21 de out de 2014

A força simbólica no ato com Dilma e Lula na PUC de São Paulo


Desde a campanha de 89 que não se via um ato político com tamanha carga de emoção em São Paulo. Os paulistas que votam no PT (e também aqueles que, apesar de não gostarem tanto do PT, resolveram reagir à onda de ódio e conservadorismo que tomou conta das ruas) foram nesta segunda-feira/20 de outubro para o TUCA — histórico teatro da PUC-SP, no bairro de Perdizes.

O TUCA tem um caráter simbólico. E o PT, há tempos, se descuidara das batalhas simbólicas. O TUCA foi palco de manifestações contra a ditadura, foi palco de atos em defesa dos Direitos Humanos. Portanto, se há um lugar onde os paulistas podem se reunir pra dizer “Basta” à onda conservadora, este lugar é o teatro da PUC.

O PT previa um ato pra 500 ou 800 pessoas, em que Dilma receberia apoio de intelectuais e artistas. Aconteceu algo incrível: apareceu tanta gente, que o auditório ficou lotado e se improvisou um comício do lado de fora — que fechou a rua Monte Alegre.

Em frente ao belo prédio, com suas arcadas históricas, misturavam-se duas ou três gerações: antigos militantes com bandeiras vermelhas,  jovens indignados com o tom autoritário e cheio de ódio da campanha tucana, e também o pessoal de 40 ou 50 anos — que lembra bem o que foi a campanha de 89.

No telão, a turma que estava do lado de fora conseguiu acompanhar o ato que rolava lá dentro. Um ato amplo, com gente do PT, do PSOL, PCdoB, PSB, além de intelectuais e artistas que estão acima de filiações partidárias (como o escritor Raduan Nassar), e até ex-tucanos (Bresser Pereira).

Bresser, aliás, fez um discurso firme, deixando claro que o centro da disputa não é (nunca foi!) corrupção, mas o embate entre ricos e pobres. “Precisou do Bresser, um ex-tucano, pra trazer a luta de classes de volta à campanha petista” – brincou um amigo jornalista.

Gilberto Maringoni, que foi candidato a governador pelo PSOL em São Paulo, mostrou que o partido amadurece e tende a ganhar cada vez mais espaço com uma postura crítica — mas não suicida. Maringoni ironizou o discurso da “alternância de poder” feito pelo PSDB e pela elite conservadora: “Somos favoráveis à alternância de poder. Eles governaram quinhentos anos. Nos próximos quinhentos, portanto, governaremos nós”.

O “nós” a que se refere Maringoni não é o PSOL, nem o PT. Mas o povo — organizado em partidos de esquerda, em sindicatos, e também em novos coletivos que trazem a juventude da periferia para a disputa.

Logo, chegaram Dilma e Lula (que vinham de outro ato emocionante e carregado de apelo simbólico — na periferia da zona leste paulistana). Brinquei com um amigo: “bem que a Dilma agora podia aparecer nesse balcão do TUCA, virado pro lado de fora onde está o povo…”. O amigo respondeu: “seria bonito, ia parecer Dom Pedro no dia do Fico”. Muita gente pensou a mesma coisa, e começaram os gritos: “Dilma na janela!”

Mas a essa altura, 10 horas da noite, só havia o telão. As falas lá dentro, no palco do Teatro, foram incendiando a militância que seguia firme do lado de fora — apesar da chuva fina que (finalmente!) caía sobre São Paulo. Vieram os discursos do prefeito Fernando Haddad, de Roberto Amaral (o presidente do PSB que foi alijado da direção partidária porque se negou a alugar, para o tucanato, a histórica legenda socialista), e Marta Suplicy…

Vieram os manifestos de artistas e professores — lidos por Sergio Mamberti. E surgiram também depoimentos gravados em vídeo: Dalmo Dallari (o antigo jurista que defende os Direitos Humanos) e Chico Buarque.

Quando este último falou, a multidão veio abaixo. A entrada de Chico na campanha teve um papel que talvez nem ele compreenda. Uma sensação de que — apesar dos erros e concessões em 12 anos de poder — algo se mantem vivo no fio da história que liga esse PT da Dilma às velhas lutas em defesa da Democracia nos anos 60 e 70.

Nesse sentido, Chico Buarque é um símbolo só comparável a Lula na esquerda brasileira.

Aí chegou a hora das últimas falas. Lula pediu que se enfrente o preconceito. Incendiou a militância. E Dilma fez um de seus melhores discursos nessa campanha. Firme, feliz.

O interessante é que os dois parecem se completar. Se Lula simboliza que os pobres e deserdados podem governar (e que o Estado brasileiro não deve ser um clube de defesa dos interesses da velha elite), Dilma coloca em pauta um tema que o PT jamais tratou com a devida importância: a defesa do interesse nacional.

Dilma mostrou — de forma tranquila, sem ódio — que o PSDB tem um projeto de apequenar o Brasil. Lembrou os ataques ao Brasil nas manifestações contra a Copa (sim, ali o que se pretendia era rebaixar a auto-estima do povo brasileiro, procurando convencê-lo de que seríamos um povo incapaz de receber evento tão grandioso), lembrou a incapacidade dos adversários de pensarem no Brasil como uma potência autônoma.

Dilma mostrou clareza, grandeza e calma. Muita calma.

Quando o ato terminou, já passava de 11 da noite. E aí veio a surpresa: Dilma foi — sim — pra janela, para o balcão do Teatro voltado pra rua.



No improviso, sem microfone, travou um diálogo com a multidão, usando gestos e sorrisos. Parecia sentir a energia que vinha da rua. Dilma, uma senhora já perto dos 70 anos (xingada na abertura da Copa, atacada de forma arrogante nos debates e na imprensa), exibiu alegria e altivez.

Foram dez minutos, sem microfone, sem marqueteiro. O povo cantava, e Dilma respondia — sem palavras. Agarrada às grades do pequeno balcão, pulava e erguia o punho cerrado para o alto. Não era o punho do ódio. Mas o punho de quem sabe bem o lado que representa.

Dilma não é uma oradora nata, não tem o apelo popular de um Lula. Mas nessa campanha ela virou líder. O ato no TUCA pode ter sido o momento a marcar essa passagem. Dilma passa a ser menos a “gerente” e muito mais a “liderança política” que comanda um projeto de mudança iniciado há 12 anos.

Dilma traz ao PT uma pitada de Vargas e Brizola, de trabalhismo e de defesa do interesse nacional. E o PT (com apoio da militância popular, não necessariamente petista) finalmente parece ter incorporado Dilma não como a “continuadora da obra de Lula”, mas como uma liderança que se afirma por si. Na luta concreta.

Uma liderança que — na reta final, nessa segunda-feira de garoa fina em São Paulo — pulava feito menina no ritmo da rua, pendurada no histórico balcão da PUC de São Paulo. Dilma ficou maior.

Rodrigo Vianna
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MP abre ação contra Aécio por aeroporto de Cláudio


Ministério Público Federal em Minas Gerais decidiu abrir investigação para apurar se o ex-governador mineiro cometeu improbidade administrativa na construção de um aeroporto no município de Cláudio (MG); o aeródromo custou R$ 14 milhões em recursos públicos e foi construído em um terreno desapropriado que pertenceu ao tio-avô de Aécio Neves; segundo denúncia da Folha de S. Paulo, as chaves do aeroporto ficavam em poder da família do hoje presidenciável; tucano nega irregularidades e defende que obra beneficiou a população local.

A parte criminal de uma representação apresentada pelo PT contra Aécio foi arquivada no início do mês pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Ele enviou o restante da representação, no entanto, para Minas Gerais, a fim de que fosse investigado se houve crime de improbidade administrativa.
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Aécio Neves, o "caçador de sonhos"

Em 1989, as famílias que dominam a mídia brasileira impuseram ao país um candidato — Fernando Collor, o "Caçador de Marajás", o candidato que combateria a corrupção e acabaria com os altos salários do funcionalismo público. Exatos 25 anos depois, as mesmas famílias tentam repetir o feito, impondo ao país o seu candidato. Agora, em lugar do caçador de marajás, o que se apresenta é um caçador do direito de opinião dos adversários, de conquistas dos trabalhadores, dos sonhos dos brasileiros.

Em 1989, o candidato das famílias donas da mídia brasileira venceu e, menos de dois anos depois, foi retirado da presidência, numa ampla mobilização popular que resultou no impeachment. Mas a mídia conseguiu criar um novo salvador da pátria, FHC, o caçador da inflação. O sociólogo da Sorbonne derrotou o operário Luiz Inácio Lula da Silva no 1° turno.

Foram dois mandatos de privatizações, de entrega de empresas estratégicas ao capital privado, precarização da mão de obra, arrocho salarial. A indústria nacional, com a abertura sem precedentes da economia, foi dizimada. A pesquisa tecnológica foi abandonada. As escolas técnicas foram quase destruídas por falta de investimento. Nenhuma nova escola técnica foi construída. A ordem era deixar o mercado dar as cartas, pois a economia livre das amarras do Estado nos levaria à felicidade.

Eleito em 2002, Lula recebeu um país quebrado. Ainda mais desigual do que deixara a ditadura militar em seus 21 anos. O modelo neoliberal, que não deu certo em nenhuma parte do mundo, fracassou também no Brasil e foi amplamente rejeitado pela população.

Na era Lula/Dilma o país voltou a sonhar. O cidadão voltou a ter orgulho de ser brasileiro. Recuperou a sua identidade. A desigualdade social foi reduzida drasticamente. Passamos a ser mais respeitados interna e externamente.

Por que setores do grande capital e a grande mídia não aceitam este novo modelo? Porque são os mesmos que sempre defenderam uma sociedade para poucos. Uma sociedade onde a exclusão social é fundamental para garantir o controle através de uma mídia ditatorial, que sempre apoiou as posições mais reacionárias e atrasadas. Tentou derrubar Vargas, foi culpada por sua morte, apoiou a ditadura militar. Se houve um partido que cresceu e se fortaleceu, foi o PIG, Partido da Imprensa Golpista.

Domingo, dia 26 de outubro, o que vamos decidir é se aceitamos um novo caçador ou se continuaremos avançando na conquista de uma sociedade mais solidária, igualitária, que respeite as diferenças, que respeite homens e mulheres. Que mantenha o Brasil forte e soberano.

Nós, do Instituto Telecom, não temos dúvida de que só há um caminho a seguir: Dilma.

Do Instituto Telecom
No Blog do Miro
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Braço direito de Youssef envolve ‘mais tucanos’ na propina da Petrobras


Um dos parlamentares do PSDB de Londrina, região Norte do Paraná, teria recebido propina do esquema do doleiro londrinense Alberto Youssef, preso desde março na Operação Lava Jato da Polícia Federal.

A revelação acima é do empresário Leonardo Meirelles, braço direito do doleiro, em depoimento à Justiça Federal. Ele é acusado de fazer remessas ilegais de recursos para o exterior, conforme seu advogado Haroldo Nater. A informação é da Folha de S. Paulo (clique aqui).

A cidade de Londrina possui dois parlamentares do PSDB: o senador Álvaro Dias e deputado federal Luiz Carlos Hauly. Alvaro é antigo conhecido do doleiro, pois, em 1998, o tucano voou nas asas de um jatinho de Youssef. O serviço teria sido pago pela Prefeitura de Maringá (clique aqui).

Youssef e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa mantinha relações umbilicais com Janene.

Na eleição municipal de 2004, Hauly teria “negociado” para ficar neutro no segundo turno entre Nedson Micheleti (PT) e Antônio Belinati (PP). Na época, o então deputado José Janene (PP), já falecido, denunciara na imprensa que a posição do tucano custou R$ 500 mil. A suspeita também foi registrada pela Folha de São Paulo em 2006 (clique aqui).

Na semana passada, o doleiro declinou o nome do ex-presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), morto este ano, pelo recebimento de propina da Petrobras. A grana seria para “esvaziar” uma CPI no ano de 2009 (clique aqui).

No Blog do Esmael
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Aécio tinha carteira de policial como “secretário particular” de Tancredo


Sem nunca ter tido formação policial, o senador e candidato à Presidência da República, Aécio Neves (PSDB), já teve e utilizou carteira da polícia mineira para dar a famosa “carteirada”.

Aécio aproveitou da influência do clã familiar para obter a carteira de polícia de número 8428, emitida em 19 de abril de 1983 pela Secretaria de Segurança Pública de Minas Gerais (SSP-MG), que assegurava ao seu portador poderes de polícia.

A carteira foi obtida por Aécio quando ele tinha 23 anos, na mesma época em que seu avô, Tancredo Neves, governava o Estado de Minas Gerais.

Cópia do documento publicada neste blog encontra-se arquivada na sede do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon).

Para requerer o seu registro profissional de economista junto ao Corecon, Aécio optou por utilizar a carteira policial em vez da carteira de identidade oficial.

Aécio exerceu o cargo de secretário de gabinete parlamentar da Câmara dos Deputados dos 17 aos 21 anos, entre 1977 e 1981.

No mesmo ano em que “deixou” a Câmara, começou a trabalhar na campanha para o governo de Minas Gerais com o avô. Em 1983, foi nomeado secretário particular de Tancredo Neves.

PS do Viomundo: Aécio admitiu que morava no Rio quando exerceu o cargo de assessor parlamentar em Brasília. Além de neto de Tancredo, ele é filho do falecido deputado federal Aécio Ferreira da Cunha, que serviu à Arena, o partido de sustentação da ditadura militar. Aos 25 anos de idade, depois da morte de Tancredo, Aécio foi indicado diretor da Caixa Econômica Federal pelo então ministro da Fazenda, Francisco Dornelles, primo dele. Era o governo Sarney, do qual Aécio também obteve concessão pública de uma emissora de rádio em Minas Gerais.

Rodrigo Lopes
No Viomundo
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DataCaf urgente! Dilma 47 a 41

É o tracking dessa terça-feira (21)


No CAf

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Policial Lucas Gomes Arcanjo faz novas revelações sobre Aécio




A reportagem mencionada pelo policial Lucas Gomes Arcanjo


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Redes sociais mostraram que Aecioporto estava nu

Quem mandou chamar de “sujos”?


Mauro Paulinho, Diretor do DataFolha, em entrevista a rádio CBN hoje citou que o trabalho articulado pela campanha da Dilma nas redes sociais foi o principal causador dessa arrancada da presidente rumo à reeleição. Tanto na demonstração de solidez deste governo e sobre os avanços na gestão Lula-Dilma, quanto na desconstrução do candidato Aécio Neves e sua imagem de bom gestor.

Isso mostra que a democracia se consolida com uma nova ferramenta, a internet e o trabalho de redes sociais.

No CAf




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Quem desconstruiu implacavelmente Aécio foi o próprio Aécio

Ninguém a quem culpar senão ele próprio
Uma das palavras da moda nestas eleições é “descontrução”.

Ela tem sido usada pelos colunistas VPs, em tom de pretensa indignação, para definir o que o PT teria feito com Marina, no primeiro turno, e Aécio, no segundo.

Ah, sim: entenda, por VPs, as Vozes dos Patrões.

Marina é história. Tratemos da “desconstrução” de Aécio.

Desconstruir implica torcer fatos, manipular informações, inventar coisas que prejudiquem determinada pessoa.

Nada, absolutamente nada disso foi feito com Aécio.

Examinemos alguns dados da alegada “desconstrução”.

O aeroporto de Cláudio, por exemplo. Ele existe, ele custou cerca de 12 milhões, ele está situado num terreno que pertencia ao tio de Aécio e ele, embora pretensamente público, era usado privadamente por Aécio e uns poucos.

Desde que o caso apareceu, Aécio não conseguiu dar uma única explicação que fizesse sentido. Porque não há como defender o que é moralmente indefensável.

Construir o aeroporto de Cláudio acabou por desconstruir Aécio. Como quem construiu foi ele, podemos dizer que ele se desconstruiu.

A partir dali, falar em decência e em ética, pregar sobre o uso de dinheiro público, bradar contra a corrupção — tudo isso soou farisaico, cínico, mentiroso em Aécio.

Consideremos agora os familiares e agregados empregados por Aécio. Para quem fala compulsivamente em “meritocracia” e “aparelhamento”, praticar o nepotismo é particularmente acintoso.

A expressão maior do nepotismo de Aécio é sua irmã, Andrea Neves. Em seu governo em Minas, Andrea controlou as verbas de publicidade, uma atividade vital para o exercício de uma censura branca.

Você premia, com dinheiro, quem dá boas notícias sobre você. Pune, fechando as torneiras das verbas, quem faz jornalismo verdadeiro.

É uma situação que desconstrói quem quer que esteja no comando dela. Quem deu poderes a Andrea Neves? Foi Aécio. Não fui eu, não foi você, não foi o papa, não foi FHC.

Logo, também aqui, ele próprio se desconstruiu.

Não deve ser subestimado um fato, neste capítulo, que agrava as coisas. A família de Aécio tem pelo menos três rádios e um jornal em Minas, e para tudo isso foi destinado dinheiro público em forma de publicidade.

É, em si, uma indecência. Mas, para quem se apresente como guardião da moral, é pior ainda.

Ainda no capítulo do nepotismo, a trajetória de Aécio é o exato oposto da “meritocracia” de que ele fala abusivamente.

Aos 17 anos, o pai deputado federal lhe deu um emprego na Câmara, em Brasília. Só que, com esta idade, ele se mudara para o Rio para estudar.

Aos 25, um parente o nomeou diretor da Caixa Econômica Federal.

Isto não é desconstrução: é verdade. É biografia real. A verdade só descontrói quando o objeto dela fez coisas que merecem desconstrução.

Aécio era uma desconstrução à espera do momento em que luzes clareassem as sombras que sempre o acompanharam. Este momento veio quando ele se tornou candidato à presidência.

Não bastassem os fatos, em si, houve as atitudes nos debates. A grosseria primeiro com Luciana Genro e depois com Dilma, o riso cínico e debochado: assim se desconstruiu a imagem de “bom moço”.

Mas de novo: Aécio não tem ninguém a quem culpar, também aí, senão a si próprio.

Aécio, ao longo da campanha, promoveu uma minuciosa autodesconstrução.

Ganhou a sociedade. Quem votar nele sabe em quem está votando.

Paulo Nogueira
No DCM
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FHC ficou sem tomar banho?

Mônica Bergamo publicou uma notinha hilária em sua coluna na Folha tucana desta terça-feira (21):

“Hoje, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o senador Aloysio Nunes [candidato a vice na chapa de Aécio Neves] e eu vamos ficar sem banho. Acabou a água no califado de Higienópolis”, escreveu o escritor Fernando Morais no Facebook na semana passada, fazendo referência aos tucanos do bairro. Quando o problema passou, ele celebrou: “Vou jantar limpinho. A água voltou ao califado”... A assessoria do Instituto FHC diz que não teria como checar se faltou água também no prédio em que ele mora, pois o ex-presidente está no exterior.

A notinha revela a gravidade da crise de abastecimento de água em São Paulo. Ela agora atinge até os tais bairros nobres da capital — “o califado”, segundo a irônica descrição de Fernando Morais. O problema já era sentido pela população da periferia da região metropolitana há três meses. Mas a velha imprensa ocultou o drama por razões eleitoreiras — num criminoso estelionato para garantir a reeleição do governador Geraldo Alckmin. Além disso, a mídia privada — nos dois sentidos da palavra — nunca se incomodou muito com a situação dos moradores das periferias.

Agora, porém, a tragédia finalmente chegou ao noticiário dos jornalões e de algumas emissoras de rádio e televisão. Somente a revista Veja, que é obrada no esgoto da marginal, evita tratar do tema em suas capas tenebrosas. Mesmo assim, a mídia privada ainda tenta limpar a barra do PSDB, que comanda o Estado há duas décadas. O principal culpado, segundo alguns “calunistas”, ainda é o esquerdista São Pedro, inimigo do cambaleante Aécio Neves. Há poucas críticas à falta de planejamento e de investimentos dos governos tucanos neste setor estratégico.

A própria Folha tucana afirma, nesta terça-feira, que “o PT usa a falta de água em SP contra Aécio” — como se o problema não fosse real. Para o jornal, o tema é “explorado nos programas de TV da petista e também nos debates — sempre procurando associar a imagem dos tucanos a falhas de planejamento que acabam prejudicando a população”. A Folha inclusive dá espaço para o presidenciável tucano justificar a crise no setor, afirmando que a crise decorre “da ausência de apoio do governo federal”. Haja cinismo e falsidade! O cara é um "leviano e mentiroso"!

Há dez anos o Palácio do Planalto alertou o governo paulista sobre o colapso do Sistema Cantareira, que abaste 8,8 milhões de pessoas da região metropolitana de São Paulo. Os tucanos, porém, preferiram beneficiar os acionistas da Sabesp, garantindo elevados lucros, ao invés de investir na ampliação dos reservatórios e na manutenção do sistema, que tem vazamentos e desperdícios crônicos e conhecidos. Agora, a falta de água atinge até o “califado” de Higienópolis. Mas FHC não ficará sem o seu banho. Ele sempre fugiu para o exterior nas horas mais difíceis!




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Por que Aécio sua tanto?


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O Xico Sá que a fAlha censurou!

E o Rola-bosta pode…


Fla-Flu eleitoral

Se no primeiro turno foi Brasileirão de pontos corridos, agora, camarada, é Copa do Brasil, mata-mata

Amigo torcedor, amigo secador, mesmo com a obviedade ululante de PT x PSDB, eleição não é Fla-Flu, eleição não é sequer Atlético x Cruzeiro, Galo x Raposa, para levar a contenda para as Minas Gerais onde nasceram os dois candidatos do segundo turno.

Eleição não é um dérbi clássico como Guarani x Ponte Preta, eleição é tão mais rico que cabe, lindamente contra o voto, meus colegas anarquistas na parada, votar simplesmente no nada, nonada, como nos sertões de Guimarães Rosa, sempre na área.

Fla-Flu, embora exista antes do infinito e da ideia de Gênesis, nego esquece em uma semana. Futebol nego esquece no 25º casco debaixo da mesa, afinal de contas, como dizia meu irmão Sócrates Brasileiro, futebol não é uma caixinha de nada, futebol é um engradado de surpresas sempre dividido com amigos de todos os clubes.

Doutor Sócrates Brasileiro que foi mais pedagógico, um Paulo Freire da bola, com a Democracia Corintiana, do que muitas escolas. Doutor Sócrates, Casagrande e Vladimir nos ensinaram mais sobre a ideia grega do “poder do povo e pelo povo” do que toda aquela imposição de Educação Moral e Cívica dos generais das trevas.

Foi-se o tempo que viver era Arena x MDB, era Brahma x Antarctica. Até porque eles hoje são a mesma coisa, a mesma fábrica, a mesma Ambev que botou dinheiro de monte até na Marina evangélica — ela não queria, mas o tesoureiro, talvez neopentecostal, pegou do mesmo jeito de todo mundo, vai saber, já era.

Eleição é coisa de quatro anos, no mínimo, pois até quem diz que não quer mais compra um aninho de luxúria e sossego iluminista em Paris, como já vimos no caso do FHC, comprovado em um dos maiores furos desta Folha, reportagem do grande Fernando Rodrigues, parlamentar comprado a preço de mensalão superfaturado.

Cadê a memória, a mínima morália, como diria Adorno, jornalismo safado?

Quem dera eleição fosse apenas o Fla-Flu que dizem. Quem dera fosse apenas um cordel que poderia ser resumido na peleja do playboy danadinho contra a mulher durona. É tudo mais complexo, ainda bem, e se no primeiro turno foi Brasileirão de pontos corridos, agora, camarada, é Copa do Brasil, mata-mata.

Como sou favorável à linha dos jornais americanos que declaram voto, coisa que meu jornal aqui teimosamente não encampa, queria deixar claro da minha parte: voto Dilma, apesar do meu pendor anarquista. Perdão, Bakunin, mas meu voto é contra a imprensa burguesa.

Digo que o jornal que me emprega não encampa e justiça seja feita: nunca me proibiu de dizer nada. Nem no impresso nem no blog. “Bota pra quebrar, meu filho”, lembro do velho sr. Frias nessa hora, que cabra! Seria legal que todos os jornalistas, que têm lado sim, se declarassem.

Quem se apresenta para tornar as coisas mais iluminadas?
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Não é preciso gostar do PT para reconhecer o que está em jogo no RS

Com quanta carga de ódio se constrói um hospital? Quanto de raiva é requerido para contratar médicos dispostos a trabalhar no serviço público? Quanta repulsa é necessária para se ter pleno emprego numa região em que o emprego era escasso e as perspectivas de vida profissional, idem? Quantas buzinas, sob gritos de “ladrões”, “vai consultar com um médico cubano, f.d.p.”, “Vai para Cuba”, é preciso que se aperte, para abrir estradas e construir pontes?

Nestas eleições, a reação conservadora no Rio Grande do Sul está obcecada por uma paranoia da sobrevivência. É um delírio configurado numa candidatura que oscila entre a oligofrenia política e o vazio de ideias desavergonhado, cuja estupidez e ridículo não tem precedentes, salvo em aberrações, como a Senhora Roriz, nas eleições para o Distrito Federal, de 2010, também pelo PMDB e também num contexto de ameaça à sobrevivência política.

Que fique claro: a direita gaúcha embarcou nessa maluquice e está disposta a mobilizá-la num cálculo evidente, nada delirante. O delírio é um operador ideológico escolhido pelo desprezo, característico de toda perspectiva oligárquica, ao esclarecimento. O que importa não é o candidato mais qualificado, nem o mais sério, nem se há ou não um bom governo em andamento (a população já decidiu que há, em tempo). Não importa quais os projetos em disputa e nem se e em que medida esses projetos estão ligados ao pertencimento do estado ao país. Importa resistir à integração com o Brasil, importa reagir a uma promessa histórica nascida ela mesma das entranhas do Rio Grande do Sul: a ideia de estado nacional federado e republicano. Isso explica o atavismo odioso, característico de todo nacionalismo, essa expressão residual em que forças políticas erguidas sobre a paranoia se alimentam.

Nenhum projeto para o estado é necessário, nesse embalo de ódio e rancor. Nenhum compromisso econômico, político, histórico. Quando o país sai, pela primeira vez na história, do mapa da fome no mundo, um candidato ao governo do RS apresenta como programa de governo trocar lixo por comida, “para resolver os problemas dos mais pobres”. A agressividade só é superada, diante de programa dessa estatura moral, pelo cinismo de um candidato que faz as vezes de um néscio: diz com orgulho que não assinou qualquer compromisso com a agenda dos professores do estado, para depois, num chiste, revelar o seu desprezo: não reconhece tal coisa como um piso salarial.

O deputado federal mais votado, daqui, pega o microfone para dizer que quilombolas, sem-terra e gays são “tudo o que não presta”. Interpelado posteriormente, corrigiu-se: “gays, não’, afinal, gays podem ter dinheiro e famílias bem nascidas, talvez até um sobrenome alemão. Aos negros cabe a condição de aprendiz de cozinheiro em cantina italiana, em plena propaganda eleitoral, constituída num show de horrores anos 30 na Alemanha. Tudo é branco, alegre, as criancinhas se abraçam, as pessoas sorriem, ninguém quer brigar. Só tem aquele pessoal que a gente tem de eliminar, não é, aquela turma que usa uma estrela. Eles são o mal.

É regressivo e constrangedor. Ontem, dia 20, no fim da manhã, saí para passear com meus cães e passamos na frente da casa do governador, candidato à reeleição. Quase no mesmo instante, uma caminhonete dessas que custam um apartamento tamanho médio, carregada de adesivos onde suavam palavras racistas, diminuiu a velocidade e começou a buzinar, na frente da casa do governador, que tem grades, mas não muro. Abaixou o vidro e urrou impropérios.

Não é, mesmo, preciso apresentar um projeto de governo, nem assumir qualquer compromisso com o povo. A reação conservadora, no RS, tem a cara de um néscio e o corpo de um monstro carregado de ódio, uma espécie de Goodzila, envenenado midiaticamente, cevado em paranoia pela perda imaginária de um poder de fato ausente há mais de um século, com um único propósito: destruir o PT, para não desaparecer. Não faltam, como nunca faltou, crentes no mal dos portadores da estrela no peito.

O que se passa, no entanto, é que um néscio com um Godzila atrás de si não governam. E eles talvez não estejam aí, mesmo, a fim de governar, mas resistir, às custas, como o fizeram nas administrações Rigotto e Yeda, do erário combalido do Estado do RS. O mesmo, aliás, que ajudaram a depauperar, em administrações desastrosas, concentradoras e politicamente regressivas. O fato de terem como único projeto explícito a troca de lixo por alimento perecível, apresentado com orgulho e agressividade, em cadeia de televisão, é a maior evidência do desprezo que a direita cultiva pelos pobres e deserdados.

É por isso que não é preciso ser petista, gostar do PT, ser de esquerda, para reconhecer o que está em jogo no RS. Há um governo, talvez o primeiro em vinte anos, que combina uma agenda política com uma econômica consistente, que assegurou pleno emprego na região metropolitana de Porto Alegre, passe livre estudantil nessa região, que está coadunado com o projeto nacional representado pela Presidenta Dilma, por um lado. Por outro, há uma reação conservadora, reacionária, que, para sobreviver, construiu apenas as condições de destruição e aniquilamento – imaginários, como se sabe, visto que a esquerda não desaparecerá por conta de uma eleição – político de uma experiência exitosa, no juízo do eleitorado. Essa reação não precisa sequer de um candidato: um néscio pode sê-lo, de preferência, porque não tem rejeição: como não passa de um sujeito irrelevante, serve bem ao propósito. Um escárnio, mesmo. Escárnio, desprezo e muito ódio. Seria somente ridículo, não fosse tão nefasto.

Não é preciso ser petista, para acreditar no Rio Grande do Sul como parte de um país. Não precisa ser de esquerda para acreditar que a oferta de lixo como moeda de dignidade é indecente, indigna, racista. Não é requerido ser feminista, para defender as patrulhas Maria da Penha, pela Brigada Militar. Não é preciso ser sindicalista, para defender planos de cargos e salários, investimentos internacionais e uma negociação rigorosa sobre os caminhos do desenvolvimento, do investimento e da produção tecnológica. Na atual conjuntura, o mínimo de racionalidade disponível requer apenas uma coisa: não ter ódio.

Sem o ódio, a direita gaúcha e brasileira parece que não pode existir.

Katarina Peixoto
No RS Urgente



O escárnio da direita gaúcha

Em entrevista ao Portal Terra, Sartori faz uma "brincadeira" e diz que quem quiser piso é só ir no Tumelero.

O piso que ele se referia não era o de uma loja de materiais de construção e sim o Piso Nacional do Magistério.

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Aécio vai vender a Petrobras


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Bateu desespero no G1

Eles estão descontrolados!


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Em Belo Horizonte — Atos pró-Aécio e pró-Dilma

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Choveu Dilma em São Paulo ontem à noite. Assista o vídeo

As imagens do vídeo ao final do post são amadoras, de baixa qualidade.

Mas o que elas mostram tem altíssima qualidade: o clima de mobilização atingido pela campanha de Dilma em São Paulo.

Os organizadores puseram pouca fé no encontro de ontem e o marcaram para o Tuca, o Teatro da Universidade Católica, em Perdizes, onde cabem, com gente sentada no chão e nos corredores, cerca de mil pessoas.

Claro que não deu para a saída, sequer.

E o espaço em frente virou um mar de gente.

Assista e veja porque dissemos, mesmo antes dos resultados das pesquisas, porque Aécio entra de crista baixa na reta final da campanha.

Quem já jogou futebol sabe que, em bola dividida, em geral ganha quem entra nela com confiança.

A não ser quando o juiz…




Fernando Brito
No Tijolaço
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Uma viagem até Cláudio - MG, onde Aécio construiu o aeroporto na fazenda do tio

O aeroporto
Em abril de 2012, o Fantástico, da Rede Globo, mostrou a fachada de um casarão antigo no município de Cláudio onde o comerciante Tancredo Tolentino, o Quedo, entregou propina ao desembargador Hélcio Valentim de Andrade Filho, em troca de um habeas corpus para libertar dois traficantes. (assista abaixo). Na sexta-feira passada, eu fui a Cláudio e vi que o casarão ganhou outra finalidade. Além de vender a cachaça Mingote, abriga o comitê eleitoral de Aécio Neves, e Quedo assumiu a coordenação da campanha na região centro-oeste de Minas.

No sábado, depois de entrevistar mais de dez pessoas e de ver o processo que apura a construção do aeroporto, voltei à Mingote para tentar conversar com Quedo. Primo de Aécio, ele é o personagem onde dois escândalos se encontram. O pai de Quedo, Múcio, que é tio de Aécio e ex-prefeito de Cláudio, é o dono da fazenda onde o aeroporto foi construído com dinheiro público. Até estourar o escândalo, a chave do aeroporto ficava em poder da família.

Quedo é também o elo que ligou traficantes presos na região de Cláudio a um desembargador nomeado quando Aécio era governador de Minas Gerais. É o caso noticiado pelo Fantástico, numa reportagem de 11 minutos, rica em detalhes sobre a investigação da Polícia Federal, mas miserável num aspecto: em nenhum momento, é citado o nome de Aécio, embora uma reportagem publicada anos antes na revista do mesmo grupo, a Época, tivesse revelado que Aécio era produtor da cachaça Mingote.

Quedo chegou em um Uno, modelo novo, na companhia de mais três pessoas. Estava de boné, quando me apresentei como jornalista e disse sobre o que gostaria de conversar. Quedo tirou um celular do bolso, me perguntou para quem eu trabalhava e digitou um número. Depois de conversar no telefone, explicou que era da assessoria do primo. “Se eles deixarem, eu falo”, disse.

Enquanto aguardava orientação da cúpula da campanha, Quedo me convidou para sentar num banco em frente à casa da mãe dele, ao lado da Mingote, e disse que precisava ter cautela. “Afinal, é uma disputa para presidente e nós estamos na frente. Daqui uns dias, a Dona Dilma vai morar em Cuba”.

Quedo quis saber o nome das pessoas que eu havia entrevistado e mencionou o ex-vereador Israel de Souza, conhecido como Relinho, autor da denúncia em que o Ministério Público cobra do tio de Aécio a devolução do dinheiro gasto na construção da primeira pista do aeroporto.

Não confirmo, e a conversa prossegue. O telefone toca. “Sim, ele está aqui do meu lado e o carro prata está estacionado aqui na frente da minha casa… Estou vendo o carro”, diz ele, se referindo ao veículo alugado que uso para fazer a reportagem. Desliga o celular e olha para mim, nem um pouco ameaçador.

“Eu já soube que você estava com o Relinho, em frente à fazenda do Aécio. Você sabe que a única pessoa da minha família que se dá bem com o Relinho sou eu? Ele é uma pessoa amarga, difícil. Acho que não se dá bem nem com a família dele”.

Ex-vereador por quatro mandatos, Israel de Souza, hoje com 70 anos, tem uma oficina que conserta geladeiras e já prestou serviços para Tancredo Neves e a mulher, dona Risoleta, tios de Quedo.

A avenida onde fica a Mingote, uma das principais da cidade, se chama Tancredo Neves e é bastante movimentada, mesmo para um sábado à tarde. Um carro passa, ouve-se a buzina e vê-se um aceno efusivo. “É 45!”, grita o motorista para Quedo.

Um carro para, descem algumas pessoas e um homem pergunta, depois de cumprimentar Quedo: “Tem adesivo, desses bem grandes?” Quedo manda um funcionário buscar balde de água e adesivos.

Enquanto o próprio Quedo adesiva o carro, utilizando água para colar, o rapaz que desceu diz: “Esse homem é muito bom. Ajuda todo mundo”. Dois outros carros param e também pedem adesivo.

Um deles, com uma camionete, ganha um adesivo: “Sou médico e voto Aécio”. O homem explica que é uma homenagem à filha, que é médica. O passageiro de um Gol velho, um moreno de bermuda e chinelo, bem alegre, pede o adesivo em troca de uma ajuda para a gasolina.

Quedo afixa o adesivo e tira R$ 10,00 do bolso. O passageiro demonstra satisfação e, rindo, olha para o motorista: “Três litros de gasolina”. Quedo diz: “É assim o dia inteiro.”

No primeiro turno, Aécio teve mais de 12 mil votos na cidade, Dilma, quase 2 500, Marina, 600, e Luciana Genro, surpreendentes 280. “Quem vota nessa maluca? Ela parece que engoliu uma enciclopédia e fala o que dá na telha”.

Quedo volta ao tema do aeroporto: “Foi bom para a cidade. Tem um empresário aqui, o Pedro, que disse que, se o Múcio deixar, ele vai usar o aeroporto”. Como assim, Múcio deixar? O aeroporto não é público? Quedo lembra que não está dando entrevista.

Antes de voltar à Mingote, para entrevistar o Quedo, estive no aeroporto. O portão estava fechado, mas o cadeado era bem novo e diferente daquele que foi fotografado pela Folha de S. Paulo na reportagem que revelou a existência dessa obra em Cláudio.

Quem conhece os hábitos políticos em Cláudio e a tradição dos Tolentino, coronéis no passado, aposta numa versão: o tio de Aécio não quis entregar a chave depois que o escândalo eclodiu, e o prefeito, aliado de Aécio, mandou trocar o cadeado.

A manutenção da chave que abre o portão do aeroporto em poder do ex-prefeito se tornou insustentável depois que o Ministério Público abriu uma investigação para apurar o caso. Numa resposta ao Ministério Público, a prefeitura diz estar hoje em posse da chave do aeroporto.

Mas, mesmo com a troca da chave, permanece o conflito entre público e o privado nas terras da família Tolentino, onde Aécio desfruta de um quinhão hereditário.

A pergunta que todos em Cláudio se fazem é: por que o governo do Estado gastou quase R$ 14 milhões na pavimentação de uma pista de aeroporto, mais 1 milhão para desapropriar a área, se o município tem muitas carências, como a falta de um grande hospital?

A resposta pode estar 31 anos atrás, quando o avô de Aécio, Tancredo Neves, governador de Minas Gerais, transferiu dinheiro do estado para a prefeitura de Cláudio, na época chefiada pelo seu cunhado Múcio, construir um campo de pouso.

Uma publicação da prefeitura à época mostra um orgulhoso prefeito, com uma perna assentada num barranco, inspecionando como um general a obra feita com dinheiro público na sua propriedade. A foto ilustra o que a publicação chama de progresso de Cláudio.

Na ação civil pública aberta em 1999, onde esta foto foi juntada, o promotor de Cláudio à época pediu a devolução aos cofres públicos do dinheiro gasto na obra e revelou que, em sua investigação, constatou que  não teve sequer licitação.

Em seu depoimento ao promotor, Múcio confirmou que o campo fica em sua propriedade, e um dos primeiros pousos foi de um avião que trazia o recém-eleito presidente da República Tancredo Neves, acompanhado do governador de São Paulo, Franco Montoro, e do ministro da Agricultura recém-nomeado, Pedro Simon.

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O atual titular do Ministério Público em Cláudio, Marcos Lamas, herdeiro da ação, compara a obra de construção do campo à ampliação de uma casa.

“É como se o estado construísse uma piscina no quintal da minha casa, mas só poderia usar a piscina quem eu quisesse”, diz o promotor. “Vou cobrar o ressarcimento da obra, com correção e juros”.

Na única vez em que houve um cálculo sobre o valor a ser ressarcido ao estado, citou-se a cifra de R$ 250 mil, bem inferior ao valor depositado com a desapropriação feita por Aécio para a pavimentação da pista: R$ 1 milhão.

Por que, quando governador, Aécio decidiu pavimentar o campo de pouso construído pelo tio, com dinheiro do estado liberado pelo avô, numa propriedade da família?

O argumento do ex-governador é que Cláudio, embora tenha pouco mais de 30 mil habitantes, é o maior polo de fundição artesanal do Brasil e, portanto, com atividade econômica que justificaria o aeroporto.

Há pessoas ricas na cidade, mas apenas três utilizam regularmente transporte aéreo próprio. Gino, da dupla sertanejada Gino e Geno, tem um helicóptero, mas a propriedade dele já conta com um heliponto.

O empresário conhecido como Pedro Cambalau tem avião, mas usa o hangar do aeroporto de Divinópolis, a 50 quilômetros dali. Aécio também usa avião e helicóptero particulares regularmente, e admitiu que utilizou a pista algumas vezes. Ainda assim, se justificaria o investimento?

Segundo o ex-vereador Israel de Souza, o tio de Aécio liberou a pista algumas vezes para amigos e conhecidos praticarem aeromodelismo, e pequenos aviões pararam ali para voos panorâmicos fretados.

O aeroporto de Cláudio fica à margem direita da rodovia de acesso à cidade, em frente a um motel. É parte de uma vasta área que pertenceu ao trisavô de Aécio, Domingos da Silva Guimarães, o Mingote, chefe do clã que se uniria à família Toletino.

A partir do aeroporto, seguindo estrada adentro, depara-se com placas como Fazenda Casa Rosa – Dr. Osvaldo Tolentino (tio de Aécio), Fazenda Santa Ignês / Tia Zezé (parente de Aécio), TAN (Tancredo Augusto Neves (tio de Aécio), Fazenda Cachoeira / Cueio do Jacó (primo de Aécio) e Fazenda da Mata / D. Quita (bisavó de Aécio), hoje em poder do próprio ex-governador.

O aeroporto não é o único bem que revela dificuldade ao visitante de saber o que ali é público e o que é privado. Na fazenda da Mata, encontrei a base de uma torre de alta tensão sem a parte de cima.

Israel de Souza me explicou que, há alguns anos, quando Aécio era governador, ele desviou a rede de alta tensão de sua propriedade. No terreno por onde passava a rede, mandou construir um haras. “A cidade ficou um dia sem luz só para fazer esse desvio”, conta.

A rede hoje faz um traçado curioso. Os cabos vêm em linha reta até o início da propriedade de Aécio, desvia para o lado direito e lá na frente, fora do perímetro da fazenda, para o lado esquerdo. “É um zigue-zague que ele fez para desviar da obra”, diz o ex-vereador.

Um pouco adiante, vê-se uma nova estrada, que desviou o trânsito da fazenda da Mata. “A obra até que foi boa, porque encurtou o caminho de quem vai para o povoado de Matias, mas ele não fez por isso. Fez para tirar o movimento da frente da fazenda”, conta.

Israel conta que, antes do desvio, costumava passar pela frente da fazenda da Mata com seu fusquinha branco. Um dia, avistou um grupo de cavaleiros adiante e fez a ultrapassagem.

Alguns homens galoparam e mandaram Israel parar, para adverti-lo de que ele não poderia fazer isso, pois levantara poeira em cima do governador. “Como é que eu ia saber que era o Aécio? Se alguém tivesse sinalizado, eu não passaria. Mas não tinha ninguém sinalizando e o carro é mais rápido do que um cavalo”, comenta.

A fazenda é uma herança que dona Risoleta deixou para sua filha, Inês Maria, mãe de Aécio e de Andrea. Mas é Aécio quem manda ali, herdeiro de uma tradição da família Tolentino. A sede da Fazenda da Mata é ocupada sempre pelo Tolentino mais poderoso.

Era do Quinto Alves Tolentino e da sua mulher, dona Quita, passou para dona Risoleta e seu marido, Tancredo Neves, e deles para Aécio. Quem toca a casa é uma senhora que cuida de Aécio desde que ele era criança. É uma mulher que permaneceu solteira e o acompanha nas suas viagens com a família.

“Dona Deusa é quem cuida da roupa e da comida do Aécio. Esses dias, eu perguntei para ela como se sentia sendo tia avó dos gêmeos. Ela disse: ‘eles são uma gracinha’”, conta uma moradora de Cláudio, comerciante, que conhece a família.

De volta à conversa com Quedo, ele continua a falar sobre a campanha do primo. “Você viu o depoimento que a Denise Abreu gravou na internet?”

Antes que eu responda, telefona para alguém e pede para enviarem para o meu celular uma gravação em que ex-diretora da ANAC diz que o aeroporto de Cláudio é irrelevante perto das obras do governo federal em Cuba.

Enquanto Quedo cola mais um adesivo em carro, um morador explica que o primo de Aécio se tornou popular em Cláudio porque é ele quem costuma agilizar atendimento médico em hospital de outras cidade, principalmente Betim.

“Quando alguém quebra a perna e não consegue atendimento na Santa Casa de Cláudio, procura o Quedo, e ele com certeza arruma atendimento em alguns lugar”, conta.

Quedo ouve e confirma: “Gosto de ajudar as pessoas.” Ainda que a ajuda, no caso de hospitais, seja pelo Sistema Único de Saúde. Influência do primo?

Quedo já cumpriu pena na cadeia da cidade por sonegação fiscal. Foi na década de 90, e algumas pessoas dizem que, no cárcere, tinha tratamento vip. Recebia visitas na hora que queria, e chegou até a fazer churrasco para amigos.

Em 2011, quando voltou a ser preso, flagrado na negociação de habeas corpus para liberar traficantes, a cidade não se surpreendeu.

“Todo mundo sabe que o Quedo já mexeu com coisa errada, mas ele é tão boa pessoa que a gente nem fala nesse assunto. Nas cavalgadas,  quando o Quedo passa, todo mundo cumprimenta: Oi, Quedo! Às vezes, o Aécio também participa, e a gente cumprimenta: Oi, Quedo. Oi, Aécio. E eles respondem.”

Quedo é alguns meses mais velho que o primo famoso. O telefone toca, Quedo troca algumas palavras e diz:

– A ordem lá de cima é esta: nada de entrevista. Eles me disseram que, se você quiser me entrevistar, venha na segunda-feira depois da eleição. Eu até queria dar entrevista, mas não quero prejudicar. O negócio não é brincadeira. Está em disputa a Presidência da República.

Vou embora, sem a entrevista de Quedo.

Com mais de 30 mil habitantes, Cláudio, no centro oeste de Minas Gerais, é uma cidade conhecida na região por suas lendas. A professora Noeme Vieira de Moura registrou algumas delas, em textos publicados em jornais e revistas do município. Uma fala de um tesouro enterrado numa serra da cidade. Muitos fizeram escavações, mas ninguém encontrou o tesouro, todos afugentados por ventanias e vozes ameaçadoras. A outra lenda é a da santa encontrada também em uma serra. Os homens ricos tentaram levar a imagem para a matriz, mas toda noite ela desaparecia e voltava para o lugar onde foi encontrada. Os proprietários de terra tentaram construir uma capela no local, mas a santa desapareceu para sempre.

Tanto num caso quanto em outro, os escravos são personagens centrais. São eles que escondem o tesouro para não serem roubados pelos senhores. Na outra, foram os escravos que encontraram a santa, que lhes foi retirada pelos fazendeiros. A Enciclopédia dos Municípios Brasileiros diz que a cidade tem esse nome por causa de um escravo, chamado Cláudio, que encontrou um córrego e todos passaram a chamá-lo de córrego do Cláudio. Essa versão é rejeitada pelos mais ricos, que preferem outra, contada por um historiador da região. Segundo ele, Cláudio era o dono de uma pousada para tropeiros.

Valmir Salaro, do Fantástico, em frente à fazenda Mingote
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Joaquim de Carvalho
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