21 de set de 2014

Rio Grande do Sul opta entre século 19 e 21 na disputa entre Ana Amélia e Tarso


Dois episódios estiveram no centro dos debates no Rio Grande do Sul nas últimas semanas: as manifestações racistas de torcedores do Grêmio contra o goleiro santista Aranha e as objeções à realização de um casamento homoafetivo em um Centro de Tradições Gaúchas (CTG).

Sem vínculos diretos com partidos ou com candidatos, os dois casos são ilustrativos do verdadeiro debate que está colocado nas eleições para o governo gaúcho.

No caso do racismo, após os primeiros protestos e o expurgo literal da torcedora, do seu emprego e do clube, ganhou espaço nos meios de comunicação um discurso em que agressora passou a vítima. Com direito a choro na televisão, apelou para se tornar símbolo anti-racista e finalmente ganhou um emprego na Central Única das Favelas (CUFA).

Já os protestos contra o casamento homoafetivo deixaram a retórica e ganharam a forma de um coquetel molotov jogado contra o Centro de Tradições poucos dias antes da cerimônia, obrigando a sua transferência para o fórum local.

Logo, surgiu o discurso relativista do “não é bem assim”, “não é que a gente seja contra o casamento gay…” a ponto de um Promotor de Justiça publicar um artigo onde afirma textualmente que se os homossexuais querem respeitar seus direitos “que respeitem o espaço e as tradições dos demais”.

No ano passado, o filósofo Vladimir Safatle já havia alertado para a prática de inversão que racistas e preconceituosos operavam, ao alegar que eles, sim, eram “perseguidos pela implacável polícia do politicamente correto”. A “nova moda” é travestir racismo e preconceito de “afirmação rebelde da liberdade”.

Pois bem, o conservadorismo que não tem vergonha de dizer seu nome e que justifica suas ideias como a defesa da liberdade (do mercado, diga-se) encontra-se bem encarnado na candidatura que lidera as pesquisas no estado, a senadora Ana Amélia Lemos (PP).

Ex-editora da sucursal de Brasília do grupo RBS, braço da Globo no sul do país, a senadora é considerada porta-voz legítima dos interesses do agronegócio, não apenas gaúcho. Portanto, sua candidatura apoia-se em duas mais poderosas forças do estado, o maior grupo de comunicação da região e um dos setores economicamente mais ricos.

A plataforma de governo de Ana Amélia é simples: liberalização absoluta e retirada do Estado de todos os setores. Em bom português: Estado mínimo e privatizações. No entanto, sua candidatura não é alavancada por suas ideias, mas pela popularidade obtida pela presença diária na televisão e no rádio por décadas. Neste sentido, ainda que não seja seu colega de chapa, sua candidatura equivale ao candidato ao senado Lasier Martins (PDT), também apresentador do jornal diário do grupo RBS.

Dessa forma, os rompantes de sinceridade de sua chapa cabem ao deputado federal Luiz Carlos Heinze (PP), candidato à reeleição, conhecido por um vídeo que circulou na internet no ano passado onde declarava que o gabinete do ministro Gilberto Carvalho reunia “quilombolas, índios, gays, lésbicas, tudo o que não presta” (veja aqui). No lançamento da candidatura de Ana Amélia, Heinze não resistiu e abriu o coração: “bom mesmo era na ditadura militar, quando nós da Arena é que mandávamos”.

Não custa lembrar que esses episódios têm como cenário o mesmo Estado que já foi referência internacional em políticas sociais e de participação popular, com Porto Alegre como um modelo internacional, sendo escolhida inclusive como sede da principal articulação anti-neoliberal, o Fórum Social Mundial.

É a essa outra vertente que pertence a candidatura à reeleição do governador Tarso Genro (PT), candidato à reeleição. O governo do petista foi uma combinação de uma aliança de coalizão com partidos de centro – experiência que conhecia bem como ministro do chamado “Conselhão” do governo Lula – com o desprezo generalizado pelo governo anterior de Yeda Crusius (PSDB), que aumentou a dívida do Estado na mesma proporção em que reduziu a ação estatal, desde o fechamento de escolas à denúncias de corrupção em serviços públicos.

Herdeiro de um cofre raspado, Tarso viu muitas de suas propostas inviabilizadas, inclusive algumas que eram muito significativas, como a garantia do piso salarial nacional aos professores, medida que o próprio criara como ministro da Educação.

Sem recursos, apelou para o que era possível, como a criação de novos canais de participação popular. O fato mais marcante de seu governo foi o fim dos pedágios nas estradas e a criação de uma empresa estatal para rodovias, aproveitando o fim das concessões realizadas nos anos neoliberais pelo governador Antônio Britto.

Intelectual rigoroso, Tarso já defendia a necessidade de ampliação das conquistas sociais nos governos do PT, muito antes das manifestações de junho do ano passado, às quais, aliás, recebeu de braços abertos e instituiu o Passe Livre estadual em regiões metropolitanas do Rio Grande do Sul.

Preocupado com a subordinação da política e do Estado ao capital financeiro, Tarso tem insistido na aliança da política partidária institucional com os movimentos sociais. Nesse contexto, construiu com a Via Campesina e sindicatos urbanos um ousado plano camponês de produção de alimentos saudáveis e distribuição nos centros urbanos. Finalmente, a busca pela reeleição tem como escudeiro a candidatura ao Senado de Olívio Dutra, ícone da honestidade política.

O candidato do PMDB José Ivo Sartori, que corre por fora, tem a seu favor ter sido prefeito da segunda maior cidade gaúcha, Caxias do Sul. O município é um importante polo metal-mecânico, de onde também se origina seu candidato ao Senado, Pedro Simon, que busca o quinto mandato consecutivo.

Sartori, porém, apostou na polarização errada na campanha e se apresenta como o “anti-PT”. O problema do peemedebista é como justificar isso quando o presidente nacional do seu partido, Michel Temer, é o candidato à vice-presidente de Dilma Rousseff…

Certamente, os rumos da eleição gaúcha não possuem peso suficiente para alterar significativamente o cenário político nacional. Porém, uma vitória do conservadorismo joga mais água no moinho de projetos de intolerância e de liberalização econômica. Um passo atrás em direção ao século 19.

Por outro lado, um governo que amplia a participação e dialoga permanentemente com os movimentos sociais oxigena a esquerda e pode ser, novamente, laboratório de novas práticas e políticas sociais. Um passo a frente no século 21, para a esquerda e para o país.

Miguel Enrique, de Veranópolis
No Escrevinhador
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Novas pesquisas no forno

Número do protocolo: BR-00754/2014

Data de registro: 18/09/2014

Data de divulgação: 23/09/2014

Empresa contratada: IBOPE INTELIGÊNCIA PESQUISA E CONSULTORIA LTDA.

Eleição: Eleições Gerais 2014

Cargo(s): Presidente

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Origem dos recursos: GLOBO COMUNICAÇÃO E PARTICIPAÇÕES S/A, Rua Lopes Quintas, 303, cidade e estado do Rio de Janeiro, CNPJ/MF sob o nº 27.865.757/0001-02. S/A O ESTADO DE SÃO PAULO, Avenida Engenheiro Caetano Álvares, 55, 6º andar, cidade e estado de São Paulo, CNPJ/MF sob o nº 61.533.949/0001-41.

Pagante do trabalho: GLOBO COMUNICAÇÃO E PARTICIPAÇÕES S/A, Rua Lopes Quintas, 303, cidade e estado do Rio de Janeiro, CNPJ/MF sob o nº 27.865.757/0001-02. S/A O ESTADO DE SÃO PAULO, Avenida Engenheiro Caetano Álvares, 55, 6º andar, cidade e estado de São Paulo, CNPJ/MF sob o nº 61.533.949/0001-41.

Valor (R$): 133.933,80

Estatístico responsável: Márcia Cavallari Nunes

Registro do estatístico no CONRE: 6208-A

Registro da empresa no CONRE: 4375-94

Data de início: 18/09/14 Data de término: 23/09/14 Entrevistados: 2002

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Número do protocolo: BR-00753/2014

Data de registro: 18/09/2014

Data de divulgação: 23/09/2014

Empresa contratada: MDA PESQUISA DE OPINIÃO PÚBLICA E CONSULTORIA ESTATÍSTICA LTDA

Eleição: Eleições Gerais 2014

Cargo(s): Presidente

Abrangência: BRASIL

Contratante: CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO TRANSPORTE - CNT - CNPJ: 00.721.183/0001-34

Origem dos recursos: CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO TRANSPORTE - CNT - CNPJ: 00.721.183/0001-34

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Valor (R$): 160.000,00

Estatístico responsável: Marcelo Costa Souza

Registro do estatístico no CONRE: Série A No. 8109

Registro da empresa no CONRE: 027

Data de início: 20/09/14 Data de término: 21/09/14 Entrevistados: 2002

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Número do protocolo: BR-00756/2014

Data de registro: 19/09/2014

Data de divulgação: 24/09/2014

Empresa contratada: Sensus Data World Pesquisa e Consultoria S/C Ltda

Eleição: Eleições Gerais 2014

Cargo(s): Presidente

Abrangência: BRASIL

Contratante: Sensus Data World Pesquisa e Consultoria S/C Ltda

Origem dos recursos: Sensus Data World Pesquisa e Consultoria S/C Ltda

Pagante do trabalho: Sensus Data World Pesquisa e Consultoria S/C Ltda

Valor (R$): 110.000,00

Estatístico responsável: Felipe Abrahão Coelho Fantauzzi

Registro do estatístico no CONRE: 8429 / 5ª Região

Registro da empresa no CONRE: 022 / 5ª Região

Data de início: 21/09/14 Data de término: 26/09/14 Entrevistados: 2000

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Número do protocolo: BR-00757/2014

Data de registro: 19/09/2014

Data de divulgação: 24/09/2014

Empresa contratada: VOX OPINIÃO PESQUISA E PROJETOS LTDA

Eleição: Eleições Gerais 2014

Cargo(s): Presidente

Abrangência: BRASIL

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Valor (R$): 132.000,00

Estatístico responsável: MARIA CECÍLIA SACRAMENTO SOUZA

Registro do estatístico no CONRE: 5ª REGIÃO Nº 8641

Registro da empresa no CONRE:

Data de início: 23/09/14 Data de término: 24/09/14 Entrevistados: 2000
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Dilma 39 vs 24 Bláblá. Domingo no parque

A um ponto da vitória no 1º turno

De Rodrigo Pilha, no twitter

Como o Aécio continua nos 16 pontos, o Ataulfo Merval (veja ABC do C Af) pode ficar chateado.

Já que os pigais merválicos gostam de segundo turno, veja só, amigo navegante, o que diz o tracking do domingo no parque do DataCaf:

Dilma 45 vs 40 Bláblá.

Para lembrar Gilberto Gil, em “Domingo no Parque”, e celebrar seu decisivo apoio à Bláblá.



Paulo Henrique Amorim
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Por trás do contrabando do Nióbio, os Barões da Imprensa. Araxá cidade roubada


Araxá, em Minas Gerais, devia ser uma  das cidades mais rica do Brasil.  Não é. Até sua beleza é roubada.

A mineração, em Araxá, poderia ser a maior fonte geradora da economia de Minas Gerais. Não é, pelo constante contrabando de minérios fosfatados, ao lado do nióbio explorado pela empresa CBMM.

Outra fonte de riqueza para os estrangeiros & lacaios mineiros & outros: a pirataria de suas águas medicinais.

Conheça os nomes dos ladrões:

A Rede Globo e o contrabando do Nióbio

Um canal de televisão que desde seu surgimento esteve no centro das grandes jogadas políticas estaduais e nacionais, através de acordos pouco ortodoxos, volta à cena sob suspeita de carrear recursos provenientes da venda subfaturada de Nióbio, para financiar a expansão da Rede Globo em Minas Gerais, a serviço de um projeto político.

A principal suspeita de irregularidade encontrada é o fato do dirigente da Rede Integração, Antônio Leonardo Lemos Oliveira, sem se afastar da emissora, assumir a vice presidência da CODEMIG, empresa pertencente ao governo de Minas encarregada de administrar o patrimônio minerário do Estado, por consequência a extração, beneficiamento e venda do Nióbio.

A venda e exploração do Nióbio de Araxá já é objeto de investigação pelo Ministério Público mineiro. Porém, um relatório da Receita Federal visando apurar a evasão de divisas existente na venda subfaturada do mineral joga luz sobre a possível transferência de recursos obtidos na operação pela Companhia Mineradora do Pirocloro de Araxá, sociedade celebrada sem autorização legislativa ou licitação entre CODEMIG e CBMM, empresa do Grupo Moreira Sales para a Rede Globo de Televisão.

Em 1962, através da outorga assinada pelo primeiro-ministro Tancredo Neves, foi entregue a TV Triangulo ao empresário Edson Garcia Nunes. Tudo por articulação política de Adib Chueire, e em 1964, um mês após o golpe militar, foi ao ar a emissora. O primeiro contato de retransmissão foi com a TV Excelsior e a seguir com a Record. No início da década de 70, a difícil situação da TV Record e o fim da TV Excelsior comprometeram o funcionamento da TV Triângulo.

As ações de Edson Garcia Nunes, suas opções a respeito da televisão e o próprio nome da emissora já o colocavam como um defensor da criação do Estado do Triângulo. Segundo o seu depoimento, essa opção tomara novo fôlego em 1967, quando ele passa a participar mais ativamente do movimento de emancipação do Estado do Triângulo.

A TV Triângulo passa a divulgar o movimento, a bandeira do estado é afixada nos caminhões da emissora, faixas e inscrições defendendo a causa.

A principal peça da campanha emancipacionista era: “Essa gente sabe muito bem cuidar do seu nariz. Estado do Triângulo. Vamos respirar livremente. O crescimento desse movimento começava a incomodar o Governo Militar, e em 1968, segundo informações do próprio Edson Garcia Nunes, ele é convocado para uma “conversa” com o Chefe de Gabinete do então presidente Costa e Silva.

Nessa conversa ficou claro que, se Edson Garcia Nunes não se afastasse do movimento separatista, perderia a concessão do canal. Movimento que deixou de ser significativo quando o uberlandense Rondon Pacheco assume o governo do Estado de Minas Gerais. Segundo Golberi, a TV Triangulo simulava a vontade de divisão do Estado de Minas Gerais para justificar a escolha de Rondon Pacheco pelo regime militar.

Segundo o livro depoimento de Edson Garcia Nunes, em 1965, a TV Triangulo passava por uma séria crise financeira e o político paulista Ademar de Barros o convida para uma visita ao seu gabinete em São Paulo, e lá faz uma proposta para a compra da emissora. Aceitando, chegou a receber uma ordem de crédito equivalente à metade do valor da venda como uma primeira parcela do pagamento. Antes da segunda parcela, que seria paga após seis meses, Adhemar de Barros tem os seus direitos políticos cassados e desiste da compra.

Os problemas financeiros se repetiram em 1968 quando Rondon Pacheco ocupava a Chefia da Casa Civil do presidente militar Costa e Silva. Os novos proprietários da TV Excelsior, já então uma pequena Rede, com quatro emissoras (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre), envolvem-se em uma delicada negociação de venda da rede que envolveu o próprio Garcia Nunes, atuando como “testa de ferro” de Antônio Delfim Netto, que tinha aspirações políticas de ser Governador do Estado de São Paulo.

A negociata incluía, entre outras coisas, que um processo envolvendo a falsificação dos selos de uma empresa de cigarros, de propriedade dos mesmos empresários que comandavam a Excelsior, fosse “desaparecido”. Em troca, os empresários passariam dois terços das ações das emissoras para os novos proprietários sem nada receber. Os novos donos teriam como compromisso apenas o pagamento das dívidas de Impostos Federais, encargos sociais e salários dos funcionários.

Enquanto as conversações corriam e auditorias eram realizadas, ficou comprovado que o valor das dívidas era maior do que o esperado, e foi feito um novo acordo que, segundo Edson Garcia Nunes, incluiu o “esquecimento” dos impostos federais. Nesse meio tempo também, os proprietários das quatro emissoras receberam uma boa oferta pela TV Gaúcha e realizaram o negócio acreditando que o interesse do grupo comprador ao qual estava ligado Edson Garcia Nunes resumia-se à emissora de São Paulo.

Ele, no entanto, se sentiu traído, pois tinha um interesse particular na emissora gaúcha e o negócio se desfez.  Ainda interessado em expandir seus negócios, entrou em contato com Otávio Frias, de quem comprou a TV Vila Rica, de Belo Horizonte, assumindo as dívidas da empresa. A emissora foi logo vendida para Januário Carneiro, que posteriormente a transferiu para á Rede Bandeirantes de Televisão.

Em 31 de agosto de 1971 a TV Triângulo é vendida para os empresários Tubal de Siqueira e Silva, Rubens de Freitas e seu irmão Renato de Freitas e Rubens Leite, iniciando a retransmissão da programação da Rede Globo. A emissora foi a terceira afiliada da Rede. Como o próprio Edson Garcia Nunes afirma em seu livro de memórias, desde sua fundação a TV Triângulo esteve umbilicalmente ligada a “Jogadas Políticas e econômicas” pouco ortodoxas.

Como se a seguir seu destino, os investimentos para expansão da Rede Globo no interior de Minas Gerais, através da TV Triangulo, atual Rede Integração, assustam. Após 2002, como que em um passe de mágica, a Rede Integração é propagada como de propriedade exclusiva do empresário Tubal de Siqueira Silva. Segundo o relatório da Receita Federal, os investimentos posteriores já ultrapassaram R$ 1 Bilhão, sem que qualquer faturamento significativo de publicidade tenha ocorrido no período.

Todo capital foi obtido através de empréstimos tomados de Bancos ligados ao Grupo Moreira Sales. Em 2007, a Rede Integração adquiriu parte da TV Panorama, afiliada da Globo de Juiz de Fora/MG, expandindo a empresa também para a Zona da Mata, controlando assim 4 das 8 retransmissoras da TV Globo em Minas Gerais e se tornando a maior empresa de comunicação do interior mineiro. Cinco anos mais tarde, a Rede Integração assumiu a totalidade da TV Panorama que com isso, passou a se chamar TV Integração Juiz de Fora.

Segundo o superintendente da emissora, Rogério Nery, a compra da participação é um marco importante. “Vamos levar efetivamente a marca da TV Integração para a Zona da Mata, com respeito aos costumes e à cultura da região, que é muito importante para o Estado e para o país”. Dessa maneira, a TV Integração, que atua no Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba, Noroeste, Pontal e Centro-Oeste, agora passa a abranger a Zona da Mata. Ao todo, são 233 municípios que recebem a sinal da emissora e mais de 5,5 milhões de telespectadores.

Ao todo, hoje são 259 cidades e 5.376,579 milhões de habitantes atingidas pelo sinal da Rede Integração que além de TV, opera 3 emissoras de rádio (95,1 FM, Globo Cultura Am 1020 e Regional FM), um portal de Internet (Megaminas.com), uma operadora de TV a Cabo (Net Patos de Minas), uma empresa com soluções para web (Webroom) – com filiais em Uberlândia, Brasília e Goiânia – e uma produtora de vídeo (Imaginare Filmes).

Emissoras

TV Integração Araxá (Araxá) – Canal 12

TV Integração Ituiutaba (Ituiutaba) – Canal 7 e 30 UHF Digital

TV Integração Uberlândia (Uberlândia) – Canal 8 VHF e 30 UHF Digital

TV Integração Juiz de Fora (Juiz de Fora) – Canal 5

Principais Cidades

Uberlândia – 611.903 habitantes IBGE/2011

Juiz de Fora – 520.810 habitantes IBGE/2011

Uberaba – 299.360 habitantes IBGE/2011

Divinópolis – 215.246 habitantes IBGE/2011

Patos de Minas – 139.848 habitantes IBGE/2011

Barbacena – 127.217 habitantes IBGE/2011

Araguari – 110.402 habitantes IBGE/2011

Ubá – 102.782 habitantes IBGE/2011

Muriaé – 101.430 habitantes IBGE/2011

Ituiutaba – 97.791 habitantes IBGE/2011

Araxá – 94.798 habitantes IBGE/2011

Itaúna – 86.123 habitantes IBGE/2011

Paracatu – 85.447 habitantes IBGE/2011

Pará de Minas – 85.075 habitantes IBGE/2011

São João del-Rei – 84.404 habitantes IBGE/2011

Patrocínio – 82.471 habitantes IBGE/2011

Viçosa – 72.244 habitantes IBGE/2011

Rádios

Cultura FM 95,1 – Uberlândia

Radio Bandeirantes de Araguari Ltda. – Araguari

Radio Cultura de Uberlândia Ltda. – Uberlândia

Radio Televisão de Uberlândia Ltda. Ituiutaba

Radio Televisão de Uberlândia Ltda. – Uberlândia

Retransmissoras de TV

Radio Televisão de Uberlândia Ltda.
Monte Alegre de Minas. Canal 6

Radio Televisão de Uberlândia Ltda.
Patos de Minas. Canal 10

Radio Televisão de Uberlândia Ltda.
Conquista. Canal 14

Radio Televisão de Uberlândia Ltda.
Ituiutaba. Canal 7

Radio Televisão de Uberlândia Ltda.
Patrocínio. Canal 6

Radio Televisão de Uberlândia Ltda.
Frutal. Canal 11

Radio Televisão de Uberlândia Ltda.
Araporã. Canal 24

Radio Televisão de Uberlândia Ltda.
Sacramento. Canal 2

Radio Televisão de Uberlândia Ltda.
Carmo do Paranaíba. Canal 7

Radio Televisão de Uberlândia Ltda.
Coromandel. Canal 11

Radio Televisão de Uberlândia Ltda.
Santa Vitória. Canal 36

Radio Televisão de Uberlândia Ltda.
Tupaciguara. Canal 5

Radio Televisão de Uberlândia Ltda.
Monte Carmelo. Canal 9

Radio Televisão de Uberlândia Ltda.
Guimarânia. Canal 13

Radio Televisão de Uberlândia Ltda.
Araxá. Canal 12

Consultado, o dirigente da Rede Integração e da CODEMIG, Antônio Leonardo Lemos Oliveira, não quis comentar o assunto. Igualmente, a Rede Integração, Rede Globo e CODEMIG também não se pronunciaram.

Documentos que fundamentam esta matéria


(Transcrito do Novo Jornal, Minas Gerais)
Esta rede criada desde Tancredo Neves, primeiro-ministro, isto é, Chefe do Governo do Brasil, no então sistema parlamentarista imposto pelos militares, foi fortalecida pelo neto Aécio Neves, candidato do nióbio e da Globo a presidente.

No Sérgio Rocha Repórter
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Ação bilionária envolve Aécio e Anastasia na exploração de Nióbio em Araxá

 11/05/2014 


Nióbio entregue

O Nióbio, riqueza que poderia significar a redenção da economia mineira e nacional, foi entregue, através de operação bilionária e ilegal, a empresa estatal japonesa, Japan Oil, Gas and Metals National Corporation, em parceria com um fundo de investimento coreano que representa os interesses da China. Este é o final de um ruidoso conflito instalado no centro do Poder de Minas Gerais que vem sendo, nos últimos dois anos, de maneira omissa e silenciosa, testemunhado pelo governador Antônio Anastásia.

Aécio e a Codemig

Desde 2002 o então governador e atual senador Aécio Neves entregou a condução das principais decisões e atividades econômicas do Estado de Minas a Oswaldo Borges da Costa, que assumiu a função estratégica de presidente da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (CODEMIG). Criou um governo paralelo, onde as principais decisões sobre obras e investimentos das estatais CEMIG, COPASA, DER/MG, DEOP e das autarquias de MG ficaram a cargo de “Oswaldinho”.

Palácio da Liberdade e os milionários

Para sede da CODEMIG, caminharam nos últimos 10 anos investidores internacionais que tinham interesse no Estado. O Palácio da Liberdade transformou-se apenas em cartão postal e símbolo de marketing publicitário de milionárias campanhas veiculadas na mídia. Por trás deste cenário artificial operou um esquema de corrupção, que contou com a cumplicidade até mesmo da Procuradoria Geral de Justiça, que impedia a atuação do Ministério Público Estadual.

Disputa entre família Neves fortuna duvidosa

Foi necessária esta longa introdução, uma vez que à imprensa mineira jamais foi permitido tocar neste assunto para que se entenda o que agora, uma década depois, está ocorrendo.

Após a morte do banqueiro Gilberto Faria, casado em segunda núpcias com Inês Maria, mãe de Aécio, iniciou uma disputa entre a família Faria e a mãe de Aécio, sob a divisão do patrimônio deixado. Oswaldo Borges da Costa, casado com uma das herdeiras de Gilberto Faria, passou a comandar inclusive judicialmente esta disputa.

Diante deste quadro beligerante, as relações entre Aécio Neves e Oswaldo Borges da Costa acabaram, o que seria natural, pois Aécio fatalmente ficaria solidário com sua mãe. Mais entre Aécio Neves e Oswaldo Borges da Costa é público que existia muito mais, desta forma deu-se início a divisão do que avaliam ser uma fortuna incalculável.

Origem da fortuna…

No meio desta divisão estaria “a renda” conseguida e a conseguir através da diferença entre a venda subfaturada e o valor real no exterior do Nióbio. Peça chave neste esquema, a CBMM pertencente ao Grupo Moreira Salles, que sem qualquer licitação ou custo renovou o contrato de arrendamento para exploração da mina de Nióbio de Araxá pertencente ao Governo de Minas Gerais por mais 30 anos.

Investidores não identificáveis?

Meses depois venderia parte de seu capital a um fundo Coreano, que representa investidores, não identificáveis.

RogerioCorreia
Para se ter idéia do que significou, em matéria de ganho, a renovação para Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), que tem com atividade exclusiva a exploração da mina de Nióbio de Araxá – sem a mina cessa sua atividade – depois da renovação a empresa vendeu 15% de suas ações por R$ 2 bilhões, ou seja, levando em conta apenas o valor de suas ações a empresa valeria hoje R$ 28 bilhões, R$ 4 bilhões a menos que o Estado de Minas Gerais arrecada através de todos os impostos e taxas em um ano. Mas esta operação já havia causado desconfiança principalmente nas forças nacionalistas que acompanhavam de perto a movimentação.

Acrescentando: “Circula por aí versão segundo a qual só as jazidas de nióbio dos “Seis Lagos” valem em torno de 1 trilhão de dólares. Necessário esclarecer que por sua localização e facilidade de exploração a jazida de Araxá vale muito mais que a “Seis Lagos”.

CADE – Ministério da Justiça omisso, favorece as classes internacionais

Evidente que o Ministério Público mineiro já está investigando esta renovação do arrendamento celebrado pela CODEMIG, porém, ela nada significa perto do crime praticado contra a soberania nacional que foi a venda de parte das ações da CBMM, dando poder de veto a uma empresa estatal japonesa. Foi uma operação cheia de irregularidades com a questionável participação de órgãos que deveriam fiscalizar este tipo de operação como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), subordinado ao Ministério da Justiça.

A operação foi aprovada em prazo recorde e com base em um parecer de folha única, que desrespeitou toda legislação existente no País. A menor das irregularidades cometidas foi conceder “Confidencialidade” aos termos da operação aprovada. Foi desrespeitada a determinação legal para que não ocorra a cassação da autorização da sociedade estrangeira funcionar no País; esta deverá tornar público todos os seus dados econômicos, societários e administrativos, inclusive de suas sucursais (art. 1.140, CC).

Sociedades estrangeiras funcionando no território brasileiro contrárias a ordem pública do Brasil

E mais, conforme constante do artigo 1.134 do Código Civil, se faz necessária para que a sociedade estrangeira possa funcionar no território brasileiro prévio exame da legitimidade de sua constituição no exterior e a verificação de que suas atividades não sejam contrárias a ordem pública no Brasil.

O Poder Executivo poderá, ou não, conceder a autorização para uma sociedade estrangeira funcionar no Brasil, estabelecendo condições que considerar convenientes à defesa dos interesses nacionais (art. 1.135, CC). Segundo a assessoria de imprensa do CADE, na tramitação da analise foi-se observado o regimento, evidente que um regimento não pode se sobrepor a lei.

Por que o CADE não analisou a critério?

Nada disto foi observado e agora, a exemplo da briga instaurada entre as famílias Faria e Neves, o divorcio entre Aécio Neves e Oswaldo Borges da Costa fatalmente se transformará num dos maiores escândalos da historia recente do País e poderá levar Minas Gerais a perder a propriedade sobre a jazida de Nióbio.

Principalmente as Forças Armadas veem promovendo gestões para federalizar, a exemplo da Petrobras, a exploração de Nióbio.

Relatórios comprovam esquema criminoso de subfaturamento do nióbio

Relatórios confidenciais da Abim e da área de inteligência do Exército demonstram como operou o esquema criminoso de subfaturamento montado pela CODEMIG/ CBMM, através da Cia de Pirocloro de Araxá. A assessoria de imprensa da CBMM, da CODEMIG e do senador Aécio Neves foram procuradas e não quiseram comentar o assunto.

O assunto “Nióbio” é amplo, não tendo como esgotá-lo em apenas uma matéria, desta forma Novojornal publicará uma série de reportagens ouvindo as diversas áreas envolvidas no tema.

Nota da Redação (atualizado às 15:26 de 21/12/2012)
O valor da venda de 15% da CBMM, ao contrário dos R$ 2 bilhões de reais, constante na matéria, foi de US$ 2 bilhões de dólares. Desta forma, 100% das ações da CBMM equivalem a US$ 28 bilhões de dólares, levando em conta que a arrecadação total anual do Estado de Minas Gerais é de R$ 32 bilhões de reais, o valor das ações da CBMM representa quase o dobro do arrecadado.

(US$ 28 bilhões de dólares x R$ 2 reais = R$ 56 bilhões de reais).

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Banqueiro em política é véspera de bancarrota


Nos Estados Unidos o respeitado Riggs Bank, de Washington, conhecido pela tradição de ser o banco oficial de todos os presidentes, sucumbiu ao ser descoberto numa indesculpável travessura: abrigava contas milionárias de Augusto Pinochet, o ditador chileno, abertas com passaportes e nomes falsos. Obviamente o dinheiro sujo do genocida andino chegou aos seus cofres com a conivência da diretoria. Deixaram, assim, os banqueiros do Riggs de frequentar o Salão Oval para o amargor de depoimentos em chefaturas policiais e audiências nos tribunais de justiça.

Na Argentina, dois bancos mantiveram relações carnais com os milicos golpistas pós-1976, o ano da derrubada da viúva de Perón e instauração do regime cruel que sequestrou, matou e desapareceu com cerca de 30 mil pessoas. O Banco de Intercâmbio Regional (BIR) e o Banco Oddone tinham tentáculos dentro dos quartéis e passe livre na Casa Rosada, ocupada alternadamente por generais ladrões e assassinos. Mas suas contabilidades — escondidas pela profusão de patrocínios culturais, badalações no society platino e eventos no exclusivo Jockey Club portenho — estavam podres. Nem os militares ousaram salvar os banqueiros falidos quando Jose Alfredo Martinez de Hóz, o czar da economia, decretou as quebras.

Enquanto milhares de correntistas iam do escândalo nas portas (cerradas) das agências ao “simples” suicídio, os banqueiros fugiram para o exterior ou acabaram nos calabouços do regime. A influência política de nada valeu diante da revolta popular e da comoção causada pela debacle sistêmica provocada pela quebra do BIR e do Oddone. E eram todos bancos presumivelmente “sadios” e com forte proteção política.

José Rafael Trozzo, o presidente do BIR, era a voz de apoio ao regime entre o empresariado mais saliente, e Luis Alberto Oddone, dono do banco que levava seu sobrenome, chegou mesmo a custear do próprio bolso a fortuna de US$ 700 mil (valores de 1976) pagos à agências internacionais de relações públicas e lobby para que propagandeassem os feitos do novo regime argentino. Trozzo, avisado por um general camarada, fugiu para Miami. Oddone resolver peitar Martinez de Hóz e passou longa temporada numa masmorra nos arredores de Buenos Aires.

Mais curioso foi o final do banqueiro Ruben Beraja, do Banco Mayo, presidente da DAIA (Delegación de Asociaciones Israelitas Argentinas) e destacado membro da corte de Menem, nos anos infames do neoliberalismo platino. Diante de uma fraude monstruosa, um rombo que atravessava a casa das centenas de milhões de dólares, o BCRA (o Banco Central de lá) simplesmente decretou a liquidação do Mayo. Beraja se encontrava em Washington, como feliz e prestigiado integrante da comitiva do presidente Carlos Menem. No hall do hotel, a caminho da Casa Branca, Carlos Korach, mafioso chefe-de-gabinete da Casa Rosada, o desconvida na frente dos presentes e lhe dá com crueza a notícia do estouro de seu banco: “Te jodeste, hermano”. Nem sempre a proximidade com o poder e a intimidade com os poderosos consegue segurar um banco quebrado. Dinheiro é coisa séria.

Ricardo Espirito Santo Salgado comandou por muitos anos com mão-de-ferro o banco que leva o sobrenome da família materna. Ganhou o popular apelido de “o-dono-disto-tudo” e recebia presidentes, primeiros-ministros e autoridades monetárias em sua deslumbrante casa nos arredores de Lisboa, talvez uma das mais lindas da Europa. Elegante e arrogante, impôs-se na política portuguesa, na de Moçambique, na de Angola e, também, recebeu Marcos Valério e uns sôfregos emissários do delator Roberto Jefferson, então influente dono do PTB, para negociações mirabolantes acerca de aplicações das reservas do tesouro brasileiro. Que, é claro, jamais foram feitas.

O sólido banco de Ricardo E. S. Salgado não era tão sólido quanto parecia, e seu espírito como banqueiro estava longe de ser santo. Hoje, depois de apeado da presidência do antigo colosso lusitano, espera em prisão domiciliar a decisão da Justiça sobre propinas pagas, propinas recebidas, desvios de fundos e balancetes dignos de Ionesco. Não sem antes ter deixado nas burras do tesouro a bagatela de três milhões de euros — valor arbitrado como fiança pelo direito de não ir (por enquanto) mofar num cárcere lisboeta qualquer. Sabe o que aconteceu ao ex-dono-disto-tudo? Encontrou pela frente um primeiro-ministro corajoso, um ministro da Fazenda sério e um juiz imparcial. O futuro do ex-banqueiro que comandou governos e tratava dignatários por “tu” não é nada alvissareiro.

Voltemos ao patropi.

Ângelo Calmon de Sá despachava em histórico edifício na Cidade Baixa, em Salvador, sede do então centenário Banco Econômico. Não fitava as pessoas, mal as cumprimentava e um dos seis elevadores estava permanentemente interditado. Só o “doutor Ângelo” podia usá-lo. Estava em Paris, numa suíte do George V, tomando champanhe Cristal Rosé Brut Imperial com dona Ana Maria, mas o “seu” elevador, lá no centro histórico lindo e fétido de nossa primeira capital, estava fechado aos mortais. Ele era uma semidivindade baiana. Não estava entronizado no altar da Igreja do Bonfim nem flutuava entre os imensos Orixás do genial escultor Tati Moreno nas águas escuras do Dique do Tororó.

Os governadores da Bahia passavam pela opulenta casa, majestosamente plantada entre mangueiras frondosas, lá no alto de um dos vales rasgados no ventre soteropolitano, prestando-lhe vassalagem e os salamaleques de praxe. Muitas e muitas vezes o “doutor Ângelo” viajava ao Rio, São Paulo ou Brasília, sozinho, aboletado em um de seus dois jatos Falcon, enquanto seus assessores diretos, velhos diretores e gerentes fiéis o seguiam como mortais que eram em voos comerciais. Ministro da ditadura militar e de Collor, presidente do Banco do Brasil, nome sempre lembrado para concorrer ao governo da Bahia, industrial com várias fábricas da Coca-Cola, imenso plantador de cacau, criador de gado da melhor raça, latifundiário de terras que se perdiam no horizonte. Financiou pesadamente todos os partidos, com preferência pela Arena, PDS e PFL, sem se esquecer de encher os cofres de FHC em 94. Pois meses depois — e com dezenas de deputados e senadores comandados pelo inefável ACM atravessando a rua e invadindo o Palácio do Planalto para pressionar em favor do “doutor Ângelo” e do seu agonizante bancão — o mesmo FHC foi obrigado a decretar o fim do Econômico. Estava podre.

Do “doutor Ângelo” sobrou uma dívida imensa, recordações cinzentas e uma pasta rosa, providencialmente deixada em sua mesa na presidência do Econômico, com a contabilidade paralela onde constavam generosos aportes aos políticos de suas relações, de ACM a FHC, passeando por todo o abecedário.

José Eduardo Andrade Vieira era o quarto dos filhos do velho Avelino, o mais destacado banqueiro paranaense. Dois irmãos morreram no mesmo acidente aéreo. O terceiro, de enfarte fulminante. Sobrou ele, a quem não estava destinada a tarefa de comandar o império iniciado pelo pai. Como o J. Pinto Fernandes, do poema do mestre Drummond, “Zé do Banco” não tinha entrado na história, mas com o Bamerindus ficou.

Com muito trabalho e muita simpatia o patriarca havia feito de um tamborete (o Banco Mercantil e Agrícola do Norte do Paraná) nascido em Tomazina, uma pobre cidadezinha, o portentoso Bamerindus, um dos maiores bancos do Brasil nas décadas de 50, 60, 70, 80 até sua quebra na metade dos anos 90. Zé Eduardo até que se saiu bem. Liberal, generoso, recrutou executivos respeitados no mercado, jamais teve seu nome envolvido em negociatas ou corrupção, investiu no marketing e fez de seu Bamerindus uma marca moderna, simpática. Surpreendeu os que dele pouco esperavam. Mas se meteu na maldita da política, comprou um partido, o PTB, comprou um mandato de senador pelo Paraná, virou ministro de Itamar Franco, financiou pesadamente FHC (que fez sua campanha nos jatinhos do banco), virou ministro do governo do tucano e quebrou bonito.

De uma casa bancária, o extinto Banco Nacional, Paulo Henrique Cardoso sacou a herdeira, Ana Lúcia Magalhães Pinto, com quem manteve casamento de 17 anos, do qual nasceram filhas gêmeas. Viajavam Brasil e mundo afora num jatinho da Líder mantido à disposição, mantendo imensa distância de qualquer coisa que lembrasse trabalho. Os cunhados pagavam as contas e ajudaram o pai do cunhado diletante a eleger-se presidente, sendo um de seus maiores doadores. Até que em 1994, com milhares de empréstimos a clientes fictícios gerados pelo contador Clarimundo Sant’Anna na tentativa de salvar a casa já em escombros, o Banco Nacional já dava mostras de sua precariedade.

No réveillon de 1994, véspera de assumir o Palácio do Planalto, o recém-eleito presidente aparece ao lado de Marcos Magalhães Pinto, presidente do Nacional e irmão de sua nora Ana Lúcia, risonhos numa opípara festança de réveillon da família. Eles, os discretos banqueiros de Minas Gerais, já viviam o outono de uma antiga opulência. Em 1995, ainda no primeiro mandato de FHC, o Banco Central decreta a liquidação do Nacional (o Unibanco, hoje Itaú, pegou o filé da massa falida, deixando a “banda podre” para o contribuinte). Nem o futuro das netas, nem o farto dinheiro recebido pelo PSDB na campanha, conseguiram impedir a ação saneadora do Banco Central. Contrafeito, a FHC só restou assinar a sentença de morte.

Dois meses depois, PHC deixa Ana Lúcia e suas gêmeas e se instala num hotel da grã-finíssima Avenida Vieira Souto, de frente para o mar de Ipanema. O rombo bilionário, que extinguiu o Banco Nacional — do qual a mulher de PHC era herdeira e acionista igualzinho a “educadora” Neca Setúbal — é tido como a maior fraude financeira da história do Brasil, pois, ao que se sabe, atingiu quase um terço do dinheiro circulante. Sejamos mais didáticos: o rombo deixado pelos então parentes de FHC equivalia a mais de R$ 3,00 de cada R$ 10,00 em circulação no país!

Vamos passear de novo pelo mundo.

Nélson Mezerhane é um judeu venezuelano, elegante e simpático. Homem de coragem, financiou a oposição e resolveu enfrentar o regime do coronel Hugo Chávez. Seu Banco Federal não era o maior da Venezuela, mas estava entre os melhores, com centenas de milhares de clientes e uma rede de agências espalhadas por todo o país, investimentos em outras empresas e boa fama no mercado. A colônia judaica local não entendeu o que achou ser “loucura” do seu mais destacado integrante e benfeitor. O problema é que a carta-patente, aquela autorização de funcionamento de uma instituição financeira, é dada pelo Banco Central, a autoridade monetária do país. Preciso contar o resto da história? Mezerhane teve sorte. Sorte e um jatinho. Está em Miami, sem banco, porém livre de uma série de “boletos de captura”, as temidas ordens de prisão.

Outros banqueiros já se envolveram na política e são testemunhos do que, sempre e inevitavelmente, acontece aos que confundem o ronco da história com o tilintar das moedas. Quando financiam candidatos, pagam contas de campanha, participam diretamente do movimento eleitoral, é sinal de que estão com algum grave problema, algo muito sério a ser escondido. Quando se imiscuem na vida pública e no processo eleitoral o fazem em busca de proteção política e salvação imediata. Ou são autores de rombos colossais ainda não revelados ao “mercado” ou pressentem o estouro próximo da boiada, por conta de multas, sonegações, contabilidades paralelas, perdas maquiadas em balanços fictícios, negócios mal feitos, fusões ou incorporações que não geraram o ganho de competitividade e de caixa esperados.

O espanhol Mário Conde, do Banesto (Banco Español de Crédito), era locomotiva da alta sociedade madrilena e banqueiro da família real. Na lista dos 10 homens mais elegantes da Espanha, dos 10 homens mais admirados da Espanha, dos 10 homens mais respeitados da Espanha, dos 10 homens mais influentes da Espanha, dos 10 maiores filantropos da Espanha, dos 10 maiores mecenas da Espanha, dos 10 maiores financiadores de partidos e políticos da Espanha. E o seu banco, um dos 10 maiores da Espanha, não tinha caixa 2, mas tantas contabilidades paralelas a esconderem sua situação pré-falimentar, que passavam das 10. Quebrado em 1993, preso e condenado, pegou 10 anos de cadeia.

Mas, também, há banqueiro que fica bem na história.

O embaixador Walther Moreira Salles foi um dos grandes brasileiros do seu tempo. Iniciador de grandes negócios, visionário, serviu aos governos de Getúlio, JK e Jango. Foi ministro da Fazenda, duas vezes embaixador em Washington, negociador de nossa dívida externa (na melhor das negociações que já fizemos). Angariou imenso prestígio e multiplicou a fortuna iniciada pelo pai no sul de Minas Gerais, na cidade de Poços de Caldas, com um armazém de secos e molhados. Mas nunca foi político, tendo até rechaçado um convite de JK para ser o candidato do PSD ao governo de seu Estado. Apesar disso, atuou com desenvoltura nos bastidores do poder, sem jamais tornar-se um operador político ou o impulsionador de candidaturas ou candidatos.

O ditador Costa e Silva lhe devotava verdadeiro horror. O motivo era prosaico: levou um chá-de-cadeira de Jânio Quadros (a quem mandou cassar em 64 para depois assumir a autoria da violência às gargalhadas) e, incomodado, viu que era Moreira Salles quem saia da sala do então presidente eleito. Em 68, com o AI-5, resolveu cassar o elegantíssimo e educadíssimo banqueiro. Delfim Netto, consultado acerca da estultice já transformada em ato prestes a ser assinado, fez o chefe mudar de idéia: “Tudo bem, presidente. Mas o Walther tem mais crédito que o Brasil”.

Olavo Setúbal, um engenheiro cartesiano e formal, conhecido pela aplicação nos negócios e pela inegável inteligência, construiu um império baseado no trabalho e em golpes da boa sorte. Herdou do tio um banco sem maior expressão, o Federal de Crédito, e o fez crescer à custa de fusões e incorporações, dezenas delas, particularmente ao longo das décadas de 50, 60 e 70. Com o regime militar seus negócios floresceram. Contou com o apoio da ditadura para assumir outro grande banco, o Banco União Comercial (BUC), de propriedade da família do milionário Soares Sampaio, à beira da quebra por conta de uma desastrada gestão de Roberto Campos, seu presidente e verdadeiro mito do liberalismo econômico brasileiro. O genro de Soares Sampaio, o industrial Paulo Geyer, não aceitou as condições de-pai-para-filho com que o Banco Central doava o BUC a Setúbal, e resolver não assinar a transferência de suas ações. “Perguntem ao Geyer se ele vai assinar logo ou se eu vou precisar mandar dois sargentos irem buscá-lo em casa?”, foi a reação do general Ernesto Geisel.

Além do BUC, a ditadura presenteou Setúbal com a prefeitura de São Paulo, onde ele se saiu bem. Deu conta do recado e protagonizou um episódio decente: recusou-se a demitir o secretário de Cultura, o respeitado dramaturgo Sábato Magaldi, apontado como “comunista” pelo execrável general Silvio Frota, um monstrengo da linha mais que dura.

Picado pela mosca azul, “Olavão” foi preterido pelos milicos na sucessão de Paulo Egydio ao governo de São Paulo e se preparou para disputar o Palácio dos Bandeirantes pelo PFL em 1986. Na convenção do partido, um grupo de malandros tirou o tapete do dono do Itaú e impediu sua candidatura, substituída pela de Paulo Maluf. Desiludido, Olavo nunca mais confundiu as urnas eleitorais com os caixas do Itaú.

Recordo essas histórias, ao alcance de qualquer um, para declarar meu espanto com a participação ativa e exótica de bancos e banqueiros — a começar pelo Itaú de Roberto Setúbal e Pedro Moreira Salles — no financiamento e sustentação da candidatura de Marina Silva à presidência da República. Custo a crer que essa aventura surpreendente, atentatória aos bons manejos bancários, às boas práticas empresariais, seja um biombo desesperado para evitar o pagamento de multa no valor impressionante de R$ 18 bilhões e 700 milhões devidos à Receita Federal em impostos não recolhidos na fusão Itaú-Unibanco. Mas, também, não creio que tais banqueiros sejam ingênuos, inocentes ou desavisados. Creio que a arrogância e o desespero, quem sabe, formaram um caldo de cultura que os fará se arrepender mais cedo que tarde da aventura em que se meteram, fazendo de uma despreparada evidente uma candidata com um Itaú de vantagens para eles, os banqueiros, e de desvantagens, para o país.

A ingerência de um colosso bancário na vida pública do país protagonizou até uma festa-fraude. A dos 90 anos de fundação do Itaú-Unibanco. Ora, quem completaria 90 anos não existe mais, o banco dos Moreira Salles. O Itaú foi fundado em 1945, com outro nome, e veio crescendo como já se relatou aqui. Mas esse pretexto serviu para colocar centenas de alegres convivas do society paulistano, gente do mercado financeiro e alguns empresários ligados à oposição num regabofe onde o presidente executivo do Itaú fez um pavoroso discurso político-eleitoral, atacando o governo e deixando claro o seu apoio à mutante candidata acreana, claramente desqualificada para a missão de comandar um país como o Brasil. Da dívida bilionária, não se falou nada. Sem trocadilho, necas.

Não é preciso ser futurólogo. O suave embaixador Walther e o objetivo Olavo não ousaram tanto e, no entanto, não saíram incólumes.

Palmério Dória
No 247
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Rola-Bosta da Veja fica indignado com aprovação de Haddad


Haddad tem 66% de ótimo, bom e regular

Aprovação de Haddad sobe; maioria defende ciclovias em São Paulo

Aprovação a ciclovias humilha o maníaco de Veja


Somente uma mente doentia, de um maníaco, conseguiria encaixar tantas agressões num único título. De uma só tacada, Reinaldo chamou Haddad de maníaco, os paulistanos de idiotas (afinal, quase todo mundo usa a palavra bike) e ainda iniciou uma contagem regressiva para a saída de um prefeito legitimamente eleito.

No entanto, os dias que se seguiram ao post de Reinaldo foram cruéis para o neocon da Marginal Pinheiros. Na quinta-feira, uma pesquisa Ibope revelou que 88% dos paulistanos são favoráveis às ciclovias que estão sendo implantadas em São Paulo, numa batalha entre a metrópole que tenta se civilizar e a barbárie do automóvel.

No sábado, uma pesquisa Datafolha revelou que cresceu a aprovação ao prefeito Haddad. O motivo: justamente as políticas de mobilidade urbana, que privilegiam o transporte público e meios alternativos, como as bicicletas.

Também no fim de semana, até a revista Veja, que abriga o blog do "maníaco" Reinaldo, elogiou a política de ciclovias e comparou a situação de Haddad à do ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, que se tornou um dos maiores especialistas do mundo em mobilidade urbana.

Peñalosa implantou BRTs, ciclovias e estimulou o transporte urbano. No início de seu mandato, enfrentou a fúria insana de seus opositores, que o acusavam de provocar o caos na capital colombiana. No entanto, terminou seu mandado com índices recordes de aprovação popular e suas políticas começaram a ser copiadas mundo afora. Inclusive, em São Paulo.

Derrotado e humilhado pelos resultados do Ibope e do Datafolha, Reinaldo não recuou em suas posições minoritárias, elitistas e ultrapassadas. Num novo post, publicado neste domingo, classificou Haddad como "o Odorico Paraguassu da bike".

No entanto, a mente pervertida da Marginal Pinheiros deveria, agora, comprar uma calculadora. Em vez de contar 833 dias para a saída de Haddad, talvez seja o caso de acrescentar outros 1,461 dias — o equivalente a mais quatro anos.
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Dilma na TV


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Gilson Caroni Filho vota em Dilma. Saiba o porquê!

Alguns amigos têm dito que meu voto em Dilma é conservador. Estão certos. Conservei, ao longo destes anos, os sonhos da juventude.

Sendo assim, permanece em mim o desejo de ver o Brasil um país cada vez menos injusto, com mais pessoas saindo da miséria e ingressando em uma escola.

Continuo querendo um país com menos párias e mais cidadãos portadores de direitos.

É muito bom viver em um lugar onde a corrupção não é mais varrida para debaixo do tapete por um engavetador-geral da República, mas investigada pelo Ministério Público e pela Polícia Federal.

Quando um relatório da ONU aponta que "o número de brasileiros subalimentados caiu 82% entre 2002 e 2013", com investimentos de 35 bilhões de reais no combate à fome, e atribui este sucesso aos Programas Fome Zero e Bolsa Família, eu me pergunto: Por que mudar?

Se não foi do jeito que eu gostaria, foi da maneira possível.

É por isso, meus caros, que não votarei em uma candidata que, por saber que nada tem a perder, brande palavras de ordem de um socialismo de gueto.

Pelo mesmo motivo, não votarei em uma fundamentalista cristã que, após ter dito que flexibilizaria as leis trabalhistas, voltou atrás e "flexibilizou" seu programa, ao sabor das oscilações das pesquisas. O nome disso, para aqueles que estão votando pela primeira vez, é oportunismo barato.

Também não votarei em Aécio por ele representar um retrocesso de 12 anos, colocando em risco tudo que foi conquistado.

Quero conservar avanços que foram obtidos em dois governos petistas.

Eis porque sou, e continuarei a ser, um conservador; e é por ser assim que votarei em DILMA ROUSSEF: PRIMEIRA MULHER PRESIDENTE DO BRASIL!!

Gilson Caroni Filho
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O racismo e a tesoura fazem ronda na RBS

A ficção vira realidade na RBS: Duda Sirotsky, e Galeazzi Mãos de Tesoura
Foto Adriana Franciosi/RBS e Exame
Está identificado, com nome, sobrenome e endereço, o espírito que há meses assombra com cortes e demissões a RBS, o maior grupo de mídia do sul do país, a 27ª empresa no ranking das 100 maiores do Rio Grande do Sul.

Não é nenhum dos jovens executivos barbudos da família Sirotsky que fundou e comanda a Rede Brasil-Sul de Comunicação desde 1957. O artífice que modela a nova RBS é Cláudio Galeazzi — um senhor de 74 anos e sorriso rasgado, cara limpa e cabelos quase brancos, 1m84 e 92 kg de um corpo massudo modelado pelo exercício disciplinado do halterofilismo —, reconhecido nos principais círculos econômicos do Rio e São Paulo, respeitado entre os grandes empresários brasileiros e disputado por empresas em crise que o veneram como o temido Galeazzi Mãos de Tesoura.

Com mais de 150 projetos de salvação empresarial no portfolio da consultoria Galeazzi & Associados que fundou em São Paulo, em 1995, Cláudio teve passagens triunfais (para os patrões) e traumáticas (para os empregados) no comando temporário de gigantes como os grupos Pão de Açúcar, Vulcabrás/Azaleia, Lojas Americanas, Artex, Cicrisa, Vila Romana, entre outros. Na coronha de seu revólver de serial killer de empregos, na conta sinistra da revista Época Negócios, estão registradas até janeiro de 2008 mais de 20 mil demissões — o triplo dos 6,5 mil funcionários hoje sobressaltados da RBS.

Cláudio Eugênio Stiller Galeazzi não ganhou fama pela ficção de Hollywood, mas pelos cortantes resultados de eficiência gerencial, redução de custos e otimização de lucros que o tornaram uma lenda da vida real das empresas estressadas por balanços avermelhados e deslizamentos de receita. Era inevitável que Galeazzi e a RBS acabassem, um dia, se encontrando. Essa convergência começou a se desenhar em 2011, quando acendeu a luz vermelha no comando da família Sirotsky. Estudos internos e sigilosos realizados por um executivo do grupo em Santa Catarina, Marcos Barbosa, indicaram que o jornal Zero Hora, nau-capitânea da frota da RBS, sofreria um grave abalo estrutural nas receitas a partir de 2018, açoitado pelas ondas cruzadas da queda de anunciantes, fuga de leitores e custos crescentes do papel, tudo isso potencializado no mar tormentoso da internet.

A CARTA-BOMBA

Essa tragédia anunciada acabou se antecipando em seis anos. Em 2012, o caixa do jornal sofreu uma abrupta queda de publicidade, com uma margem de redução de até 50%. O comando da RBS se assustou porque é a divisão de oito jornais impressos que dá o caixa para sustentar o resto da empresa. O solavanco, desconhecido até para o público interno da empresa, habituada às notícias sucessivas de auto-louvação sobre sua pujança e modernidade, veio no momento crítico de troca de descendência no poder. Em 2012 aconteceu a transição da segunda para a terceira geração dos Sirotsky. Nelson, filho do patriarca Maurício Sirotsky Sobrinho (1925-1986), passou o comando executivo da RBS para o sobrinho de 40 anos, Eduardo Sirotsky Melzer, o Duda, filho de sua irmã Suzana, a primogênita de Maurício. Na cadeira de presidente-executivo, o inexperiente Duda enfrentaria emoções nunca antes vividas pelo avô e pelo tio, seus antecessores no cargo.

Maurício e Nelson… …Duda e Maurício… … Nelson e Duda: três gerações de Sirotsky
Foto/Adriana Franciosi – RBS Arquivo Pessoal Foto/Franco Rodrigues-RBS
As receitas continuaram piorando no início de 2013 e o susto virou preocupação. Em julho daquele ano, consolidada a ideia de contratar uma consultoria externa para reorientar a RBS, começou a ser sussurrado ali um nome sonoro e desconhecido até pelos altos executivos da casa: um certo Cláudio Galeazzi. Os primeiros encontros reservados dele com Nelson e Duda Sirotsky aconteceram na sede da consultoria, que ocupa o sétimo andar de um prédio na avenida Engenheiro Luis Carlos Berrini, endereço nobre de alguns dos executivos e empresas mais destacados em São Paulo.

Ali, o trio selou a parceria, remunerada por uma taxa de sucesso sobre os resultados obtidos. Discreto, o consultor não foi visto uma única vez na sede da RBS em Porto Alegre, mas ficou clara sua entrada na vida do grupo. Sem aparecer, sem circular pelo QG dos Sirotsky no sul, Galeazzi despachou para lá um grupo pequeno de assessores para fazer o raio-X e agir sobre os problemas que rondam a empresa. Pelo que se sabe do contrato, a equipe de Galeazzi vai assombrar os corredores da RBS até meados de 2015.

A lâmina fria de Galeazzi Mãos de Tesoura mostrou publicamente o seu fio agudo numa segunda-feira, 4 de agosto passado, pela voz do próprio Duda Sirotsky, em uma das mais desastradas operações de Relações Públicas na história empresarial brasileira. Ele falou aos funcionários numa vídeoconferência e, no mesmo dia, reafirmou o que disse numa carta de duas páginas que pode ser definida como uma autêntica ‘carta-bomba’ — pela sangria na plateia, pelo estrondo na opinião pública e pelas feias cicatrizes na face da RBS como uma empresa moderna, pujante, vencedora, imune a crises e ao amadorismo no ofício da comunicação.

Nas 102 linhas confusas de sua ‘carta-bomba’, Duda fala cruamente em demissões, nega uma crise financeira, anuncia a quebra de paradigmas e conclama seus assustados ‘caros colegas’ — como diz no início de sua bombástica missiva — a imitar a RBS e a apostar no borbulhante mundo dos etílicos. Escreve Duda:
Ampliamos a operação da Wine, que já é a maior empresa de vinhos online do mundo, tanto que estamos agora preparando sua entrada no mercado internacional. E muitos de vocês que já são sócios da Wine agora poderão também ser da Have a Nice Beer, o maior clube online de cervejas da América Latina, que está vindo para o Grupo.
Tudo isso em um texto que, apesar de sua catatonia, trai as novas prioridades do maior grupo de comunicação do sul do País. A palavra ‘jornalismo’ tem uma única citação, assim como ‘leitor’, enquanto fala três vezes em ‘digital’, duas em wine e outras três em ‘vinho’, ‘cerveja’ e beer. O trecho mais espantoso é o sétimo parágrafo, onde Duda, com a inclemência dos profetas, anuncia o apocalipse:
Teremos uma semana intensa pela frente, pois na quarta-feira faremos cerca de 130 demissões, de um universo de 6 mil pessoas, com o objetivo de buscar produtividade e maior eficiência. São cortes que precisam acontecer, principalmente na operação dos jornais. Não estou de forma alguma insensível ao impacto que demissões geram na vida das pessoas e da própria empresa, porém acredito que tanto os profissionais quanto as empresas precisam repensar o modo como atuam.
O MARINHO DO SUL

Traduzindo. Duda antecipou na segunda-feira, 4, as demissões que só nomearia na quarta-feira, 6, ignorando o velho brocardo do sábio florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527): “Quando fizer o bem, faça-o aos poucos. Quando for praticar o mal, faça-o de uma vez só”. O estabanado anúncio do principal executivo da RBS impôs durante 48 horas um clima de aflição sobre uma comunidade de 6,5 mil funcionários, angustiados pela desinformação sobre os nomes dos 130 iminentes demitidos.

O grau de angústia poderia ser imaginado em Brasília se a presidente Dilma Rousseff reunisse seus 39 ministros na segunda-feira para anunciar que, dois dias depois, 10 ou 15 deles seriam demitidos, sem anunciar ainda seus nomes. O espectro de crueldade que dominaria a Esplanada dos Ministérios, com certeza, pode ser comparado ao que vislumbraram os ‘caros colegas’ de Duda, que a revista Forbes coroou como “o Marinho do Sul”.

A ligação do clã Sirotsky com o clã Marinho está no DNA do grupo e explica seu sucesso. A TV Gaúcha — a primeira das 18 emissoras da RBS que hoje compõem a maior afiliada da Rede Globo no Brasil — foi inaugurada em Porto Alegre num dia quente de dezembro de 1962, quando o avô de Duda, Maurício Sirotsky, recebeu em festa o presidente João Goulart e o governador Leonel Brizola. No início, a parceria da Gaúcha era com a pequena TV Excelsior, até que Maurício deu em 1967 o pulo do gato, fazendo então o realinhamento empresarial mais saudável de sua vitoriosa carreira.

Maurício sintonizou sua emissora com os novos tempos da ditadura instaurada três anos antes e se alinhou aos generais que derrubaram o mesmo Jango que suava em bicas no estúdio da sua TV Gaúcha naquele tórrido verão porto-alegrense. A nova e refrescante parceria de Maurício passou a ser com Roberto Marinho, que um ano após o golpe de 1964 fundou a TV Globo, embrião do império global que nasceu e prosperou à sombra frondosa dos generais. Marinho arrastou para o alto a RBS, sua nova parceira sulista.

Antes e depois de 1964: Sirotsky com o último presidente … … e Marinho com o último general. Maurício, Jango e Brizola… … Maurício e Roberto… … Marinho e Figueiredo.
Fotos/Agência RBS  Foto/ O Globo
O jornalista Mino Carta costuma dizer que o Brasil é o único país do mundo em que jornalistas chamam seus patrões de ‘companheiros’. No caso do Duda da Rede Globo, ainda havia uma certa reverência, já que o ‘nosso companheiro’ Roberto Marinho era tratado por todos com a mesura de ‘Doutor Roberto’. No caso do ‘Marinho da RBS’, foram rompidos todos os paradigmas de protocolo. Ao contrário do avô e do tio, que não passavam do tratamento coloquial de Maurício e Nelson, o novo presidente-executivo da RBS chegou ao extremo do apelido familiar.

Assim, a ‘carta-bomba’ em tom apocalíptico e triunfal, que mistura demissões, vinho e cerveja, e prega “desapego para deixar de fazer coisas que não agregam” é assinada não pelo sóbrio ‘colega’ Eduardo Sirotsky Melzer, mas pelo íntimo Duda, com todo o seu jeito fofo de ser. Depois de dizer tudo aquilo, Duda encerra: “Vamos em frente!” O ‘Doutor Roberto’ — que andou de braços dados com o regime, desde o primeiro até o último general-presidente da ditadura, incluindo João Baptista Figueiredo — jamais permitiu que os ‘companheiros’ do império global chegassem a este exagero de fofura.

A desastrosa ‘carta-bomba’ de Duda, na primeira segunda-feira de agosto, foi antecedida algumas horas antes por outras derrapadas na vídeoconferência de quase uma hora. O presidente-executivo chegou a responder perguntas anônimas, com os resultados previsíveis. Uma delas indagava porque a comida nos restaurantes da casa era “ruim e fria”, arrancando gargalhadas em meio à tensão. O nervosismo de Duda era tal que chegou a reclamar de boatos, queixando-se dos rumores sobre a RBS na chamada ‘rádio corredor’, que ganha uma enorme audiência nos momentos mais nervosos da crise. “Boataria não monetiza nada”, chiou Duda diante dos caros colegas que o assistiam e que não entendiam como converter um rumor em moeda.

O RUMOR PELO TERROR

A questão central é que não se tratava de boatos, mas de fatos. Na sexta-feira 6, quatro dias após o destrambelhado anúncio de Duda, o jornal JÁ ouviu jornalistas da RBS e descobriu que o drama das demissões em massa, algo inaudito na casa, poderia ser ainda maior. As primeiras conclusões da equipe de Galeazzi Mãos de Tesoura recomendavam já uma tesourada de 250 empregos, mas o corte ficou adiado por conta das eleições de outubro, que demandam mão de obra. Assim, a aflição de 48 horas em agosto para identificar os 130 funcionários executados agora vai se estender até outubro ou novembro por conta dos futuros 120 demitidos, que ninguém ainda sabe quem são, replicando o clima de terror que paira sobre os 6,5 mil funcionários da RBS.

O cruel ‘desapego para deixar de fazer coisas que não agregam’, como definiu Duda em sua ‘carta-bomba’, bateu no lombo de 40 jornalistas, que somavam mais de 30% desta primeira fornada de trabalhadores ‘desapegados’ à força de seus empregos. A revelação do forçou uma reunião inesperada de dois executivos da RBS com a redação de Zero Hora ainda na sexta-feira. Eduardo Smith, vice-presidente de Jornais, Rádios e Digital, e Marta Gleich, diretora de Jornais, negaram novas demissões em novembro. E justificaram o anúncio antecipado em 48 horas das demissões como uma decisão do próprio Duda em nome da ‘transparência’ para combater os boatos da ‘rádio corredor’.
Resumindo: para anular o rumor, o ‘caro colega’ Duda optou pelo terror.

Além das pessoas, a RBS mostra desapego também pela estrutura. Na tesourada geral decidiu-se pelo fechamento das sucursais de Zero Hora no interior do Estado, onde o jornal tinha presença nas principais cidades, como Caxias do Sul, Pelotas, Santa Maria, Novo Hamburgo, Santa Rosa. Em outras, como Santana do Livramento, Bagé, Rio Grande, Santo Ângelo, Passo Fundo, Uruguaiana e Santa Cruz, a cobertura cabia a repórteres free-lancer. Só no interior, a RBS mantinha 691 empregos, conforme um relatório da empresa de 2012. Toda essa presença, que fazia uma ligação direta de ZH com diferentes públicos em regiões variadas, virou pó.

O maior jornal do Rio Grande pretende agora cobrir os dramas e demandas de 11 milhões de gaúchos espalhados por 496 municípios de 35 microregiões a partir de um único centro: a redação refrigerada da sede de ZH, na avenida Ipiranga, em Porto Alegre. Passa a ser um jornal estadual que se apequena e se exila no conforto da capital do Estado. É, como diz Duda no seu palavreado de executivo moderno, outro paradigma rompido, outra barreira quebrada para “colocar a RBS cada vez mais no grupo das empresas vencedoras, daquelas empresas que constroem oportunidades de mercado para se posicionar e conquistar a liderança”. Não é fofo?

A tesourada de agosto, mês de desgosto, centrou fogo no time de executivos, funcionários que, além dos altos salários, acumulavam bônus de rendimento ou gratificações que chegavam a 5 ou 10 salários extras no ano. Como a ideia é fazer caixa, desapegaram os jornalistas caixa-alta. Por esse critério, foram demitidos os comandantes de dois jornais importantes em Porto Alegre e Florianópolis — o editor-chefe Alexandre Bach (Diário Gaúcho) e o diretor de redação Ricardo Stefanelli (Diário Catarinense). Em Brasília, sua sucursal mais importante, pela qual Duda ainda mantém certo apego, foram tesourados os dois executivos mais caros: o vice-presidente Alexandre Kruel Jobim, filho do ex-ministro Nelson Jobim, e Klécio Santos, editor-chefe da RBS na capital federal. Para ocupar o lugar da dupla, Duda removeu para Brasília o jornalista Marcelo Rech, economizando para a empresa o seu alto posto de diretor de Jornalismo da RBS em Porto Alegre, que deverá ficar vago.

TESOURA E TESOURINHA

Os cortes só não foram maiores na base dos jornais, as redações, porque os salários já são comprimidos. Cerca de 3.400 funcionários, mais da metade do efetivo de 6,5 mil da RBS, ganham menos de três salários mínimos (hoje, R$ 2.172), conforme o balanço de 2012. É a faixa salarial de boa parte dos dois jornais da capital, ZH e Diário Gaúcho — este viu sua redação reduzida agora de 20 para 12 jornalistas. Apenas 375 funcionários ganham na faixa de 10 a 20 SM( entre R$ 7,2 mil e R$ 14,5 mil). A elite executiva da RBS, onde a tesoura de Galeazzi tem mais desapego, é formada por 128 funcionários que ganham mais de R$ 15 mil.

A aflição dos jornalistas nas redações da RBS aumenta quando cruzam, nos corredores, com uma jovem morena, de rosto redondo, cabelos pretos e sorriso doce, que nem todos conhecem pelo nome. É Telma Goulart, 42 anos, a tesourinha que Galeazzi levou de São Paulo para Porto Alegre como consultora encarregada de identificar e retalhar nos jornais da RBS os empregos pelos quais Duda têm menos apego. Graduada em Matemática pela USP e MBA em Gestão Estratégica, Telma foi uma eficaz gerente de análise de mercado do Grupo Folha/UOL por quase 19 anos. O fio agudo onde pisa Telma pode ser sentido pelo pensamento cortante de Galeazzi: “O erro é a contratação mal feita, que incha a empresa”.

O consultor é frio como a lâmina que usa para cortar custos, despesas e empregos na obsessão para salvar empresas pelo saneamento de suas contas: “Cortar é apenas uma parte da gestão. Não dá para cortar custos infinitamente. Mas, devem ser cortados sempre, como as unhas e os cabelos”. No conjunto, o currículo cabelereiro-empresarial de Galeazzi rima com sucesso, apesar da inevitável e descabelada sangria que provoca nos salões que contratatam seu gume e talento, ambos temidos e festejados.

Sorrisos de Galeazzi e Telma: tesoura e tesourinha
Foto/IstoÉDinheiro Foto/Linkedin
Em 2012, Pedro Grendene contratou Galeazzi para acertar o passo e calçar melhor o grupo Vulcabrás/Azaleia, que faturou no ano R$ 1,1 bilhão, mas devia outro R$ 1 bilhão. O consultor chegou afiado em julho e, até dezembro, 12 fábricas tinham sido fechadas na Bahia, produzindo 13 mil demissões. A tesourada incluía os 800 trabalhadores da fábrica de Parobé, a cidade gaúcha onde nasceu a Azaleia. Galeazzi nunca se assume com um serial killer de empregos, mas como um executivo devotado ao mantra sagrado da reestruturação. Ele ensina: “O reestruturador precisa ser tático e ter um horizonte de até dois anos para empreender as mudanças necessárias”. É o tempo que Galeazzi terá, até 2015, para ‘reestruturar’ a RBS.

Em meados dos anos 2000, o grupo de supermercados Pão de Açúcar, maior rede varejista do país, estava perdendo a corrida para o concorrente que viera dos Estados Unidos, a rede Walmart. Abílio Diniz, dono do grupo, achou que essa era uma missão para Galeazzi Mãos de Tesoura. O consultor ganhou o crachá de presidente, em dezembro de 2007, e virou a empresa de 150 mil funcionários pelo avesso. Mudou a disposição dos produtos nas gôndolas das 1.800 lojas no País, trocou o mix de itens vendidos e suspendeu a agressiva política de descontos da empresa. Em poucos meses, demitiu 20 diretores e 300 empregados.

Entre janeiro e setembro de 2009, o amargo prejuízo do Pão de Açúcar se converteu num doce lucro de 162% em relação ao período do ano anterior. A tesoura é de Galeazzi, mas quem dá a tesourada é sempre o pessoal doméstico, lembrou ele em 2012 à repórter Vivian Soares, do Valor Econômico. “Os executivos da casa conhecem a empresa, sabem o que fazer e são parte ativa na reestruturação. Muitas vezes só faltava o pontapé inicial”, disse, lembrando do aviso que deu aos executivos do Pão de Açúcar quando assumiu a presidência: “Quem vai trabalhar aqui são vocês, e vão trabalhar como nunca. E o pior é que quem vai levar o crédito sou eu”.

CAINDO NA TABELA

No caso da RBS, isso quer dizer que Galeazzi como de hábito traz a tesoura e leva o ‘crédito’, mas a tesourada, insinua ele, será sempre de Duda e dos executivos sobreviventes da RBS. Apesar de Duda tentar exalar perfume em sua ‘carta-bomba’, negando a crise, os números contam outra realidade. Em 2008, o caixa da RBS ganhou um sopro com a venda de 12,64% do capital à Gávea, o banco de investimento de Armínio Fraga, presidente do Banco Central no Governo FHC e anunciado como futuro ministro da Fazenda de um (muito) hipotético Governo Aécio Neves. A ponte entre o banqueiro e a família Sirotsky foi construída pelo então vice-presidente executivo da RBS, Pedro Parente, ministro do Planejamento e colega de Armínio no Governo FHC.

Na versão oficial da RBS, os recursos da capitalização seriam utilizados não em jornais, mas em aquisições na área de internet e em conteúdos para telefonia móvel, expandindo as ações da RBS além das fronteiras do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Em 2007, a RBS renegociou o contrato com a Globo, liberando suas ações em novas mídias do Paraná para cima, desde que não fosse competir com o império global em mídias tradicionais — como jornais, rádios, TV e revistas.

Em 2010, por tabela, a RBS caiu na rede de um banco americano. O JP Morgan, que gere ativos de US$ 12 bilhões, comprou por US$ 800 milhões uma fatia de 55% do capital e o controle da Gávea, que administra outros US$ 7 bilhões, incluindo no pacote o passe de Armínio Fraga por cinco anos. É a conta exata para se liberar em 2015 e assumir a pasta da Fazenda na hipótese cada vez mais remota da vitória de Aécio na corrida presidencial. No bolo está o pedaço de capital da RBS comprado pela Gávea e sócia, agora, da Highbridge, segunda maior gestora de fundos do mundo. O Morgan é ainda o principal acionista da WPP, maior agência de publicidade do mundo, um gigante de 162 mil funcionários espalhados por 3 mil escritórios em 110 países do mundo. É bom a RBS abrir o olho!

A empresa, por sua alta visibilidade, está impregnada na memória dos gaúchos. Na tradicional pesquisa ‘Top of Mind’, realizada todo ano pela revista Amanhã, a RBS reafirma em 2014 sua presença como a terceira marca mais lembrada do Rio Grande, logo atrás do gigante siderúrgico Gerdau e da indústria de facas Tramontina. No diagnóstico financeiro, contudo, a RBS está mais debilitada. No levantamento das 500 maiores empresas da região sul, abrangendo Paraná, Santa Catarina e Rio Grande, divulgado na edição de agosto/setembro da revista, o grupo de Duda resvalou da posição 68 para 74, no comparativo de balanços entre 2012 e 2013. O campeão entre os 500 maiores continua sendo o Grupo Gerdau.

O segundo maior da lista é um gigante pouco citado de Concórdia, a cidade catarinense onde funciona a sede da BRF Brasil Foods, filhote gerado em 2012 pela fusão da Sadia com a Perdigão, marcas tradicionais de salsicha, frango, carne de porco e embutidos. Com 50 fábricas no Brasil, nove na Argentina e duas na Europa (Inglaterra e Holanda) e um exército de 110 mil funcionários, a pujante BRF morde quase 10% das exportações mundiais de aves e proteína animal. Em 2012 a BRF começou a construir uma fábrica no reino encantado de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, e fechou uma joint venture com a Dah Chong Hong Limited (DCH), que vende no varejo e no trepidante negócio de food services da China. E o que tem a ver toda essa salsicha com a RBS?

Simples. Ele mesmo, Galeazzi Mãos de Tesoura. Preocupada em ampliar os limites de seu vôo de galinha, a BRF entregou a presidência do grupo a Cláudio Galeazzi em agosto de 2013, um mês após o consultor fechar sua parceria com a RBS. Ele chegou exibindo o velho estilo, anunciando implacáveis tesouradas em granjas, florestas e prédios não administrativos, cortes anunciados como meros ‘desinvestimentos’ na amena novilíngua dos modernos ‘reestruturadores’ como Mãos de Tesoura.

“Desinvestimento vai ser considerado, sim”, anunciou Galeazzi na posse como presidente, sem negar o vôo transatlântico de longo curso que imagina para seus frangos congelados: “A BRF será a Ambev dos alimentos”, diz, sonhando com a cervejaria que se tornou a maior empresa da América Latina, com valor de mercado de US$ 120 bilhões — maior do que o da Petrobrás —, e que tem como principal acionista Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil, com uma fortuna estimada em R$ 49, 8 bilhões, segundo a revista Forbes.

Em agosto passado, a BRF anunciou a compra por US$ 160 milhoes de 75% da Alyasra Food Company, que distribui seus alimentos congelados no Kuwait. Galeazzi, fiel ao seu ‘horizonte tático’ de dois anos para chegar, tesourar e concluir o serviço, assumiu a BRF em agosto de 2013 e já anunciou que sai da presidência em dezembro próximo. Terá mais tempo, então, para voltar os olhos e afiar o gume na RBS, para desconsolo de muitos. No ranking das 100 maiores empresas do Rio Grande do Sul, segundo a revista Amanhã, a involução da RBS também chama a atenção. De 2012 a 2013, o império dos Sirotsky caiu da posição 24 para 27, numa lista liderada pela Gerdau, como sempre, e pelo Banrisul. A receita bruta do líder de aço (R$ 45,7 bilhões) é quase 45 vezes maior do que o do grupo de mídia (R$ 1,3 bi).

Na sua avaliação sobre o balanço da RBS, a Amanhã registra que, em 2013, “a empresa teve um aumento de apenas 1,3% na receita bruta. Já o lucro foi de R$ 75 milhões, o que equivale a 5,9% da receita líquida — um índice modesto”. A analista Luísa Vilhena, da agência de risco Standard & Poor’s, explicou para a revista a raiz das dificuldades da RBS. “O grupo tem um perfil de liderança na região. Por outro lado, acaba exposto a uma volatilidade maior do que se estivesse no país inteiro”.

O engessamento imposto pelo draconiano contrato com o Grupo Globo limita a expansão nacional da RBS, confinada à fronteira de Santa Catarina com o Paraná. Isso explica os novos negócios que começam a mudar o perfil de uma empresa que há meio século nasceu pelo jornalismo e hoje tateia por nichos inovadores e rentáveis de mercado, que têm de tudo — menos jornalismo.

TURBILHÃO DIGITAL

A crise mundial dos jornais explica e justifica esta ousada ‘quebra de paradigmas’ da RBS, que ainda parece um tanto envergonhada pela opção atual de um grupo que começou oferecendo notícias em TV, rádio e jornais e hoje vende vinho e cerveja. Na década de 1990, quando circulava aos domingos com 1 milhão de exemplares, a Folha de S.Paulo se gabava de ser “o 3º maior jornal do Ocidente”.

Hoje, o jornal da família Frias é o segundo do país, reduzido a um terço das glórias do passado, com tiragem média de 294 mil exemplares. Vem atrás do campeão, o SuperNotícia, um jornal de 25 centavos consumido pelas classes C e D de Belo Horizonte, atraídas pelas ofertas de panelas e faqueiros e pelas manchetes de futebol e atrocidades policiais, além das fotos com belas mulheres seminuas na primeira página. O campeão dos jornais brasileiros, apesar de todo esse chamariz, vende só 302 mil exemplares, segundo o IVC.

Neste ranking desconcertante, a Zero Hora é hoje apenas o sexto maior jornal do país, com tiragem de 183 mil exemplares diários, em média. O oitavo é o jornal popular do grupo, o Diário Gaúcho, com 159 mil, seguido por outro gaúcho, o concorrente Correio do Povo, com 140 mil. Em um país de 200 milhões de habitantes, a média diária de jornais pagos chegou a 8,4 milhões de exemplares/dia — uma queda de 3,7% em relação ao ano anterior, a maior desde o início da década, quando as vendas despencaram 9,1% em 2002.

Pouco a pouco, o IVC constata uma inversão preocupante no perfil de venda dos jornais diários. Em 2002, 58,7% da circulação vinha das assinaturas, como reflexo do nível de confiança e fidelidade do leitor, e 41,3% ficavam por conta da venda avulsa e sempre volúvel nas bancas. No ano passado, as bancas responderam por 48,7% das vendas, enquanto as assinaturas despencaram para 51,3%, traindo o desinteresse maior do público pela mídia de papel.

O negócio dos jornais impressos, como já perceberam os Sirotsky, está sendo avassalado pela mídia digital, exatamente o meio onde a RBS aposta cada vez mais, raramente por elevadas razões jornalísticas. Em janeiro de 2005, pela medição do Ibope Nielsen, a leitura on line de jornais registrava 4 milhões de visitas únicas por mês. Em janeiro de 2013, a audiência era quase seis vezes maior, 24 milhões de visitas mensais de gente que provavelmente trocou o papel pela tela brilhante e limpa de seus dispositivos eletrônicos. A indústria jornalística precisa conviver com a migração crescente dos jornais tradicionais para a mídia eletrônica. A primeira década do Século 21, conforme um alerta da Associação Nacional de Jornais (ANJ), citando um levantamento do Ibope Mídia, indica que o leitor estava, para aflição de Duda Sirotsky, num crescente processo de desapego aos jornais.

Em 2002, o brasileiro dedicava 41 minutos de seu dia à leitura de jornais. Dez anos depois esse número havia caído para 35 minutos, 85% do tempo original. Em compensação, quem gastava 139 minutos (duas horas e 19 minutos) diários com a navegação na internet, em 2002, elevou esse tempo em mais de 23% em 2012, passando 170 minutos (quase três horas) diante de um teclado e uma tela.

A JOIA DA COROA

A RBS sentiu esta mudança na carne, e procura mudar com ela. Basta comparar a área de atuação do grupo, hoje, para perceber a transformação. O núcleo de jornais, capitaneado por Zero Hora, tem oito unidades, metade deles em Santa Catarina. O núcleo de TV, com 18 emissoras, atinge 789 municípios gaúchos e catarinenses e um público consumidor de 16,7 milhões de telespectadores. Mas, pelo tacão implacável da Globo, só pode dispor de 15% da grade local de programação, mesmo sendo a maior rede regional do império Marinho. O grupo de rádio, que inclui a Gaúcha, embrião da RBS desde 1957, tem oito emissoras.

No conjunto de mídia tradicional, que abrange jornais, rádio e TV, são 34 unidades na RBS. Mas, a joia da coroa, que concentra hoje as esperanças maiores de Duda e da família Sirotsky, é o grupo de inovação alojado no e.Bricks Digital, com 10 unidades, e no setor vagamente definido como ‘Outros Negócios”, com nove empreendimentos. De jornalismo, esta joia não tem nada. São 19 apostas no faturamento, nas vendas, nos resultados e no comércio escancarado por oportunidades inventadas pelo universo cibernético e aceleradas pela tecnologia. São simplesmente apostas para ganhar dinheiro, não credibilidade.

Vendem coisas, não ideias. Entregam mercadorias, não reflexão. Estabelecem as volúveis relações de uma empresa com seus consumidores, não os laços de fidelidade de uma empresa jornalística com seus leitores. Esta é a velha RBS da comunicação, aquela é a novíssima RBS, uma outra RBS, ainda indefinida. Esta partição empresarial é que define com mais clareza a quebra de paradigmas que Duda anunciou aos ‘caros colegas’ no início de agosto, na primeira tesourada.

Na saudável busca pela excelência e alto desempenho, a RBS investe pesado na formação de seus quadros, daqueles que eventualmente sobrevivam ao Galeazzi Mãos de Tesoura. Mais da metade de seus funcionários passou pela universidade: 33% são formados, outros 21% tem o curso superior incompleto.

Boa parte deles está na e.Bricks, pilotada por um jovem impetuoso de 41 anos, Fábio Bruggioni, ex-vice-presidente da Telefônica na área de internet e banda larga. No barco digital da RBS, Bruggioni vai inflar as velas para aproveitar os bons ventos de um mar de faturamento estimado em R$ 66 bilhões até 2015. “Trata-se de um mercado recente e com altíssimo potencial de crescimento”, diz Bruggioni.

Fábio Bruggioni e a joia da coroa da RBS: vinho, cerveja, oba-oba e nada de jornalismo

O AMIGO DICIONÁRIO

A e.Bricks de Bruggioni, empresa da área digital com sede em São Paulo, é que define e resume o novo espírito de uma RBS transformada pelo futuro dos ‘novos negócios’. Só na compra de participação em oito empresas de internet, a e.Bricks já investiu R$ 300 milhões. No mundo febril dos novos nichos inventados por executivos cada vez mais criativos, é útil ter um dicionário ao lado, para quem não é íntimo do inglês. A definição bilíngue da e.Bricks, segundo o Relatório de Sustentabilidade 2012 da RBS, é esta: “Realiza investimentos em empresas growth stage e possui um fundo dedicado a startups iniciantes, early stage”. Não entendeu? É melhor recorrer ao dicionário…

A empresa aposta suas bitcoins (a criptomoeda que só existe no mundo virtual) em companhias brasileiras, inovadoras, com foco em três setores: e-commerce segmentado, mobile (que alguns brasileiros conhecem como celular…) e mídia digital e tecnologia. O portfolio da e.Bricks é feérico. A Pontomobi faz marketing para audiências on line através de dispositivos móveis. Entre eles, a Lembreto, a PlayMe (aplicativos de rádio em formato streaming e compatível com smartphones e tablets) e o TabStudio (para publicações digitais em aplicativos para iPad ou Android). A Hands é a rede de publicidade da Pontomobi e, segundo eles, ‘a maior Premium Mobile Ad Network da América Latina’. A Vitrinepix, ao que parece, imprime imagens, fotos e desenhos em camisetas e canecas. A Let’s é, dizem, “a primeira fast fashion on line do Brasil”, um site de moda que faz desfiles na sua tela. E promete: “Se você já é comprador on line vai adorar comprar com a gente. Se não é, vai virar fã de carteirinha.” A nova RBS caça compradores e fãs de carteirinha…

A Wine, como Duda anunciou à multidão aflita da RBS no dia da tesoura, é a maior webstore de vinhos on line do mundo, com um inebriante crescimento anual de 70%. Oferece mais de 2 mil rótulos de vinhos premium e integra o ClubeW, com mais de 13 mil sócios. Os ‘caros colegas’ da RBS têm, agora, o privilégio de afogar as mágoas se associando também ao Have a Nice Beer, o maior clube on line de cervejas da América Latina, que todo mês seleciona dois dos rótulos mais relevantes do mundo, entregando de quatro a oito garrafas na casa dos associados, em até 72 horas, em 300 cidades do Brasil. Não é o máximo?

A Hi-Mídia é “a maior rede de sites verticais” do país, dedicada ao ‘e-mail marketing’ para agências e anunciantes. A Hagah mira os 82 milhões de internautas que fazem, em média, 50 buscas por mês na rede, conectando 3,5 milhões de pessoas, listando 1 milhão de estabelecimentos no sul do país. O Oba-Oba mapeia casas noturnas, motéis e boates, localiza festas de baladas e dá dicas sobre locais de ‘pegação’. O Predicta atua na área de análise de publicidade e foi apontada pela Fast Company, em 2012, como “uma das 10 empresas mais inovadoras do Brasil”. O terceiro colocado da lista foi o Grupo EBX, do trepidante empresário Eike Batista, que no ano seguinte daria o maior calote de uma empresa na América Latina, deixando de honrar uma dívida de US$ 3,6 bilhões da petroleira OGX, que encolheu sua fortuna pessoal em US$ 30 bilhões num prazo galopante de 18 meses.

No vasto mundo dos “Outros Negócios” da nova RBS, cabe de tudo. As nove unidades abrangem eventos, educação, empregos, compra e venda de carros e imóveis, entrega de encomendas e serviços gráficos, atividades rentáveis que prescindem de qualquer jornalista. É um sortido, vasto balaio de tudo aquilo que, ao contrário do jornalismo, gera receita, faturamento e lucros, nos termos definidos pela ‘carta-bomba’ de Duda: “Estamos investindo e redesenhando a nossa operação, buscando velocidade e desprendimento que são vitais para a preservação do nosso projeto empresarial”.

PARADIGMAS, SEM JORNALISTAS

Com o ‘desapego para deixar de fazer coisas que não agregam’, como diz Duda, os ‘outros negócios’ da RBS vão fazer coisas que agregam rendas insuspeitadas para uma empresa antes identificada só pela comunicação e pelo jornalismo. A nova RBS, nesse campo inovador, só tem apego por coisas que agregam. A HSM Brasil, por exemplo, vai realizar cursos de educação executiva de alto padrão. A Engage, especializada em eventos, promoveu cerca de 200 espetáculos e encontros de negócios, entretenimento e esportes em solo gaúcho e catarinense. O mais triunfal deles foi o show do beatle Paulo McCartney para 50 mil pessoas no estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, em novembro de 2010. Apesar do sucesso, a crise abafou o clima de festa na Engage: os 40 funcionários caíram pela metade, os eventos sumiram e o desânimo geral alimenta os boatos de que a empresa apagou os holofotes e fechou as portas.

A Vialog surgiu há 15 anos, pelo natural desafio de entregar a Zero Hora em casa aos seus assinantes. Alguém mais esperto na RBS descobriu que, junto com os jornais, os caminhões da empresa podiam levar outras mercadorias, reforçando o caixa. A Vialog virou uma outra coisa que agrega, hoje cobrindo todos os municípios dos três Estados do sul do País, com 42 centros de distribuição para a entrega simultânea de de 600 mil mercadorias por dia. O jornal que um dia gerou a Vialog virou um detalhe na rotina burocrática da nova Videolog que, entre tantas outras coisas que agregam mais, também carrega a Zero Hora.

A RBS, que antes imprimia só os seus jornais, agora roda outros mais de muitos outros, agregando coisas pela UMA, a gráfica que em 2007 introduziu a empresa no rico filão da indústria da impressão, suprindo seus clientes em seis parques gráficos espalhados por Porto Alegre, Caxias do Sul, Cruz Alta, Florianópolis, Joinville e Blumenaus, de onde saem folders, folhetos, revistas e tablóides.

O rico filão de ‘outros negócios’ da RBS: um balaio de serviços que dispensam jornalistas
No agitado universo da economia, excitado pelo uso intensivo de tecnologia cada vez mais desafiadora, é natural que empresas inovadoras busquem outros mercados, novas oportunidades para diversificar e crescer. É o que acontece com a RBS. O que preocupa, contudo, é a essência dessa transformação no maior grupo de comunicação do sul do país. Não são apenas os números fartos da RBS que mostram que a divisão centrada no jornalismo gera despesas e pouca receita e o núcleo dos novos nichos de negócios não-jornalísticos produzem lucros com baixos custos. A quebra de paradigmas proposta por Duda para a nova RBS está expressa no perfil dos jovens executivos, como ele, responsáveis pelo futuro do grupo — e quase nenhum deles mostra, no currículo, um envolvimento direto com o jornalismo.

De praxe, são homens e mulheres de alta qualificação, com formação em centros de excelência universitária no exterior e passagens de sucesso em algumas das grifes mais importantes do exigente mundo digital, onde a RBS não tem fronteiras nem limites. “Na área digital não temos limitações geográficas para investir”, lembrou em dezembro passado o tio de Duda, Nelson Sirotsky, hoje presidente do Conselho de Administração do grupo, falando na reunião-almoço ‘Tá na Mesa’, promovida pela Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (FEDERASUL). Como retransmissora da Globo nos dois Estados do extremo sul, a ambição jornalística da RBS acaba na fronteira com o Paraná. “Não podemos entrar e competir com outras afiliadas da Globo em outros estados”, explica Sirotsky.

Esta frustração ele não tem, porém, no campo digital. A RBS morde o calcanhar até de gigantes do setor para mostrar sua volúpia de expansão.

Em janeiro de 2013, a RBS repatriou um gaúcho que morava na Suíça, Nelson Mattos, que lá exercia o cargo de vice-presidente de Produtos e Engenharia para Europa e Mercados Emergentes da Google. É apenas o endereço digital mais visitado do mundo, operando um milhão de servidores conectados pelo mundo, processando por dia 1 bilhão de pesquisas e gerando 20 petabytes de dados diários – ou 20 quatrilhões de bytes, unidade de informação que corresponde a um número binário de oito algarismos. Mattos agora integra o Conselho de Administração da RBS, com 11 membros eleitos, seis deles acionistas, cinco independentes — nenhum deles jornalista –, sob a presidência de Nelson Sirotsky. Além de Mattos, os dois novos conselheiros indepedentes são Israel Vainboim, ex-chairman do Unibanco, e Régis Drubule, presidente da Tok-Stok.

LECCA-LECCA E CHUPA-CHUPS

Na Diretoria Executiva da RBS, presidida por Duda, existem oito cadeiras e só duas cabem a diretores egressos do jornalismo: Anik Suzuki, da Comunicação Corporativa, e Marcelo Rech, executivo de Jornalismo. Dos outros seis diretores que gerem a RBS, popularmente conhecida pela Zero Hora e pela RBS TV, ninguém tem origem ou passagens por redações, o que é uma grave disfunção. O diretor-geral de Televisão, Antonio Tigre, é analista de sistemas e especialista em finanças. O vice-presidente de Finanças, Cláudio Toigo, é formado em administração de empresas pela UFRGS, com pós-graduação da PUC gaúcha em finanças.

O vice-presidente de Pessoas e Tecnologia, Deli Matsuo, é formado em engenharia elétrica e tecnologia de informação e tem MBA em administração de empresas. É outro que a RBS foi buscar no Google, onde atuou como diretor de recursos humanos para a América Latina. O vice-presidente de Jornais, Rádios e Digital, Eduardo Smith, é formado em ciências da computação pela UFRGS e pós- graduado em administração de empresas e finanças pela PUC gaúcha. O executivo-chefe da e.Bricks, Fábio Bruggioni, é administrador de empresas com especialização em marketing. A diretora-executiva de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios, Luciana Antonini Ribeiro, é advogada formada pela UFRGS, com mestrado em direito comercial pela USP.

As duas únicas exceções nesta diretoria superpovoada por executivos estranhos ao jornalismo ficam por conta da diretora de Marketing e Comunicação, Anik Suzuki, e ao diretor de Jornalismo da RBS, Marcelo Rech. Ela, como seria natural num grupo jornalístico, foi repórter e editora de jornais e revistas, formada em jornalismo pela PUC. Ele, formado em jornalismo pela UFRGS, foi repórter de Zero Hora com experiência internacional e, a partir de 1997, atuou como diretor de redação do jornal por 11 anos.

Ambos, Anik e Marcelo, têm mais intimidade e contato direto com o jornalismo do que o chefe de todos eles, o presidente da diretoria-executiva, Eduardo Sirotsky Melzer, o popular Duda. Ele cursava administração de empresas na PUC, em Porto Alegre, quando viu, aos 20 anos, a ousada quebra de barreira aos importados executado pelo Governo Collor.

Duda aproveitou a onda e trouxe para a capital gaúcha a primeira loja no Brasil da Sweet Sweet Way, uma franquia que importava balas, bombons, trufas, doces e caramelos. Ou os coloridos lecca-lecca e chupa-chups, como se diz pirulito na elegante loja de Milão, Itália. A experiência com pirulitos teve um forte impacto sobre ele, como confessou ao site Coletiva.net, em novembro de 2006:

“Era um negócio diferente. O sujeito entrava na loja, escolhia as balas e pesava. Comecei não só a ter as minhas lojas, mas a franquear para o Brasil também. Foi uma responsabilidade bárbara, tinha quatro lojas próprias, 50 funcionários e um monte de franqueados. Assumi uma responsabilidade muito à frente do meu tempo”, disse, sem modéstia.

Duda Sirotsky e a ‘missão muito à frente de seu tempo’: vender os pirulitos lecca-lecca e chupa-chups
Foto/ Andréa Graiz -RBS
À revista da PUC, Duda lembrou dessa doce influência sobre seu futuro como principal executivo da RBS: “Foi bárbaro. Eu era impactado por todos os aspectos de uma empresa: relação com o cliente, funcionários, produto, fornecedor e governo. Numa escala pequena, mas muito completa. A mistura dessa experiencia com a formação academica foi relevante”.

Na entrevista concedida em novembro de 2012, cinco meses após receber o bastão de mando do tio Nelson, em nenhum momento Duda lembrou de relacionar, entre os seus particulares aspectos de impacto, as palavras-chave que seriam naturais no principal executivo da segunda maior rede de comunicação do país: leitor, informação, jornalismo, conteúdo, história, credibilidade… É desconcertante ler que o Duda da RBS, ainda hoje, sucumbe às delícias mercantis vividas pelo Duda da Sweet Sweet Way, entoando sua ideia fixa de ‘cliente, produto, fornecedor’, mais comuns no dialeto de mascates e vendedores do que na linguagem dos empresários da comunicação seriamente comprometidos com o valor social e ético da informação.

MARCO DO PENSAMENTO

Nem o pai, Carlos Melzer, do alto de sua experiência de três décadas na RBS, deslumbrou-se com o sucesso da franquia. Quando Duda completou o curso na PUC, chamou o filho e lhe tirou o pirulito: “Parabéns, mas não perca a perspectiva das coisas. Não sei se tu te enxergas como empresário de balas para o resto da vida. Tu deves ter outras ambições…”, alertou Melzer.

A frase amarga do pai fez Duda largar os doces. Vendeu o negócio da franquia e mudou-se em 1998 para Boston, nos Estados Unidos, para o inevitável curso de MBA em Harvard. Lá, diz ele, conviveu com alguns dos mais importantes gurus de gestão e colegas de vários países e de todo tipo de empresa, onde aprendeu a formular esta frase lapidar, que corre o sério risco de se transformar num marco histórico do pensamento da comunicação mundial. “A variedade de abordagens me deu uma visao aprofundada sobre as mudanças que estão sempre em curso”, filosofou na revista da PUC.

Concluído o MBA de Boston em 2002, aos 30 anos, Duda decidiu permanecer nos Estados Unidos. Após o impacto do pirulito, chegara a hora de sentir as emoções da Big Apple. Mudou-se para Nova York e adorou, disse ao Coletiva.net: “Foi complementar, em todos os aspectos, ao meu MBA. Nova York é um centro nervoso do mundo. Por mais coisas que eu estivesse fazendo, sempre sentia que estava deixando de fazer outras. Foi uma aula de gestão de prioridades”, brincou Duda.

Lá, ele treinou na área financeira de um banco de investimentos, o Delphi Corporation, e teve sua primeira, remota experiência de comunicação como diretor-geral da Box Top Media, que ele define vagamente na revista da PUC como “uma empresa de mídia não tradicional” em Nova York. Na verdade, a Box Top Media, fundada em 2001, opera uma rede de publicidade que anuncia e promove produtos lácteos de vários fabricantes e varejistas nos Estados Unidos. Orienta o marketing de leite em recipientes para venda em casas e lojas. Ou seja, a Box Top de Duda lembra mais o negócio do pirulito do que a área de mídia hoje comandada pelo Duda da RBS…

Tradicional ou não, esse notável desempenho de Duda no exterior chamou a atenção do tio, Nelson Sirotsky, e do vice-presidente Pedro Parente, que decidiram dispor de seu talento e espírito empreendedor no Brasil. Duda voltou em 2004 para São Paulo, como diretor-geral da RBS para o Mercado Nacional. Quatro anos depois era o vice-presidente de Mercado e Desenvolvimento de Negócios, chegando em 2010 ao posto de vice-presidente executivo.

Essa trajetória de sucesso tornou inevitável sua ascensão em 2012, aos 40 anos, ao posto de presidente-executivo, sucedendo o tio e marcando a chegada da terceira geração ao poder na RBS. Era uma linda e risonha história de sucesso, até o dia em que ela foi atravessada pela cortante aparição de Galeazzi Mãos de Tesoura. Foi o duro rito de passagem vivido por Duda, obrigado a quebrar paradigmas e a reconhecer aos ‘caros colegas’ que a vida, de fato, não é pirulito.

PERPÉTUA, DE PAI PARA FILHO

Ninguém supera a RBS no orgulho de ser declaradamente “uma empresa de controle familiar”, ao ponto de deixar isso expresso na definição que faz de Governança Corporativa em seus balanços públicos: “A governança da RBS é estruturada a partir da interação harmônica entre os três círculos: propriedade, empresa e família”. Duda sustenta a tradição: “Quero levar a RBS para uma próxima geração e perpetuá-la. Não estou pensando no faturamento de 2013, mas no de 2024, 2040, daí para frente”, garantiu à revista Forbes.

As quatro gerações do clã Sirotsky… …e Duda [no círculo e na presidência]: a RBS perpetuada
Fotos/ RBS
Perpetuação é uma palavra que permeia discursos, palestras e documentos do clã Sirotsky, que exibem orgulhosamente nas páginas oficiais as fotos das quatro gerações da família. Duda está lá. O conselho de família, composto por sete jovens do clã, não é um elemento decorativo na empresa. Ele se reúne uma vez por mês, sob a orientação do presidente-executivo Duda, e tem nobres propósitos:

“Conservar o legado da família Sirotsky, manter a unidade e assegurar o apoio das novas gerações da família proprietária na busca da perpetuação do Grupo RBS”, como explica o Relatório de Sustentatibilidade 2012, na página 16.Uma das reuniões do conselho de família, recorda Duda, foi realizada em Punta del Este, Uruguai, congregando em 2005 as quatro gerações para debater questões de grupo e realizar dinâmicas de integração. “Eu vi o meu filho de um ano correndo de mãos dadas com o meu tio Jaime. Isso foi emblemático, um momento mágico”, contou emocionado ao Coletiva.net.

O currículo alheio ao jornalismo da esmagadora maioria dos atuais dirigentes do grupo projeta uma dúvida preocupante sobre as prioridades e a essência da RBS como uma instituição dedicada preferencialmente à comunicação. No perfil da diretoria executiva, onde existem só dois jornalistas numa bancada de oito, fica latente o viés de técnicos de alta formação intelectual mais preocupados com crescimento e vendas do que de profissionais dedicados à informação e ao jornalismo.

Esta preocupação pode se reforçar com a escalação dos jovens Sirotsky do conselho de família. Dois dos sete são da 2ª geração, a mesma de Nelson, e os outros cinco são da 3ª, como Duda. O notável, no grupo de onde sairão os comandantes da futura RBS, é a perpetuação de um pensamento empresarial alheio ao jornalismo. Da geração de Nelson, Marcelo é empresário e Elaine, médica.

Da geração de Duda, Marina e Juana são psicólogas, Roberto é administrador e Pedro é universitário. A única e honrosa exceção identificada como jornalista é Tanise, a solitária repórter da 3ª geração.

Duas gerações para perpetuar a RBS: sete Sirotsky, um só jornalista

A COR DA PELE

Uma leitura atenta do Relatório de Sustentatibilidade 2012 do grupo mostra um detalhe intrigante da RBS: uma inusitada preocupação com raça, que evoca lembranças constrangedoras para os gaúchos — e sempre dolorosas para os Sirotsky e os judeus do mundo inteiro. No jogo do dia 28 de agosto do Grêmio contra o Santos, em Porto Alegre, torcedores gremistas fizeram com gestos e gritos ofensas racistas ao goleiro santista Aranha, chamado de ‘macaco’, entre outras agressões.

O clube gaúcho foi excluído da Copa do Brasil e os torcedores identificados foram banidos dos estádios por 720 dias. O jornal Zero Hora reagiu na edição de 3 de setembro com um editorial veemente — ‘O Rio Grande não é racista’ —, sustentando ser ‘simplista, desproporcional e injusto’ responsabilizar o Estado inteiro ou o Grêmio pelas injúrias de alguns torcedores.

O principal jornal da RBS escreveu:
O Grêmio tem uma imensa torcida e a maioria dos seus torcedores, assim como a maioria dos gaúchos, abomina o racismo, defende a diversidade e a convivência harmoniosa entre todos os seres humanos. Não poderia ser diferente num Estado multirracial, que se orgulha de abrigar imigrantes de variadas origens étnicas.[...]


Também a história contemporânea do Estado evidencia o equívoco da rotulação. O Rio Grande do Sul já teve como governador o negro Alceu Collares, eleito democraticamente com o voto da maioria absoluta dos gaúchos. Também é deste Estado a primeira Miss Brasil negra, a porto-alegrense Deise Nunes, eleita em 1986. O próprio Grêmio tem uma forte identificação com a população afrodescendente: a estrela solitária de sua bandeira homenageia o negro Everaldo, campeão do mundo em 1970; o hino do clube foi composto pelo negro Lupicínio Rodrigues e o clube mantém, desde o ano passado, uma campanha de conscientização denominada ‘Azul, Preto e Branco: o Grêmio é contra o racismo’.


O racismo é inadmissível. Todas as práticas racistas, expressas ou veladas, devem ser combatidas, condenadas e punidas na dimensão exata dos danos que causam às vítimas e à sociedade.
Apesar desse texto inspirador, uma nota de racismo nada velado da própria RBS foi revelado pelo blogueiro José Luiz Prévidi quatro dias após os vexames racistas na Arena do Grêmio. Um colunista de economia do jornal da RBS em Joinville, Santa Catarina, noticiou com santa naturalidade em outubro de 2013 que o perfil ideal dos trabalhadores procurados para ocupar 7 mil vagas nas empresas da cidade era “homem, branco, de 25 a 35 anos de idade”.

Não ocorreu ao jornalista Cláudio Loetz, que assina a coluna ‘Livre Mercado’, e nem ao jornal A Notícia, comprado pela RBS em 2006, combater e condenar a restrição racista tão bem chicoteada no editorial de Zero Hora.

O colunista do jornal da RBS em Joinville e o ‘perfil ideal’ para trabalhar na cidade: “homem, branco”.
Poderia ser uma derrapada pontual de um jornalista distraído num dia infeliz. Mas, o caso é mais grave. Para uma empresa inovadora e moderna como a RBS, é espantoso descobrir que o tema da raça transborda as colunas de seus jornais periféricos e se torna, de fato, um detalhe cruel de uma instituição que se gaba de ter construído em 2012, quando Duda chegou ao poder, um novo ‘Modelo de Gestão de Pessoas do Grupo RBS’.

No Relatório de Sustentatibilidade 2012, o mais recente editado pela RBS, o capítulo de ‘Indicadores de Recursos Humanos’ revela uma face insuspeitada da empresa. Ela demonstra uma estranha obsessão para classificar seus funcionários pelo pigmento de pele. Assim, na página 33, no gráfico que mostra o percentual de ‘Colaboradores por cor’, sabe-se que a empresa divide seu pessoal entre os Brancos e Negros ou pardos.

A diferença é espantosa: 96% dos que trabalham na RBS são brancos, o que representa 6.240 funcionários num universo de 6.500. Só 4%, ou 260, são negros ou pardos. Quando se fecha a lupa pelo critério da hieraquia, a situação é ainda mais aberrante. No gráfico da página 34 sobre ‘Cargos de gerência por cor’, o nível de alvura da RBS é avassalador: 99% dos gerentes de Duda são ‘brancos em cargos de gerência’, contra 1% de ‘negros ou pardos em cargos de gerência’. Em números absolutos, são 826 funcionários brancos contra apenas oito catalogados como negros ou pardos. A quem duvida, basta acessar o relatório no portal www.gruporbs.com.br.

A RBS e a obsessão pela cor da pele: brancos em massa na empresa, quase todos brancos nas gerências.  Fonte/ Relatório de Sustentabilidade 2012 – Grupo RBS, pg 33
A RBS e a obsessão pela cor da pele: brancos
em massa na empresa, quase todos brancos nas gerências.
 Fonte/ Relatório de Sustentabilidade 2012 – Grupo RBS, pg 33
Fonte/ Relatório de Sustentabilidade 2012 – Grupo RBS, pg 34
Fonte/ Relatório de Sustentabilidade 2012 – Grupo RBS, pg 34
Mesmo com esses índices inquietantes, a RBS insiste em proclamar ao mundo a excelência dos seus padrões de seleção dos ‘caros colegas’ de Duda, omitindo qualquer eventual restrição étnica. Diz o relatório:
Durante 2012, a RBS desenvolveu um sistema de recrutamento e seleção de classe mundial que auxilia a empresa a identificar, contratar e reter os melhores talentos. Foi estabelecido também um Núcleo de Inteligência, que passou a monitorar o mercado para identificar os polos que concentram e/ou formam profissionais de alta capacidade.
Mas as mudanças mais significativas aconteceram em relação ao processo de seleção dos candidatos.


Os gestores das áreas participaram, ao longo de 2012, de um total de 692 horas de workshops que detalharam as novidades — uma vez que desempenham papel preponderante na contratação de colaboradores para suas áreas. O processo seletivo passou a adotar um modelo de colegiado, em que cinco profissionais de diferentes área da RBS entrevistam cada candidato individualmente. Ao candidato atribuem-se notas referentes às suas habilidades cognitivas, à sua experiência profissional e ao seu alinhamento aos valores corporativos do Grupo RBS.


Em 2012, houve uma seleção para o programa de Trainees, que registrou 12,8 mil inscrições. No final do processo, sete talentos foram recrutados. Os jovens são preparados durante dois anos para, posteriormente, assumirem cargos de liderança na companha.
Infelizmente, os números do relatório indicam que negros ou pardos não sobreviveram à ‘seleção de classe mundial’ da RBS, nem passaram pelo crivo do Núcleo de Inteligência. Não se sabe, também, se entre os sete talentos recrutados pelo programa de Trainees existe algum negro — ou simplesmente pardo.

O BRANCO 100%

Estas observações poderiam parecer exageradas, mas o drama racial da RBS não acaba aqui. Na mesma página 34 do relatório, transcreve-se uma informação assombrosa, que se destaca por ser gratuita, deslocada e, essencialmente, ofensiva a 1,8 milhão de gaúchos. No quadro sobre ‘Indicadores de Remuneração’, estão distribuídas as sete faixas salariais que compõem o universo de funcionários da RBS. No pé do quadro, existem duas notas complementares, uma pertinente, outra inacreditavelmente impertinente.

A nota 2 diz que o item de 416 funcionários que percebem menos de um salário mínimo refere-se a trabalhadores com carga horária reduzida. Uma informação natural e útil. A nota 1, contudo, impressiona pela gratuidade, pela insensabilidade, simplesmente pela grossura. Diz a nota: “100% dos cargos de diretoria são ocupados por brancos”. Assim, no seco, sem nenhum nexo com o foco do quadro.

Por alguma razão, a RBS achou relevante explicitar que, na sua empresa, onde a supremacia branca é esmagadora, as dez cadeiras da diretoria executiva são totalmente, absolutamente brancas. É possível concluir, assim, que é estatísticamente nula a hipótese de um dia se ver algum negro, quem sabe um pardo, nas exclusivas poltronas de direção da RBS hoje solidamente ocupadas em 100% por brancos.

A brancura executiva na RBS: 100% de diretores absolutamente brancos, nada negros, nada pardos
A brancura executiva na RBS: 100% de diretores absolutamente brancos, nada negros, nada pardos
Num país como o Brasil, a ressalva da RBS, mais do que boçal, tem um tom triunfal difícil de entender pela estupidez que expressa. Pela primeira vez desde 1872, quando aconteceu a primeira pesquisa de população no país, o Censo de 2010 do IBGE mostrou que os negros já representam a maioria do povo brasileiro. Os negros somavam 50,7% (96,7 milhões de brasileiros) contra 47,7% (91 milhões) de brancos. O restante dos 190 milhões de 2010 eram representados por 1,1% (2 milhões) de amarelos e 0,4% (817 mil) de indígenas. A autoestima crescente dos negros explica porque, agora, eles mesmos proclamam, com orgulho, sua cor.

O Rio Grande do Sul, graças à forte imigração europeia, é o segundo Estado brasileiro com maior proporção de brancos — 83,2%, conforme o IBGE. Ainda assim não são 100%. Um dos senadores pelo Rio Grande do Sul, o negro Paulo Paim, saudou a lei estadual de 2012 que reserva vagas na esfera pública aos 16,13% (1 milhão 807 mil) de negros e pardos no Estado. Nesse número, com certeza, incluem-se os oito gerentes negros ou pardos que conseguiram ascender na carreira dentro da alva RBS.

A apoteótica, embora discreta, observação da RBS sobre a pureza racial de seus diretores ofende a história, a ciência e a verdade.

Na história, esqueceram que o judeu Josef Sirotsky chegou ao Rio Grande no início do Século 20 fugindo da repressão sofrida em sua terra, a Bessarábia, um enclave então espremido entre a Romênia e o Império Russo, às margens do Mar Negro. O velho Josef integrava o grupo de 34 famílias, cerca de 300 pessoas, que ocupou uma área de 5.700 hectares em Santa Maria, formando ali a Colônia Philippson, o primeiro assentamento judaico do Brasil.

Na nova terra, Josef, como os outros imigrantes, recebeu um lote de 30 hectares, duas juntas de boi, duas vacas, uma carroça, um cavalo, ferramentas e sementes. Ali, em 1920, Josef conheceu Rita, casou e teve com ela cinco filhos: Henrique, Isaac, Jayme, Samy e Maurício, o Sirotsky que começou a saga da RBS. Para um povo que sofreu a suprema ofensa da faxina racial do nazismo, responsável pelo holocausto de 6 milhões de pessoas na II Guerra Mundial, soa como um deboche a exaltação descarada por 100% de brancos no comando do império fundado pelo filho do velho Josef Sirotsky.

Na ciência, raça hoje identifica apenas cães, gatos e outros animais, não seres humanos. O avanço na genética e a evolução da antropologia aposentou o critério racial para definir os homens, sem qualquer relação com padrões biológicos. A cor da pele é tão importante ou irrelevante quanto o tipo de cabelo, a cor dos olhos, o tamanho do pé ou o formato do nariz. A cor da pele humana varia entre o quase preto (pela alta concentração do pigmento escuro, a melanina) e o quase sem cor (pelo tom rosado dos vasos sanguíneos sob a pele).

Até o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que já confessou ter “um pé na cozinha”, reconhece a herança maldita do escravismo. O darwinismo, para espanto dos ‘caros colegas’ de Duda, mostrou que somos todos negros ou filhos de negros. Há 1,2 milhão de anos, todas as pessoas tinham a pele escura, no berço ancestral da Mãe África onde nasceu a humanidade. O sol intenso reduzia a chance de sobrevivência das pessoas com pele mais clara. Ser negro era sobreviver. A pele escura impedia que o ácido fólico fosse destruído pelos raios solares.

Quando os seres humanos migraram da África para o Hemisfério Norte, onde o sol é menos intenso, a pele se tornou mais clara pelo mágico mecanismo da evolução para facilitar a absorção da luz solar, essencial para a produção de vitamina D.

A tola ressalva da RBS: os diretores-executivos não são 100% brancos... ... é só olhar as fotos de Matsuo e Suzuki
A tola ressalva da RBS: os diretores-executivos não são 100% brancos… … é só olhar as fotos de Matsuo e Suzuki
E na verdade, finalmente, a observação da RBS sobre os 100% de brancos da diretoria refletem um claro equívoco, constatado visualmente. Basta ler os nomes e sobrenomes dos 10 diretores, incluindo Duda, para comprovar a bobagem que escreveram. Pelo menos dois diretores não são brancos, muito menos negros ou pardos. Anik Suzuki, a diretora de Comunicação Corporativa, e Deli Matsuo, mostram na face e no sobrenome que são descendentes de japoneses — ou amarelos, pela classificação do IBGE.

Seria mais correto, assim, dizer que — ao invés de 100 % de cargos ocupados por brancos — 100% dos cargos de diretoria na RBS não são ocupados por negros ou pardos. A maioria ‘branca’ está ‘contaminada’ pela presença de dois descendentes orientais. Então, seriam no máximo 80% de brancos, ou supostos brancos. Essa é uma discussão boboca que os ‘caros colegas’ de Duda deveriam travar com o bom e velho Charles Darwin.

Todo esse desastroso conjunto de dados do relatório da RBS — que nunca discute o jornalismo e seus fundamentos — leva, enfim, a uma desanimadora conclusão: Galeazzi Mãos de Tesoura ainda tem muito serviço pela frente.


Luiz Cláudio Cunha, jornalista, foi repórter de Zero Hora em Porto Alegre, em 1970, e editor-chefe da sucursal da RBS em Brasília, em 1993. – cunha.luizclaudio@gmail.com
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