5 de set de 2014

A alma no mercado de votos


A semana chega ao fim sob o efeito das pesquisas de intenção de voto que fotografam o ponto de transição na disputa pela Presidência da República. Trata-se, como se dizia antigamente, de um instantâneo que congela o fluxo contínuo da História: no futuro bem próximo será possível esclarecer o peso de cada uma das múltiplas causas que irão definir o resultado das urnas. Por enquanto, o que se pode apreender do noticiário é que a velha política impôs suas regras até mesmo à candidata que se propunha a aposentá-la.

Nas edições de sexta-feira (5/9), os jornais oferecem um cardápio que vai de análises sobre detalhes das duas pesquisas mais recentes divulgadas pelo Ibope e o Datafolha a especulações sobre a capacidade da candidata Marina Silva, do PSB, de sustentar por mais quatro semanas o potencial de votos que amealhou desde o dia 15 de agosto.

Estamos a exatamente um mês do primeiro turno, e nessa reta final ela enfrenta o desafio de preservar os eleitores que conquistou, levando às urnas um verdadeiro saco de gatos, onde se misturam desde a militância ambientalista até saudosistas da ditadura.

Um ponto representativo dessa diversidade que compõe o eleitorado da ex-ministra do Meio Ambiente é resumido no manifesto divulgado pelo Clube Militar, reduto de generais e outros oficiais da reserva e origem de muitas crises institucionais no passado recente. O texto, intitulado “Pensamento do Clube Militar – Um fio de esperança”, aparece em resumo no Globo e pode ser lido na íntegra no site da instituição (ver aqui). Basicamente, afirma-se ali que a ex-ministra é “uma excelente candidata”, mas isso não significa que será, necessariamente, uma excelente presidente, segundo a expectativa dos militares aposentados.

O texto, assinado pelo general da reserva Clóvis Purper Bandeira, editor de opinião do Clube Militar, registra o fenômeno eleitoral e suas contradições, colocando em dúvida a capacidade da candidata de cumprir as promessas que vem fazendo. Para o porta-voz da entidade, Marina representa uma “esperança de mudança”. Ele observa, com cautela, que “as mudanças podem ser para melhor ou para pior, desde que interrompam a malfadada corruptocracia instalada no poder pelo lulopetismo” — afirma o manifesto, no tom que celebrizou certos colunistas da imprensa.

Risco calculado

O manifesto resume a circunstância em que se encontra a candidata do PSB em sua luta para arregimentar apoios à direita e à esquerda: “No governo, terá que descer das nuvens ‘sonháticas’ onde flutua e lutar na arena do dia a dia na Praça dos Três Poderes, enfrentando as feras insaciáveis que fazem as leis” — diz o texto. Talvez não haja, na mídia tradicional, uma síntese tão precisa do que Marina Silva representa na disputa eleitoral: “uma incógnita camaleônica”.

Quanto às preocupações específicas dos oficiais da reserva, a candidata do PSB já acenou com um gesto que agradou profundamente aos saudosistas da ditadura: em entrevista ao G1, portal da Globo, ela afirmou que não defende a revisão da Lei de Anistia e a responsabilização dos agentes civis e militares que cometeram assassinatos e torturas. O jornal carioca O Globo registra que, em 3 de novembro de 2008, na seção de Opinião da Folha de S. Paulo, ela havia escrito que “a tortura é crime hediondo, não é ato político nem contingência histórica. Não lhe cabe o manto da Lei de Anistia”.

Essa nova mudança vem se acrescentar ao seu movimento de aproximação com o agronegócio, ao recuo diante do desagrado de líderes religiosos à sua proposta de criminalização da homofobia, e ao projeto de política econômica que atende às demandas da mídia tradicional e aos setores mais conservadores da sociedade, até então abrigados na candidatura do PSDB.

Assim, de contradição em contradição, Marina Silva vai costurando uma rede de apoios oportunistas que renega, desmerece e avacalha o significado original daquela outra aliança, a Rede Sustentabilidade. Com essa tática, ela derrubou o candidato do PSDB e avançou nas fileiras do PT, seduzindo parte da nova classe de renda média. Mas é bem possível que, nessa busca desesperada por votos, Marina venha a perder a simpatia de antigos companheiros de militância que assinaram o manifesto de fundação da Rede (ver aqui).

A candidata do PSB não é hoje nem uma sombra do que foi a ativista Marina Silva.

As próximas pesquisas vão dizer se valeu a pena.

Luciano Martins Costa
No OI
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Racismo de superfície e de profundidade

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/

O que seria um racismo de profundidade em relação aos negros? Não sentar ao lado de um negro? Não aceitar o casamento de um filho com um negro? Não ter amigos negros? Considerar os negros como seres inferiores? Tenho a impressão, até a mesmo a convicção, de que a moça que levou o Grêmio a ser excluído da Copa do Brasil  não é racista dessa maneira. Teve um comportamento racista de superfície, caso essa expressão possa ter algum sentido sem encobrir ou justificar preconceitos hediondos. Gritou o que gritam, no embalo, pessoas que podem não se sentir racistas e até repudiar esse racismo, digamos, de profundidade. Mas será que o racismo de superfície praticado por indivíduos não é sintoma de um racismo de profundidade entranhado na sociedade e que vem à tona em manifestações aparentemente sem  maior importância ou praticadas, acima de tudo, para provocar um adversário num jogo, um rival, um inimigo virtual e simbólico na vertigem da paixão?

A moça da confusão, maior de idade, pode não ter tido intenções profundamente racistas, mas, ao proferir injúria racial, praticou um ato de teor racista de cuja inadequação deveria ter plena consciência. No popular, pisou na bola.

Acontece que mesmo esse racismo possivelmente de superfície fere em profundidade aquele a quem atinge.

O ser ofendido não pode se dar o luxo de passar a vida dizendo: é só uma brincadeira. Não foi por mal. Há muito mal, mesmo que não seja o mal absoluto do racismo de profundidade, nessas manifestações que atualizam a barbárie do preconceito.

Há mal nesses comportamentos que mostram possíveis contradições de pessoas: racistas num jogo de futebol, contra o racismo no resto do tempo. Será assim mesmo? Será possível uma fratura tão grande? Em algum grau, é  plausível.

Eu entendo os torcedores do Grêmio que dizem: acontece em todo lugar. Por que só o Grêmio foi punido?

Porque transbordou. O imaginário mudou. A sinalização estava clara.

Evidentemente que o Grêmio não é racista. Obviamente que a maioria da torcida do Grêmio não é racista. Mas, apesar dos alertas, o clube não tomou providências para coibir antes o racismo de superfície que emergia volta e meia.

Depois do jogo contra o Santos, o Grêmio agiu corretamente. Era tarde. Racionalizar não resolve.  Imaginar que há um complô nacional contra o Grêmio ou contra o Rio Grande do Sul é bobagem. Resumir às críticas ao ódio dos colorados é um exagero, embora colorados possam estar sendo hipócritas ou tirando uma casquinha. Há sempre um ponto de virada. O imaginário é uma infiltração que produz um novo acúmulo até resultar num transbordamento. Foi o que aconteceu. Se um dia foi “tolerado” usar a palavra macaco, se os torcedores do Internacional com humor incorporaram o termo, hoje não dá mais.

Outras expressões, como “negro fedido”, jamais deixaram de ser o que são: racismo.

O episódio com o goleiro santistas Aranha foi a famosa gota de água.

Era uma explosão anunciada.

Como costuma acontecer nesse tipo de mutação, não se quis enxergar o que estava vindo.

Preferiu-se simplificar em nome de uma falsa complexidade: todo mundo faz, quem não faz que atire a primeira pedra, é só brincadeira, não há intenção de fazer mal, sempre foi assim, faz parte do nosso jogo, não venham com hipocrisia, que chatice esse politicamente correto, parem com essa patrulha, ninguém tem moral para condenar, etc.

Esse álibi superficial sempre desconsiderou o sofrimento dos atingidos.

A conta chegou. Espera-se que seja realmente um ponto de partida e que chegue para todos que praticarem os mesmos atos.

O combate ao preconceito é mais importante do que o amor ou o ódio (algo bizarro) a um clube de futebol.

A rejeição ao racismo de profundidade passa pela guerra ao racismo de superfície.

Em alguns casos, o racismo de superfície é a ponta do iceberg do racismo de profundidade. Em outros, é o que dele sobrou. Em qualquer situação, é abominável, inaceitável e, no imaginário atual, uma chaga a ser eliminada.

O mundo está mais complexo. Não aceita mais certas simplicidades.

De superfície ou de profundidade, racismo é racismo.
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“Milicos de pijama” marcham com Marina


O Clube Militar, que reúne os oficiais aposentados que apoiaram o golpe de 1964, divulgou nesta sexta-feira (5) um texto em apoio à presidenciável Marina Silva. Intitulado “Um fio de esperança”, ele afirma que a ex-senadora “incorporou o desejo vago de mudanças que levou o povo às ruas em junho do ano passado”. Para os “milicos de pijama”, como são chamados os oficiais saudosos da ditadura, Marina Silva é a única capaz de derrotar o “lulopetismo” — termo bastante usado pelos “calunistas” da mídia oposicionista. O objetivo maior do apoio explícito é o de que a presidenciável-carona do PSB “interrompa a malfadada corruptocracia instalada no poder pelo lulopetismo”.

Golpista e aventureiro, o Clube Militar nem se importa com o futuro do Brasil num almejado governo Marina Silva. O texto afirma: “Que tipo de mudança, isso já é outro problema... Uma excelente candidata não será, necessariamente, uma excelente presidente”. Ele também qualifica a candidata como uma “figura messiânica”, que prega uma “nova política misteriosa”. Assinado pelo general Clovis Bandeira, editor de opinião da entidade fascistóide, o artigo insiste que o objetivo é derrotar “a corruptocracia instalada no poder pelo lulopetismo... Como está não pode continuar. Há expectativa de que novos rumos e novos governantes tragam melhores dias e maior esperança para os eleitores desiludidos”.

Marina Silva ainda não se pronunciou sobre o empolgado apoio. Curiosamente, porém, ela já havia dado uma sinalização positiva aos saudosos da ditadura. Segundo uma notinha publicada na Folha, a presidenciável promoveu um novo recuo nas suas posições. “Mais uma para a lista dos vaivéns de Marina. A candidata, que agora se diz contra a revisão da Lei da Anistia, pensava o contrário antes de disputar a Presidência. Ela defendia a punição de militares acusados de torturar na ditadura... Em 2008, Marina escreveu em artigo na Folha: ‘A tortura é crime hediondo, não é ato político nem contingência histórica. Não lhe cabe o manto da Lei da Anistia’. Ontem, em sabatina no portal G1, declarou que é contra rever a lei”.

Os golpistas do Clube Militar devem ter adorado o novo recuo — que já esta virando rotina! Marina Silva realmente é “um fio de esperança” para os “milicos de pijama”!

Altamiro Borges
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Dilma 34 vs 30 Bláblá

Bláblá toma 1 ponto de Arrocho


Nesta sexta-feira (5), o infálivel DataCaf apurou:
Dilma 34;

Bláblá 30;

Arrocho 14;
Ontem, Arrocho tinha 15.

Daqui a pouco, ele se reduz ao tamanho da audiência do jn.

Como se sabe, um dos objetivos do DataCaf é desmoralizar o Globope e o Datafalha, que só existe no jn e se transformou na Proconsult de 2014.

Paulo Henrique Amorim
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O mico de Fátima Bernardes com a carta falsa de Brad Pitt

Fátima Bernardes diz que carta não era de Brad Pitt, mas que mesmo assim ficou emocionada



Durante edição ao vivo do "Encontro" desta sexta-feira (5), Fátima Bernardes se retratou por ter lido, no programa do dia anterior, uma falsa carta atribuída ao ator americano Brad Pitt. A gafe gerou tensão nos bastidores da Globo.

"Ontem, eu li aqui uma carta atribuída a Brad Pitt, escrita por Brad Pitt a Angelina Jolie, falando de amor, de como ele incentivou e motivou, como eles superaram uma crise no casamento. Gente, a carta não foi escrita por Brad Pitt a Angelina Jolie", iniciou Fátima ao assumir o erro do programa.

"Na verdade, hoje em dia, na internet, muitas coisas são compartilhadas milhões de vezes e a gente fica mesmo com dificuldade de atestar a veracidade. Luís Fernando Veríssimo, Jô Soares, Arnaldo Jabor, Pedro Bial já passaram por isso. Agora, eu, pelo menos, fiquei feliz com os conselhos [escritos na carta], onde falava bem da mulher em público. Mas fica valendo, né? Acho que o Brad Pitt não ficou chateado, mas eu fiquei feliz com os conselhos. Então, só para ficar registrado de que a carta não foi escrita pelo Brad. Um motivo a menos para admirá-lo", argumentou a apresentadora.

No site oficial do programa, a chamada para a "carta de Brad Pitt" permanece, mas o conteúdo do vídeo foi retirado.

A apresentadora leu a carta no programa desta quinta-feira. Ela contou detalhes sobre um período difícil que o autor teria passado com a mulher, que estava infeliz na vida pessoal e no trabalho. Mas, com a leitura e já emocionada, Fátima disse que o autor da carta era Brad Pitt e citou uma frase "A mulher é o reflexo do seu homem. Assinado Brad Pitt".

O conteúdo da suposta carta surgiu em junho de 2013 na página do Facebook de uma revista nigeriana. Logo depois, várias publicações internacionais desmentiram que a carta fosse de autoria de Brad Pitt. Na época também um porta-voz do ator norte-americano teria negado o fato ao site Snopes, especializado em desmentir lendas urbanas e mitos da internet.

Veja a íntegra da carta atribuída a Brad Pitt

"Minha esposa ficou doente. Ela estava constantemente nervosa por causa de problemas no trabalho, vida pessoal, suas falhas e problemas com as crianças. Ela perdeu 13 quilos e pesava cerca de 40 aos 35 anos. Ela ficou muito magra e estava constantemente chorando. Ela não era uma mulher feliz. Ela sofria de constantes dores de cabeça, no coração e tensão muscular nas costas e nas costelas. Ela não dormia bem, pegava no sono apenas de manhã e ficava cansada rapidamente durante o dia. Nossa relação estava prestes a chegar ao fim. Sua beleza a estava deixando, ela tinha olheiras, cabelo embaraçado, e parou de se cuidar. Ela se recusou a gravar filmes e aceitar papéis. Eu perdi a esperança e pensei que nós iríamos nos divorciar...

Mas então eu decidi agir. Afinal, eu estava com a mulher mais bonita do mundo. Ela é ideal para mais da metade dos homens e mulheres do planeta, e eu era o único que tinha permissão de dormir ao lado dela e abraçá-la. Eu comecei a mimá-la com flores, beijos e elogios. Surpreendia-a e agradava-a a cada minuto. Dei vários presentes e vivi apenas para ela. Falei em público a respeito dela. Ligava todos os assuntos a ela. Eu a elogiava na frente dela e de nossos amigos em comum.

Você não vai acreditar, mas ela floresceu. Ela se tornou uma pessoa ainda melhor do que antes. Ela ganhou peso, não estava mais nervosa e começou a me amar mais do que nunca. Eu não tinha ideia de que ela poderia me amar tanto assim. E eu percebi uma coisa: a mulher é o reflexo de seu homem".

No Uol
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Por que Aécio se estrepou

Perspectiva de fiasco histórico
Vista a campanha presidencial em retrospectiva, as coisas tinham tudo para dar errado para Aécio.

E deram.

Como poderia ser diferente se a primeira promessa de Aécio a ganhar o público foram “medidas impopulares”?

Tudo bem, essa promessa foi feita a um grupo restrito de empresários, e Aécio certamente que não desejava que ela viesse à luz.

Mas mesmo assim: a mera de intenção de tomar “medidas impopulares” já revelava um candidato sem a menor noção de realidade.

Os brasileiros, ainda que de uma forma difusa, clamam por avanços sociais. Aécio, com suas “medidas impopulares”, sugeria exatamente o oposto.

Dilma e Marina, cada qual a seu modo, representam a expectativa — ou ilusão, para os mais céticos — de uma redução na desigualdade social brasileira.

Gosto de um provérbio romano, atribuído ao imperador Otávio Augusto, segundo o qual quando você sabe para onde ir, todo vento ajuda.

Da mesma forma, quando você não sabe, nenhum vento ajuda. É o caso de Aécio e, mais que ele, do PSDB como um todo.

Uma das maiores conclusões destas eleições é que os tucanos correm risco de extinção, à míngua de votos e, mais que isso, de propósito, de causa.

O  PSDB, sob Serra, virou um partido de direita, reacionário.

Transformou-se na versão século 21 da UDN, o partido de Lacerda que, sob a égide cínica do moralismo fajuto, tramou contra todos os governos populares.

Os udenistas correram aos quartéis, contra Getúlio e depois contra Jango, em busca de um golpe militar que os colocasse no poder.

Apenas não contavam que os militares acabassem gostando do poder.

É presumível que, se os militares estivessem à disposição hoje, e tivessem força, os tucanos repetiriam o que os udenistas fizeram no passado.

(De certa maneira, os militares, nos nossos dias, foram substituídos no sonho conservador pelos juízes do STF, mas sem sucesso.)

Partidos como a UDN de antes e o PSDB de agora cumprem a mesma sina: são amplamente favorecidos pela imprensa, mas carecem de voto.

Os tucanos, para se reinventarem, teriam que se afastar do ideário de direita que os tomou.

Perderiam o aplauso incondicional da mídia, mas seriam mais competitivos nas urnas na “Era da Desigualdade”, como podemos designar estes tempos.

Não há nenhum sinal de que isso vá acontecer.

Repare o entusiasmo boçal com que, no primeiro debate, Aécio anunciou Armínio Fraga como seu ministro da Economia.

Parecia um técnico de futebol anunciando a aquisição de Messi.

Fraga representa o oposto daquilo que o Brasil pede, exige hoje — uma sociedade menos desigual.

Para usar a linguagem consagrada pelo movimento Ocupe Wall St, Fraga é o nome dos sonhos do 1%, da plutocracia.

O aeroporto da cidade de Cláudio acabou não tendo importância nenhuma no anunciado fiasco de Aécio, a despeito de expor o discutível conceito de moralidade e ética do neto de Tancredo.

A causa real da agonia de sua candidatura é um programa completamente desvinculado das necessidades sociais do Brasil destes dias.

A solução não é tão difícil assim: sair da direita.

Só que os líderes do PSDB não estão enxergando sequer o problema, que dirá a solução.

Paulo Nogueira
No DCM
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Resolução Política do Diretório Nacional do PT


Um momento decisivo para a história do Brasil

O Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, reunido no dia 5 de setembro de 2014, conclama a militância petista — e estende o convite aos aliados — a intensificar os esforços nas ruas, nos locais de trabalho e em todo o País, para reeleger a companheira Dilma Rousseff presidenta da República e Michel Temer para vice.

O que está em questão não é apenas a continuidade do atual governo, com mais mudanças e mais futuro no próximo período. O que está em jogo é o projeto de transformações iniciado em 2002 com a vitória do presidente Lula. O que está em jogo, em ultima instância, é o futuro do Brasil. E o caminho que seguirmos terá enorme impacto sobre o processo de integração latino-americano e caribenho, bem como sobre a constituição dos BRICS e demais ações em favor de um mundo multipolar e de paz.

Ao longo dos últimos 12 anos, os governos Lula e Dilma deram passos firmes no sentido de melhorar a vida do povo brasileiro, garantir empregos e salários crescentes, expandir a oferta e a qualidade dos serviços públicos, ampliar a democracia, defender a soberania nacional, promover a integração regional e contribuir para a criação de uma nova ordem internacional.

Entretanto, cada avanço conquistado pelos governos Lula e Dilma sofreu uma dura oposição por parte dos setores sociais e políticos ligados ao grande capital e ao conservadorismo, cujos interesses barraram e dificultam a ampliação da democracia, da inclusão social e da redução das desigualdades.

Enfrentando estes setores, fizemos um segundo mandato Lula superior ao primeiro. E faremos um segundo mandato Dilma ainda melhor que o atual, sintonizado com o sentimento popular expresso em várias oportunidades, mas especialmente nas chamadas jornadas de junho de 2013, lideradas por expressivas parcelas da juventude brasileira. O que implica concretizar mais mudanças, mais democracia, mais bem-estar social, em mais soberania sobre nossas riquezas nacionais.

Os dois candidatos da oposição vestem a fantasia da mudança e de uma suposta nova política, mas seus programas de governo, semelhantes em muitos aspectos no conteúdo, revelam que a mudança propalada serve mais aos grupos que os apoiam do que àquela desejada pela maioria da população.

Contra o Projeto Democrático e Popular que representamos, alinham-se, em apoio às propostas dos candidatos da oposição, representantes do capital financeiro e bancário; aqueles que tentam colocar novamente o Brasil de joelhos perante o FMI; os mesmos que pretendem liquidar o Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES; que propõem subtrair, da Presidência da República e do Congresso, a condução da política econômica para entregá-la a um banqueiro de confiança dos rentistas e especuladores. Não satisfeitos, acenam para as multinacionais do petróleo ao colocarem em xeque o modelo de partilha em vigor para substitui-lo pelo regime de concessões. E, tão grave quanto, jogam para segundo plano a exploração do petróleo do pré-sal, esta imensa riqueza nacional, verdadeiro passaporte para o futuro do País.

O programa e as iniciativas dos candidatos da oposição representam um enorme retrocesso: menos soberania nacional e mais dependência externa; menos democracia e mais conservadorismo; a volta do desemprego e do arrocho salarial. Em resumo: o “ajuste conservador” de sempre, cujos custos, sabemos bem, recaem sobre a maioria da população, sobretudo os mais pobres.

Como já foi dito, destacam-se nos programas da oposição, sobretudo no da candidata adversária, algumas propostas radicais, que temos combatido com veemência desde a sua divulgação. Ortodoxo na economia, conservador no plano dos direitos individuais, regressivo nas propostas de reforma política, o plano de governo da candidata defende, entre tantas concessões : a “autonomia do Banco Central” e a redução do papel dos bancos públicos; a “mudança na política externa”; a “revisão das regras do Pré-Sal”. A proposta da reforma politica dessa candidatura da oposição é regressiva e antipopular. A nossa, ao contrario, é para dar a palavra ao povo, através de um plebiscito. A nova politica é Dilma.

O programa da nossa candidata Dilma Rousseff é o único caminho para que para que o Estado Brasileiro continue criando as condições para que a população, em especial a juventude, possa sonhar , planejar seu futuro e fazer suas escolhas com mais autonomia e mais liberdade para viver e conviver.

Ao longo das próximas semanas, nós que apoiamos Dilma Rousseff trabalharemos para politizar as eleições presidenciais, mostrando quais interesses estão por trás de cada candidatura, lembrando como era o país até 2002, falando das mudanças que fizemos a partir de 2003 e, principalmente, apontando as principais mudanças que faremos a partir de 2015.

Fincando raízes no fortalecimento das políticas sociais, na busca permanente do crescimento econômico inclusivo e sustentável, promovendo a competitividade produtiva e assumindo a garantia de acesso à educação de qualidade como grande motor da transformação, o novo ciclo histórico que propomos ao Brasil passa pelas reformas política, federativa, do sistema tributário, a reforma urbana e dos serviços públicos (sobretudo saúde, segurança pública e saneamento básico), assegurando mais democracia e melhor qualidade de vida.

Democracia e qualidade de vida supõem manter total soberania sobre as riquezas nacionais — entre as quais o Pré-Sal — e controle democrático sobre as instituições que administram a economia brasileira — entre as quais o Banco Central, a quem compete, entre outras missões, combater a especulação financeira .

Estes temas, tratados tanto no horário eleitoral quanto na mobilização militante, devem esclarecer o antagonismo entre os dois projetos de País: o da candidatura Dilma, a serviço do conjunto da população, e o da oposição, subordinado a interesses de grupos dominantes no País e no mundo.

É preciso também potencializar o diferencial da candidatura da companheira Dilma: a militância petista, cuja coragem, disposição e capacidade de convencimento sempre foram e são decisivas. Vamos engajar, com o mesmo entusiasmo e entrega, as centenas de milhares que abraçaram a ideia do Plebiscito Popular pela Constituinte Exclusiva; o abaixo-assinado do PT pela Reforma Política; os militantes do movimento sindical, estudantil e sem-terra; os jovens que dinamizam as redes sociais e saíram as ruas em junho de 2013; os intelectuais e trabalhadores que fomentam a cultura em todos os rincões de nosso país; e todas as pessoas democráticas e progressistas envolvidas em causas justas, como a luta contra o sexismo, contra o racismo, contra a homofobia, em defesa dos direitos humanos e de um Brasil mais justo, livre e fraterno.

Cabe à Executiva Nacional do Partido, interagindo com os partidos aliados, com a direção da campanha e com as coordenações estaduais, converter estas diretrizes em ações concretas na campanha. Com a firme voz de comando do Partido, para, em parceria com as forças políticas e sociais aliadas, com Lula e Dilma, derrotarmos, politica e eleitoralmente, a oposição.

Há momentos na história que são decisivos para o futuro de um país. Estamos num desses momentos. E sob a liderança de Dilma Rousseff, uma mulher valente que nunca desistiu do Brasil e do povo brasileiro, venceremos e continuaremos fazendo do Brasil a terra onde a esperança e a verdade vencem o medo, a mentira e a desilusão.

Dilma de novo, com a força do povo!

São Paulo, 05 de setembro de 2014
Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores
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Marina Silva é uma cara nova para a direita, diz Boaventura de Sousa Santos

Sociólogo português Boaventura de Sousa Santos veio ao Brasil para o lançamento de dois livros: “Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos” e “Direitos Humanos, democracia e desenvolvimento”, o segundo em coautoria com a filósofa Marilena Chaui.


“Se Deus fosse um ativista dos Direitos Humanos” é um título provocador. Sugere que o senhor acredita em Deus. E sugere que Deus poderia dar mais importância para os direitos humanos. É isso?

De fato, não. O título é provocador. Eu não me comprometo com a existência de Deus. Sou como Pascal [filósofo francês, 1623-1662]: diria que não temos meios racionais para poder afirmar com segurança se Deus existe ou não. O que podemos é fazer uma aposta: apostar se existe ou se não existe. Como sociólogo, o que penso é que há muita gente que aposta na existência de Deus e que organiza sua vida ao redor disso.

Estamos num momento de fortes movimentos sociais em todo o mundo, com protestos, muita indignação, muita revolta. Alguns desses movimentos trazem no seu interior pessoas e grupos que seguem diferentes religiões. Ou que transformam a religião e a existência de Deus no motivo da ação ou num impulso para a ação. Portanto, eu tive curiosidade de analisar. Esse fenômeno é extremamente ambíguo.

Quando surgiu a curiosidade?

Eu já tinha notado desde o Fórum Social Mundial de 2001, onde vi que havia movimentos sociais e organizações de diferentes partes do mundo com vivências religiosas, como a Teologia da Libertação e outros. Tinham uma dinâmica de grupo onde o elemento religioso, espiritual, era forte. Havia movimentos indígenas, para quem o elemento da religiosidade é sempre forte. Essa dimensão do transcendente é que me fascinou, pois eu venho de uma cultura eurocêntrica, que há muito tempo tenho criticado, mas sou filho dela, por assim dizer. Essa cultura tinha resolvido o problema através do que chamamos de secularismo, que é expulsar a religião do espaço público.

A presença da religião na política está crescendo?

A religião nunca saiu verdadeiramente da política. Temos sociedades que são laicas, mas cujos estados não são. É o caso da Inglaterra, por exemplo. E temos sociedades onde a convivência é mais laica do que outras. Tanto assim que hoje a gente faz distinção entre o secularismo e a secularidade. Secularismo é uma atitude mais radical, de deixar que a religião fique exclusivamente no espaço privado, na família, na vida. Secularidade é aquela que permite que haja expressões [religiosas] no espaço público como afirmação da própria liberdade de todos os cidadãos.

Mas é evidente, a gente sabe, a maneira com que a Europa resolveu a questão da separação da igreja e do Estado no século 17, depois de uma guerra enorme, nunca foi uma separação total. A igreja continuou a ter uma grande influência. Foi assim no esforço da colonização. Continuou com grande influência, ainda tem, nas agendas que o papa Francisco disse recentemente que são as agendas da cintura para baixo (risos), acerca das orientações sexuais, aborto, divórcio. Obviamente são questões de interesse público.

O que parece é que a crise do Estado secular trouxe uma maior presença da religião no espaço público. No mundo árabe, no mundo indiano e também no mundo ocidental. Começou a emergir nas televisões religiosas, cada vez mais e sobretudo com as correntes evangélicas e pentecostais. É uma presença pública muito mais forte, mas também um interesse em influenciar a vida pública, a vida dos Congressos, dos parlamentos. É o que acontece hoje no Brasil.

No Brasil isso parece mais evidente a partir da eleição de 2010, quando o assunto chegou a dominar o debate eleitoral. Como tem sido no resto do mundo?

Na Europa não é tão forte quanto aqui ou nos Estados Unidos. Mas encontramos no próprio mundo islâmico, por outro lado, diferentes formas de afirmação religiosa que não são todas fundamentalistas. Algumas são bastante moderadas. Mas que também se recusam a pensar que sua dimensão espiritual e religiosa não têm nada a ver com suas lutas.

Então o mundo hoje é mais diverso, e dessa diversidade, no meu entender, faz parte uma maneira muito diversa de ver a religião na vida pública. Isso está surgindo por todo lado, com formações bem distintas.

Algumas continuam na base da sociedade, como acontecia com a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base. Mas temos nos últimos anos, no Brasil muito claramente, a influência [religiosa] na própria cúpula do Estado, na estrutura política do Estado. Isso é novo.

Era uma corrente que já vinha dos anos 80 dos Estados Unidos. Uma corrente muito conservadora. Um dos grandes líderes dessa corrente nos Estados Unidos fez uma previsão que praticamente se confirmou. Ele disse assim: “quando um dia não houver uma grande diferença entre democratas e republicanos, e se forem todos mais ou menos conservadores, podemos começar a jogar golfe tranquilamente, pois significa que cumprimos a nossa missão”.

E a esquerda com isso? Seu livro é uma espécie de ajuste?

O pensamento crítico da esquerda, de uma sociologia crítica, sempre foi muito renitente em analisar o fenômeno religioso. Pois qualquer análise que não seja simplesmente dizer que religião é o ópio do povo fica como suspeita.

Minha experiência no Fórum Social Mundial fez-me crer que, se eu mantivesse essa atitude pouco complexa, eu deixaria fora da minha análise muita gente que genuinamente luta contra a desigualdade, a injustiça, a discriminação, a opressão. Não é gente alienada. É gente que realmente luta por um mundo melhor e que, no entanto, tem uma referência religiosa. Eu não posso considerar que isso é alienante. Então escrevi esse livro também para fazer as contas comigo mesmo.

Qual é a sua conclusão?

Termino dizendo que não há um Deus. Há dois: o Deus dos oprimidos e o Deus dos opressores. Enquanto a sociedade for dividida e houver tanta desigualdade social, penso que o Deus que estiver do lado dos oprimidos não se reconhece num Deus que esteja do lado dos opressores.

O outro livro é sobre direitos humanos, que parece refluir na medida em que aumenta a influência religiosa. Alguns políticos têm como principal plataforma o ataque aos direitos humanos. Quais são as relações entre as duas coisas?

É obviamente uma estratégia religiosa. É uma dimensão de todas as correntes conservadoras, de direita, que existiram ao longo do tempo. Houve, de fato, uma igreja progressista, de esquerda, que achou que sua missão era a missão evangélica do sermão da montanha, de estar com os pobres. Os pobres não estão no parlamento, estão nos bairros, nas favelas. E é para aí que os missionários devem ir. Mas há toda uma outra corrente que nunca aceitou que igreja ficasse fora do governo. Alguns deles entendem que a Bíblia, literalmente, dita o direito para os Estados e que, portanto, os direitos humanos não pertencem a esse direito bíblico. É como no mundo islâmico, onde há conceitos muito hostis aos direitos humanos.

Então, de vários lados, estamos a assistir a um ataque aos direitos humanos. Esse é o tema do meu outro livro, escrito por um sociólogo que se considera um cidadão ativista dos direitos humanos.

Eu também faço uma crítica aos direitos humanos. Mas uma crítica progressista: os direitos humanos são pouco. Então eles são criticados por mim por serem poucos. E a direita critica por serem muito. Eu digo pouco porque acho que a grande maioria dos cidadãos do mundo não são sujeitos de direitos humanos, são objeto de discurso de direitos humanos. São violados constantemente.

Agora, sobretudo após a queda do Muro de Berlim, em que as narrativas socialistas caíram em desuso, pelo menos até agora, o que ficou de luta por uma sociedade melhor foram os direitos humanos. Se o socialismo estivesse na agenda política, eu tenho certeza que essa direita religiosa incidiria completamente contra o socialismo.

Nessa questão dos direitos humanos, em que posição o senhor situa o Brasil hoje?

É uma leitura muito complexa. Há áreas e domínios dos direitos humanos em que tivemos conquistas extraordinárias desde o governo Lula. Eu considero [positiva] toda política de ações afirmativas, do reconhecimento de que há racismo na sociedade brasileira e de que é preciso tomar medidas para que afrodescendentes e indígenas possam ter acesso à educação, numa tradição que vinha desde há muito tempo com Abadias do Nascimento, mas que nunca teve êxito. Também o fato de criar um Brasil mais inclusivo, mais diverso, mais colorido, com mais consciência de sua diversidade étnico cultural. Penso que tudo isso foi um grande avanço.

Onde eu vejo que há retrocesso é em toda a área dos direitos humanos que trouxeram também no seu bojo aquilo que, para um desenvolvimentista, pode ser considerado um obstáculo.

Os direitos humanos trouxeram consigo o reconhecimento dos direitos coletivos. E os direitos coletivos do povos indígenas estão protegidos, internacionalmente, por convenções, aliás, que o Brasil assinou, sobretudo o convênio 169 [da Organização Internacional do Trabalho], que obriga consulta prévia, livre, informada e de boa fé. E de boa fé! E que, hoje em dia, depois da declaração das Nações Unidas de 2007 sobre os direitos dos povos indígenas, firma-se na jurisprudência da Corte Internacional de Direitos Humanos que sempre que estejam em causa a própria sobrevivência de um povo, seja uma barragem, seja um projeto de mineração, a consulta deve ser vinculante. Bem, nesse caso, eu tenho que dizer que tem havido retrocesso.

Não é só na demarcação de terras. Tem ainda a questão de saber se a concessão de novas terras são atribuição do parlamento e não do Executivo, o que seria a mesma coisa que dizer que nunca mais haverá qualquer concessão.

Então eu acho que a presidente Dilma está a perder uma batalha, está realmente com uma grande insensibilidade ao movimento indígena camponês, que foi uma grande forma de transformação em toda América Latina.

O senhor considera o governo Dilma de direita?

Eu venho da Bolívia, estive no Equador, conheço os outros países [da região]. Alguns deles são muito mais à direita no governo, é o caso do México. E lá estamos assistindo a uma grande vitória de um povo indígena que lutou contra uma barragem, La Parota, e conseguiu efetivamente parar essa barragem.

Eu colocaria a presidente Dilma no mesmo pé em que coloco o presidente da Bolívia [Evo Morales] e o governo do Equador. São governos que eu considero progressistas. Não os considero de direita. Eles, de alguma maneira, fazem muito do que sempre fez a direita: têm o mesmo modelo de acumulação, o mesmo modelo capitalista, o mesmo neoliberalismo, aproveitaram a mesma onda de extrativismo, com a reprimarização da economia.

Mas o que esses governos fazem e que a direita nunca fez na América Latina foi redistribuir esses rendimentos de alguma maneira. Distribuem muito mais que os outros governos. Para muitos grupos sociais, isso não é suficiente. Até porque essa forma de redistribuição é relativamente precária, não é com direitos universais, é algo que pode parar de um momento para outro. Mas há problemas. Os ambientais são extraordinários.

Qual o senhor citaria?

É certo que o Congresso é outra coisa. Mas eu fico espantado como é que é possível, estando a frente do país alguém como Dilma Rousseff, como é possível abrir uma discussão sobre a semente Terminator no Congresso. É a semente que fica estéril, a suicida. Isso está suspenso. É ilegal para o mundo inteiro. É um escândalo, se aprovar. Ela foi suspensa no âmbito da convenção de biodiversidade exatamente porque coloca os camponeses nas mãos da Monsanto e das outras três ou quatro empresas que têm a patente. Isso é o fim da agricultura camponesa.

Em muitos países é a agricultura camponesa que alimenta as populações, pois a grande indústria produz soja e outros produtos de exportação. A diversidade da produção agrícola é feita por pequenas propriedades, a agricultura familiar, a camponesa. Portanto isso significa arrogância dessas empresas transnacionais que têm acesso ao parlamento para ditar sua lei. E se você olhar bem, há uma aliança entre os religiosos evangélicos e os ruralistas. Então aqui há uma convergência de forças, uns que vêm da tradição ruralista, outros que vêm de uma tradição religiosa de direita, que se armou contra o comunismo e contra a revolução na América Latina.

Então não considero a presidente Dilma um governo de direita por sua capacidade de distribuição, agora há uma grande insensibilidade, que não vem de agora.

Onde mais há problemas?

Basta ver quantas vezes foram recebidas a CUT e outras entidades antes desses protestos: zero. Portanto significa que a presidente Dilma tem uma grande insensibilidade social, que se tornou ainda mais evidente por conta da posição do Lula, ao estilo Lula, que era de muito mais aproximação com os movimentos sociais. Isso perdeu-se. Eu considero uma perda muito grave.

A ex-ministra Marina Silva tem um discurso mais próximo desses segmentos que o senhor mencionou, meio ambiente, indígenas. Ela serve para a esquerda?

Eu penso que não. Sou amigo da Marina Silva, estive em vários painéis com ela e comungo com ela muitas causas ambientalistas. Mas acho que não porque a influência religiosa no país iria nitidamente continuar a desequilibrar. A dimensão religiosa que está por trás dela é uma dimensão que, no meu entender, tem mais um potencial conservador do que um potencial da Teologia da Libertação. Portanto é um potencializador de uma interferência conservadora na sociedade.

Isso pode ter outras dimensões para os direitos das mulheres, dos homossexuais, para as diversidades sexuais.

Por outro lado, sua política econômica, por aquilo que tenho visto e pelos apoios que ela recorre, é realmente uma tentativa de, com uma cara nova, uma mulher, repor o sistema que estava antes. Seria desacelerar ainda mais as políticas de redistribuição social que foram aquelas que, no meu entender, mais caracterizaram o período Lula.

Não penso que a Marina Silva esteja muito sensível a isso tudo. Então eu penso que ela é uma cara nova para a direita. Não é uma cara para a esquerda, no meu entender.

Milhares de pessoas foram às ruas no Brasil para protestar por diversas causas. Tudo muito rápido e inédito. O senhor tem alguma reflexão sobre o que ocorreu no país?

Analiso os diversos movimentos que surgiram no mundo desde 2011: a primavera árabe, o ocuppy [Wall Street, nos EUA], o dos indignados no sul da Europa e na Grécia, o movimento “Yo soy 132″, que é contra a fraude eleitoral no México, o movimento estudantil do Chile em 2012 e também os protestos no Brasil.

Considero que 2011-2013 é um daqueles momentos no mundo como nós tivemos em 1968, 1917, 1848. São momentos de movimentos revolucionários.

O que os caracterizam fundamentalmente hoje? São sinais de que, em muitos países, estamos a entrar num processo de guerra civil de baixa intensidade: uma grande agitação social porque as instituições não funcionam propriamente. Na Europa, a rua é o único espaço público que não está colonizado pelo capital financeiro. Nos EUA, a mesma coisa. Há uma deterioração das instituições, uma ideia de que a democracia foi derrotada pelo capitalismo. No sul da Europa isso parece muito claro, e as ruas e as praças são os únicos espaços onde o cidadão pode se manifestar.

Quem é esse cidadão?

É um cidadão diferente dos [cidadãos dos] processos anteriores. Um erro do pensamento político foi pensar em cidadãos organizados que fazem essas revoltas. De fato, não é assim. Essas revoltas são feitas, normalmente, por jovens que nunca participaram de movimento social, de partidos, que nunca votaram, nunca estiveram em nenhuma ONG. E de repente estão na rua. Isso não foi só aqui. Foi no Egito, na Europa, nos EUA. São movimentos que surgem a partir de momentos em que as instituições parecem não dar respostas às aspirações populares. Obviamente são diferentes. Não se pode pôr a primavera árabe ao lado do Brasil ou do occupy. São coisas distintas.

O movimento do Brasil tem uma genealogia, uma história, semelhante ao movimento dos indignados de Portugal, da Espanha e da Grécia. São jovens democracias onde houve uma expectativa de uma social-democracia, uma democracia com fortes direitos sociais, de educação, saúde, transporte. Havia uma expectativa de uma sociedade mais inclusiva. Essa era a promessa. A democracia não é simplesmente mero voto e a representação política, mas se traduz em direitos sociais e econômicos. Portanto nesses casos [Brasil e indignados], os movimentos surgem da ruína dessas aspirações. Democracias suficientemente jovens para ainda acreditar que eles têm esses direitos.

Os occupy já nem têm sequer essa ilusão, pois a democracia americana é cada vez mais restringida e eu nem acho mais que é uma democracia a sério nos EUA; eu vivo lá metade do ano, como você sabe, e conheço o país.

Uma crise da democracia?

Aqui [no Brasil], a juventude se dá conta que aquela democracia que ela acreditou não funciona, está sendo derrotada pelo capitalismo. Os países dão mais atenção aos mercados internacionais, aos grandes grupos transnacionais, do que dão aos seus cidadãos. Na Europa isso é muito claro. O meu governo [Portugal] está mais atento à agência de classificação Standard & Poor’s, sobre o que ela dirá amanhã sobre a taxa de rating do crédito português, do que as demandas dos portugueses, as reivindicações. E quanto mais as pessoas vão para as ruas, mais abaixa a nota do crédito internacional. Ou seja: a democracia está sendo usada contra os cidadãos. A democracia é exercida hoje contra o bem estar. Tinha-se a ideia que caminhávamos para um estado de bem estar. De alguma maneira, hoje, o Estado é um Estado de mal estar. O que aconteceu no Brasil, no meu entender, é essa frustração.

Compartilha com os outros movimentos essa espontaneidade. E o fato de não ser ideologicamente unitária, é o mais diverso possível. E com demandas contraditórias. E com uma característica também comum em todos eles: prevalece o negativo sobre o positivo. Esses grupos, que eu nem chamo de movimentos sociais, chamo de presenças coletivas, sabem o que não querer, mas não sabem bem o que querem. Podem ter uma demanda, como foi o caso do Movimento Passe Livre, mas essa é uma demanda que rapidamente pode ser superada por grandes demandas de superação do Estado. Como aconteceu na Tunísia. O moço que se imolou na Tunísia queria apenas que legalizassem o seu comércio de rua, e de repente aquilo era uma luta contra a ditadura.

O que todos estão a dizer? Estão a dizer que o mundo está escandalosamente desigual. Essa não é uma questão da pobreza. É que nos países, internamente, a diferença entre ricos e pobres nunca foi tão grande. Em meio aos maiores sacrifícios da sociedade portuguesa, com cerca de 50% dos jovens até 25 anos sem emprego, o número de ricos aumentou em Portugal nos últimos anos. E os ricos ficaram ainda mais ricos.

Essa descrição não coincide exatamente com o que ocorreu no Brasil. A distribuição de renda brasileira medida pelo índice Gini ainda é uma das piores do mundo, mas melhorou.

Sim, está reduzindo [a desigualdade de renda], nunca tinha acontecido antes, isso é preciso reconhecer. O que nós temos que ver, isso é minha leitura, é que as políticas que foram criadas para essa redução ocorrer – e por isso que eu digo que [Dilma] não é um governo de direita – são as que eu chamo de políticas de primeira geração. A segunda geração é que essa gente que agora come bem, agora que tem algum apoio, quer evoluir, quer ir para a universidade, quer outra qualidade dos serviços públicos. E aí estancou.

O senhor disse que esses grupos sabem dizer o que não querem, mas não sabem dizer bem o que querem. No Brasil, entre as coisas que eles diziam não querer estavam os partidos políticos. Teve até hostilidade, violência. O senhor vê isso com preocupação?

Sim, evidentemente. Mas ao mesmo tempo compreendo o que está ocorrendo. É aquilo que eu disse, que a democracia representativa liberal foi dominada e vencida pelo capitalismo, pela corrupção, pela presença do dinheiro nas eleições, nas campanhas eleitorais. Isso faz com que os representantes estejam cada vez mais distantes dos representados. É aquilo que a gente chama de patologia da representação: os representados não se sentem representados por seus representantes.

É um processo conhecido, pois há anos discute-se no Brasil a necessidade de se fazer uma reforma política, uma reforma do sistema eleitoral, do financiamento dos partidos. E todas essas reformas têm sido bloqueadas. Então essa negação não é propriamente a negação da democracia representativa. São duas ligações importantes: esta democracia participativa não serve, o dinheiro não pode ter o poder que tem hoje nas eleições; e a democracia representativa nas sociedades complexas não chega, ela precisa ser complementada pela democracia participativa.

Eu acho extraordinário que, no caso da primavera árabe – jovens de vários países que não tiveram democracia propriamente – a grande bandeira é a democracia real. Portanto quando dizem que há luta contra os partidos, não é que eles estejam dizendo que, em princípio, eles não têm nenhuma validade. É esta forma de democracia, a do poder do dinheiro, que está derrotada. E se ela não se alterar, temos altos riscos para a sociedade. É por isso que eu digo, escrevi dois artigos sobre isso, que há uma grande oportunidade: a oportunidade de uma reforma política. Esse é grande tema com o qual o PT chegou ao poder, não podemos esquecer.

Mas nos protestos ninguém levantou uma plaquinha sequer pedindo reforma política.

(risos) É por isso que eu digo: as pessoas não sabem o que querem, sabem o que não querem. Como é que se faz formulação política? Para sair daquilo que elas não querem, é preciso uma reforma política. Obviamente. E é por isso que temos partidos.

Eu acho que cabe à classe política encontrar as soluções. Os jovens não têm que saber [como fazer]. Nem dá para exigir que eles saibam. Como é que vai fazer um serviço unificado de saúde suficientemente robusto? Não têm que saber. Há técnicos e há políticos que vão fazer isso. A reforma política é a mesma coisa. E a presidente Dilma deu uma certa esperança quando falou nas cinco medidas que seriam tomadas e incluiu a reforma política, mas, infelizmente, os poderes conservadores do Congresso…

Foi nesse contexto que surgiram os grupos “black blocs”, com a tática de causar danos materiais para fazer suas denúncias. Eles aparecem em tudo, da greve de professores à ação para libertar cachorros de um laboratório de pesquisa médica. Qual é a opinião do senhor sobre esses grupos?

Esses grupos nasceram nos anos 70 na Alemanha, na luta contra a energia nuclear. Na década de 80, adquiriram uma ideologia autonomista. A ideia de que “temos que criar na sociedade espaços de autonomia que não dependem do capitalismo e que, portanto, podem oferecer outra maneira de viver”. Tiveram muita repercussão.

No momento em que começam os protestos contra a globalização, Seatle (EUA) é o marco, eles começaram a assumir duas características de sua tática: de um lado a ideia de violência contra propriedades símbolos do capitalismo, que pode ser um McDonald’s, um banco; de outro lado, a defesa dos manifestantes. Eles assumiram isso. Em muitas mobilizações, foram eles que, diante da violência policial, defenderam mais eficazmente os manifestantes pacíficos. Então a violência policial, no meu entender, é uma das grandes responsáveis pelo protagonismo “black bloc”. Eles enfrentavam. E a notícia muitas vezes passava a ser o enfrentamento entre os “black blocs” e da polícia.

Um terceiro fator que complica, principalmente a partir do ano 2000, isso está documentado, é que a polícia infiltra o “black bloc” para depois justificar sua violência. Isso está demonstrado em vários países. E este é o contexto em que nós estamos.

Mas como entender o “black bloc”?

Não são grupos de extrema-direita. Eu penso que, acima de tudo, temos que entender por que surgem esses movimentos. E encontrarmos, através do diálogo, formas de ver se estas são as melhores formas de luta. No meu entendimento, como já disse, estamos num momento político daquilo que chamo de guerra civil de baixa intensidade. Numa guerra assim, queremos que cada vez mais gente venha para a rua. No meu entender, para fazer pressão pacífica sobre os Estados.

Quando o capital financeiro será cada vez mais influentes, quando as Monsantos conseguem pôr no Congresso a [semente] Terminator, quando os evangélicos dominam a agenda política, quando os ruralistas dominam a agenda política, os governos, mesmo que tenham uma orientação de esquerda, precisam ser pressionados de baixo. A partir de baixo. E essa pressão tem de ser pacífica. E tem de ser inclusiva. E para ser inclusiva tem de trazer para a rua as pessoas que nunca foram para a rua, os chamados despolitizados, as avós, os netos.

Ora bem, se é esse o objetivo, o “black bloc” é uma força contraproducente. As pessoas querem ir para a manifestação, mas com medo que haja violência, com medo da brutalidade e violência policial, dizem ao final “não vamos”. Penso, portanto, que o “black bloc” deve analisar em que contexto nós estamos.

O ex-presidente Lula fez uma crítica direta ao uso das máscaras. Disse que participou de muita manifestação de rua, mas que nunca usou máscara porque não tinha vergonha do que fazia.

Eu acho que é uma posição legítima, mas não sei se é a única resposta que se pode dar. As pessoas têm suas formas de representação. Exemplo disso é o governo do Peña Nieto, o [partido] PRI, no México, que eu considero de direita. Nas últimas manifestações, o protesto de professores no México, teve a presença dos “black blocs” com as máscaras negras. E chegou ao ponto também em que o governo está para promulgar uma lei que proíbe as máscaras. Sabe qual foi a reação? Os homossexuais começaram a usar máscaras pink. Foram para os protestos com máscaras cor-de-rosa, máscara homossexual. Então a polícia vai prender? Eles não praticam nenhuma violência, usam máscara agora para afirmar a diversidade sexual.

Isso é para ver como a coisa é complicada. Criou-se uma solidariedade entre os homossexuais e o “black bloc”. Então, por vezes, as autoridades se excedem na forma. Eu penso que essa não é a forma. Penso que a forma é de dialogar, de trazer para uma mesa de conversa. Obviamente é uma discussão muito difícil, mas é uma discussão que é preciso ter.

Boaventura de Souza Santos, sociólogo português, doutor pela Universidade de Yale (EUA), professor da Universidade de Coimbra (Portugal) e da Universidade de Wisconsin (EUA). Livro recente “Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos” (Cortez Editora)

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O embate de ideias econômicas nas eleições


Ontem, o Seminário da ANBB (Associação Nacional do Banco do Brasil) "Repensando Estrategicamente o Banco do Brasil", juntou três economistas ligados aos candidatos à Presidência: Alexandre Rands Barros representando o PSB; Mansueto de Almeida representando o PSDB; e Márcio Pochmann o PT.

A prioridade dos liberais — Mansueto e Rands — são os acertos institucionais; dos desenvolvimentistas — Pochmann —, o plano de desenvolvimento estratégico.

* * *

As críticas dos liberais são focadas em princípios de gestão.

Tem que haver responsabilidade fiscal, clareza sobre os gastos públicos, sobre o custo dos subsídios e previsibilidade na economia.

Não conseguem desenvolver uma visão sistêmica da economia. Rands mencionou estudos próprios sobre os fatores que mais impactam o desenvolvimento e a competitividade. Deu educação. Logo, todo foco tem que ser na educação, como se fosse uma variável autônoma e suficiente. Aliás, Rands deveria ter poupado os presentes da discussão sobre se BC independente é proposta de esquerda ou direita; se melhorar a mobilidade urbana é esquerda ou direita. Um primarismo indesculpável!

* * *

Mansueto, por sua vez, mostra que as políticas sociais necessitam de recursos crescentes; e recursos dependem do crescimento. Para crescer tem que haver previsibilidade. Bastará superávit primário para haver crescimento e atendimento de todas as demandas.

Obviamente, como todas os economistas dessa linha, Mansueto está preocupado em calcular o superávit primário (excluindo juros) e os custos dos maiores e dos menores programas sociais (o que é ótimo). Mas o maior custo do orçamento brasileiro — os juros — não entra nas suas contas.

* * *

De seu lado, Pochmann tem uma visão histórica apurada, defende a ampliação do papel do Estado na economia — e relega para terceiro plano aspectos ligados à própria prestação de contas pública. Como se visão estratégica prescindisse de boa gestão fiscal, de regras claras para a economia e de limites para o voluntarismo do governante.

* * *

Ora, ambas as escolas de pensamento têm vícios recorrentes, que se repetem a cada ciclo. Atribui-se aos liberais a falta de visão estratégica e sistêmica da economia; aos desenvovimentistas os abusos das intervenções personalistas.

No caso do liberalismo, o governo FHC repetiu todos os vícios históricos, com sua falta de visão estratégica, o pouco cuidado para definir a competitividade da economia, o fato de considerar taxa de juros como variável independente.

No caso dos desenvolvimentistas, os últimos anos foram pródigos na explicitação de vícios históricos, com o absurdo dos “campeões nacionais” do BNDES, a concessão de subsídios ao consumo sem obedecer a nenhuma planejamento, a falta de transparência nos custos das políticas públicas e das contas fiscais..

* * *

No atual estágio de desenvolvimento social brasileiro, não se admitem mais políticas personalistas, de gabinetes e falta de controles e transparência..

Com o desafio de ganhar produtividade para garantir a geração de empregos de qualidade, não se pode julgar que o mercado, por si, encontrará o caminho. Há que se ter uma diretriz clara, para impedir a dispersão de esforços e recursos.

Enfim, deixar de usar o carimbo ideológico para práticas que são comuns a todas as políticas públicas virtuosas.

Luís Nassif
No GGN
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Marinamorfose ambulante

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Programa de Marina também plagiou gestão Lula


Plano de governo de Marina Silva é uma sequência de imitações; candidata do PSB também reproduziu, na íntegra, três propostas de Lula para a saúde em 2006; em um dos textos copiados, promete "ampliar o Sistema de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), estendendo, com o apoio das Forças Armadas, o atendimento a regiões de difícil acesso"; ex-senadora usou igualmente trechos inteiros do capítulo "Educação, cultura e ciência, Tecnologia e Inovação" de um artigo da USP sem citar a fonte e o autor; foi ainda acusada pelo candidato do PSDB, Aécio Neves, de plagiar parte do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), lançado por FHC em 2002

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Doleiro Yousseff surge no jato do PSB, que muda CNPJ


Uma das parcelas do jato em que voaram Eduardo Campos e Marina Silva no início da campanha eleitoral foi paga com recursos de uma empresa ligada ao doleiro Alberto Youssef, preso na Operação Lava-Jato; Polícia Federal investiga se aeronave foi comprada com recursos de caixa dois do PSB; recentemente, o deputado socialista Júlio Delgado (PSB-MG) pediu a cassação de André Vargas (sem partido-PR) alegando que ele pegou carona num avião do doleiro; como será encarado, agora, o caso em que os dois presidenciáveis do PSB usaram um jato pago com recursos de Youssef? Partido trocou o CNPJ do comitê financeiro da campanha para tentar desvincular Marina da polêmica

O "avião fantasma" usado na campanha dos presidenciáveis do PSB, Eduardo Campos e Marina Silva, é agora vinculado a um conhecido nome da Justiça: o doleiro Alberto Youssef. Preso na Operação Lava-Jato, ele é acusado de comandar um esquema de lavagem de dinheiro e suborno de servidores públicos que pode ter movimentado R$ 10 bilhões nos últimos anos.

A Polícia Federal investiga se a aeronave foi comprada com recursos de caixa dois do PSB. O uso do avião não constava na declaração de gastos do partido à Justiça Eleitoral.

Entre os 16 depósitos bancários recebidos pela AF Andrade, de Ribeirão Preto (SP), na venda do Cessna, que caiu com a comitiva de Campos em Santos, consta uma empresa que também fez negócios com uma consultoria de Youssef, considerada de fachada pela PF. A reportagem de Adréia Sadi aponta que a Câmara & Vasconcelos pagou R$ 159,9 mil à AF Andrade (leia aqui).

O PSB afirma que nem o partido nem Campos sabiam da relação de Youssef com uma das empresas que depositou para a AF Andrade.

Recentemente, o deputado socialista Júlio Delgado (PSB-MG) pediu a cassação de André Vargas (sem partido-PR) alegando que ele pegou carona num avião do doleiro.

Como será encarado, agora, o caso em que os dois presidenciáveis do PSB usaram um jato pago com recursos de Youssef?

O PSB tenta desvincular Marina Silva da polêmica. Trocou inclusive o CNPJ do comitê financeiro da campanha para jogar a responsabilidade do caso para o falecido Eduardo Campos. A mudança não é obrigatória por lei.

No 247
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O senhorio de Marina no apê de São Paulo. Ele tem quem o defenda. É Brilhante, e Ustra.


A Folha de S. Paulo publica matéria dizendo que Marina Silva vive em São Paulo, desde o início do ano, no apartamento do empresário Carlos Henrique Ribeiro do Valle,  com o qual a candidata diz “não manter relacionamento pessoal”, embora ele se diga  ”mais próximo do pessoal da Marina” do que de Eduardo Campos, a quem diz que o imóvel estava “doado” para a campanha, com valor estimado de R$ 9.300.

Se a Folha tivesse procurado um pouco mais ia ver que este personagem não é um camarada de classe média que resolveu “não desistir do Brasil”.

Quem sabe não contratam este pobre redator aqui para dar um “molho”  nestas matérias?

A distribuidora dele e a rede de postos não são brincadeira, não : sua empresa, a Petronac, é uma das maiores do mercado, com mais de 600 clientes e algumas questões com a União.

Empresa cujo advogado é Octavio Teixeira Brilhante Ustra. Brilhante Ustra… Será que é parente do Brilhante Ustra da tortura?

Mas o senhorio de Marina é boa gente.

Foi um dos convidados vip da “festinha aeronáutica” promovida em 2004 pela Camargo Correa, onde se montaram estandes para comprar e vender aviões.

E onde a Veja registra as impressões de Ribeiro do Valle, o cara “próximo do pessoal da Marina”:

“Avião é a minha caminhonete”, diz o pecuarista Carlos Eduardo Ribeiro do Valle, que também tem um Skylane. Dono de fazendas em Mato Grosso e no Pará, com um barco de pesca no Araguaia, ele igualmente se empolgou com o Cirrus. “Eu vou comprar esse daí. O avião tem um pára-quedas acoplado. Se houver algum problema, é só apertar um botão e a gente é ejetado para fora”, diz ele, que sobreviveu a um acidente de avião. “Olhe, avião é coisa simples, é modo de vida, não é frescura. É necessidade.”

A paixão por dinheiro e aviões foi passada hereditariamente.

Na matéria, diz-se que Ribeiro do Valle tem dois filhos. Um, operador em Wall Street, “pilota planadores quando vai para os Hamptons, o balneário elegante dos nova-iorquinos”, diz a Veja.

O outro, Carlos Eduardo Ribeiro do Valle Filho, é dono de uma empresa de táxi aéreo e gastou R$ 600 mil para gravar um CD como cantor sertanejo. Cadu é casado com Gigi, neta de Sebastião Camargo, fundador da empreiteira festeira.

É dele a foto que ilustra o post, publicada pela Veja São Paulo.

O amor é lindo!

Fernando Brito
No Tijolaço
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O mundo mágico da candidata


O físico Rogério Cerqueira Leite escreveu um artigo na seção “Tendências/Debates” (pág. A3) da edição de domingo (31/8) da Folha de S.Paulo que merece reflexão por parte das pessoas preocupadas com a sorte do país (ver “Desvendando Marina”). Ele se referiu ao risco de, numa abordagem de ciência, recuarmos em direção a um pensamento obscurantista capaz de liquidar com as perspectivas de tirarmos partido da genialidade humana para amenizar desafios nacionais e sermos capazes de dialogar em igualdade de condições com as sociedades mais avançadas do planeta.

O temor de Cerqueira Leite é o fundamentalismo da candidata Marina Silva, concorrente ao Palácio do Planalto: mais especificamente o criacionismo — a ideia de o mundo ter sido criado ao longo de sete dias, numa época há pouco mais de 4 mil anos.

A data a que Cerqueira Leite se refere, na verdade, foi estabelecida em 1654 pelo bispo irlandês James Ussher. Ele consumiu toda uma vida de dedicação a estudos bíblicos. Ao final desse esforço — e depois de somar a idade de muitas gerações, incluindo a suposta longevidade de personagens como Matusalém — anunciou que o mundo foi criado em 26 de outubro de 4004 antes de Cristo (a.C.), precisamente às 9 horas da manhã.

Atualizando esses dados, o mundo (a Terra) teria agora — na concepção criacionista do bispo, partilhada por Marina e seus mentores religiosos — exatos 6.018 anos. E não os quase 5 bilhões, desde que o Sistema Solar tomou forma a partir de uma nebulosa deixada pela morte de uma estrela de grande massa, quando a Via Láctea, a galáxia que abriga o Sol e seu colar planetário, ainda era jovem.

Como a ciência demonstrou a idade da Terra, refutando a interpretação do bispo Ussher e dos que o seguiram?

Há mais de uma maneira de fazer isso, mas a descoberta da radioatividade, no século 19, desempenhou um papel fundamental nesse processo. Determinados elementos químicos, como o urânio, se decompõem (decaem) dando origem a outros. Na Natureza, um bloco rochoso que contenha urânio, ao final de certo tempo, terá apenas metade dele. Esse tempo é chamado de meio-vida. Elementos químicos de meia-vida curta, de dias ou semanas, são utilizados, por exemplo, para diagnóstico clínico de uma série de doenças.

Precisão do relógio atômico

Se a Terra for considerada um bloco rochoso cósmico, de 12.400 km de diâmetro, com base no urânio de que ela dispõe é possível calcular sua idade e, neste caso, os dados apontam para 4,6 bilhões de anos, uma época desconcertantemente mais remota que a apurada pelo bispo.

Inúmeras outras evidências apontam para uma Terra mais velha, com história mais fascinante e complexa do que sugere a linguagem poética da mitologia religiosa. A alegoria é a linguagem dos mitos e desconhecer essa situação e tratar relatos ao pé da letra conduz a absurdos que a razão não pode acatar.

Numa escola de boa qualidade, mesmo uma criança de poucos anos compreende esse raciocínio e tem condições de rejeitar a data de uns poucos mil anos para a Terra, idade fixada pelo bispo do século 17. Mas a história não é um movimento uniformemente acelerado e o retrocesso que o Ocidente viveu durante a Idade Média, com a ruína da cultura greco-romana a partir do século 5, é o bastante para demonstrar que a possibilidade de recuos para o obscurantismo é mais que pura ficção.

Jovens eleitores, e uma parcela significativa da população, incluindo pessoas com boa formação intelectual, decepcionados com o que consideram fracasso da administração atual, colocam seus ovos na cesta oferecida por Marina.

O voto é livre, ao menos teoricamente, e ninguém tem o direito de achincalhar quem quer que seja que, seguindo as regras estabelecidas, se candidate ao cargo majoritário da nação. A sociedade, no pós-autoritarismo, conquistou esse direito. Mas as pessoas também têm obrigações em relação às atuais e futuras gerações — e o artigo de Cerqueira Leite é um repto, no sentido de que elas considerem seus atos antes de depositar esperanças no que tem tudo para ser um tenebroso fracasso: o retorno a uma ordem superada, em que a inteligência fica substituída pela memória, sem perspectiva de libertação do que quer que seja.

Para quem se julga acima de qualquer suspeita, em termos de discernimento, talvez seja interessante dizer que a equação simplória do bispo Ussher foi prontamente assimilada, por exemplo, pelo astrônomo polonês Johannes Hevelius (1611-1687), conhecido como fundador da topologia lunar, mas não sem uma pequena alteração. Por uma questão de preciosismo, ele preferiu as 18 horas do 24 de outubro de 3963 a.C.

As contas de Johannes Kepler

Outro que se deixou levar pelas contas do bispo foi o grande Johannes Kepler (1571-1630) que, com suas leis de movimentos planetários, foi uma espécie de anunciador de Isaac Newton (1642-1727). Mas também Kepler fez seus ajustes e datou a criação do mundo em 27 de abril de 4977 a. C. sem um horário preciso.

Kepler é conhecido dos historiadores da ciência como “o último dos antigos e o primeiro dos modernos”. Como último dos antigos, foi praticante da ciência mágica da astrologia e com algum ganho nesta área amenizou parcialmente a miséria em que viveu por quase toda vida. Como primeiro dos modernos, coube a ele a ousadia de deformar o círculo, a forma aristotélica perfeita, para produzir um anel achatado, a elipse, e explicar a forma das órbitas planetárias em torno do Sol.

Hevelius e Kepler viveram numa época de transição. Para trás deixaram tudo o que era velho e superado. Pela frente, ao menos Kepler anunciou um futuro que ele mesmo não tinha como vislumbrar. Aquele também foi um momento histórico de rápidas e radicais transformações, tanto que coincide com a Revolução Científica, conceitos e práticas que formam a base da ciência moderna.

Esses períodos vertiginosos da história estão de volta e provocam uma derrocada da Política, etimologicamente a arte de gerir a polis, a cidade, o espaço da cidadania grega. Ao menos isso é o que se pode deduzir do pensamento do historiador inglês Tony Judt (1948-2010), em O mal ronda a Terra, com o esfacelamento do estado de bem-estar social que se seguiu à Segunda Guerra Mundial por parte de governos conservadores como o de Margareth Thatcher, na Inglaterra, e Ronald Reagan e seus seguidores, nos Estados Unidos.

O astrônomo e divulgador de ciência americano Carl Sagan (1934-1996), embora não tenha podido ler o artigo de Rogério Cerqueira Leite, curiosamente está em completo acordo com ele, um dos trabalhadores intelectuais preocupados com a consolidação e ampliação da atividade científica no Brasil. Em seus dois últimos livros — O mundo assombrado pelos demônios – a ciência vista como uma vela na escuridão e Bilhões e bilhões —, Sagan amargurou a impotência da ciência em varrer o obscurantismo da face da Terra e, em lugar da opressão da irracionalidade, permitir o florescimento de uma sociedade comprometida com a humanização, o que significa tirar partido pleno da genialidade humana na desafiadora aventura da vida.

Poder de fazer chover

Críticos mais apressados podem rispidamente argumentar — no estilo grosseiro que domina boa parte dos debates públicos — que a ciência é um luxo para o povo, que em lugar disso prefere “fumo de boa qualidade e diversão”, acusação invocada no Brasil já no final do Império.

Engano típico de pensadores apressados e superficiais. A ciência, se formos atribuir uma finalidade a ela, é responsável — como outras áreas do conhecimento, incluindo a própria religião, filosofia, literatura e artes, caso da música, pintura e até mesmo dos esportes — pela formação de um substrato mental, uma forma de conceber e projetar o mundo no espaço e no tempo. A visão fundamentalista é uma camisa de força. Ela inibe o fluxo das ideias novas, sufoca pelo formalismo sem movimento e assim elimina o viço do conhecimento.

Aberta ao mundo fascinante da ciência — em que a realidade não é menos misteriosa ou perturbadora que na religião —, Marina Silva poderia ser uma promessa do novo, que se esforça para demonstrar, e que tem lhe custado, em curtíssimo espaço de tempo, uma surpreendente coleção de disparates. Comprometida com a intepretação literal da Bíblia, no entanto, a exemplo do bispo James Ussher há quase 400 anos, a possibilidade de ela ser uma farsa, como aponta Rogério Cerqueira Leite em “Desvendando Marina”, é assustadora para uma sociedade que tem pela frente, entre outros desafios, a tarefa de recuperar o tempo perdido de 350 anos de escravidão, regime em que justiça, cidadania e bem-estar social não fazem qualquer sentido.

Marina pode rebater que não é bem assim. Que um homem de ciência como Rogério Cerqueira Leite é preconceituoso e intolerante com uma moça pobre que se alfabetizou na vida adulta: “um desses trogloditas”, como se referiu aos críticos da candidata o pastor Caio Fábio, um dos seus mentores, na edição de segunda-feira (1/9) da mesma Folha de S.Paulo. Outro dos pastores mentores de Marina, Hardman Daniel, ouvido pelo jornal, diz que ela “não precisa de guia espiritual. Ela tem o relacionamento dela com Deus. Ela conhece Deus”.

Hardman relatou, no melhor estilo bíblico, que quando sua discípula dirigia o Ministério do Meio Ambiente, “um incêndio se abateu sobre a região Norte. Nós oramos. Choveu no mesmo dia, e em um tempo que não era de chuva”, o que sugere milagre ou soluções do realismo mágico.

Se o caso relatado pelo bispo configurar milagre, talvez Marina pudesse começar, já como candidata, a recuperar as águas do reservatório da Canteira, a principal fonte de abastecimento da cidade de São Paulo. Encarnando o Prometido, típico das sociedades messiânicas, ela seria imbatível.

Evidentemente que um homem de ciência, caso de Rogério Cerqueira Leite, não levaria a sério possibilidades como essa: fazer chover sob um céu está vazio de nuvens. O pastor, tampouco, estará disposto a demonstrar que sua discípula tem, de fato, o poder de fazer chover, em especial na secura da estiagem. Para o pastor será mais conveniente tentar desclassificar o físico, alegando que ele carece de fé. 

Ulisses Capozzoli, jornalista, editor chefe da Scientific American Brasil
No OI
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