25 de ago de 2014

PSB debocha do País: documento estava no avião


O PSB, aparentemente, decidiu debochar da sociedade brasileira. Nesta segunda, quando foi questionado sobre o avião fantasma utilizado por Eduardo Campos e Marina Silva, o deputado Márcio França (PSB/SP) escancarou a falta de argumentos para defender o que parece ser indefensável. "Documento de avião você carrega no avião. Se estava no avião, já não existem mais", afirmou.

Isso indica que a estratégia do PSB parece a ser a de varrer o assunto para debaixo do tapete. Explica-se: caso não consiga demonstrar de quem é o avião e como ele era pago pela campanha, o partido estará sujeito à impugnação de sua candidatura.

A história é relativamente simples. O antigo dono da aeronave, um usineiro falido, repassou o jatinho a amigos de Eduardo Campos, que assumiram o pagamento de algumas parcelas do leasing. Tais empresários, sem capacidade financeira para comprar um jato de R$ 18,5 milhões, foram recusados pelo cadastro da Cessna, fabricante da aeronave. No entanto, pertencendo ao usineiro ou aos amigos do ex-governador, o avião não poderia ser utilizado numa campanha política, por não estar registrado numa empresa de táxi aéreo. Daí o argumento de Márcio França sobre a possível destruição dos documentos.

Ele também insinuou que Marina Silva não prestará grandes esclarecimentos. "Responder ela tem que responder, no limite da responsabilidade dela", disse ele. França disse acreditar que Marina não tenha conhecimento sobre como foi feita a negociação que colocou o avião à disposição de campanha.

Ao adotar essa posição, o PSB coloca as vítimas do desastre, sejam eles ex-colaboradores de Campos ou pessoas que perderam seus imóveis em Santos, a ver navios. O seguro não será pago e ninguém se responsabilizará pelas indenizações e reparações por danos materiais. Afinal, o documento estava no avião.

Um escárnio.

No 247
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Biógrafo Lira Neto: ao se matar, Getúlio Vargas adiou o golpe militar por dez anos

Getúlio Vargas por Jean Manzon
Já passava das 11 horas da noite do dia 7 de setembro de 1979, na praça Maurício Loureiro, centro de São Borja (RS), quando Leonel Brizola (1922-2004) subiu no palanque para fazer seu primeiro discurso em território brasileiro após voltar dos 15 anos de exílio que lhe foram impostos pela ditadura militar. Diante de 1500 pessoas, o trabalhista Brizola fez questão de destacar uma teoria que muitos ainda hoje ignoram ou rejeitam: o suicídio de Getúlio Vargas em 24 de agosto de 1954 foi capaz de deter por dez anos o golpe que se abateria sobre o Brasil em abril de 1964.

Segundo Brizola, ao escrever “saio da vida para entrar na história” na célebre Carta-Testamento, Getúlio publicava “uma denúncia e ao mesmo tempo uma antevisão”. Prevendo o golpe, Vargas se matava para deter a quartelada que se desenhava com o manifesto assinado, na véspera, por 19 generais exigindo sua renúncia entre eles, o mesmo Castelo Branco que se tornaria presidente à força dez anos depois. Aeronáutica e Marinha já haviam feito idêntico pedido.

“Isso não é aceito pelas elites de nosso país, pela maioria dos sociólogos, pela maioria dos cientistas políticos, mas estou convencido que o Presidente Vargas anteviu este regime, até pensando que viesse no dia imediato à sua morte, mas foi o impacto emocional de seu gesto que ainda permitiu que as nossas liberdades fossem respeitadas durante mais dez anos”, afirmou Brizola, de acordo com o jornal Folha de S.Paulo, citado no livro El Caudillo, de FC Leite Filho.

Getúlio deixara com João Goulart, seu ex-ministro do Trabalho, uma das três cópias da Carta-Testamento, sinalizando que ele seria seu principal herdeiro político. Alçado ao poder em 1961, Jango herdaria também o ódio das mesmas forças que levaram Getulio ao suicídio: os militares, o conservadorismo e a imprensa.

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Jango e Tancredo Neves à frente do funeral de Getúlio em 1954
Procurei o autor da monumental biografia de Getúlio, Lira Neto, para averiguar se ele concorda com a visão de Brizola e também para saber de que forma, ideologicamente, ele situaria o complexo Vargas. Vejam a entrevista.

Brizola dizia que, ao se suicidar, Getúlio adiou o golpe militar em dez anos. É verdade?

Lira Neto: Mais do que uma tese defendida por Brizola, esta é uma constatação histórica, esposada por vários especialistas e estudiosos. Basta dizer que os almirantes, brigadeiros e generais que assinaram os três célebres manifestos militares exigindo o afastamento de Getúlio do poder em agosto de 1954 foram os mesmos que derrubaram João Goulart em 1964. Até o pretexto de que Getúlio planejava instaurar uma república sindicalista se repetiu na deposição de Jango. Em um e outro caso, os mesmos udenistas e setores conservadores do empresariado forneceram o apoio político-civil aos quartéis para derrubar um presidente constitucionalmente eleito.

Dá para imaginar hipoteticamente o que teria acontecido com o Brasil se Getúlio não tivesse se matado?

Lira: Ao optar pelo suicídio, Getúlio neutralizou os adversários que já se consideravam vitoriosos e com o poder nas mãos. O golpe civil-militar já estava em plena execução. Muito provavelmente, Getúlio seria retirado do palácio e levado para a prisão e, posteriormente, para o exílio. Os militares jamais repetiriam o “erro” de 1945, quando após derrubá-lo permitiram que ele permanecesse livre, em território nacional, recolhido a São Borja, articulando as circunstâncias de sua volta ao poder, o que afinal ocorreu em 1950, por extraordinária votação popular. Nos três livros, mostro como, desde sempre, já a partir de 1930, Getúlio trabalhou com a perspectiva do sacrifício pessoal como um ato político de resistência, como um protesto eloquente contra os inimigos. Ele jamais se permitiria passar à posteridade como um derrotado, exposto ao vexame, eternizado por um fracasso. Nesse sentido, encontrou, na morte, a sua vitória.

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Brizola, sua mulher Neusa e Getúlio
Brizola e Jango eram seguidores do trabalhismo. Darcy Ribeiro via o trabalhismo como uma espécie de socialismo. Você concorda?

Lira: Na verdade, Getúlio era um homem pragmático, que se amoldava de acordo com as circunstâncias, para além das convicções ideológicas. Em 1929, em entrevista a um jornal gaúcho, disse que sua grande inspiração política era, textualmente, “a renovação criadora do fascismo de Benito Mussolini”.  No momento em que a democracia e o sistema representativo se encontravam em xeque, com a quebra da Bolsa de Nova York e a Grande Depressão norte-americana, ele se posicionava como um simpatizante assumido dos regimes autoritários europeus, incluindo o nazifascismo, que surgia como pretenso antídoto para a crise do regime democrático. Chegou, inclusive, a cogitar o apoio brasileiro ao Eixo durante a Segunda Guerra, mas acabou aderindo aos Aliados por questões econômicas e estratégicas.

Alguns avanços de Getúlio na área trabalhista são modernos até hoje, tanto é que sofrem críticas dos setores mais conservadores da economia. Neste aspecto, pode-se dizer que Getúlio era “de esquerda”?

Lira: Quando Getúlio, após a queda em 1945, retornou ao cenário político em 1950, em pleno contexto da Guerra Fria, a defesa que sempre fizera do Estado intervencionista o colocou, pelo menos no plano do discurso, à esquerda do espectro político. Enquanto seus adversários pregavam a manutenção do alinhamento incondicional aos Estados Unidos, interpretando assim de modo esquemático qualquer negação ao liberalismo como uma opção pelo comunismo russo, ele passou a defender a “democracia social”, reforçando a ideia geral de que se convertera ao socialismo. Tratava-se, é claro, de uma simplificação, de um reducionismo. Getúlio sempre foi um anticomunista ferrenho. E, a rigor, com sua política de industrialização e de urbanização do país, promoveu a gênese do próprio capitalismo no Brasil.

Mesmo seu primeiro governo tendo sido uma ditadura severa, você considera que Getúlio teve qualidades como presidente? Quais?

Lira: Getúlio, com todas as suas inúmeras contradições, deixou pelo menos dois grandes legados para o país. O primeiro foi o seu projeto nacional desenvolvimentista, que nos legou por exemplo a Petrobras, a siderúrgica de Volta Redonda e o BNDES, conduzindo assim um país agrário, semifeudal, monocultor, para o caminho da industrialização. O outro legado, sem dúvida, foi a vasta legislação trabalhista, que impôs um relativo equilíbrio na relação entre capital e trabalho e representou um inegável avanço para uma nação que, numa perspectiva histórica, se encontrava recém-saído da escravidão. Em síntese, Getúlio ajudou a modernizar o Brasil. Mas, mesmo nesse caso, é preciso evitar o pensamento simplista. As conquistas no campo do trabalhismo não podem ser entendidas como um gesto benevolente e magnânimo de um “pai dos pobres”. Elas foram conquistas da própria classe trabalhadora. Getúlio teve a sensibilidade histórica e a astúcia política de responder a uma demanda pré-existente. O movimento sindical dos anos 20, controlado por anarquistas e comunistas, pressionava por mudanças. Ao decretar leis favoráveis ao trabalhador, Getúlio tomou-lhes a bandeira e passou a tutelar o sindicalismo, por meio do Ministério do Trabalho. Bom lembrar que não havia sindicatos livres durante o Estado Novo.

Por último: por que São Paulo não tem nenhuma avenida com o nome dele?

Lira: A rusga dos paulistas com a memória de Getúlio remete, é óbvio, ao trauma da Revolução Constitucionalista de 1932. Contudo, como bem salientam vários historiadores e cientistas políticos, São Paulo acabou sendo o grande beneficiado pela política de industrialização da chamada Era Vargas. Com um detalhe: na sua volta ao poder, nas eleições de 1950, Getúlio teve a campanha financiada por membros da emergente burguesia industrial paulista.

Clique aqui para ler mais sobre Getúlio e o golpe de 1964 no especial da EBC, de onde reproduzo este vídeo com Lira Neto:



Cynara Menezes
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Marina Silva rompe com Marina Silva

Marina também rompeu com a discrição de Marina
MONTE HIMALAIA - Após romper com o PT, com o PV, com a Teologia da Libertação e com Carlos Siqueira, Marina Silva resolveu se desvincular de Marina Silva. "Enquanto o tempo não trouxer teu abacate, amanhecerá tomate e anoitecerá mamão", justificou, enquanto rompia com o desafio do balde de soja na cabeça.

Em campanha pela preservação da abobrinha orgânica, Marina Silva apresentou uma chapa transgênica para concorrer às eleições. "Não há mais sustentabilidade para um clima de comunhão entre as Marinas que habitam em mim", filosofou. Em seguida, discordou de si mesma e desdisse o oposto do que disse antes, criando um ciclo virtuoso de harmonia etimológica.

Enquanto elaborava seu plano de governo, Marina disse concordar com os pontos de vista de Eduardo Giannetti da Fonseca e de João Pedro Stédile sobre a política econômica. "Tudo nascerá mais belo, o vermelho faz do azul com o amarelo o elo com todas as cores para enfrentar PIBs gris", cantarolou.

No final da tarde, Marina Silva tentou impugnar a candidatura de Marina Silva. Depois, voltou atrás.

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Da Globo ao gabinete

No Rio Grande do Sul, ex-apresentadores da RBS 'lideram numericamente' as pesquisas para o governo e o Senado

Ana Amélia Lemos e Lasier Martins eram apresentadores da RBS
Há cinco anos, Ana Amélia Lemos e Lasier Martins eram colegas de bancada no Jornal do Almoço, programa líder de audiência no Rio Grande do Sul. A jornalista comentava política e economia de Brasília. Lasier, de Porto Alegre, falava sobre temas variados, de tipos de uvas à isenção fiscal. Após as aparições diárias na televisão durante mais de duas décadas, os dois podem se tornar, respectivamente, governadora e senador do estado no próximo ano.

A disputa com os candidatos do PT está apertada, com uma leve vantagem numérica dos apresentadores. Na última pesquisa Ibope, Ana Amélia, atualmente senadora pelo PP, tinha 36% dos votos e o atual governador, Tarso Genro (PT), 35%, em um empate técnico. Na mesma pesquisa, Lasier Martins também empatava com Olívio Dutra (PT). O jornalista tem 30% dos votos contra 27% do ex-governador petista.

O empate escancara a polarização da disputa política no Rio Grande do Sul. De um lado, os petistas dizem que os “candidatos da RBS” refletem um projeto em defesa do estado mínimo, de isenções fiscais a grandes grupos empresariais e com pouca preocupação social. Este projeto, segundo eles, seria encampado pela emissora e os candidatos vindos dela.

“A nossa democracia está em implementação. Os partidos são pouco valorizados e o sistema político é deformado por relações regionais e oligárquicas. Não há um sistema político que dê coesão aos partidos por identidade ideológica e programática,” diz o governador Tarso Genro. “A pauta da nação brasileira é feita pela Globo. E os partidos políticos não desafiam isso, nem o meu consegue.”

Do outro lado da disputa, Ana Amélia e Lasier negam fazer parte de um projeto da emissora, e também da existência de direita e esquerda.  Ana Amélia, eleita senadora pelo PP em 2010, diz que o PT “olha para trás” ao fazer este debate entre dois projetos. “Depois da queda do muro de Berlim, estabelecer um debate ideológico é forçar a barra. O século XXI não está dividido entre esquerda e direita, mas entre rápidos e lentos,” diz a senadora.

Evitando as “ideologias”, o discurso de Ana Amélia não é focado em um debate político, mas em termos como eficiência, honestidade e meritocracia. A candidata diz ter implantado um sistema de metas para seus funcionários no Senado Federal, onde os que trabalham mais são mais bem remunerados de acordo com seu desempenho.

Ao exemplificar que está à parte das disputas ideológicas, Ana Amélia cita o apoio que deu à deputada federal Manuela d'Ávila (PCdoB) na última disputa à prefeitura de Porto Alegre. Segundo a senadora, uma “jovem bonita competente”.

Ana Amélia diz ter dificuldade de transmitir a mensagem de que pode “fazer alianças com pessoas” porque o seu partido sofre preconceito ao ser chamado de reacionário e conservador. O PP é o principal herdeiro da Arena, legenda que deu sustentação à ditadura no Brasil. Para Ana Amélia, isso não significa que ela tenha uma relação com o passado da legenda.

“Na época da revolução, eu estava interna em um colégio lá em Lagoa Vermelha [cidade no interior do Estado]. Estava cuidando dos meus estudos, não tinha ideia do que acontecia no país. E isso não significa que era alienação, eu estava realmente tentando sobreviver,” diz a senadora.

Apesar de ter um discurso de eficiência semelhante ao de Ana Amélia, Lasier está abrigado em outra parte do espectro partidário. Um ano antes do pleito, o apresentador se filiou ao PDT, legenda que tem como principal referência Leonel Brizola, opositor ferrenho da ditadura. Antigo aliado de Brizola, Dutra diz que Lasier está “travestido de trabalhista” por ser um “puxa-saco de empresários”.

As declarações de Dutra foram feitas diante das críticas de Lasier à sua gestão no governo do estado (1999-2002). Ao assumir o governo, Dutra reviu a isenção fiscal dada pelo governo anterior para que a norte-americana Ford instalasse uma fábrica em Guaíba, cidade ao lado da capital gaúcha. Diante das novas condições estipuladas por Dutra, a empresa desistiu do negócio e instalou o parque industrial na Bahia, devido à influência do senador Antônio Carlos Magalhães.

Apesar da defesa da empresa, Lasier diz que se considera um trabalhista. “Eu trabalhava dez horas por dia, fazia três programas. Isso não é um operário? Às vezes, quando eu me despedia na televisão, eu dizia ‘por hoje, esse operário da comunicação se despede,’” fala o jornalista.

Lasier diz também que o ex-governador gaúcho Leonel Brizola, figura mais conhecida do PDT, era uma referência do seu pai. Segundo o jornalista, entrar neste partido foi uma forma de homenageá-lo.

Brizola foi o crítico mais conhecido da emissora  em que Lasier trabalhou durante 23 anos — e pela qual tomou um choque no ano 2000 que se tornou famoso na internet. O gaúcho dizia que a Globo tinha um “poder imperial”, criticando ela inclusive em seus programas eleitorais.

O candidato do PDT não compartilha da opinião de Brizola, mas Dutra e Genro ainda a mantêm. Genro diz que “o sistema de mídia [do Rio Grande do Sul] tem um predomínio de centro direita. Ela cobre exclusivamente os problemas, ela não cobre as soluções.”

Em e-mail à CartaCapital, o diretor-executivo de Jornalismo do Grupo RBS, Marcelo Rech, afirmou que “as afirmações do governador não são diferentes de todos os seus antecessores até onde a memória alcança. É normal e até previsível que qualquer governante, de qualquer espectro político, se sinta injustiçado diante de uma cobertura jornalística independente.”

O diretor da RBS também afirmou que “a posição do grupo em relação a estes dois ex-comunicadores [Ana Amélia e Lasier Martins] é de absoluto distanciamento. A empresa não estimula de forma alguma candidaturas, mas não tem poder legal de impedir que comunicadores decidam se candidatar.”

Dutra, por sua vez, diz que irá defende a votação de um marco regulatório da mídia, projeto que revisaria as concessões das televisões e rádios no país. “Temos um problema sério no país para a consolidação da democracia, essa questão é um marco regulatório de empresas midiáticas. Não estamos falando da liberdade de imprensa e expressão, mas de como se montam grupos que monopolizam regionalmente a produção da notícia, se considerando fonte da notícia,” diz Dutra.

A proposta, porém, foi retirada do programa de Dilma Rousseff antes de ser apresentada, graças a criticas feitas por veículos de imprensa. Por enquanto, o oligopólio criticado por Tarso e Dutra não tem perspectiva de ser revisto.

Piero Locatelli
No CartaCapital

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O que deve mudar na Veja agora que a revista não terá um Civita no controle editorial

Fábio Barbosa e Roberto Civita
O derramamento de sangue nos altos escalões da Abril nesta segunda-feira não surpreende.

O novo presidente executivo da editora Abril, Alexandre Caldini, foi para lá para comandar o desmantelamento da divisão de revistas.

Sobrarão, com o massacre da internet, quatro ou cinco títulos, e bem diminuídas, num espaço de poucos anos.

E a Abril tem ainda uma estrutura feita para produzir dezenas de revistas que quase ninguém mais quer ler e nas quais cada vez menos anunciantes estão dispostos a anunciar.

Demissões, fechamento de revistas, cortes de custos desesperados — este é o futuro da Abril.

Então, não há surpresa nas dispensas de hoje.

O que chama a atenção é que, pelo comunicado interno da Abril, pela primeira vez a redação da Veja vai responder a alguém que não seja um Civita.

Ao executivo Fabio Barbosa, presidente da Abril Mídia, responderá o diretor de redação da Veja, Eurípides Alcântara.

O fundador da Abril, Victor Civita, controlou a Veja nos primórdios, ao lado do filho Roberto. Depois, ainda vivo, o patriarca entregou tudo a Roberto.

Morto Roberto, num primeiro momento a Veja esteve sob a supervisão do filho caçula de Roberto, Victor Civita Neto.

São previsíveis duas coisas sob Barbosa.

Primeiro, um forte ajuste nas despesas da revista. Sob a proteção de Roberto, um apaixonado sem limites pela Veja, a revista virtualmente passou ao largo das demissões ocorridas nos demais títulos da Abril.

A Veja tem cinco redatores-chefes, uma extravagância que nem a Time nos anos de ouro das revistas semanais de informações ousou cometer.

Barbosa chega sem os compromissos de Roberto Civita — herdados pelos filhos — com as pessoas-chave da Veja.

Não deve estar nada fácil o clima na revista. Na realidade de hoje — publicidade e circulação em queda livre — uma redação do porte da Veja não se sustenta.

A segunda mudança previsível é na linha editorial da revista.

Fábio Barbosa, ao longo de sua carreira, se caracterizou por posições muito mais progressistas — ou menos radicais no campo da direita — do que o que se lê na Veja.

Era conhecido por suas posições a favor da sustentabilidade, por exemplo — coisa que para a Veja é bobagem de esquerdistas interessados em atrapalhar o capitalismo.

A Veja acabou se transformando num depósito do pensamento ultradireitista de Olavo de Carvalho, nela representado por nomes como Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Felipe Moura Brasil e Lobão, para citar uns poucos entre tantos.

Barbosa, pode-se imaginar, tentará reconduzir a Veja para o terreno que ela ocupou nos anos 1980, quando era considerada a melhor escola de jornalismo do Brasil.

Isso significa dar a ela feições liberais, pró-livre iniciativa, ao estilo americano — mas sem babar.

Significa também deixar de ser panfleto para ser uma revista propriamente dita.

No mundo, há um exemplo que pode servir de modelo: a inglesa Economist. É uma revista de centro-direita que faz um jornalismo sério, de alto nível.

Modelo, há.

O que é difícil é recuperar a credibilidade destruída nos últimos anos por um jornalismo panfletário, manipulador e inconsequente.

De toda forma, vai ser interessante observar o comportamento da revista nas próximas semanas.

Paulo Nogueira
No DCM
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Marina ainda sem posição consolidada para ir ao 2º turno

Para os que consideram consolidado o crescimento e a posição já certa no 2º turno da candidata ao Planalto pelo PSB, ex-senadora Marina Silva — nós contestamos essa certeza semana passada —, funciona como uma ducha de água fria duas reportagens publicadas nestes dias pela Folha de S.Paulo. Resultado de levantamento próprio do jornal, as duas reportagens mostram que Marina perdeu apoios costurados por Eduardo Campos em pelo menos metade dos Estados (em 14 dos 27 Estados) e que O PSB tem chances reais de vencer em seis Estados.

Não tem essas chances em todos os Estados relacionados pela Folha e o fato dela ter perdido apoio em 14 Estados liquidando os acordos feitos por Eduardo Campos tornam sua posição vulnerável. Um dado a conferir, ainda antes do 7 de setembro, como dissemos em nota anterior semana passada, o que talvez não seja perceptível já nas duas pesquisas que saem esta semana, a do Ibope amanhã e a do Datafolha na próxima 6ª feira.

Em uma das reportagens, sobre o fato de Marina rejeitar subir em metade dos Estados em palanques acertados por Eduardo Campos por rejeitar os acordos feitos por ele e  para manter sua posição que era contraria aos acertos, isso só enfraquece a sua candidatura. Em 14 Estados ela não terá os candidatos a governador, senador, deputado estadual e federal fazendo a sua campanha.

Folha erra ao apontar Estados em que o PSB vencerá

Na outra reportagem a Folha diz que o PSB tem chances reais de vencer em Amapá, Roraima, Paraíba, Pernambuco e Espírito Santo, e em Brasília (Distrito Federal). Mas, a Folha se esqueceu de informar que em todos esses Estados os candidatos a governador pelo PSB estão em 2º lugar nas pesquisas, ou pior, em 3º. E se esqueceu de informar, também, de lembrar que o PSB governava o Ceará e o Piauí, Estados em que não vencerá em outubro.

Se vocês analisarem com isenção, objetivamente, constatarão, como nós, que na realidade o PSB corre o risco de sofrer uma senhora derrota eleitoral, ao contrário do que afirma a Folha.

Marina foi contra a aliança do PSB com os tucanos em São Paulo e mesmo agora, em sua condição de candidata à Presidência da República tendo assumido a cabeça da chapa no lugar de Eduardo Campos, ela se recusa a apoiar a reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB). Já avisou, como também em relação aos outros 13 Estados, que não subirá no palanque dos tucanos paulistas.

São Estados em que as alianças foram fechadas contra a sua vontade. Neles ela defendia candidaturas próprias ou os candidatos majoritários tem posições políticas completamente diversas às da ex-senadora. Dentre outros Estados que romperam com Marina — alguns de grande peso eleitoral — e que ela não terá o PSB em sua campanha estão Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná e Rio de Janeiro.

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Adivinhe quem trouxe Jânio Quadros para votar?


Existe coisa mais antiga do que "socialista" que não acredita em "socialismo" e não sai de perto de banqueiro?

Não vamos nos enganar: a mesma elite econômica que fez o possível para sustentar Aécio Neves até aqui prepara seu embarque na campanha de Marina Silva. É uma questão que se resolve na próxima pesquisa.

É constrangedor mas é verdade.

Os editoriais de jornal, o tom de crítica leve, as advertências e conselhos dirigidos a Marina traduzem um movimento de quem prepara o terreno para fazer uma virada mudança em suas opções políticas e negocia cada passo.

O esvaziamento notório de Aécio, quinze dias depois da morte de Eduardo Campos, ajuda a revelar o caráter superficial dos compromissos políticos de seus aliados de véspera. Sua campanha nunca se apoiou num pacto político em profundidade mas numa aliança puramente instrumental, de quem contrata um serviço e define uma tarefa.

A prioridade, vamos deixar claro, é vencer Dilma. Sem isso, o candidato do PSDB não tem serventia. Não estamos falando de ideias, de um projeto de país, de luta ideológica e tantas palavras nobres que se costuma citar para maldizer a política brasileira. É poder e poder.

Depois de passar os últimos anos tratando Marina Silva como uma concorrente despreparada, dogmática, candidata a transformar o exercício da presidência num desastre permanente, aquilo que nossos sociólogos chamam de elite porque o termo “burguesia” ou “ classe dominante” fica pesado demais num discurso liberal, é obrigada a engolir o que disse. A pergunta que interessa é saber quem está melhor preparado para interromper 12 anos de governos Lula-Dilma.

A vantagem comparativa de Marina sobre Aécio é a falta absoluta de compromissos reais. Cabe tudo em sua caravana.

Através dela, a política brasileira regride em direção a Jânio Quadros. É a candidata que condena a “velha política” mas não consegue explicar-se sobre um simples avião de campanha. Mantém com o PSB relações típicas de um partido de aluguel — que usará enquanto lhe for conveniente — mas agora mostra-se como o “novo.”

Existe coisa mais antiga do que “socialista” que não acredita em “socialismo” e não sai de perto de banqueiro?

Lembram-se de Fernando Collor, o caçador de marajás que promoveu um furacão sem partido, apoiado pela turma dos negócios & do poder porque era o melhor para vencer o Brizola?

Para empregar uma linguagem típica de seus aliados, o universo de Marina é o populismo que não tem referências claras, cresce nas emoções e na confusão política. Por isso se fala em governar com FHC e Lula.

Isso sempre acontece quando o conservadorismo disputa uma eleição na qual não pode mostrar a própria face. 

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Marina Silva em revista


A imprensa abre a semana estimulando especulações sobre uma reviravolta nas perspectivas eleitorais com o ingresso da ex-ministra Marina Silva, do PSB, como candidata a presidente. Como não podem publicar o balanço do acompanhamento feito pelos comitês de campanha, porque a legislação pune com pesadas multas quem divulga números sem registrar a pesquisa na Justiça Eleitoral, analistas e repórteres saem a campo buscando informações que confirmem cada aposta. O resultado pode ser visto no modo como as principais revistas semanais de informação se referem ao novo quadro.

Basicamente, o saldo dos acontecimentos da semana produz mais perguntas que respostas e demonstra o propósito da imprensa de domesticar o fenômeno eleitoral nascido nos seringais do Acre. Sintetizando as incertezas que acompanham a candidata, a revista IstoÉ questiona: “Quem decifra Marina? — Oficializada como candidata pelo PSB, Marina Silva entra no jogo eleitoral e demonstra fôlego para chegar à Presidência da República, mas hoje é uma esfinge política” diz a publicação.

Carta Capital, em editorial intitulado “Aécio que se cuide”, opina que “Marina Silva, por ora, ameaça em primeiro lugar a candidatura tucana”. Solitária publicação no campo político que não vive em guerra declarada com o governo do Partido dos Trabalhadores, a publicação comandada por Mino Carta aposta que o ingresso da ex-ministra na cabeça de chapa carrega um potencial mais perigoso para o candidato do PSDB do que para a presidente que tenta a reeleição. A revista explora contradições entre o projeto “sonhático” de Marina e o apoio que ela recebe de personagens carimbados na política do PSDB, como os economistas André Lara Resende e Eduardo Giannetti da Fonseca.

A revista Época segue na linha da dúvida: “Até onde ela pode ir? — Em 2010, Marina Silva era uma candidata de protesto. Agora, tem chance de ganhar a eleição. Precisa, no entanto, mostrar ao eleitor que tem propostas sólidas e sabe fazer política”, diz a revista do grupo Globo.

Veja questiona: “Quão sustentável é Marina Silva?”, mas nunca se sabe quando Veja é uma revista de informações ou um panfleto de campanha.

Portanto, fiquemos no campo do jornalismo.

A esfinge do Acre

Desde sábado (23/8), quando o assunto foi levantado pelo Estado de S.Paulo, os jornais vasculham detalhes da morte de Eduardo Campos e levantam a suspeita de que o avião Cessna Citation que ele usava na campanha fora comprado por um sócio seu, com dinheiro de caixa 2 de campanha eleitoral. Por esse caminho, pode-se desmontar o discurso central da campanha do PSB, calcado na proposta de “uma nova política” distante dos esquemas de financiamento que podem comprometer a independência dos governantes.

Se as investigações da Polícia Federal confirmarem que Eduardo Campos tinha alguma participação na compra do jato, seu legado pode se transformar em um fantasma a assombrar a candidatura de Marina Silva. Essa possibilidade fica estocada nos arquivos da imprensa, para ser usada caso a candidatura da ex-ministra desidrate perigosamente as chances do ex-governador Aécio Neves, de longe o predileto das grandes empresas de comunicação.

Como alternativa, para a eventualidade de não ser possível conter a maré de apoio a Marina Silva, que se desenha nos levantamentos em mãos dos coordenadores de campanhas, a imprensa trata de constranger a candidata a assumir compromissos com um programa de governo mais palatável.

Não é por sua aura de filósofo que o economista Eduardo Giannetti da Fonseca tem conquistado grandes espaços nos jornais nos últimos dias: já foram duas páginas inteiras de amigáveis entrevistas em apenas 48 horas, nas quais ele procura amenizar os temores do mercado financeiro quanto às verdadeiras intenções de Marina Silva. O problema é que, ao apresentar Marina como uma personagem confiável ao grande capital, a imprensa espanta seus potenciais eleitores, em especial aqueles jovens que sentem a necessidade de mudanças na política mas não sabem o lugar certo de colocar seus desejos.

A imprensa, sim, sabe identificar com precisão onde estão seus interesses e com quem pode contar para atendê-los. Por enquanto, tenta decifrar a “esfinge do Acre”. Se ela não atender a seus interesses, a imprensa é que vai devorá-la.

Luciano Martins Costa
No OI
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Separados por um Steven Spilberg

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A nem tão nova seleção

É difícil dizer por quanto tempo o 7 a 1 envenenará nossa memória coletiva como um rato morto no poço. O trauma da derrota para o Uruguai em 50 tinha se diluído no tempo e só a vaga possibilidade de a final da Copa de 2014 repetir a final de 50 justificava que fosse lembrado. A derrota de 50 ficou atravessada na garganta de uma geração, mas foi finalmente engolida e mais ou menos digerida. Aí veio o 7 a 1. Quanto tempo levaremos para engolir o 7 a 1? Quantas gerações?

Eu decidi fazer minha paz em separado com o 7 a 1. Me consolei com o seguinte raciocínio, meio desesperado: o 7 a 1 foi uma aberração. Nenhuma lógica o explica, nenhuma explicação resiste à razão. E é impossível construir qualquer coisa em cima de uma aberração. Teses não ficam de pé, conclusões desmoronam, até a indignação afunda. Se o resultado final fosse, digamos, Alemanha 3, Brasil zero, seria um vexame com significado.

Um vexame aproveitável, uma lição, um castigo pelos nossos pecados, começando pelo da soberba. O 7 a 1 não significou nada. O 7 a 1 não existiu. Ou existiu num universo à parte, só dele. A CBF deveria pedir a anulação do jogo e sua repetição, desta vez no mundo real, onde há lógica e as coisas costumam ter sentido.

Pela sua convocação para a nova seleção não dá para ver se o Dunga concorda que é melhor fingir que o 7 a 1 não houve ou se achou melhor partir do 7 a 1 e das culpas pelo 7 a 1. Da seleção do Felipão foram chamados dez. Supõe-se que os 13 que sobraram foram considerados mais culpados pelo desastre do que os chamados, ou ficaram mais identificados com o fracasso.

A não convocação do Marcelo e a reconvocação do Hulk e do Ramires desmentem esta impressão. Marcelo foi um dos que se salvaram do naufrágio e Hulk e Ramires dois dos que afundaram mais notoriamente. David Luiz era uma unanimidade e ninguém nega seu valor, mas revelou-se ser o que no meu tempo se chamava de “peladeiro”, aquele zagueiro que, por impaciência ou imprudência, desguarnece seu time e se lança à frente o tempo todo.

E, naqueles seis minutos em que a Alemanha marcou quatro, ele e o Dante certamente não estavam onde deveriam estar. Mas imagino que David Luiz será o capitão da nova seleção como foi do Felipão. Um sinal de que Dunga não ignorou o 7 a 1 e quer um grupo dividido entre culpados perdoados e inocentes.

Luís Fernando Veríssimo
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Roger Abdelmassih: veja imagens e informações da prisão do ex-médico



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Pedro Simon entra na corrida ao Senado

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=6328

Tucano do PMDB
Pedro Simon é um velho guerreiro. Nada mais precisa provar. Estava disposto a concorrer ao Senado, mas queria que o PMDB lhe pedisse isso. Estranhamente o partido não quis dar esse passo. Havia outros interessados mais novos. Simon ficou na dele.

Era explícita a sua posição: só concorreria se o partido pedisse.

O PMDB fingia entender que Simon não queria concorrer.

Ou devolvia-lhe a bola: se quisesse concorrer, velho de guerra, que dissesse.

Por vias transversas, o jogo recomeçou.

Desta vez, o PMDB pediu de joelhos.

Simon atendeu.

Será candidato.

Lasier Martins (PDT/RBS) entrou no jogo com a partida ganha.

Provocou a volta do aposentado Olívio Dutra (PT) ao campo de batalha.

Agora é Simon que retorna.

Essa briga é boa demais para ficar fora dela. Os menos ousados argumentavam: Simon não vai se expor a encerrar a carreira com uma derrota. Erro. Simon quer se expor ao gozo imenso de uma disputa de gigantes. É afrodisíaco.

Há muito que uma disputa ao Senado não envolvia três pesos tão pesados.

Tudo está em aberto.

Façam suas apostas, cavalheiros.
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Como Abílio Diniz é como gestor?

Esportista obsessivo
Abílio Diniz deu uma entrevista à Folha que viralizou hoje.

Ele se declarou um “bom gestor”. E afirmou que, nesta condição, jamais conseguiu liderar mais que doze pessoas diretamente.

Ele estava se referindo aos 39 ministérios de Dilma. Não dá, segundo ele, para você comandar eficientemente 39 pessoas sob você, e isto tornaria o país “ingerenciável”.

No geral, apesar desse adjetivo, a entrevista teve um tom positivo e otimista sobre o Brasil. Os investidores estrangeiros cobiçam o mercado brasileiro por suas dimensões e por seu potencial, disse Abílio Diniz.

E qualquer dos três candidatos, em sua avaliação, poderá fazer um bom governo.

Tudo isso dito, queria falar um pouco sobre Abílio Diniz como executivo.

Ele é mesmo um bom gestor, como afirmou?

Em meus anos de jornalismo de negócios na Exame, conheci um bocado de Abílio Diniz.

Sua filha Ana chegou a fazer um estágio num suplemento da revista.

Vi, na minha carreira, poucos gestores tão centralizadores e tão controladores quanto Abílio Diniz.

Ele herdou o Pão de Açúcar de seu pai, Valentim. Levou a melhor na disputa pela sucessão com os irmãos, nenhum dos quais revelou talento expressivo.

Sob Abílio Diniz, o Pão de Açúcar cresceu, sobretudo quando a economia brasileira era fechada.

Quando o mercado brasileiro se abriu à competição estrangeira, as coisas se complicaram. Num determinado momento, o Pão de Açúcar não teve alternativa senão fazer parceria com um sócio estrangeiro.

Não tardou muito e se percebeu que a empresa, por maior que fosse, era pequena para Diniz e o novo sócio.

Depois de sucessivas brigas, o novo sócio, como tinha mais força, conseguiu tirar Diniz do caminho.

Em seus tempos de Pão de Açúcar, Abílio Diniz se notabilizou também por fritar todos os principais executivos que respondiam a ele, um clássico nas empresas familiares.

Ele não queria sombra, e nem contestações. E também exigia que seus comandados fossem réplicas dele.

Diniz tinha – tem — uma fixação obsessiva por esportes. Você não entrava na turma se não compartilhasse dessa paixão.

Isso significa o seguinte para um executivo do Pão de Açúcar: acordar cedíssimo e estar preparado para uma sessão prolongada de exercícios antes de começar o expediente.

Ou você virava um esportista militante e entusiasmado ou o Pão de Açúcar não era para você.

Isso valia para a família, e para os agregados.

Trabalhei, na Abril, ao lado de Luiz Felipe Dávila, genro de Abílio Diniz e fundador da Bravo.

Dávila foi contratado como executivo da Abril quando esta comprou a Bravo, fechada alguns anos depois.

O casamento com uma Diniz fizera de Dávila um Diniz. Fazia esportes alucinadamente. Numa ocasião, ao correr de bicicleta em alta velocidade como se fosse Lance Armstrong, levou um tombo espetacular que o obrigou a se afastar do trabalho por vários dias.

Imagino que, sem Diniz, a prática de esportes entre os executivos do Pão de Açúcar tenha diminuído consideravelmente.

A vaidade se manifestava nas pequenas coisas. Uma vez demos uma capa com ele. Na semana seguinte, ele telefonou. Queria saber se sua capa vendera mais que as demais.

Se é um bom gestor?

Bom, eu não gostaria de trabalhar sob suas ordens, definitivamente.

Mas aceito que muitas pessoas também não gostaram de trabalhar sob as minhas.

Paulo Nogueira
No DCM
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Maldição: Nenhum voo para abastecer balneário que completou 2 anos fechado


Houve um tempo em que as piscinas do balneário de Montezuma, na região do Alto Rio Pardo, em Minas Gerais, ficavam abarrotadas de gente.

A foto acima foi feita diante de um dos restaurantes da cidade, de comida muito honesta, numa recente noite de domingo.

O vazio de uma das principais ruas do centro reflete a “maldição” que se abateu sobre o município, de mais ou menos 8 mil habitantes, desde que o prefeito decidiu reformar o balneário.

A dona do restaurante nos disse que sobrevivia “de teimosa”, graças especialmente às quentinhas que fornece a moradores da cidade.

Oficialmente, o incentivo ao turismo foi a explicação dada pela assessoria do candidato Aécio Neves para a reforma do aeroporto de Montezuma, que custou cerca de R$ 300 mil e foi feita quando ele era governador de Minas Gerais. O aeroporto, nunca homologado pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), é hoje um elefante branco, praticamente abandonado.

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Fotos Luiz Carlos Azenha
No caminho entre Montezuma e Mortugaba, no sul da Bahia, fica a Perfil Agropecuária e Florestal, de cerca de 900 hectares, que pertenceu ao falecido pai de Aécio — ex-deputado estadual e federal — e hoje faz parte do patrimônio do candidato do PSDB ao Planalto.

Deu em O Globo, em reportagem assinada por Chico de Gois, a explicação da assessoria de Aécio para a obra do aeroporto. O argumento: Montezuma “está situada em uma das regiões mais pobres do estado e tem como principal eixo estratégico para o seu desenvolvimento a atividade turística a ser desenvolvida a partir do balneário de água quente”.

Fato. Porém, se este era o plano, por enquanto inapelavelmente fracassou.

Seria jornalisticamente desonesto atribuir ao ex-governador Aécio Neves a sucessão de erros que se deu desde a reforma do aeroporto, em 2008. Talvez fosse mais adequado falar de Montezuma como um microcosmo da política brasileira, onde as diferentes esferas de governo não se falam, onde planos de governos são descontinuados, onde grupos políticos disputam o poder sem considerar o interesse público, onde há muita improvisação e, certamente, corrupção.

Experimentei pessoalmente as águas quentes de Montezuma em um hotel que fica bem diante do balneário, hoje tão fantasma quanto o aeroporto da cidade.

Dos 22 quartos disponíveis na pousada, apenas três estavam ocupados. O funcionário da recepção nos disse exatamente o mesmo que a dona do restaurante repetiria mais tarde: o proprietário manteve o empreendimento aberto “de teimoso”.

Tentou cavar um poço em sua propriedade, em busca da mesma água quente do balneário, mas não foi bem sucedido. Acabou fazendo um acordo com o prefeito, que permitiu ao dono do hotel transferir a legítima água quente de Montezuma para a piscina do estabelecimento.

Foi onde tive um prazeroso banho nas águas naturalmente quentes ao lado de dois outros hóspedes.

Cópia de agua suja
Água parada numa das piscinas do balneário, que atraia turistas de toda a região
O retrato que encontramos em Montezuma, hoje, contrasta em muito com o do passado, segundo o relato de moradores. Em fins-de-semana, dezenas de ônibus chegavam trazendo turistas para as termas, com vários piscinões abastecidos com água corrente, com temperaturas de 37 a 41 graus centígrados.

Não há registro de que o asfaltamento da pista do aeroporto tenha de fato incentivado a chegada de visitantes, já que nunca houve vôos regulares para Montezuma. Era turismo popular, através de ônibus fretados, com a entrada no balneário custando em tempos mais recentes 20 reais. Nos fundos ficavam apartamentos para aluguel e uma área com mesas e bancos de concreto.

Hoje, tudo abandonado.

Montezuma, em si, é uma cidade bastante simpática. Pinturas rupestres na serra da Macaúba são outro atrativo que poderia compor um “pacote” capaz de atrair turistas. Mas é uma proposta altamente discutível, do ponto-de-vista econômico, se essa atividade seria mesmo suficiente para sustentar vôos regionais. Só o tempo dirá.

Moradores afirmam que o auge do otimismo local se deu logo depois da obra no aeroporto, quando houve forte especulação sobre investimentos bilionários na exploração de minério de ferro no norte de Minas, uma das regiões mais pobres do Estado. Como informamos anteriormente, Montezuma deu um salto considerável no IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano, graças a uma série de investimentos estaduais e federais, diretos ou através de projetos sociais. Porém, o IDH regional continua bem abaixo da média de Minas Gerais.

As jazidas de minério de ferro, estimadas em 20 bilhões de toneladas de baixo teor, teriam o poder de transformar o panorama regional se o lucro com a exploração revertesse para as populações locais, o que nem sempre é o caso. Em geral, o dinheiro enriquece mesmo as grandes mineradoras. De qualquer forma, um jornal mineiro chegou a falar em R$ 7 bilhões despejados no norte de Minas até 2016, dinheiro que fez bocas salivarem, mas que pelo menos até agora nunca se materializou.

Independentemente da promessa de riqueza, nunca ficou claro o motivo do investimento no aeroporto ter sido destinado a Montezuma, de 8 mil habitantes, e não a cidades bem maiores, como Taiobeiras ou Rio Pardo de Minas — ambas com cerca de 30 mil habitantes —, especialmente considerando que esta última está na lista oficial de municípios cujo subsolo contém jazidas de minério de baixo teor de ferro.

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Houve até o sonho de que a modesta construção no aeroporto daria lugar a um terminal para receber os homens da mineração
Segundo a Folha Regional, que traz notícias da região do Alto Rio Pardo, foi o ex-prefeito Erival José Martins quem deu início às obras de reforma do balneário. O dinheiro para a revitalização, R$ 1,7 milhão, veio do governo de Antonio Anastasia, sucessor de Aécio Neves, também do PSDB. A empresa contratada foi a Construtora JRN Ltda.

Porém, dois anos completos já se passaram e o balneário nunca reabriu. O comércio que dependia do turismo definhou. Hotéis e restaurantes que dependiam dos visitantes entraram em crise.

Moradores ainda frequentam piscinas menores, nos fins de semana, às quais tem acesso sem pagar.

Enquanto tomam banho sob jatos de água quente, descrevem uma intensa briga entre facções políticas locais.

Estimam que a renda passada do balneário, se bem investida, teria sido suficiente para mantê-lo permanentemente aberto. Alguns elogiam o ex-governador Aécio Neves, citando investimentos estaduais especialmente nas estradas da região. Porém, ninguém consegue explicar convincentemente o motivo da existência da imensa pista asfaltada, de cerca de 1.300 metros, bem na entrada da cidade. “Coisa do Aécio”, balbuciou mineiramente um dos entrevistados. A cidade foi informada do suposto escândalo através do Jornal Nacional.

Brincando, sugiro a um grupo de banhistas que a cidade está sofrendo de uma variedade da maldição de Montezuma, a praga que o imperador azteca rogou no invasor espanhol Hernán Cortés.

Alguns se mostram desconfiados do forasteiro cheio de perguntas.

Não sei se é fato, mas um deles explica que Montezuma é o sobrenome do caçador que descobriu a fonte de água quente, que no tempo dos vaqueiros se tornou famosa no norte de Minas e no sul da Bahia.

Santana da Água Quente foi o primeiro nome do povoado, que só se tornou município nos anos 90, com o nome de Montezuma.

À minha brincadeira o banhista brinca de volta: “A maldição de Montezuma foi maldição política”.

Ele provavelmente se referia a fatos recentes da disputa local pelo poder.

Cópia de agua correndo
Essa eu garanto: o banho é delicioso nas águas naturalmente quentes de Montezuma
O ex-prefeito Erival José Martins, que iniciou a reforma do balneário, foi reeleito em primeiro turno, em 2012, com 50,92% dos votos, ou seja, 2.194 sufrágios. Derrotou Ivo Alves Pereira, do PP, que teve 2074. Uma diferença de apenas 120 votos.

Erival liderava uma coalizão que pode até parecer estranha. Nem tanto, se considerarmos que na campanha presidencial deste ano banqueiros e socialistas atuam lado a lado numa das campanhas, sem terra e usineiros em outra. Coisa do pragmatismo brasileiro.

Erival, conhecido como Grande, juntou na mesma chapa o PDT, o PR, o PCdoB e o PSDB.

Porém, em maio do ano passado, ele e sua vice foram cassados por abuso de poder econômico durante as eleições de 2012.

Imagens divulgadas à época, utilizadas como prova pelo Ministério Público, mostraram a distribuição a eleitores, sem qualquer tipo de cadastro e em carros de campanha, de cestas básicas enviadas pelo governo de Minas para vítimas da seca. O candidato também teria trocado votos por sacos de cimento e material de construção, segundo o MP. O prefeito recorreu mas a decisão da Justiça Eleitoral foi mantida.

Com o tucano Erival cassado, eleições suplementares foram realizadas no final do ano passado. Ivo Pereira, o derrotado em 2012, desta vez venceu. Ele tem prometido aos moradores que até dezembro de 2014 o balneário voltará a funcionar.

Cópia de gerando emprego

Hoje, na porta do balneário, uma placa do governo de Minas foi parcialmente coberta, provavelmente por conta do período eleitoral. Visível, apenas a inscrição “trabalhando e gerando emprego”.

Alguns homens de fato trabalham na limpeza do local.

Pelo menos até o fim deste ano, a fabulosa pista asfaltada do aeroporto local continuará abandonada, a não ser pelo desembarque eventual de candidatos em busca de votos, dizem os moradores.

Com sorte, nenhum dos montesumenses que usam a pista para fazer caminhadas e manter a forma física, de manhãzinha e no final da tarde, será atropelado durante pousos que, por conta da falta de homologação da ANAC, são formalmente ilegais.

Se a ideia de reformar a pista era mesmo estimular o turismo, passou a ser impossível fazê-lo desde que o balneário foi fechado, há 24 meses.

Em outras palavras, se os planos eram genuínos, o choque de gestão acabou congelando uma importante atividade econômica da cidade.

Tem mesmo razão aquele banhista: se alguma maldição se abateu sobre Montezuma, em tempos recentes, foi mesmo a da política.

PS do Viomundo: Este site se reserva o direito de manter em sigilo o nome dos entrevistados, considerando que numa cidade pequena declarações consideradas politicamente inconvenientes podem resultar em represália.


Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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Getúlio Vargas: 60 anos de sua morte



Vargas suicidado

Em 24 de agosto de 1954, um tiro disparado contra o peito do presidente Getúlio Vargas tiraria sua vida e incendiaria o país.

Vargas havia se suicidado.

Sua CartaTestamento lançava sobre os adversários a culpa pelo lance fatídico e de espetacular dramaticidade.

"Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida" — dizia a Carta.

A mensagem foi lida em voz alta no Palácio do Catete e, depois, em todos os cantos do país. Publicada nos jornais e narrada pelo rádio, martelava a cabeça dos brasileiros com a acusação de que um crime havia sido cometido.

Vargas se colocava como vítima de um crime contra o País.

Um crime que jamais deveria ser esquecido. Por isso, na Carta, as palavras de quem se julgava "no caminho da eternidade", saindo da vida "para entrar na História”.

Até hoje, o suicídio traz uma certeza incontestável. Ele representou, se não a única, pelo menos a mais poderosa arma de Vargas contra aqueles que o haviam cercado e queriam sua cabeça.

O presidente tomou a decisão de puxar o gatilho assim que recebeu sinais claros de que seria derrubado.

As Forças Armadas estavam completamente amotinadas. A Força Aérea, a mais agressiva contra Vargas, finalmente convencera o Exército a depor o presidente. Os ministros militares já haviam assumido o papel de carcereiros contra o chefe de Estado.

Com o suicídio, a oposição teve que esconder-se para não apanhar do povo nas ruas.

A morte de Vargas seria decisiva para projetar o trabalhismo, o PTB e a liderança de João Goulart.

O golpismo teria que aguardar mais uma década para uma nova tentativa — dessa vez, exitosa.

Tratado como criminoso, Vargas temia ser preso

Mesmo os melhores biógrafos de Vargas prestam pouca atenção para um aspecto fundamental desse suicídio.

Existe uma grande distância entre uma pretensão — derrotar os adversários — e a atitude de cometer o suicídio.

Vargas já havia sido deposto quase uma década antes, em 1945. Certamente, também em 1945 ele gostaria de derrotar seus adversários, mas nem por isso tirou a própria vida naquele momento.

A diferença entre os dois episódios é dada pelo contexto histórico da crise de 1954, diante da qual Vargas vislumbrou um desfecho ainda mais dramático que a deposição e mais tétrico que a morte.

Vargas temia que o tratamento que recebia — de criminoso, de chefe de uma quadrilha, de responsável por um mar de lama — o levasse ao constrangimento do julgamento e mesmo à prisão, assim como ao encarceramento de alguns de seus familiares, como o irmão, Lutero Vargas, acusado — de modo infundado — de ser o mandante do atentado na Rua Toneleros, no Rio de Janeiro, em 5 de agosto de 1954.

Como se sabe, membros da guarda pessoal, sem o conhecimento do presidente, arquitetaram eliminar o arquirrival de Vargas, Carlos Lacerda — "O Corvo", a metralhadora giratória que desferia os golpes mais raivosos contra o governo.

Tentar assassinar Lacerda era, certamente, uma atitude primária, uma solução criminosa desprovida de qualquer tino político — algo que nunca combinaria com a astúcia de Vargas.

O atentado foi frustrado. Lacerda saiu vivo da Rua Toneleros. O pistoleiro acabou matando um major da Aeronáutica, Rubens Florentino Vaz.

O tiro no pé de Lacerda acabaria por atingir o peito de Vargas.

Lacerda tornou-se vítima e símbolo maior da oposição ao governo.

A Aeronáutica sentiu-se agredida diretamente e mobilizou-se para vingar a morte do major a todo custo. Em pouco tempo, os nomes dos membros da guarda pessoal, ligados ao atentado, apareceram.

Algo soa familiar?

A opinião pública foi atiçada contra Vargas por uma imprensa que o incriminava com uma simples suspeita: algo como a tentativa de assassinar Lacerda não poderia ter sido feito sem o conhecimento prévio e absoluto do presidente.

Ele deveria ser, sem sombra de dúvida, o chefe de quadrilha, o cabeça do bando de corruptos que estava levando a República a afundar em um mar de lama.

Afinal, tudo o que acontece no Palácio é do conhecimento, da responsabilidade e da má fé do presidente da República.

Algo soa familiar?

Para derrubar um presidente, basta uma forte suspeita, uma firme disposição da oposição em fabricar acusações e um enredo incriminatório vendido como notícia.

O afastamento de Vargas era defendido pela UDN como uma medida de caráter "jurídico", nas palavras do udenista Afonso Arinos.

Vargas sabia que, ao contrário de 1945, não sairia do Palácio do Catete para um novo exílio em São Borja. A fúria contra si e seus familiares pretendia ir mais longe, para trancafiá-los por tempo suficiente para que não pudessem retornar ao poder.

O estigma que nele vestiriam seria o mais pesado possível, de preferência para que sua atividade política fosse sempre associada a práticas criminosas.

De novo, algo soa familiar?

Se não se pode vencê-lo, prenda-o.

O suicídio absolveu o presidente de todas as acusações.

Vargas morreu em 24 de agosto de 1954. O golpismo de seus adversários, não.

Antonio Lassance, cientista político.

Leia ainda: Getúlio Vargas e a Revolução de 1930
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A terra do lucro animal

Mesmo em cenário pintado com
cores sombrias, o lucro das
empresas com ações na bolsa
disparou quase 50%

Vejam esses números a respeito de um certo país. O lucro líquido somado de 362 empresas de capital aberto cresceu, no segundo trimestre de 2014, 11,46% com relação ao mesmo período do ano passado. Subiu de cerca de R$ 35 bilhões para R$ 39,3 bilhões. Se as empresas estatais saírem do cálculo, as cifras são mais impressionantes. Na comparação dos mesmos períodos, os valores avançaram de R$ 21,4 bilhões em 2013 para R$ 31,6 bilhões neste ano, um salto de 47,58%!

Os dados são de uma consultoria respeitada, a Economatica. Referem-se, isso mesmo, ao Brasil. Estatística de consultor, bem entendido, não é artigo propriamente em alta. Mas isso sobretudo quando o assunto são previsões. É aí que o pessoal costuma se esborrachar feio. No caso, porém, não se trata de projeções. Estamos diante de números realizados, contabilizados e divulgados. Dinheiro que já entrou no bolso, limpinho, limpinho (às vezes nem tanto...)

Virou chavão nos últimos tempos reclamar da perda do chamado espírito animal do empresariado. A culpa geralmente é lançada na conta do governo: não dialoga com os magnatas, muda regras toda hora, intervém demais, gasta muito com programas assistenciais.

Bem, mesmo nesse cenário pintado com cores sombrias, de um ano para o outro o lucro das companhias com ações negociadas em Bolsa disparou quase 50%! Haja voracidade animal. Ou seja, as coisas não se encaixam. Ganha um cartão de crédito com juros decentes o assalariado que conheceu salto tão espetacular no holerite. Nem é preciso lembrar que, na área privada, o setor financeiro lidera o ranking da fortuna.

Números assim, que nem são novos, mas permanecem quase escondidos, colocam o debate num patamar mais honesto. O objetivo não é ocultar problemas; eles são muitos e reais. Por exemplo: o crescimento do país, na medida clássica, o PIB, vem patinando. Como a própria Folha nos informou, em manchete neste domingo, o esfriamento se alastra pelos emergentes como um todo, "da Rússia ao Chile". Queira-se ou não, o mundo inteiro ainda sofre os efeitos devastadores do crash de 2008. A grande proeza brasileira é ter, apesar de tudo, conseguido estabilizar o emprego em níveis civilizados, custear programas sociais de resultado indiscutível e, como se percebe na ponta do lápis, manter as empresas muitíssimo bem, obrigadas.

Algum desavisado vindo de fora nos dias recentes deve pensar que haverá em outubro eleições para entidade empresarial. Motivo: o mote mais difundido por uma parte da mídia é a pretensa necessidade de acalmar mercados.

Presa dessa ilusão depois de transformada em candidata competitiva, Marina Silva corre para decorar o script. Nomeou uma banqueira como fiadora e se mostra disposta a alargar alianças além das fronteiras antes sustentáveis, ou suportáveis, pela sua Rede. Até agora não entusiasmou nem gregos, nem troianos. Apenas piorou o humor de seu rival na oposição.

É um jogo de alto risco. A força eleitoral de Marina vem justamente do seu lado outsider. Ao mesmo tempo, esta é sua fraqueza junto ao establishment. Você imagina um empreiteiro doando fundos para uma candidata adversária de hidrelétricas? Bem, nada parece impossível num país onde um político como José Roberto Arruda, mentiroso confesso e corrupto notório, flagrado em áudio e vídeo, lidera intenções de voto em seu quadrado.

Ricardo Melo
No fAlha
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Dilma e o tsunami Marina

“Acho que o pessoal está confundindo o presidente da República com rei ou rainha”

A lua parece ter perturbado a política brasileira
Foto do Instagram do Palácio do Planalto
Campanha eleitoral. A presidente Dilma Rousseff dá uma entrevista pouco usual no Palácio do Planalto, em pleno domingo. Hora de ocupar espaços na mídia. A Folha interpreta a declaração como resposta de Dilma a Marina Silva, que a respeito da propaganda eleitoral da petista afirmou que o Brasil não precisa de uma gerentona.

Curiosamente, Aécio Neves está ausente do debate. As três capas de revistas semanais, nos mostra Alexandre Alencar no Facebook, trazem Marina.

Em seu blog, Renato Rovai especula, sobre pesquisas: “Dilma teria 36%, Marina, 28% e Aécio, 18%. Marina já teria ultrapassado Dilma em São Paulo e no Rio, onde estaria em situação de empate técnico. Além disso, venceria com folga no DF. Na classe média, ela teria aberto uma frente bastante razoável dos dois candidatos. Tanto no PSDB quanto no PT as avaliações são de que esse crescimento de Marina ainda não é sustentável, mas já há desconfiança de que ela dificilmente baixará de 25% dos votos válidos”.

Na mesma entrevista no Planalto, sem citar Marina, Dilma falou em “experiência administrativa”. Em campanha eleitoral, nada acontece por acaso. É provável que o PT já esteja ensaiando uma reação contra a ascensão de Marina nas próximas pesquisas.

Existe potencial para um tsunami? A desconfiança é de uma colega jornalista. Não entendo de pesquisas, mas depois de viajar intensamente pelo interior de Minas Gerais, Ceará, São Paulo, Alagoas e Pernambuco, reafirmo aqui o que escrevi faz algumas semanas: o antipetismo se espraiou mesmo aos rincões de apoio mais tradicional ao partido. Somou-se à antipolítica, dos que querem mudar “tudo o que está aí”. Sem resposta convincente das instituições aos protestos de 2013, sobrou para quem ocupava o Planalto e desaguou em quem encarna o “novo”.

Antipetismo + antipolítica + novo. A ironia é que a direita, através de seu braço midiático, trabalhou diuturnamente durante mais de uma década nesta fórmula. Estava certa de que em 2014 resultaria na ascensão de um certo senador de Minas Gerais, que parece agora a caminho do naufrágio.

Por sua vez, Marina Silva fez, na semana passada, uma mexida no tabuleiro digna de Lula. Despachou Maria Alice Setubal, a Neca, coordenadora de seu programa de governo, para uma entrevista ao UOL. Fernando Rodrigues, o entrevistador, queria saber se Marina cumpriria os compromissos assumidos anteriormente por Eduardo Campos, o candidato do PSB.

Neca, obviamente, não vê qualquer conflito de interesses em sua participação, como acionista de um dos maiores bancos do país, na formulação do programa de um governo que lidará com interesses, vamos dizer, “menores” do Itaú.

A frase-chave da entrevista é a que segue:

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É o que o “mercado” esperava de Marina, a Carta aos Brasileiros dela, a tranquilização que os paulistas queriam ouvir antes de pensar em abandonar de vez o mineiro Aécio Neves.

Os afagos posteriores em José Serra, com o qual Marina disse que pode governar — no caso dele se eleger senador — apontam na mesma direção. Mesmo com Aécio derrotado, parece dizer Marina, os tucanos paulistas terão um ninho bem ali, ao lado de Neca.

Para completar o quadro um tanto exótico desta campanha, a propaganda eleitoral quase consegue ser apolítica. Parece até uma corrida eleitoral entre três personagens de novela.

Do ponto-de-vista televisivo, como notou nossa comentarista MC em “O anjo, o estadista e a mãezona”, João Santana surrou a concorrência por 7 a 1.

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No primeiro programa, justamente quando se falava em “crise”, uma criança aparece beijando Dilma. Até parece tirado de um livro de Michael Deaver, o guru do ex-presidente norte-americano Ronald Reagan, que não se importava com as palavras ditas na TV. Deaver insistia: falam as imagens. Comentava-se, à época, em Washington, que Deaver assistia as reportagens sobre Reagan na TV, mesmo as que continham críticas, sem som: só se importava com os cenários nos quais o ex-ator de Hollywood era enquadrado.

Pois este é o estágio em que se encontra, hoje, a política brasileira.

Para completar o quadro, vamor ouvir Neca Setubal, formada em Ciências Sociais pela USP e doutora em psicologia da Educação pela PUC, sobre a visão “sonhática” da política no século 21:

Captura de Tela 2014-08-24 às 21.29.05

Por um momento ela me fez esquecer que Margaret Thatcher governou, de maneira bem “feminina”, no século 20.

Em uma palavra: Socorro!

Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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O que levou Larissa a ficar com Roger?

O casal
O dinheiro compra até o amor verdadeiro. Entre tantas frases soberbas, esta é minha preferida de Nelson Rodrigues, o maior frasista brasileiro.

Ela me veio automaticamente à mente quando refleti sobre uma questão que vem fascinando muitos brasileiros: como uma mulher bonita e brilhante como Larissa Sacco foi capaz de largar tudo para ficar com o médico Roger Abdelmassih.

As pessoas ficam intrigadas porque pensam no Abdelmassih de hoje, envolto em denúncias de estupros em série que lhe dão a merecida reputação de monstro.

Mas o Abdelmassih que Larissa conheceu, em 2008, era um superstar, uma espécie de Mick Jagger da fertilização.

Ele era personagem ubíqua nas emissoras de televisão e nas páginas de jornais e revistas.

Tinha uma clientela de celebridades, e era aquele tipo de homem a quem não basta ser rico: os outros têm que saber.

Levava uma vida de ostentação, segundo os que o conheciam. Podia passar um final de semana em Paris, e era conhecido seu apreço por Mercedes pretas, paixão que afinal contribuiria para que ele fosse localizado no Paraguai.

Larissa era, então, uma mulher de 31 anos que desejava engravidar do namorado da época.

E que tinha, segundo as amigas, uma paixão por coisas caras, coisas potencialmente incompatíveis mesmo para seu bom salário de procuradora.

Abdemalssih era, em sua versão glamorosa de 2008, a resposta para todos os anseios materiais — e mesmo maternais — de Larissa.

Não bastasse isso, a mulher dele estava morrendo de câncer. O campo estava aberto, portanto.

Mesmo no Paraguai, com o marido em fuga, Larissa viveu num luxo muito acima de sua realidade de filha da classe média.

Abdelmassih foi, até recentemente, o meio pelo qual a ambiciosa Larissa pôde realizar seus sonhos de alpinista social.

Pelas características de ambos, entendo, contra a corrente, que não há mistério nenhum no casamento deles.

Sobre o que a levou a ele já falei. E o que o conduziu a ela é fruto da vaidade lúbrica — tarada mesmo — dele.

Uma mulher jovem, bonita, que ele podia ter e exibir ao mundo sem a necessidade criminosa de dopar em seu consultório, bem, tal mulher era um troféu extraordinário para Abdelmassih.

Tudo se encaixa na história, a meu ver.

Exceto uma coisa: o habeas corpus dado a Abdelmassih por Gilmar Mendes quando já se sabia que ele estuprara dezenas de mulheres de uma forma particularmente abjeta.

Me dei ao trabalho de ler a sentença completa de GM, lavrada em dezembro de 2009.

O ponto que mais me chamou a atenção foi o seguinte. Gilmar Mendes afirmou que, como Abdelmassih sempre se apresentara quando chamado pela Justiça no período em que estava em liberdade, não havia razão para temer que ele se aproveitasse do habeas corpus para fugir.

Quer dizer: para o juiz, Abdelmassih tinha princípios morais que o fariam aceitar sua pena estoicamente.

No mundo encantado de Gilmar, Abdelmassih renunciaria a seus luxos, aos prazeres carnais proporcionados pela jovem mulher, à liberdade — a tudo, enfim, para obedecer à Justiça.

As vítimas de Abdelmassih manifestaram, nestes dias, compreensivelmente, ódio também de Gilmar Mendes.

O que deve confortá-las é que ele não sairá de todo impune neste caso: sua reputação estará para sempre manchada por uma das decisões mais absurdas da história da Justiça brasileira.

Paulo Nogueira
No DCM
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