11 de out de 2014

A economia mundial, a economia brasileira e a economia mineira: cadê o choque de gestão de Aécio?

A discussão econômica não está sendo exatamente profunda.

O que se procura é atribuir ao governo Dilma uma administração ruinosa.

Não que Dilma mereça o Nobel da Economia, mas há um reducionismo cínico, obtuso e partidário neste debate.

Comecemos pelo essencial: o “Pibinho”.

Uma economia cresce a taxas altas, quando as coisas vão bem, quanto mais baixa é a base de comparação.

Isso quer dizer o seguinte: para a China, cuja base (o tamanho da economia) era baixa até o choque econômico de Deng Xiao Ping, há 30 anos, foi possível crescer a taxas de 10% anuais.

Para os Estados Unidos, em oposição, não. Na década de 1980, nos oito anos de Ronald Reagan, tidos como dourados por economistas ortodoxos, a economia americana cresceu em média 3,85%.

Foi um excelente desempenho, objetivamente. Mas, comparado com a China, você poderia dizer – se quisesse, para marcar um ponto – que os Estados Unidos nos anos 1980 se movimentaram a taxas frustrantes.

Observemos os Estados Unidos hoje, diante da crise econômica internacional iniciada em 2008.

Analistas econômicos têm saudado a recuperação americana. Mas por “recuperação” entenda um crescimento do PIB de 1,60% em 2013, segundo o insuspeito banco de dados da CIA.

Mesmo essa tímida reação está agora sob risco, por conta da crise alemã e suas implicações globais.

A economia da Alemanha – tema de uma discussão entre Dilma e Míriam Leitão numa sabatina — teve uma queda de 0,2% no segundo trimestre deste ano.

No terceiro trimestre, informa hoje a Reuters, “uma série de dados fracos, incluindo uma queda nas exportações, indica estagnação”.
Em consequência, as autoridades econômicas alemãs estão prestes a anunciar uma redução nas projeções de crescimento. Grandes institutos de pesquisa baixaram suas previsões para 1,3% em 2014 e 1,2% em 2015.

Isso na poderosa Alemanha da ortodoxa Angela Merkel.

É didático estudar a lista de crescimento de PIBs mundias em 2013, país por país.

O Brasil, por exemplo, cresceu 2,30%, índice que colocou o país na 37.a posição entre 221 economias analisadas.

A Alemanha, com 0,50%, o motor da Europa, ficou na 185.a colocação. A França, com 0,30%, na 191.a. Os Estados Unidos, na 157.a. O Reino Unido, na 152.a

O número 1 da lista: Sudão do Sul, com um crescimento em 2013 de 24,7%. O primeiro, entre os vizinhos brasileiros, foi o Paraguai, quarto no geral, com 12%.

Isso tudo apenas para dar perspectiva ao debate. Economias pequenas, em bons tempos, podem dar passos enormes – até, caso haja constância, se tornarem grandes. Aí o milagre da multiplicação desaparece.

Quem conhece o mundo corporativo sabe disso muito bem. Uma pequena empresa pode avançar a taxas incríveis. Depois, grande, o avanço, em porcentagem, se torna bem menor.

A mesma lógica econômicas dos países pode ser observada, internamente, estado a estado.

Cada estado cresce, ou decresce, de um jeito. O crescimento de um país não é igual em suas diferentes partes.

Para São Paulo, que responde por um terço da economia brasileira, saltos no PIB são muito mais complicados do que para outros estados.

Em 1990, São Paulo respondia por 37,5% do PIB brasileiro. Agora, esta contribuição baixou para 31,4%.

São Paulo cresceu menos que outros estados, portanto. Gestões ruins de governadores? É uma possibilidade – ainda que não possa ser esquecido que, pela dimensão de sua economia, São Paulo não tinha como avançar como pequenos estados com base modesta.

No exame regional, é interessante observar Minas Gerais, sob Aécio.

Dados do IBGE mostram, estado por estado, o desempenho econômico acumulado de 2002 a 2010.

Minas cresceu, no período, 34,7%. Entre as 27 unidades da federação, ficou em 22.o lugar.

Minas: 22.o lugar
Minas: 22.o lugar
As primeiras colocações, como é previsível, ficaram com estados menores. O campeão em crescimento foi Tocantins (74,2%), seguido de Rondônia (63,9%).

Mais uma vez: é preciso levar em conta o tamanho das economias. São Paulo foi o 20.o da lista e o Rio o penúltimo, à frente apenas do Rio Grande do Sul.

É necessário considerar também que os números de 2002 a 2010 representam uma desconcentração de renda nacional, o que é bom.

Mas com tudo isso: se Aécio for julgado economicamente pela mesma ótica simplista pela qual ele julga a administração econômica de sua concorrente, levará uma retumbante reprovação.

Paulo Nogueira
No DCM
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Blog é retirado do ar após denunciar que aeroporto de tio de Aécio foi usado para tráfico de drogas

O artigo de Hélcio Zolini, do Portal R7, foi retirado do ar por pelo menos de 24 horas depois de sua publicação.
Denúncias cada vez mais constantes a respeito das irregularidades em relação ao aeroporto de Cláudio (MG) ganham novos episódios, dessa vez envolvendo a polêmica pista de pouso com o tráfico de drogas. Primeiro foi o jornalista Leonardo Dupin quem escreveu a respeito, com texto publicado no blog do Juca Kfouri; em seguida, veio um artigo de Hélcio Zolini, diretor institucional da Rede Record de Minas. Artigo esse que menos de 24 horas depois foi retirado do ar.

Em 2012, o empresário Tancredo Aladim Rocha Tolentino – filho do ex-prefeito de Cláudio, Múcio Tolentino, e primo de Aécio Neves, mais conhecido na pequena cidade como apenas “Quêdo” – foi preso pela Polícia Federal durante a operação Jus Postulandi, que investigava uma quadrilha de venda de habeas corpus para traficantes. Meses depois, ele tentou ainda se candidatar à prefeitura de Cláudio.

As suspeitas, no entanto, vão além apenas do esquema para obter libertação para traficantes de drogas presos: envolvem também um desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Hélcio Valentim de Andrade Filho, que após recebimento do dinheiro, expedia o alvará de soltura dos traficantes.

A polícia também investiga se o aeroporto de Cláudio foi utilizado como rota para o tráfico de drogas, uma vez que já é pública a informação de que o helicóptero da empresa Limeira Agropecuária, da família do senador Zezé Perrella, apreendido no Espírito Santo transportando 445 quilos de cocaína em novembro passado, chegou a pousar antes em um ponto do povoado de Sabarazinho (apenas 14 km de distância do aeroporto mineiro de Cláudio), três horas antes de seguir viagem para um sítio na cidade capixaba de Afonso Cláudio. A PF chegou a tal confirmação baseando-se no rastreamento do GPS do helicóptero, assim como nas anotações do plano de voo dos pilotos.

A parada em um ponto de Sabarazinho aconteceu três horas e meia antes da apreensão da aeronave por policiais militares e federais em um sítio em Afonso Cláudio, no Espírito Santo. O valor da carga é estimado em R$10 milhões, podendo multiplicar por dez com o refino. Segundo o inquérito da PF, o carregamento foi feito em Pedro Juan Cabalero, no Paraguai, e tinha como possível destino Amsterdam, na Holanda, o que configura tráfico internacional.

Aeroporto usado por Aécio Neves

No dia 20 do mês passado, reportagem do jornalista Lucas Ferraz, da Folha de S.Paulo, revelou que Aécio Neves construiu a pista na fazenda que pertenceu a seu tio-avô, além de ficar próxima a uma propriedade da família do candidato. Na última semana, Aécio Neves admitiu que já usou a pista, mesmo o espaço ainda não tendo sido homologado pela Agência Nacional de Aviação Civil.

O investimento do governo mineiro para a construção da pista foi de R$14 milhões. Cláudio tem 25 mil habitantes e está distante 50 quilômetros de Divinópolis, onde já existia uma pista de pouso e decolagem. O cruzamento dos dois escândalos – do helicóptero e da pista – é comprovado pelos documentos considerados sigilosos do inquérito da Polícia Federal (PF), que este repórter teve acesso.

A PF constatou, com base no rastreamento do GPS do helicóptero e nas anotações do plano de voo dos pilotos, ambos apreendidos e examinados pela perícia técnica, que o helicóptero carregado com quase meia tonelada de pasta base de cocaína parou em um ponto próximo ao povoado de Sabarazinho. Segundo o inquérito da PF, no dia 24 de novembro de 2013, às 14h17, aproximadamente três horas e meia antes do helicóptero ser apreendido pela polícia no município de Afonso Cláudio, no Espírito Santo, a aeronave ficou parada por trinta minutos numa fazenda do povoado, onde duas pessoas aguardavam o pouso com galões de combustível.

A localidade fica a 14 quilômetros da pista de Cláudio e também das fazendas da família Tolentino, onde nasceu Risoleta Neves, esposa de Tancredo Neves e avó de Aécio Neves. O município de Cláudio chega, inclusive, a ser citado no inquérito na análise das mensagens telefônicas dos pilotos, que foram captadas pelas Estações de Rádio Base (ERB), que são os equipamentos que fazem a conexão entre os telefones celulares e a companhia telefônica.

As respostas acerca da apreensão dos 450 kg de cocaína no ano passado nunca foram claramente oferecidas pelas autoridades. A culpa caiu na conta do piloto, e não houve reverberações sobre o caso – até o surgimento dos polêmicos aeroportos construídos durante a gestão de Aécio Neves como governador.

Aeroporto de Cláudio e o tráfico de drogas

Polêmicas envolvendo Aécio Neves com cocaína.

O então coordenador de mídias sociais da campanha de Eduardo Campos (PSB), Marco Bahé, caiu após publicar no Facebook uma frase insinuando que Aécio Neves (PSDB) seria usuário de cocaína.

Bahé escreveu: “Vai ter Coca, Aécio Neves”.

Abriu uma crise na campanha de Campos, com o afastamento de Bahé, e causou mal-estar com Aécio.

O assunto foi notícia até nos redutos demotucanos da mídia. Apareceu na revista Veja online, Estadão e no portal do jornal O Globo.

Isso mostra que o assunto virou um pesadelo para a campanha de Aécio lidar.

Dúvidas sobre da vida pessoal de um político, talvez não seja tão decisivo assim na hora de votar, influenciando apenas alguns segmentos do eleitorado. Quem não quer acreditar não acredita, outros que querem acreditar acreditam, e outros pouco se importam, se o candidato tiver consistência suficiente para o eleitor prestar atenção em outras coisas.

Mas no caso de Aécio o buraco é mais embaixo. Já lhe falta consistência para chamar atenção por ideias e propostas (a não ser as “medidas amargas” da turma endinheirada do mercado financeiro). E independentemente dele ter admitido que já fumou maconha, e negar que foi usuário de cocaína, tem outras coisas que não ajudam em sua imagem, como a recusa dele em soprar o bafômetro quando foi parado em uma blitz de trânsito na madrugada do Rio de Janeiro, com carteira de motorista vencida.

Como se não bastasse, estava usando um carro de luxo no Rio como se fosse carro de serviço de uma rádio em Belo Horizonte, o que, para um pobre mortal, que não é senador do PSDB, costuma dar sérios problemas junto à Receita Federal.

O caso do bafômetro não é apenas questão pessoal de gostar ou não de beber. É o mau exemplo que dá ao negligenciar os riscos de misturar bebida e direção, o que pode resultar em tragédia na vida dos outros que não tem nada a ver com a decisão de uma pessoa encher a cara.

Fabiano Portilho
No Blog Limpinho&Cheiroso
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Por que a mídia está tão empenhada em eleger Aécio?


Você pode se perguntar: por que a mídia apoia tão intensamente Aécio?

Uma visão mais romântica traria a seguinte resposta: porque há uma identidade entre a ideologia de Aécio e a dos donos das grandes companhias jornalísticas.

Mas a verdade é bem menos romântica.

Eleger Aécio, um amigo íntimo dos barões da imprensa, representa esplêndidas oportunidades econômicas.

Nada contra isso — não fosse o fato de que estas oportunidades são à base de dinheiro público.

Dinheiro seu, meu, de todos nós.

Primeiro, e acima de tudo, os bilhões da publicidade federal. Aqui, o PT cometeu um grande pecado, ao não fazer mudanças que beneficiassem a sociedade, e não perpetuassem privilégios de quatro ou cinco famílias.

No mundo dos negócios, você usa a expressão “base zero” para designar orçamentos que vão ser inteiramente refeitos.

Se isso fosse feito na publicidade federal, você se faria logo perguntas como a seguinte: faz sentido colocar 150 milhões de reais por ano no SBT?

Claro que não. Sobretudo na Era Digital, para a qual as estatais demoraram uma eternidade para acordar.

Mas a questão só foi aparecer quando Rachel Sheherazade defendeu entusiasmadamente justiceiros.

Numa concessão pública, e numa emissora bancada por dinheiro do contribuinte, Sheherazade contribuiu histericamente, todos os dias, para a causa da iniquidade no Brasil.

Sheherazade é símbolo de algo que vai muito além dela e do SBT. É um galho de uma árvore.

O mesmo quadro, amplificado, se repete na Globo. São 600 milhões de reais que, no fim, sustentam um jornalismo feito para manter as raízes que fizeram do Brasil um campeão da desigualdade.

É uma das maiores ironias do jornalismo político nacional que personagens como Jabor, Merval e tantos outros do gênero sejam, indiretamente, pagos com dinheiro público.

Compare tudo isso com o que faz a Fox de Murdoch nos Estados Unidos. O teor é de direita, mas nem a Fox é uma concessão e nem recebe fabulosas injeções de dinheiro público, pela publicidade.

Voltemos ao SBT, apenas porque começamos por lá. A partir da base zero, qual seria a quantia justa, em propaganda federal, a ser colocada na emissora de Sílvio Santos?

Um terço, um quarto do que vem sendo colocado? Campanhas de utilidade pública, tudo bem. Uso sensato de verbas em estatais que competem no mercado, como o Banco do Brasil.

E pronto. Não mais que isso.

Você romperia, assim, o duto que conduz, há décadas, dinheiro público para as grandes empresas jornalísticas — e logo para as contas pessoais de seus donos. Não é à toa que a família Marinho é a mais rica do Brasil.

Você daria também um choque de capitalismo na mídia, que sempre dependeu inteiramente do Estado para se sustentar. Não apenas com publicidade federal, estadual e municipal, mas também com empréstimos a juros maternais no BNDES e outros expedientes como a venda de livros e isenções fiscais. (Não incide imposto, para ficar num caso, sobre o papel usado em jornais e revistas.)

E tão importante quanto tudo que foi dito atrás: as empresas jornalísticas deixariam de ter um interesse tão brutal em quem está no Planalto.

Consequentemente, todas essas armações que se repetem quando bate medo nos donos da mídia de que os privilégios acabariam — porque já não faria diferença se o candidato A ou B se elegesse.

A sociedade apoiaria uma reforma no uso da publicidade governamental porque seria a principal beneficiária disso.

Com Dilma, talvez se faça alguma coisa para reduzir a dependência da mídia em relação ao governo, ou talvez não.

Com Aécio, certamente nada se fará.

É por isso que as empresas jornalísticas estão tão empenhadas em eleger Aécio.

Paulo Nogueira
No DCM
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O policial civil Lucas Gomes Arcanjo conhece Aécio


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Pernambucano que se preze não vota nessa desgraça

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Entre dois projetos opostos de Brasil — A entrevista de Lula a Mino Carta

Lula está com a palavra para mostrar a real essência desta eleição


UMA IMPERIOSA CONTRADIÇÃO ESTÁ NO AR: como seria possível uma renovação se o tucanato pretende voltar ao passado, e disso não faz mistério? Como seria possível, de resto, que promessas de mudança pudessem ser postas em prática por conservadores empedernidos? Conservador conserva, diria o Chico Anysio de antigos tempos.

Não bastassem as antecipações de  Arminio Fraga, candidato a ministro da Fazenda em caso de vitória tucana, a fornecer um trailer de puríssima marca neoliberal, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso apressa-se a esclarecer, entre a ameaça e o didatismo, que quem vota Dilma além de pobre é desinformado. E qual seria a informação correta?

Fraga prontifica-se a informar o globo de um polo ao outro, no debate com Guido Mantega, mediado (mediado?) na Globo por Miriam Leitão: a crise econômica mundial acabou há cinco anos. Gostaríamos de imaginar, na nossa irredutível ousadia, o que pensam a respeito Ângela Merkel, ou Barack Obama. Tendemos a acreditar que ambos os citados, e outros mais habilitados à citação, agradeceriam Fraga por sua oportuníssima revelação. Há incertezas quanto a existência de Deus, mas dúvidas não subsistem em relação a Fraga, seu profeta.

Na linha das revelações, o Clube Militar informa que, com Dilma reeleita, o País estará à beira da sovietizarão. Há militares ainda dispostos a recorrer a terminologias emboloradas. Ao longo da campanha tucana, corroboradas pelos editoriais dos  jornalões, desfraldaram termos mais contemporâneos. Imperdoável é ser “chavista”, ou “bolivariano”. Pois o único, indiscutível chavista brasileiro é Fernando Henrique Cardoso, que provocou a alteração constitucional destinada a permitir sua reeleição. E não hesitou para tanto em comprar votos de parlamentares.

Não invoquemos de todo modo, exames de consciência por parte da mídia nativa, postada de um lado só na qualidade de porta-voz da casa-grande. Neste exato instante ela transforma em peça eleitoral o vazamento de depoimentos secretos do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, do doleiro Youssef  e de sua contadora. Deles emerge uma complexa história, cujo ponto central seria a chantagem sofrida por Lula, por parte de parlamentares da base governista, para forçá-lo a nomear Costa para a direção da estatal.

Era de esperar que a mídia nativa extraísse da manga a carta pretensamente letal. O déjà vu é próprio destas atribuladas vésperas eleitorais desde quando o PT apresenta um candidato à Presidência da República. Lula avisa: “Nunca fui submetido a qualquer gênero de chantagem por parte de congressistas. Fala-se de fatos que teriam ocorrido há dez anos, de sorte que, para averiguar a sua veracidade, seria preciso ouvir o então ministro das Relações Institucionais, o então chefe da Casa Civil, o presidente da Câmara, o líder do PT”.

Tomados em conjunto, comportamentos e eventos dão razão a Lula quando afirma que esta eleição, antes ainda de confrontar Dilma e Aécio, coloca frente a frente dois projetos de Brasil, duas visões profundamente opostas de vida, de mundo, de política, de fé.

MINO CARTA: Meu caro presidente e grande amigo, como é que você se sente ao se perceber pobre e desinformado?

LULA: Olha, eu na verdade me sinto muito ofendido com este preconceito que chega às raias do absurdo. Fernando Henrique Cardoso mostra o que uma parte da elite brasileira e, sobretudo, uma parte da elite paulista, incluindo a elite política, pensa do povo trabalhador deste País. Porque eles não têm preconceito contra o nordestino rico, contra o negro rico, é contra os pobres, contra quem trabalha. E, ao dizer que Dilma teve voto onde as pessoas são desinformadas, revela que o ex-presidente não tem noção da evolução política da classe mais pobre da sociedade.

MC: Política e econômica.

LULA: Não se dá apenas por conta dos programas sociais, do aumento do salário dos aposentados, do aumento do salário mínimo. E por conta da conquista da consciência da cidadania. Os brasileiros estão pensando mais. E muito esquisito que, quando o governo financiava os estudos de um jovem no exterior antes do Ciência sem Fronteiras, tratava-se de uma bolsa aceita por todo o mundo, algo fantástico. Quando o governo cria uma bolsa para dar direito a crianças não morrerem de fome é assistencialismo, é retrocesso, é criar vagabundo. Imagem totalmente equivocada: certamente, o ex-presidente ficou com a imagem do Brasil que ele governou. Porque, quando ele governava, davam voto de cabresto, viviam à procura da frente de trabalho e de uma política assistencialista, por falta de política social invadiam supermercado. Agora não. São respeitadas, e mesmo as mulheres que não trabalham ainda recebem aposentadoria rural, assim como os brasileiros a partir dos 65 anos recebem seu benefício. E sem dever favor ao governo.

MC: Esses benefícios vão muito além do Bolsa Família.

LULA: Mas muito além. O Bolsa Família é apenas uma parte dele. O que aconteceu com o crédito rural para a pequena propriedade, o que aconteceu com o microempreendedor, o que aconteceu com a aprovação da Lei Geral da Pequena e Média Empresa.

MC: E a abertura do crédito?

LULA: E a abertura do crédito consignado. Foram 60 milhões de contas bancárias abertas. Sabe o que é isso? E colocar uma Colômbia e meia no sistema financeiro brasileiro. As pessoas passaram a entrar no banco para negociar empréstimo, não apenas para pagar conta de luz. Mas observe quem também ganhou com isso. E muito. Foi a sociedade mais abastada. A classe média, em vez de ficar constrangida quando se fala de política social, deveria entender que, ao receber algum recurso, o pobre gasta. Para comer, para vestir, esse dinheiro retorna para o mercado no dia seguinte e quem ganha é a loja, o shopping, a fábrica, o agricultor. Certa vez, discuti com um cidadão que reclamava porque o Luz para Todos era mais uma política do Lula para ajudar o pobre e que eu só pensava no pobre. Eu lembrei a ele que, quando a gente levava o Luz para Todos, o beneficiado ligava três lâmpadas, comprava uma geladeira, 80% deles compravam um televisor. Ou seja, um simples programa chamado Luz para Todos, que levou energia para 15 milhões de brasileiros, resultou na venda de quase 4 milhões de mercadorias. Até empresas multinacionais ganharam muito com esse programa social. Sem contar os empregos criados. Mas, infelizmente, há ainda quem prefira ver indigentes nas ruas em lugar de gente humilde consumindo. E lamentável que um cientista político tão estudado como Fernando Henrique Cardoso tenha proferido uma frase tão agressiva contra eleitores brasileiros. Porque há sempre aquela idéia de que as pessoas que não votam do jeito que desejamos não sabem votar. Eu aprendi a respeitar o voto, contra ou a favor. Aprendi isso na fábrica. Aquele que votava contra a greve eu o respeitava tanto quanto quem votava a favor. O eleitor que vota em mim é tão importante quanto aquele que não vota. E um direito dele. Cabe a mim tentar convencê-lo. A elite brasileira levou cem anos para colocar 3,5 milhões de estudantes na universidade. Nós, em 12 anos, colocamos 7,2 milhões.

MC: Tudo isso não aproveita a criação de um capitalismo oposto àquele precipitado pelo neoliberalismo?

LULA: Uma vez me perguntaram: Lula, você é operário e os banqueiros estão ganhando dinheiro no seu governo. Eu disse: eu prefiro que os banqueiros ganhem dinheiro porque, se eles não ganharem, vai ter que ganhar um Proer, é o Estado que passa a financiá-los outra vez. Eu quero que ganhe todo mundo. Fui dirigente sindical e sei que, quando o empresário perde, quem perde mais é o trabalhador, porque perde o seu emprego.

MC: Onde fica o FMI, que entrou na campanha?

LULA: Se você for analisar os números da economia do Brasil hoje, eles são aqueles que desejamos. Também nós somos vítimas da crise mundial. Os números da Alemanha também são insatisfatórios, os EUA não conseguem se recuperar.

MC: Mas lá o problema não é interno, como no Brasil?

LULA: O Brasil foi o país que melhor soube tratar a crise. Em 2008, quando tudo começou, o governo já vinha com política de desenvolvimento do PAC e nós entendemos que o consumo não poderia arrefecer. E o que eu disse? Se você parar de comprar, a indústria para de produzir, a loja para de vender e você vai perder o emprego. Então é bom a gente comprar, fazer dívida de acordo com a nossa possibilidade de pagar e vamos tocar o barco para a frente. Está escrito: nós sustentávamos na reunião do G-20 que a melhor forma de enfrentar a crise seria não permitir a volta do protecionismo e incentivar o comércio no mundo. Se os países ricos estão estrangulados na sua capacidade de consumo e de endividamento, está na hora de começarem a fazer investimentos para os países pobres poderem consumir, criar indústria, comprar máquinas e se modernizar. Isso foi assinado, e lá estavam Obama, Sarkozy, Berlusconi, todo mundo. Acontece que o FMI só sabe dar palpite quando a crise é no Brasil ou na Bolívia. Quando a crise é nos Estados Unidos eles desapareceram. Na Europa desapareceram. Aliás, desapareceram tanto que nós tivemos de emprestar dinheiro para eles.

MC: Apesar disso, por que os investimentos no Brasil crescem?

LULA; Quem se preocupa com a economia pensa só nos números de crescimento. E importante crescer muito, está claro, mas este País já cresceu 10% e não gerou emprego. Nós agora continuamos gerando emprego, continuamos aumentando o salário mínimo e a renda do trabalhador. E Dilma disse muito bem: o trabalhador não vai arcar com uma crise feita pelos ricos no mundo. Isto é algo que temos de levar em conta a respeito do caráter do compromisso de Dilma. O Brasil é o país que tem o futuro mais garantido. Um país que tem a quantidade de investimento em obra de infraestrutura para ser feita, muitas já contratadas, um país que tem a perspectiva extraordinária do pré-sal, um país que decide que 75% do dinheiro dos royalties vai para a educação, é um país que está dizendo que o futuro já chegou. Não é jogando nas costas do povo um ajuste fiscal, cortando salários, dispensando funcionários. Esses que querem voltar, que dizem? Que para controlar a inflação tem de ter um pouco de desemprego. Pouco se importam com quem vai ficar desempregado. E o contrário do que a gente pensa. Um deles, aliás, acha que o salário mínimo cresceu demais, quando na verdade cresceu ainda aquém da necessidade da sobrevivência digna. Arminio Fraga, Aécio Neves, essa gente toda significa o retrocesso. E é isso que me preocupa. As pessoas não perceberam que é isso que está em disputa nesta eleição. Não é a Dilma contra o Aécio, não é PSDB contra PT, é mais do que isso. O que está em disputa são dois projetos de sociedade. O que era o Brasil antes de 2003? Como é que a elite brasileira tratou este país e tratou o povo trabalhador até eu chegar à Presidência? E quais são os dois projetos? Um é o projeto de que o País tem de ser governado apenas para uma parte da população, enquanto outra tem de ficar marginalizada. Segundo o nosso projeto, todo mundo tem direito de participar da riqueza produzida no Brasil. Temos de garantir que aqueles mais necessitados, mais debilitados economicamente, os mais frágeis do ponto de vista da sua formação profissional, tenham o direito de comer, de estudar, de dizer “eu sou brasileiro e não desisto nunca”. E esse projeto que está em jogo.

MC: Mas não seria um projeto capitalista?

LULA: E lógico que é. E só recordar Henry Ford, que dizia: eu tenho de pagar bem os meus funcionários para que eles possam comprar o carro que eles produzem. E aqui no Brasil o pobre ter carro incomoda. Eu trabalhei a vida inteira e como operário nunca pude ter um carro. Meu primeiro carro foi uma Brasília. MC: Eu tenho em mente alguns números. Por exemplo, investimento estrangeiro no Brasil: no tempo tucano, o máximo a que se chegou foi de 10 bilhões de dólares. LULA: Uma vez, acho que chegou a 19 bilhões. MC: Este ano, a previsão é de 67 bilhões. Mais do que no ano passado, que fechou com 64 bilhões. LULA: Pois é, há quatro anos consecutivos nós só perdemos para a Rússia, China e EUA. Nós somos o quarto ou quinto país receptor de investimentos externos diretos.

MC: Mas será que os investidores estrangeiros são cretinos?

LULA: 64 bilhões, 65 bilhões, 67 bilhões… Todo ano nós crescemos mais. Significa que as pessoas de fora estão acreditando muito mais no Brasil do que alguns brasileiros. Porque há quem, neste momento eleitoral, fique brincando com a Bolsa de Valores, especulando, ganhando dinheiro, comprando e vendendo. E é importante o povo ficar atento. Eu fui candidato muitas vezes, perdi eleições muitas vezes, sei das safadezas que eles fazem com a Bolsa. E quer saber de uma coisa, sem radicalismo? Eu nunca pedi voto para o mercado. Eu não sei quantos votos tem esse mercado, o que sei é que o povo tem voto para ele que a gente tem de pedir voto. E eu quero voto do rico, da classe média, do profissional liberal, do sem-teto, do sem-terra, do com terra, eu quero  voto de todo mundo, porque todo mundo é brasileiro e tem de ser tratado com igualdade de condições. O que eu dizia e a Dilma diz: nós governamos este País para todo mundo, agora o braço do Estado tem de estar mais atento às pessoas mais necessitadas. E este país que precisamos fortalecer, onde todo mundo seja tratado com igualdade de condições, onde a escola seja efetivamente de qualidade. Através da educação se estabelece a oportunidade de ascensão social. Mas há quem não a queira, a possibilidade de ascensão oferecida a todo mundo. Uma vez, muito tempo atrás, almoçava com você, o Weffort, que era secretário-geral do PT, o Jacó Bittar, e eu fui ao banheiro e, ao voltar à mesa, passei diante de duas senhoras e ouvi: “Ele diz que é pobre, mas está comendo aqui onde a gente come”. E o Jacó revidou: “É a senhora que vai pagar a conta dele? Sou eu que vou pagar a conta dele”. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso, quando pronunciou sua frase infeliz, retratou um sentimento histórico da elite brasileira, algo que vem desde o tempo da Coroa.

MC: Que sobra disso tudo se o PSDB volta ao poder?

LULA: Para mim, não há questão pessoal com Aécio. A questão não é o Aécio, a questão é a filosofia de vida que o tucano tem, a visão de mundo. Pessoalmente, sou amigo do Aécio, sou é adversário político e ideológico. A vitória de Aécio é a volta daquilo que não deu certo, é a volta do mundo que não deu certo. E por isso que o sistema financeiro está ouriçado para ele ganhar as eleições, é por isso que o FMI, que estava tão escondidinho, voltou a dar palpite, porque não se sabe para onde vai a taxa de juros com o seu Arminio Fraga. Ou se esqueceu da taxa que eu encontrei, os números da inflação e do desemprego? E como as burras estavam vazias? O Brasil de hoje está infinitamente melhor do ponto de vista das finanças públicas, da dívida interna pública, da dívida bruta, da política de juros, da reserva. Quando eu cheguei, o Brasil devia 30 bilhões de dólares ao FMI. A gente tinha 30 bilhões de dólares na reserva, dos quais 16 bilhões ou 17 bilhões de dólares era o próprio FMI. Eu aprendi com a minha mãe que era analfabeta: “Meu filho, a gente não pode fazer dívida que a gente não pode pagar”. Eu falei, sabe de uma coisa, eu não vou ficar devendo para o FMI para vir dar palpite na minha vida aqui. Eles querem que volte isso? Só porque o mercado quer mais. O mercado vai ganhar na medida em que a indústria ganhe, que os trabalhadores ganhem e a agricultura ganhe. E assim que a gente vai fazer um país feliz.

Entrevista de Lula a Mino Carta
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O que os tucanos querem esconder de você!



“Deputado conta que votou pela reeleição por R$ 200 mil”, estampou a capa da Folha de S.Paulo em 13 de maio de 1997, denunciando a compra de votos que permitiu a reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Sabe o que aconteceu? Nada. Nenhuma apuração. Para FHC, isso era tema menor.

Em 2007 foi a vez de o mensalão tucano vir a público. Trata-se de denúncia sobre esquema que financiou irregularmente a campanha de reeleição do então governador de Minas, Eduardo Azeredo, líder próximo a Aécio que governou MG de 94 a 98. Agosto de 2013: para obter contrato nas obras do metrô de São Paulo, uma empresa francesa pagou propina a vários políticos do estado, há 20 anos governado por tucanos.

No mês passado, Clésio Andrade, vice de Aécio Neves em seu primeiro governo no estado de Minas Gerais, foi denunciado por desvio de verbas. E em todos esses casos, nada foi feito. Enquanto os tucanos varrem tudo para baixo do tapete, Dilma defende que tudo seja apurado. Custe o que custar.

E sabe como a impunidade cresce com os tucanos? Pelo silêncio. Basta ver como funciona em Minas, sob o governo do PSDB. Jornalistas que criticaram o governo de Aécio foram perseguidos, censurados e demitidos. Dois documentários mostram a situação daqueles que criticaram o governo de Aécio em Minas: “Liberdade, essa palavra”, de Marcelo Baeta, e “Mordaça no Brasil (Gagged in Brazil)”, da norte-americana Current TV, que quase foi censurado.

Na internet Aécio também não quer que falem mal de seu governo: enquanto o Brasil avança com o Marco Civil, ele pede que tirem do ar links de redes sociais e do Google sobre ele. Aécio também tentou censurar 66 perfis do twitter que ele considera opositores à sua candidatura. Respeito à liberdade de imprensa e expressão não é o forte do candidato tucano. 

Pois é, mas não adiantou: quem sentiu o governo Aécio na pele sabe o que é melhor para o país. Aécio perdeu para Dilma no seu estado, no dia 5 de outubro, e seu candidato a governador perdeu no primeiro turno para Fernando Pimentel, do PT. Quem conhece os descaminhos do governo tucano em Minas, vota PT. Vota Dilma 13!

No Muda Mais
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Escolher ou regredir?

Conquistas e riquezas promissoras podem florescer ou regredir nos próximos anos. Não cabe lavar as mãos em princípios imaculados. Nem edulcorar a rendição.

Pela segunda vez nesta campanha, uma densa onda de ‘consenso’ se arremete do dispositivo conservador para sequestrar o discernimento crítico da sociedade, inoculando a prostração nos espíritos e o interdito na reflexão.

Um pouco como fazia o coro neoliberal, no arrastão ensurdecedor dos anos 70. ‘Rendam-se, não há alternativa!”, ordena a fuzilaria que coordena denúncias não comprovadas, mas oportunamente vazadas na largada do segundo turno, farto bombardeio seletivo na economia e clima de já ganhou nas bolsas e demais circuitos do dinheiro grosso.

Lembra um pouco, também, o massacre de agosto, quando a então recém assumida candidata do PSB, Marina Silva, emergiu para a disputa levitando em um aluvião de quase santidade, apoios em cascata e inexorabilidade histórica.

A fase alegre dos consensos em torno da terceira via, como se sabe, liquefez-se em semanas.

O que se tenta agora é reeditar o embalo, com um material já de partida um pouco mais gasto.

Sai a terceira. Turbina-se o revival da ‘via única’ dos anos 90, revisitada — acredite-se — na forma de salvação nacional.

À falta de algo melhor, um Churchill das gerais assume o comando.

Se não possui la physique du rôle por conta de outros tantos predicados que não propriamente anatômicos, não se vexa de avocar-se o portador da ‘eficiência e da decência’.

Passemos.

Não se pode negar a audácia diante de uma trajetória — tanto a biográfica, quanto a moldura histórica mais geral — ainda fresca, recheada de marcadores em sentido flagrantemente oposto ao evocado pelos novo salvacionismo.

Apenas para ilustrar: fruto justamente das receitas e práticas servidas agora como o manjar da redenção nacional, o mundo se arrasta há seis anos na maior crise vivida pelo capitalismo desde 1929.

Advém desses hiatos de coerência a sofreguidão perceptível com que os juízes do imaginário social tentam encerrar o jogo antes da hora.

Vale tudo para garantir o placar logo na saída. E há compradores nessa feira de liquidação de escrúpulos.

Epitáfios biográficos saltam aqui e ali do mutirão convocado a dar forma palatável à gororoba indigesta que se enfia na goela da sociedade.

"Às vezes, o reacionário serve de avanço", salpica o dirigente do Partido Socialista Brasileiro, Roberto Amaral.

O PSB tem história como trincheira da dignidade política.

Nele militaram intelectuais e socialistas como Antonio Cândido, Fúlvio Abramo, Adalgiza Nery, Barbosa Lima Sobrinho, Sérgio Buarque de Hollanda, Rogê Ferreira e Arraes, entre outros.

Nesta 4ª feira, a sigla se juntou à nervosa escalada rumo ao que, algo difusamente, denomina-se ‘candidatura da mudança’.

Registre-se, não sem um contundente protesto.

Enquanto a executiva do PSB juntava-se ao PSDB de Aécio Neves, Fernando Henrique e Serra, para derrotar o PT de Lula e Dilma, a deputada Luiza Erundina retirava-se da reunião do partido por não aceitar o cediço passo.

‘Farsa’, disparou na saída.

O jogral conservador insiste que se trata de outra coisa.

Qual seja, salvar o Brasil das mãos do ‘intervencionismo’ anacrônico, que atrapalha os mercados, solapa a confiança dos investidores, dilapida as estatais, paralisa o crescimento.

Nem mais um país; na verdade uma ilha de crise, cercada da oceânica prosperidade mundial, da qual inadvertidamente se apartou.

Será? Vejamos:

‘A produção industrial despencou 4,8% em agosto em relação a julho; as encomendas à indústria caíram 5,7% no mês; sem novas encomendas, outros tombos virão até o final do ano; as exportações cresceram apenas 0,9% no ano passado, contra 8%, em média, antes da crise; as perspectivas de expansão pelo comércio exterior são reduzidas; a queda mensal de 5,8% nas exportações em agosto é a maior desde janeiro de 2009; a tendência do PIB no terceiro trimestre ante o anterior é de uma expansão medíocre da ordem de 0,3%..’

O que mais será preciso dizer?

É preciso dizer que essa autópsia não se refere ao suposto defunto Brasil.

Estamos falando da poderosa Alemanha, de Ângela Merkel, que a ninguém ocorreria acusar de negligente com os fundamentos dos mercados. Os mesmos fundamentos vendidos aqui como a redenção da lavoura pelo candidato a Presidente que faz borbulhar de alegria as bolsas.

Dona do parque fabril talvez o mais avançado do mundo, e um dos mais competitivos do planeta, O gargalo da Alemanha sugere que a festança da plutocracia brasileira talvez não incorra apenas em prematuro júbilo eleitoral.

Mais grave é o equívoco de diagnóstico embutido na celebração.

São os ‘erros internos que impedem o Brasil de crescer’, insiste a manchete da Folha, desta 4ª feira, em dueto com o FMI.

A incômoda informação de que a referência de pujança mundial, a inoxidável economia alemã, chafurda na areia movediça da estagnação global, que nem mesmo a recuperação norte-americana consegue romper, não cabe na narrativa da ‘mudança’.

Às favas os ‘detalhes’.

Para glosar Roberto Amaral, ‘às vezes a mentira é o caminho da verdade’.

Sendo assim, espete-se no governo brasileiro os crimes de subsidiar empresas, proteger o mercado interno, gerar empregos, apostar nos Brics e na integração latino-americana, administrar preços, valorizar o poder de compra das famílias assalariadas, multiplicar o crédito, investir em gigantescos programas de infraestrutura, decretar a soberania no pré-sal, impor exigências de conteúdo nacional nas aquisições da Petrobrás etc

Enfim, criar uma barragem de mercado interno que dificulta a aterrisagem da crise, melhor, da ‘bonança mundial’ no país.

Pior que isso: privar os livres mercados da liberdade para faze-lo, desbastando o custo do trabalho por essas bandas, como fizeram outras nações na esteira da crise.

A essa tarefa tardia se propõe agora a candidatura conservadora.

Os soluços ecoados pela poderosa locomotiva alemã sugerem que o diagnóstico talvez não seja exatamente esse que justificaria o lacto purga ortodoxo. E por uma razão que o conservadorismo finge não saber: o comércio internacional foi soterrado pela aplicação disseminada da receita de arrocho social e fiscal que se pretende adotar aqui.

A ideia genial dos armínios globais de deslocar a oferta de cada economia para a demanda do vizinho colidiu com as leis da física.

Na medida em que todos pularam de cabeça simultaneamente no mesmo espaço, a busca da salvação transformou-se em estagnação coletiva.

O crescimento das exportações tem sido decepcionante em todos os países.

O caso alemão é pedagógico. Mas de igual sina não escapam outros colossos.

Habituada a um crescimento médio das exportações da ordem de 20%, a China assiste ao recuo dessas taxas a menos da metade (8,5%).

Mesmo a festejada recuperação norte-americana carece de demanda externa que compense a anêmica capacidade de consumo de sua arrochada classe média, cujo poder de compra real não cresce há 15 anos.

Que a Casa Branca se desdobre em esforços para impor acordos de livre comércio em todas as latitudes, a exemplo da Aliança do Pacífico, na América Latina, não surpreende.

O que surpreende é a cínica defesa da mesma agenda pelas elites locais, como se isso fosse de fato redimir a economia e o crescimento.

Vai piorar.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) prevê que o oxigênio externo ficará ainda mais rarefeito para os EUA, à medida em que o afrouxamento da liquidez se esgota.

A previsível valorização do dólar tende a encarecer produtos made in USA, dificultando adicionalmente o uso da exportação como acelerador da retomada — a menos que o velho espírito da ALCA volte a reinar abaixo do Rio Grande, por exemplo.

Esse é o mundo em marcha.

Segundo a OMC, nele não há mais espaço para um crescimento do comércio internacional de 5,3% em 2015, como previa. A taxa foi reduzida para 4%, sujeita a novos recortes.

O funil explica também a revisão do FMI, que cortou novamente a previsão para o crescimento mundial em 2015.

Nesse ambiente entupido de produção sem demanda, com elevada capacidade ociosa na indústria, ter moeda valorizada, como é o caso do Real há duas décadas, sem dúvida abre um túnel complacente a importações maciças de manufaturados, com toda a sorte de efeitos deletérios .

A saber: cerca de 25% da manufatura consumida no Brasil atualmente é importada; o déficit externo da indústria local foi de US$ 108 bilhões em 2013, mais de ¼ das reservas cambiais; em uma economia que roça o pleno emprego, as demissões de mão de obra qualificada superam as de menor formação.

Reverter esse flanco é crucial. Não tanto para redimir as exportações, pelas razões expostas acima e, sim, para proteger a industrialização brasileira, trunfo desdenhado pelo conservadorismo.

Não se trata de um cacoete do desenvolvimentismo, como querem os armínios e assemelhados.

A indústria é a usina disseminadora da produtividade na economia.

O investimento industrial qualifica e muda a escala do crescimento. Faz mais que isso: multiplica o excedente indispensável a uma sociedade que aspira dar novos saltos de convergência da renda e de direitos.

A defesa da industrialização brasileira é um imperativo da democracia e do desenvolvimento. E ela colide com as teses da derrubada irrestrita de tarifas protecionistas esposadas pelo conservadorismo.

Não só.

Se o Brasil asfixiar seu dinamismo interno, pela receita do arrocho, num mundo em que nem a lubrificada máquina exportadora germânica funciona, o que lhe restará?

Restará uma nação encurralada no menosprezo aos seus próprios trunfos, entre eles um gigantesco mercado de massa e uma indústria já carente de impulsos para modernizar-se.

Delineiam-se, portanto, dois caminhos na travessia para um novo ciclo de desenvolvimento.

Um, implica a repactuação democrática das linhas de passagem que garantam a matriz de um crescimento ordenado pela justiça social.

Não é isenta de algum sacrifício programado, alerte-se.

Mas disporá de salvaguardas que interliguem esse passo a um calendário de ganhos progressivos.

A outra, simplifica a tarefa. Terceirizando-a à ‘racionalidade’ dos livres mercados, como vem sendo feito em uma Europa em carne viva, há quatro anos submetida à lixadeira neoliberal.

A escolha conservadora dispensa o penoso trabalho de coordenação política da economia, associado à mediação dos conflitos inerentes às escolhas do desenvolvimento.

Dispensa-se a reforma política, prescinde-se da maior participação social, rejeita-se, por incompatível, uma regulação do sistema de comunicação, capaz de torna-lo mais poroso à expressão dos diferentes interesses da sociedade.

A festejada ‘racionalidade dos mercados’, no entanto, é só nome fantasia do despotismo econômico.

Na verdade, armínios e assemelhados, organicamente conectados aos detentores da riqueza local e global, manipulam as ferramentas macroeconômicas arbitrando quem vai ganhar e quanto as famílias assalariadas vão perder na contabilidade do processo.

O que o conservadorismo pleiteia neste 2º turno é sancionar essa carta branca sob o difuso guarda-chuva de ‘mudança’, para não se defrontar com a questão-chave da disputa.

O Brasil vai passar pelas dores do parto que marcam o reordenamento do seu novo ciclo econômico.

É uma repactuação incontornável na vida da nação.

E ela terá que ser construída sobre um tecido social redesenhado pela emergência dos grandes contingentes populares que ingressaram no mercado e na cidadania nos últimos doze anos.

A escolha é reordenar a macroeconomia em negociação permanente com eles.

Ou contra eles.

Não há terceira via, via única ou neutralidade que elida essa disjuntiva.

Não se trata de discurso do medo.

É mais grave que isso.

É um divisor histórico. Local e global.

Os próximos quatro anos serão decisivos na construção do país que o Brasil quer ser no século XXI.

Conquistas e riquezas promissoras podem florescer ou regredir.

Não cabe lavar as mãos nas águas dos princípios imaculados.

Nem edulcorar táticas de rendição.

Nenhum projeto reacionário serve de avanço quando ele tem o comando do processo.

Nenhum princípio tem pertinência política se é incapaz de agir na correlação de força de uma época.

As ideias pertencem ao mundo através da ação.

A ação hoje inclui uma escolha: lutar para avançar ou regredir?

Dilma ou Aécio?

Saul Leblon
No Carta Maior
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Dilma na TV


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Mino Carta fala de seu mais recente encontro com Lula

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Nova tentativa de manipular as eleições no Brasil!

Companheiros e companheiras,

Há em curso uma gravíssima tentativa de manipular a eleição presidencial no Brasil. A quinze dias das eleições, justamente no dia do primeiro programa eleitoral do segundo turno, um vídeo de um criminoso investigado é vazado de forma parcial e mal intencionada. O que diz neste vídeo? Que o preso ouvia nos corredores da Petrobrás que o PT se beneficiaria de dinheiro de contratos da empresa. Quais as provas que apresenta? Nenhuma! Quais os casos concretos que relaciona? Nenhum! Baseado nisto, num fragmento de depoimento de um presidiário que relata boatos, a grande imprensa estampa manchetes de brutais ataques ao PT. Manchetes que negaram sistematicamente no caso do Metrô Paulista do PSDB com um desvio bilionário descoberto em uma investigação internacional.

O combate à corrupção é uma marca profunda do governo Dilma e é justamente por isto que o investigado foi demitido e preso por nosso governo, fato também omitido pela grande imprensa.

Nada disto é novo para nós. Desde que fundamos o PT, sabíamos o preço de enfrentar a elite brasileira. Tivemos o caso Abílio Diniz, a manipulação das eleições de Lula em 1989, a falsa ficha de Dilma, a falsa matéria das Farc.

Sempre em ano eleitoral. Sempre esquecidos logo após passarem as eleições.

É preciso dar um basta a este tipo de política.

Fazem isto porque não podem discutir com o povo suas propostas para o País. Propostas que geram desemprego, recessão e privatização como sempre fizeram quando estiveram no poder.

Nossa campanha cresce em todo o País. As manifestações de apoio nas atividades do Nordeste foram históricas. Hoje, vamos ao Rio Grande do Sul confirmar a vitória e animar nossa militância. Estaremos amanhã em Minas Gerais, depois em São Paulo e assim, junto do nosso povo, percorreremos todo o País. É disto que eles têm medo, a força de um povo mobilizado que não quer voltar atrás. Por isto criam esta barreira de fumaça de um denuncismo tão seletivo quanto manipulador. Mais uma vez o povo dirá não à mentira e deixará claro que este não é mais um país em que poucos podem falar por um povo!

Faremos história de novo. Elegeremos Dilma presidenta.

Até a vitória!

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Rede recua e diz que foi erro apoiar voto em Aécio


Partido idealizado por Marina Silva racha sobre posição a favor do presidenciável tucano Aécio Neves no 2° turno contra a presidente Dilma Rousseff; em nota, grupo de dissidentes classificou como "grave erro político" e defende que o melhor caminho é se declarar independente: "Nenhuma modificação formal no programa eleitoral de Aécio transformará a natureza de sua candidatura, que não se constitui de palavras, mas de atos de história concreta que indicam sua integração orgânica à desconstituição de direitos, aos ruralistas e ao capital financeiro", diz o texto; "Ser parte da polarização PT X PSDB é sepultar a luta por uma nova política. É também o sepultamento do projeto original da Rede Sustentabilidade", conclui

Após recomendar voto no presidenciável tucano Aécio Neves, branco ou nulo no 2° turno das eleições, a Rede Sustentabilidade, partido idealizado por Marina Silva, racha e indica recuo.

Um grupo de dissidentes da sigla divulgou uma nota nesta sexta-feira em que classifica como "grave erro político" a declaração de apoio à candidatura de Aécio contra a reeleição de Dilma Rousseff e defende que o melhor caminho é se declarar independente.

"Constitui-se grave erro político a declaração de voto e a adesão à campanha de Aécio Neves. Nenhuma modificação formal no programa eleitoral de Aécio transformará a natureza de sua candidatura, que não se constitui de palavras, mas de atos de história concreta que indicam sua integração orgânica à desconstituição de direitos, aos ruralistas e ao capital financeiro", diz o texto.

Grupo cita ainda a defesa de Marina Silva pela “terceira via política”: "Ser parte da polarização PT X PSDB é sepultar a luta por uma nova política. É também o sepultamento do projeto original da Rede Sustentabilidade, que nasceu com o propósito maior de estimular a emergência dos sujeitos autorais, dos indivíduos livres e conscientes, que não se dispõem a realizar suas mais legitimas aspirações e interesses no âmbito da velha, estagnada e conservadora política que tanto PT quanto PSDB representam e praticam."

A ex-senadora adiou novamente o anúncio de sua posição sobre a disputa eleitoral.

* * *

Coimbra: Aécio precisa de 80% da Bláblá

Na hora da verdade, 80% dos marineiros votam num tucano?


De Marcos Coimbra, sempre sereno e agudo, na Carta Capital (em que Mino entrevistou Lula e Lula foi pra cima do FHC, o lorde de Higienópolis):

“Quanto mais eleitores de Marina Silva optarem pelo voto branco ou nulo ou pela abstenção, maior a dificuldade de Aécio Neves no segundo turno.”

“A eleição vai terminar como se imaginava… numa disputa entre PT e PSDB…”

“…para o eleitor mudar de voto… é necessário mais que uma onda”

“…haverá uma nova eleição para os 22 milhões de eleitores de Marina e os 3,7 milhões que preferiram os outros oito candidatos.”

“Se todos os eleitores de Marina votarem nominalmente, (isto é, dividirem-se entre ele e Dilma), o mineiro precisa receber cerca de 70% dos marinistas. Se alguns preferirem não votar em ninguém… a taxa de aproveitamento do tucano terá de ser mais elevada. Na hora da verdade, será possível levar 80% dos eleitores de Marina a votar num candidato do PSDB?”

No CAf
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O “estarrecimento” hipócrita de Aécio

Duelo de estarrecimentos
Dilma e Aécio se disseram estarrecidos.

Dilma por ver vazarem sem provas, num momento crucial da disputa pela presidência, depoimentos que incriminam o PT no caso Petrobras.

Aécio, num jogo de palavras em resposta a Dilma, pelo teor dos depoimentos.

Aécio foi espirituoso, é verdade — mas o que ele disse simplesmente não faz sentido.

Pelo seguinte: onde estão as provas? Quem garante que os depoimentos são verdadeiros?

Mais ainda: por que agora, às vésperas do turno final? Repare: já se incorporou ao calendário político nacional uma denúncia espetacular contra o PT quando os brasileiros se preparam para ir às urnas.

Por que não antes? Por que não depois? Por que — sempre — na hora do voto?

A lista das perguntas poderia esticar-se. Por que nunca alguma denúncia contra o PSDB recebe destaque, apenas para variar? Por que a mídia mal cobriu o escândalo do Metrô de SP, ou o aeroporto de Aécio, para não falar da compra de votos no Congresso para a reeleição de FHC?

Aécio se estarrece sempre que lê alguma denúncia, ou isso só acontece quando seus adversários são atingidos?

Ela ficou estarrecido com a conta de alguns milhões de dólares de um cacique tucano bloqueada na Suíça por ter sido gerada por propinas na construção do Metrô de São Paulo?

Ficou estarrecido com o fato de o cacique em questão pertencer, desde os tempos de Covas, ao Tribunal de Contas de São Paulo, órgão fiscalizador das contas do governo paulista?

Ficou estarrecido com a permanência desse cacique no cargo mesmo depois do bloqueio de sua conta feito pelas autoridades suíças?

Claro que o aeroporto de Cláudio não haveria de estarrecê-lo. Estarreceu-o, isso sim, Luciana Genro ter trazido o assunto a um debate presidencial.

O pecado nada é, segundo essa maneira de ver as coisas. O problema é a publicação do pecado, como notou Machado de Assis.

É muito cinismo e muita hipocrisia para um candidato só. Aécio deve ter os brasileiros na conta de idiotas, se acha que eles vão acreditar em seus estarrecimentos seletivos.

Dilma, ao comentar os vazamentos do caso Petrobras, disse uma coisa que merece ampla reflexão da sociedade.

A impunidade, afirmou ela, começa quando as acusações não são sustentadas por provas.

Perfeito.

Numa sociedade avançada, você só pode publicar acusações se puder comprová-las.

Antes disso, não. A sociedade tem que estar protegida, a não ser que o entendimento seja o de que você é culpado até prova em contrário.

Ainda assim, é uma lógica perversa que deve valer para todos. FHC, por exemplo, teria que provar que é inocente da acusação de compra de votos no Congresso.

Todo mundo topa?

Vivemos uma aberração na mídia e na política, um valetudo cujo único interesse é a manutenção das mamatas e privilégios daquela turma de sempre.

Vou ser didático.

Imagine que o irmão de Obama diz a você, editor, que ele tem uma conta milionária num paraíso fiscal e que, na juventude, costumava colocar em si mesmo supositórios de cocaína.

Você publica e, quando instado a provar, diz que quem falou foi o irmão de Obama? Você triunfalmente, passa às autoridades uma fita com as “revelações” do irmão de Obama e acha que está tudo resolvido?

Experimente fazer isso nos Estados Unidos. Você não apenas vai para a cadeia como terá que pagar uma multa milionária — a não ser que tenha provas.

No Brasil, você sai ileso, e até aclamado por amigos de destaque na mídia, em nome da “liberdade de expressão”.

Você destrói irresponsavelmente reputações, ou até vidas, e é condecorado.

É uma situação que só é boa para a mídia e seus amigos — numa palavra, a plutocracia.

A pergunta doída para o PT é por que, em doze anos, nem Lula e nem Dilma enfrentaram essa tragédia nacional.

Medo, pânico, falta de visão?

O lado irônico de tudo é que nestes doze anos o PT financiou a mídia que tenta tirá-lo do poder na marra.

Sem os 600 milhões de reais anuais de propaganda federal a Globo seria, forçosamente, muito menor do que é — sem sequer a necessidade de regulamentar a mídia para evitar monopólios e oligopólios.

Não haveria como sustentar Jabores, Mervais, Noblats, Kamels e tantas outras figuras abertamente dedicadas a minar Lula e, agora, Dilma.

Bastaria decidir que propaganda oficial é só para assuntos de interesse público, como temporadas de vacinação e coisas do gênero.

Quer mais um pouco para moralizar o quadro e cortar as garras dos agressores? Bastaria impedir que empresas de mídia pudessem vender livros para o governo, outra atividade que ao longo dos tempos tem carregado torrencialmente dinheiro públicos para mãos privadas.

Nada disso foi feito.

Agora, a falta de ação cobra seu preço — e a única coisa que resta ao PT é expor uma deformação que caberia a ele erradicar no poder, e torcer para que os eleitores não caiam no velho truque que no passado tragou Getúlio e Jango.

Paulo Nogueira
No DCM
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Os resultados do Datafolha e do Ibope e o golpismo midiático


Não há mais a menor sombra de dúvida de que esta eleição presidencial de 2014 é a mais emocionante e cheia de alternativas desde 1989. Isso se deve não só à queda do avião que levava Eduardo Campos em Santos, como também a erros do governo e a fragilidade da oposição. O eleitorado tem muitas dúvidas sobre que caminho seguir porque seu nível de exigências hoje é maior do que lhe é oferecido. Tanto por um lado, quanto pelo outro.

Marina Silva não durou uma primavera. No final de agosto e começo de setembro já havia gente dando como favas contadas sua vitória. Ela parecia ser a encarnação dos desejos do eleitor. Alguém com história limpa, discurso baseado na esperança de uma mudança ancorado num mundo mais justo e sustentável e descolada da política tradicional. Mas na hora que ela teve de enfrentar as questões do debate real, sobre programa de governo e opções a fazer, a candidata se mostrou frágil. Em uma hora apontava para um lado, na seguinte, para o outro. E, por incrível que pareça, foi num tema polêmico e onde o outro lado é ainda maioria, a questão do casamento igualitário, que Marina perdeu seu glamour. Quando anunciou mudança de posição depois de quatro tuítes do Pastor Malafaia, viu escorrer pelos dedos boa parte do seu capital simbólico. Ali Marina começou a deixar a eleição de 2014.

O quadro começou a se indefinir no final de setembro em relação ao segundo turno e de repente Aécio a ultrapassou nas urnas de forma surpreendente. E já no dia 5 de outubro à noite virou favorito para muitos. Este blogueiro escreveu que ele deveria aparecer à frente nas primeiras pesquisas de segundo turno, mas também disse que mesmo assim Dilma mantinha ligeiro favoritismo.

E as pesquisas confirmaram a hipótese do blogueiro, mas sem a força que alguns esperavam. Havia gente que imaginava que ele apareceria com 10 pontos de frente em relação à candidata do PT. A eleição voltou a ficar indefinida. Mas a mídia que usa concessões públicas para fazer campanha quer desequilibrá-la.

Se o PT e a campanha de Dilma não enfrentarem os meios de comunicação e mirarem apenas no tucano, ele sairá vitorioso. O que a TV Globo fez ontem no Jornal Nacional e o que alguns jornais fizeram hoje, além dos portais durante todo o dia de ontem, é algo vergonhoso. Transformaram a denúncia de um bandido que está falando para tentar se livrar da cadeia em algo absolutamente crível. E vazaram um áudio de um depoimento dado em segredo de justiça que é criptografado para não prejudicar o processo.

Algo absolutamente absurdo e que demonstra como o Estado brasileiro não é aparelhado pelo PT, mas por aqueles que o governaram por 500 anos. Eles têm gente que colabora para os seus interesses em todas as áreas: na justiça, no Ministério Público, na Polícia Federal etc. E os meios de comunicação que deveriam acompanhar esses fatos com um mínimo de responsabilidade, usam essas relações para influenciar na eleição.

Aécio Neves construiu um aeroporto e deu a chave do portão para o titio. A mídia, ao invés de investigar o fato, fez de tudo para lhe livrar da investigação. Aécio foi o patrocinador da candidatura de Zezé Perrela como suplente de Itamar Franco, que já se candidatou ao Senado de Minas doente, tanto que veio falecer logo depois da posse. Um helicóptero da família Perrela é apreendido com 500 quilos de cocaína e o caso é abafado num dos maiores absurdos da história da cobertura da mídia no Brasil.

A cobertura midiática desta eleição não tem sido muito diferente da de outros momentos. Mas a questão é que, como neste segundo turno o jogo está mais embolado e só há 15 dias para ver quem vai se tornar presidente da República, não há espaço para deixar a mídia jogar sozinha.

A guerra está declarada. E em momentos assim, não há opção. Ou o PT e a campanha de Dilma enfrentam as acusações e desmontam a farsa midiática ou a vaca vai para o brejo (sic) (tussa), como disse outro dia a presidenta.

O resultado das pesquisas neste momento é o de menos. Ao que consta, aliás, na segunda-feira pelos trackings a diferença de Aécio era bem maior. Ou seja, ela caiu. A onda já arrefeceu. O PT tem espaço para ganhar redutos que perdeu na capital e na grande São Paulo. E isso pode vir a ser fatal para as pretensões do tucano.

Mas para ganhar vai ter de quebrar alguns ovos. Denunciar o caráter elitista da campanha tucana, mostrar que o futuro ministro da Economia de Aécio já fala em privatizar bancos e ao mesmo tempo mostrar que a Globo e seus aliados querem voltar a fazer o que sempre fizeram com o povo, enganá-los tratando-o como um bando de trouxas.

Nas manifestações de junho, palavras de ordem contra a Globo foram tão ou mais entoadas do que contra Dilma e o PT. Ou seja, não se pode ter medo de enfrentá-la. Até porque quem declarou guerra foi ela com o Jornal Nacional de ontem.

Renato Rovai
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“Só o antipetismo não elege Aécio”

O tucano precisará falar ao eleitor mediano, afirma o cientista político Claudio Couto

José Serra, Aécio Neves e Geraldo Alckmin durante evento de campanha em São Paulo, nesta terça-feira 7
Vítima de suas próprias contradições, Marina Silva derreteu na reta final da campanha e abriu caminho para a virada de Aécio Neves. Na avaliação do cientista político Cláudio Gonçalves Couto, professor da Fundação Getúlio Vargas, o presidenciável tucano recuperou um eleitorado tradicionalmente do PSDB, que havia migrado temporariamente para uma candidata então aparentemente mais competitiva. O especialista destaca, porém, que Aécio não deveria insistir no discurso antipetista se quiser vencer a eleição. “É preciso ir atrás do voto do eleitor mediano, caminhar para o centro”, explica. “Até porque o eleitor antipetista já é dele, corre para o PSDB por força gravitacional.”

CartaCapital: Como entender o fenômeno Marina Silva?

Cláudio Gonçalves Couto: Em toda eleição, a dinâmica dominante é o enfrentamento entre governo e oposição. Há 20 anos, o PT e o PSDB polarizam no plano nacional. A inesperada entrada de Marina na disputa deste ano embaralhou as referências políticas do eleitorado. Ela entrou na campanha após a morte de Eduardo Campos. Uma parcela do eleitorado pode ter se emocionado com a tragédia, mas não acho que a comoção seja o principal fator para explicar sua meteórica ascensão. Na verdade, os eleitores passaram a dar mais atenção ao processo e, naquele momento, ela estava em evidência.

Por que ela despencou tão rapidamente?

Marina não transmitiu a imagem de possuir convicção clara do que pretendia fazer caso fosse eleita. Recuou no plano de governo em relação à população LGBT. Os economistas ligados à campanha apresentavam um discurso ambivalente. A própria Marina tropeçava nas palavras, uma hora falava em autonomia do Banco Central, na outra em independência. Outro ponto: ela se apresenta como representante de uma nova política. Por que então subiu no palanque de Jorge Bornhausen em Santa Catarina? Poucos nomes são tão associados à velha política como o dele.

E a ascensão de Aécio na reta final?

Lembra-se das eleições de 2006? Naquela disputa, Geraldo Alckmin teve menos votos no segundo turno do que no primeiro. O que houve? Lula recuperou os votos que já eram dele, momentaneamente deslocados para  Alckmin por conta do caso dos aloprados petistas. Aécio recuperou um eleitorado tradicionalmente do PSDB, mas que migrou temporariamente para Marina.  Há uma fatia dos eleitores de Eduardo Campos que apostaram em um primeiro momento na Marina e, depois de ver suas fragilidades, optaram por ficar com Dilma mesmo.

Dilma e Aécio disputam qual tipo de eleitor?
A
s pesquisas indicam que Dilma sempre teve folgada liderança entre os eleitores mais pobres, com renda de até dois salários mínimos. Entre aqueles com renda superior a dez salários mínimos, Aécio sempre manteve a dianteira. O que está em disputa são os votos das classes B e C.

O que muda na estratégia do PT e do PSDB?

O PT deve manter a estratégia de destacar os avanços sociais, a valorização do salário mínimo, o elevado nível de emprego. Na disputa com Aécio, os petistas deverão explorar as comparações com o governo FHC. No caso do PSDB, o cenário é mais complicado. No segundo turno, o eleitorado costuma se dividir entre direita e esquerda. Para vencer, é preciso ir atrás do voto do eleitor mediano, caminhar para o centro.

Aécio teria mais dificuldade para lidar com isso?

Desde a eleição de Lula, o PT rumou para o centro. Para governar, precisou moderar o discurso, ceder em muitos pontos para manter a base unida. Nos últimos anos, vários partidos tradicionalmente de direita tornaram-se siglas fisiológicas. O PMDB sempre teve esse perfil, mas o PP de Maluf, não. Maluf sempre foi um representante dileto da direita. Não mais. Em São Paulo, abraça tanto o prefeito petista Fernando Haddad quanto o governador tucano Geraldo Alckmin. Com isso, a direita programática ficou órfã de legítimos representantes. Para onde esse eleitorado foi? Para o PSDB. E os tucanos apostaram no endurecimento do discurso de direita para fazer oposição ao PT.

Trata-se de um erro de estratégia?

Totalmente. O PSDB passou a focar mais no antipetista do que no eleitor mediano. Para vencer, precisa fugir dessa lógica. Até porque, o eleitor antipetista já é dele, corre para o PSDB por força gravitacional. Aécio precisa sensibilizar quem não é necessariamente contra o PT. Resta a dúvida se eles vão conseguir abandonar esse discurso. O PSDB incorporou o antipetismo de forma muito clara.

Após essa derrota, qual será o futuro de Marina?

Marina e seu grupo devem sair do PSB, pois ainda têm a perspectiva de criar a Rede Sustentabilidade. A forma como essa saída se dará depende de como a derrota será digerida. Para quem estava tão à frente nas pesquisas, o resultado é muito frustrante. É como o 7 a 1 da Copa.

E o PSB, como sai da disputa?

O partido ficará em frangalhos. Marina teve um efeito desorganizador geral na política brasileira. Primeiro, ela embaralhou essa dicotomia entre o PT e o PSDB. E também desorganizou o PSB. Aquelas lideranças que a criticaram em plena campanha demostram um partido bastante fracionado.

Em seu último ato de campanha, Marina caminhou pelo Rio de Janeiro praticamente só, sem nenhuma liderança do PSB.

Ela sempre encontrou resistências na legenda. Mas o racha não é apenas entre o PSB e o grupo de Marina.  Houve traumas nas relações entre as lideranças do próprio partido. Na verdade, o partido sofreu um baque com a morte de Eduardo Campos. Podia não vencer agora, mas talvez voltasse com mais força em 2018. Agora, com essa derrota, nas circunstâncias como ela ocorreu, o partido fica fragilizado. De certa forma, isso lembra a trajetória do PDT após a morte de Leonel Brizola. O PSB corre sério risco de se tornar ainda mais caudatário do PT do que já foi no passado.

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