26 de set de 2014

O que o último Datafolha mostra

As rivais
Muita gente atribuiu os números do último Vox Populi a uma suposta simpatia do instituto pelo PT.

Mas os resultados do Datafolha divulgados hoje reforçam o que o Vox Populi apontava: o momento é inteiramente favorável para Dilma.

O quadro, a pouco mais de uma semana das eleições, é o seguinte: Dilma cresce, Marina diminui e Aécio fica parado.

A grande questão, hoje, é se esta tendência se manterá. Caso isso aconteça, são grandes as chances de Dilma levar no primeiro turno.

Os adversários de Dilma estão ajudando, é verdade. Aécio insiste em falar em corrupção, como se fosse um Catão e os brasileiros idiotas.

Não poderia triunfar, a verdade é essa, um candidato que começa sua campanha jurando à plutocracia que iria tomar “medidas impopulares”.

Marina se enrolou nela mesma. Abraçou um projeto conservador e depois teve imensa dificuldade em sustentá-lo. Um dos casos mais notáveis de guinada foi o da CLT, que ela prometeu “atualizar” para empresários e depois, diante da reação de sindicatos, disse ser “sagrada”.

A campanha de Dilma foi brilhante, talvez melhor até que seu governo.

Mesmo sendo situação, ela soube capitalizar o desejo dos brasileiros de mudar. “Muda Mais” é um dos melhores slogans da história política nacional.

Em outro ponto explorado pelos adversários, o da corrupção, ela também tomou a dianteira. Disse que a grande diferença entre hoje e antes é que no passado a corrupção era empurrada para debaixo do tapete, e agora é combatida.

Fora tudo, ela se beneficiou de um estado de espírito que tomou o mundo: a insatisfação com a desigualdade social.

Neste campo, são inquestionáveis os avanços promovidos primeiro por Lula e depois por ela.

Programas como o Bolsa Família e o Mais Médicos mudaram para melhor a vida dos pobres.

Sinal disso, tanto Aécio quanto Marina gastam um bom tempo de suas falas na defensiva, garantindo que não irão mexer em nenhum desses programas.

O pior, para Aécio e Marina, é que eles não têm um único projeto social novo, de porte, para anunciar.

Por fim, não se deve subestimar também a força eleitoral de Lula. Com seu carisma, com sua popularidade e com seu humor cortante, ele se empenhou intensamente pela pupila.

Aécio não teve um padrinho desses: FHC tira votos, em vez de trazer. E Marina teve em Neca Setúbal uma conselheira e apoiadora de muito menor impacto eleitoral que Lula.

Todas as circunstâncias, vistas as coisas em retrospectivas, foram dar no cenário de hoje: o franco favoritismo de Dilma.

Pode mudar? Pode. Mas é altamente improvável. Aécio está fora do jogo. No jargão do futebol, tem chances matemáticas. E para Marina a maior vitória será conseguir se arrastar, em meio à rápida erosão de intenção de votos, até o segundo turno.

Paulo Nogueira
No DCM
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Manifesto de generais de pijama ataca Comissão da Verdade

Vinte e sete milicos da reserva do Exército assinaram um manifesto com críticas ao ministro da Defesa, Celso Amorim. No documento, os generais, que atingiram o mais alto posto da hierarquia militar, afirmam abominar "peremptoriamente" a declaração dada pelo ministro, na semana passada, à Comissão Nacional da Verdade (CNV), de que as Forças Armadas aprovaram e praticaram atos que violaram direitos humanos no período militar.

Depois de ressaltar que, "sempre que pode", a Comissão "açula" as Forças Armadas, provocando-as, e exigindo que elas peçam desculpas, o grupo, do qual fazem parte três ex-ministros do Exército, declaram que "se houver pedido de desculpas será por parte do ministro". E avisam: "Do Exército de Caxias não virão (desculpas)! Nós sempre externaremos a nossa convicção de que salvamos o Brasil!".

Os gorilas, ex-integrantes do Alto Comando do Exército e antigos comandantes de importantes unidades militares de todo o Brasil, justificam a necessidade do manifesto, lembrando que militares da ativa não podem dar declarações políticas, mas que os da reserva, que podem falar, "têm justos motivos para replicarem com denodada firmeza" para que não pareça estar em vigor o famoso ditado "Quem cala consente!".

O manifesto reforça e endossa declaração já dada, no início da semana, pelo ex-comandante Militar da Amazônia, o também general quatro estrelas da reserva Augusto Heleno, que reiterou que, em nenhum momento, as Forças Armadas reconhecem a tortura ou pediram desculpas e que este gesto veio do ministro Celso Amorim.

No manifesto, assinado pelos ex-ministros Leonidas Pires Gonçalves (do Exército, no governo Sarney) , Zenildo Zoroastro de Lucena (do Exército, no governo Itamar e Fernando Henrique) e Rubens Bayma Denys (da Casa Militar, no governo Sarney), quatro ministros do Superior Tribunal Militar e outros 20 quatro-estrelas da reserva, os gorilas ressaltam que existe uma lei da Anistia em vigor que a Comissão da Verdade insiste em desconsiderá-la.

Os generais de pijama lembram ainda que viveram "uma época de conflitos fratricidas, na qual erros foram cometidos pelos dois lados". E prosseguem: "nós, que vivemos integralmente este período, jamais aprovamos qualquer ofensa à dignidade humana, bem como quaisquer casos pontuais que, eventualmente surgiram". Citam também que "os embates não foram iniciados" por eles "pois não os desejávamos" e que não se pode esquecer do "atentado no aeroporto de Guararapes". Eles se referem à explosão de uma mala que matou 16 pessoas no local onde o avião do ex-presidente Costa e Silva iria pousar e não o fez por uma pane no aparelho.

Os milicos criticam a Comissão da Verdade, afirmando que "a credibilidade" dela vai "gradativamente se esgotando pelos inúmeros casos que não consegue solucionar, tornando-se não somente um verdadeiro órgão depreciativo das Forças Armadas, em particular do Exército, como um portal aberto para milhares de indenizações e "bolsas ditadura", que continuarão a ser pagas pelo erário público, ou seja, pelo povo brasileiro". Afirmam ainda que "falsidades, meias verdades, ações coercitivas e pressões de toda ordem são observadas a miúdo, e agora, de modo surpreendente, acusam as Forças Armadas de não colaborarem nas investigações que, em sua maioria, surgem de testemunhas inidôneas e de alguns grupos, cuja ideologia é declaradamente contrária aos princípios que norteiam as nossas instituições militares".

Ainda no manifesto, os generais de pijama lembram que "o lado dos defensores do Estado brasileiro foi totalmente apagado", sugerindo que ali "só existem criminosos e torturadores". Mas destacam que, "por outro lado, a comissão criou uma grei constituída de guerrilheiros, assaltantes, sequestradores e assassinos, como se fossem heroicos defensores de uma "democracia" que, comprovadamente, não constava dos ideais da luta armada, e que, até o presente, eles mesmos não conseguiram bem definir". E ironizam: "seria uma democracia cubana, albanesa ou maoísta? Ou, talvez, uma mais moderna como as bolivarianas?"

Íntegra do Manifesto à Nação brasileira, assinado pela milicada

"Nós, Generais-de-Exército, antigos integrantes do Alto Comando do Exército e antigos Comandantes de Grandes Unidades situadas em todo o território nacional, abominamos peremptoriamente a recente declaração do Sr. Ministro da Defesa à Comissão Nacional da Verdade de que as Forças Armadas aprovaram e praticaram atos que violaram direitos humanos no período militar. Nós, que vivemos integralmente este período, jamais aprovamos qualquer ofensa à dignidade humana, bem como quaisquer casos pontuais que, eventualmente surgiram. Vivíamos uma época de conflitos fratricidas, na qual erros foram cometidos pelos dois lados. Os embates não foram iniciados por nós, pois não os desejávamos. E, não devemos nos esquecer do atentado no aeroporto de Guararapes.


A credibilidade dessa comissão vai gradativamente se esgotando pelos inúmeros casos que não consegue solucionar, tornando-se não somente um verdadeiro órgão depreciativo das Forças Armadas, em particular do Exército, como um portal aberto para milhares de indenizações e "bolsas ditadura", que continuarão a ser pagas pelo erário público, ou seja, pelo povo brasileiro. Falsidades, meias verdades, ações coercitivas e pressões de toda ordem são observadas a miúdo, e agora, de modo surpreendente, acusam as Forças Armadas de não colaborarem nas investigações que, em sua maioria, surgem de testemunhas inidôneas e de alguns grupos, cuja ideologia é declaradamente contrária aos princípios que norteiam as nossas instituições militares.


A Lei da Anistia - ratificada em decisão do Supremo Tribunal Federal e em plena vigência - tem, desde a sua promulgação, amparado os dois lados conflitantes. A Comissão Nacional da Verdade, entretanto, insiste em não considerar esse amparo legal. O lado dos defensores do Estado brasileiro foi totalmente apagado. Só existem criminosos e torturadores. Por outro lado, a comissão criou uma grei constituída de guerrilheiros, assaltantes, sequestradores e assassinos, como se fossem heroicos defensores de uma "democracia" que, comprovadamente, não constava dos ideais da luta armada, e que, até o presente, eles mesmos não conseguiram bem definir. Seria uma democracia cubana, albanesa ou maoísta? Ou, talvez, uma mais moderna como as bolivarianas?


Sempre que pode a Comissão Nacional da Verdade açula as Forças Armadas, exigindo que elas peçam desculpas. Assim, militares inativos, por poderem se pronunciar a respeito de questões políticas, têm justos motivos para replicarem com denodada firmeza, e um deles é para que não vigore o famoso aforismo "Quem cala consente!". Hoje, muitos "verdadeiros democratas" atuam em vários níveis de governo, e colocam-se como arautos de um regime que, paulatinamente, vai ferindo Princípios Fundamentais de nossa Constituição. O que nós, militares fizemos foi defender o Estado brasileiro de organizações que desejavam implantar regimes espúrios em nosso país. Temos orgulho do passado e do presente de nossas Forças Armadas. Se houver pedido de desculpas será por parte do ministro. Do Exército de Caxias não virão! Nós sempre externaremos a nossa convicção de que salvamos o Brasil!

Generais-de-Exército signatários

Leônidas Pires Gonçalves (*); Zenildo de Lucena (*); Rubens Bayma Denys (*), José Enaldo Rodrigues de Siqueira (**); José Luiz Lopes da Silva (**); Valdésio Guilherme de Figueiredo (**); Raymundo Nonato Cerqueira Filho (**); Pedro Luis de Araújo Braga; Antônio de Araújo Medeiros; Frederico Faria Sodré de Castro; Luiz Gonsaga Schoroeder Lessa; Gilberto Barbosa de Figueiredo; Rômulo Bini Pereira; Cláudio Barbosa de Figueiredo; Domingos Carlos de Campos Curado; Ivan de Mendonça Bastos; Paulo Cesar de Castro; Luiz Edmundo Maia de Carvalho; Luiz Cesário da Silveira Filho; Carlos Alberto Pinto e Silva; José Benedito de Barros Moreira; Maynard Marques Santa Rosa; Rui Alves Catão; Augusto Heleno Ribeiro Pereira; Rui Monarca da Silveira; Américo Salvador de Oliveira; e Gilberto Barbosa Arantes.

(*) - Antigos ministros de estado

(**) - Antigos ministros do stm"
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DatafAlha para de mentir muito, jacaré abre a boca e Bonner chora

Dilma dobra vantagem e está à frente de Marina no 2º turno, diz Datafolha



A presidente Dilma Rousseff (PT) dobrou sua vantagem na pesquisa Datafolha de primeiro turno da eleição presidencial e, pela primeira vez na série do instituto, aparece quatro pontos a frente de Marina Silva (PSB) na simulação de segundo turno.

Se a eleição fosse hoje, a petista terminaria a primeira etapa da disputa com 40% dos votos totais, agora 13 pontos a frente de Marina, que alcança 27%. Na pesquisa da semana passada, a dianteira de Dilma era de 7 pontos.

Em relação ao levantamento anterior, Dilma avançou três pontos percentuais (de 37% para 40%), Marina variou três para baixo (30% para 27%), e o senador tucano Aécio Neves oscilou um para cima (17% para 18%).

A tendência de crescimento das intenções de voto em Dilma fica mais evidente olhando para a série mais longa do instituto. No fim de agosto, ela tinha 34%. Foi oscilando para cima seguidamente até atingir os atuais 40%.

No teste de segundo turno mais provável, o Datafolha mostra Dilma com 47% contra 43% de Marina.

É um empate técnico no limite máximo da margem de erro da pesquisa, de dois pontos para mais ou para menos. Mas é também a primeira vez que Dilma surge numericamente a frente da pessebista nesse tipo de simulação. Na semana passada, o placar era 46% a 44% para Marina. No fim de agosto, a ex-ministra do Meio Ambiente tinha dez pontos de vantagem sobre Dilma (50% a 40%).

O Datafolha ouviu 11.474 pessoas em 402 municípios. O registro no TSE (tribunal Superior Eleitoral) é BR-00782/2014.
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Traaack, o Bornhausen da Globo

É a imparcialidade que a Ley de Médios vai aperfeiçoar




No CAf
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Por que a regulação da mídia é uma boa notícia para a sociedade

Dilma com blogueiros sujos
Vai começar a choradeira.

“Querem calar a imprensa livre” e outras coisas do gênero.

Isso porque, na entrevista a blogueiros nesta sexta, ela defendeu energicamente a regulamentação econômica da mídia.

Ela fez questão de dizer que não se trata de controle de conteúdo, mas de regras que coíbam a formação de monopólios e oligopólios.

Todas as sociedades avançadas têm mecanismos para evitar a concentração de poder na mídia por razões óbvias.

O Brasil não.

É um problema antigo, e jamais resolvido. Até a ditadura militar, a certa altura, se incomodou com o excesso de voz da Globo, como mostra um livro produzido com documentos pessoais do general Geisel.

Mas nunca nada foi feito para estimular a pluralidade de opiniões e promover a competição num mercado francamente oligopolizado.

Por um motivo: sucessivos governos tiveram em comum o medo pânico de incorrer na ira dos proprietários das empresas de jornalismo.

Quem perdeu, com isso, foi a sociedade, privada do acesso a ideias diversas que poderiam ajudar as pessoas a formar sua própria opinião.

Dilma disse aos blogueiros — entre os quais Kiko Nogueira, do DCM — que a sociedade agora está demandando a regulação econômica da mídia.

Esta tarefa, afirmou ela, estará em seu segundo mandato, caso seja reeleita.

As circunstâncias, hoje, são mais favoráveis a mexer num assunto tão complicado, dada a fúria com que a mídia se atira contra coisas que ameacem seus privilégios.

A internet tirou muito do poder dos donos da chamada mídia tradicional. Jornais e revistas são cada vez menos lidos, e telejornais menos vistos.

Com isso, o poder de intimidação e de represálias vai minguando.

Uma coisa é você ser alvo de uma campanha do Jornal Nacional com 60 pontos de audiência, e sem a internet para servir de contraponto.

Outra coisa é uma campanha  do JN com 20 pontos de audiência, e com a internet dando voz a quem não tinha.

Muda tudo.

Uma regulação econômica é um primeiro e essencial passo. Mas há mais coisas por fazer.

A legislação que vigora no Brasil é amplamente favorável às empresas de mídia e desfavorável para os cidadãos.

Multas irrisórias e processos intermináveis dificultam qualquer tipo de reparação quando você é vítima de um assassinato de reputação.

O modelo dinamarquês é uma referência mundial. Os ingleses o estão estudando na reforma que promovem na sua mídia depois que eclodiu o escândalo de invasão de celulares feito por um tabloide de Murdoch.

Na Dinamarca, um conselho formado por pessoas de reputação ilibada — parte nomeada pela própria mídia — toma decisões rápidas em situações em que alguém se julga prejudicado por uma matéria de jornal ou coisa parecida.

Caso se conclua que houve mesmo um erro, o jornal é obrigado a publicar, rapidamente, uma reparação no mesmo espaço em que fez a acusação considerada infundada.

As multas também são altas o bastante para que os editores pensem muito antes de publicar acusações sem provas.

A informação de Dilma de que vai mexer na regulação da mídia caso vença as eleições é uma boa notícia para a sociedade — por mais que os beneficiários da presente situação tentem convencer as pessoas de que é uma má notícia.

Paulo Nogueira
No DCM
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A objetividade mitológica


A Folha de S. Paulo inaugura na edição de quinta-feira (25/9) uma coluna que comemora os 25 anos da instituição do ombudsman na imprensa brasileira. O artigo, sob o selo “Ombudsman por um dia”, tem o propósito de oferecer reflexões variadas do jornal sobre si mesmo. Trata-se, portanto, de uma oportunidade para observar como, do ponto de vista das sete personalidades escolhidas, a Folha tenta ser — ou não — o jornal “que não dá para não ler”, conforme afirma em sua propaganda, ou “um jornal a serviço do Brasil”, como diz seu slogan mais antigo.

Serão sete oportunidades para essa suposta autocrítica, a serem feitas, entre outros, pelo jurista Joaquim Barbosa, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, o cartunista João Montanaro, o publicitário Nizan Guanaes e a atriz Fernanda Torres. A estreia coube ao filósofo Hélio Schwartsman — e ele demonstra, com profunda honestidade intelectual, o que diferencia um jornalista dos demais especialistas das chamadas ciências humanas.

O texto, intitulado “A objetividade possível” (ver aqui), já denuncia de saída como a reflexão produzida fora do campo específico da comunicação pode se desviar por labirintos mitológicos.

Todo jornalista com razoável formação acadêmica sabe que o jornalismo não concebe uma objetividade “possível”, assim como não acredita na suposta “isenção” — a objetividade é simplesmente a justificativa moral do jornalismo. O jornalista persegue a objetividade sabendo que não há um ponto no qual se possa dizer que ela foi alcançada — portanto, corre atrás daquilo que reconhece como sendo uma impossibilidade. Essa é, aliás, a matriz de todas as angústias do jornalista.

Estamos falando, obviamente, do jornalista profissional consciente de suas atribuições, que reconhece as limitações de sua atividade, e no entanto levanta-se todos os dias com a disposição de garimpar indícios de realidade em meio à natural complexidade das interpretações possíveis.

O jornalismo tem as funções básicas de informar, entreter e educar, sendo este seu papel mais nobre — que consiste em ajudar o indivíduo a construir um pensamento da realidade o mais próximo possível da natureza da realidade.

A Folha é honesta. Ou não

A honestidade intelectual do ombudsman acidental faz do seu texto uma declaração de impotência, mas num campo alheio ao da reflexão que ajuda a compreender o jornalismo. Sua fixação no conceito kantiano de uma realidade objetiva, que se estende além de nossos meios subjetivos de percebê-la, conduz a simplificações que prejudicam o propósito de analisar o papel do ombudsman: diferente do filósofo, o jornalista não faz esse questionamento — ele se lança em direção ao ideal da objetividade sabendo que não irá alcançá-la, mas impulsionado pelo desejo de se aproximar dela.

O filósofo acha que a subjetividade abala os alicerces do jornalismo. Errado e oposto. A consciência da subjetividade é que faz do jornalismo uma atividade instigante, porque tanto o jornalista quanto o leitor, ouvinte ou telespectador sabem que a mensagem será entregue quando ambos encontrarem, no campo imenso das subjetividades, o ponto comum que desejam, em que reconhecerão um padrão aceitável de objetividade. No entanto, se o jornalismo for de boa qualidade, mesmo nesse espaço exíguo haverá divergências.

Uma das causas que têm provocado a queda na qualidade do jornalismo praticado pela mídia tradicional no Brasil é justamente a ilusão de que se pode construir espaços de acomodação convergente no infooma específico de um jornal, associada à pretensão de que ali se produz uma síntese do ecossistema da informação. Essa ilusão — ou pretensão arrogante — transforma a imprensa num espaço homogêneo, onde predomina um viés que desfaz a justificativa moral da atividade jornalística.

Isso nos conduz aos dois últimos parágrafos, onde o “ombudsman por um dia” diz o que pensa sobre a própria Folha de S.Paulo. Ele está convencido de que “como princípio, a Folha busque apresentar relatos tão honestos quanto possível”, mas reconhece que ela “erra no varejo”.

Pode-se afirmar o contrário, com o mesmo conjunto de argumentos. Por exemplo, todos os domingos o jornal produz material opinativo disfarçado de reportagem, o que extrapola a noção de “varejo”. A honestidade intelectual também tem suas subjetividades.

Luciano Martins Costa
No OI
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Nova é esta Marina Silva

A candidata Marina Silva praticando a velha política
A candidata do PSB pratica a velha política enquanto prega o contrário. Destruiu o ideário de Eduardo Campos e talvez consiga demolir o próprio partido que representa

Não há quem segure a candidata Marina Silva nesta caminhada final rumo à eleição. Em Florianópolis, subiu ao palanque de Paulinho Bornhausen e com empenho apaixonado pediu votos para sua candidatura a senador. Precioso trunfo para o filho de Jorge Bornhausen, governador biônico de Santa Catarina durante a ditadura, liderança do ex-PFL e patriarca de uma das mais ricas famílias do estado. Direita reacionária na sua acepção mais desbragada.

Esta adesão eufórica à velha política assinala a enésima contradição de pregadora da nova. Uma análise da personagem do ponto de vista psicológico exibe, isto sim, uma nova Marina. A contida, austera ambientalista na qualidade de candidata em campanha mudou radicalmente o seu estilo, a ponto de pôr em xeque as crenças professadas até ontem. A perspectiva do poder leva-a a renovar seu verbo e seus gestos e a buscar a companhia de quantos aparentemente haveriam de ser seus adversários, se não inimigos. Vale tudo para chegar lá, é o que se deduz sem maiores esforços.

Confesso minha surpresa. Marina Silva revela uma determinação obcecada que não imaginava. Certo é que a candidatura de Eduardo Campos, sua plataforma, suas ideias, seus projetos e propósitos, Marina conseguiu destruir. Receio que logre ir além, para demolir o próprio Partido Socialista. Em lugar da nova política, temos a nova Marina.

Humoristas midiáticos

Há momentos de puro humorismo propiciados pela mídia nativa. No momento a Folha de S.Paulo celebra a instituição do ombudsman há 25 anos, de sorte a estabelecer a autocrítica dentro do próprio jornal. O Folhão se apressa a esclarecer, pomposo, que o exemplo não foi acompanhado pelas demais publicações brasileiras enquanto em vários países do mundo a prática salutar é adotada. O nome ombudsman, admito, me soa desagradável. De todo modo, tivesse funcionado sempre para valer, viveria física e moralmente esgotado.

A leitura e a audiência que parcimoniosamente dedico à mídia nativa me revelam o autêntico responsável por todos os males no momento padecidos pelo Brasil. Ou melhor, a responsável, Dilma Rousseff, a começar, pasmem, pela crise econômica mundial, que ninguém poupa, até a inflação e o desemprego. Mas os porcentuais não são bastante baixos em relação aos números globais? Segundo o Cérbero da família Marinho, o cão de três cabeças à porta do Hades, a presidenta maquia os dados. Ou finge ignorá-los?

Tudo é culpa da Dilma, até, quem sabe, o 7 a 1 imposto pela seleção alemã aos canarinhos, ou o tráfego congestionado, ou falta de luz em casa. Só mesmo a crescente, inexorável escassez de água em São Paulo não pode ser atribuída à presidenta. No caso, entretanto, o culpado, o governador, Alckmin, é prontamente perdoado e se prepara ao passeio eleitoral.

Mino Carta
No CartaCapital

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Aécio se contenta com o papel de ombudsman


O tucano Aécio Neves sairá desta campanha presidencial levando para casa uma importante lição: se denúncia elegesse alguém, a mídia estaria no poder, nem precisaria de intermediários.

Sem um discurso claro, sem bandeiras nem propostas, o ex-governador mineiro se contentou em ser, ao longo de toda a campanha eleitoral, apenas um ombudsman, um crítico ácido do governo de Dilma Rousseff.

A apenas 10 dias da eleição, Aécio está saindo dela do jeito que entrou, sem empolgar ninguém, limitado à ponte aérea Rio-Minas, com raras incursões em outras regiões do país. Em 1982, na primeira eleição direta para governadores após o golpe cívico-militar, meus colegas se queixavam da cobertura aborrecida da campanha de Franco Montoro, que acabou eleito: "Ele fala todo dia a mesma coisa. Não dá lead..."

"Lead" é a forma como os jornalistas chamam a abertura da matéria, que vai despertar nos eleitores, ou não, o interesse em ler o resto. Nesta campanha, Aécio repete Montoro e raramente consegue ocupar as manchetes, apesar do caudaloso conjunto de releases eletrônicos que seus assessores mandam todos os dias para os jornalistas, sob a curiosa rubrica "Aécio Minas 2014".

Em nenhum momento, o tucano se colocou como candidato realmente competitivo, nem antes nem depois da tragédia com Eduardo Campos, com quem disputava uma vaga no segundo turno, e que acabou sendo um divisor de águas na campanha, alçando à disputa direta com Dilma a ex-senadora Marina Silva, do PSB.

A impressão que se tem é que Aécio acorda cedo para ter mais tempo de ler todos os jornais e ali buscar inspiração para seus discursos e entrevistas do dia. Em lugar de agenda própria, parece seguir uma pauta pré-determinada pelo noticiário da mídia aliada.

Para atacar a presidente, vale qualquer assunto, da subida ou da queda do dólar e das bolsas, das últimas denúncias contra o governo federal ao pronunciamento da presidente na ONU. Se não houver novidade, é só voltar ao tema Petrobras, um inesgotável paiol de munição para os candidatos oposicionistas de qualquer calibre.

O jogo está jogado e agora falta pouco tempo para a abertura das urnas. Diretora executiva do Ibope Inteligência, a analista Márcia Cavallari já deu o quadro por consolidado no primeiro turno, com Dilma e Marina indo para o segundo, em disputa que promete ser acirrada. Para ela, teremos um segundo turno bastante apertado. "O cenário está totalmente aberto para a vitória de qualquer uma das duas".

O nome de Aécio nem entrou em consideração, mas ela deixou uma porta aberta, ao admitir que "qualquer novo episódio na campanha presidencial pode ter um efeito rápido nas intenções de voto". É nisso que Aécio joga suas últimas fichas, enquanto não saem as revistas de final de semana.

De fato, as únicas esperanças do tucano para virar o jogo concentram-se agora em possíveis novos vazamentos de delações premiadas do doleiro e do ex-diretor da Petrobras presos no Paraná — e só lhe resta rezar para que aconteçam logo.

É muito pouco, convenhamos, para quem se dispôs a disputar o mais alto cargo da República pelo maior partido da oposição.

Para piorar a situação, o tucano vai mal das pernas também em Minas, embora tenha terminado seu segundo mandato de governador com altos índices de aprovação, e de onde esperava sair com uma grande vantagem para compensar sua votação nanica em outras regiões, especialmente no Nordeste.

Tanto na eleição presidencial como na estadual, Aécio corre agora o risco de sofrer uma surra histórica em sua própria terra. Sem projeto político federal, embora seja o presidente do PSDB, é para Minas que precisará voltar para juntar os cacos, embora prefira morar no Rio. Resta-lhe reocupar sua cadeira no Senado e voltar para a coluna da página 2 da Folha, onde escrevia antes de sair candidato. É muito pouco para quem sonhou tão alto por tanto tempo.

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Marina e o BNDES

Bom mesmo é a Neca Setubal…
O BNDES é um dos principais instrumentos que o governo brasileiro dispõe para implementar sua política econômica. É o governo em exercício que escolhe as áreas prioritárias e as linhas de atuação do banco, que as executa por meio de um rigor técnico garantido por seu capacitado corpo funcional.

Para ficarmos em apenas dois exemplos: no governo Fernando Henrique Cardoso, o BNDES teve um papel fundamental nas privatizações e no governo Lula, respondendo à forte crise iniciada em 2008, expandiu o crédito à indústria e à infraestrutura.

É, portanto, absolutamente legítimo que o papel do BNDES seja debatido na campanha eleitoral. O próximo presidente terá a responsabilidade de manter ou modificar as prioridades do banco nos próximos anos, decisão que poderá afetar todo o financiamento ao setor produtivo brasileiro.

Mas esse necessário debate eleitoral seria mais proveitoso para o país se fosse lastreado por um correto diagnóstico por parte dos candidatos. Como corrigir rumos se não conseguimos entender a atual direção? Esse parece ser o caso da candidata do PSB à Presidência, Marina Silva. Senão, vejamos.

Nesta quinta-feira (25), em entrevista ao programa “Bom Dia Brasil”, da TV Globo, a candidata disse que “o que enfraquece os bancos é pegar o dinheiro do BNDES e dar para meia dúzia de empresários falidos, uma parte deles, alguns deles que deram, enfim, um sumiço em bilhões de reais do nosso dinheiro”. O número de imprecisões só dessa frase é impressionante.

Em primeiro lugar, o BNDES não “dá” dinheiro a ninguém, ele empresta. Isso significa que o banco recebe de volta, corrigidos por juros, os seus financiamentos. Sua taxa de inadimplência é de 0,07% sobre o total da carteira de crédito, segundo o último balanço, sendo a mais baixa de todo o sistema bancário no Brasil, público e privado.

Isso nos leva a outra imprecisão da fala da candidata. A qual “sumiço” de recursos ela se refere se o BNDES recebe o dinheiro de volta e obtém lucros expressivos de suas operações? O lucro do primeiro semestre, de R$ 5,47 bilhões, foi o maior da história do banco.

Em relação aos empresários “falidos”, talvez a candidata, em um esforço de transformar em regra a exceção, esteja se referindo ao caso Eike Batista. Se isso for verdade, temos mais uma imprecisão: seja por causa de um eficiente sistema de garantias das operações, seja porque grupos sólidos assumiram algumas empresas, o BNDES não sofreu perdas frente aos problemas enfrentados pelo empresariado.

Por fim, nada mais falso do que dizer que o BNDES empresta para “meia dúzia”. No ano passado, o banco fez mais de 1 milhão de operações, sendo que 97% delas para micro, pequenas e médias empresas.

Embora o BNDES não tenha a capilaridade dos bancos de varejo, a instituição aumentou seus desembolsos para as pequenas empresas de cerca de 20% do total liberado na primeira década de 2000 para mais de 30% no ano passado. Se retirássemos as típicas áreas onde os pequenos não atuam (setor público, infraestrutura e comércio exterior), os financiamentos para os menores representariam 50% dos desembolsos do banco.

Das cem maiores empresas que atuam no Brasil, 93 mantém relação bancária com o BNDES. Entre as 500 maiores, 480 são seus clientes. Como sustentar que o BNDES escolhe “meia dúzia” se o banco apoia quase todas as empresas brasileiras dos mais variados setores de nossa economia?

A candidata Marina lembrou recentemente que uma mentira repetida diversas vezes não a transforma em verdade. Isso também vale para o papel que o BNDES vem desempenhando nos últimos anos.

Fábio Kerche, doutor em ciência política e pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa, é assessor da Presidência do BNDES. Foi secretário-adjunto e secretário de Imprensa da Presidência da República (governo Lula).
No Viomundo
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Colunista Cláudio Humberto recebe mensalinho de Carlinhos Cachoeira para atacar o PT


Diálogos captados durante a Operação Monte Carlo da Polícia Federal entre Carlinhos Cachoeira, preso sob acusações como envolvimento no crime organizado e corrupção e o deputado cassado Demóstenes Torres (DEM) e Claúdio Abreu (ex-diretor da empreiteira Delta) mostram como foi articulado um 'mensalinho'(pagamento mensal através de empresa de Cláudio Abreu) para o Colunista do Diário do Poder e Correio do Estado de Mato Grosso do Sul.

Demóstenes Torres participe da intermediação conforme apurado nas investigações da Operação Monte Carlo, a Polícia Federal revelou que Torres tinha ligação com Carlinhos Cachoeira, pivô do escândalo que ficou conhecido como "máfia dos caça-níqueis" em Goiás, em 2004. Demóstenes negou que tivesse negócios com Carlinhos, a quem chamou de "empresário", e justificou as 298 ligações telefônicas como "uma grande amizade".

A Procuradoria do Ministério Público Federal acredita que o Senador possa ser sócio oculto da empreiteira Delta, que mantém contratos bilionarios com entes públicos. Demóstenes afirmou, no entanto,que não sabia do envolvimento de Carlinhos com a máfia dos caça-níqueis.

"Mensalinho" do colunista Cláudio Humberto

No Jornal i9
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Dilma vai a Nova York e adversários perdem rumo de casa

Ao cobrar assinatura de Declaração apoiada por apenas 1/7 dos países-membros da ONU, oposição mostra que atira para qualquer lugar na campanha presidencial

Quando se recorda que a ONU possui 193 países-membros, é obrigatório refletir pelo menos um minuto sobre a representatividade de uma declaração assinada pelos governos de 27 países — ou menos de um sétimo do plenário nos raros dias de casa cheia. Mas como o Brasil se encontra no vale tudo da reta final da campanha presidencial onde o condomínio Lula-Dilma pode cravar a quarta vitória consecutiva, a ausência da assinatura do governo brasileiro provocou um debate para consumo interno sem a menor relação com a relevância de um texto de cinco páginas intitulado “Declaração de Nova York sobre Florestas.”

O texto da declaração tem sido apresentado como “pacto” ou “acordo”, quando não vem a ser uma coisa nem outra. Trata-se de uma declaração de intenções — algumas boas, outras razoáveis, outras ruins — mas especialmente confusas. É um texto diplomáticamente paralelo: não foi votado nem debatido em nenhuma instância deliberativa da ONU, nem mesmo pela Secretaria Geral e muito menos pelos organismos voltados para o meio ambiente. É assinado por mais empresas (34) do que que países, entre elas gigantes com um passivo de denúncias ambientais, como a Cargill e a Mc Donalds. Numa miscelânia pós-moderna, o número de ONGs chega a 45. As nações e entidades ligadas a causa indígena, são 16. Do ponto de vista técnico, a Declaração mistura conceitos contraditórios e aponta para soluções reconhecidamente impraticáveis.

Num comportamento que leva observadores mais zangados a se perguntar o que não se faz por um patrocínio num conjuntura de vacas magérrimas para causas que não ajudam a pagar o almoço de amanhã, um anexo do documento faz questão de falar bem de grandes grupos multinacionais — Nestlé, Unilever, Wal-Mart, Danone, Carrefour, Kellogg’s — que têm feito “progresso para eliminar o desmatamento da cadeia de suprimentos” sem perder a oportunidade de registrar referências positivas a parcerias com ONGs.” ”

O documento recebeu assinatura do Reino Unido, hoje adversário agressivo do Brasil em encontros diplomáticos, Alemanha e Estados Unidos, além de países menos desenvolvidos, como Colombia, Peru, Guiana, Libéria, Mongólia e Nepal. A lista de quem ficou de fora, que chega a 166 países, inclui Italia, Espanha e Portugal. Nenhum parceiro do Brasil no condomínio chamado Brics — China, India, Russia e África do Sul — assinou o documento.

Num esforço que ajudou a dar volume a lista de assinantes, a coluna de signatários é engordada por oito estados “subnacionais”, um nome fictício, culturalmente questionável, para falar de governos estaduais ou províncias. Destes oito, sete são peruanos. Há um estado “subnacional” brasileiro. O Acre do governador Tião Viana, do PT, deixou seu autógrafo na declaração. Se fosse uma decisão séria e grave, teria sido um ato de secessão ucraniana — pois os subnacionais peruanos acompanharam a diplomacia do presidente do país.

Há um elemento curioso neste estado “subnacional” brasileiro. Em 18 de agosto de 2014, quando faltavam dois dias para Marina Silva oficializar sua candidatura presidencial, ocorreu uma mudança importante no primeiro escalão do governo do Acre. Seu marido, Fábio Vaz, deixou o governo petista. Até então, Fabio era secretario-adjunto, empossado em 2011, encarregado de politicas de desenvolvimento florestal — exatamente o tipo de assunto que foi debatido nos encontros diplomáticos que produziram a “Declaração de Nova York. ”

Na semana passada, a candidata presidencial (e mulher de Fábio Vaz) Marina Silva classificou a ausência da assinatura do governo brasileiro como “lamentável.” Como previsível, Aécio Neves reagiu no mesmo tom.

Dilma esclareceu que o governo não foi convidado a discutir o conteúdo do documento — mas apenas para assinar, ou não, um texto final, fechado, que não era mais sujeito a alterações nem acréscimos.

Na prática, é possível considerar razões favoráveis e desfavoráveis para assinar o documento, mesmo sem concordar inteiramente. Acontece todos os dias na diplomacia. Um motivo a favor é que, num anexo, o documento faz referências elogiosas ao Brasil, que poderiam ser úteis para o governo comprar o debate sobre seu desempenho ambiental, inclusive na campanha.

O texto diz que “o Brasil demonstrou que o progresso (contra o desmatamento) pode ser obtido em larga escala.”Usando números que permitem comparar o desempenho de Lula-Dilma com a gestão de Fernando Henrique, o documento afirma: “Em 2013, o Brasil reduziu o desmatamento em 71%, quando se compara com a média de 1996-2005.”

O texto faz ainda uma afirmação que deixa os críticos do desempenho ambiental do governo de cabeça baixa. Está lá: “pelo tamanho das emissões evitadas, (o Brasil) pode muito bem ser o maior caso de sucesso até a hoje, globalmente, em qualquer setor.”

Você leu isso mesmo: “maior caso de sucesso, globalmente, em qualquer setor.” São governos dos EUA, França, Alemanha, mais quatro dezenas de ONGs, que assinam isso.

Há outras questões além do marketing, porém. O documento — em fase de pegar ou largar quando foi apresentado ao Brasil — estabelece meta zero para o desmatamento.

O problema é que o Congresso brasileiro acabou de aprovar uma legislação, negociada longamente, definindo limites para o desmatamento. Podem chegar a 50% numa região, 35% em outras, 20% mais adiante. Não se fala em desmatamento zero nem isso seria possível — pois qualquer criança que já cuidou das plantas do jardim de casa dos avós sabe que sem algum nível de desmatamento não é possível trocar os cravos brancos pelas rosas vermelhas, e muito menos manter a agricultura como atividade básica para a sobrevivência humana.

Quem acompanha a postura diplomática do Brasil sob o governo Lula e Dilma, sabe que o país faz o possível para evitar entrar em festa pela porta dos fundos nem aceita ultimatos. No segundo turno da campanha presidencial de 2010, lideranças do Partido Verde promoveram um ato de apoio a Dilma. Até assessores de Marina estavam presentes. Na última hora, militantes do Greenpeace resolveram fazer uma cena: abriram uma faixa pedindo que Dilma assinasse o compromisso com o fim do desmantamento. “Não assino documentos sem ler antes,” respondeu a candidata. “E não faço demagogia para ganhar votos.”

A reconstituição dos fatos de 2014, que você irá ler a seguir, mostra que o governo brasileiro — um protagonista mais do que reconhecido dos debates ambientais desde a Rio 92 — foi deixado a margem de uma discussão travada nos bastidores, por iniciativa de adversários conhecidos de longa data.

A missão do Brasil na ONU tomou conhecimento da existência de que havia “uma” declaração sobre florestas em 21 de agosto — por coincidência, um dia depois do PSB confirmar a chapa Marina Silva-Beto Alburquerque para disputar a eleição presidencial.

Pelo que se sabe, foi naquele dia que o governo brasileiro recebeu a primeira notícia.

Isso aconteceu numa conversa informal em Nova York, quando um diplomata brasileiro foi informado a respeito por um colega da Indonésia, país que participava dos debates fechados. Em 27 de agosto, seis dias depois do primeiro encontro informal em Nova York, a missão do Brasil recebeu, por email, uma cópia da versão do texto, com uma advertência em inglês: “Final for approval.” No dia seguinte, a Missão do Brasil encaminhou formalmente a declaração para a Secretaria Executiva. Vinte dias depois, a Secretaria se manifestou. Admitiu que “o governo brasileiro não participou da elaboração da ‘Declaração de Nova York’ e tampouco foi procurado a respeito pelos proponentes da iniciativa. ” No mesmo dia, diplomatas brasileiros solicitaram novas informações, inclusive sobre a possibilidade de contribuir para o documento. Eles enviaram um email a Charle McNeill, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, que coordenava debates que, em teoria, teriam mais relação com a área ambiental da ONU. Este conformou que o texto estava fechado e “em fase de adesão”, o que excluía qualquer possibilidade de alteração.

Ao longo da semana, mesmo empresários de agro-negócio engajados em campanhas adversárias, como Roberto Rodrigues, que foi ministro da Agricultura no governo Lula, deram razão neste ponto. Entidades ambientais se dividiram.

Se o enredo está claro, falta esclarecer algumas questões. A “Declaração…”foi divulgada durante a Conferência do Clima, um evento que reuniu 120 chefes do governo, dos quais 70% ficaram de fora do documento. Reunindo ativistas do mundo inteiro, com apoio de sindicatos e entidades populares dos países desenvolvidos, uma marcha que pedia medidas efetivas pela preservação ambiental foi um sucesso de mobilização. Reuniu meio milhão de pessoas nas ruas de Nova York. “Chegou a haver engarafamento de militantes na altura da rua 84,” ironiza um participante brasileiro. Atividade preparatória para 2015, quando haverá uma nova Conferência Ambiental em Paris, a Declaração recuperou, por vias tortas, um debate que mobiliza países ricos e pobres desde que a palavra ecologia foi prounciada pela primeira vez.

Ao dar prioridade à preservação das florestas, o documento retoma o costume de colocar a carga mais pesada do ambientalismo sobre a população dos países pobres. O problema é que o desmatamento responde por apenas 12% das emissões atmosféricas, enquanto outras emissões, típicas dos países desenvolvidos, ficam com a maior parte. Imagine se, com a crise infinita de 2008, que está levando o desemprego para a Europa inteira, derrubando governos em toda parte, aqueles chefes de Estado de sorriso amarelo do Velho Mundo irão fazer os desembolsos bilionários que seriam necessários para modernizar seu parque industrial — não para aumentar a produção, mas para diminuir a poluição.

“Num quadro de injustiça ambiental, as populações pobres sao as mais vulneráveis, principalmente em nossas cidades,” discursou Dilma, na Conferência do Clima. “Historicamente, os países desenvolvidos alcançaram o nível de bem estar de suas sociedades graças a um modelo de desenvolvimento baseado em altas taxas de emissões de gases danosos ao clima. Nos não queremos repetir esse modelo. Mas não renunciaremos ao imperativo de reduzir as desigualdades e elevar o padrão de vida da nossa gente. Nós, países em desenvolvimento, temos igual direito ao bem-estar. E estamos provando que um modelo socialmente justo e ambientalmente sustentável e possível.”

Paulo Moreira Leite
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Business as usual no reino encantado da grande imprensa


Os gráficos de acompanhamento diário e semanal da cobertura da mídia, agora disponibilizados na home do MANCHETÔMETRO (http://www.manchetometro.com.br/) permitem notar semelhanças e diferenças no comportamento dos três grandes jornais, (Folha de S. Paulo, O Globo e Estado de S. Paulo) em relação à cobertura dos candidatos. Tomemos os gráficos da cobertura dos últimos 7 dias.[1]

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As semelhanças são várias:
  1. A mais saliente é um tremendo viés anti-Dilma, representado pela proporção de matérias negativas nas capas dessas publicações, se comparada às negativas recebidas por Marina e por Aécio.
  2. Dilma e Marina são o foco da cobertura, enquanto Aécio foi deixado à mingua. A proporção entre negativas e neutras da cobertura do tucano é baixa se comparada a de Dilma, mas o número absoluto de matérias que tem ele como assunto é muito pequeno.
  3. Quantidade ínfima de matérias negativas para Marina, a despeito de ela ter um número de matérias neutras expressivo.
Dentro de cada semelhança há diferenças mais ou menos sutis. A primeira que chama atenção é o nível de ativação eleitoral diferenciado dos três jornais. Em artigo que já é referência nos estudos de mídia no Brasil, Luis Felipe Miguel[2] aponta para o baixo nível de politização do noticiário da Rede Globo durante a campanha presidencial de 1998, quando Fernando Henrique Cardoso conquistou a reeleição. A análise feita no MANCHETÔMETRO do comportamento dos jornais impressos no pleito de 1998 mostra, em comparação com o pleito atual (e com outros), a mesma coisa: a grande mídia não se interessou muito por discutir política, no período da campanha eleitoral.

Em 2014, particularmente a partir da entrada de Marina Silva como titular da chapa do PSB, notamos um comportamento heterogêneo dos grandes jornais. O Estado de S. Paulo faz uma cobertura de capa altamente politizada e, ao mesmo tempo, muito enviesada, com os negativos de Dilma atingindo um recorde de 35 matérias na semana e seus neutros 27. Marina é bem menos exposta, com 14 neutros, e quase inteiramente poupada de cobertura negativa: somente um texto.

O Globo, ao contrário de seu comportamento em 1998, também está politizando intensamente a cobertura de capa. O número absoluto de negativas para Dilma na semana é 27, menor do que o Estadão, mas a proporção entre negativas e neutras é bem maior: quase 2:1 n’O Globo e 1,3:1 no Estadão. Basta olhar os dois gráficos acima para constatar a semelhança de suas formas, e o viés ainda mais negativo de O Globo em relação à candidatura do PT.

A despeito das diferenças sutis, o nível de ataque e de viés nesses dois jornais é escandaloso, mais parecem panfletos de campanha do PSDB ou do PSB do que propriamente diários que defendem publicamente critérios de isenção e equilíbrio jornalístico, como ambos fazem.

A Folha de S. Paulo tem um comportamento um pouco diverso. O viés anti-Dilma está presente também e de maneira pronunciada. Na semana, enquanto Dilma foi alvo nas capas, direta ou indiretamente, de 12 matérias negativas, Aécio e Marina receberam somente uma. Mas o nível de politização da cobertura é bem menor do que dos outros jornais. Além das 12 negativas, Dilma tem 12 neutras. Marina acumula 13 matérias neutras, uma a mais que Dilma, ou seja, a Folha é o jornal que na semana mais expos a candidata do PSB. Em suma, a Folha foi menos enviesada, apesar de estar longe de qualquer coisa que se assemelhe a um equilíbrio de cobertura, e bem menos politizada do que seus concorrentes, ou parceiros.

Quanto à segunda semelhança entre os jornalões, o desaparecimento do candidato do PSDB das capas, não há muito mais o que dizer. Os três se comportam da mesma maneira. Seu nível de exposição é próximo de um terço do de Marina, e chega atingir um oitavo do de Dilma nas capas do Estadão, ainda que devamos pesar que a cobertura da candidata do PT é extremamente negativa, e a de Aécio dominantemente neutra.

Por fim, temos o perfil da cobertura de Marina. A candidata é bastante exposta e o perfil de sua cobertura é quase que exclusivamente neutro, o que muitos especialistas consideram positivo para a campanha. O Estadão é o mais reticente na exposição de Marina. N’O Globo seu número de neutros já está próximo do de Dilma, 12 para 14, respectivamente e na Folha, como dissemos acima, já ultrapassa os neutros da candidata do PT.

A título de conclusão vamos refletir sobre essa análise da cobertura dos últimos sete dias e o perfil da cobertura depois do início do período eleitoral, o terceiro gráfico da página Candidatos do Manchetômetro (http://www.manchetometro.com.br/analises/candidatos/).

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Marina já acumula no período eleitoral, no qual ela entrou tardiamente, praticamente o mesmo número de matéria neutras de capa que Dilma, 173 a 175. Aécio já ficou para trás, com menos de 70% no acumulado do período do que as outras candidatas têm. A proporção das negativas entre Dilma e Marina, contudo é quase de 3 para 1, com (des)vantagem para a candidata do PT.

Em suma, a semana mostra a consolidação da cobertura dos jornais de uma antecipação do segundo turno. O nível de politização e de viés anti-PT da cobertura de O Globo e do Estado de São Paulo é muito alto, a ponto de não haver mais muito espaço para aumentar. Esses jornais parecem focar todas suas energias no objetivo de barrar a reeleição de Dilma. A saturação e o viés escancarado de sua cobertura, contudo, coloca em dúvida o potencial eleitoral dessa estratégia. Já a Folha de S. Paulo tem mais “gordura para queimar” se optar pela intensificação da politização e do viés, que já está presente em sua cobertura. Se os padrões de eleições passadas se repetirem, ela vai continuar com esse comportamento de ficar na retaguarda dos outros dois jornais, no que toca o viés anti-PT, tentado preservar, ainda que parcialmente, uma fachada de equilíbrio e neutralidade, enquanto pratica um viés de mais baixa intensidade, ainda que inconteste aos olhos de uma análise objetiva da cobertura.

Se a grande mídia impressa se comporta desse maneira por opção ideológica ou por interesses empresariais, ou ainda por uma mistura desses dois motivos, é coisa que não temos como verificar nesse tipo de pesquisa. Uma coisa é certa, contudo: esse comportamento é extremamente danoso para a saúde da esfera pública e do debate democrático em nosso país.

[1] Os dados foram tomados no dia 25 de setembro de 2014. A atualização é diária e os gráficos semanais capturam os dados dos últimos sete dias.
[2] Miguel, Luis Felipe. “Mídia E Eleições: A Campanha De 1998 Na Rede Globo.” Dados 42, no. 2 (1999): 253-76.

João Feres Júnior
No Manchetômetro
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Para Giannetti, assessor da Marina, pré-sal faz mal à saúde

Pré-sal

O dinheiro do pré-sal, que maravilha, começou a jorrar. O bônus de assinatura do leilão de Libra, o maior campo petrolífero brasileiro, rendeu R$ 15 bilhões à União. O que foi feito da bolada? O governo Dilma, sem a menor cerimônia, incluiu a receita no orçamento fiscal e serviu-se dela para mascarar o descumprimento da meta de superávit primário em 2013.

A moda pegou. Agora o "Valor" (18/9) informa que o governo incluiu os ganhos de receita com novas licitações do pré-sal — bônus de assinatura do campo de Pau-Brasil — no orçamento de 2015 enviado ao Congresso. São mais R$ 4 bilhões que servirão para maquiar o rombo fiscal.

A destinação dos recursos do pré-sal entrou na pauta da eleição. O debate é da maior relevância. A questão central, porém, não foi sequer tocada pelos candidatos.

Antes de discutir se devemos gastar mais nisto ou naquilo — ou quanto deveria ficar a cargo deste ou daquele ente federativo —, é imperativo responder: qual será o modelo de gestão financeira da fabulosa riqueza? Noruega ou Venezuela?

Estoque e fluxo. O pré-sal é um estoque finito alojado no fundo do mar. À medida que for sendo extraído, ele gerará um fluxo de receita em moeda forte. Parte dela será usada para cobrir os custos e financiar novos poços. A questão é como administrar o excedente.

Dois caminhos se oferecem. O fluxo de renda gerado pela venda do petróleo será imediatamente gasto na outra ponta assim que o dinheiro for entrando? Ou ele será usado para construir um patrimônio — um novo estoque de riqueza–capaz de gerar um fluxo permanente de renda para as gerações futuras?

A disjuntiva traduz a diferença entre a pobreza e a riqueza das nações.

A regra de ouro é simples. No modelo norueguês, a receita do petróleo alimenta um fundo soberano que fica fora do alcance dos políticos. Só o retorno dos investimentos do fundo entra no orçamento e financia o gasto público de acordo com as prioridades dos governantes eleitos. Em vez de gastar o dinheiro que não têm, eles optaram por não gastar o dinheiro que têm. Não é à toa que são ricos.

A Venezuela bolivariana, ao contrário, optou pela gastança em nome do "tudo pelo social". Quase 16 anos e mais de U$ 1 trilhão de petrodólares depois (dos quais U$ 300 bilhões gastos em educação e saúde), o país está arruinado: leite, carne e remédios racionados; inflação de 63% ao ano; corrupção desatada; infraestrutura aos pedaços. A bênção resultou em maldição.

Fariam bem os nossos candidatos se, antes de propor como gastar o dinheiro que não temos, eles deixassem claro se a renda do pré-sal irá desaguar direto no orçamento fiscal ou se tornará um patrimônio permanente da nação.

Eduardo Giannetti
No Ficha Corrida
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Paulistanos protestam contra hospital público em bairro nobre

Em nome da desobediência civil, blogueiros selvagens prometeram andar de bike sem capacete
Mayfair — Após organizar um abaixo-assinado contra a exposição Castelo Rá-Tim-Bum no Museu da Imagem e do Som, moradores do Jardim Europa reagiram com indignação aos rumores de que um Posto de Saúde seria construído no bairro. "Imaginem os transtornos de trânsito e aquele cheiro de gente diferenciada que um hospital público pode trazer à nossa civilizada vizinhança. Tudo tem limite!", desabafou Verinha Pessegueiro Alcântara, erguendo um iPad com a mensagem "Não somos o Jardim Venezuela".

Para mostrar que o Jardim Europa não tem carências na área de saúde, Verinha citou os serviços da Clínica de Emagrecimento Slim Form, da Eye Care Oftalmologia e do consultório do Dr. Sergio Goldman Sachs. "Daqui a pouco vão conceder descontos no IPTU para quem dá plano de saúde aos empregados", desabafou, enquanto pedia um copo d´água de coco para tomar um Rivotril.

Num último desabafo, Verinha manifestou mais um temor: "Falta pouco para importarem ciclistas cubanos para infestar nossa ruas".

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O voto trincheira

Entre o fastio com o discurso neoliberal e a prostração com os interditos dos mercados à democracia, o país chega à reta final das eleições de 2014.

Abstraia a voz, o rosto, a identidade.

Agora leia o que dizem sobre a economia do país os candidatos Marina Silva e Aécio Neves, ademais de seus assessores oficiais e aqueles mais informais, mas não menos infatigáveis a mourejar no jornalismo isento...

A semelhança com o linguajar das missões do FMI, ou com a ênfase imperativa dos atuais comitês interventores da Troika na Europa não é mera coincidência.

É o espírito do tempo.

De um tempo em que paira uma chantagem permanente sobre governos, estados , nações, projetos de desenvolvimento.

Um tempo em que a mobilidade de capitais estreitou a tal ponto a voz da soberania que — não raro — a urna fala, mas não comanda.

Paraísos fiscais marmorizaram-se em um quarto poder da República, para onde fatias da riqueza se dirigem sempre que contrariadas e na verdade antes mesmo que se possa tentá-lo.

Um tempo em que é preciso gerar desenvolvimento sem dispor da capacidade de programação do investimento público e privado condizente.

Um tempo, portanto, em que todo capital é capital estrangeiro.

E que o interesse local não faz mais sentido a quem detém o poder de exigir uma convergência trabalhista baseada no piso mundial de direitos e no teto global da produtividade.

Uma China sem o Estado chinês; uma carga fiscal de Ruanda, com a eficiência suíça.

Essa, a agenda dos endinheirados nas eleições presidenciais de 2014.

É o espírito do tempo excretado diuturnamente pela emissão conservadora.

Cobra-se das nações que convivam com a incerteza como o peixe com a água.

Ainda que a incerteza dificulte a respiração hoje, e impeça a visão do amanhã.

Não importa: a incerteza é o plâncton dos cardumes especulativos.

Governos, povos e nações precisam de chão firme. Previsibilidade para erguer uma hidrelétrica. Estabilidade para educar um filho. Regulação, fundos públicos para realizar um ciclo de investimento.

Os magos da arbitragem desdenham: respira-se melhor debaixo do oceano da incerteza.

Precifica-se hoje o poder coercitivo adicional de uma subida das taxas de juros norte-americanas, capaz de ampliar a margem de manobra dos capitais voláteis.

Perdigueiros do glorioso jornalismo de economia farejam diariamente o cheiro da virada no ar — se não for hoje, de amanhã não passa, uivam colunas desfrutáveis.

Quem dá mais? É dessa pergunta que vive a especulação.

Na crítica cerrada ao ‘intervencionismo da Dilma’, por ter abandonado as ‘reformas amigáveis’, parte-se do princípio de que os anos de 2007/2008 nunca existiram no calendário das grandes crises do capitalismo mundial.

O photoshop na história permite descartar perguntas incômodas.

Uma resume as demais.

Onde estaria o Brasil hoje se a sua condução no colapso neoliberal dobrasse a aposta no veneno — com a mesma formulação e posologia preconizadas agora pelos presidenciáveis que levam plateias banqueiras ao delírio plutocrático?

A omissão desses detalhes distorce um debate eleitoral cujo pano de fundo é o passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.

Marretadas demolidoras golpeiam dia e noite a confiança erigida ao longo de uma década na construção negociada de uma democracia social no país.

A mensagem é nada sutil: ‘afrontar o mainstream leva ao caos’.

Um caos condensado no ingresso ‘voluntarista’ de 20 milhões de ex-miseráveis no mercado e na ascensão de 40 milhões na pirâmide de renda.

O que fazer com esse aluvião humano?

Devolvê-lo ao lugar de onde veio para desobstruir as artérias do mercado e o país poder andar.

Esse, o substrato da agenda conservadora no debate eleitoral da transição brasileira: o ajuste ‘inevitável’ que o intervencionismo da Dilma se recusa a fazer.

Ou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não informou nesta 2ª feira que o governo vai usar recursos do Fundo Soberano, para cobrir a previsão de arrecadação menor em vez de proceder ao devido arrocho fiscal?

Em tempo: o fundo foi criado por Lula em 2008, três meses após a quebra do banco Lehman Brothers, com recursos excedentes do superávit primário de então (da ordem de 0,5% do PIB)

Um fundo contracíclico, que engorda nas águas e cede gordura na seca.

Não para o jornal O Globo, que sapecou no dia seguinte: “Ontem, o governo reduziu em R$ 10,5 bilhões sua previsão de receitas para este ano. Mas, em vez de cortar (NR: onde, na saúde, por exemplo?) na mesma proporção a estimativa de gastos, decidiu sacar R$ 3,5 bilhões do Fundo Soberano para cobrir parte da diferença’.

Não ficou nisso a reação indignada.

Coube à doce Marina sintetizar o endosso dos presidenciáveis do peito do mercado à estupefação da família Marinho.

Aspas para a candidata do PSB:

‘O uso dos recursos do fundo para socorrer as contas públicas é uma demonstração clara de que o atual governo está comprometendo a estabilidade econômica de nosso País’.

Doce Marina Silva.

A Marina de hoje é a prova viva de que não basta ter dividido um ovo solitário com os irmãos na infância pobre.

É preciso ter a determinação de não permitir que isso se repita no país.

Requer instituições sólidas e políticas discricionárias que afrontem a lógica responsável por levar uma penca de filhos a depender de um singelo ovo.

Mas o que propõe a doce Marina décadas depois do ovo?

Renunciar ao uso de um fundo soberano.

Renunciar ao manejo da moeda, do câmbio e do juro, em benefício de um BC independente ‘da ingerência política’ congênita à democracia.

Renunciar à importância dos bancos públicos.

Rebaixar o pré-sal e tudo que a ele se interliga em termos de educação, saúde, reindustrialização e soberania.

Marina engrossa o jogral obcecado em provar a ineficácia das medidas que mudaram o padrão da política econômica herdada do ciclo liberal-tucano.

Seu ovo hoje choca a mórbida restauração de uma ordem ancorada nas ruínas de seus próprios dogmas e promessas.

Diante da fenda exposta pela crise mais grave do capitalismo desde 1929, o que se propõe é transformar a água em seu próprio dique.

A vítima paga a indenização ao agressor.

A prostração que atinge mesmo setores mais intelectualizados na atual campanha vem da impotência anterior da democracia para romper o fastio com o discurso neoliberal, e renovar a agenda da sociedade e do desenvolvimento, em meio à crise sistêmica criada pela supremacia financeira.

Da reação a essa encruzilhada nasce um voto trincheira.

Um voto crítico, mas firme, em Dilma Rousseff nas eleições de 2014, que Carta Maior traz a público, na manifestação de intelectuais, artistas e lideranças sociais.

Carta Maior entende que esse voto condensa um estado de espírito representativo e um debate necessário.

Um voto firme, por não enxergar na pretendida terceira via uma alternativa ao risco da restauração neoliberal ainda mais radicalizada e excludente, servindo-lhe, antes, como lubrificante.

Um voto crítico, por entender que a prostração democrática atual é o produto histórico de uma correlação de forças desfavorável urbi et orbi. Mas também de hiatos políticos insustentáveis em um projeto mudancista.

A eleição de outubro oferece a singular oportunidade de se demonstrar que não é necessário que seja assim.

O primeiro passo é tomá-la como um ponto de partida, que não se esgota no calendário de outubro. E tem no avanço da democracia participativa a base de um compromisso capaz de reciclar a prostração em engajamento; e a crítica em mobilização propositiva para a construção de uma verdadeira democracia social no Brasil.

Saul Leblon
No Carta Maior
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O fim

Lembra do bug do milênio? Depois que o fim do mundo não aconteceu como previsto no começo dos anos 2000, o Apocalipse ficou desmoralizado. Mas pode ter havido apenas um erro nas datas da sua chegada. Das 940 quadras das profecias de Nostradamus em apenas nove ele dá datas específicas, e é compreensível que tenha se enganado em alguma. Na quadra 72 da décima centúria das profecias de Nostradamus está escrito que "no ano de 1999 e sete meses dos céus virá o grande rei do terror". O costureiro Paco Rabanne, um estudioso da obra de Nostradamus, deduziu que o dia do grande terror, quando o mundo começaria a acabar, seria 28 de julho de 1999. Inclusive, dizem que ele fez o que seria seu último desfile no dia 27 e pagou todo o mundo com cheques pré-datados. Segundo Paco, o fim iniciaria com a explosão de uma estação espacial abandonada pelos russos sobre Paris. Feitos alguns ajustes nas datas, a previsão mantém-se perfeitamente plausível.

O que viria depois da explosão, Nostradamus não esclareceu. Disse que o rei do terror faria ressuscitar uma grande potência do Oriente e dela viria um anticristo que reinaria no Ocidente. Exegetas das profecias interpretaram suas palavras como uma referência a hordas mongóis lideradas por um Gengis Khan redivivo. Hoje, a interpretação pode ser outra: a grande potência que ressuscita é a Rússia, e a grande ameaça que vem do Oriente é Putin, provavelmente a cavalo e sem camisa. Como se sabe, junto com os discos de vinil e a Wanderléa, a Guerra Fria voltou. E a Rússia tem novos foguetes de longo alcance com múltiplas ogivas nucleares, capazes de destruir 17 Hiroshimas ao mesmo tempo, só um pouco menos do que os foguetes americanos. Paco Rabanne se precipitou. O fim pode estar próximo AGORA.

Quero aproveitar a oportunidade para dizer que foi um privilégio pertencer à Humanidade enquanto ela durou. E sei que falo pelos bilhões e bilhões de pessoas que frequentaram este planeta desde que éramos pré-hominídeos que não sabiam nem fazer fogo nem sexo de frente quando digo que foi bom. Fizemos muita bobagem, é verdade — guerras, filhos demais, carros com rabos de peixe, Brasília —, mas também fizemos coisas admiráveis. Dois exemplos: a Catedral de Chartres e a Patrícia Pillar. E nos divertimos, é ou não é? Parabéns à Terra, que nos acolheu sem fazer perguntas, nos deu a água e o oxigênio que precisávamos para viver e ainda nos proporcionou grandes crepúsculos, sem falar no cheiro de capim molhado e no pudim de laranja. Obrigado, velha. Que venha o Apocalipse. Viva o Internacional. 

Luís Fernando Veríssimo
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Essa é do Barão... 55


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