29 de out de 2014

PF suspeita de armação em depoimento de Youssef, diz "O Globo"

Para a Polícia Federal, a acusação do doleiro contra Lula e Dilma pode ter sido estimulada pela defesa de Youssef, com intenção eleitoral, um dia antes da publicação de "Veja"

O jornal O Globo traz em sua edição desta quarta-feira 29 uma informação que pode ajudar a elucidar a história por trás da “bala de prata” da oposição contra Dilma Rousseff (PT), a indicação, feita pelo doleiro Alberto Youssef, de que a presidente reeleita e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinham conhecimento do esquema de corrupção na Petrobras. Segundo o jornal, os investigadores suspeitam que a declaração do doleiro pode ter sido forçada pela defesa para influenciar o resultado do segundo turno das eleições.

A Polícia Federal investiga como o depoimento de Youssef vazou e, segundo a reportagem do Globo indica, suspeita da ação da defesa do doleiro. De acordo com o jornal, Youssef prestou depoimento na terça-feira 21, como vinha fazendo normalmente, e não citou Lula ou Dilma. Na quarta-feira 22, diz o jornal, um dos advogados de Youssef pediu para “fazer uma retificação no depoimento anterior”. No interrogatório, afirma o Globo, o advogado “perguntou quem mais, além das pessoas já citadas pelo doleiro, sabia da fraude na Petrobras”. Youssef disse, prossegue o jornal, “acreditar que, pela dimensão do caso, não teria como Lula e Dilma não saberem”. A retificação acabou exatamente neste trecho.

No dia seguinte, a quinta-feira 23, antecipando sua circulação semanal em um dia, Veja publicou as declarações de Youssef a respeito de Lula e Dilma. Segundo a reportagem da revista, o doleiro não apresentou provas e elas não foram solicitadas.

A suspeita da PF levanta uma questão temporal curiosa. Enquanto a retificação do depoimento de Youssef teria ocorrido na quarta-feira, segundo O Globo, Veja afirmou em nota que sua apuração "começou na própria terça-feira, mas só atingiu o grau de certeza e a clareza necessária para publicação na tarde de quinta-feira".

A defesa de Youssef é coordenada pelo advogado Antonio Augusto Figueiredo Basto. Por um ano, Basto teve um cargo de conselheiro do Conselho de Administração da Sanepar, a Companhia de Saneamento do Paraná. Como consta no site da empresa, ele assumiu o cargo em 17 de janeiro de 2011, 16 dias após a posse de Beto Richa (PSDB) como governador do Paraná. Em 25 de abril de 2012, a carta de renúncia de Basto foi lida em assembleia geral da Sanepar, como consta em ata também publicada no site da companhia. No último 23 de outubro, no mesmo dia da publicação de Veja, Basto disse ao mesmo jornal O Globo que desconhecia o teor do depoimento dado por Youssef na terça-feira 21.

A reportagem sobre a suspeita da PF,
publicada nesta quarta-feira 29 pelo Globo,
no pé da págin
A notícia veiculada pelo Globo, apurada de Brasília e Curitiba e que não tem assinatura em sua edição imprensa, apenas na versão online, foi relegada à parte inferior da página 6 do periódico, uma escolha que chama atenção diante da repercussão que teve a capa da revista Veja.

No horário eleitoral do dia seguinte, a sexta-feira 24, Dilma Roussef disse que iria processar Veja, e prometeu investigar a corrupção na Petrobras "doa a quem doer". Na Justiça, o PT conseguiu proibir a editora Abril de veicular propagandas de sua capa, considerada "propaganda eleitoral", e também o direito de resposta diante da reportagem.

Na sexta-feira e no sábado, véspera do segundo turno, panfletos com a capa impressa de Veja foram distribuídos em várias cidades do Brasil. Na madrugada de sábado 25 para domingo 26 começou a circular pelas redes sociais o boato de que Youssef, internado em Curitiba, teria sido envenenado. A Polícia Federal e o hospital em que ele esteve desmentiram a informação, que circulou pelas redes sociais em uma velocidade impressionante, assustando a militância petista na reta final da votação e provocando um impacto que dificilmente poderá ser mensurado.

Também na imprensa brasileira houve repercussões. No domingo 26, um colunista da Folha de S.Paulo, que publicou reportagem de teor semelhante ao de Veja a respeito do suposto conhecimento de Lula e Dilma sobre a corrupção, acusou a TV Globo de ter "medo" ao não repercutir as denúncias dos dois veículos no Jornal Nacional. Em resposta, o diretor de jornalismo da Globo afirmou que as fontes da emissora não confirmaram "com suas fontes o sentido do que fora publicado" pela revista e classificaram como "distorcida" da reportagem da Folha.

José Antonio Lima
No CartaCapital
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Instituto de pesquisa confessa que recebeu pressão

E o PT, nada? E a PF, nada? E o TSE, nada?


Saiu no O Tempo:

Sensus explica seus erros; sócio do Veritá confirma ‘pressão’

Ambos dizem que tendência já mostrava queda de Aécio

Principais derrotados pelo resultado que deu a Dilma Rousseff (PT) a reeleição contra o tucano Aécio Neves (PSDB), os responsáveis pelos institutos Sensus e Veritá justificam as diferenças apontando que seus estudos já mostravam uma tendência de queda do candidato do PSDB. Além disso, o sócio do Veritá, Leonard de Assis, ainda confirmou que o instituto fez uma pesquisa que apontava Dilma à frente, mas que ela não foi divulgada.

Leonard de Assis confirmou que houve pressão externa sobre a empresa para não revelar vantagem da presidente. Na véspera da eleição, ele revelou no Twitter que Dilma estaria à frente, ao contrário dos levantamentos anteriores. Ele ainda afirmava que seu sócio estaria “recebendo pressão” para divulgar resultado diferente.

“Não sei se ele resistiria”, disse no Twitter.

Procurado pelo Olho Neles após o resultado, Leonard de Assis, em conversa gravada, confirmou o que disse no Twitter.

“Eu afirmo isso. Eu divulguei os 53 a 47 por causa disso. Estava começando a arranhar o nome da empresa. Eu pensei: vou divulgar isso aqui de antemão pra mostrar que os métodos que nós estamos usando estão corretos. Isso aqui é o que tem pra acontecer”, afirmou, reforçando que foram feitas três pesquisas, mas a última, justo a que dava vantagem a Dilma, não foi divulgada no sábado, como previsto. A que foi divulgada no dia 21/10 mostrava Aécio com 53,2% e Dilma com 46,8%.

Questionado se o método utilizado nas três pesquisas foi o mesmo, ele afirmou que foi ‘aprimorado’.

“Fomos ajustando os métodos, até chegar a um valor correto, a quantidade certa de entrevistas para cada método”. Leonard afirmou que nem sempre os erros são por culpa dos institutos. “Se eu fizer uma coleta só por telefone, dependendo da lista de telefones que chegar em minhas mãos eu vou ter um resultado ou outro”, explicou.

Sensus

O proprietário do instituto Sensus, Ricardo Guedes, destacou que a empresa teve bom desempenho no primeiro turno.

“Fomos o instituto que mais se aproximou dos resultados”, avaliou. Ele discorda que houve erro no segundo turno.

“Nossos resultados indicaram empate técnico, Aécio 52,1%, Dilma 47,9, para margem de erro de 2,2%, com possibilidade tanto para Aécio neves como para Dilma”, contou.

Ainda assim, os resultados oficiais do TSE ficaram fora da margem de erro. Dilma registrou 51,64% e Aécio, 48,36%. Guedes justifica:

“Logo após o início do 2º turno, houve forte transferência dos votos de Marina Silva para Aécio Neves, que foram se diluindo ao longo do 2º turno, indicando queda das intenções de voto de Aécio Neves”, afirmou.

O diretor do Sensus nega que tenha recebido qualquer reclamação sobre o resultado.


Em tempo: Aqui, como um dos candidatos, o que foi vítima de infâmias e mentiras usou esse assim chamado instituto de pesquisa:



No CAf
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As grandes empresas de mídia têm que passar por um choque de capitalismo

Bancado com dinheiro público
Uma das coisas essenciais que você aprende como executivo é a chamada “base zero” para elaborar orçamentos.

Na inércia, nas empresas, cada departamento vai simplesmente acrescentando no planejamento de seus gastos 5% ou 10%, a cada ano.

A base zero evita isso. Você mergulha em cada investimento e verifica se ele ainda faz sentido. Às vezes, em vez de mantê-lo ou aumentá-lo, você percebe que o melhor mesmo é eliminá-lo.

A quem interessar: foi uma das coisas que aprendi em meus anos de editor da Exame e, depois, de diretor superintendente de uma unidade de negócios da Abril.

Minha introdução se destina a falar da regulação da mídia — um assunto que vai provocar fortes emoções nos próximos meses.

Um passo vital — e este independe de qualquer outra coisa que não seja a vontade do governo — é fazer um orçamento a partir da base zero nos gastos com publicidade do governo federal.

Por exemplo: faz sentido colocar 600 milhões de reais por ano na Globo? Citei a Globo porque, de longe, é ela quem mais recebe dinheiro federal na forma de anúncios.

Do ponto de vista técnico, o carro-chefe da Globo é a televisão aberta — uma mídia que vai se tornando mais e mais obsoleta à medida que avança a Era Digital.

Veja as audiências da Globo. Nos últimos meses, ou até anos, é comum você ver que foi batido o recorde de pior Ibope de virtualmente toda a grade da Globo.

Jornal Nacional? Antes, 60% ou coisa parecida. Agora, um esforço para ficar na casa dos 20%.

Novelas? Para quem chegou a ter 100% em capítulos finais, é uma tragédia regredir, hoje, a 30%, e isto na novela principal, a das 9.

Faustão, Fantástico? Em breve, estarão com um dígito de audiência, pelo trote atual.

Não vou entrar aqui na questão da qualidade. Se um gênio assumisse o Jornal Nacional, o conteúdo melhoraria, mas a audiência não: é a Era Digital em ação.

Pois bem.

Tudo aquilo considerado, 600 milhões por ano fazem sentido tecnicamente?

É claro que não.

Quanto faz sentido: metade? Um terço? Não sei: é aí que entra o estudo com base zero.

É curioso notar que um efeito colateral desse dinheiro colossal que entra todos os anos na Globo — seu Anualão — é o pelotão de jornalistas como Jabor, Merval, Sardenberg, Waack, Noblat e tantos outros dedicados à manutenção dos privilégios de seus patrões e, claro, deles próprios.

Não  é exagero dizer que eles são financiados pelo dinheiro do contribuinte.

Digamos que para 2015 fosse mantida metade do Anualão da Globo. Haveria, aí, 300 milhões de reais ou para ajudar a equilibrar as contas públicas ou, no melhor cenário, para ampliar programas sociais.

Cito a Globo apenas pelo tamanho de seu caso.

Alguns meses atrás, a sociedade subitamente se perguntou se era certo o governo federal colocar 150 milhões por ano no SBT, em publicidade, para que, no final, aparecesse em seu principal telejornal com enorme destaque uma comentarista que apoiava justiceiros, Raquel Sheherazade.

Esqueçamos, no caso do SBT, Sheherazade e tantos outros comentaristas de emissoras afiliadas iguais a ela, como Paulo Martins, do SBT de Curitiba.

“O PT é um tumor maligno”, escreveu ele em sua conta no Twitter perto das eleições. “Essa eleição é o ponto limite para o Brasil desse mal com tratamento convencional. Depois dessa, é muita dor ou morte.”

Em português: ele estava pregando um golpe na democracia em caso de fracasso no “tratamento convencional” — a vontade da maioria expressa nas urnas.

Também ele — aliás numa concessão pública — é bancado pelo dinheiro público. A sociedade aprovaria esse emprego de dinheiro?

É irônico, mas o que a mídia tem que enfrentar é um choque de capitalismo: andar pelas próprias pernas, sem o Estado-babá. (Até hoje vigora uma reserva de mercado na imprensa, por absurdo que pareça em pleno 2014.)

Os bilhões que ano após ano o sucessivos governos — na Era FHC as somas eram ainda maiores — colocam nas grandes corporações de mídia têm ainda uma consequência pouco discutida.

Dependentes do governo — nenhuma sobreviveria se as verbas fossem extirpadas —, elas entram em pânico a cada eleição presidencial. E fazem o que todos sabemos que fazem, pela manutenção de seus privilégios.

Aécio, agora, era a garantia de vida boa para todas elas. O modus operandi de Aécio é conhecido: como governador de Minas, ele triplicou os gastos com publicidade.

Ele não teve o pudor de deixar de colocar dinheiro público nem nas rádios de sua própria família.

Na Minas de Aécio, a imprensa amiga foi bem recompensada com anúncios, incluída a Globo local.

E aqui um acréscimo importante: fora o dinheiro federal, as grandes corporações de mídia são abençoadas também com anúncios de governos estaduais e municipais.

Em São Paulo, os governos do PSDB têm contribuído na medida de suas possibilidades com empresas como Abril, Estado e Folha.

E não só com publicidade. Todo ano, o governo paulista renova um grande lote de assinaturas da Veja para distribuir as revistas em escolas públicas.

Felizmente para a cabeça dos jovens, as revistas sequer são tiradas do plástico que as embala.

Que jovem lê revista, hoje? Mesmo assim, as assinaturas são sempre renovadas.

Mas um passo por vez.

Fazer um orçamento de marketing com base zero nos gastos com publicidade seria uma das atividades mais nobres nestes meses finais de 2014 para a equipe do governo.

Paulo Nogueira
No DCM
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Placar final de manchetes negativas: Dilma 702 X Aécio 56

Ao longo da campanha, falamos algumas vezes sobre o Manchetômetro. A ferramenta criada pelo Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (Lemep) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) veio para explicitar o quanto a mídia é parcial no Brasil: ao longo da corrida eleitoral, Dilma Rousseff foi criticada 12,5 vezes mais que Aécio Neves — foram 702 manchetes negativas para a nossa presidenta reeleita, enquanto Aécio registrou apenas 56.

Na última semana antes da votação do segundo turno, quando a imprensa tentou a todo custo desestabilizar a candidatura de Dilma, publicando acusações mentirosas e mostrando nenhum compromisso com a verdade e com a democracia, foram em média três notícias negativas diárias para Dilma e menos de uma para Aécio. A média dos jornalões, em determinado momento da campanha, era de criticar Dilma 14 vezes antes de tecer um único comentário negativo dirigido a Aécio Neves. Ao longo de uma semana, o Jornal Nacional teve 16 reportagens negativas para Dilma e apenas uma para Aécio.

Nem mesmo a falta de água em São Paulo, gerada pela má gestão tucana no estado, parece ser pauta para a mídia. Os escândalos ligados ao PSDB apareceram, durante a campanha do segundo turno, 50 vezes nos jornais; os ligados ao PT, 122 vezes - mais que o dobro. Tamanha parcialidade da mídia tradicional prejudica o processo democrático - ainda mais quando as grandes redes de comunicação se escondem sob um manto de imparcialidade. Agora, com todos esses números escancarados pelo Manchetômetro, a regulação dos meios de comunicação se coloca como uma pauta urgente para o segundo mandato de Dilma, em nome da defesa da democracia.
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A trapaça do Clarín para desobedecer a lei

Quando tudo parecia estar chegando a um final feliz para a democracia, eis que a esperteza ganhou mais um round. Como um jogador desonesto que impõe a trapaça, o grupo Clarín apresentou seu plano de adequação à Lei de Serviços Audivisuais da Argentina dentro do prazo, mas desrespeitando artigos básicos da lei.

Segundo a Afsca, órgão que controla sua aplicação, foram encontraron vínculos societários e comerciais entre os administradores e membros de duas das seis unidades nas quais o Grupo se propôs dividir. Trocando em miúdos, o que o grupo pretende fazer é se dividir, mas entregar cada pedaço desta divisão a amigos e sócios, para que, na prática, o respeito à lei seja aquele típico negócio para inglês ver.

A manobra foi denunciada publicamente pela Afsca, que segundo a lei, tem poderes para iniciar a chamada adequação de ofício, ou seja, se encarregar de dividir o grupo segundo seus próprios critérios e/ou interesses do mercado.

Bastou o caso vir a luz para que toda a corporação mídiatica argentina voltasse a utilizar os velhos argumentos de ataque à liberdade de imprensa, com o apoio de políticos da oposição. A manchete de hoje do jornal Clarín parace saída do túnel do tempo.

Vai começar tudo e o objetivo final da lei, que é democratizar o espectro audiovisual da Argentina, fica a cada dia mais difícil de alcançar.

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No ArgentinaEtc
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Os 3 maiores micos das eleições 2014







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Marco regulatório: a gota d’água

Conhecidos os resultados eleitorais, espera-se que, no seu segundo mandato, a presidente Dilma Rousseff enfrente a questão inadiável de um marco regulatório democrático para o setor de comunicações ou “da regulação econômica do setor” como ela mesma tem dito.

O grand finale do processo de construção de uma “linguagem do ódio” (ver, neste Observatório, “O que será feito do ódio e de sua linguagem?“) e da partidarização da cobertura jornalística – que vinha progressivamente se radicalizando ao longo de toda a campanha – confirmou os graves riscos para o processo eleitoral e, sobretudo, para a própria democracia, de um mercado oligopolizado que favorece a ação desmesurada e articulada de grupos privados de mídia na defesa de interesses inconfessáveis.

Refiro-me, por óbvio, à edição 2397 da revista Veja, do Grupo Abril, à sua circulação antecipada, à sua planejada repercussão em outros meios de comunicação e à sua utilização (capa reproduzida e distribuída como panfleto) no esforço derradeiro de cabos eleitorais do candidato Aécio Neves (ver aqui).

Liberdade de expressão?

A edição 2397, que não foge ao padrão rotineiro praticado pela Veja, abandona princípios elementares do que possa ser chamado de jornalismo, nos termos definidos historicamente pela própria indústria de comunicações.

Um bom exemplo poderia ser “a teoria da responsabilidade social da imprensa”, consagrada pela Hutchins Commission (Estados Unidos, 1947): “Propiciar relatos fiéis e exatos, separando notícias (reportagens objetivas) das opiniões (que deveriam ser restritas às páginas de opinião) e servir como fórum para intercâmbio de comentários e críticas, dando espaço para que pontos de vista contrários sejam publicados” (ver aqui).

Aparentemente Veja não se preocupa mais com sua credibilidade como produtora de notícias e cultiva de forma calculada um tipo de leitor cujas opiniões ela expressa e confirma. De qualquer maneira, em momentos críticos de um processo eleitoral seu poder de fazer circular “informações” no espaço público é inquestionavelmente ampliado por sua cumplicidade de interesses com outros oligopólios da grande mídia.

Acrescente-se que Veja sempre se ampara legalmente em artimanhas jurídicas de profissionais da advocacia e, muitas vezes, em decisões do próprio Poder Judiciário que tudo permite em nome da liberdade de expressão equacionada, sem mais, com a liberdade da imprensa.

Não foi o que aconteceu dessa vez.

A resposta do TSE

Ações judiciais impetradas pelo PT no TSE tentando diminuir as consequências daquilo que a candidata/presidente Dilma chamou de “terrorismo eleitoral” foram objeto de decisões imediatas e impediram que as consequências fossem ainda mais danosas – embora não houvesse mais tempo para “apagar” insinuações e denúncias publicadas sem qualquer comprovação às vésperas das eleições.

As decisões do TSE, claro, foram rotuladas de “censura” pelo Grupo Abril e unanimemente pelas entidades que representam os oligopólios de mídia – ANJ, Abert e Aner – assim como pelo candidato Aécio Neves, diretamente beneficiado.

De qualquer maneira, a reação pública imediata da candidata/presidente Dilma no horário gratuito de propaganda eleitoral e as decisões do TSE reacendem a esperança de que a regulação democrática do setor de comunicações receba a prioridade que merece no próximo governo.

Talvez a edição 2397 de Veja tenha involuntariamente sido a esperada gota d’água que faltava para que finalmente se regulamente e se cumpram as normas da Constituição de 1988 relativas à comunicação social – que, aliás, aguardam por isso há mais de um quarto de século.

Em especial, urge ser regulamentado e cumprido o parágrafo 5º do artigo 220 que reza: “Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”.

A ver.

Venício A. Lima, jornalista e sociólogo, professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG e organizador/autor com Juarez Guimarães e Ana Paola Amorim de Em defesa de uma opinião pública democrática – conceitos, entraves e desafios (Paulus, 2014), entre outros livros
No OI
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“Democratização de meios de comunicação se impõe”


Para Wanderley Guilherme dos Santos, enquanto sociedade se tornou plural, mídia se concentrou, tornando-se obstáculo a formação de consensos necessários ao país

Costumo entrevistar Wanderley Guilherme dos Santos, desde a década de 1980, quando o país vivia sob o governo de José Sarney. Wanderley é um dos principais pensadores do país de hoje e já perdi a conta de quantas conversas tivemos, desde então. Foram três entrevistas apenas na campanha presidencial de 2014. A primeira, no início, permitiu ao professor mostrar o que estava em jogo na eleição. Na seguinte, logo após o segundo turno, Wanderley fez uma avaliação do primeiro mandato Dilma e apresentou bons argumentos a favor da reeleição. A terceira entrevista foi feita ontem, por escrito, logo após a quarta vitória do PT em eleições presidenciais.

Wanderley acredita que a democratização dos meios de comunicação é um debate que vai se impor a partir de 2015. Sua visão vai além da abordagem política mais conhecida, que condena o pensamento único que dirige os principais jornais revistas e emissoras de TV porque não reflete a pluralidade em vigor na sociedade brasileira. Sem deixar de criticar essa situação, Wanderley aprofunda o debate. Mostra que a concentração da mídia produz prejuízos bem maiores. Representa um obstáculo poderoso ao amadurecimento político do país. Em vez de estimular a formação de consensos em diversas áreas, que poderiam auxiliar no progresso social e na tomada de decisões de interesse geral, os meios de comunicação estimulam a formação de linhas de conflito inegociáveis entre grupos e setores sociais. Ajudam a definir posturas sectárias e criam um radicalismo artificial, sem base na vida real.

Impossível discordar — quando se recorda o jogo dos meios de comunicação na campanha presidencial.

A entrevista:

— Após a quarta vitória consecutiva do PT numa eleição presidencial, um fato inédito em nossa história, qual deveria ser a prioridade do governo Dilma a partir de agora?

As prioridades do governo devem incluir avanços na preocupação social, com a consolidação das leis sociais, por exemplo, e uma revisão da estrutura tributária tornando-a menos regressiva. Não acredito na visão de que projetos mais ousados — como um imposto sobre grandes fortunas — não seriam recomendáveis face ao resultado das eleições. Creio que podem muito bem servir de reanimação ao eleitorado progressista, reduzindo a abstenção e os votos nulos e brancos em próximas eleições.

— O que também poderia ser feito?

Uma revisão profunda da máquina burocrática é absolutamente indispensável, tanto pela investigação do que existe de desperdício pela via da corrupção quanto pela via da ineficiência, uma das raízes, aliás, dos convites à corrupção. Simultaneamente, será obrigatório o desenho de medidas que protejam a economia brasileira da grave crise internacional, o que implica em coordenar esforços públicos e privados. O diálogo com os representantes dos setores do sistema econômico é inevitável. E no mesmo espírito de formação de consensos operacionais, impõe-se uma discussão para viabilizar a democratização dos meios de comunicação.

— Por que não é possível adiar a democratização dos meios de comunicação?

Enquanto a sociedade se torna mais pluralista, como as eleições demonstram, os meios de comunicação se concentram e se mostram obstáculos à formação de consensos operacionais, tentando introduzir linhas de conflito inegociáveis entre grupos e segmentos sociais e econômicos. Não é possível governar democraticamente uma sociedade com uma imprensa amordaçada por interesses oligárquicos como é o caso brasileiro. É crucial produzir a liberdade de imprensa do mundo moderno, até hoje ausente do país que se moderniza em outras dimensões.

— A oposição diz que o país saiu “dividido” das eleições.

O Brasil saiu dividido depois das eleições entre vitoriosos e perdedores, como é costume em democracias. A geografia heterogênea das votações dificulta afirmar a existência de outros eixos de divisão. Com certeza, segmentos de eleitores beneficiados por políticas de governo tendem a votar em seus candidatos. Os governos do Partido dos Trabalhadores têm dado prioridade à descentralização econômica e à distribuição de renda. É natural que seja alta a probabilidade de que tenha obtido mais votos em áreas territoriais e econômicas beneficiadas pela orientação do governo.

— Os sindicalistas perderam um numero expressivo de cadeiras no Congresso. Como explicar isso?

Os sindicalistas perderam cadeiras no Congresso, o PSDB, conservador, aumentou sua bancada na Câmara dos Deputados e o DEM, ultra-direita quase desapareceu. Não há um só princípio ideológico orientando sistematicamente todos os eleitores. Muitos mudam de opinião de uma eleição para outra e essa é uma das razões que fazem da democracia um sistema de negociações entre múltiplos interesses e vitórias não antecipadas. O eleitor brasileiro distingue os diferentes níveis de eleição – presidencial, senatorial, governo estadual, prefeitos, deputados federais, estaduais e vereadores – e com isso o mosaico das casas de representação e os variados níveis de votação majoritária é muito complexo. Não existe no Brasil a arregimentação quase que militar que ocorre na mobilização partidária de sociedades menos democráticas. Em outras palavras: não há superposição de eixos de conflito na sociedade brasileira, com força suficiente para fender a população em dois grupos antagônicos e irreconciliáveis. Daí que os vencedores em eleições presidenciais tenham que se haver com governos estaduais e municipais, além das câmaras representativas, de inclinações diferentes da sua. É o caso, mais uma vez, das eleições de 2014. Há governadores, senadores e bancadas de deputadas com compromissos partidários os mais diversos. Isso é, ao mesmo tempo, efeito e custo democráticos, pois a representação de múltiplos interesses impede a tentativa de qualquer uniformização anti-democrática da sociedade, e ao mesmo tempo impõe custos em tempo de negociação e formação de consensos operacionais.

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As entrevistas de Dilma na Band e no SBT



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Sérgio Porto # 30


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Essa é do Barão... 88


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Contra o compartilhamento de besteiras direitistas


Minha única fala sobre o caso Lobão será esta.

Vocês nunca viram uma curtida, um comentário ou um compartilhamento meu sobre a fala dele.

Infelizmente, a esmagadora maioria das pessoas (muitas delas de esquerda) transformou a leitura dessa opinião infeliz sob todos os aspectos em propagação da fofoca, em Ibope.

E era isso tanto o que ele queria como aqueles que soltam fel a partir de sua voz.

Cada um sabe de si e todos possuem os seus critérios de pauta. Mas se a opinião de alguém que começou a trabalhar com Jornalismo, Publicidade e Comunicação Digital há 23 anos serve pra alguma coisa, deixo um recado:

— Se vocês que se dizem tão politizados, cultos e experientes (não conto aqui o pessoal que age como fã e nem tampouco os despolitizados que enxergam o mundo como uma mera relação entre causa e efeito sob a mesma lente míope da maioria neoliberal a qual se opõem) querem fazer militância séria, propositiva, esclarecedora e debatedora, recomendo não curtir, não compartilhar e não comentar esses posts.

Por que? Porque, exatamente ao contrário do que vocês pensam, vocês não estão disseminando conhecimento. Vocês não estão disseminando esclarecimento. Vocês não estão deixando claro de que lado da sociedade vocês estão.

No máximo, vocês têm feito com que os amigos e assinantes do feed de suas respectivas linhas de tempo (timelines do Facebook) e seguidores no Twitter reacionários pensem que vocês estão juntos. Eles compõem a maioria dos interagentes nas redes (ao contrário do que vocês imaginam) e compreendem que vocês estão endossando essa prática.

Pensem nos milhões de cliques que vocês estimulam e no dinheiro que cada clique ajuda a retroalimentar esse jornalismo marrom e essa inversão de valores acerca da relevância de uma pessoa ou de uma fala como essa para a sociedade.

Isso vale até mesmo para o jornalismo mais investigativo e mais humanista, que não pertence às grandes corporações: a esmagadora maioria das pessoas não lê a matéria inteira e não se dá o trabalho de escrever ou de gravar uma opinião reflexiva de contraponto.

Nesse aspecto, partindo do pressuposto de que a maioria de vocês considera baixo nível, futilidade e extrema ignorância a cultura de fã, absolutamente todos (a mídia dita “progressista” e o seu público) não fazem nada mais profundo do que imitar a dinâmica de Contigo, Minha Novela e Caras.

Às vezes, ainda fazem pior, pois, se reclamam que o outro lado espalha o medo, o golpe etc., essas pequenas “brincadeiras” nada mais são do que um efeito rebote que iguala a todos.

Sim, isto foi um pito. Afinal de contas, vocês ajudam a erguer várias múmias de seus sarcófagos, transformando-as em heroínas e disparando o alarme dos espertos departamentos de marketing das corporações midiáticas, que irão contratá-las e sustenta-las como operadoras do sistema capazes de conquistar o público jovem que não lê os operadores mais antigos.

Aliás, vamos combinar: ao invés de compartilhar quando esses operadores são calados por especialistas honestos dentro da própria programação da qual participam, dentro da casa deles, vocês se preocupam com a pessoa ou com a fala deles — como se esperassem ingenuamente que eles fossem mudar ou fazer algo diferente do discurso para o qual são pagos.

Vocês riem e ficam indignados com suas falas — o que é absolutamente justo. No entanto, lembrem-se de que também prestam-se a um triste papel de inocentes úteis, já que seus ouvintes, telespectadores e leitores os procuram porque pensam da mesma maneira.

Eles só fazem a cabeça de quem já pensa parecido.

Ao invés de deixá-los dentro de suas bolhas, vocês alimentam o monstro.

Apenas reflitam.

Grato.

Hélio Sassen Paz
No Viomundo
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