18 de ago de 2014

Como na ditadura, Dilma é inquirida no jn, assista


Foi inacreditável a ação eleitoral do Jornal Nacional contra a presidente Dilma Rousseff; William Bonner fez perguntas quilométricas; Patrícia Poeta chegou a fazer cara de nojo e a colocar o dedo em riste diante de Dilma em razão do “nada” que teria sido feito na área da saúde em 12 anos, ditos com ênfase pela apresentadora; Dilma mal teve a oportunidade de responder perguntas que eram acusações, como sua suposta incapacidade de se cercar de pessoas honestas e os números da economia; quando teve oportunidade falar, Dilma disse que seu governo “estruturou o combate à corrupção” e que “nenhum procurador foi chamado de engavetador-geral da República”; ela lembrou ainda o baixo desemprego e a inflação que se aproxima de zero nos últimos meses; não foi entrevista, foi agressão, fora de qualquer padrão civilizado de jornalismo; presidente conseguiu falar sobre o progama Mais Médicos e informar que a inflação está baixando, com zero de elevação em julho.



* * *

Dilma demite Bonner

Dilma: “esse teu dedo indicador só assusta a Fátima!”

O Bonner achou que a Dilma era o Aécio ou o Eduardo e ia empurrar a Dilma contra a parede no debate de 15′ no jn.

Deu-se mal.

Numa televisão séria, Bonner teria voltado para o Rio sem emprego.

Dilma não se deixou emparedar e assumiu o controle de todas as respostas.

Empurrou a questão da corrupção pela goela abaixo dos tucanos — que sobrevivem no jn.

Lula e ela estruturaram o combate à corrupção. Deram autonomia à PF e ao MP.

No Governo dela e de Lula não tinha um Engavetador Geral da República.

A Controladoria Geral da União se tornou um órgão forte no combate ao malfeito.

Ela aprovou a Lei de Acesso à Informação (podia ter dito que o partido do jn, o PSDB, tomou como primeira providência ao chegar ao poder, com FHC, extinguir uma Comissão de Combate à Corrupção).

(Aliás, Bonner disse, na abertura, numa gaguejada, que o PSB era o PSDB… Lapso freudiano…)

Dilma ressaltou que nem todas as denúncias (do jn) resultaram em crimes comprovados.

Bonner tentou jogar a mais óbvia casca de banana: obrigar a Dilma contestar o julgamento do STF sobre o mensalão.

Ela tirou de letra: Presidente da República não discute decisão de outro Poder.

Bonner insistiu.

Deu-se mal.

A Poeta, finalmente, justificou a passagem, e invocou o Datafalha para dizer que o problema do brasileiro é a Saúde.

Dilma enfiou-lhe pela garganta o sucesso retumbante do Mais Médicos, que atende 50 milhões de brasileiros.

Bonner revelou sua aflição, mal se continha na cadeira, bradava “a Economia!”, “a Economia!”, como se fosse sua bala de prata.

Dilma continuou, no comando dos trabalhos, a falar do problema da Saúde.

Quando bem quis, concedeu ao Bonner o direito de falar sobre a Economia!

E ele veio com xaropada da Urubóloga.

(Interessante que o Bonner pensa que ninguém percebe que a pergunta dele, na verdade, é uma longa exposição daquilo que ele quer que o espectador pense que seja a verdade dos fatos. Ele quis falar mais que a Dilma. Ele se acha…)

Inflação explodiu!, disse o entrevistador/candidato.

Sobre a inflação, Dilma mostrou que ele não sabe nada.

A inflação é negativa.

Todos os indices estão em ZERO!

Sobre o crescimento, falou uma linguagem que o Bonner ignora: “indicadores antecedentes”.

Os dados de hoje sobre o consumo de papelão e energia indicam elevação do PIB no segundo semestre.

Dilma estourou os 15 minutos.

Continuava a falar, enquanto o Gilberto Freire com “I” devia berrar no ponto do Bonner “corta ela!”.

E ela na dela.

Terminou por dizer que nao foi eleita para fazer arrocho salarial. Ou para provocar desemprego.

“Corta!”, devia berrar o “ï” no ouvido do Bonner. “Corta! Não deixa ela falar!”.

E ela, na dela: “vamos continuar a fazer um país de classe média, como o Presidente Lula começou a fazer.”

“Corta, Bonner!”, no ponto.

“Eu acredito no Brasil”, disse ela, como se conversasse com o neto, numa tarde de domingo.

Só faltou dizer: “Bonner, eu não sou o Aécio, o Eduardo e muito menos a Bláblá”.

“Pode vir quente!, meu filho. Esse teu dedo indicador só assusta a Fátima!”


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Bonnner quis falar mais que Dilma na entrevista do Jornal Nacional

Uma das primeiras lições num curso de jornalismo é que entrevistador não deve falar muito. Deve ser direto nas perguntas e buscar ser o mais objetivo possível. Não significa que deva ser leniente e bondoso com o entrevistado. Pode interrompê-lo, cortá-lo etc, mas não deve fazer discursos.

Willian Bonner não é um jornalista habituado a fazer entrevistas. É um apresentador. E mais do que nunca sua falta de qualidade para realizar um dos fundamentos básicos da atividade ficou evidente na noite de hoje. Em vários momentos ele foi absolutamente circular nas suas falas e até pouco educado. Lembrou Henry Maksoud nos tempos em que fazia um programa na Gazeta, cujo nome era Henry Maksoud e Você. Mas que era apelidado de Henry Maksoud e Eu. Porque só o entrevistador falava.

Isso compromete não só o desempenho do entrevistado, como da entrevista. Dilma não foi mal no Jornal Nacional. Foi razoável e dificilmente ganhou ou perdeu algo. Saiu, como se diz no popular, no zero a zero. Mas ficou evidente em alguns momentos que foi prejudicada não pela falta de condições de responder, mas pela confusão criada pelo entrevistador que fazia um monte de questões num longo tempo e queria respostas rápidas.

Dilma, por exemplo, respondeu que não falaria sobre o julgamento do Supremo. Bonner começou dizendo que “houve corrupção em várias áreas do governo” e citou vários casos. E as duas CPIs da Petrobras. Dilma respondeu que “os governos que mais estruturaram os mecanismos de combate a corrupção” foram os dela e o de Lula. Que a PF ganhou autonomia, que há relação respeitosa com o MP, que nenhum Procurador Geral da República foi chamado de engavetador etc. A resposta estava dada, mas aí Bonner apelou para o mensalão e soltou uma frase de efeito no meio de um monte de considerações. “Seu partido teve um grupo de elite comprovadamente corrupto”. Dilma respondeu que não faria julgamento de uma decisão do Supremo Tribunal. Neste momento o entrevistador só faltou pular da mesa e exigir que ela respondesse o que lhe parecia mais adequado.

Foram aproximadamente dois minutos da entrevista nesta querela. E ali havia clara intenção do apresentador em fazer discurso, não de fazer perguntas.

Nas outras questões, Dilma também foi apertada. Como, aliás, outros candidatos também foram. E se saiu bem. Explicou que na saúde ainda há muitos problemas a enfrentar, mas que acha que já houve melhoras significativas. “Contratamos mais 14.562 médicos e ampliamos a nossa de atendimento para mais de 50 milhões de brasileiros”, afirmou. E quando Bonner, tentou interrompê-la logo no começo de uma resposta falando que precisavam falar de economia, a presidenta deu-lhe uma resposta bolada: “Tenho maior prazer de falar da economia, Bonner”.

E foi muito bem ao falar de como o Brasil está enfrentando a crise econômica. “Não desempregando, não arrochando salários, não aumentando impostos. Qual era o padrão anterior?” Esse foi certamente seu melhor momento. Bonner falou de inflação alta e a presidenta teve de lhe informar o que todos os jornais têm registrado, que a inflação dos últimos meses é de 0%.

Ao final, a presidenta dialogou com a frase dita por Eduardo Campos e disse: “eu acredito no Brasil”.

Foi uma entrevista meio atarracada e Dilma sai do mesmo tamanho. Sem se ferir. O que para quem está em primeiro lugar, recuperando a imagem do seu governo e que terá o maior tempo de TV é uma boa notícia.

Renato Rovai

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Dilma no Jornal Nacional

Dilma foi melhor no Jornal Nacional do que tinha sido na sabatina do UOL.

Eduardo Campos, num de seus últimos pronunciamentos, disse que a cada entrevista você vai melhorando, como se estivesse treinando futebol.

Foi uma boa imagem, e isso explica pelo menos em parte o avanço de Dilma no JN em relação ao UOL.

Ela foi também beneficiada por uma coisa: a previsibilidade das perguntas. E então pôde se preparar adequadamente.

O foco da sabatina, como era de imaginar, foi corrupção e economia, com um breve intervalo em saúde.

Na corrupção, o que se viu foi como um braço de ferro entre Bonner e Dilma, no qual ela se saiu melhor.

Por uma razão. Bonner foi de uma credulidade brutal ao falar nos sucessivos “escândalos” do governo Dilma.

Ele falou como se acreditasse em todos.

Ora, fora do universo fechado das grandes empresas de mídia, todos sabemos quanto há de exagero ou mesmo invenção nas constantes denúncias trazidas bombasticamente por jornais e revistas, e depois ampliadas pelos telejornais como o comandado pelo próprio Bonner.

Dilma lembrou, com propriedade, que muitos dos “escândalos” não se comprovaram reais depois de investigados.

Ao questionar a mídia, Dilma como que trocou de papel com Bonner por momentos. Era como se ele fosse o sabatinado.

A mídia não resistiria a uma sabatina sobre o rigor jornalístico na maior parte dos “furos” de corrupção no PT.

Carlos Lacerda fabricava casos de corrupção contra Getúlio Vargas para dar feições terríveis ao “Mar de Lama”. Não tem sido muito diferente nos dias de hoje.

Bonner, mais uma vez numa posição de absoluta credulidade, invocou as decisões do Supremo no Mensalão como acima do bem e do mal.

Ora, valeu tudo no julgamento. A começar pela inovação de condenar sem provas com a assim chamada “teoria do domínio do fato”, uma excrescência jurídica que deve se despedir do Supremo junto com Joaquim Barbosa.

Dilma completou a boa resposta ao lembrar que em nenhum momento comentou as decisões do Supremo por respeito à autonomia dos poderes.

Patrícia Poeta trouxe a saúde ao debate, mas eis um terreno bom para Dilma. A saúde pública brasileira, com todas as suas conhecidas precariedades, foi amplamente beneficiada na gestão Dilma pelo programa Mais Médicos.

Falar em saúde com Dilma é como dar a ela uma oportunidade de lembrar as dimensões do Mais Médicos. Que outro programa na saúde pública teve tamanho impacto quanto este?

A economia foi brandida por Bonner contra Dilma. Mais uma vez, era fácil antever as questões: inflação e baixo crescimento.

Não foi o melhor momento para criticar a inflação sob Dilma, porque as últimas taxas são particularmente baixas, quase na casa do zero por cento.

Bonner pareceu querer responsabilizar Dilma pelo baixo crescimento, como se a crise econômica internacional que estourou em 2008 fosse uma simples desculpa.

Não é.

Num mundo tão interconectado, uma crise internacional acaba por afetar todo mundo.

Numa primeira fase, é verdade, os países emergentes conseguiram escapar dos apuros, com destaque para a China e seu crescimento na casa dos 10% ao ano.

Mas, depois, também os emergentes foram apanhados pela onda. O crescimento econômico da China, para ficar no caso mais conspícuo, sofreu uma notável desaceleração nos últimos dois ou três anos.

É neste novo ambiente que também a economia brasileira começou a andar mais devagar.

Dilma se saiu bem ao lembrar que, ao contrário de outras crises, a resposta agora não se traduziu, para a sociedade, em arrocho de salários e demissões em massa.

O real problema da economia brasileira não é o baixo crescimento momentâneo — mas a desigualdade de sempre.

Não adianta nada ter um PIB que cresça 10% ao ano se o dinheiro for parar num pequeno grupo privilegiado enquanto a miséria persiste entre tantos brasileiros.

Mas desigualdade não é um tema para Bonner e nem para a Globo.

Paulo Nogueira
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“Dez razões para não votar em… – 3: a undécima razão de Marina Silva


Se ainda me restava um pouco de respeito, no âmbito pessoal, pela candidata Marina Silva, este foi ao chão.

A imagem diz tudo de uma pessoa absolutamente inescrupulosa.

Mais, diz de uma pessoa que, ao que tudo indica, costuma apoiar-se displicentemente em cima de um caixão. Ensinamos em casa, aos filhos — porque aprendemos dos nossos pais-, que não se deve apoiar o cotovelo na mesa de refeições. Imagina em cima de um caixão!!!

A imagem reflete uma pessoa mais interessada em prestar atenção em possíveis fotos que algum eleitor — também este mais interessado na Marina do que propriamente no falecido Eduardo — queria tirar dela do que no velório.

A imagem mostra uma pessoa capaz de considerar que sorrir para os presentes é algo muito mais importante do que um rosto ao menos contido, mínimo esperado por quem não apenas convivia com o falecido, mas como era sua vice de campanha.

Fora apenas uma vez e poderíamos dizer que foi alguns dos tantos momentos mais relaxados, que são até normais em velórios e enterros. Mas há outras fotos que mostram a mesma preocupação em parecer agradável e solícita a todos os que poderiam representar votos para si, como futura substituta de Eduardo Campos:

marina03
marina02

Sempre sorrindo, abanando para as pessoas.

Não há o que esperar de uma pessoa assim. Quero outro tipo de gente a governar o meu país.

Luiz Afonso Alencastre Escosteguy
No Escosteguy

Leia também: “Dez razões para não votar em…” — 1 e

Leia também: "Dez razões para não votar em… " — 2: Marina Silva
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Bláblá enterra Cerra no colo do Aécio

Ela adora os tucano-socialistas de SP.


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Sobrenome Maranhão


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Aonde vai Marina


A candidata das eleições deste ano
não é a mesma de 2010, tampouco
as circunstâncias

Na sequência imediata de eventos como a morte de Eduardo Campos, poucas certezas se impõem. Já as incógnitas se multiplicam. Qualquer enquete ou pesquisa feita "à quente" sob o impacto do desastre aéreo será de pouca serventia. O efeito da comoção causada pelo acidente inevitavelmente terá um peso significativo, o que torna os números descartáveis em termos de previsões do cenário político.

Nem sempre é assim. Um de tantos exemplos: em 1988, a morte de três grevistas em Volta Redonda (em novembro) impulsionou a vitória de vários candidatos do PT em prefeituras, inclusive o triunfo de Luiza Erundina em São Paulo. Diferenças cruciais: embora sem a projeção de um político presidenciável, as três vítimas morreram num conflito sindical e a poucos dias do pleito. Agora, o prazo que separa a tragédia de Santos do dia da eleição presidencial é tempo suficiente para diluir o fator comoção.

Muita gente dá como favas contadas um segundo turno. Será? Sem pretender diminuir as qualidades de Eduardo Campos, o fato é que ele ainda engatinhava como liderança nacional. Nem sequer teve tempo de deixar um legado político expressivo, diferentemente do avô Miguel Arraes. E as últimas ações do neto iam no sentido contrário da decantada novidade que dizia representar.

Campos patrocinou alianças com Deus e o diabo em seu Estado e pelo país afora. Para os correligionários, uma prova de "capacidade de articulação", a velha desculpa para engavetar princípios em troca de dividendos na urna. Adversários e observadores tarimbados faziam uma leitura distinta. Identificaram nas atitudes do ex-governador apenas mais do mesmo oportunismo eleitoral prevalecente no Brasil.

Em termos programáticos, Campos recorria às generalidades de sempre. Espremida, a bandeira da terceira via resumia-se ao seguinte: se você está cansado dos petistas e dos tucanos, vote no PSB. Depois a gente vê o que faz. Fora a situação esdrúxula de uma chapa em que a vice aparecia em pesquisas com mais que o dobro dos votos do candidato oficial.

Sobrou para Marina Silva. Impossibilitada de emplacar sua própria legenda, adotou o PSB como uma espécie de barriga de aluguel. De repente virou a estrela da companhia. Mas, no curto tempo em que Rede e PSB já conviveram, as faíscas se espalharam. As alianças regionais criaram um clima de atrito permanente (curiosidade: Marina e Alckmin vão subir no mesmo palanque em São Paulo?). O discurso ambientalista da Rede viu-se confinado a um quadro moldado por valores coronelistas e interesses do grande agronegócio. Não é à toa que muito "marineiro" de primeira hora não gostou do que viu e pulou fora do barco.

A personalidade de Marina Silva garantiu a ela, por um tempo, um papel singular na política nacional. Mas a candidata de 2014 não é a mesma de 2010, tampouco as circunstâncias. Sua imagem de pureza, de integridade e de defensora intransigente de princípios foi bastante golpeada desde o compromisso com o PSB. A própria Rede já nascera como produto de uma maionese política, intelectual e financeira. Banqueiras, bilionários de cosméticos e economistas ortodoxos passaram a dividir sessões de meditação com a moçada sonhática, adoradores de bagres e gente bem intencionada à procura de rumo. Difícil saber o resultado desse emaranhado ideológico quando o assunto é dirigir um país.

Ricardo Melo
No fAlha
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Charge online - Bessinha - # 2042

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Quando a política supera o decoro

Os jornais fizeram no fim de semana uma intensa cobertura dos funerais do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos e ofereceram abundantes opiniões sobre como sua morte poderá alterar a disputa pela Presidência da República.

No domingo (17/8), concentraram-se as apostas no potencial de votos da ex-senadora Marina Silva, provável sucessora de Campos na cabeça da chapa do Partido Socialista Brasileiro. Na segunda-feira (18), a manchete do Estado de S.Paulo sintetiza o que representou o cortejo que levou o esquife do candidato falecido ao cemitério: “Campos é enterrado em clima eleitoral”.

Desde a chegada dos restos mortais do ex-governador à sua cidade, a política escancarada havia sobrepujado o decoro do luto; a começar pela própria família, todas as manifestações misturavam a dor da perda com o cenário eleitoral. Entre todas as personalidades citadas pela imprensa, Marina Silva era, de longe, a mais discreta — ainda mais distanciada do debate político do que a própria viúva, Renata Campos.

Nas muitas vezes em que os jornalistas usaram a palavra “comoção”, seu sentido estava ligado ao potencial de intenções de voto que a tragédia pode produzir ou desmanchar em cada um dos lados da disputa.

Como se disse aqui na quinta-feira (14/8), dia seguinte ao do acidente aéreo em Santos (ver “O imponderável assombra a imprensa”), o impacto emocional da morte prematura e inesperada elevou as chances do PSB, afetando principalmente os quadros de indecisos e dos que não se sentiam representados por nenhuma das alternativas disponíveis. De repente, as redes sociais se encheram de brasileiros que se declaravam eleitores de Eduardo Campos — e parte desse patrimônio póstumo pode muito bem sobreviver ao primeiro momento de espanto e consolidar Marina Silva como a escolha mais viável da oposição.

Também se afirmou aqui que o dilema da imprensa, explicitamente devotada a eleger o candidato do PSDB Aécio Neves, era alavancar a candidatura de Marina Silva, torcendo para que ela não disparasse como alternativa principal à atual presidente da República. O número mágico se localiza em torno dos 20%, patamar que define o potencial até aqui revelado pelo ex-governador de Minas Gerais.

Pergunta maliciosa

Pois bem: na edição de segunda-feira (18/8), a Folha de S. Paulo traz em manchete o resultado da coleta de intenções de voto feita pelo Instituto Datafolha nos dois dias seguintes à tragédia que matou Eduardo Campos. Basicamente, os gráficos mostram que Marina tem mais que o dobro dos votos que eram atribuídos a Campos, e supera Aécio Neves na segunda colocação entre os candidatos, ainda que dentro da margem de erro.

Com todas as restrições que se possa fazer ao movimento oportunista do jornal, discretamente criticado por representante do Ibope, deve-se observar esses números em seu contexto específico, ou seja, eles representam um momento em que a emoção supera a reflexão.

No Estado de S. Paulo, o colunista José Roberto de Toledo registra que a pesquisa é um fato político em si, ou seja, interfere na campanha ao inflar o cacife de Marina Silva. Essa afirmação também faz sentido, e ajuda a entender como os jornais usam as pesquisas para influenciar futuras pesquisas. No entanto, alguns detalhes da apressada consulta do Datafolha mostram como esse quadro tende a mudar rapidamente.

Em primeiro lugar, é preciso observar que a principal revelação da pesquisa Datafolha feita sob o impacto imediato da morte de Eduardo Campos favorece inequivocamente a presidente Dilma Rousseff, que ganhou 6 pontos percentuais na avaliação francamente positiva de seu governo. A avaliação “francamente positiva” se refere aos que consideram o governo “ótimo ou bom” — e esse número subiu na exata proporção em que caiu o total dos que achavam o governo “ruim ou péssimo”, item que se reduziu de 29% em julho para 23% na semana passada.

Pode-se suspeitar que o Datafolha tenha agido com certa malícia ao incluir a pergunta sobre a avaliação do atual governo em meio às consultas sobre intenção de voto, uma vez que essa questão se desloca do contexto que se pretendia capturar.

Embora sejam vistos como retrato do momento emocional, os números podem mostrar um ponto de mutação na disputa. O oportunismo da Folha, ao destacar em manchete a ascensão de Marina, é um tiro na candidatura de Aécio Neves.

Luciano Martins Costa
No OI
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Marina, Datafolha e a casca de banana

Saiu mais uma imponderável e polêmica pesquisa Datafolha. Realizada em meio à comoção pelo falecimento de Eduardo Campos e especulações sobre a candidatura de Marina Silva, a pesquisa mais uma vez traz números surreais, embora com movimentações previsíveis.

Era previsível que com Marina na cédula, a frágil segunda colocação de um empacado Aécio não se sustentasse, e de fato, por 21% a 20%, ela tomaria a vaga do tucano no segundo turno caso as eleições fossem hoje, com existe faixa de erro, inclusive para pesquisas não confiáveis, eles estariam tecnicamente empatados. A parte previsível da pesquisa para por aí.

Marina mais que dobra as intenções do seu falecido companheiro de chapa, mas não conquista votos de Dilma e Aécio, segundo Datafolha, Marina avançou em cima da gordura dos nanicos e de uma impressionante mudança de opinião dos indecisos. Os nanicos anteriormente inflados pelas pesquisas, com a intenção de não desmotivar alianças e não afugentar doadores de campanha, foram abandonados.

Até aí é possível dar o benefício da dúvida, afinal, no calor da emoção, os indecisos poderiam migrar todos para uma mesma candidatura, mesmo que estatisticamente isso seja uma aberração, no entanto, Os números apresentados pelo Datafolha têm outras inconsistências mais marcantes.

Dilma teria 36% dos votos, a soma dos seus adversários 46%, e isso daria um percentual inacreditável de 82% de intenções de voto. Significa que apenas 18% pretendem não votar, ou votar nulo ou branco. Em 2010 esse número foi de 27%. Significa que se fosse verdade, além de o número de abstenção, brancos e nulos cair 34% em relação ao anterior, há 48 dias das eleições não teríamos mais indecisos.

Uma outra inconsistência estatística imensa nessa pesquisa são as simulações de segundo turno, em um improvável segundo turno com Dilma, ela venceria por 47% a 43%, ou seja, Marina no segundo turno contra Dilma saltaria de 21% para 47%, mais do dobro, um aumento de 26% nas intenções de voto entre o primeiro e segundo turno. Se Aécio e outros candidatos somam 25%, isso quer dizer que Marina herda mais de 100% dos seus votos, é de corar calouro de universidade de ciências estatísticas.

Considerações que esse blogueiro chegou com essa magnífica pesquisa:

Ainda não é possível saber se haverá segundo turno, mas se houver a briga vai ser de foice, com a mídia atacando Marina para seu candidato não ficar de fora.

Pastor Everaldo foi usado como um patinho para não inviabilizar candidatura Aécio, já que não serve mais pra nada foi descartado.

A mídia quer petistas pensem que Marina é imbatível no segundo turno, e que seria melhor contra o Aécio, daí teriam ajuda atacar Marina e salvar seu candidato.

Reinaldo Azevedo já começou a atacar Marina, os colunistas de estimação ainda fingem comemorar a Datafolha, mas daqui pouco alguém lá de cima manda acordar esse pessoal que não é para comemorar o Aécio fora do segundo turno.

Ontem o UOL tinha um link: “Petistas criticam Marina nas redes”. A estratégia é simples, criar rejeição entre os eleitores de Marina contra o PT e Dilma. Alguns petistas resolveram morder a isca porque passara mesmo a atacar Marina, fazendo justamente o que a mídia quer, quando o mais indicado seria deixar Marina e PSDB (mais mídia) se engalfinharem pelo segundo turno se houver. Naturalmente quem deveria atacar Marina é o PSDB.

Esse vai ser o jogo, jogar o PT contra os marinheiros, dar umas estocadas nela se ela ameaçar ir para o segundo turno, para atrair os votos dela para o Aécio, se eles conseguirem que ele passe para o segundo turno.

LEN
No Ponto&Contaponto
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Deus e o diabo na terra da Globo

Há 60 anos do suicídio de Vargas, o conservadorismo reedita em farsa a tragédia. Ensaia um simulacro de catarse nacional varguista em torno da morte de Campos.

O conservadorismo brasileiro já viu o poder escorrer pelos dedos algumas vezes. Mas nunca de forma tão abrupta como há 60 anos, quando Getúlio Vargas cometeu o suicídio político mais demolidor da história em 24 de agosto de 1954.

Chocada com a morte de um governante que preferiu renunciar à vida a abdicar do mandato como exigia o cerco virulento das elites, a população foi às ruas em um misto de consternação e fúria para perseguir e escorraçar porta-vozes do golpismo contra o Presidente.

A experiência da tragédia abalou o cimento da resignação cotidiana. No Rio de Janeiro, a multidão elegeu a dedo o seu alvo simbólico: cercou e depredou a sede da rádio Globo que saiu do ar.

Carros de entrega do diário da família Marinho foram caçados, tombados, queimados nas vias públicas. Prédios de outros jornais perfilados no ultimato pela renúncia conheceram a força da ira popular.

Com a mesma manchete do dia anterior, atualizada pela fatalidade, os exemplares do único jornal favorável ao governo, o Última Hora, eram disputados nas esquinas por uma população desesperada, perplexa, em luto.

A tiragem extra de 850 mil exemplares, providenciada a toque de caixa pelo editor Samuel Wainer, sustentou a declaração premonitória de Getúlio 24 horas antes. Agora, porém, revigorada pela mão do editor: “O presidente cumpriu a palavra: ”Só morto sairei do Catete!”.

O resto é sabido.

O sacrifício impôs duro recuo ao golpismo que só executaria seu plano original de tomar o poder dez anos depois, em 1964.

Passados exatos 60 anos da morte de Vargas, o conservadorismo brasileiro reedita agora uma trama ainda mais ousada.

Construir um simulacro de catarse nacional varguista a seu favor, emprestando à justa consternação pela morte de Eduardo Campos uma dimensão histórica que ela não tem.

Assim como a de Tancredo Neves também não teve.

Ambas por uma razão difícil de abstrair: nem um, nem outro personificaram, de fato — e assumidamente — um polo da correlação de forças em disputa pelo comando da sociedade e do desenvolvimento brasileiro.

Vargas, ao contrário, encarnara um divisor real, consagrado nas urnas de outubro de 1950, de forma esmagadora, apesar do asfixiante boicote que lhe foi imposto pela mídia.

Na resposta ao cerco, a campanha de Vargas levaria uma frota de caminhões a cruzar o país munida de caixas de som e filipetas.

Em cada morada do voto fazia-se a ampla distribuição de panfletos. Neles, a promessa revolucionária — para a época — de um Brasil nacionalista e de feição popular.

Quatro milhões de eleitores deram seu voto a esse desassombro; o dobro dos obtidos pelo ‘brigadeiro das elites’, Eduardo Gomes.

Iniciou-se, então, aquilo que passou à historia como o ‘segundo Vargas’, para se diferenciar de seu primeiro ciclo no poder, iniciado com a revolução de 1930, que se estendeu pela ditadura de 37.

O ‘segundo Vargas’ criou o BNDE (sem o ‘s’ ainda) em 1952; a Petrobrás em 1953, no auge da campanha ‘o petróleo é nosso’, e decretou um aumento de 100% do salário mínimo no 1º de Maio de 1954.

Era uma rota de colisão incontornável.

Ao mesmo tempo em que espetara as estacas necessárias à dimensão industrializante da soberania nacional, com infraestrutura, restrições à mobilidade do capital estrangeiro e expansão do mercado interno, Vargas atraía as espirais de um cerco de interesses que hoje, como ontem e sempre sonegaram legitimidade a um dinâmica de desenvolvimento inclusiva.

Só uma grosseira remodelagem da história poderá atribuir a Eduardo Campo ou a seu avatar feminino idêntica importância histórica.

Nem mesmo com sinal trocado.

Campos, antes e, ao que tudo indica, Marina de agora em diante, transitam num espaço de ambiguidade resultante do fracasso conservador em tornar palatável a restauração neoliberal no país, após 12 anos de governo do PT.

Seu candidato do peito, José Serra, mostrou-se indigesto ao eleitor por duas vezes e, por fim, ao próprio partido. O digerível Aécio Neves antes mesmo do embicar no aeroporto da fazenda do tio Múcio, bateu num teto baixo em torno de 20% dos votos, insuficiente para arrastar Dilma ao 2º turno.

A delicada operação em curso consiste em dar abrangência nacional-varguista à comoção do povo pernambucano pela perda do líder que governou o estado por duas vezes; e de transferir esse sentimento para uma terceira persona, Marina Silva, de modo a injetar competitividade eleitoral em uma quarta, Aécio Neves, e assim provocar uma segunda volta às urnas na base do ‘todos contra Dilma’.

Não surpreende que a ‘providência divina’ seja evocada para costurar esse frankenstein histórico.

Nessa alquimia destinada a produzir um adversário sobre-humano, uma junção de vivos e mortos para derrotar Dilma, caminhamos perigosamente do êxtase para o delírio conservador.

Não é preciso esfalfar neurônios para imaginar quem será o núcleo diretor dessa superprodução destinada a reeditar em farsa a tragédia de 54.

A persistir a ladainha das últimas horas, ingressaremos num degrau grotesco de manipulação da opinião pública para sustentar o que se pretende a partir de um fato gerador que não o comporta.

Glauber Rocha que entendia a força do misticismo na sociedade brasileira sem dúvida trabalhou esses elementos de forma mais complexa do que a encenação grotesca que se anuncia como realidade.

Glauber morreu há 33 anos, em 22 de agosto de 1981. Tinha apenas 42 anos de idade, mas aos 25 já havia realizado Deus e o Diabo na Terra do Sol.

O filme estrearia no Rio de Janeiro três dias depois do lendário comício da Central do Brasil e duas semanas antes do golpe de 64.

‘Deus e o Diabo’ guarda a atualidade de uma metáfora da encruzilhada brasileira, uma sociedade mergulhada em contradições estruturais dilacerantes mas sem força transformadora para efetivar as famosas ‘reformas de base’.

No filme, o vaqueiro Manoel encarna o povo brasileiro, a ‘massa pobre’, diria Glauber. Injustiçado pelo coronel para quem trabalhava, Manoel depois de matá-lo e ser perseguido engaja-se sucessivamente na procissão desesperada do beato Santo Sebastião e no bando de Lampião.

Mas não encontrará redenção nessas manifestações primitivas de rebelião, que Glauber valorizava como uma ruptura com o racionalismo bem comportado e inócuo diante da opressiva ordem dominante.

O cinema do premiado diretor de ‘Terra em Transe’, porém, não hesitava também em denunciar os limites dessa chave alternativa, expondo-a no paradoxo de uma estética aflitiva na qual os personagens parecem presos ao chão enquanto a câmera se move vertiginosamente ao seu redor.

Deus e o diabo se confundem na terra do sol, parece nos dizer Glauber. A figura dilacerada do jagunço Antônio das Mortes, talvez o personagem matricial da sua saga, dividido entre a consciência social e a obrigação pistoleira, é a síntese dessa tragédia.

Mas nem tudo é ambiguidade. Pelo menos isso o cinema de Glauber, deixou claro em relação ao país: 'Deus nos deu a vida; o Diabo inventou o arame farpado', dizia .

A farsa em curso nos dias que correm visa justamente embaralhar esse divisor.

Quer vender arame farpado como sinônimo de redenção da vida brasileira.

A ver.

Saul Leblon
No Carta Maior
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Lula e Dilma são vaiados no velório de Eduardo Campos?


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As eleições e a mídia

A influência dos meios de comunicação vai além da produção de noticiário. Eles contratam as pesquisas e organizam os debates

Está mais que na hora de discutir a interferência da mídia no
 processo eleitoral. Na imagem, a entrevista de Aécio Neves
no Jornal Nacional
Na próxima terça 19, com o início da propaganda eleitoral na televisão e no rádio, entraremos na etapa final da mais longa eleição de nossa história. Começou em 2011 e nossa vida política gira em torno dela desde então.

A batalha da sucessão de Dilma Rousseff foi iniciada quando cessou o curto período de lua de mel com as oposições, no primeiro ano de governo. Talvez em razão do vexame protagonizado por José Serra na campanha, o antipetismo andava em baixa.

Durou pouco. Na entrada de 2012, o clima político deteriorou-se. As oposições perceberam que, se não fizessem nada, marchariam para nova derrota na eleição deste ano. Ao analisar as pesquisas de avaliação do governo e notar que Dilma batia recordes de popularidade a cada mês, notaram ser elevadas as possibilidades de o PT chegar aos 16 anos no poder. E particularmente odiosa. Serem derrotadas outra vez por Dilma doía mais do que perder para Lula.

Ela era “apenas” uma gestora petista, sem a aura mitológica do ex-presidente. Sua primeira eleição podia ser creditada, quase integralmente, à força do mito. Mas a segunda, se viesse, seria a vitória de uma candidatura “normal”. Quantas outras poderiam se seguir?

A perspectiva era inaceitável para os adversários do PT. Na sociedade, no sistema político e no empresariado, seus expoentes arregaçaram as mangas para evitá-la. A ponta de lança da reação foi a mídia hegemônica, em especial a Rede Globo.

Recordar é viver. Muitos se esqueceram, outros nem souberam, mas a realidade é que a “grande imprensa” formulou com clareza um projeto de intervenção na vida política nacional.

Não é teoria conspiratória. Quem disse que os “meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste País, já que a oposição está profundamente fragilizada”, foi a Associação Nacional de Jornais, por meio de sua presidenta, uma das principais executivas do Grupo Folha. Enunciada em 2010, a frase nunca foi tão verdadeira quanto de 2012 para cá.

Como resultado da atuação da vanguarda midiática oposicionista, estamos há três anos imersos na eleição de 2014. A derrota de Dilma é buscada de todas as formas. O “mensalão”? Joaquim Barbosa? A “festa cívica” do “povo nas ruas”? O “vexame” da Copa do Mundo? A “compra da refinaria”? O “fim do Plano Real”? A “volta da inflação”? O “apagão” na energia? A “crise na economia”? A “desindustrialização”? O “desemprego”?

Nada disso nunca teve verdadeira importância. Tudo foi e continua a ser parte do esforço para diminuir a chance de reeleição da presidenta.

Ou alguém acha que os analistas e comentaristas dessa mídia acreditam, de fato, na cantilena que apregoam quando se vestem de verde-amarelo e se dizem preocupados com a moral pública, os empregos dos trabalhadores ou a renda dos pobres? Ou que queiram fazer “bom jornalismo”?

Temos agora uma ferramenta para elucidar o papel da mídia na eleição. Por iniciativa do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, está no ar o manchetômetro (http://www.manchetometro.com.br), um site que acompanha a cobertura diária da eleição na “grande imprensa”: os jornais Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo, além do Jornal Nacional da Globo (como se percebe, os organizadores do projeto julgaram desnecessário analisar o “jornalismo” do Grupo Abril).

Lá, vê-se que os três principais candidatos a presidente foram objeto, nesses veículos, de 275 reportagens de capa desde o início de 2014. Aécio Neves, de 38, com 19 favoráveis e 19 desfavoráveis. Tamanha neutralidade equidistante cessa com Dilma: ela foi tratada em 210 textos de capa. Do total, 15 são favoráveis e 195 desfavoráveis. Em outras palavras: 93% de abordagens negativas.

É assim que a população brasileira tem sido servida de informações desde quando começou o ano eleitoral. É isso que faz a mídia para exercer o papel autoassumido de ser a “oposição de fato”.

O pior é que a influência dessas empresas ultrapassa o noticiário. Elas contratam as pesquisas eleitorais que desejam e as divulgam quando e como querem. E organizam os debates entre candidatos.

Está mais que na hora de discutir a interferência dessa mídia no processo eleitoral e, por extensão, na democracia brasileira.

Marcos Coimbra
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“Efeito-mídia” não tira um ponto de Dilma. Isto é o sólido na pesquisa Datafolha





O monstruoso volume de mídia  gerado pela morte trágica de Eduardo Campos, apresentado como um semi-deus sacrificado  e tendo Marina como sua ungida sucessora ia, como é natural, alçar a candidatura da ex-verde aos níveis que a pesquisa Datafolha lhe dá.

Não apenas Marina Silva é personagem conhecida, sempre glamourizada pelos meios de comunicação como, é obvio, tem um recall de sua candidatura anterior.

Ainda mais em uma coleta de dados feita nos dois dias seguintes à tragédia, com as tevês transmitindo ininterruptamente o clima de comoção.

O que é significativo, na pesquisa, porém, é que isso não teve o poder de tirar sequer um ponto nas intenções de voto de Dilma Rousseff, cujo eleitorado — mais pobre, menos instruído e mais periférico que o de Aécio Neves — estaria, em tese, mais sujeito ao bombardeio de mídia.

Ao contrário, as declarações de voto espontâneas dela sobem ( 24 para 26%) e seus números de segundo turno ficam nos mesmos patamares que tinham na pesquisa anterior, até um pouco mais altos do que antes, em relação a Aécio. O que se mostra é que os eleitores de Aécio votam em peso em Marina ou em qualquer um contra Dilma. Não chega a ser novidade.

O que o Datafolha tenta nos convencer é de que todas as pessoas Marina capturou todos os votos das pessoas que estavam indecisas ou que iriam anular o voto e, agora, com a sua presença, sentem-se de novo motivadas a escolher um candidato.

Esta parcela dos eleitores, que somaria 27%, agora estaria reduzida a 17%, com todos os 10% que mudaram escolhendo Marina.

Que, de quebra, ainda leva o 1% de votos que tinham, cada um, Luciana Genro (PSOL), de Rui Costa Pimenta (Partido Comunista Operário) e do Ei-Ei-Eymael.

Aliás, os três, coitados, são os únicos que perdem votos no Datafolha.

Desde o dia em que se anunciou esta pesquisa de alto índice de insensatez, com os despojos do candidato morto ainda na cena do acidente, diz-se aqui que seu valor científico é zero, a não ser para retratar o que uma avalanche de mídia mórbida.

A crer-se, com boa vontade, que não houve uso da “reserva técnica” representada pelo “não-voto”, o que se prova, apenas, é o limite de manipulação da opinião pública pela mídia.

Foi incapaz de mover um voto sequer daqueles que, ao lado do governo ou da oposição de direita, haviam tomado partido.

E capaz, se tanto, de mexer com uma parcela de 10% dos brasileiros menos definidos politicamente.

Desde ontem, porém, cessaram as condições objetivas para que continue a avalanche de mídia mórbida, ou — no máximo — que ela tenha apenas uma última “marola” com uma hipotética — e abominável — indicação da viúva como vice de Marina.

É que, na noite de amanhã, acaba o monopólio midiático da oposição, embora esteja longe de acabar-se o desequilíbrio nos meios de comunicação.

Começa o horário eleitoral e começarão a serem vistas as realizações concretas de governo, o que Aécio tem parcamente e Marina não tem.

Não é possível, como em 2010, dizer se isso será o suficiente para evitar um segundo turno.

Mas é exato dizer-se que a candidatura Dilma atravessou o deserto de comunicação que lhe impôs o sistema de comunicação brasileiro — a mais forte e orgânica máquina partidária deste país — sem maiores perdas.

As percentagens, agora, são valores apenas relativos.

Conta é cada decisão de voto, que é mais profunda e pessoal do que qualquer “efeito-boiada” que os meios de comunicação sejam capazes de fazer.

O terreno a conquistar, o dos indecisos e, sobretudo, o do não-motivados, é estreito porque, de fato, a negação da política representada em Marina Silva há de ocupar certa parte dele, sobretudo na classe média-alta.

Já não se pode afirmar o mesmo dos ex-votos de Eduardo Campos no Nordeste ou do voto da periferia das metrópoles.

Onde pesa, e como, a palavra e a presença de Lula, o fator mais importante desta eleição, como na passada.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Análise da nova pesquisa DatafAlha


Os números revelados mostram um resultado ruim para Aécio e bom para Dilma. Depois de ser “oficialmente” apresentado para a população na entrevista ao “Jornal Nacional”, era de se esperar que Aécio crescesse, o que não aconteceu. Na simulação de segundo turno contra Dilma, ele caiu de 40% para 39% e Dilma subiu de 44% para 48%. A rejeição de Dilma caiu de 35% para 34% e a avaliação positiva do governo subiu de 32% para 38%.

Esses números são frutos diretos do fim do bombardeio midiático contra o governo. A morte de Campos tirou todos os outros assuntos do noticiário, como a dobradinha Pasdena/Petrobras, além do terrorismo econômico habitual ( que antes era sobre a inflação, depois era sobre o baixo crescimento). O horário eleitoral começa essa terça, com uma ampla vantagem para Dilma. Ela terá quase 12 minutos de televisão, enquanto Aécio terá 4 e Marina 2. Ela também poderá mostrar pela primeira vez em 4 anos suas realizações, algo que é escondido pela grande mídia.

O PT ainda conta com a “bomba” eleitoral Lula (90% de aprovação), político mais popular da história do país, que vai entrar em campo com tudo para defender o governo Dilma.

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Jarbas, o que não respeita nem mortos nem vivos


Convivência entre contrários no velório de Eduardo Campos foi prova de respeito ao ex-governador e à democracia; presidente Dilma Rousseff prestou solidariedade à viúva Renata Campos e também à adversária Marina Silva; presidenciável tucano Aécio Neves e ex-governador José Serra estiveram ao lado do ex-presidente Lula e do prefeito Fernando Haddad; diferenças partidárias iam ficando de fora da cerimônia fúnebre, não fosse o senador Jarbas Vasconcelos; adversário de Miguel Arraes e humilhado por Campos duas vezes nas urnas, ele discriminou presença de Dilma, a quem acusou de atitude falsa; na verdade, foi Jarbas quem chamou Eduardo, em vida, de "fazer de idiota o povo pernambucano"

Os principais personagens da política brasileira deram uma prova de respeito não apenas à memória do ex-governador Eduardo Campos, mas também à própria democracia, durante o velório dele, em Recife. Na manhã deste domingo 17, quando autoridades e políticos estiveram reunidos à volta da viúva Renata, dos seus cinco filhos e do caixão do ex-governador, a convivência entre contrários foi pacífica, mesmo que muito emocionada. Houve, no entanto, um ponto fora desta cena: o senador Jarbas Vasconcellos.

Pela tevê, o que o Brasil inteiro pode ver foram cenas de convívio amistoso entre líderes que pensam diferente, cujas divergências foram deixadas de lado num momento de choque nacional. Nem a tensão e a incerteza introduzidas na sucessão presidencial pela morte de Campos abalaram o respeito existente entre os adversários presentes.

A viúva Renata Campos recebeu de braços abertos a solidariedade que a presidente Dilma Rousseff foi prestar à família. Também a companheira de chapa de Campos, Marina Silva, foi alvo do respeito da presidente. Como maior autoridade do País, ela não poderia deixar de comparecer a uma cerimônia fúnebre com estas características, de um homem público duas vezes governador de Estado, candidato a presidente e, no caso específico, seu ex-colega de ministério no governo Lula. O ex-presidente, que estava no campo político oposto ao de Campos quando ele morreu, pranteou o amigo acima de qualquer divergência do momento.

Como só poderia se esperar de figuras públicas polidas e sensatas, o presidenciável tucano Aécio Neves e o ex-governador José Serra, que igualmente trabalhavam para vencer Campos nas urnas, igualmente foram até o Palácio do Campos das Princesas no intuito de amparar a família e manifestar seus pesares pela perda do ex-governador. Todos deram uma demonstração de que os sentimentos humanos estão acima das diferenças político-partidárias.

Só foi diferente o senador Jarbas Vasconcelos. Com um histórico de ferrenha oposição à família Campos em Pernambuco, desde os ataques que desferia sobre o ex-governador Miguel Arraes, a quem sucedeu, até o embate direto contra o Campos, em duas eleições. Jarbas perdeu as duas, a segunda em primeiro turno. Nessa fase, dizia que Campos "fazia o povo pernambucano de idiota" e praticava o "mau-caratismo". Diante da maior liderança dele, no entanto, procurou se reaproximar até que admitiu seu lugar como político de expressão menor do que a dele em seu Estado.

Com esse passado, o senador era a última pessoa presente ao velório que poderia discriminar a presença de alguém ali. Mas foi logo ele que, pensando na eleição presidencial, antes mesmo de o caixão de Campos baixar na sepultura, quebrou o protocolo. A crítica à presença da presidente Dilma, que nunca, ao longo de toda a campanha, atacou Campos frontal ou mesmo indiretamente, foi descabida. Típica de quem exibe sentimentos em público que não correspondem aos verdadeiros. Jarbas Vasconcelos perdeu uma grande chance de ficar calado num momento tão especial.

Abaixo, assista Jarbas atacando Eduardo Campos pelo apoio à mãe, Ana Arraes, para o TCU. "Nepotismo", disse ele.



No 247
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Marina, Mona Lisa e as tonalidades do novo

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=6294

O velório e o enterro de Eduardo Campos foram transformados em ato político mesmo com os caciques do PSB dizendo o contrário. Os filhos do morto usaram uma camiseta amarela com os dizeres “nós não vamos desistir do Brasil”, frase do candidato no Jornal Nacional, da Rede Globo, que servirá de mote para a campanha de Marina Silva. Não é possível parar o mundo para um verdadeiro recolhimento em meio às paixões de uma disputa eleitoral. Resta saber ser houve oportunismo de parte de quem, sem o choque da família, possa ter aproveitado a situação para faturar eleitoralmente.

E cinismo.

Nas redes sociais, os adversários de Marina, demonstrando certa preocupação com a possibilidade de ela ir ao segundo turno – em lugar de quem? – ou até vir a ganhar as eleições, acusaram-na de oportunismo e até de ter sorrido debruçada no caixão.

Numa foto, Marina aparece com ar de Mona Lisa. É um sorriso aquilo? Um esgar? Um tique? Se sorriu, por que o fez? Atrás dela, um homem ri. O que terão dito para Marina sorrir se, de fato, ela sorriu? A ideia é que ela comemorava a morte de Campos que lhe permitirá disputar a cadeira presidencial. É difícil acreditar que alguém se debruce sobre um caixão para fazer pose com sorrisos para a câmera. No mínimo, o bom senso diria que poderia pegar mal. Há algo mais nisso tudo. O quê?

O sorriso de Marina permanecerá como o da Mona Lisa. Um enigma. Se não for só uma boa montagem.

Eu acredito em tudo em tempos de internet, até em montagens instantâneas.

Marina passou a ser atacada por suas vinculações com a Natura e com a Itaú.

Qual candidato e qual partido com chances de eleição pode se gabar de não ter vínculos com empreiteiras e bancos?

O Banco Rural, por exemplo, não faz parte da vida dos dois partidos que mais se engalfinham pelo poder?

A questão é: Marina representa o novo? O novo absoluto? Algum grau de novidade? O novo total não existe no momento. Marina vem sendo acusando de fundamentalismo religioso, de homofobia, de conservadorismo em termos de questões de sexualidade e comportamento. Até que ponto tudo isso é verdade absoluta ou parte de uma desconstrução sintomática determinada pelo medo? PT e PSDB, em se tratando de certos temas, pouco fizeram. O Uruguai é a prova disso.

O que poderia ser o novo? Marina, segundo seus oponentes, não o seria por ter vindo do PT, por ter sido ministra, por isto e aquilo. O novo, nesse caso, só poderia ser quem nunca fez política? O novo seria Sílvio Santos ou Luciano Huck? Ou mesmo um velho do jogo com um jeito mais ou menos novo ou algum ponto, por menor que seja, fora da curva?

Especulações, apostas, artimanhas, estratégias, discursos…

Uma análise de quem não se move pela escolha de candidato, mas pelo desejo de perceber os contornos do jogo, mostra, individualmente falando, três bons candidatos na disputa real pela presidência da República. Cada qual com seu projeto.

Um liberal privatista, um intervencionista clássico e um intervencionista com novas tonalidades.

A entrada de Marina no jogo representa uma certeza: a polarização dançou.

O resto é provocação, sofisma e exaltação.

Já deu para ver que, nas redes sociais, a baixaria vai predominar.

A sofisticação dos militantes internautas segue um lema: do pescoço para cima tudo é canela.
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Carta a Eduardo Campos


Eduardo, você não imagina o quanto eu e todo povo pernambucano estamos lamentando a tua trágica e inesperada partida. Temos muitos motivos para isso. Primeiro, pela falta que irás fazer a tua família e aos teus amigos. Depois, pelo exemplo de homem público que representavas para o nosso estado e para o Brasil.

No entanto, eu tenho um motivo particular para lamentar a tua morte. Depois da tua entrevista no Jornal Nacional, eu fiquei com muita vontade de te encontrar, de apertar a tua mão, olhar no teu olho e te perguntar: Quem disse que eu desisti do Brasil, Eduardo? Infelizmente, no dia seguinte, ocorreu o trágico acidente e eu nunca vou poder te dizer isso.

Eduardo, não fui eu, nem o povo brasileiro que desistimos do Brasil.

Quem desistiu do Brasil foram setores da política e da mídia brasileira, quando promoveram o golpe militar de 1964 que mergulhou o nosso país em 21 anos de ditadura militar e que submeteu o povo brasileiro aos anos mais difíceis de nossa história. Inclusive, sua família foi vítima na carne daquele momento, quando o seu avô e então governador de Pernambuco, o inesquecível Miguel Arraes, foi retirado à força do Palácio do Campo das Princesas e levado ao exílio.

Eduardo, você não imagina o que essa mesma mídia está fazendo com a tragédia que marcou a queda do teu avião. Eu nunca pensei que um dia pudesse ver carrascos do jornalismo político brasileiro como Willian Bonner, Patrícia Poeta, Alexandre Garcia e Miriam Leitão falando tão bem de um homem público. Os mesmos que, um dia antes do acidente, quiseram associar a tua imagem ao nepotismo no Brasil choram agora a tua morte como se você fosse a última esperança do povo brasileiro ver um Brasil melhor. Reconheço as tuas qualidades, governador, mas não sou ingênuo para acreditar que sejam elas o motivo de tanta comoção no noticiário político brasileiro.

A pauta dos veículos de comunicação conservadores do Brasil sempre foi e vai continuar sendo a mesma: destruir o projeto político do partido dos trabalhadores que ameaça por fim às concessões feitas até então a eles. O teu acidente, Eduardo, é só mais uma circunstância explorada com esse fim, do mesmo jeito que foi o mensalão, os protestos de julho e a refinaria de Pasádena. Se amanhã surgir um escândalo “que dê mais ibope” e ameace a reeleição de Dilma, a mídia não hesitará em enterrar você de uma vez por todas. Por enquanto, eles vão disseminando as suposições de que foi Dilma quem sabotou o teu avião, e que fez isso no dia 13 justamente pra dizer que quem manda é o PT. Pior do que isso é que tem gente que acredita e multiplica mentiras e ódio nas redes sociais.

Lamentável! A Rede Globo e a Veja não estão nem aí para a dor da família, dos amigos e dos que, assim como eu, acreditavam que você não desistiria do Brasil. Você é objeto midiático do momento.

Eduardo, não fui eu quem desistiu do Brasil. Quem desistiu foi o PSDB, que após o regime militar teve a oportunidade de construir um novo projeto de nação soberana e, no entanto, preferiu entregar o Brasil ao FMI e ao imperialismo norte americano, afundando o Brasil em dívidas, inflação, concentração de renda e miséria. O mesmo PSDB que, antes do teu corpo ser enterrado, já estava disseminando disputas entre o PSB e REDE para inviabilizar a candidatura de Marina, aliança que custou tanto a você construir.

Eu não desisti do Brasil, Eduardo. Quem desistiu foi a classe média alta que vaiou uma chefe de Estado num evento de dimensões como a abertura de uma copa do mundo porque não se conforma com o Brasil que distribui renda e possibilita a ricos e pobres, negros e brancos as mesmas oportunidades.

E tem mais uma coisa, Governador. Se ao convocar o povo brasileiro para não desistir do Brasil o senhor quis passar o recado de que quem desistiu foi Lula e Dilma, eu gostaria muito de dizer que nem eu, nem o povo e, nem mesmo o senhor, acredita nisso. Muito pelo contrário. A gente sabe que o PT resgatou o Brasil do atraso imposto pelo nosso processo histórico de colonização, do intervencionismo norte americano e da recessão dos governos tucanos. Ao contrário de desistir do Brasil, Lula e Dilma se doaram ao nosso povo e promoveram a maior política de distribuição de renda do mundo, através do bolsa família. Lula e Dilma universalizaram o acesso às universidades públicas através do PROUNI, do FIES e do ENEM. Estão criando novas oportunidades de emprego e renda através do PRONATEC e estão revolucionando a saúde com o programa mais médicos.

Eduardo, eu precisava te dizer: não fui eu, nem o povo brasileiro, nem Lula, nem Dilma que desistimos do Brasil. Quem desistiu do Brasil, meu caro, foram os mesmos que hoje estão chafurdando em cima das circunstâncias que envolvem o acidente que de forma lamentável tirou você do nosso convívio. Fazem isso com o motivo único e claro de desgastar a reeleição de Dilma e entregar o país nas mãos de quem, de fato, desistiu do Brasil.

Descanse em paz, Eduardo. Por aqui, apesar da falta que você vai fazer a todo povo pernambucano, eu, Lula, Dilma e os brasileiros que acreditam no futuro do Brasil vamos continuar na luta, porque NÓS NUNCA DESISTIREMOS DO BRASIL.

Carlos Francisco da Silva, de Bezerros (PE)
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Essa é do Barão... 16


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Uma ideia

Os americanos são supersticiosos, mas também são práticos. Treze é um número de azar em todo o mundo, mas só nos Estados Unidos fizeram algo a respeito: para anular os efeitos do número maldito, os prédios lá construídos — pelo menos os construídos até bem pouco tempo — não têm o décimo terceiro andar.

No painel dos elevadores, a numeração pula do 12 para o 14. É claro que o 14 é o 13 que não ousa dizer seu nome e, mesmo com pseudônimo, continua a ser o 13. Não interessa. Num hotel americano, por exemplo, você jamais ficará num andar azarento.

Dizem que não foi só a superstição que motivou a medida irracional. No começo da era dos arranha-céus tinha muita gente se hospedando no décimo terceiro andar para se jogar pela janela.

Resolveram a questão eliminando o andar — e a tentação. Os suicidas, aparentemente, não achavam muita graça em se atirar de um décimo quarto, ainda mais um falso décimo quarto. Resolvido o problema, só ficou o ridículo.

Mas, sei não. Mesmo se expondo ao ridículo, a gente talvez devesse começar a pensar em imitar o que os americanos fizeram com o decimo terceiro andar e cortar o mês de agosto dos nossos calendários.

Passar de julho a setembro sem a etapa intermediária do mês do desgosto, com tantas tragédias no seu prontuário.

Está certo, a iniciativa complicaria nossas relações internacionais, encurtaria o ano, eliminaria aniversários e efemérides, traria um caos ainda maior ao nosso futebol e desalinharia todos os mapas astrais, mas o Brasil já é um país tão diferente dos outros que a mudança do calendário seria apenas uma excentricidade a mais. E a mudança teria que ser imediata. Este agosto ainda tem, deixa ver, 14 dias para fazer das suas. Setembro.

Papo Vovô

Uma das funções de avô é acompanhar os programas de TV da neta, para poder fazer comentários inteligentes. Tenho cumprido meu papel, mas nem sempre entendo o que está acontecendo.

Pensei que um dos personagens do “Gabriela Estrela” e a Gabriela fossem namorados, mas a Lucinda me corrigiu: “Não são namorados, são apenas amigos, vô.” Depois disse a meu respeito, com um certo desdém: “Esse guri só pensa em romance.”

Luis Fernando Veríssimo
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