamente para atender a interesses do tubaronato multinacional. "Trata-se de mais um planejamento tributário internacional abusivo, com o único propósito de gerar redução dos impostos", resumiu o subsecretário de Fiscalização da Receita, Iágaro Martins (Folha de S.Paulo, 06/11).

Além de mostrar o tamanho do problema, semelhante avaliação de uma autoridade oficial torna ainda mais incômodo o silêncio dos altos escalões do governo Dilma diante destes descalabros. Pior.

Em vez disto, a presidente reeleita e seus auxiliares vêm entoando músicas para agradar o tal mercado. Fala-se em cortar gastos, em ampliar a fiscalização sobre benefícios da Previdência e reduzir a ação de bancos públicos.

Nada se ouve nos altos escalões a respeito de demandas sociais e, por exemplo, da cobrança de multas bilionárias como a devida pelo Itaú por conta da fusão com o Unibanco. Já os bancos continuam batendo recordes de lucratividade enquanto a economia do país patina.

O Planalto pode tentar fazer os malabarismos habituais para adiar medidas a favor do povo que o elegeu. Invocar a governabilidade, a necessidade de acordos com a base aliada etc. são platitudes habituais. Tampouco imagina-se que a montagem de um governo seja simples como a troca de diretoria de clube de futebol.

Mas os sinais são importantes, sobretudo na política. E é impossível manter compromissos com a maioria mais pobre sem que os ricos aceitem abrir mão de ganhos imorais. A conta não fecha. Na sua estreia, o maior risco da nova administração não é o de desagradar a oposição. É o de perder o pé da situação. 

Ricardo Melo
No fAlha
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Do Coração Valente aos Corações Valentes


Começou a tentativa de empurrar na Nação o “terceiro turno” das eleições, com a oposição oficial e oficiosa dividida sobre como enfrentar a presidenta Dilma Rousseff.

Eles sabem que ela possui enorme apoio e prestígio entre não apenas a militância partidária petista que lutou nas ruas por sua reeleição, mas de uma militância social, ampla, auto-organizada, espontânea, quase voluntarista, que foi decisiva para a vitória (junto com a classe D, E e a C, resgatada pela ofensiva do discurso presidencial “armado” com o marketing de João Santana). Esta militância, agora, aguarda a manifestação da presidenta que, por sua vez, aumenta o acalanto sendo fotografada com a biografia de Getúlio em mãos.

O movimento da direita é um mesclado de muitas escalas. De mágoas eleitorais, à orquestração de um fascismo social não só nostálgico com a ditadura, mas que começa a se imbricar com ONGs-meio da ação da extrema-direita estadunidense, passando por antecipações das pressões por negociações ministeriais, que converge para a — ainda — ausência de uma tática com início, meio e “fim”.

Por óbvio, pode-se supor que todos estes setores veem com bons olhos a tese do Impeatchment, discordam de como chegar lá e se deve haver planejamento-comando-controle para este propósito. Discordam, especialmente, por que, ao fim e ao cabo, o desejo da força predominante da oposição — financeira,  política e ideologicamente falando — quer mesmo é que a presidenta se vergue ao programa derrotado: o ajustaço, o tarifaço, o sinalizaço para o mercado.

Sintomas da direitice:
  • Luiz Felipe Pondé mistura as bolas de legalidade e legitimidade: “o fato da eleição para presidente ter sido decidida por alguns poucos votos a favor dos bolivarianos não implica que o lado derrotado veja a vencedora como sua representante legítima, ainda que legal”;
  • Eduardo Cunha articula líderes do PTB, PR, PSC e Solidariedade para garantir vitória numérica na Casa sobre o PT e alienar a maior bancada da Casa da tradição de indicar o presidente;
  • Gilmar Mendes disse temer que STF se “venezuelize” e endossa o Golpe da Bengala;
  • PSDB formalmente pede auditoria e recontagem das eleições, baseado em disse-me-disse de radicais de extrema-direita nas redes sociais;
  • O funcionário do século da Fundação Ford e da Biblioteca do Congresso dos EUA, ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, rechaçou a assertiva da presidenta de fazer um governo de diálogo, confundindo o que foi dito no discurso da vitória com clamor por conciliação;
  • A colunista Eliane Cantanhêde sonha que “a presidente Dilma Rousseff pode ser forçada pelas circunstâncias a provocar um arrocho sem precedentes, no que seria um estelionato eleitoral”;
  • Diz que 2.500 pessoas foram à Paulista pedir um Golpe Militar.
  • A sede do PSDB de Brasília foi palco de reunião em 04/11, pelo impeachment da presidenta Dilma.
Caminhos tortos e tontos, mas em todas as frentes: ideológica, midiática, parlamentar, econômica, política.

Na campanha, a presidenta encarnou o que era um slogan de partida: o Coração Valente.

Disse não, com clareza pedagógica e chamando as coisas pelo nome, à proposta de independência formal do Banco Central, à redução do pré-sal na cadeia de desenvolvimento, ao “não sei o que vai sobrar” dos bancos públicos, à pressão por “sinalizar para o mercado” já, anunciando ministros orgânicos a este;, e explicou que, sim, a The Economist é ligada ao sistema financeiro, dentre outros enfrentamentos memoráveis, como o compromisso de criminalizar a homofobia ou de não se render ao discurso fácil da redução da maioridade penal e, com todas as letras, em debate ao vivo, oferecer a alternativa de punir os criminosos que usam menores para atenuar penas.

É contra esta Dilma, efetivamente, Coração Valente, que estas forças se enfrentam.

É hora, portanto, de “bancar a presidenta”, convertendo o Coração Valente em Corações Valentes, dentro da antiga consigna “voltarei e serei milhões”, a partir do que foi a militância na campanha.

Corações Valentes que se coordenem para ir aos territórios conversar com as comunidades, aos pontos de ônibus e feiras para explicar questões que chocam governo e oposição postas nas ordens dos dias, que se manifestem por temas centrais em votação no Congresso, que “comemorem” datas simbólicas, como o dia em que o Brasil se libertou do FMI ou quando foi excluído do Mapa da Fome, da ONU.  Que sejam os “moleques” que quando a “menina” for balançada venham lhe dar a mão.

Corações Valentes não contra os nostálgicos da ditadura, os “coxinhas”, mas, sobretudo, os Corações Valentes que vão ajudar a ampliar a maioria social que se expressou por três pontos percentuais nestas eleições, aprofundando o resgate de gente que está do “lado de lá”, mas poderia estar do mesmo lado que “a gente”: os percentuais das camadas C, D e E que não se libertaram do terrorismo sobre inflação e crescimento, das mentiras de “comunização” do Brasil, de quem ainda acha que cresceu por única e exclusiva virtude e empenho pessoal, de quem vê o PT como a cidadela da corrupção, entre tantas baboseiras. E por que não, resgatando setores das camadas médias tradicionais que se reinspirem em apoiar a construção do Brasil desenvolvido e ainda mais justo.

Há muito sonho, esperança, agendas, articulações, planos na mesa. Que eles se coordenem a favor do Brasil e do programa vitorioso nas urnas, sem ilusões burocráticas, com otimismo da razão e otimismo da ação.

Leopoldo Viera
No Blog do Zé
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Ainda se fala do baixo nível da campanha

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=6651

Algumas mentiras se tornam rapidamente verdades, especialmente quando se apresentam como verdades contra supostas mentiras destinadas a manchar reputações. Durante e depois da corrida eleitoral de 2014, marcada pelo duro enfrentamento, tornou-se comum dizer que foi uma campanha feitas de mentiras e de golpes baixos. Sempre há mentiras e golpes baixos em campanhas. Mas quais foram as mentiras que estão incomodando tanto os adversários batidos do PT? Fernando Henrique Cardoso, entre tantos outros luminares da política, insurgiu-se, em artigo publicado na mídia do centro do país, contra a prática de “desconstrução” dos oponentes que teria atingido Marina Silva e Aécio Neves. O mínimo que se pode dizer é que Aécio devolveu na mesma moeda. Foi sempre pau a pau, taca a taco, olho no olho.

Não haverá algo escondido nessa queixa contra o suposto baixo nível? Terá havido uma quebra de uma espécie de confortável acordo de cavalheiros coorporativo entre os políticos: eu não falo dos teus podres e tu não falas dos meus? Por que não falar desses podres? A sociedade precisa saber como se comportam na condição de cidadãos os candidatos ao governo de um Estado ou à presidência da República. Parece mais interessante para os políticos a tal da campanha de propostas, que é um novo nome inventado pelo marqueteiros para a velha promessa. Fica todo mundo bem. Dá para fazer promessas, quer dizer, propostas sem levantar a voz, sem atacar e sem mexer no passado comprometedor de alguém.

Um político não pode se eleger fazendo campanha contra o tabagismo e fumar escondido no banheiro.

Se for descoberto, esse podre pessoal deve ser exposto aos eleitores.

Desconfio dessa súbita indignação com a “desconstrução” do oponente. Uma campanha deve existir para isso mesmo: mostrar as contradições, as fragilidades e os furos dos candidatos. É assim em qualquer lugar do mundo. Aspecto pessoal é outra coisa. O eleitor não precisa ficar sabendo se o candidato gosta de transar em cima da mesa da cozinha ou se pagou um aborto para a namorada, salvo se pregar contra o aborto. Mas, se defende pesadas multas de trânsito e dirige falando ao celular, como é corriqueiro entre os que mais criticam a impunidade no país, isso deve ser mostrado no horário eleitoral.

Eu sou a favor de um certo “baixo nível” em campanha política. Quero saber todos os podres de todos os candidatos. Falo desses podres que podem informar sobre o caráter do indivíduo ou revelar contradições e hipocrisias. Nível “elevado” demais pode ser apenas sinal de que foi feito um pacto de não agressão. Parte das reclamações que andam acontecendo entram na conta do chamado choro de perdedor. De repente, aqueles que zombavam da desconfiança de Leonel Brizola em relação às urnas eletrônicas, visto como um dinossauro gaudério, passaram a duvidar da lisura da contagem dos votos.

Como dizem os debochados cariocas antes e depois do primeiro chopinho:

– Fala sério!

Tudo isso para dizer apenas que baixo nível foi o futebol apresentado pelo Inter contra o Grêmio.

Cresce o movimento pelo impeachment do Abel.
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Sérgio Porto # 40


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Essa é do Barão... 98


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