3 de nov de 2014

Dilma cancela publicidade na Veja. É pouco!

Sem o BB, a Caixa e a Petrobrás por 4 anos, a Globo quebra!


O Conversa Afiada pode informar que a Presidenta Dilma suspendeu a publicidade governamental no detrito sólido de maré baixa, que elegeu o Juiz Moro Barbosa como o vaso-de-guerra do Golpe.

Dizia-se que ela tinha feito o mesmo com a Época, do Globo: não é verdade.

Ficou na Veja.

É pouco.

Se o motivo da decisão sobre a Veja é o Golpe que surrupiou oito pontos dela, em São Paulo, tinha que levar a decisão aos “órgãos de imprensa” que fizeram o mesmo: o Globo, a Globo, o Estado comatoso e a Fel-lha.

Todos esses jogaram a cartada do Golpe com a fraude da Veja.

Transformar a Veja em bode expiatório só reforça a ânsia golpista dos outros.

Não há nenhuma razão ética, política ou sequer de marketing que justifique dinheiro público e de empresas estatais bancar o Gilberto Freire com “i” e a Urubulóga, cuja atividade dita profissional é detonar Governos trabalhistas.

Por quê?

Por que bancar o Ataulfo, pergunta o Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo.

No CAf
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Uma bizarra simbiose

O pedido de auditoria na eleição presidencial, de iniciativa do PSDB, dividiu o alto da primeira página do jornal O Estado de S. Paulo, nesta sexta-feira, (31) com a principal notícia de economia.

Globo registra o assunto também na primeira página, mas em uma nota sem grande destaque, e a Folha de S. Paulo deixa o tema sem menção na primeira página e o coloca em posição secundária na editoria Poder.

O fato, incomum na rotina de manchetes compartilhadas pelos jornais que dominam a cena da mídia nacional, chama atenção.

A razão é explicada por um vazamento da redação do Estado: um dirigente do PSDB teria sondado editores sobre qual seria a receptividade do jornal  àquela notícia.

Com a garantia de que a iniciativa poderia sair em manchete, os autores da medida resolveram se arriscar à aventura de questionar o resultado das urnas, sem o risco de serem execrados pela imprensa por sua atitude vexaminosa.

Agora, imagine-se o contrário: se, derrotado na disputa presidencial, o Partido dos Trabalhadores resolvesse pedir uma investigação sobre a lisura do processo eleitoral.

Evidentemente, não apenas as manchetes, mas os editoriais, os colunistas, os analistas econômicos, os filósofos, os psicólogos e outros "especialistas" hospedados na mídia tradicional, e até os astrólogos, estariam mobilizados para condenar a insinuação de que o partido governista colocava em dúvida a justeza da decisão popular.

No mínimo, os descontentes seriam considerados maus perdedores, mas o tom geral seria de condenação a uma suposta tentativa de golpe de Estado.

E tudo motivado por análises técnicas? Não. O que move os reclamantes é uma série de manifestações de correligionários nas redes sociais.

O episódio coloca esta sexta-feira no calendário de horrores criado pela simbiose bizarra entre a imprensa hegemônica e a oposição ao Executivo federal.

Numa escala imaginária de despautérios, fica apenas alguns graus abaixo da manobra consumada no último fim de semana, às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, por um panfleto de campanha distribuído sob o logotipo da revista Veja.

Não por acaso, o assunto é explorado pelo carro-chefe da Editora Abril (leia aqui) e justificado por um de seus mais dedicados pitbulls.

A nau dos insensatos

A iniciativa do PSDB poderia ser considerada uma tolice, não fosse a revelação de que se trata de operação combinada com pelo menos um dos principais jornais do País.

Qual seria o efeito de tal notícia no ambiente das redes sociais digitais?

Evidentemente, essa manobra tende a acirrar o radicalismo na parcela mais aloprada do eleitorado, aquela que prega diariamente o golpe militar e até o assassinato de adversários como ação política legítima.

Sua escalada pode gerar uma crise de governabilidade.

O fato de um dos principais partidos do País buscar apoio nesse substrato da cidadania, onde se aglomeram os mais insensatos entre os analfabetos políticos, demonstra a falta de espírito democrático de seus dirigentes, entre os quais já se alinharam alguns intelectuais respeitados.

O fato de um jornal de influência nacional embarcar na aventura golpista revela o baixio a que se dispõe a mídia tradicional.

Mas a adesão de Veja não surpreende: a revista simboliza há muito tempo a destruição do legado de Victor Civita, processo que pode ser mais bem  analisado à luz da psicologia freudiana do que sob as muitas teorias da comunicação.

Quanto aos observadores da mídia, desponta aqui um tema interessante para ser considerado: carece de fundamento a suposição, bastante difundida a partir da distribuição dos votos na última eleição, de que os mais educados entre os eleitores tendem a votar com mais racionalidade.

A se julgar pelas manifestações de energúmenos que pregam medidas antidemocráticas como reação à decisão soberana das urnas, pode-se afirmar que é nos estratos com mais anos de escolaridade que se expressam a insensatez, o desatino e a irresponsabilidade.

Estudo do instituto americano Pew Research Center sobre a polarização política nos Estados Unidos (ler aqui, em inglês), mostra que conservadores se informam por fontes menos diversificadas — por exemplo, 88% deles confiam na reacionária Fox News — enquanto os cidadãos mais liberais usam uma variedade maior de fontes de informação e opinião.

Aplicada ao Brasil, a pesquisa provavelmente mostraria como a mídia partidarizada contribui para acirrar os ânimos e coloca em risco a própria democracia.

Luciano Martins Costa
No OI
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Lula em 2018 é a explicação para o estado febril da direita


Os leitores do Viomundo debateram fervorosamente a reportagem de Caio Castor sobre a manifestação que, uma semana depois da eleição, pediu o impeachment de Dilma Rousseff na avenida Paulista.

Por causa de nossa chamada no Facebook, muitos focaram no detalhe: a presença do escrivão da Polícia Federal Eduardo Bolsonaro, deputado federal eleito, armado sobre o palanque.

Muitos dos leitores, aparentemente apoiadores de Bolsonaro, disseram que ele, por ser policial, estava exercendo seu direito ao portar arma. Argumentaram também que Bolsonaro só será empossado em seu novo cargo em primeiro de janeiro de 2015.

Outros contra-argumentaram, levantando um debate jurídico:
8 – EVENTUAIS RESTRIÇÕES AO DIREITO AO PORTE DE ARMA
Direito algum é absoluto. A sua existência não é um fim em si, mas sim a realização de um valor. A solução justa não é aquela que simplesmente observa a literalidade do texto legal, mas aquela que melhor realiza o valor que deu origem ao texto legal, como mostra trecho de um artigo escrito por Edison Miguel da Silva Júnior.
(..)
Da mesma forma, se desarmado, seria inviável ao policial executar seu dever duradouro de combate ao crime.
Esses são, então, os valores tutelados pelo direito de portar arma de fogo: integridade física do policial e o dever de proteção da coletividade.
Se, no entanto, em determinada conduta, o agente público extrapolar em seu direito — ou utilizá-lo com outra finalidade — não subsiste mais a razão para exercê-lo. É o caso da arma de fogo. Não haverá motivo para portá-la se o escopo não for a segurança própria ou da sociedade.
Lamentamos nossa contribuição para que o debate ficasse concentrado no detalhe, não no essencial, que é a questão política.

Em nossa modestíssima opinião, o que choca é o simbolismo da presença de um deputado eleito armado em uma manifestação pública. Protegidíssimo pela Polícia Militar, que saudou do carro de som, ele não corria ali nenhum risco.

Ao portar a arma, do ponto-de-vista simbólico acreditamos que o escrivão Bolsonaro demonstrou que não está disposto a travar apenas o debate político dentro do Congresso. Conclama as ruas a trabalhar pelo impeachment de Dilma com uma arma na cintura!

Aliás, pelo que vimos na reportagem de Caio Castor, houve uma simbiose entre o escrivão Bolsonaro e boa parte do público presente.

Longe do palanque, alguns participantes da manifestação exibiram a mesma violência simbólica do filho de Jair Bolsonaro, mas ao gritos e safanões. Ofenderam e perseguiram nas ruas quem pensava diferente. Como nos conta a história, uma das características dos fascistas era exatamente esta: o uso da violência para calar vozes discordantes.

Foi, aliás, a continuação do que vimos ao longo da campanha de segundo turno, quando houve dezenas de denúncias de violência verbal ou física contra eleitores da candidata do PT. Se tivessemos uma mídia digna do nome no Brasil, teríamos hoje um catálogo com os nomes de centenas de pessoas que foram vítimas da intolerância de apoiadores de Aécio Neves. Casos como este no Rio de Janeiro e este em Belo Horizonte.

Olhando o episódio de domingo com maior amplitude, é possível ver que ele se deu num quadro de desespero da direita brasileira não só com a vitória de Dilma Rousseff, mas com a perspectiva de que, em 2018, Lula seja o candidato do PT.

Neste domingo, no Estadão e em O Globo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso contribuiu para o processo de “deslegitimar” a vitória de Dilma, embora tenha iniciado o texto jurando não pretender fazer isso. Trecho do que FHC escreveu:

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FHC, lembrem-se, é aquele que pretendia “sangrar” Lula durante o primeiro mandato, certo de que seria incapaz de se reeleger em 2006.

Agora, aparentemente, quer “sangrar” Dilma.

Para os tucanos, é absolutamente essencial que ela não faça um bom segundo mandato. Quanto mais turbulências políticas e econômicas, melhor.

Em outro campo, Gilmar Mendes, sempre ele — a herança maldita que FHC nos deixou no Supremo Tribunal Federal — fez o que o mestre mandou imediatamente. Leiam trechos da entrevista que ele deu à Folha:

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Gilmar Mendes não explicitou seu apoio à chamada PEC da Bengala, que aumenta de 70 para 75 anos a idade para aposentadoria compulsória dos juízes do Supremo Tribunal Federal.

Mas é cristalino que a direita avança por aí, para limitar os poderes de Dilma Rousseff.

Aliás, tanto nas ruas quanto nos bastidores a direita brasileira se parece cada vez mais com o Tea Party, que agrega a extrema direita norte-americana. Aqui, como lá, esta extrema direita é alimentada diuturnamente pelo ódio de colunistas e radialistas conservadores.

Aqui como lá, assume uma postura milenarista, de fim dos tempos, inventando ameaças inexistentes para justificar sua agressividade política.

O objetivo não é, em si, tomar o poder, mas impedir que qualquer governo adote políticas públicas progressistas ou que representem perda de privilégios do 1%.

No Brasil, apesar da existência do Instituto Millenium, ainda não apareceram os grandes financiadores privados das ideias hiperneoliberais, papel feito nos Estados Unidos pelos irmãos Koch e outros.

Será, certamente, nosso próximo passo para ter uma extrema direita que nos empurre no caminho da radicalização —  já vivido, aliás, na Venezuela, Bolívia e Argentina.

O caminho dos sem voto — pelo menos suficientes para vencer — é tão óbvio como o comentário com que nos brindou importante liderança tucana dias antes do segundo turno:

twitter

Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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O senador Mário Couto, “amigo próximo” de Aécio, é muso inspirador do impeachment

Eles
Antes mesmo daquele velho cantor barbudo e verborrágico, as hordas que pedem o impeachment já tinham um modelo, um homem que fez o que se espera de gente honrada: Mário Couto.

Em abril, o senador pelo PSDB do Pará protocolou um pedido de abertura de processo de impedimento de Dilma Rousseff em razão dos “prejuízos” causados pela compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras.

Afirmava que a presidente cometeu crime de responsabilidade ao autorizar a operação em 2006, quando era presidente do conselho de administração.

É uma figura folclórica. A campanha deste ano teve uma mãozinha de Aécio Neves, que declarou num vídeo que se tratava “dos amigos mais próximos que fiz na política. A sua coragem, ao lado do seu amor ao Pará e a sua gente, serão decisivos para que nós possamos iniciar, no Brasil, rapidamente, um novo ciclo, onde a decência e a eficiência possam caminhar juntas. Eleger Mário Couto é eleger o lado bom da política brasileira.”

O protomuso do impeachment — que chamou, certa vez, os colegas de “ladrões” — tem uma carreira, para usar um eufemismo, controvertida. Apesar de Aécio usar o termo “decência” para se referir ao chegança, Couto está envolvido em diversos escândalos.

O mais recente se refere a doações de assessores parlamentares para senadores. Pelo menos 56 funcionários deram aproximadamente 230 mil reais para seus chefes.

O principal beneficiário foi Mário Couto, que levou 71 mil reais de nove estafetas. Uma assessora garantiu ao Congresso em Foco que estava orgulhosa de doar mais do que o valor de seu salário. “Tenho umas economias”, falou.

Em novembro de 2012, ele teve os bens bloqueados pela Justiça do Pará, acusado de improbidade administrativa. Segundo o Ministério Público, houve contratações suspeitas em sua gestão na Assembleia Legislativa, entre 2003 e 2007. Uma empresa de tapioca foi acionada para prestar serviços de engenharia. Os desvios somavam 13 milhões reais. A história recebeu o sugestivo apelido de “tapiocouto”.

Edisane Gonçalves, que trabalhou como sua assistente-administrativa, também o denunciou por abuso de autoridade. Couto a teria chamado de “preta”, “safada”, “macaca” e “vagabunda”. De acordo com o Diário do Pará, Edisane fora agredida porque se recusou a fazer propaganda política. Vingativo, Couto teria perseguido o companheiro de Edisane, acusando-o de manter carne imprópria para consumo em seu açougue.

Com o impeachment na moda, o nome de Mário Couto foi relembrado. Aos fãs, ele deixou uma mensagem no Facebook: “Meu pedido foi apresentado à Câmara dos Deputados, mas não foi acolhido. Portanto, foi engavetado. Mas diante das muitas perguntas aqui, indico essa página para vocês começarem a mobilizar todas as pessoas insatisfeitas com o atual governo. Não vamos nos dispersar.”

Mesmo com a força de Aécio e a vaquinha dos funcionários, Mário Couto não se reelegeu. Mas a sua luta continua.

Kiko Nogueira
No DCM
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A oposição de bengala


Teve ares de tragicomédia a manifestação de sábado (1º) na avenida Paulista, em São Paulo. Seus objetivos democráticos foram resumidos nas faixas exibidas. "Impugnação ou intervenção militar"; "A maior fraude da história"; "Impeachment já". Hoje transformado em cordeiro devidamente emasculado, um artista exigia aos brados uma recontagem de votos. Que o ato tenha ocorrido na véspera do Dia de Finados compõe uma daquelas coincidências autoexplicativas.

Assiste-se a um espetáculo curioso desde a eleição. É como se Dilma Rousseff não tivesse ganho. Na ausência de votos, setores da oposição parecem levar a sério o mantra de Carlos Lacerda, transformado em estribilho pelas viúvas do golpismo. O político sugestivamente apelidado de corvo dizia mais ou menos isso a adversários: "Não pode ser candidato; se for candidato, não pode se eleger; se for eleito, não pode tomar posse; se tomar posse, não pode governar".

Descontada a falta de originalidade –nada como o passado quatro estrelas–, a coreografia dos derrotados é sugestiva. O pedido de recontagem de votos feito pelo PSDB nem sequer merece comentários. Demonstrassem os tucanos tanta celeridade para investigar seus próprios e verdadeiros esqueletos, certamente o país já estaria melhor.

A outra "novidade" é a articulação para desencavar uma emenda estacionada na Câmara desde 2006 sobre a aposentadoria de ministros do Supremo Tribunal Federal, a "PEC da bengala". Pela regra atual, a idade limite para o cargo é de 70 anos. Feitas as contas, de repente, não mais que de repente (com oito anos de atraso!), a oposição "descobriu" que o governo Dilma terá a chance de nomear cinco novos ministros da corte.

Ponha-se de lado a acusação implícita de que o Planalto pretende domesticar o Judiciário. Isso seria baixaria, e a turma fraca de urna é incapaz de crítica tão vil... Esqueça-se também que o Supremo protagonizou no dito mensalão episódios de envergonhar figuras como Sobral Pinto e mesmo Tancredo Neves, caso ainda vivos. Detalhe: vários ministros indicados pelo próprio governo petista endossaram condenações de réus na AP 470.

Fica evidente a vontade de fatias oposicionistas de achar qualquer atalho para concretizar o rito lacerdista. Sorte que vivemos outra conjuntura, o povo não é bobo e falta aos candidatos a golpista alguém com a esperteza de um Lacerda. Por mais que tente ocupar espaço parecido e vender gato por lebre, Aécio Neves sai como um dos grandes perdedores. Derrotado em seus dois estados do coração –Minas Gerais e Rio, não necessariamente nesta ordem– e humilhado mesmo em Pernambuco de Eduardo Campos, foi salvo de um vexame maior, olha só, pelo volume morto de Alckmin. Num partido de caciques emplumados, é fácil enxergar quem triunfou na oposição.

Em benefício da dúvida, recomenda-se esperar a poeira baixar antes de prognósticos definitivos. O novo mandato de Dilma Rousseff promete uma luta ainda mais renhida pelo poder. A seu favor, o PT tem a vitória indiscutível nas urnas e uma série de realizações no campo social. Contra o partido, há as dificuldades econômicas reconhecidas por todos, um Congresso sempre cheio de surpresas e fraturas internas que cobram uma dedetização profunda baseada na Justiça. Nada impossível de superar, bem entendido. Desde que a luz do dia ilumine as sombras de negociatas com as elites de plantão.

Ricardo Melo
No fAlha
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Caro FHC: o senhor poderia dizer quais foram as mentiras ditas sobre Aécio?

FHC
Fernando Henrique Cardoso disputou com Lobão o papel de figura mais ridícula deste último final de semana.

Na minha opinião, ganhou.

Num artigo, FHC recorreu a um lugar-comum que vem sendo utilizado pela oposição, incapaz de analisar os reais motivos que a levaram a mais uma derrota nas urnas.

FHC falou nas “mentiras” da campanha petista. Na “descontrução” de Aécio.

Quais serão as mentiras?

Olhemos para trás.

O aeroporto de Cláudio, por exemplo. É mentira? É invenção?

Acabaram as eleições, mas espera-se que o caso não seja esquecido. Aécio tem que ser devidamente cobrado por ter torrado 14 milhões de reais de dinheiro público num aeroporto privado.

Que o novo governo de Minas tire do armário todos os esqueletos da era Aécio, a começar pelo aeroporto.

Era mentira que Aécio colocou dinheiro público, na forma de propaganda, em rádios suas? Aliás: essas rádios são uma mentira?

Como um político pode ter rádios – escondido dos olhares públicos, aliás – e ao mesmo tempo falar em decência e ética?

Era mentira o nepotismo desenfreado de Aécio, simbolizado em Andrea Neves?

Agora: mentira, neste capítulo, foi o uso por Aécio, num debate, do irmão de Dilma, o modesto, o discreto Igor.

Só depois das eleições, aliás, o Estadão mostrou quem é Igor. É uma espécie de Mujica, até no carrinho velho.

Era mentira que Aécio, aos 17 anos, ganhou do pai deputado um emprego que deveria levá-lo a Brasília ao mesmo tempo em que estudava no Rio?

Era mentira que aos 25 anos ele foi nomeado diretor da Caixa por um primo que era ministro? Justo Aécio, que não cansou de falar em meritocracia e aparelhamento.

Vamos ao próprio FHC.

Era mentira que houve compra de votos no Congresso para a aprovação da emenda que permitiu sua reeleição?

Mentira é mentira. Não adianta FHC tentar chamar verdades de mentiras.

Mentira mesmo é dizer, como Aécio fez, que pesquisas mostravam que ele estava dando uma surra em Dilma em Minas com base em números que ele sabia serem enganosos. O dono do instituto revelou que avisou. O estatístico também.

Mentira também foi a tentativa canhestra de usurpação de programas sociais como o Bolsa Família.

O PSDB tem um problema dramático. Não tem causa. Virou um grande conglomerado de direita.

Mesmo com o apoio de todo mundo – mídia, Marina, Eduardo Jorge etc etc – apanhou.

É um partido que tem muito mais passado que futuro.

Os tucanos teriam que se reinventar, mas quem poderia fazer isso?

Aécio? Pausa para gargalhada.

Alckmin? Pausa para mais gargalhada.

E então, na falta de ideias novas e líderes novos, aparece a desculpa da mentira.

Duvido, sinceramente duvido, que FHC, afinal um homem inteligente, acredita de fato que sejam mentiras as verdades que ele diz serem mentiras.

A isso – tratar verdades como mentiras sabendo que são verdades —  se dá o nome de cinismo. Ou, em política, demagogia.

Paulo Nogueira
No DCM
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'Estamos perplexos'

Os aspectos obscuros — e, enquanto o forem, também suspeitos — em torno das alegadas acusações do doleiro Alberto Youssef a Lula e a Dilma Rousseff, publicadas por "Veja", aumentaram em número, em gravidade e no emaranhado.

O advogado de Youssef, Antonio Figueiredo Basto, negou a notícia de "O Globo", comentada em artigo aqui, segundo a qual as acusações foram feitas como "retificação" a depoimento anterior, respectivamente, nos dias 22 e 21 últimos.

O jornal atribuíra o pedido de "retificação" a "um dos advogados" de Youssef, o que Antonio Basto também nega.

Ao fazer a retificação da "retificação", "O Globo" continuou sem identificar o tal advogado e sem informar a procedência da notícia contestada. O que não é incomum nem lhe acrescenta qualquer responsabilidade. Mas obscurece um pouco mais o caso. Porque na origem da informação incomprovada havia o óbvio propósito de complicar mais o episódio, dificultar sua elucidação.

Não foi a primeira intervenção negadora de Antonio Basto, nem a mais importante. E não muda em nada os aspectos que a Polícia Federal considera necessários investigar em inquérito. Por suspeitar de indução para que Youssef, preso e dependente de benefícios prometidos, mas ainda não formalizados, fizesse as acusações para influírem no eleitorado. Possível crime não incluído na atual delação premiada.

"O Globo" foi também o primeiro jornal a noticiar as acusações publicadas por "Veja" a 48 horas da eleição presidencial. No seu texto, dia 24, à pag. 5: "O advogado de Youssef, Antonio Figueiredo Basto (...) disse não ter conhecimento da informação citada pela revista". E dá a palavra ao advogado: "Eu nunca ouvi falar nada que confirmasse isso (que Lula e Dilma sabiam do esquema de corrupção na Petrobras). Não conheço esse depoimento, não conheço o teor dele. Estou surpreso - afirmou Basto". Os parênteses nesse trecho são do jornal.

Mais: "Ele disse que Youssef prestou muitos depoimentos no mesmo dia [21] e que o doleiro estava acompanhado de advogados de sua equipe". Palavras de Antonio Basto: "Conversei com todos da minha equipe e nenhum fala isso [a acusação]. Estamos perplexos e desconhecemos o que está acontecendo. É preciso ter cuidado porque está havendo muita especulação".

Antonio Basto "nunca ouviu falar" nas acusações atribuídas a seu cliente. Entre "todos na sua equipe", "nenhum fala isso" (ter havido acusação). E, no entanto, como o advogado quis esclarecer ao negar a notícia posterior de "retificação" acusatória, "participam dos depoimentos a Procuradoria-Geral da República, delegados da Polícia Federal e agentes, além de um advogado de defesa".

O que essa explicação transmite é a confirmação da presença, sempre, do próprio Basto ou de advogado de sua equipe, portanto não se explicando que houvesse a acusação e nenhum deles soubesse dela. Tanto mais sendo acusação tão grave, em momento tão sensível. E, Basto esclarece ainda, cada advogado da sua equipe, nas audiências e depoimentos, "confere os documentos produzidos [o que implica leitura das declarações] e as assinaturas".

A retificação do dia 22, para incluir as acusações a Lula e a Dilma, não houve. E essas mesmas acusações no depoimento do dia 21, das quais a defesa "não ouviu nada" e "nunca ouviu falar" antes de servidas ao país pela imprensa?

A resposta profissional de Antonio Figueiredo Basto, como apareceu também na Folha da véspera da eleição, é que "não desmente nem confirma". Explica-se: mesmo o advogado, se disser mais do que "não ouviu falar", e fórmulas assim, estará violando o sigilo exigido para a delação premiada do cliente e anulando-a, não importa se confirma ou se nega o que quer que seja.

O noticiário político da Folha foi cobrado, internamente, para informar sobre a retificação do depoimento — a tal que não houve. Na verdade, procurou fazê-lo, mas, como respondido à cobrança, a retificação foi negada por dois agentes e por um dos advogados do caso. E é verdade que fui avisado disso, mas já perto das 8 da noite. Não houve como localizar em tempo o advogado, nem desejei sustar o comentário sobre a notícia de "O Globo" por entender que todo este assunto das acusações, e das circunstâncias em que apareceram, precisaria ser mexido até se conhecer o seu avesso.

Janio de Freitas
No fAlha
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Adianta lembrar do que a direita fez em 1954?

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=6633

Não consigo deixar de lembrar.

É o meu grande defeito.

Mas não lembro como Funes, o memorioso, personagem de Borges, que lembrava tudo integralmente. Lembro por palavras-chave, por hastag. Isso me faz ir buscar o que falta. Nesses meses de campanha eleitoral, minha memória foi acionada várias vezes. A sensação era de já ter visto tudo, já ter lido tudo, de estar no retrovisor do tempo. Fui reler meus livros, que são a minha memória artificial. Encontrei, em “Getúlio”, muitas situações similares às de hoje. Nunca mudaremos? Jamais?

“Getúlio continuava madrugador. Hábito de homem da campanha. Desde a tentativa de impeachment contra ele, barrada no parlamento, em 4 de junho, dormia ainda menos. A ‘banda de música’, de Aliomar Baleeiro, Bilac Pinto, Afonso Arinos, Raul Fernandez, Prado kelly, Guilherme Machado, Herbert Lévy e os outros, havia perdido uma batalha, mas não desistiria da guerra. A acusação de que Perón havia financiado parte da sua campanha, em 1950, havia mobilizado a oposição. Em 1953, tinha perdido a colaboração de João Neves. Depois de uma entrevista, denunciando um suposto pacto do ABC, entre Argentina, Brasil e Chile, comandado por Perón, e articulado por Batista Luzardo, em nome dele, Vargas, João Neves pediu demissão da pasta das Relações Exteriores. O grosso da crise, pensou Getúlio, datava dali, do instante em que João Neves se bandeou para o outro lado, com armas e munições pesadas. Cada vez mais solitário, acabava de escapar de mais uma tentativa de golpe branco. Mas, de um certo ponto de vista, no último mês e meio, depois do fracasso do impeachment, a situação até tinha melhorado, embora Lacerda ainda inventasse um escândalo por dia”.

Passei anos na França sem nunca ouvir falar em impeachment. A oposição contentava-se em esperar a eleição seguinte para tentar tomar o poder. No Brasil, desde sempre, o impeachment é um atalho sedutor.

Era nisso que Getúlio pensava enquanto afundava na solidão.

Escrevi: “O impeachment havia encontrado a surpreendente resistência de Eurico Gaspar Dutra, seu ministro da Guerra no Estado Novo e seu sucessor, como presidente da República eleito, depois do golpe de 29 de outubro de 1945 e da interinidade de José Linhares. Dutra era um germanófilo e fascistoide, frequentador, na ditadura, do Clube Germânia, como Góis, Lourival, Filinto Müller e Francisco Campos, que só chegou à presidência da República por que ele, Getúlio, da solidão em São Borja, lançou, finalmente, o “ele disse”, a recomendação aos eleitores de que votassem num milico que sempre lhe pareceu meio parvo, embora lhe tivesse prestado bons serviços, principalmente em 1935, quando ajudou a sufocar a Intentona Comunista no Rio de Janeiro”. Sempre igual.

A “banda de música” de hoje tem Merval Pereira, Ricardo Noblat, Reinaldo Azevedo, Arnaldo Jabor, Rodrigo Constantino e tantos outros. O ritmo ainda é o mesmo. A revista Veja tomou o lugar do jornal Tribuna da Imprensa. Os acertos acabam engolidos pela lógica de oposição. Em lugar de cobrir os fatos, a mídia quer determiná-los.

Adianta lembrar? Melhor esquecer. Tudo se repetirá mesmo.

Em 1964, os instrumentos e os muitos dos músicos se repetiriam.

Passados 50 anos, o som ainda é o mesmo.
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É meu dever dizer aos jovens o que é um Golpe de Estado

http://www.hildegardangel.com.br/?p=35008

**Há cheiro de 1964 no ar. Não apenas no Brasil, mas também nas vizinhanças. Acho então que é chegada a hora de dar o meu depoimento.

Dizer a vocês, jovens de 20, 30, 40 anos de meu Brasil, o que é de fato uma ditadura.

Se a Ditadura Militar tivesse sido contada na escola, como são a Inconfidência Mineira e outros episódios pontuais de usurpação da liberdade em nosso país, eu não estaria me vendo hoje obrigada a passar sal em minhas tão raladas feridas, que jamais pararam de sangrar.

Fazer as feridas sangrarem é obrigação de cada um dos que sofreram naquele período e ainda têm voz para falar.

Alguns já se calaram para sempre. Outros, agora se calam por vontade própria. Terceiros, por cansaço. Muitos, por desânimo. O coração tem razões…

Eu falo e eu choro e eu me sinto um bagaço. Talvez porque a minha consciência do sofrimento tenha pegado meio no tranco, como se eu vivesse durante um certo tempo assim catatônica, sem prestar atenção, caminhando como cabra cega num cenário de terror e desolação, apalpando o ar, me guiando pela brisa. E quando, finalmente, caiu-me a venda, só vi o vazio de minha própria cegueira.

Meu irmão, meu irmão, onde estás? Sequer o corpo jamais tivemos.

Outro dia, jantei com um casal de leais companheiros dele. Bronzeados, risonhos, felizes. Quando falei do sofrimento que passávamos em casa, na expectativa de saber se Tuti estaria morto ou vivo, se havia corpo ou não, ouvi: “Ah, mas se soubessem como éramos felizes… Dormíamos de mãos dadas e com o revólver ao lado, e éramos completamente felizes”. E se olharam, um ao outro, completamente felizes.
Ah, meu deus, e como nós, as famílias dos que morreram, éramos e somos completamente infelizes!

A ditadura militar aboletou-se no Brasil, assentada sobre um colchão de mentiras ardilosamente costuradas para iludir a boa fé de uma classe média desinformada, aterrorizada por perversa lavagem cerebral da mídia, que antevia uma “invasão vermelha”, quando o que, de fato, hoje se sabe, navegava célere em nossa direção, era uma frota americana.

Deu-se o golpe! Os jovens universitários liberais e de esquerda não precisavam de motivação mais convincente para reagir. Como armas, tinham sua ideologia, os argumentos, os livros. Foram afugentados do mundo acadêmico, proibidos de estudar, de frequentar as escolas, o saber entrou para o índex nacional engendrado pela prepotência.

As pessoas tinham as casas invadidas, gavetas reviradas, papéis e livros confiscados. Pessoas eram levadas na calada da noite ou sob o sol brilhante, aos olhos da vizinhança, sem explicações nem motivo, bastava uma denúncia, sabe-se lá por que razão ou partindo de quem, muitas para nunca mais serem vistas ou sabidas. Ou mesmo eram mortas à luz do dia. Ra-ta-ta-ta-tá e pronto.

E todos se calavam. A grande escuridão do Brasil. Assim são as ditaduras. Hoje ouvimos falar dos horrores praticados na Coreia do Norte. Aqui não foi muito diferente. O medo era igual. O obscurantismo igual. As torturas iguais. A hipocrisia idêntica. A aceitação da sobrevivência. Ame-me ou deixe-me. O dedurismo. Tudo igual. Em número menor de indivíduos massacrados, mas a mesma consistência de terror, a mesma impotência.

Falam na corrupção dos dias de hoje. Esquecem-se de falar nas de ontem. Quando cochichavam sobre “as malas do Golbery” ou “as comissões das turbinas”, “as compras de armamento”. Falavam, falavam, mas nada se apurava, nada se publicava, nada se confirmava, pois não havia CPI, não havia um Congresso de verdade, uma imprensa de verdade, uma Justiça de verdade, um país de verdade.

E qualquer empresa, grande, média ou mínima, para conseguir se manter, precisava obrigatoriamente ter na diretoria um militar. De qualquer patente. Para impor respeito, abrir portas, estar imune a perseguições. Se isso não é um tipo de aparelhamento, o que é, então? Um Brasil de mentirinha, ao som da trilha sonora ufanista de Miguel Gustavo.

Minha família se dilacerou. Meu irmão torturado, morto, corpo não sabido. Minha mãe assassinada, numa pantomima de acidente, só desmascarada 22 anos depois, pelo empenho do ministro José Gregory, com a instalação da Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos no governo Fernando Henrique Cardoso.

Meu pai, quatro infartos e a decepção de saber que ele, estrangeiro, que dedicou vida, esforço e economias a manter um orfanato em Minas, criando 50 meninos brasileiros e lhes dando ofício, via o Brasil roubar-lhe o primogênito, Stuart Edgar, somando no nome homenagens aos seus pai e irmão, ambos pastores protestantes americanos – o irmão, assassinado por membro louco da Ku Klux Klan. Tragédia que se repetia.

Minha irmã, enviada repentinamente para estudar nos Estados Unidos, quando minha mãe teve a informação de que sua sala de aula, no curso de Ciências Sociais, na PUC, seria invadida pelos militares, e foi, e os alunos seriam presos, e foram. Até hoje, ela vive no exterior.

Barata tonta, fiquei por aí, vagando feito mariposa, em volta da fosforescência da luz magnífica de minha profissão de colunista social, que só me somou aplausos e muitos queridos amigos, mas também uma insolente incompreensão de quem se arbitrou o insano direito de me julgar por ter sobrevivido.

Outra morte dolorida foi a da atriz, minha verdadeira e apaixonada vocação, que, logo após o assassinato de minha mãe, precisei abdicar de ser, apesar de me ter preparado desde a infância para tal e já ter então alcançado o espaço próprio. Intuitivamente, sabia que prosseguir significaria uma contagem regressiva para meu próprio fim.

Hoje, vivo catando os retalhos daquele passado, como acumuladora, sem espaço para tantos papéis, vestidos, rabiscos, memórias, tentando me entender, encontrar, reencontrar e viver apesar de tudo, e promover nessa plantação tosca de sofrimentos uma bela colheita: lembrar os meus mártires e tudo de bom e de belo que fizeram pelo meu país, quer na moda, na arte, na política, nos exemplos deixados, na História, através do maior número de ações produtivas, efetivas e criativas que eu consiga multiplicar.

E ainda há quem me pergunte em quê a Ditadura Militar modificou minha vida!
Hildegard Angel

**O primeiro parágrafo original deste texto, que fazia referência à possível iminente tomada do poder de um governo eleito democraticamente, na Venezuela, foi trocado pela frase sucinta aqui vista agora, às 15h06m deste dia 24/02/2014, porque o foco principal do assunto (a ditadura brasileira) foi desviado nos comentários. Meus ombros já são pequenos para arcarem com a nossa tragédia. Que dirá com a da Venezuela!

*** Pelo mesmo motivo acima exposto, os comentários que se referiam à questão na Venezuela referida no antigo primeiro parágrafo foram retirados pois perderam o sentido no contexto. Pedindo desculpa aos autores dos textos, muitos deles objeto de reflexão honesta e profunda, e merecedores de serem conhecidos, mas não há motivação para mantê-los aqui no ar. O nível de truculência a que levou a discussão não me permite estimulá-la.
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Carta aberta aos jornalistas da Abril e da Globo

Vocês perderam a eleição. Protagonizaram a campanha mais sórdida jamais realizada por órgãos de imprensa em toda a história da República, e assim mesmo perderam. Tentaram envenenar a opinião pública brasileira contra uma candidatura, distorceram fatos, inventaram outros, e orquestraram no mesmo diapasão uma opinião seletiva sobre inquéritos policiais em andamento, atropelando todos os protocolos de comportamento ético de uma imprensa que, mesmo não sendo nunca imparcial na opinião, deveria ao menos tentar sê-lo no noticiário.

Entretanto, não escrevo para celebrar a sua derrota. Muitos já o tem feito. Ao contrário, tomo a liberdade de lhes escrever pelo cuidado que tenho com o seu destino. Gosto da alta qualidade material dos produtos que oferecem à sociedade. As novelas da Globo são sem paralelo no mundo. Os casos de ficção e mesmo as reportagens especiais são de categoria internacional. O mesmo se aplica às revistas não ideológicas da Abril. Contudo, tudo isso está sendo colocado em risco pelo jornalismo sórdido que vocês praticam.

Tenho idade para ter visto muitos impérios jornalísticos brasileiros que se destruíram, ou que foram destruídos pela concorrência. O seu pode ser o próximo. Vocês, nessa campanha presidencial, ao escolheram um lado com o sectarismo principista de um Estado Islâmico, foram além da crítica ao governo para atacar as próprias bases do Estado democrático. Vocês foram ao extremo de subverter o processo judicial envolvendo o poder da República que deveria ser o mais respeitado, a Justiça, em maquinações eleitoreiras rasteiras e macabras. Não fosse a internet, depurando o noticiário, e vocês teriam ganho.

Sei que o caminho suicida que escolheram era uma aposta na candidatura que lhes parecia a mais adequada para tirá-los das dificuldades empresariais e afastar o risco de uma regulamentação mais democrática da mídia. No primeiro caso, o fato de ambas as organizações serem os beneficiários das duas maiores contas de publicidade do governo parece não lhes ser satisfatório. Ou querem mais ou tem medo de perder o que tem. No segundo caso, o risco é um marco regulatório que quebre o monopólio de algumas mídias.

Sim, porque os verdadeiros democratas brasileiros não querem muito mais do que aquilo que os norte-americanos têm. Não me consta que a NBC, a ABC ou a CNN sejam proprietárias de jornais e revistas nos Estados Unidos. Por outro lado, não me consta que o New York Times ou o Wall Street Journal sejam donos de televisões e rádios. Quebrar o monopólio jornalístico da Globo no Brasil não seria diferente do que Cristina Kirchner fez com o Clarín na Argentina, e isso, é preciso reconhecer, simplesmente segue o padrão americano e não tem nada a ver com violação da liberdade de imprensa.

Esta é uma questão política da mais alta relevância, e se alguém, de um ponto de vista imparcial, analisa a campanha presidencial que acaba de ser encerrada encontra amplas justificativas para querer a busca de um marco regulatório adequado. Entretanto, isso é também uma questão econômica, tendo em vista a concorrência no mundo da mídia. A articulação de jornal, televisão e rádio traz óbvias vantagens comerciais monopolísticas para seu dono, além de um inequívoco poder político que pode ser manipulado contra concorrentes, mas também contra a democracia.

Trabalhei sete anos no Jornal do Brasil até pouco antes do início de sua decadência. O JB, quando lá entrei no começo dos anos 70, era dono absoluto do mercado de pequenos anúncios. Quando muitos, e esse era o caso, era a melhor fonte de receita do jornal porque o anúncio era pago adiantado na boca do caixa. Pois bem, a certa altura O Globo decidiu entrar pra valer no mercado de pequenos anúncios. Se fosse jornal contra jornal, tudo bem. Mas o Globo lançou todo o peso da televisão para anunciar seus classificados. Aos poucos, liquidou com o negócio do JB, que não tinha televisão para defender-se.

Esse pequeno incidente revela o verdadeiro poder dos monopólios midiáticos. Quando se trata de política, esse poder é multiplicado. Basta lembrar das consultas obrigatórias que os presidentes faziam a Roberto Marinho sobre iniciativas importantes no tempo em que ele estava em pleno vigor físico. Os herdeiros estão longe da habilidade política do pai, e estão entrando num terreno perigoso de oposição sistemática ao governo. Isso acontece sobretudo na Veja e, principalmente, no Jornal da Globo.

Quando William Waack, Carlos Alberto Sardenberg e Arnaldo Jabor extrapolam sua função de apresentadores e comentaristas para assumirem o papel de doutrinadores raivosos contra a política externa ou interna do governo, manipulando descaradamente o noticiário, é, em sua essência, uma violação das regras de concessão pública de televisão e põem em risco uma organização que, fora da política, é líder absoluta da produção audiovisual na América Latina. Acho que interessa a todos os brasileiros que essa liderança seja conservada e ampliada. Espera-se que o jornalismo da Globo e de Veja não ponham tudo a perder, não junto ao governo, mas junto a telespectadores, leitores e anunciantes, sendo varrido da cena pelo noticiário plural da internet.

José Carlos de Assis, economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.
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Sérgio Porto # 33


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Essa é do Barão... 91


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