6 de nov de 2014

A miséria da imprensa e o menino diferenciado

Os jornais de quinta-feira (6/11) destacam os números do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) segundo os quais a miséria deixou de cair no Brasil entre 2012 e 2013.

O assunto está nas primeiras páginas, mas é manchete apenas no Globo. Diz o seguinte: “Número de brasileiros na extrema pobreza aumenta”. Na linha fina, logo abaixo, o tom é mais ameno: “Pela primeira vez desde 2004, miséria parou de cair em 2013”. O jornal não explica a diferença entre “aumenta” e “parou de cair”.

Esse é um exemplo simples do “jornalismo impressionista” ao qual nos referimos neste posto de observação na quarta-feira (5, ver aqui): olhando-se apenas a manchete, chega-se à conclusão apressada de que a miséria aumentou no Brasil; lendo-se a linha fina, o leitor começa a entender que não é bem assim; ao enxergar o quadro inteiro, compreende-se que há certa manipulação das informações. Mas em todos os gráficos aparece um dado relevante, que a imprensa vinha omitindo na última década: o processo consistente de redução da pobreza no período de aplicação do modelo econômico que prioriza a mobilidade social.

Agora, para entender como se cria o efeito “impressionista” nos olhos do leitor, basta observar, como faz uma especialista entrevistada pelo Estado de S.Paulo, que, ao produzir a notícia, a imprensa despreza a margem de erro estatístico, dado relevante em outras pesquisas, como as de intenção de voto.

Os jornais escolhem o único elemento negativo do levantamento e fazem dele o centro do noticiário, calculando como única referência de pobreza a renda individual em relação ao preço de uma cesta básica de alimentos — o fato é que a miséria real vem sendo combatida com programas que não são considerados pelas reportagens.

Então, vejamos outro aspecto das escolhas editoriais: o Estado monta seu gráfico com base no período de 2003 a 2013; o Globo escolhe o período de 2004 a 2013; e a Folha estende a análise desde o ano de 1992 até 2013.

O que aparece nos gráficos do Globo e do Estado é uma queda consistente da pobreza extrema na última década, comprovada em pelo menos oito seminários internacionais sobre resultados econômicos de políticas sociais realizados em São Paulo nos últimos anos – a mídia tradicional do Brasil nunca cobriu esses eventos.

O mais interessante, porém, é o que mostra o gráfico de duas décadas publicado pela Folha: ali se comprova que, nos dois governos do PSDB, a miséria subiu consistentemente, com exceção do ano de 1998. No primeiro ano do governo Lula da Silva, 2003, havia 26,24 milhões de brasileiros nessa condição, ou seja, 14,5% da população vivia na extrema pobreza; em 2013, esse total havia caído para 10,45 milhões, ou seja, 5,2% da população. Esse é o dado real que insiste em se mostrar sob as manchetes negativas dos jornais.

O menino-passarinho

Mas nem tudo é miséria no noticiário: a Folha de S.Paulo acompanha, desde o início da semana, a vida de um menino de 15 anos que costuma fugir de sua casa no Espírito Santo para viver numa rua do bairro de Higienópolis, na capital paulista. O adolescente sofre de hiperatividade e déficit de atenção, e viajou sem seus medicamentos controlados.

A história, relatada pelo repórter Emilio Sant’Anna, mostra um aspecto interessante do bairro de alta classe média cujos moradores se envolveram em um ruidoso caso de preconceito em 2011. Ninguém mais “diferenciado” do que o menino capixaba: nas duas vezes em que se instalou anteriormente na região, ele construiu sua casa numa árvore, onde foi descoberto pela repórter Vivian Codogno, do Estado de S.Paulo, em agosto (ver aqui). Na ocasião, foi chamado de “menino-passarinho”, e alguns moradores entrevistados diziam ter medo dele.

Na atualização feita pela Folha (ver aqui), fica-se sabendo que o adolescente vem sendo protegido por famílias da região, que ganhou uma barraca e se mudou para a calçada em frente ao shopping Higienópolis. Mas na edição de quinta-feira (6), o jornal noticia que ele sofreu um atentado: alguém encharcou sua barraca com “creolina” e ele teve que ser socorrido por causa da sufocação. Desde então, vizinhos passaram a se revezar em vigília para protegê-lo.

Como se pode constatar, existe a pobreza das estatísticas e a pobreza real, assim como coexistem no mesmo lugar a nobreza da solidariedade e a miséria do preconceito.

Luciano Martins Costa
No OI
Leia Mais ►

Última Hora: de como Vargas enfrentou o monopólio dos meios

Sufocado pela mídia de todas as matizes políticas, Vargas reagiu articulando um jornal para o "povão" que o apoiava.

Última Hora não queria ser diferente dos principais jornais de sua época. Queria, sim, ser melhor do que eles naquilo onde os outros podiam se pretender bons. Não brigava com o padrão, mas, de certo modo, o aprimorava ou modernizava – como na revolução gráfica, isto é, formal, que realizou. Era diferente, porém, e nisto se distinguia, na orientação política subjacente de seu noticiário “nobre”, digamos assim, e, claro, na explícita posição editorial.

Sugerindo um exemplo que possa ser claro ao leitor atual, se, num determinado dia, a manchete principal de O Globo, Folha de S. Paulo e ainda capa de Veja, fosse a última suposta revelação de Paulo Roberto Costa; a da Última Hora seria um novo “furo”, isto é, noticia inédita (não comentário requentado sem nenhuma informação nova) sobre o “trensalão” tucano paulista. O leitor certamente não precisaria comprar O Globo ou A Folha se quisesse se informar sobre o futebol, a fofoca da atriz da novela (na época, a cantora do rádio), os acontecimentos internacionais, ou a eterna briga de polícia contra ladrão. Mas precisaria optar, na banca de jornal, se desejaria saber mais sobre o “mensalão” ou o “trensalão”. Aqui, a popularidade de Vargas, sem ignorar a qualidade editorial e jornalística do noticiário, decidiu a favor do jornal de Samuel Wainer.

E ele não demoraria a atingir a maior circulação da cidade do Rio de Janeiro, então capital da República e “tambor político” do país, como se usava dizer. Dali, em muito poucos anos, a Última Hora iria criar uma rede de franquias nacionais, com edições locais em várias outras capitais, a exemplo de São Paulo, Porto Alegre, Recife etc.

Samuel Wainer, jornalista que realmente era, entendia intuitivamente aquilo que sabe qualquer teórico sério de comunicação social: o público compra o que lhe interessa, não o que alguém pode pensar que interessa ao público a partir de suas próprias convicções, compromissos político-ideológicos ou mesmo preconceitos. Uma coisa é escrever crônicas políticas para um gueto de já convertidos; outra, fornecer informação para milhares ou milhões de pessoas cujas vidas cotidianas dão pouco espaço à política militante; pessoas mais interessadas, quando abrem uma revista ou ligam a televisão, em ocupar seu tempo livre com entretenimento que amenize as durezas do dia a dia ou, no máximo, com notícias que tenham forte relação com o seu cotidiano. Notícias sobre polícia, por exemplo, ou sobre saúde.

Wainer obedeceu a todos os cânones da assim chamada indústria cultural. Por isto Última Hora fez um enorme sucesso e forneceu a Vargas uma forte sustentação contra a oposição mediática. Só não pôde defendê-lo de seus próprios amigos aloprados, nas enxovias do Catete… Mesmo assim, seguiria cumprindo, nos governos JK e Jango, papel fundamental numa disputa política que, democraticamente cada vez mais favorável ao povo trabalhador, acabaria resolvida, como sabemos, por meio de um golpe civil-militar fascistóide.

Paradoxalmente, Wainer jamais logrou viabilizar economicamente o jornal. Ele acreditava que, com alta circulação, conseguiria naturalmente atrair as verbas do mercado publicitário. Mas anunciantes e suas agências não simpatizam com imprensa que não sirva também ao padrão político, que não obedeça ao que acadêmicos estadunidenses denominam agenda setting: o agendamento noticioso, a definição do que e como o público deve ser informado. Wainer chegou-se a imaginar um futuro tycoon do jornalismo, mas sua empresa nunca conseguiu conquistar real independência financeira.

Àquela época, a imprensa escrita, em especial a do Rio de Janeiro, era a mais poderosa e influente do País. Hoje, sabemos, apesar da força ainda ostentada por Veja ou Folha de S. Paulo, a televisão, na qual domina a Rede Globo, é o meio mais poderoso, tanto na oferta de entretenimento, quando no agendamento informativo. A Última Hora de hoje precisaria ser televisiva ou, a esta altura, talvez, um poderoso portal noticioso de internet, assim como Terra ou Yahoo!. Os jovens, sobretudo, se informam pelo smartphone. Mas a receita não seria diferente: muito dinheiro, associando capitais privados e públicos, que atraísse profissionais do entretenimento e espetáculo capazes de chamar audiência para, numa programação ao gosto popular, embrulhar um jornalismo e orientação editorial que defendesse o projeto petista e enfrentasse o golpismo mediático.

Talvez este fosse até um caminho mais eficiente e sustentável do que insistir nesses recorrentes descaminhos obscuros pelos quais se busca saciar uma insaciável “base aliada”. Já é mais do que hora de o governo Dilma, ora se reiniciando, seguindo o exemplo de Getulio Vargas, encarar com absoluto profissionalismo a frente de guerra da comunicação.

Marcos Dantas, professor titular da Escola de Comunicação da UFRJ
No Carta Maior
Leia Mais ►

O que se esconde por trás da radicalização à direita


As manifestações ocorridas no sábado passado e já marcadas para acontecer de novo no dia 15 de novembro, pedindo intervenção militar e impeachment de Dilma, fazem parte de uma narrativa maior. Do enredo desta novela constam ainda o pedido de recontagem de votos do PSDB, a transformação pelo discurso midiático do PT num partido de bandidos, a construção de uma Dilma e de um Lula que não respeitam a democracia, a tentativa de aprovar a PEC da Bengala que permitiria esticar o mandato dos ministros do STF, a fala de Gilmar Mendes sustentando que há uma bolivarianização do Supremo e a criação de uma frente para eleger um presidente do Congresso anti-Dilma. Tudo isso embalado numa recepção a Aécio no Congresso regada a manifestantes cantando o hino nacional e num discurso onde o candidato derrotado, certamente não de forma inocente, falou em “exército de oposição”. Essa novela tem um objetivo claro: criar um clima no país que justifique um golpe institucional se houver condições políticas.

Os golpes na América Latina nos últimos tempos têm tido uma característica comum. As Forças Armadas podem até participar deles, mas não assumem o poder de forma direta. Elas garantem que pelas vias congressuais ou jurídicas se processe a substituição do governante por outro que tenha relação com o estabilisment e, em geral, com os interesses americanos. Foi assim que tentaram apear Chávez do poder em 2001. E foi assim que Fernando Lugo, no Paraguai, e Manuel Zelaya, em Honduras, foram derrotados.

Há uma narrativa sendo construída que passa a ter essa saída como plano A depois da derrota de Aécio nas urnas. E ela vem sendo construída a partir de pontes  lançadas pelos setores midiáticos nacionais a grupos internacionais. Hoje não é incomum ver veículos, principalmente dos EUA, tratando o governo brasileiro de forma caricata. E o PT como um partido de bandidos.

O discurso do país dividido regado a uma suspeita de fraude eleitoral é excelente para dar mais amplitude a essa narrativa. Porque ele permite dizer que no Brasil não há respeito as regras democráticas. E a partir dai qualquer solução e intervenção é permitida.

É cedo para dizer que estamos no limiar deste cenário. Mas não é cedo para dizer que há claros contornos de que há uma construção neste sentido.

Mas para que haja uma solução de golpe institucional, que obviamente será chamado de outro nome, é preciso alimentar a radicalização. E por isso que há no PSDB gente dando pérolas aos porcos da turma do Banana’s Party.

O discurso radical permite criar uma alternativa de centro. Em breve haverá gente dizendo que Dilma não tem legitimidade para continuar à frente da presidência e que o Brasil corre o risco de um golpe se o PT insistir em se manter no poder.

É essa gente que ao mesmo tempo planta o golpe que vai aparecer como solução para que o golpe militar não aconteça. Mas para que se realize uma operação congressual que permita “afastar o partido mais corrupto da história do Brasil continue subjugando os homens de bem do país”.

Segundo o Diap, entre outras aberrações, o próximo Congresso terá 55 deputados policiais ou próximos desse segmento. Será o Congresso mais conservador desde a redemocratização. Ou seja, se já era difícil garantir apoio parlamentar para teses populares no quadriênio que se encerra no final deste ano, será muito pior a partir do ano quem.

Mas o governo vai ter que operar com essa realidade. E terá que construir uma base de apoio que lhe permita não viver de sobressaltos. Para isso, o primeiro grande desafio é derrotar a candidatura de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara.

Na política há espaço para tudo, menos para a ingenuidade. Cunha eleito vai lutar todos os dias do seu mandato à frente do Congresso para derrubar Dilma. Será parte do seu acordo com a oposição.

A eleição do presidente da Câmara dos Deputados passa a ter importância tão grande quanto a de 26 de outubro. Ao que parece, muita gente já se deu conta disso, mas nunca é demais revelar quais as verdadeiras intenções do lado de lá. É preciso tratá-los de vez em quando com humor, porque senão a gente fica tão doente quanto alguns deles, mas o fato é que essa gente não está de brincadeira.

Leia Mais ►

Corra, Alckmin, que a casa vai cair

Leia Mais ►

Sarney admite voto em Aécio: "gratidão a Tancredo"

Após negar em nota oficial que teria votado em Aécio Neves, o ex-presidente José Sarney, aliado de Dilma Rousseff, admitiu ter votado no presidenciável tucano por "gratidão a Tancredo Neves"


Depois de negar em nota oficial que teria votado no senador Aécio Neves (PSDB) para presidente nesta eleição, o ex-presidente da República José Sarney (PMDB), aliado da presidente Dilma Rousseff (PT) e do ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva, justificou o voto no tucano, conforme mostra um vídeo que circulou na internet, onde aparece apertando os números 45, de Aécio. “Foi um voto de gratidão ao Tancredo”, disse, referindo-se ao avô do ex-presidenciável, Tancredo Neves.


Tancredo Neves, que em 1985, com a redemocratização, foi eleito presidente da República, adoeceu gravemente e faleceu sem ser diplomado. Ele foi sucedido por José Sarney, escolheu o ex-presidente para ser o seu vice-presidente na chapa vencedora das eleições do mesmo ano. Aliados de Sarney comentam nos bastidores que o voto em Aécio também seria uma retaliação à falta de apoio à candidatura do suplente de senador Edison Lobão Filho (PMDB) a governador do Maranhão, apoiado pela família Sarney, que há quase 60 anos dominava a política maranhense.

Embora o PT estivesse coligado com aos peemedebistas, o governador eleito do Maranhão, Flávio Dino (PC do B), disse ter recebido do comitê de campanha da presidente Dilma Rousseff (PT) materiais apoiando a sua candidatura. Na época a assessoria de imprensa do senador, no entanto, afirmou que o vídeo não era verdadeiro.

As imagens que mostram Sarney votando em Aécio foram exibidas por volta das 16h na TV Amapá, afiliada da Rede Globo, durante um intervalo comercial. É comum as emissoras de TV de todo o país registrarem o voto de celebridades ou políticos de expressão regional ou nacional, embora respeitem o sigilo constitucional do voto. Sarney aparece trajando um blazer claro, com os adesivos de Dilma e de Waldez Goes (PDT), seu candidato a governador que acabou vencendo o pleito no Amapá, derrotando Camilo Capiberibe (PSB), que concorria à reeleição.

Leia Mais ►

E Luciana Genro volta à parábola do sujo versus o mal lavado

LG
Luciana Genro não poderia deixar passar esta oportunidade.

E não deixou.

“O acordo do PT com o PSDB para não convocar políticos para depor na CPI da Petrobras é a prova de que na campanha era o sujo falando do mal lavado!”

Esta frase que mistura o sujo e o mal lavado foi, lembremos, um dos grandes momentos da campanha.

Com ela, Luciana Genro desmontou o discurso pseudomoralista e cínico de Aécio em nome da “decência”.

O tuíte dela já tinha sido replicado 393 vezes no momento em que escrevo.

A importância real do comentário de Luciana Genro está no seguinte: o PSOL vai ser uma oposição combativa ao PT pela esquerda.

Isso vai teoricamente obrigar Dilma a prestar mais atenção nas reivindicações da esquerda — e não apenas nas dos conservadores que compõem a base de seu governo.

O PSOL saiu das eleições fortalecido.

Teve uma votação expressiva: Luciana Genro conseguiu duas vezes mais votos que seu antecessor na disputa presidencial, Plínio de Arruda Sampaio.

E Luciana Genro, com sua fala franca, honesta e consistente, foi a grande revelação da campanha, com seus cabelos encaracolados e seu charmoso sotaque gaúcho.

O acordo de que ela fala é simbólico da política nacional tal como é feita hoje.

Aécio, por exemplo.

Em sua volta ao Senado, com alarido, ele condicionou o diálogo com o governo à investigação do caso Petrobras.

Como alguém notou ao ver Aécio na TV Senado, em seu discurso ele foi entusiasmadamente aplaudido por Perrella, o dono do helicoca e seu velho amigo.

Perrella, num aparte, decretou que foram os pobres de Minas que derrotaram Aécio.

Em meio a tudo isso, nos bastidores, tucanos e petistas selavam um acordo para impedir a convocação — ou convite — de Aécio para a CPI da Petrobras.

Há suspeitas de que algum dinheiro da Petrobras possa ter acabado financiando sua campanha para o Senado em 2010.

Dilma e Lula, pelo acordo, também serão poupados pela CPI.

Os pragmáticos podem dizer, talvez até com alguma razão, que Luciana Genro está dizendo as coisas que diz porque não está no governo.

Eles poderão lembrar, no apoio de sua tese, que o PT falava coisas parecidas antes de chegar ao Planalto.

Mas não deixa de ser irônico o que está acontecendo.

Mesmo os críticos do PT reconheceram no partido um papel relevante na cena política como oposição ao governo.

O PSDB, como admitem até seus líderes, jamais conseguiu ser oposição que se levasse a sério.

Ficou um vazio, e Luciana Genro quer ocupá-lo.

Paulo Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Aécio, o “líder do exército” derrotado!


Depois de um breve descanso em sua fazenda em Cláudio, no interior de Minas Gerais — será que ele usou o ilegal “aecioporto”? —, o derrotado cambaleante do PSDB, Aécio Neves, fez a maior cena nesta terça-feira em Brasília. A mídia tucana garantiu os holofotes, com longos minutos de exposição no Jornal Nacional da TV Globo, e os aspones tucanos montaram o circo, com a arregimentação de um bocado de bajuladores. Nas entrevistas, o senador mineiro-carioca afirmou que será o líder do “exército da oposição” e que não dará trégua à presidenta Dilma. Ele só não explicou a surra que levou nas urnas — derrota do PSDB no governo mineiro e duas humilhações do presidenciável no seu próprio estado.

Segundo relato da Folha tucana, “cercado por militantes e aliados políticos, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) retornou nesta terça-feira à cena política depois da derrota nas eleições para a Presidência da República. Com a promessa de ser o principal líder da oposição no Congresso, o tucano disse que não pretende dialogar com o governo federal se não houver mudanças na postura da presidente Dilma Rousseff e do PT. ‘Eu chego hoje ao Congresso Nacional para exercer o papel que me foi delegado pela grande maioria da população brasileira, por 51 milhões de brasileiros. Vou ser oposição sem adjetivos. Se quiserem dialogar, apresentem propostas que interessem aos brasileiros’, disse”.

O cambaleante também afirmou que “somos hoje um grande exército a favor do Brasil”. Ao utilizar o linguajar militar, ele talvez tenha feito uma homenagem à horda de fascistas que ocupou a Avenida Paulista, no centro de São Paulo, no sábado (1), pregando o impeachment da presidenta Dilma e a “intervenção militar”. Ainda segundo o jornalão tucano, “ao chegar à entrada principal do Congresso, Aécio foi saudado por cerca de 200 pessoas que aguardavam sua chegada — a maioria delas, militantes e servidores do Legislativo que apoiaram a sua candidatura... Com gritos de ‘Aécio presidente’ e ‘Fora PT’, o tucano arrastou os simpatizantes até a entrada do plenário”. Um show midiático previamente organizado!

Apesar dos fogos de artifício, da trupe de puxa-sacos e da bondade da mídia, o cambaleante sabe que o seu futuro não será fácil. Ele não conta mais com o bunker mineiro — e até poderá sofrer uma devassa, que revelará os podres do tucanato no Estado. Além disso, o ninho tucano segue conflagrado, com suas bicadas sangrentas. Geraldo Alckmin, governador reeleito de São Paulo com a inestimável ajuda da mídia chapa-branca, deverá jogar água — se ainda houver alguma no Sistema Cantareira — na fogueira de vaidades do pretenso “líder do exército da oposição”. Outro que está na espreita, com seus famosos dossiês, é o eterno candidato José Serra. Os dois paulistas nunca aceitaram a liderança do mineiro.

Para complicar ainda mais a vida do “novo líder do exército da oposição”, o Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitou na noite desta terça-feira (4) o pedido de recontagem de votos da eleição apresentado pelo PSDB. A iniciativa golpista foi abortada. Para o procurador-geral eleitoral, Rodrigo Janot, a solicitação de auditoria não possuía qualquer fundamento. “Há que se ter em vista que o pedido formulado não tem lastro em um único indício de fraude, limitando-se a reproduzir comentários feitos em redes sociais”, afirmou no seu parecer ao STF. Para ele, o pedido do PSDB é “temerário” e poderia criar “instabilidade social e institucional”. E o cambaleante ainda se traveste de “líder de um exército”... de derrotados!

Leia Mais ►

O racismo de um professor federal e as cotas

O professor Malaguti, da Universidade Federal do Espírito Santo
Estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) denunciaram um professor por manifestar racismo durante uma aula da turma do 2º período do curso de Ciências Sociais.

Professor do Departamento de Economia, Manoel Luiz Malaguti cravou que “o nível da educação está tão baixo que o professor não precisa se qualificar mais para dar aula, já que a maioria dos cotistas são negros, pobres, sem cultura e sem leitura, são analfabetos funcionais”.

Ainda afirmou que “detestaria ser atendido por um médico ou advogado negro”. Um dos que presenciaram a explanação racista foi João Victor Santos, de 20 anos, cotista pelos critérios de raça e renda.

“Ele foi questionado por um aluno sobre o valor do trabalho de um professor, se era justo, e aproveitou a deixa para falar de educação. Ele aproveitou para fazer uma crítica ao sistema e falar que a ingressão de cotistas na universidade diminuiu o nível da universidade”, disse João Victor.

O discurso durou aproximadamente uma hora e foi concluído com a afirmação de que ele “detestaria ser atendido por um médico ou advogado negro”. No começo da aula havia cerca de 20 pessoas, mas à medida que o professor falava os alunos foram se retirando, alguns nervosos e chorando.

Os estudantes registraram uma queixa na ouvidoria da universidade e fizeram uma manifestação exigindo punição.

Primeiro desembargador negro do Espírito Santo, Willian Silva ofereceu representação criminal ao Ministério Público Federal. “Sinto-me com a dignidade e o decoro ofendidos na condição de jurista negro, proveniente de família pobre, advogado atuante por vários anos antes do ingresso na carreira da magistratura, e hoje o primeiro desembargador negro capixaba”, falou.

Doutor em Teoria Econômica pela Universidade de Picardie, na França, Malaguti é professor da Ufes desde 1995. Em entrevista ao portal Gazeta Online, ele se defendeu.

“No meio de uma discussão sobre cotas e o sistema educacional, eu coloquei que se eu tivesse que escolher entre dois médicos, um branco e um negro, com o mesmo currículo, eu escolheria o branco. Por que que eu escolheria o branco? Os negros, em média, vêm de sociedades, de comunidades menos privilegiadas, para a gente não usar um termo mais forte, e nesse sentido eles não têm uma socialização primária na família que os tornem receptivos aos trâmites da universidade, à forma de atuação da universidade, aos objetivos da universidade. Eles têm muito mais dificuldades para acompanhar determinadas exposições. Eu não acho que é uma visão preconceituosa, acho que é bastante realista”, disse.

“Então eu dei o exemplo do médico, mas não nesses termos que eu detestaria, nunca falaria algo parecido. Eu diria simplesmente e reafirmo que dois médicos com o mesmo currículo, com a mesma experiência, só que um negro e um branco, em função da possibilidade estatística desse médico branco ter tido uma formação mais preciosa, mais cultivada, eu escolheria um médico branco. Mas como um exemplo do que a sociedade faz.”

Pausa para tomar ar.

O discurso é ainda mais pérfido por vir do servidor de uma instituição de ensino pública. A opinião de Malaguti mostra que o ingresso na universidade é só uma das muitas barreiras que os alunos cotistas enfrentam no decorrer do curso.

João Victor participa de um grupo que pesquisa o preconceito sofrido por cotistas na Ufes. Ele disse que há relatos de professores que dividem a turma entre não cotistas e cotistas, chegando ao absurdo de dar aulas em dias diferentes para cada grupo, e lembra que há outras formas de discriminação mais difíceis de detectar. É comum, por exemplo, acontecer confraternizações entre os alunos e os cotistas não serem convidados.

A Ufes passou a adotar o sistema de cotas sociais em 2008 e desde 2013 adota também as cotas raciais.

Marcos Sacramento
No DCM
Leia Mais ►

No Pará, mais uma chacina para a PM explicar


Às 6:20 da manhã alguém no Twitter anunciava “40 mortos” em chacina que teria sido levada a cabo pela PM em bairros periféricos em Belém do Pará. Retaliação à morte de um cabo da corporação. Assustada, nem retuitei. Degluti meu “bom-dia!” junto com o desjejum. E esperei clarear as informações — se é possível em casos assim.

Mais tarde, mas ainda pela manhã, as notícias davam conta de que o governo de Simão Jatene (PSDB), reeleito, admite oito mortes, além do defunto causador. No fim da tarde, as informações oficiais mantinha em nove o número de mortos, todos homens, a maioria jovens entre 16 e 27 anos.

Seis corpos identificados até meados da tarde, todos com características de execução. Dos nove na contagem oficial, “pelo menos seis”, admitidos pelo secretário de Segurança Pública com sinais de. Nessa conta se inclui o policial.

Consta que Antônio Marcos da Silva Figueiredo, 43 anos, o CB Pety, integrava milícia no bairro de Guamá. E seria responsável pelo luto de algumas famílias, lá e em outros bairros pobres da capital paraense.

Destarte, seu passamento forçado teria sido devidamente comemorado pelas populações do cinturão desassistido da exuberante Belém do Pará.

O massacre, qualquer que seja o número real, foi convocado pelo Facebook. E anunciado na página da própria Rotam paraense na rede social. Para se ter ideia a que ponto chega a nossa Polícia Militar, ou esquadrões que vicejam dentro da corporação; e não são coibidos, do contrário não proliferariam.

A imagem teve 938 compartilhamentos e 9.967 curtidas até as 18:51 horas, em que escrevo. A revelar que parte da população concorda com a máxima que orienta a revanche policial: a de que “bandido bom é bandido morto”.

convocachacina ocabo defunto

Talvez por isso, a título de “informação”, a Rotam não se avexa de usar os comentários da própria postagem da homenagem-veredito para contabilizar a faxina, por volta de 1:30h da madrugada: 35 assassinatos até então – em Guamá, onde o policial foi morto, Terra Firme, Canudos e Cremação.

A “prestação de contas” está na imagem abaixo, que atualizei no início da noite. Notem o recado na “OBS: Ainda não acabou Amanindeua, Marituba, Santa Izabel e Castanhal.”

Contagem dos mortos à 1:30 da madrugada deste 05.11.2014, em Belém, segundo a Rotam


Contagem dos mortos à 1:30 da madrugada deste 05.11.2014, em Belém, segundo a Rotam

A Corregedoria de Polícia não confirma nem descarta a participação de policiais na chacina. E as autoridades da segurança pública recomendam cautela na interpretação do que circula nas redes sociais.

De fato, a rede aceita tudo — e a mídia pratica a seletividade de pauta, e também não apura nada que não lhe convenha, quando dá como fato o que lhe interessa mesmo sem provas.

Ainda viva está na memória a barbárie de Pinheirinho, em São José dos Campos, em São Paulo. Não se pode esquecer a violência gratuita da PM pernambucana contra os manifestantes do #OccupeEstelita, em maio deste ano, e da PM mineira contra os professores em Belo Horizonte a cada greve.

O furor repressivo contra os manifestantes de junho do ano passado, e não apenas black blocs — em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, sobretudo — ainda está para ser explicado. A truculência do Choque  fluminense e das “forças de pacificação” na Maré, desde há poucos meses, e nas favelas cariocas desde sempre, não se explica.

Isso no passado recente e na cidade. A onda de violência no campo também é alimentada pela cultura do olho por olho e pela impunidade, ainda hoje.


360px-Eldorado_dos_Carajas_massacre_by_Latuff2Há 18 anos, o mesmo Pará era palco do que ficou na História como o Massacre de Eldorado de Carajás. O trucidamento de 19 trabalhadores sem terra, também por policiais militares – e também num governo tucano, de Almir Gabriel. Pelo menos 10 dos mortos foram executados com tiros a queima-roupa.

A chacina aconteceu em 17 de abril de 1996. Os 155 soldados que participaram do massacre não foram julgados. Os mandantes, o coronel Mário Pantoja, comandante da PM e o major José Maria Pereira da Silva, que comandou a operação só foram presos e condenados em 2012. Pegaram, respectivamente, 258 e 158 anos de condenação.

Nas cidades brasileiras, e não apenas nas capitais, o cotidiano das periferias é feito de suor e sangue, pouco estado e nenhuma justiça. Apesar dos avanços nas políticas públicas federais.

Nossos jovens estão sendo exterminados, e a cor da pele que, normalmente, anda junto com a escala social é a sentença de culpa, independentemente do feito. Estão aí, ano após anos, o Mapa da Violência, que não me deixa mentir.

A polícia, as milícias e os soldados do tráfico matam mais — não que atropelamento de automóvel, como cantava Adoniran Barbosa — do que as guerras planeta afora.

O que torna mais grave, se possível gravidade maior do que apagar uma vida, que dirá várias, dezenas — e com subsídio do Estado — é o desplante.  E este deriva da certeza da impunidade.  A gente sempre se pergunta: até quando?

Taí mais uma tarefa hercúlea para a próxima gestão Dilma Roussef: assumir a condução da política de segurança pública, até agora a cargo da esfera estadual, conforme prometeu em campanha.

Aqui o áudio que circulou pelas redes sociais com o aviso da chacina. Recomenda aos “senhores” do Guamá, Canudos e Terra Firme – não se sabe se moradores ou milicianos -, que fiquem em casa, “para sua própria segurança”, porque “mataram um policial nosso e vai ter limpeza na área. Ninguém segura ninguém, nem o coronel das galáxias.”

Sulamita Esteliam
No A Tal Mineira
Leia Mais ►

Para quem quiser fugir do bolivarianismo no Brasil


Opção Austrália:

1. Para tudo há conselhos de movimentos sociais (peak bodies), e os governos os consultam e prestam-lhes satisfação regularmente (bit.ly/1san6Qa).

2. O governo paga até R$1562 de Bolsa Família (Parenting Payment, bit.ly/1pgKakt), sem qualquer exigência como frequência escolar ou vacinação (no Brasil os beneficiários recebem em média R$5 por dia para a família toda).

3. Não se pode fazer reforma em casa sem submeter seu projeto à consulta pública, através da prefeitura, exigindo que se pendure um aviso na porta da tua casa por duas semanas ou mais para quem quiser consultá-lo e apresentar objeções. Se os teus vizinhos não gostarem da ideia, a prefeitura não aprova (bit.ly/10jbDX2).

4. Há piscinas públicas nas praias e churrasqueiras nos parques de uso gratuito, pagas com o bolso do contribuinte.

5. As cláusulas dos contratos de aluguel residencial são ditadas pelo governo do estado (bit.ly/1phlBE4).

6. Não se pode trabalhar de barman sem licença específica para servir álcool (RSA, onlinersa.com.au).

7. Não se pode vender álcool em mercados e supermercados; só em lojas licenciadas pelo Estado (bottle shops, bit.ly/1DWVymW).

8. Não é permitido trabalhar de eletricista, encanador ou pedreiro sem licença do Estado (professional license, bit.ly/1e43SWa).

9. Não é permitido abrir um cabeleireiro sem licença específica do Estado (business license, bit.ly/1pgLuEb).

10. Tem ciclovia para todo lado e é proibido andar de bicicleta sem capacete ou na calçada. A multa por não usar capacete é R$115 em Sydney (bit.ly/1uounCc), R$332 em Adelaide (bit.ly/1go9IaK) e R$400 em Melbourne (bit.ly/1x2Ojsb).

11. Todos os filmes exibidos em cinemas, festivais e instituições de ensino precisam passar pela censura (Classifications Board, classification.gov.au).

12. Não é permitido o marketing de cigarros e produtos de tabaco, nem mesmo na própria embalagem (bit.ly/1mbSZIv).

13. O salário mínimo é R$5395 a.m. (bit.ly/1mKLtkZ, alguém pode por favor avisar o Armínio Fraga?)

14. Em Melbourne o governo subsidia 88% do transporte público (bit.ly/1wZ4AgK). A Prefeitura de São Paulo subsidia 20%.

15. Os nativos que moram em áreas remotas recebem uma Bolsa Aborígene de R$76 a.m. (bit.ly/1zrGz6q).

16. Paga-se em média R$3600 a.m. de impostos diretos e indiretos (no Brasil são R$830).

17. Tem 1 funcionário público para cada 13 pessoas (no Brasil tem 1 para cada 17).

18. Paga-se ao governo do estado R$235 a.m. para ter 1 vaga de carro na área central de Melbourne para desestimular as pessoas a irem de carro para a cidade (congestion levy, bit.ly/1A3Vipo).

19. Os governos estaduais recomendam livros LGBT para pré-adolescentes (bit.ly/1tVjsxO).

20. O voto é obrigatório e a multa é R$43 (no Brasil é R$3,51). Se não justificar ou pagar a multa, irá para a justiça. Se o eleitor for considerado "culpado", a multa sobe para R$370 mais os custos do tribunal e o "culpado" pode ficar fichado na polícia (bit.ly/1ySOAyc). No Brasil não há criminalização e quaisquer sanções são suspensas assim que quitada a multa de R$3,51 no cartório eleitoral.

Opção Suécia:

Pros amigos querendo fugir da República Bolivariana Brasileira™, não recomendo a Suécia. É bolsa família, bolsa escola, bolsa desemprego, bolsa habitacao, bolsa-pros-asilados-da-Siria e os PRESOS VÃO PRA COLÔNIA DE FERIAS! A maior rede de televisão É ESTATAL! CADE A LIBERDADE DE IMPRENSA? E EU AINDA PAGO IMPOSTO PRA ISSO!

Meu salário é todo imposto e o que sobra não dá pra pagar empregada doméstica! Imagina, tenho de lavar minha propria privada, um horror! Tenho de andar de ônibus e bicicleta, NA NEVE!

E...segurem-se nas cadeiras....SÓ SE COMPRA CERVEJA NAS LOJAS ESTATAIS! DITADURA!

É praticamente a Venezuela, corram para Miami por favor. O iPhone também é caro aqui, não dá pra levar muamba pra revender.

PS: É duro, mas vou ter de desenhar porque o abuso na minha caixa de mensagens foi longe demais. Amigos, eu AMO a Suécia (e o Brasil também!). Não estou falando mal da Suécia, pelo contrário. Sou extremamente grata ao país por tudo o que eu consegui aqui, e quero muito que um dia ao Brasil chegue a esse patamar. Meu post foi SARCÁSTICO. Eu lavo minha própria privada, com muito orgulho. Ficou explicado agora?

Também não estou comparando a Suécia com o Brasil, porque isso é tão imbecil como comparar o Brasil com Cuba. Estou falando sobre politicas sociais, tentando mostrar a hipocrisia de quem reclama do Bolsa Familia e grita "ditadura" para outras ações do governo, mas ignora que praticamente a Europa toda tem programas muito mais abrangentes de auxilio a quem precisa — e no caso da Suécia em especifico, controle estatal até na venda de bebidas. Mas só é bonito quando é lá fora, né?

André Levy e Daniela Farias
Leia Mais ►

Aécio vence o PT


Leia Mais ►

O Ajuste e o Abismo


Desastre de socialistas europeus mostra necessidade de Dilma ser cautelosa com mudanças na economia, que não podem ameaçar conquistas obtidas pela população a partir de 2003

Nestes dias em que o governo Dilma debate a troca na equipe econômica, nunca é demais recordar o efeito devastador dos pacotes de austeridade sobre governos que têm um compromisso histórico com a defesa do bem-estar da maioria da população.

Há uma regra elementar e universal.

A aplicação de planos de austeridade faz parte do currículo histórico dos partidos conservadores. O eleitor — aliado e adversário — espera que façam isso. Acredita na visão de que é preciso fazer o bolo crescer primeiro para dividir depois. Por razões que não é difícil de entender, os sacrifícios, para grande parte destes eleitores, não são um problema. São o começo da solução.

Para entender o que acontece com partidos progressistas, comprometidos com a distribuição de renda e a proteção dos mais pobres, convém olhar para o mapa da Europa de hoje.

Os socialistas e social-democratas europeus sofreram a maior parte dos custos eleitorais do ajuste forçado pela hecatombe de 2008-2009, embora nem de longe pudessem ser apontados como os principais responsáveis pelo cemitério econômico em que se transformou o Velho Mundo.

Na Espanha, o PSOE não consegue se levantar nem com ajuda de sucessivos escândalos ligados aos conservadores.

Na França, François Hollande humilha eleitores e aliados com um desempenho abaixo de qualquer patamar histórico, que permite aos fascistas do Front National exibir garras cada vez mais ameaçadoras.

Na Grécia, expressão inicial da crise, o social-democrata George Papandreau foi deposto pelo Congresso porque pretendia realizar um plebiscito onde a população deveria se pronunciar sobre um pacote de austeridade. Não era um ato de resistência, como se poderia pensar, mas uma forma de dividir responsabilidades — Papandreau era a favor das medidas de sacrifício, só achava prudente que tivessem o respaldo da maioria nas urnas.

Quem tenta entender a permanência de Angela Merkel em seu posto na Alemanha descobre o seguinte. Ela só foi vitoriosa no último pleito porque fez, em casa, o contrário do que prega na economia dos países vizinhos.

Favorável às medidas mais brutas de austeridade na União Europeia, Merkel protegeu o emprego e a maioria das políticas sociais junto ao eleitorado alemão — e é isso que explica o apoio que exibe até hoje, embora o baixo crescimento atual, provocado pela recessão na vizinhança, comece a tocar em seus calcanhares. Cabe compreender o aspecto prático da questão. Merkel não sobreviveu politicamente porque praticou uma política clássica de austeridade na Alemanha — mas porque teve o discernimento de evitar que chegasse a seu país, ao menos por alguns anos.

Trocando os sinais, chegamos ao desempenho de Barack Obama nas eleições legislativas.

A vitória republicana não é uma demonstração de que a maioria dos norte-americanos quer austeridade ou Estado Mínimo.

Os eleitores democratas se abstiveram, ficaram em casa, sem animo para defender seu governo, porque preferiam menos austeridade. Gostariam que a economia tivesse se recuperado mais depressa. Não gostaram de descobrir que, enquanto o país inteiro caminhava para o sacríficio, os senhores do mercado financeiro seguiram embolsando bonus muito além da linha da decência. Também estão desencantados com um sistema político com imensa dificuldade para garantir um patamar de dignidade mínimo a todos, a começar por um sistema de saúde razoável. Não rejeitavam Obama por princípio. Queriam que ele tivesse sido mais Obama.

São questões que cabem discutir no Brasil.

A marca da distribuição de renda, do emprego e do consumo explicam a vitória em 26 de outubro — numa campanha desigual e injusta. A polarização política da reta final trouxe seus benefícios para Dilma, que investiu acertadamente no conflito entre classes. Mas o confronto também deixou uma contrapartida.

Nenhum eleitor acharia estranho se, em caso de vitória, Aécio Neves começasse a baixar as célebres “medidas impopulares” anunciadas na campanha.

Acredito que Dilma perdeu entre dois e quatro pontos em função do golpe eleitoral midiático dos últimos dias. Mesmo assim, o desempenho eleitoral de Aécio Neves não deixa de ser um assombro, considerando o fraquíssimo currículo do PSDB na defesa do bem-estar da maioria dos brasileiros, que é o principal fator de decisão na hora do voto.

O Manchetômetro jogou um peso imenso, nesta eleição. O apoio dos grandes meios de comunicação não chega a ser um fato novo nem deve ser minimizado. Apenas foi renovado.

O PT perdeu votos para o protesto de antigos eleitores. É ilusório pensar que a mudança ocorreu nas residências de seus adversários tradicionais.

Dilma foi vencida no cinturão de trabalhadores do ABC paulista, e também nos bairros pobres da periferia de São Paulo, onde Fernando Haddad garantiu a vitória em 2012 — onde Celso Russomano renasceu como o deputado mais votado da temporada.

É este eleitor que deve ser conquistado pela política econômica do segundo mandato — ou será perdido em 2016, numa situação muito mais difícil.

Leia Mais ►

Paisagem da oposição

A construção de uma forte barragem opositora, anunciada pelo senador Aécio Neves em seu festivo retorno ao Senado, tem uma dificuldade para efetivar-se: oposição dá trabalho.

Desde a onda do mensalão, com a CPI, os governos Lula e Dilma não precisaram incomodar-se de fato com o PSDB, o DEM (o PFL travestido) e os comerciantes que às vezes lhes fizeram companhia. Mesmo na CPI do mensalão, os representantes desses partidos já recebiam tudo mastigado, cabendo-lhes apenas fazer o espetáculo.

De então para cá, os oposicionistas nem se deram ao trabalho de ser ao menos palavrosos. O PSDB deixou ao senador Álvaro Dias a tarefa de fazer uma declaração a cada ato do governo, mais ou menos a mesma sempre, e o DEM entregou a tarefa ao senador José Agripino Maia. Duas pessoas educadas, portanto impróprias para fazer pela oposição maior disfarce do que umas acusações ligeiras e vazias.

Há tempos as bancadas do PSDB e do DEM foram aqui chamadas de oposição preguiçosa. Não mudaram. Ambas deixaram que os meios de comunicação trabalhassem por elas, considerando suficiente por comodismo ou incompetência — dar algum eco ao novo padrão do jornalismo brasileiro, de mínimos rigores e noticiário com feições políticas indisfarçáveis. Mas o futuro desse sistema não levaria a boas paisagens.

Desmemória 

A perda de memória é tanta que parece esquecido até aquele bordão, acusatório e salvador, de que o brasileiro não tem memória. Nem a propósito das eleições, que o sobrepunham a tudo dito na campanha e nos resultados, a sentença pôde ser lida ou ouvida.

E, no entanto, nunca foi mais apropriada. Texto da Executiva do PT, por exemplo, expressa a conclusão de que a conquista do "quarto mandato [é] algo que nenhuma outra força política havia alcançado até agora no país".

Houve uma que ocupou quatro mandatos, sim. E o fez por ser a maior força política do Brasil em todo o século 20: o Exército.

A frase destacada pela edição do artigo de Luiz Felipe Pondé: "O PT ensinou bem o ódio político ao Brasil e agora poderá provar do próprio veneno". O golpe não foi feito por amor, a ditadura e as torturas e os assassinatos não foram feitos como carinhos, Lacerda e o udenismo não ensinaram o convívio democrático. E nem foi só a tais alturas que o ódio entrou na história do Brasil, para ficar não se sabe até quando. Está, aliás, em maré crescente.

Muito espaço e tempo foram ocupados com as acusações da delação de Paulo Roberto Costa ao presidente da Transpetro, Sérgio Machado, e agora com sua licença forçada da presidência dessa subsidiária da Petrobras. Nunca foi esquecida a informação, correta, de que Machado chegou ao cargo em 2003, primeiro ano do governo Lula, como indicado de Renan Calheiros e do PMDB.

Em todo esse tempo de escândalo Petrobras, tem sido difícil ver a informação de que Sérgio Machado foi do PSDB. E nem era um a mais ou a menos no partido.

De 1995, primeiro ano do governo Fernando Henrique Cardoso, a 2001, foi o líder do PSDB no Senado. Nesse último ano, teve o principal papel na batalha com que o governo barrou a CPI da Corrupção. Tarefa na qual Machado já estava experiente e consagrado, a ponto de ser chamado de "o Trator". Próximo de completar o sétimo ano na liderança, deixou o PSDB pelo PMDB, por briga com o então governador Tasso Jereissati e para disputar o governo cearense em 2002. Foi para compensar a derrota que Renan Calheiros o apresentou como indicado do PMDB à Transpetro.

Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►

Sérgio Porto # 36


Leia mais clicando aqui
Leia Mais ►

Essa é do Barão... 94


Leia mais clicando aqui.
Leia Mais ►