18 de out de 2014

Jornalistas mineiros lançam manifesto pela reeleição de Dilma e liberdade de imprensa em Minas

São conhecidas por todos os mineiros e, principalmente, pelos profissionais da imprensa de Minas, as manobras de Aécio Neves para ser blindado de notícias em desagravo ao tempo em que foi governador do estado. O tucano já tentou censurar sites de busca, como Google, Yahoo! e Bing, para que não mostrassem notícias negativas sobre ele e, mais recentemente, solicitou que o Twitter divulgasse dados de 66 perfis  que supostamente militam na rede contra ele.

Por isso, na noite no último dia 15 de outubro, cerca de 100 jornalistas se reuniram em Belo Horizonte para manifestar seu apoio à reeleição de Dilma e pela liberdade de imprensa. Na descrição do evento, chamado de “Jornalistas Com Dilma”, lê-se: “porque o primeiro compromisso de Minas é com a Liberdade”. Para ver as fotos, clique aqui.

Ao final do encontro, os jornalistas produziram um manifesto, reproduzido abaixo, falando da diferença das coberturas dos principais veículos da mídia sobre a eleição e campanhas dos dois candidatos, e alertam para o perigo da eleição de Aécio e de suas “medidas antidemocráticas”, para toda a sociedade e, em especial para os profissionais da imprensa.

A presidenta Dilma já havia alertado para a blindagem que Aécio construiu para si mesmo em Minas Gerais. Na quarta-feira (15), a presidenta declarou, em coletiva de imprensa em São Paulo, que “o candidato, de fato, não está acostumado a críticas, porque, como a imprensa divulga, tinha certa blindagem quando foi governador".

Aloisio Morais, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, esteve presente no encontro em Belo Horizonte e comentou, em entrevista ao Muda Mais, o episódio do desaparecimento dos documentos do Tribunal de Contas do Estado que mostram a má gestão de Aécio em Minas, citados pela presidenta Dilma no último debate. Aloísio disse que “esse é mais um episódio que mostra como aqui (em Minas Gerais) está tudo dominado pelos tucanos. O poder Legislativo, Judiciário e Executivo. Eles conseguiram influir em tudo. Mostra o descaramento de como há um complô em favor da eleição do Aécio”, declarou.

Veja a íntegra do Manifesto dos jornalistas mineiros pela reeleição de Dilma:



Alerta ao Povo Brasileiro

Nós, jornalistas mineiros reunidos na noite de 15 de outubro de 2014, em Belo Horizonte, vimos manifestar à sociedade brasileira as nossas apreensões quanto ao grave momento vivido pelo país às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais:

1. Estarrecida, a opinião pública mineira e brasileira deparou-se nos últimos meses com uma escalada da cobertura jornalística das eleições pelos meios de comunicação em claro favorecimento de candidaturas à Presidência da República, seja por meio da manipulação de informações políticas e econômicas, seja pela concessão de espaços generosos a um candidato em detrimento dos outros. Tais fatos, públicos e notórios, são sobejamente atestados por instituições de pesquisa e monitoramento da mídia, revelando uma tentativa de corromper a opinião pública e de decidir o resultado das urnas.

2. Infelizmente, tais práticas antidemocráticas, que atentam contra os princípios constitucionais da liberdade de expressão e manifestação e do direito à informação, fizeram parte do cotidiano da comunicação em Minas Gerais, atingindo nível intolerável nos governos de Aécio Neves. A atividade jornalística e a atuação dos profissionais foram diretamente atingidas pelo conluio explícito estabelecido entre o governo e os veículos de comunicação, com pressão sobre os jornalistas e a queda brutal da qualidade das informações prestadas ao cidadão mineiro sobre as atividades do governo. Tais pressões provocaram censura e mesmo demissões de profissionais e uma permanente tensão nas redações. E quebraram as históricas vocações e compromissos de Minas com a liberdade de pensamento e de ideias, traços distintivos da formação e das tradições históricas do Estado.

3. Diante do exposto e por dever do ofício, nós, jornalistas mineiros, alertamos a sociedade brasileira sobre os riscos que tais práticas representam para a Democracia, para o Estado de Direito e para os direitos individuais e políticos dos cidadãos. Reafirmamos que a essência da atividade do jornalista é a liberdade de expressão e manifestação, assegurando o direito da sociedade à informação, livre e plena.

Belo Horizonte, 15 de outubro de 2014

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Aécio não sabe o que diz


Em visita ao estado do Rio Grande do Sul, o candidato Aécio Neves declarou que, caso seja eleito, "os investimentos em portos serão feitos no Brasil, inclusive no Rio Grande do Sul". Sobre a crítica do candidato aos investimentos em empreiteiras que participam da construção do Porto de Mariel, em Cuba, já explicamos a importância estratégica dessa parceria para a nossa economia aqui. Agora, vamos falar de quem investiu mais na indústria naval, Aécio?

Em 2002, quando Fernando Henrique Cardoso, do partido de Aécio Neves, deixou o poder, a indústria naval brasileira estava relegada a serviços menores. Os navios da Petrobras  eram fabricados no estrangeiro. Criação de empregos, então, é bom nem falar. Com FHC, eram apenas 7 mil empregados na indústria naval do país inteiro. Com Dilma, a coisa é bem diferente. Em 2013, 80 mil empregados que produziram 7 plataformas de produção, 2 navios petroleiros de grande porte, 21 navios de apoio marítimo, 10 rebocadores portuários e 44 barcaças de transporte.

Graças à política de produção nacional de Lula e Dilma, o crescimento da Petrobras nos governos petistas e o investimento maciço na exploração do petróleo e do pré-sal, hoje somos a terceira maior indústria naval do mundo. A indústria naval está sendo alavancada com o PAC 2 por meio do Programa de Modernização e Expansão da Frota de Petroleiros (Promef I e II). Já foram entregues sete navios de grande porte. E o Promef ainda tem 14 outros navios em construção, somando 46 embarcações já contratadas. No programa de Expansão e Modernização da Marinha Mercante, já são 288 embarcações contratadas e 93 entregues.

Até abril de 2014 foram concluídos, pelo PAC, 27 empreendimentos em exploração e produção de petróleo, 19 em refino e petroquímica, nove em fertilizantes e gás natural e três combustíveis renováveis. Como resultado da consolidação da indústria naval, foram concluídas duas sondas de perfuração contratados o financiamento de 381 embarcações e 13 estaleiros.

E já que o Aécio está falando para o Rio Grande, mostramos aqui o quanto Dilma investiu na indústria naval do Rio Grande do Sul. Também pelo PAC foi concluída a expansão da Refap S/A (Refinaria Alberto Pasqualini), no Rio Grande do Sul, que passou a ser a 5ª maior refinaria do sistema Petrobras. De 2011 a 2014, o governo Dilma destinou R$ 22,9 bilhões para o setor de petróleo e gás no Rio Grande do Sul e R$ 714,4 milhões para o segmento de portos, investimentos que foram essenciais para reeguer a indústria naval do Brasil, que tinha sido reduzida a pó nos governos tucanos. O Estaleiro do Rio Grande, uma das maiores obras concluídas no Brasil de Dilma, tem uma área de 550 mil metros quadrados, é o primeiro dique seco do Brasil e o maior da América Latina.

Enquanto Aécio trabalha com especulações, Dilma tem muito o que mostrar. Ela não só fez com que o Brasil enfrentasse a crise gerando emprego e renda, como também investiu muito na expansão da indústria do Brasil e tirou a indústria naval brasileira dos anos de abandono vividos durante os governos tucanos. Quem faz uma campanha baseada na mentira não se sustenta, Aécio.

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O que será que Aécio tem para esconder?


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Vazamento seletivo... e agora, Aécio?

Ex-diretor da Petrobras inclui tucano entre os que receberam propina

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Aécio decidiu processar Dilma, MELHOR PROCESSAR TODAS NÓS, candidato #SomosTodasLevianas


Segundo o blog do Fernando Rodrigues candidato do PSDB a presidente, Aécio Neves, decidiu neste sábado (18) processar Dilma Rousseff por “por injúria e difamação”.

"A razão que levou Aécio a decidir processar Dilma foi o mais novo comercial da petista, que foi ao ar hoje. Trata-se de uma peça de 30 segundos no qual um locutor diz que “Aécio tem mostrado dificuldades em respeitar as mulheres”."

Sim, senhor Aécio, o senhor desrespeita as mulheres, é machista. O dedo em riste para a Luciana Genro, a sua expressão de deboche, cinismo e a ofensa embutida na palavra “leviana”. E por tudo isso e muito mais, que não quero expor agora, o senhor é machista.

Sim, somos todas levianas, candidato. Não aceitamos dedo na nossa cara. E temos muito claro que MEXEU COM UMA, MEXEU COM TODAS.

Assista ao vídeo e me conte se o comportamento com as candidatas foi ou não foi machista, desrespeitoso:


No Maria da Penha Neles!
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Proibir falar de Cláudio é um atentado contra a democracia

Publicar o pecado não pode
A decisão do TSE de proibir menções ao aeroporto de Cláudio me lembrou uma das melhores frases de Machado de Assis.

“O maior pecado depois do pecado é a publicação do pecado”, escreveu Machado.

Quer dizer: o problema, sob a estranha lógica do TSE, não é a existência de um aeroporto de uso privado construído com dinheiro público no governo Aécio em Minas.

O problema é falar nele.

É uma pancada na democracia. Não basta a mídia não cobrir o assunto, em seu esforço épico para eleger Aécio. Agora, também na propaganda eleitoral o caso não pode ser explorado.

Quem acredita na explicação do TSE, como dizia Wellington, acredita em tudo. A campanha tem que ser propositiva, esta a alegação.

É uma bobagem que vem envolta em pretensos ares civilizatórios.

O real objetivo das campanhas é permitir que os eleitores conheçam os candidatos.

Num mundo menos imperfeito, isso seria feito pela mídia. Mas não é o que acontece.

Quando a mídia informou a sociedade sobre as rádios de Aécio – um palanque permanente e indecente?

Quando a mídia contou que aos 25 anos Aécio, o Senhor Meritocracia, ganhou o cargo de diretor da Caixa Econômica Federal?

Quando a mídia noticiou que aos 17 anos Aécio tinha um emprego público em que deveria estar em Brasília no mesmo momento em que estudava no Rio?

Nunca.

O TSE exorbitou. Caso algum candidato se sinta vítima de calúnia no programa eleitoral, que recorra à Justiça.

Aécio ao longo de toda a vida foi protegido. Em Minas, a mídia foi sempre controlada, por meio de publicidade, para não publicar coisas ruins sobre ele.

Jornalistas locais disseram que já sabiam faz tempo do aeroporto de Cláudio, mas eram impedidos de escrever sobre o assunto.

Democracia? Liberdade de expressão? Transparência? Meritocracia?

Quer dizer: justo quando os brasileiros podem conhecer um contendor para a presidência, o TSE ajuda na blindagem.

É um gesto simplesmente indefensável.

Se falar em Cláudio não é “propositivo”, falar na Petrobras é?

Desde que vi os togados do STF na televisão no julgamento do Mensalão, perdi todas as expectativas sobre a Justiça nacional.

Mas, ainda assim, pela mão do TSE, ela conseguiu se superar em obtusidade nesta decisão.

Paulo Nogueira
No DCM
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Falta de água em SP, Globo ignora vídeo

É estarrecedor constatar que a blindagem midiática impede que a população de São Paula tenha pleno conhecimento da gravidade em que se encontram seus reservatórios de água.

O blog Tijolaço, dentre outros, alerta há tempos que a situação é catastrófica, mas a velha mídia empresarial escolheu ignorar, ocultar e/ou censurar a divulgação destas informações ao distinto público.

Assistam ao vídeo e comprovem a gravidade da situação

Um sobrevoo pela crise do sistema Cantareira


Regiões que mais consomem água são as que mais votaram em Alckmin

Compare o mapa do abastecimento em São Paulo com a votação de Alckmin em 2010


Do SãoPa
No Megacidadania
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Uma lorota que vendem como se fosse água benta!


Prêmio por produtividade não tem nada a ver com meritocracia.

Ambos tem sua origem moderna no sistema capitalista e na economia liberal, mas são tão antigos quanto o homem de neandertal. Um é forma de explorar o trabalhador, a outra, forma de fundamentar a exploração.

Transpor os conceitos da iniciativa privada exploratória para o serviço público é dar claras mostras de que pretende, na realidade, acabar com os servidores públicos, privatizando (terceirizando) o exercício das atividades.

Se há algo que o mundo já entendeu é o fato de que os serviços públicos são diferentes, em sua natureza, dos privados, mesmo quando se trata do mesmo serviço. Tanto quanto são diferentes as competências exigidas em cada caso, principalmente no tocante aos aspectos habilidades, comportamentos e atitudes exigidas de cada um.

Isso é um fator que tanto a meritocracia — como sistema de justificação — e a produtividade — nos moldes privados — ignoram.

A origem da aplicação desses conceitos no Brasil é bem conhecida: consultorias e programas de qualidade viram a “boquinha” que significava vender seus “serviços” para os governos.

Meia dúzia de grandes empresas — e alguns “programas” capitaneados por empresários, vide exemplo do PGQP do Jorge Gerdau — perceberam a fonte de lucros que representava o poder público.

E logo trataram de cantar o canto da sereia da “modernização administrativa”.

Venderam isso para Aécio Neves em Minas Gerais, um dos primeiros a “cair no conto”. É o tal de “choque de gestão”, nome moderno daquilo que Bresser, ao tempo do FHC, chamava de “contratos de gestão”, modelo desenvolvido pelo Banco Mundial para falir com os estados. Hoje estão em quase todos os estados, prefeituras e instituições públicas.

Todos, invariavelmente falidos.

E, claro, todas as consultorias vão bem, obrigado!

Não bastassem todas as demais razões para não escolher o modelo de governo proposto pelo Aécio Neves, somente essa bastaria para que um único servidor público sequer votasse nele.

Meritocracia e metas de produtividade são modelos de exploração que podem muito bem se adequar à iniciativa privada, onde a força do capital impera, mas no serviço público significa uma única coisa: o seu fim.

Pense bem, servidor público, antes de cair nesse conto — por imaginar que vai poder ganhar uns “contos” a mais — e votar no Aécio Neves:

não compre uma lorota pensando estar comprando água benta!

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Trabalho de mestrado desenvolve software para democracia participativa


As manifestações de junho demonstraram a falta de representatividade dos políticos eleitos. Em resposta, a dissertação de mestrado de Tiago Novaes Angelo usa matemática aplicada e cria um software que destaca os conceitos mais importantes da opinião coletiva.

Um software voltado para a democracia participativa

Programa desenvolvido na FEEC reúne conceitos da matemática e da filosofia


Muitos analistas viram as manifestações que levaram milhares de brasileiros às ruas em junho de 2013 como sinal de uma crise de representatividade: parcela importante dos cidadãos não se sentiria mais devidamente representada pelos políticos eleitos. Medidas como reforma política e uma Assembleia Constituinte foram sugeridas para mitigar o problema, mas talvez a adoção de novas ferramentas tecnológicas também possa ajudar — ou, ao menos, é o que sugere a dissertação de mestrado “Extrator de Conhecimento Coletivo: uma ferramenta para Democracia Participativa”, defendida por Tiago Novaes Angelo na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da Unicamp.

Juntando conceitos de uma área da matemática conhecida como Teoria dos Grafos, e da filosofia do pensador francês da cultura virtual Pierre Lévy, Angelo construiu um software para reunir, extrair e sintetizar o conhecimento a respeito de questões de política pública contido nas opiniões da população afetada por essas políticas.

O programa reúne textos curtos de opinião produzidos pela população consultada e os condensa na forma de grafos — um tipo de diagrama construído matematicamente, no caso a partir da frequência com que as palavras são usadas e das relações entre elas — onde os conceitos mais importantes da opinião coletiva emergem em destaque. 

“Quem sabe o que fazer, dentro de uma certa realidade, é quem vive naquela realidade”, disse o pesquisador. “Por isso, não é a mera opinião deles: é uma opinião contextualizada por quem vive aquela realidade. É um conhecimento que eu ou você não temos”.

Pedra no caminho

Grafos são diagramas formados por pontos, chamados de “nós” ou “vértices”, unidos por linhas, chamadas “arestas”. Esses diagramas podem ser usados para representar e estudar vários tipos de relação que podem ser interpretadas como redes de elementos individuais — por exemplo, o sistema Immersion, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) cria grafos a partir de uma lista de endereços de e-mail, onde cada nó representa um contato presente na lista, e as arestas mostram como esses contatos se comunicam entre si. 

Num grafo, o tamanho de cada nó pode refletir sua importância — no caso do Immersion, se aquele contato é um grande emissor ou receptor de mensagens — e as arestas podem receber pesos, refletindo a intensidade da conexão (ainda nesse exemplo, se os dois contatos se comunicam com frequência), ou mesmo direção, sendo então representadas como setas.

No sistema criado por Angelo, os nós são as palavras presentes nos textos opinativos redigidos pela população, e as arestas têm tanto peso quanto direção. “Imagine, por exemplo, que a população de um bairro é chamada a opinar sobre a educação das crianças dali”, disse ele. “Se um grande número de pessoas achar que a escola deve ser privatizada, digamos, as palavras ‘escola’ e ‘privatizar’ vão aparecer em destaque, e fortemente ligadas”.

Um teste para exemplificar o sistema, apresentado na dissertação, envolveu a análise do poema “No Meio do Caminho”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). O grafo resultante trouxe, em destaque, três palavras — “pedra”, “caminho” e “meio” — fortemente ligadas entre si, com pesos altos nas arestas que as conectam umas às outras.  

“Se eu tiver que pegar a frase que representa esse poema, seria esta aqui, que representa o pensamento maior: ‘no meio do caminho tinha uma pedra’”, disse o pesquisador. “E é interessante, veja: os nós, as palavras que de fato sobraram, são essas, e os pesos se concentram mesmo em pedra, meio, caminho. O programa mapeia o texto original, e me dá ‘no meio do caminho tinha uma pedra’ como ideia principal”.

Entre as dificuldades de implementação estão o problema dos sinônimos – se muitas palavras diferentes são usadas para dizer as mesmas coisas, a rede fica dispersa e é mais difícil extrair conhecimento dela — e das dificuldades ortográficas. Na versão testada na dissertação, houve um processo de correção ortográfica antes de os textos darem entrada no software.

Democracia

Angelo afirma que, mesmo destacando algumas palavras e descartando outras, o sistema ainda é capaz de preservar alguma informação referente ao contexto em que o texto original foi elaborado. “Aí entra um pouco da maravilha da rede complexa. Ela tem essa coisa, digamos assim meio mágica, chamada de métricas de rede complexa, que é você conseguir através de cálculos sobre a rede localizar onde a informação está concentrada sem perder o contexto”. Isso se dá graças aos pesos e ao direcionamento das arestas. “O software distingue entre ‘João matou Maria’ e ‘Maria matou João’”, exemplifica.

O pesquisador também faz uma distinção entre seu software e outros sistemas de inteligência artificial já em uso, como programas que geram textos jornalísticos a partir do input de dados brutos, como estatísticas e resultados esportivos: em 2011, a empresa Narrative Science ficou famosa quando um de seus robôs virtuais produziu uma notícia sobre o resultado de um jogo de beisebol considerada mais informativa que a escrita por um jornalista esportivo humano. 

“Se a gente produz algo assim, teríamos que ter um padrão, um relatório baseado nos dados de uma planilha. São eles que levam a um padrão de resposta”, disse ele. “A ideia aqui é não ter um padrão de resposta. O conhecimento vem do coletivo. Ele não vem de uma máquina, de um terceiro. É uma técnica de inteligência artificial, mas a inteligência não está na técnica em si, está nas pessoas que estão falando. A frase tem que vir mesmo das pessoas, não do programa”.

 “Como a gente trabalhou com democracia, é muito perigoso fazer um programa que fale pelas pessoas”, disse. “O programa vai tentar combinar as opiniões e fazer emergir o conhecimento coletivo. E não que o conhecimento seja construído por uma máquina. Queremos fugir um pouco da ideia de uma máquina que construa isso, porque foge da ideia de democracia que queremos — democracia vem do povo. O instrumento tem que ser um mediador, ele não tem que ter fins próprios, ele é um mediador entre o coletivo e a deliberação politica”.

Representação

A ideia do sistema, disse ele, não é substituir a democracia representativa, mas subsidiá-la com mecanismos de democracia participativa. “As pessoas escreveriam sobre alguma coisa e o programa geraria uma tabela de ideias, e essa tabela de ideias poderia servir de base para os representantes eleitos tomarem as decisões políticas”, exemplificou. “Eles podem usar o material gerado como motivo para fazer um plebiscito, transformar as ideias num projeto de lei e colocar para votação. Num mundo ideal, que as pessoas que tenham consciência sobre alguma coisa, digam alguma coisa, forme-se uma tábua de ideias e aquelas ideias cheguem aos representantes”.

Angelo reconhece que qualquer tentativa de levar o sistema para o mundo real terá de lidar com dois tipos de fraude, a tecnológica, pela violação do sistema em si, e a manipulação por lobbies — com grupos organizados combinando como farão suas apresentações ao sistema, garantindo que certas palavras e ideias tenham destaque especial.

“A fraude é uma questão de segurança, senhas, criptografia”, disse ele. “Uma possibilidade é experimentar algumas ferramentas, entre elas, o uso de assinatura virtual para poder submeter um relato ao sistema”.

Já a questão do lobby pode ser contornada, diz ele, com a universalização do sistema. “O lobby é tão mais eficiente quanto menos plural for a população”, pondera. “Como é hoje em dia? Hoje em dia a internet já atinge 50% das pessoas no Brasil. Os smartphones logo vão estar na mão de todo mundo. E a ideia é ter, de fato, a opinião de todo mundo. Por isso que a gente precisa de um sistema de computador”, explica. 

“Por que a democracia direta não dá certo atualmente? Ou não deu certo no século 18, quando as ideias de democracia ressurgiram? Porque não existia uma forma de ouvir 10 mil pessoas ao mesmo tempo. Aí formavam-se lobbies: um grupinho de cinco, vinte pessoas vinha e impunha a sua posição. Mas gente tem a esperança, é claro, de que num futuro muito próximo a internet atinja de fato todo mundo”, disse.

Futuro

O pesquisador trabalha numa ampliação do sistema para sua tese de doutorado. Ele procura formar uma equipe para pôr no ar um site de webdemocracia, onde o software possa ser testado online e em tempo real. “Esse programa vai receber relatos, e mostrar os resultados. E vamos montar equipes para trabalhar com módulos específicos, por exemplo, um módulo de sinônimos, que é uma coisa complexa de se fazer”. O site deve estar funcionando no início do ano que vem.

Publicação

Dissertação: “Extrator de Conhecimento Coletivo: uma ferramenta para Democracia Participativa”
Autor: Tiago Novaes Angelo
Orientador: Ricardo Ribeiro Gudwin
Coorientador: Cesar José Bonjuani Pagan
Unidade: Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC)

Foto - Antoninho Perri
Carlos Orsi - Do Jornal da UNICAMP
No GGN
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A imprensa venceu o debate


O debate entre os candidatos à Presidência da República, promovido pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), o portal UOL e a rádio Jovem Pan, no começo da noite de quinta-feira (16/10), foi uma vitória retumbante da imprensa hegemônica no Brasil.

Os dois representantes do que resta da política partidária se aproximaram muito do nível a que a mídia rebaixou o confronto republicano: a linguagem dos candidatos finalmente se alinhou com o estilo dos mais prestigiados pitbulls entre os colunistas de jornais e os mais agressivos ativistas das redes sociais digitais.

Foi rompido o protocolo que costumava definir as fronteiras do que deve ou não deve ser dito numa disputa de ideias sobre o destino do país, e os dois contendores afirmaram diante das câmeras o que muitos têm pudor de dizer em reuniões sociais. Questões pessoais foram sobrepostas à agenda governamental e muitas acusações ficaram em suspenso, dependendo da iniciativa e disposição de cada eleitor para consultar os registros da internet sobre o assunto, ou esperar por esclarecimentos da imprensa.

O candidato Aécio Neves afirmou que o irmão da presidente foi funcionário-fantasma na prefeitura de Belo Horizonte; os jornais de sexta-feira (17) o desmentem. A candidata à reeleição questionou o oponente sobre o que achava da Lei Seca, referindo-se diretamente a um episódio sobre Aécio Neves que corre nas redes sociais e que o relacionam a uso de drogas e alcoolismo; ele procurou aliviar o golpe admitindo que havia se recusado a fazer o teste do bafômetro quando foi abordado pela polícia, no Rio de Janeiro, e que se arrependia disso.

Voltamos ao padrão de 1989, quando Lula da Silva foi derrotado por Collor de Mello, em meio a ataques pessoais. Na ocasião, o então candidato do Partido dos Trabalhadores se recusou a usar contra o oponente boatos e denúncias sobre sua vida privada. Acabou derrotado.

Um quarto de século depois, Dilma Rousseff dá voz aos comentários das redes sociais para desconstruir Aécio Neves. Qual será o resultado?

Um tucano morto

No meio do bate-boca em que se transformou o debate eleitoral, os três jornais de circulação nacional tentam posar de moderadores numa briga de rua, mas a imprensa hegemônica não pode fugir às suas responsabilidades. Quem estabeleceu a agenda de baixarias e determinou o nível rastaquera das discussões políticas no Brasil foram as grandes empresas de mídia, ao trocar o jornalismo pelo panfletarismo.

O que faz o candidato da oposição, continuamente, é manusear o material que lhe oferece a imprensa, todos os dias, há anos. O que decide fazer a candidata à reeleição é manusear o que lhe oferecem as redes sociais. Nenhum dos dois se sente obrigado a comprovar cada uma das acusações, porque o contexto midiático há muito deixou de se preocupar com aquelas qualidades essenciais do jornalismo, como a ética e o pressuposto da objetividade.

No espaço restrito dos debates com tempo curto para argumentações, e em meio ao lamaçal criado pela mídia, quem se preocupar com o decoro perde o jogo. 

Assim é que chegamos a uma semana da decisão nas urnas com a agenda política tomada por factoides, meias-verdades, manipulação de indicadores e outras delinquências comunicacionais. Em meio ao noticiário sobre o debate no SBT, os jornais jogam uma cartada de truco: o envolvimento de um tucano morto no escândalo da Petrobras.

Grita a manchete da Folha de S. Paulo: “Delator diz ter pago propina a ex-presidente do PSDB”. Em título no alto da primeira página, O Estado de S. Paulo apregoa: “Ex-diretor da Petrobras diz que tucano recebeu R$ 10 mi”. O Globo, em nota mais discreta também na primeira página, afirma: “Costa diz que pagou propina a ex-dirigente tucano”.

O que isso significa? — perguntaria o leitor ou a leitora que sabe ler nas entrelinhas. Muito simples: a imprensa parece ter acesso exclusivo à fonte da delação premiada, mas precisa reforçar a credibilidade das denúncias, porque as pesquisas indicam que esse escândalo não tem mais potencial para afetar a decisão dos eleitores. Então, recauchuta-se o factoide, incluindo entre os acusados o falecido ex-senador pernambucano Sérgio Guerra, do PSDB, que já não pode ser punido nem se defender.

Você, aí, acha que o debate político caiu na lama? Não se preocupe. A imprensa sempre dá um jeito de piorar.

Luciano Martins Costa
No OI
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Retorno a FHC

Se Aécio Neves vencer, teremos de admitir que brasileiro é o Demônio

Se ele dá risada, é hora do pavor
Ao entrevistar Lula na semana passada, recordei dois episódios do passado que envolvem Fernando Henrique Cardoso. Tempos da greve de 1980 em São Bernardo e Diadema, momento da mais expressiva resistência pacífica à ditadura. A primeira lembrança me coloca ao lado de Lula em um bar de São Bernardo, às costas da fábrica da Volkswagen. Chega FHC, faço menção de me retirar, e Lula diz “fica, fica”. Em silêncio, ouço a peroração do príncipe dos sociólogos a favor da moderação. Está claro que as arengas às dezenas de milhares de trabalhadores aglomerados na Vila Euclydes o deixam bastante incomodado.

Orgulho-me de ter percebido no então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos uma liderança capaz de transcender o papel que então desempenhava. FHC também percebeu, mas isto não o alegrou. A segunda lembrança confirma a primeira. O episódio começa pela conversa telefônica Rio-São Paulo que costumava manter com Raymundo Faoro nas manhãs de domingo. O amigo caríssimo gostaria de galgar o palanque da Vila Euclydes e eu propus: “Venha, será uma honra escoltá-lo”.

À chegada de Faoro no Aeroporto de Congonhas um estranho indivíduo surgiu em cena. Emissário de FHC, e até hoje não sei como soubera dos propósitos do meu amigo. Convidou-nos para parar, a caminho de São Bernardo, na casa da mãe do sociólogo, onde o próprio nos esperava e onde tomamos um chá em louça de Sèvres. Ele sugeria que Faoro desistisse do seu intento. Não o convenceu, e ao cabo nos comunicou que uma assembleia de autoridades nos aguardava no Paço Municipal de São Bernardo. Fomos. Sentado à cabeceira de uma longa mesa perfeitamente encerada, FHC reeditou seu apelo. Levantei-me e disse: “Esta conversa não me diz respeito, eu estou aqui para cobrir um evento relevante e vou cumprir minha tarefa”. Faoro seguiu-me, sem pronunciar uma única, escassa palavra.

Aquele que, 18 anos após, compraria votos de parlamentares para conseguir sua reeleição à Presidência da República, esforçava-se com insólita paixão para impedir a presença de uma personalidade do porte de Faoro no epicentro da greve, a avalizar a ascensão de Lula. Passados 34 anos, FHC aí está, sombra compacta por trás de Aécio Neves. Condescendente, generoso, ao esquecer uma frase fatídica de vovô Tancredo: “Fernando Henrique é o maior goela da política brasileira”. Não sei, aliás, se ao adversário de Dilma Rousseff convém citar o ilustre avô: ele não tinha especial apreço pelo tucanato.

Imaginar o retorno a FHC, em caso de vitória de Aécio, é inevitável. De lancinante obviedade. Donde a ameaça da tragédia, e creio não exagerar em vaticiná-la. Trágico seria o retorno ao passado, com a vitória da reação mais medieval do mundo, empenhada em manter de pé a casa-grande e a senzala. No debate de terça-feira 14, Aécio pretendeu que os adversários insistissem no conflito entre dois Brasis. São os tucanos, no entanto, que proclamam a desinformação dos pobres no mesmo instante em que avulta a desinformação dos ricos. Ou a hipocrisia. E, de todo modo, clamorosamente, o ódio de classes.

Uma vitória de Aécio significaria o enterro de uma política social nunca dantes praticada, por mais insuficiente. De uma política exterior habilitada a desatrelar o Brasil dos interesses de Washington em proveito dos nossos. Bem como o retorno a uma política econômica de desbragada inspiração neoliberal, com todas as implicações, a começar pelo corte do salário mínimo e a alteração da CLT, de resto já anunciadas pelo candidato a ministro da Fazenda de Aécio, Armínio Fraga, presidente do BNDES no governo do eterno goela. E já que se fala de ameaça a uma herança getulista, não nos obriga a espremer as meninges imaginar o triste destino reservado à Petrobras, que o ex-presidente sociólogo pretendia privatar quando no poder, e ao pré-sal, de súbito lotizado.

Há, nisso tudo, exercícios de puro humorismo. Muitos, a bem da verdade factual. Citaria um apenas, retumbante. Sustenta o aludido Armínio que a crise econômica global arrefeceu de cinco anos para cá. Confia na ignorância dos nativos abastados. Se houver dúvidas, sugiro uma investigação elementar junto às Bolsas de todo o mundo diante do recrudescimento de uma situação encerrada, conforme o ex-discípulo de George Soros e Fernando Henrique Cardoso. O qual entende de economia como eu de numismática.

Mino Carta
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'Não se pode confiar nelas', diz estatístico sobre pesquisas eleitorais

No segundo turno da eleição presidencial, números de institutos são díspares e chegam a dar de 17 pontos de diferença em uma pesquisa até 'empate técnico' entre Dilma e Aécio noutra

Pesquisas de intenção de voto do segundo turno já
apresentaram resultados distorcidos na disputa entre
Dilma e Aécio
Para o professor aposentado da Unicamp José Ferreira de Carvalho, consultor da empresa Statistika e um dos profissionais mais reconhecidos da área de estatística no país, as pesquisas eleitorais divulgam margens de erro que não podem ser comprovadas cientificamente. Em relação à discrepância dos números apresentados neste segundo turno da disputa eleitoral à Presidência da República por vários institutos, ele é enfático. “É mais fácil você acertar na Mega-Sena do que acontecer uma coisa dessas”, destaca, em entrevista à RBA.

A partir da análise dos números díspares apresentados na reta final do pleito e dos métodos dos institutos, que têm sido duramente criticados neste ano por terem errado os percentuais finais de votos válidos de alguns candidatos a presidente, governador e senador, o professor ressalta que a margem de erro não é um “projeto estatístico” e que não se deveria permitir a sua declaração, por ser “tecnicamente incorreta.”

Leia, na íntegra, a entrevista com o professor José Ferreira de Carvalho.

A margem de erro divulgada não é científica?

É verdade. Não é um projeto estatístico. Não se baseia em estatística. O que a gente pode dizer, garantidamente, é que a margem de erro que calculam não tem justificativa. Eles calculam como se a amostra tivesse sido aleatória, mas o fato é que ela não é.

A justificativa tem a ver com o custo e rapidez?

É verdade. Para fazer uma amostra aleatória, como o IBGE faria, você teria que ter a lista dos eleitores, seus endereços, e quem for sorteado, tem de ir atrás. E isso é caro, demora muito. Agora, uma coisa é certa: você não pode permitir que declarem uma margem de erro que tecnicamente está incorreta. A declaração, portanto, é falsa.

É falsa?

Exatamente. E aí você vai para a parte empírica. Eles dizem que "Deus" aleatorizou para eles, vamos verificar fazendo uma comparação com o resultado das eleições com as pesquisas mais próximas do sufrágio propriamente dito.

Bom, nós temos levantamentos em que as margens não batem coisa nenhuma. Os desvios que se obtêm dão fora da margem de erro com uma frequência muito mais alta do que seria estatisticamente de se esperar. Você não pode, seja qual for a razão, usar as fórmulas da amostragem aleatória para cotas.

Esse método por cotas é exclusividade do Brasil ou é um padrão internacional?

Eles não inventaram isso. Eles trouxeram isso de institutos de pesquisa da Inglaterra e da França. Esse grandes institutos, Ipsos, etc, estão por trás da formação dessa turma toda. Além disso, esses institutos brasileiros estão nas mãos não de estatísticos, mas de sociólogos, cientistas políticos, gente que, em geral, é avesso a matemática. Acabei de escutar um conferência do professor Fernando Henrique Cardoso, com todo o respeito, o que ele diz: 'bom, eu sou sociólogo, não sei resolver uma equação de segundo grau'.

Na Inglaterra, houve um problema sério com essas pesquisas por cotas na década de 1950. Então, o próprio governo inglês encomendou um estudo que foi feito. Usaram amostragem aleatória e por cotas em paralelo para uma mesma temática. E compararam os resultados. Empiricamente, as tais amostragens de erro por cotas eram bem maiores do que a aleatória. Isso está publicado.

Outro exemplo, se você quiser, é o Instituto Gallup, que fazia pesquisas por amostragem e não aguentou a concorrência do institutos que faziam por cotas, de forma rápida e rasteira. Mas nos EUA, eles [Gallup]participam de todas as pesquisas de presidente e têm publicado os resultados desde 1936 e por cotas. Aí deu problema nos anos de 1936 e 1946. E, em 1952, eles mudaram.

No segundo turno das eleições presidenciais deste ano, já saíram algumas pesquisas de intenção de voto para a presidência. Entre os números, as diferenças de intenção de voto entre Dilma Rousseff e Aécio Neves passam por oito, 17 pontos e empate técnico. Dá para confiar em pesquisa eleitoral no tanto que se confia no Brasil?

Olha, eu não sei o que dizer sobre esse números, mas fico até arrepiado. E te digo como estatístico, a resposta é que não dá pra confiar. As margens de erro que declaram... Margem de erro é uma coisa importante e as fórmulas que eles usam estão erradas. Então, em princípio, eu não confio. Você tem 17 pontos de diferença em uma pesquisa, oito em outra e zero em outra, ou seja, estão completamente fora. É mais fácil você acertar na Mega-Sena do que acontecer uma coisa dessas.

Thiago Domenici
No RBA
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Os médicos brasileiros serão lembrados por seu papel nestas eleições

Doutor Simpatia
Toda generalização é perigosa, inclusive essa, mas se houve uma categoria que surpreendeu nessas eleições é a dos médicos. Não necessariamente pelas melhores razões.

Desde a gritaria xenófoba com os cubanos do programa Mais Médicos até as recentes manifestações de ódio aos nordestinos — uma senhora sugeriu um holocausto na região —, eles foram responsáveis, em sua grande maioria, por um vale de lágrimas.

O corporativismo deu as caras de um jeito feio, sujo e malvado. No domingo passado, desembocou no apoio da Associação Médica Brasileira a Aécio, que afirmou que não vai, se eleito, “financiar a ditadura cubana, como ocorre hoje”. O que ele pretende “é que não haja mais necessidade de estrangeiros no Brasil.”

O maluco que chamou Dilma de “grande filha da puta” nas redes sociais não é uma exceção. Milton Simon Pires, de Porto Alegre, recebeu uma advertência carinhosa do presidente do Conselho Regional do Rio Grande do Sul (Cremers), Fernando Weber Matos. Não se trata de um problema “ético” e Milton não estava fazendo aquilo como profissional, mas como cidadão. Vai saber o que é problema ético segundo esse pessoal.

Pires é uma figurinha conhecida na direita lelé. Conseguiu fazer uma releitura do juramento de Hipócrates, amplamente compartilhada por seus amigos. É assim: “Juro por Deus, juro como médico, como homem e como brasileiro, não dar um minuto de trégua, de paz ou de descanso a essa organização criminosa e associada ao narcotráfico que humilhou minha profissão perante os médicos de todos os outros países — o Partido dos Trabalhadores. Nem todas as enfermeiras, técnicos, fisioterapeutas e psicólogos do país juntos vão conseguir me parar!”

Como é que um sujeito desses pode atender alguém se está tão ocupado combatendo o Mal Supremo? E se o paciente — cliente, segundo a nova nomenclatura — for, que azar, petista? O que Simon faz? Deixa gaze no abdômen? Se recusa a atender? Doctor Simon é chegado de Lobão e já participou de um de seus famigerados hang-outs. Os dois dividem a mesma paranoia anticomunista.

Houve algumas tentativas de correção de rota. Tímidas. No ano passado, num debate sobre o mercado de trabalho na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, Miguel Srougi, professor titular de urologia da USP, ensaiou um mea culpa. “Erramos. Não soubemos fazer o diagnóstico da situação. A população ficou contra a gente”, disse, sobre os ataques ao Mais Médicos.

Alguns de seus colegas admitiram o “grande equívoco”. “Tive vergonha”, afirmou o professor de patologia da USP Paulo Saldiva, se referindo à histeria nos aeroportos.

Não durou muito tempo. Com a ascensão do aecismo furibundo, os homens de jaleco se sentiram à vontade para berrar seu preconceito. Um grupo criado no Facebook que recebeu o nome “Dignidade Médica” reuniu um número assombroso de mentecaptos falando, por exemplo, na “necessidade de sermos terroristas para nos colocar no nível de conversa que pobre entende”

A Procuradoria-Geral da República (PGR) acabou recomendando a instauração de procedimentos criminais ou administrativos contra os autores dos posts.

No início do mês, folhetos foram distribuídos entre a classe em Minas Gerais. O texto tinha como título “Sou médico, não voto PT”. Treze nomes conhecidos assinavam a peça, que declara a necessidade de “banir o PT do poder”.

Não havia nada mais importante para fazer? Na sexta (17), o Ministério Público de Minas ajuizou uma ação contra o governo por suposta fraude orçamentária nos gastos com saúde durante a gestão de Aécio, de 2003 a 2010. É requisitado o ressarcimento aos cofres públicos de 1,3 bilhão de reais.

O estado também é acusado de maquiar outros 4,3 bilhões que deveriam ter sido gastos entre 2003 e 2008. Uma promotora propôs, em 2010, uma ação de improbidade administrativa contra Aécio.

Não houve protesto, não houve nada. O importante, para eles, é fazer proselitismo eleitoral de baixo nível. A saúde que se exploda. 2014 será lembrado como o ano em que Mister Hyde prendeu Doutor Jekyll no armário e saiu para passear pelo país tocando o terror branco.

Kiko Nogueira
No DCM
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Uns fazem o Juramento de Hipócrates; outros são hipócritas mesmo


Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higeia e Panaceia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue:

Estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens;

Ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes.

Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva.

Conservarei imaculada minha vida e minha arte.

Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam.

Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.

Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.

Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça.
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Um balanço das denúncias contra Aécio que a mídia ignorou desde 2011


Nos últimos dias, a Folha de São Paulo descobriu as três rádios – entre elas, a Arco-Íris –  e o jornal de Aécio Neves, candidato à presidência pelo PSDB, e  de sua família.


Isso, no entanto, não é nenhuma novidade.

Desde 2011, o Viomundo denuncia a aplicação, via publicidade, de dinheiro de estatais mineiras e da administração direta estadual na rádio Arco-Íris e demais veículos de comunicação de Aécio Neves e família.

– Por que 2011?

Em 17 de abril de 2011, Aécio foi parado pela polícia numa blitz de trânsito no Leblon, cidade do Rio de Janeiro. Convidado a fazer o teste do bafômetro, ele se recusou. A carteira de habilitação, vencida, foi apreendida. Levou duas multas.

O carro em que o senador dirigia na hora da blitz — Land Rover TDV8 Vogue, ano 2010, placa HMA 1003, valor mercado R$ 255 mil, comprado após as eleições de 2010 — pertencia à rádio Arco-Íris, de Belo Horizonte (MG), cujos sócios são Aécio, a irmã Andrea e sua mãe, Inês Maria Neves Faria.

Durante todo o período em que Aécio governou Minas ( janeiro de 2003 a abril de 2010), sua irmã, Andrea Neves, comandou o Núcleo Gestor de Comunicação Social da Secretaria de Governo. Uma de suas funções era decidir sobre a alocação de recursos de toda a publicidade do Estado de Minas Gerais.

Ontem, no debate do SBT, Dilma questionou Aécio sobre o assunto duas vezes:

– Sua irmã era responsável por toda a verba destinada à publicidade, que foi para as rádios e os jornais que vocês têm em Minas.

– Quando a gente pergunta sobre os recursos passados às rádios e a um jornal mineiro que você tem em MG, não há transparência.  

Aécio não respondeu. Fez de conta que não era com ele.

Assim como mídia corporativa menosprezou essa e outras denúncias feitas e reiteradas desde  2011 em relação ao governo de Aécio Neves  (confira aqui, aqui e aqui).

Por isso, nós resgatamos agora — 17 de outubro, às 21h30 — a reportagem abaixo, que foi publicada em 17 de fevereiro de 2013. Nela, tratamos da Rádio Arco-Íris, Banjet, Oswaldinho, aplicação de verbas públicas em empresas da família, voos em jatinho do presidente da Codemig, suspeitas de ocultação de patrimônio e sonegação fiscal, blindagem.



 “Se o Gurgel não abrir inquérito contra o Aécio, estará prevaricando”


Em Minas, o ex-procurador Alceu Marques Torres arquivou duas representações  contra Aécio e Andrea Neves. Em 31 de maio de 2011, os deputados Rogério Correia, Sávio Souza Cruz e Antonio Júlio entregaram a Roberto Gurgel outra denúncia. Ela está na gaveta do procurador-geral da República há 22 meses e 17 dias

17 de abril de 2011. Madrugada de domingo, Leblon, Zona Sul carioca. O senador Aécio Neves (PSDB-MG), dirigindo uma Land Rover, é parado pela polícia numa blitz de trânsito. Convidado a fazer o teste do bafômetro, ele se recusa. A carteira de habilitação, vencida, é apreendida. Leva duas multas.


A partir daí, o poderoso bunker montado para protegê-lo foi sofrendo alguns abalos.

O Movimento Minas Sem Censura (MSC), bloco de oposição que reúne parlamentares do PT, PMDB, PCdoB e movimentos sociais, descobriu fatos até então desconhecidos. Além de denunciá-los publicamente, fez representações a várias instâncias, pedindo que fossem investigados.

Essas ações não deram em nada até agora.

Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), as tentativas para instalar CPIs não prosperaram. Lá, como em São Paulo, vige a lei da mordaça tucana.

Alceu José Marques Torres, procurador-geral da Justiça de Minas até início de dezembro de 2012, arquivou as duas representações feitas contra o senador, a irmã Andrea Neves e a rádio Arco-Íris.

 Despacho do ex-procurador-geral de Justiça de MG, Alceu José Torres Marques

“Como o procurador nada apurou, nós entramos com a segunda representação”, diz o deputado estadual Rogério Correia (PT-MG), líder do MSC.

“O promotor João Medeiros Silva Neto, do Ministério Público do Estado de Minas, abriu inquérito para investigá-la. Porém, o doutor Alceu avocou para si o processo e arquivou. O então procurador-geral prevaricou.”

Em 31 de maio de 2011, Rogério e os colegas Luiz Sávio de Souza Cruz e Antônio Júlio, ambos do PMDB, foram a Brasília.

Entregaram pessoalmente a Roberto Gurgel representação denunciando Aécio e a irmã dele, Andrea Neves, por ocultação de patrimônio e sonegação fiscal. A representação está na gaveta do procurador-geral da República há 22 meses e 17 dias.

“Como em 2010 Aécio se tornou oficialmente sócio da rádio Arco-Íris, cujo valor de mercado é de R$ 15 milhões, se tinha patrimônio total declarado de R$ 617.938,42?”, questiona Sávio Souza Cruz, vice-líder do MSC.

“Como Aécio viajava para cima e para baixo em jatinho da Banjet, cujo dono preside a Codemig e é dono de empresas que prestam serviços ao governo de Minas? Por que Aécio indicou Oswaldinho para presidir a Codemig?”

Rogério Correia denuncia: “Há fortes indícios de ocultação de patrimônio e sonegação fiscal. Aécio se recusa a prestar esclarecimentos sobre o seu patrimônio. Andrea destinou dinheiro público para empresas da família. Isso é improbidade administrativa!”

“Em Minas, o Aécio tudo pode”, continua Souza Cruz. “Nós poderíamos ter copiado tantas coisas aprazíveis da Bahia, acabamos por reproduzir uma das menos positivas, o Aecinho Malvadeza.”

“Está tudo dominado”, ele sentencia. “A Assembleia Legislativa homologa tudo o que é do interesse do Aécio. O ex-procurador geral de Justiça de Minas virou o zagueiro do Aécio, nós passamos a chamá-lo de ‘Aéceu’.”

AS DENÚNCIAS MENOSPREZADAS PELA MÍDIA CORPORATIVA

Rádio Arco-Íris, Banjet, Oswaldinho, aplicação de verbas públicas em empresas da família, voos em jatinho do presidente da Codemig, suspeitas de ocultação de patrimônio e sonegação fiscal, blindagem.

Nenhuma dessas denúncias, praticamente desprezadas pela mídia corporativa, é novidade. Todas, desde 2011, têm sido feitas e reiteradas (confira aqui, aqui e aqui).

O ponto de partida, relembramos, foi o flagrante do teste do bafômetro, em 17 de abril de 2011, na cidade do Rio de Janeiro.

O carro que o senador dirigia na hora da blitz — Land Rover TDV8 Vogue, ano 2010, placa HMA 1003, valor mercado R$ 255 mil, comprado após as eleições de 2010 — pertencia à rádio Arco-Íris, de Belo Horizonte (MG), cujos sócios são Aécio, a irmã Andrea e sua mãe, Inês Maria Neves Faria.

Há anos é propriedade da família Neves. Em 1987, o então deputado federal Aécio Neves ganhou a concessão para explorá-la do à época presidente da República José Sarney, atualmente senador.

Por coincidência, Aécio votou a favor da ampliação do mandato de Sarney para cinco anos, o que lhe valeu entre adversários a alcunha de “Aecinco”.

Antonio Carlos Magalhães, ministro das Comunicações naquele momento, assinou a outorga. Inicialmente a sede da emissora ficava em Betim, depois foi transferida para BH.


A matéria abaixo de Veja, publicada na seção Radar, em 1987, circulou muito após o teste do bafômetro. Ela diz que Aécio já seria proprietário de outras três rádios, em Cláudio, Formiga e São João Del-Rei. Investigação feita em 2011 revelou que oficialmente ele era sócio apenas da Arco-Íris. Estavam em nome de Andrea outra emissora e um jornal em São João Del-Rei.


Aécio, aliás, só passou a integrar legalmente a sociedade da rádio Arco-Íris dois meses após ser eleito senador.  Mais precisamente a partir de 28 de dezembro de 2010 com valor declarado à Junta Comercial de Minas Gerais de R$ 88 mil, o equivalente a 88 mil cotas. A mãe, dona Inês Maria Neves Faria, repassou-lhe a maior parte das suas.

Em consequência, as 200 mil cotas da empresa ficaram assim distribuídas:  Andrea, 102 mil (51%); Aécio, 88 mil (44%); e dona Inês Maria, 10 mil (5%).

Foi a sétima alteração contratual da empresa, que iniciou atividades em 1986. Abaixo a última página do contrato.


A rádio Arco-Íris, além da Land Rover, era proprietária em 2011 de outros 11 veículos registrados no Departamento de Trânsito de Minas (Detran-MG).


Dos 12 veículos, seis são carros de passeio de luxo, em geral não utilizados para fins empresariais.

Mais surpreendentes foram as frequentes autuações dos veículos da Arco-Íris no Estado do Rio de Janeiro.

Afinal, ela é retransmissora da rádio Jovem Pan FM, tem sede em BH, não possui departamento de Jornalismo e se atém a transmitir músicas para jovens.

As multas aplicadas em 2011 no Toyota Fielder (HEZ1502) e na Land Rover TDV8 Vogue (HMA 1003) decorreram de excesso de velocidade nas cidades de Búzios, Rio Bonito e Rio de Janeiro e em rodovias fluminenses.

A informação é do Detran-MG. Abaixo uma do Toyota Fielder (HEZ1502).


MILAGRE DOS PEIXES 

Aécio governou Minas de janeiro de 2003 a abril de 2010. Durante os dois mandatos, a irmã Andrea comandou o Núcleo Gestor de Comunicação Social da Secretaria de Governo, criado por decreto em 3 de abril de 2003, pelo próprio governador.

O setor tinha as funções de:

1) coordenar, articular e acompanhar a execução de toda a política de comunicação social do Estado, inclusive a das secretarias, autarquias, empresas públicas e fundações estaduais;

2) decidir a alocação de recursos financeiros de toda a publicidade do Estado de Minas Gerais, sua administração direta e indireta, até mesmo das empresas controladas pelo poder público mineiro, bem como o patrocínio de eventos e ações culturais e esportivas.

De 2003 a 2010, as despesas com “divulgação governamental” somaram R$ 489 milhões. No primeiro mandato, foram R$ 157 milhões; no segundo, R$ 325 milhões, de acordo com o Sistema Integrado de Administração Financeira do Tesouro (Siafi).

Nesses valores não estão incluídos os gastos com publicidade de empresas públicas ou de economia mista controladas pelo Estado, como as companhias  Mineradora (Codemig), Energética (Cemig), Saneamento (Copasa) e Gás (Gasmig), assim como as do Banco de Desenvolvimento de Minas (BMDG) e Loteria estadual (LEMG). Eles totalizaram mais de R$ 325 milhões de 2003 a 2009, conforme o Tribunal de Contas do Estado.

Pois era Andrea quem orientava, determinava e supervisionava quanto, quando, como e onde aplicar todos esses recursos do Estado e suas empresas, diretamente ou via agências de publicidade.

No decorrer das gestões do irmão-governador, o seu núcleo aplicou, a título de publicidade, dinheiro de estatais mineiras e da administração direta estadual na rádio Arco-Íris e em outras empresas de comunicação dos Neves.

Exatamente quanto não se sabe, pois o ex-procurador-geral Alceu José Marques Torres nem ao menos  investigou quanto de dinheiro público a rádio Arco-Íris recebeu.

Por falar em patrimônio, em fins de 2010, quando Aécio passou a ser oficialmente sócio da rádio Arco-Íris, o capital social registrado não representava o valor real. Somente os 12 veículos em nome da empresa valiam aproximadamente R$ 714 mil em maio de 2011. Já o valor comercial da emissora, de acordo com fontes do mercado, era de aproximadamente R$ 15 milhões.

Contudo, no início de 2010, ao registrar a candidatura ao Senado, Aécio declarou à Justiça Eleitoral patrimônio total de R$ 617.938,42. Um decréscimo de cerca de 20% em relação ao de 2006. Apenas a parte dele no valor dos automóveis da rádio Arco-Íris seria de R$ 314 mil!  Um milagre dos peixes às avessas.

BANJET, CODEMIG, BANDEIRANTES, IM: RELAÇÕES FAMILIARES E COMERCIAIS

Em 2011, o Minas Sem Censura fez outra denúncia contra o senador tucano: Aécio usava gratuitamente os jatinhos da Banjet Taxi Aéreo Ltda, para deslocamentos no Brasil e exterior. “Uma cortesia da empresa”, justificou-se na época.

A Banjet fazia parte do grupo do extinto Banco Bandeirantes, sendo seus donos os empresários Clemente Faria e Oswaldo Borges da Costa Filho.

Oswaldinho (como Oswaldo Borges da Costa Filho é conhecido em Minas) é casado com Beatriz Faria Borges da Costa, filha do banqueiro Gilberto de Andrade Faria, que foi padrasto de Aécio. Gilberto, falecido em 2008, casou-se em segundas núpcias com dona Inês Maria, com quem viveu durante 30 anos.

Clemente, morto em acidente aéreo em julho de 2012, é o outro filho do primeiro casamento do banqueiro Gilberto Faria. Clemente, portanto, era cunhado do Oswaldinho, seu sócio na Banjet.

Pois Oswaldinho e Clemente eram sócios em outras empresas, entre elas a Star Diamante Ltda (nome fantasia Starminas), criada em setembro de 2003. Em 4 de fevereiro de 2004, Clemente transferiu todas as suas cotas para Oswaldo Borges da Costa Neto, que já era sócio, e Oswaldinho, a quase totalidade. Costa Neto é  filho de Oswaldinho e ficou com 259.999 cotas das 260 mil cotas da empresa. Abaixo fragmento da última página do contrato social de constituição dela.


A essa altura, Oswaldo Borges da Costa Filho  já presidia a Companhia Mineradora de Minas (Comig), como mostra nota publicada pelo jornal O Estado de Minas em 24 de setembro de 2003, página 17.


No final de 2003, a Comig teve nome e objeto social alterados para Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig).

Codemig é uma empresa pública e como tal o diretor-presidente deve ser eleito pelo seu conselho. Mas, na prática, é quem o governador indicar. Em 2003, com Aécio no poder, Oswaldinho  – genro do padrasto de Aécio – passou a presidir a Comig, depois a Codemig, cargo que ocupa até hoje.

Não haveria aí conflito de interesses?

Explico. A mineração é uma das áreas de atuação da Codemig. Além disso, Oswaldo Borges da Costa Filho era sócio ou integrava a diretoria de várias empresas, segundo levantamento feito na Junta Comercial de Minas Gerais em 16 de maio de 2011. Entre elas, a Minasmáquinas S/A e a Bamaq S/A – Bandeirantes Máquinas e Equipamentos, que também pertenceram ao grupo do extinto Banco Bandeirantes e mantêm relações comerciais com o Estado de Minas Gerais, segundo o bloco de oposição Minas Sem Censura.

Curiosamente, um dos endereços do liquidado Banco Bandeirantes — Avenida Rio de Janeiro, 600,  Belo Horizonte – era o mesmo da IM Participações e Administração Ltda.

Gilberto Faria, relembramos, era dono do extinto Banco Bandeirantes e foi padrasto de Aécio.

A IM, por sua vez, tem como sócios os irmãos Neves da Cunha — Aécio, Andrea e Ângela, a mais nova do clã.  A mãe é a administradora. Dona Inês Maria atuou também na gestão do Bandeirantes e foi sócia do marido, o banqueiro Gilberto Faria, em algumas empresas, como a Trevo Seguradora.

A investigação pedida pela oposição mineira poderia esclarecer, por exemplo, se houve alguma triangulação entre o Banco Bandeirantes e a IM.

ASSESSORIA DE AÉCIO: ”MOTIVAÇÃO MERAMENTE POLÍTICA”

Esta repórter buscou falar com o senador e a irmã, para saber o que teriam a dizer sobre as representações feitas contra ambos pelo Minas Sem Censura.

Foram muitos e-mails e telefonemas para o gabinete de Aécio, em Brasília, com a secretária driblando: “os assessores de imprensa estão em Minas”, “estou tentando contatá-los, mas não consigo”.

Até que, depois de muita insistência, veio esta resposta:

A assessoria do senador Aécio Neves informa que se trata de antigas iniciativas de dois deputados de oposição ao PSDB de Minas Gerais, amplamente noticiadas à época e sobre as quais foram prestados todos os esclarecimentos. É nítida a motivação meramente política das mesmas. Registre-se que uma delas chegou a ser apresentada por duas vezes, tendo sido, nas duas ocasiões, investigada e arquivada por falta de fundamento.

De Andrea, nenhum retorno. Em 2003, o então governador Aécio Neves nomeou-a para a presidência do Servas (Serviço Voluntário de Assistência Social), cargo que ocupa até hoje. Está na terceira gestão. O site da entidade informa:

O Serviço Voluntário de Assistência Social – Servas é uma associação civil, de direito privado, sem fins econômicos, que tem como objetivo promover e executar ações sociais em Minas Gerais, dotado de autonomia administrativa, financeira e operacional. É reconhecido como entidade de utilidade pública nos níveis municipal, estadual e federal. Existe desde 1951.

Andrea Neves da Cunha permanece na presidência do Servas, de janeiro de 2011 até a presente data, dando continuidade aos programas já existentes, em parceria com o Governo de Minas, empresas e entidades de classe.

Após vários e-mails e telefonemas ao setor de Comunicação do Servas nos últimos 25 dias, a chefe do setor alegou: “Andrea está de férias, não posso encaminhar para ela”.

Em resposta a mais um e-mail enviado por esta repórter, ela respondeu nessa quinta-feira 14: “A senhora Andrea já retornou de férias, mas ainda não pude tratar com ela sobre seu pedido. Havendo um retorno, informo”.

DENÚNCIA CONTRA AÉCIO E ANDREA NA GAVETA DE GURGEL HÁ QUASE 23 MESES

Em 31 de maio de 2011, os deputados Sávio de Souza Cruz, Antonio Júlio e Rogério Correia entregaram nas mãos do procurador-geral da República, em Brasília, a representação contra Aécio e Andrea.

Gurgel fez questão de ir com os parlamentares até o setor de protocolo da Procuradoria Geral da República (PGR). Aí, a representação recebeu o número 1.00.000.006651/2011-19.

“Ligávamos de vez em para o setor de protocolo e a informação era de que não havia novidade”, diz  Correia. “Sabíamos apenas que a representação não havia sido arquivada nem inquérito aberto.”

“No dia 29 de janeiro, ligamos e nos disseram que no dia 18 de dezembro de 2012, a Coordenadoria de Comunicações Administrativas (CCA) remeteu a representação e um relatório para o doutor Gurgel”, acrescenta Correia. “Nos disseram que estão na mesa dele.”

Ao Viomundo, a Secretaria de Comunicação da PGR limitou-se a dizer antes do Carnaval: “O documento protocolado pelos deputados encontra-se em análise no gabinete do procurador-geral”.

Nesta sexta-feira 15, voltamos a contatar a Secretaria de Comunicação da PGR para saber se havia tido alguma mudança nesse período. A resposta foi “não“.

Fontes da própria PGR nos disseram que até 28 de janeiro de 2013 — portanto, um dia após Correia ligar para lá — não havia sido dado qualquer despacho na representação protocolada em 31 de maio de 2011, que continua na gaveta do procurador.

Oficialmente não é da alçada da CCA dar parecer jurídico sobre qualquer representação. É um setor grande da PGR. Aí, ficam expediente, protocolo, arquivo, publicação.

Além disso, mesmo não existindo arquivamento, o status da representação dos deputados mineiros contra Aécio e Andrea estava gravado como “arquivado” no sistema. Isso sempre acontece quando o processo está parado há mais três meses.

“Diante de todas essas denúncias, não há outra saída para doutor o Roberto Gurgel a não ser abrir inquérito junto ao STF contra Aécio Neves”, espera Rogério Correia. “Do contrário, ele estará prevaricando.” Sávio Souza Cruz afirma: “Espero que o procurador-geral da República cumpra a Constituição”.

A propósito. Enquanto a representação contra Aécio e Andrea Neves dorme há quase 23 meses na gaveta de Gurgel, ele decidiu, em cinco meses, o destino das acusações feitas em setembro de 2012 pelo publicitário Marcos Valério de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria recebido vantagens financeiras do esquema do mensalão.

No dia 6 de fevereiro, o procurador-geral resolveu mandar para Minas o processo. Nessa quinta 14, o Ministério Público Federal (MPF), em Belo Horizonte, recebeu o depoimento de Valério contra Lula.

“A denúncia de Marcos Valério, réu já condenado, querendo benefício para reduzir pena, foi rapidamente remetida ao MPF  para investigação”, compara Correia. ” Já a de duas bancadas, representando 19 deputados estaduais, contra Aécio e Andrea está sem nenhuma providência desde maio de 2011.”

“Parece que o Marcos Valério, como fonte de denúncia, tem mais credibilidade para o procurador-geral do que as bancadas estaduais de Minas dos dois maiores partidos do Brasil”, diz Sávio Souza Cruz. Correia finaliza: “É o cúmulo do partidarismo”.

Conceição Lemes
No Viomundo
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