17 de ago de 2014

Uma morte no meio do caminho e a passionalidade de uma campanha


A decisão de transformar Marina em candidata pelo PSB está tomada. Com a morte de Campos, o realinhamento de seu partido está agora nas mãos de sua vice.

Marina não é Eduardo Campos

A decisão de transformar Marina na candidata do PSB está tomada. Veio mais rápido do que a própria Marina imaginava.

Dois fatores foram decisivos para que isso ocorresse. O primeiro foi o apoio antecipado da família Campos, em pleno luto.

O outro foi que os setores do PSB mais à direita e mais próximos do PSDB mudaram de ideia quanto a impor resistência.

O próprio PSDB mudou de ideia.

No dia do acidente, Aécio recebeu indicações dos especialistas de pesquisa de que a possível candidatura Marina trazia uma boa e uma péssima notícias.

A boa era a de que as chances de haver segundo turno subiriam se ela fosse a candidata. Ainda mais com a blindagem que agora recebe pela comoção com a morte de seu companheiro de chapa.

A péssima notícia foi a de que Aécio teria uma ameaça muito maior à sua posição do que havia com Campos.

Marina é bem mais conhecida do eleitorado por já ter sido candidata em 2010 — é o chamado "recall".

Aécio acabou sendo convencido a reduzir seus temores. FHC e a ala do PSDB mais próxima a Serra — como seu vice, Aloysio Nunes — se esforçaram em mostrar que o objetivo mais importante dessa campanha é derrotar o PT.

Mas, nas conversas com o candidato, os argumentos mais convincentes do alto-comando paulista suplantaram o cálculo dos analistas que só olharam para a fotografia parcial das pesquisas de opinião.

Os tucanos confiam que, assim como Eduardo Campos não era Marina — e tinha dificuldades para colar sua imagem na de sua vice —, Marina não é Campos. Ela terá sérios obstáculos para manter as alianças costuradas por Campos em vários estados.

No Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, os partidos antes fechados com Campos já disseram que Marina não faz parte de seus planos, e que o acordo com o PSB será desfeito, migrando para o PSDB.

Afinal, quem será "cristianizado"?

No vocabulário político brasileiro, "cristianizar" uma candidatura é uma das piores coisas que podem acontecer.

O vocábulo não tem nada a ver com o cristianismo, e sim com a figura de Cristiano Machado.

Em 1950, durante a presidência Gaspar Dutra, o PSD lançou o mineiro Cristiano Machado como candidato à sucessão. Machado foi insuflado pela ala governista que se opunha a Getúlio Vargas.

Vargas acabou saindo candidato pelo PTB, mas conseguiu atrair o apoio de seções estaduais do PSD em vários estados. Machado ficou a ver navios.

Desde então, "cristianizar" uma candidatura significa esvaziá-la politicamente e trocá-la pela de um outro partido. Os correligionários fazem corpo mole e demonstram pouco entusiasmo em apoiar a candidatura do próprio partido.

É um problema para Marina, principalmente se ela não demonstrar uma boa arrancada, já nas próximas pesquisas que irão trazê-la na lista de candidatos.

Por outro lado, pode haver uma grande surpresa. Se Marina aparecer "bombada" nas intenções de voto, quem sabe à frente de Aécio Neves, tudo muda.

Essa possibilidade traria uma segunda reviravolta na campanha depois da morte de Campos. O risco de cristianização passaria a pender para o lado de Aécio Neves.

O desespero pode tomar conta da candidatura tucana e sua única saída seria partir para as conhecidas práticas "heterodoxas" usadas para se garantir apoio eleitoral a qualquer custo.

O cartel de mídia também pode desempenhar um papel importante nessa operação de salvamento de Aécio, se conseguir fustigar e expor desavenças internas ao PSB em relação a Marina — que, aliás, sempre foram muitas.

A morte e a passionalidade na campanha

A morte, quando é também um fato político, pode se revelar um acontecimento histórico de consequências imprevisíveis.

A morte de João Pessoa levou à Revolução de 1930. A morte de Vargas provocou uma reviravolta política espetacular e uma grande projeção do trabalhismo.

As mortes de Jango, JK e Lacerda puseram uma lápide no PTB e no PSD — que nunca mais seriam os mesmos — e na UDN — que desapareceria para sempre.

A morte de Tancredo levou Sarney à presidência, transformou-o em símbolo da transição e deu início a uma profunda reorientação do PMDB, transformando-o no que é hoje.

A morte pode alterar a lógica política de um partido ou mesmo de um país, principalmente quando traz uma passionalidade exagerada que contamina o raciocínio dos políticos, dos partidos e dos eleitores.

Os mortos passam a ser lembrados não só pelas virtudes que tinham, mas também pelas que pareciam que tinham e até pelas que não tinham, mas que nós gostaríamos muito que eles tivessem.

Os adjetivos pejorativos e as acusações são sepultadas. Apenas flores são plantadas sobre o obituário.

Os mortos, quando saem deste mundo, deixam de ser o que qualquer pessoa de fato é: um emaranhado de virtudes e defeitos.

O desastre selou o destino de Eduardo Campos e trouxe Marina para onde ela sempre pretendeu estar — isto é, no centro da disputa presidencial.

A morte de Campos, sentida por todos com pesar, é também o prato que será servido pelos marqueteiros que farão a campanha de Marina.

O ofício de qualquer publicitário, mesmo nas piores horas, é o de mexer com o sentimento das pessoas para seduzí-las a fazer escolhas que, em sã consciência, não fariam.

Todavia, um partido precisa mais do que de um luto para sustentar uma candidatura.

Aliás, a depender da dose, explorar a morte de Campos pode se tornar um veneno.

Principalmente se Marina, com pouquíssimo tempo de propaganda no rádio e na TV, for transformada em mera carpideira da imagem de Campos.

PSB em transe

O PSB é agora uma nau sem timoneiro.

Seus grupos são muito distintos, de estado para estado, e a figura que os unia, Eduardo Campos, não existe mais.

Por ironia, a maior liderança do PSB, hoje, é Marina Silva, que tem data marcada para abandonar o partido e formar sua Rede.

O PSB estava em pleno processo de realinhamento partidário.

Em Ciência Política, realinhamento partidário é uma mudança do perfil e da identidade de um partido como estratégia para se alcançar uma maior fatia do eleitorado.

Muda o tipo de gente que apoia esse partido e mudam também os atributos, as etiquetas que a sigla carregava nas costas.

O PSB, sob a liderança de Campos, estava em pleno processo de realinhamento. Descolou-se de seu aliado histórico, o PT, abandonou a base governista, depois de 12 anos, deixou de lado sua etiqueta de "socialista" para a de "amigo do mercado".

Para diferenciar-se, Campos imaginou que estava na hora de sair da sombra do PT.

Para crescer, precisava desalojar o PSDB do lugar de principal rival oposicionista viável em uma eleição.

Ali nasceu a estratégia de "terceira via" e de quebrar a polarização. Algo que significaria, se tudo desse certo, que tanto PT quanto PSDB estariam aptos a um convite de Campos para comporem um futuro governo

É a mesma coisa que fala Marina quanto diz que governaria com "os bons" de qualquer partido (Robespierre perdeu a cabeça na guilhotina justamente porque ninguém estava certo se fazia parte de sua lista de amigos ou da de inimigos).

Campos adotou o neoliberalismo como visão e o gerencialismo empresarial como método de gestão.

Sua principal crítica ao governo Dilma era exatamente o discurso que agradava os grandes financistas e empresários: corte de gastos; elevar as taxas de juros; manter metas de inflação dissociadas de metas de crescimento; e poucas linhas sobre política social — de preferência, só falar em política social com visão empresarial.

Era realinhamento para ninguém botar defeito.

Agora, com a morte de Eduardo Campos e com as incertezas quanto à personalidade de Marina, o rumo programático e político da candidatura do PSB tornou-se um ponto de interrogação.

Tudo indica (leia as análises de Emir Sader e de Saul Leblon) que Marina será levada, de bom grado, a ser uma candidata previsível para o mercado e imprevisível para a política e para os partidos.

Com a morte de Campos, o realinhamento de seu partido está agora nas mãos de sua vice e deve completar-se em ritmo acelerado.

A missão de Marina de afirmar-se como uma candidatura de mercado, vendida publicitariamente como inovadora e contestadora, não é difícil.

Ela já está acostumada a ver a ação destemida de ongs que atacam baleeiros em alto mar, ou conduzem ações humanitárias na África, mas que jamais tiveram a ousadia de levantar um único dedo para falar mal de bancos na Suíça.

Antonio Lassance, cientista político.
No Carta Maior
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O adeus a Eduardo Campos e o sorriso de Marina Silva


Poucas vezes na história política brasileira o velório de um homem público causou tamanha comoção popular e teve uma cobertura midiática tão intensa quanto o de Eduardo Campos. Há várias explicações para isso, entre elas o fato de a morte ter se dado de forma trágica e ter interrompido subitamente uma carreira política em ascensão. Eduardo tinha menos de 10% nas pesquisas para presidente da República, mas em 2010 foi reeleito com 82% dos votos em Pernambuco. Ou seja, em seu estado era uma liderança popular inconteste e todas as homenagens que recebeu hoje são, além de merecidas, compreensíveis.

Ao mesmo tempo não se pode deixar de perceber uma narrativa midiática claramente politizada do episódio. Vários veículos de comunicação estão aproveitando o sentimento sincero de milhares de pessoas para capitalizar politicamente. O UOL, por exemplo, tem como um dos seus principais destaques desde cedo uma nota informando que Lula e Dilma teriam sido vaiados no velório. O próprio texto informa que depois os aplausos abafaram as vaias. Mas no título só há destaque para os apupos negativos.

Na GloboNews também se criou um clima de cobertura com toque oposicionista durante todo o dia. O jornalista Luis Carlos Azenha que está em Recife aponta que entre outras coisas a emissora escondeu a emoção de Lula.

Nas redes sociais, porém, o fato político de destaque foi outro. A foto em que Marina Silva aparece ao lado do caixão de Eduardo Campos sorrindo se tornou o meme do dia. O contexto da foto não é claro, mas muitos consideraram aquele sorriso como sinal de desrespeito. E um sinal de que ela estava feliz com o desfecho para a sua candidatura.

É preciso ter muito cuidado quando se é pessoa pública. Todos seus gestos podem ser mal interpretados a partir de um flagrante fora de contexto. No caso de Marina Silva, esse cuidado no velório de hoje deveria ter sido redobrado, afinal ela se tornará herdeira da vaga de Campos.

Dito isso, é preciso ser muito mal intencionado para tentar instrumentalizar politicamente essa foto atribuindo à candidata uma satisfação pela morte de Campos. Marina sorriu ao lado do caixão como muitos de nós já devemos ter feito isso ao lado de entes queridos. Em algum momento alguém conta uma história divertida do morto, fala de um momento em que ele fez algo emocinante ou mesmo conta uma piada e as pessoas riem.

O ser humano também ri em enterros. E isso às vezes é uma forma de homenagear aquele que se foi.

Marina terá uma campanha onde vai ter de ser questionada sobre muitas coisas. Ela precisará deixar mais claro suas posições a respeito da economia, de programas sociais, de obras na área energética, de com quem pretende governar se eleita, até porque se elegerá por um partido com o qual tem pouca identidade etc e tal. Mas tomara que não tenha que ficar dando explicações sobre uma foto em que sorria ao lado de um caixão. Tomara, também, que não busque fazer uso político da trágica morte de Eduardo Campos. Nem uma coisa nem outra farão bem ao processo democrático.

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De que vive a Marina Silva?


Recordar é viver. Com a entrada de Marina Silva na disputa presidencial, uma pergunta que surgirá durante a campanha (ou pelo menos assim imagino) é a fonte de rendimentos da ex-senadora.

Afinal, do que vive Marina? Não é uma pergunta banal: o eleitor tem o direito de saber. Fundamentalmente para entender se interesses privados se cruzam com interesses da política Marina, tanto a ex-senadora quanto a eventual presidente da República.

Em 2013, antes de sair em licença do jornal em que trabalho, eu me debrucei sobre esse assunto. Numa pesquisa que durou alguns dias, localizei e pedi informações a 30 instituições que, de alguma forma, deixaram algum rastro na internet sobre palestras ministradas pela ex-senadora a partir de 2012. Havia bancos, universidades. Mas apenas um foi transparente. O Conselho Federal de Contabilidade reconheceu ter pago a bagatela de R$ 33 mil a Marina por uma única participação em um congresso no Pará.

Fui então indagar à assessoria da então presidenciável. Ela se recusou a fornecer quaisquer valores e contratantes. Limitou-se a dizer que Marina na verdade proferiu 57 palestras pagas desde 2012. Ou seja, quase a metade das palestras que Marina profere nem sequer aparece na internet (ou pelo menos eu não as encontrei).

Isso levanta outra questão: Marina fez ou faz encontros pagos e sigilosos com empresários? A ex-senadora alegou, pela assessoria, que se vê impedida de informar os valores porque assinou cláusulas de confidencialidade com seus clientes. Ora, claro que ninguém é obrigado a assinar cláusula alguma: se Marina assinou é porque concordou com o sigilo. O modo pelo qual uma candidata à Presidência trata a questão da transparência também é de extremo interesse público.

O texto saiu aqui.

Rubens Valente
No CAf
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Dilma e Lula no velório; Marina, no showmício

Dilma conforta Ana Arraes, mãe do ex-governador Eduardo Campos,
durante Missa de corpo presente, em Recife (PE).
Foto: Roberto Stuckert Filho/PR.
Lula com o filho caçula de Eduardo no colo, e D Renata. Ao fundo, um penetra


Veja também: O corpo fala, Marina Silva
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O legado de Eduardo entre a ideologia e o pragmatismo


Rei morto, rei posto. Sai Eduardo, entra Marina. Essa seria a ordem natural das coisas. No sistema republicano, vice assume o lugar do principal nos impedimentos deste. É o que deveria acontecer também no curso do processo eleitoral. E é inevitavelmente o que aconteceria, se se tratasse de uma questão lógica, já que o PSB não tem outro candidato viável. Por que, então, a controvérsia?

Examinemos o processo eleitoral no Brasil. Cada candidato à presidência não é apenas o portador de uma proposta política. É um centro de articulação de interesses de sua própria coligação, e um atrator dos interesses externos a ela. Em termos de coligação, o importante não é propriamente a ideologia do líder, mas o tempo de televisão vendido pela legenda. No círculo externo, o importante é a capacidade de obter financiamentos de campanha.

O que diferencia as duas situações é a fisiologia política em seu mais alto grau. Vejamos por que. Temos duas excrescências políticas no país: primeiro, o chamado Fundo Partidário, pelo qual partidos políticos registrados têm direito a recursos públicos na proporção de suas bancadas; segundo, o tempo de televisão gratuito em campanhas eleitorais, pelo qual os partidos podem vender esse tempo para candidaturas majoritárias.

Por que chamo isso de excrescências? Simplesmente porque, numa democracia republicana, são os partidos políticos que constituem o Estado, e não vice-versa. O partido é uma representação parcial da sociedade que luta pelo poder político de representá-la como um todo. Numa palavra, o partido forma o Estado, como expressão da sociedade organizada, e não o Estado forma partidos, através de subvenções financeiras. Ou deveria ser assim.

Não há nenhum sentido republicano numa situação pela qual a sociedade inteira financie, com recursos da cidadania, partidos políticos que representam, pela própria definição de partido, uma parte da sociedade. Justamente por termos essa excrescência, temos quase 40 partidos políticos registrados no país, a maioria dos quais se vende como legenda de aluguel nas campanhas eleitorais.

A segunda excrescência política não é propriamente o horário eleitoral dito “gratuito” mas a possibilidade de os partidos venderem “seu” tempo de televisão. Esse tempo não é deles. Quando se fala em horário “gratuito” talvez o grande público não saiba que não há nada de gratuito, mas sim tempo pago pela sociedade inteira na tevê e no rádio. Portanto, não há sentido republicano em que um partido venda um tempo que não é seu, mas do povo.

Como conciliar o princípio democrático de acesso dos partidos que representam a sociedade aos meios de comunicação com a moralização desse processo? Primeiro, cancelando o direito de tempo “gratuito” na tevê e rádio para partidos que não os utilizem, nas faixas proporcionais ou majoritárias, em nome de sua própria legenda. Segundo, eliminando o Fundo Partidário, que hoje, na maioria dos casos, não passa de um cartório de manipulação de interesses financeiros por parte de profissionais que captam assinaturas para criação e manutenção de partidos artificiais.

Para conciliar democracia com funcionalidade, no caso de campanhas presidenciais ou de governadores o tempo gratuito seria dividido proporcionalmente às bancadas dos partidos que tivessem candidatos próprios, com o tempo sobrante dos outros partidos dividido igualmente entre todos os candidatos. Seria rigorosamente reprimida a venda de tempo de tevê e rádio. No segundo turno, como acontece hoje, o tempo seria igualmente dividido entre os dois candidatos mais votados.

Na vigência de um sistema desse tipo a sucessão de Eduardo como candidato da coligação liderada pelo PSB fluiria normalmente. Sem isso, os problemas são quase insolúveis. De um ponto de vista ideológico, Marina é a solução natural para efeito externo. Entretanto, só os muito ingênuos ignoram o fato de que, como cabeça de chapa, Eduardo estava no ápice de uma pirâmide de interesses econômicos que estavam bancando ou iriam bancar sua candidatura. Nessa articulação, Marina não tinha grande relevância.

Na verdade, se tivesse relevância, Marina atrapalharia. Era o candidato, e não ela, a figura confiável para o bloco de empresários paulistas que estava apoiando a chapa. Esse bloco não tem qualquer simpatia pelo discurso ambientalista. Por outro lado, os partidos da coligação tinham mais expectativas de ganhar recursos financeiros para seus esquemas de campanhas proporcionais, com a venda do tempo de tevê e rádio para o PSB, do que participar no esquema ideológico da candidatura. Isso terá de ser rediscutido agora.

Realisticamente, no extravagante sistema partidário brasileiro, a maioria dos partidos aguarda as campanhas eleitorais para ganhar dinheiro, não para gastar com propaganda política. Lembrem-se do mensalão: todo o problema começou quando Roberto Jefferson vendeu tempo de televisão para o PT, por R$ 20 milhões, e o PT só teve como pagar R$ 4 milhões. A tragédia, para o PT, não foi que tivesse ganho muito dinheiro na campanha, mas que ganhou menos do que esperava.

O PSB, como líder da coligação de Eduardo, era o centro de confiança dos demais partidos da coligação. Obviamente, houve muitos entendimentos baseados na confiabilidade de um homem para bancar essa campanha presidencial num país continental, extremamente cara tendo em vista as distâncias a percorrer. Agora isso tem que ser reconstruído. A questão, por certo, não é ideológica; é uma questão prática e, em última instância, de interesses.

Essa é, pois, uma escolha de Sofia para o PSB: quem comandará o caixa de uma campanha presidencial que, normalmente, deve estar na mão do candidato ou candidata? Quem será o elemento confiável para os aliados e para os adversários na condução dos compromissos de campanha? E, finalmente, quem será o melhor candidato do ponto de vista eleitoral? Ou seria melhor fazer o que muitos líderes do partido haviam desejado, a saber, uma aliança com o PT ou com o PSDB pela qual o partido perderia um pouco do perfil ideológico, não teria maiores compromissos com aliados no curto prazo e ainda sairia ganhando no campo dos interesses materiais? Contra isso, só haveria um ponto a refletir: na palavra de Gramsci, um pensador muito caro a Roberto Amaral, “você deve trazer o adversário para uma posição da qual ele só pode recuar com desonra”. Onde estará a honra do PSB?

J. Carlos de Assis, Economista, doutor em Engenharia da Produção pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.
No GGN
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Os “economistas” de Patrícia Poeta ditando a campanha presidencial




Conta-se que um general da ditadura, escrupuloso em relação à estrita obediência das leis na condução dos negócios públicos, perguntou ao vice-presidente e jurista Pedro Aleixo, pouco antes que o pano negro do AI-5 caísse sobre a cidadania brasileira, se o AI-5 era mesmo constitucional. Pedro Aleixo teria respondido, laconicamente, que era preciso acabar com os cursos de introdução ao Direito nos colégios militares. Se os generais fossem se preocupar com o Direito seria preciso desfazer tudo que se tinha feito desde o golpe de 64.

Essa fábula — talvez mito, talvez com fundo de verdade — me veio à mente quando vi a entrevista do candidato Eduardo Campos no Jornal Nacional de quarta-feira. Patrícia Poeta, tão graciosa, cresceu nos saltos ao espremer o entrevistado com uma questão mais ou menos assim: O senhor tem feito promessas de cortar o gasto público aqui e ali. Entretanto, os economistas dizem que é necessário, para reduzir a inflação, cortar profundamente. Sem cortar fundo nos gastos públicos, deixou entender ela, o país mergulharia em inflação.

Há muitas bobagens nessa pergunta, que procura ditar a resposta. Em geral, essas bobagens se devem aos cursos rápidos de economia frequentados por jornalistas. Na verdade, às vezes nem chegam a ser cursos; são conversas da vida cotidiana elevadas a categorias de sabedoria convencional nas entrevistas de televisão. Como regra geral, a sabedoria econômica convencional repete os mantras da direita que atendem, essencialmente, aos interesses da comunidade financeira e do empresariado que se ceva nas taxas de juros elevadas.

Mas façamos uma pequena exegese da pergunta da espertíssima Patrícia Poeta. Ela afirma: “economistas dizem que tem que cortar profundamente nos gastos públicos para controlar a inflação”. Vamos decompor a frase: primeiro, “os economistas dizem”. Bem, serão todos os economistas? Melhor ainda, haverá um consenso de economistas nessa matéria? Quais são esses economistas? Bem, eu posso adiantar que são os economistas neoliberais. Contudo, ela, se fosse uma jornalista honesta, ou se fosse simplesmente informada, diria: “economistas neoliberais”, ou “economistas que se dizem ortodoxos”, ou coisa que o valha.

O que dizem os “economistas” de Patrícia Poeta? Dizem que, para acabar com a inflação, é preciso cortar fundo nos gastos públicos. Bem, isso é simplesmente uma estupidez. A relação entre orçamento público e a economia em seu conjunto está intimamente relacionada com o ciclo econômico. Se me disserem, numa situação de boom econômico, que se deve aumentar os gastos públicos, eu discordaria. Contudo, em situação de recessão ou perto dela, eu sustento que o aumento do gasto público, na verdade o aumento do gasto deficitário público é absolutamente essencial para a recuperação.

O que Eduardo Campos deveria ter respondido? Teria dito: Patrícia querida, um economista muito importante do século XX, na verdade, o maior do século, ensinou uma coisa que se chama “política fiscal anticíclica”, pela qual você aumenta o gasto público deficitário na recessão e o reduz ou elimina no boom. Em outras palavras, você aumenta a dívida pública num movimento e a reduz no movimento simétrico. Não conheço nenhum economista sério que se contraponha a isso, exceto os ditos ortodoxos.

Entretanto, o que afirmam os ditos ortodoxos? Dizem que, para sair da recessão, é preciso recuperar a confiança do empresariado. Isso é uma tautologia. Se a economia está em recessão, não há demanda suficiente para aumento de produção; assim, sem demanda, não é possível recuperar a confiança do empresário. E ficamos todos, como disse Marx em outro contexto, dans la même merde.

De fato, só existem três instrumentos de política econômica para aumentar a demanda agregada: a política monetária (juros mais baixos e maior disponibilidade de crédito), aumento das exportações (exportação para fora gera demanda interna) e política fiscal. A política monetária em geral não funciona, pela mesma razão da confiança: ninguém vai tomar dinheiro emprestado para investir, mesma a taxa zero de juros, se o resultado é produzir para as prateleiras e ficar com uma obrigação bancária, mesmo barata; portanto, primeiro vem a pressão da demanda, depois a dita “confiança” e o investimento.

O aumento das exportações pode ajudar. Mas o que dizer quando, como hoje, todos — todos — os países industrializados avançados, Europa, Estados Unidos e Japão, querem exportar mais e importar menos, isso pela primeira vez na história do capitalismo, exceto na Grande Depressão dos 30? Para onde vamos mandar nós as nossas exportações, a não ser de primários para a China? E o que fazemos com nossa indústria de transformação e, sobretudo, de bens de capital? Vejam no balanço comercial com os países industrializados avançados: nossas exportações desabam e as exportações deles para nós crescem. Se isso não mudar por uma mudança estratégica na nossa economia (falo disso posteriormente), não demora muito e esgotaremos nossas belíssimas reservas externas de 380 bilhões de dólares!

Na ausência de qualquer eficácia da política monetária e na política de exportações, resta, vamos dizer de novo nessa modesta aula de economia heterodoxa para Patrícia Poeta, a política fiscal. Se nós a abandonarmos, vamos da recessão para a depressão. Exatamente o que está acontecendo na Europa. Por pressão da Alemanha, uma economia conduzida por exportações, todos os países da área do euro se subordinaram a políticas ortodoxas de corte do gasto público e pagamento da dívida pública. A Alemanha faz uma política egoísta, de roubar o vizinho. Contudo, de te fabula narratur: neste trimestre deve ter crescimento zero, pela circunstância óbvia de que 40% de suas exportações iam tradicionalmente para a área do euro que ela está estrangulando.

Quanto aos demais países da área do euro que seguiram a lição econômica de Patrícia Poeta — vou passar a chamar de Lei Patrícia Poeta, ou Lei da Globo —, mergulharam numa tragédia social: a Espanha tem taxa de desemprego de 25%, sendo que, entre os jovens, vai a mais de 60%; o mesmo acontece com a Grécia. A Inglaterra, fora da área do euro mas assim mesmo se aplicando as mesmas políticas ortodoxas, continua oficialmente em recessão. A França se arrasta, pois o socialista Hollande não tem peito para enfrentar a ortodoxia alemã. Enfim, está acontecendo o que Mário Draghi, ao assumir a presidência do Banco Central Europeu, pontificou: Precisamos destruir o estado de bem estar social da Europa.

É isso, dona Patrícia, que a senhora quer que se faça na economia brasileira? Cortar profundamente, cortar salário mínimo, cortar Bolsa Família, cortar os parcos investimentos que ainda fazemos em habitação e infraestrutura?

Estou escrevendo tudo isso não para comentar a resposta de Eduardo Campos, porque também ele é um neoliberal, mas porque tenho certeza de que os “economistas” de Patrícia vão perguntar a Dilma nesta quinta feira na mesma direção. Ah, como gostaria de fazer uma pergunta de público, uma só, a Dilma: Nós, presidenta, economistas de linha keynesiana, queremos saber da senhora porque não manda Mantega acabar com essa bobagem de superávit primário quando a economia patina em torno de crescimento de 1%? Não tema, Presidenta, qualquer efeito inflacionário nisso: inflação, como se sabe desde os tempos de Adam Smith, é um fenômeno de mercado real, um fenômeno de oferta e de demanda, não um fenômeno monetário — exceto, neste caso, em situações de boom.

A inflação brasileira, Presidenta, me permita um adendo: ela é efeito sobretudo de indexação legal que ainda existe na economia na áreas dos serviços públicos, que respondem por quase 40% do índice. E isso é uma herança maldita dos tucanos que acabaram com a indexação dos salários e de outros preços, mas preservaram a indexação das tarifas nesses serviços para facilitar, e dar “confiança”, aos especuladores da privatização. Se a senhora acabar com a indexação legal dos serviços públicos, será caminho andado para trazer a inflação para 4% no limite superior da meta. Isso, cortando o superávit primário e mantendo em nível razoável o déficit público até a economia voltar a um crescimento de 6 a 7% ao ano.

J. Carlos de Assis - Economista, doutor em Engenharia da Produção pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional na UEPB.

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O corpo fala, Marina Silva


Às vezes, enfaticamente demais.
#AlegriaIncontida


No Blog do Agenor Bevilacqua Sobrinho
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A máquina abandonou Aécio?


Há um surdo desespero  na campanha do PSDB.

Assistem, sem outra reação que não a do sinceríssimo Reinaldo Azevedo, o movimento da imensa máquina de propaganda da mídia em favor de Marina Silva, tranformada em mater dolorosa de Eduardo Campos, com quem — todos sabem — mantinha uma relação de convivência eleitoral, ao ponto de, mês e meio atrás, ter mandando divulgar nota dizendo que a aliança PSB-Rede tinha data para acabar.

Agora, porém, tudo mudou.

Eduardo, morto, transformou-se em líder de Marina e ela, muito viva, em “continuadora” de sua trajetória, à qual há apenas 10 meses se juntou.

A família — por ironia o “ponto fraco” que William Bonner e Patrícia Poeta apontavam no candidato, no Jornal Nacional, na véspera de sua morte — agora é erguida como símbolo da virtude de Campos e elevada à condição de foro político onde se decidem os rumos da campanha.

O PSDB, acostumado a “surfar” os tsunamis de mídia, está perplexo diante de tudo.

Despareceu dos jornais, com os quais podia, antes, dar-se ao luxo de  se relacionar com “notas oficiais”.

É obrigado, constrangido, a ler até mesmo Merval Pereira dizer que, agora,  ”Marina seria a candidata das ruas, e tentarão fixar em Aécio Neves do PSDB a imagem de que é o candidato dos políticos.”

Quem construiu a “não-política” como ideal de pureza — esquecendo que a política foi a evolução com que a democracia grega superou a transmissão hereditária do poder — agora se vê atropelado por ela.

É que, talvez, na sua imensa vaidade, os tucanos não enxerguem que a direita brasileira quer que ocupe a Presidência qualquer um que se disponha a ser um “não-presidente” .

Dócil por fraqueza, leniente por conveniência, fraco por definição e caráter.

Ou tudo isso por transtorno próprio aos que se lambuzam no poder inesperado.

O processo político, não obstante, prossegue, como a negativa de Galileu do movimento da Terra  se completa com aquele “entretanto, se move”.

Até segunda ordem das pesquisas, a mídia sepultou Aécio Neves.

E sem velório ou lágrimas.

Fernando Brito
No Tijolaço
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As falhas do Datafolha e o desempenho fraco de Padilha em São Paulo


Em pelo menos dois pontos o Datafolha de agosto pode ter prejudicado o desempenho do candidato do PT, Alexandre Padilha, ao governo de São Paulo. Primeiro, porque a cartilha de perguntas não associa cada concorrente ao seu respectivo partido. Segundo, por não apurar o grau de conhecimento do entrevistado em relação aos postulantes. E se cabe uma terceira crítica, essa vai para a simulação de um segundo turno sem o petista. Na análise de especialistas, o instituto — e parte da mídia — ignoram o potencial do PT junto ao eleitorado paulista.

Pelos dados divulgados nesta sexta-feira (15), o governador Geraldo Alckmin (PSDB) é líder isolado na disputa estadual. Com 55% das intenções de voto, o tucano seria reeleito no primeiro turno, com larga vantagem sobre Paulo Skaf (PMDB), que registrou 16%, e Padilha, 5%. O petista encabeça apenas a lista de rejeição. Cerca de 28% dos entrevistados disseram que não votam nele de jeito nenhum. Alckmin é descartado por 19%, e Skaf, por 20%.

Na avaliação do cientista social e pesquisador Marcos Soares, é difícil analisar o quadro eleitoral em São Paulo sem dados sobre a popularidade de cada candidato, algo que o Datafolha não teve o cuidado de observar. "Não sabemos o quanto Padilha e Skaf são conhecidos pela maioria dos eleitores, e intenção de voto e conhecimento dos candidatos andam juntos. Padilha é o mais rejeitado na pesquisa, mas como sei que essa rejeição não é mero desconhecimento?”, disse.

Soares lembrou da disputa municipal de 2010, quando o hoje prefeito Fernando Haddad (PT) amargava o posto de lanterna nas primeiras pesquisas eleitorais. Ele saiu dos 3% de intenções de voto em maio daquele ano para a vítória, no segundo turno, contra o ex-governador José Serra (PSDB). 

Sobre a apresentação dos candidatos ao entrevistados sem associação aos partidos, Soares considerou ser um erro do Datafolha que prejudica especialmente Padilha. “Isso tem impacto determinante no desempenho do candidato do PT, porque sabe-se que o PT tem um eleitorado grande em São Paulo, de pelo menos 25%. A conduta do Instituto impede que o eleitor simpático ao PT tenha conhecimento de Padilha", pontuou.

O segundo turno e a mídia

O Datafolha de agosto decidiu testar o entrevistado sobre um possível segundo turno. Mas na única simulação feita, o confronto é entre Alckmin e Skaf. O pesquisador Marcos Soares explicou que legislação deixa brechas em matéria de pesquisa eleitoral. Os institutos são obrigados, sim, a apresentar todos os candidatos com registro, e isso é feito, geralmente, quando da análise das intenções de voto no primeiro turno. As simulações sobre segundo turno ficam a critério de cada instituto e, no caso do Datafolha, podem ter atendido à "linha editorial" do jornal Folha de S. Paulo. 

"É a mesma coisa na questão da Globo, que decidiu que fará cobertura do candidato que tem 6% em São Paulo [portanto, excluindo Padilha] e 3% na eleição nacional [inserindo o Pastor Everaldo na telona como mais um concorrente à sucessão de Dilma Rousseff]. Isso faz supor que há opção por não dar maior espaço ao candidato do PT. Aliás, se você observar o trabalho da Folha pelo olhar do Manchetômetro [trabalho da UFRJ], vai ver um claro viés na cobertura do jornal em relação ao governo federal e ao PT”, comentou.

"A avaliação é que há certa indisposição em relação ao candidato petista. É razoável pensar que o Instituto não tenha feito a opção de simular o segundo turno porque Padilha ainda tem 5%, mas eles poderiam ter feito e eu digo que deveriam, pois o histórico mostra que o PT alcança mais de 25% do eleitorado paulista no decorrer da campanha na TV. Em breve, eles vão ter que fazer", acrescentou.

Horário eleitoral

Essa semana, em entrevista ao GGN, Rui Tavares Maluf, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, minimizou o poder de influência da Globo sobre as pesquisas eleitorais e endossou o poder do horário eleitoral. Segundo ele, "é preciso considerar que o eleitor que acompanha política com frequência não se informa apenas na Globo, e o eleitor que dá as costas, quando se vê obrigado a decidir o voto, passa a dar mais atenção ao horário eleitoral no rádio e na TV. Isso vai refletir nas pesquisas."

Cíntia Alves
No GGN
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A CNT resolveu reciclar pesquisa que tinha jogado fora?


Longe de mim qualquer apego a teorias conspiratórias.

Mas as coisas precisam ter lógica.

A Confederação Nacional dos Transportes encomendou uma pesquisa ao Instituto MDA, cujos questionários foram aplicados entre os dias 8 e 12 de agosto.

Mas a pesquisa não foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral e, portanto, não poderia ser divulgada publicamente.

Só no dia 14, dia seguinte ao acidente que vitimou Eduardo Campos, foi pedido o registro no Tribunal, com previsão de divulgação no dia 19, os cinco dias depois obrigatórios por lei.

O questionário depositado no Tribunal, neste dia, aponta Eduardo Campos como o candidato do PSB, como era, de fato, no momento das entrevistas.

Seria conveniente que a CNT explicasse a razão do seu gesto.

Se a pesquisa perdeu seu valor, por que registrá-la a posteriori?

E se o objetivo era divulga-la, por que não foi registrada antes?

O mundo das pesquisas continua obscuro e misterioso.

Já que elas substituíram o debate, os partidos, os comícios, bom seria que fossem feitas com mais transparência e menos esperteza.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Reprovação ao governo Dilma recua em SP



A reprovação ao governo da presidente Dilma Rousseff (PT) sofreu um ligeiro recuo em São Paulo, Estado que concentra quase um quarto dos eleitores do país (22%), segundo o Datafolha.

A taxa dos que consideram seu governo ruim ou péssimo caiu de 39% em julho para 35% neste mês.

A redução na reprovação coincide com o período em que Dilma aumentou as suas incursões ao Estado. Desde o último dia 31, a presidente passou seis dias em eventos na capital e no interior paulista. É uma estratégia para reduzir o seu índice de rejeição em São Paulo: 47% dizem que não votariam em Dilma de jeito nenhum.

A aprovação à sua gestão, no entanto, continua menor do que a avaliação negativa. Os que consideram o governo ótimo/bom somam 24%, uma oscilação de um ponto percentual em relação ao levantamento anterior (23%).

A margem de erro da pesquisa no caso de São Paulo é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

No Rio de Janeiro, a reprovação a Dilma oscilou para baixo, de 32% no último mês para 29% agora. Como a margem de erro no Rio é de três pontos percentuais, não dá para concluir que houve recuo na reprovação.
Os que avaliam o governo Dilma como ótimo/bom passou de 25% em julho para 24% neste mês.

Em Minas, Estado do candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, a aprovação a Dilma supera aqueles que reprovam o seu governo. Enquanto 34% consideram o seu governo ótimo/bom, os que dizem que é ruim ou péssimo são 26%.

Minas é o segundo maior colégio eleitoral do país, com 11% do eleitorado.

Lá e em outros seis Estados não é possível traçar comparações porque é a primeira vez que o Datafolha faz esse tipo de pesquisa neste ano.

Dois Estados do Nordeste, Ceará e Pernambuco, têm as maiores taxas de aprovação ao governo.

No Ceará, o índice de ótimo/bom atinge 55% e é lá que Dilma recebe a melhor nota entre os oito Estados nos quais o Datafolha realizou a pesquisa: 7,2. Entre os cearenses que tem só ensino fundamental, a aprovação ao governo Dilma chega a 66%.

Em Pernambuco, 39% aprovam o governo, percentual praticamente idêntico ao do Rio Grande do Sul (38%), Estado em que Dilma ocupou cargos no governo estadual.

No Distrito Federal, Dilma teve a maior taxa de reprovação (40%) e recebeu a nota mais baixa (4,7).

Divisão

O Paraná é o Estado em que o eleitorado aparece mais dividido sobre a avaliação a Dilma: um terço dos eleitores consideram o seu governo ruim/péssimo e 31% o avaliam como ótimo ou bom.

Como a margem de erro naquele Estado é de três pontos percentuais, há um empate entre os que aprovam e os que reprovam o governo.

No fAlha
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Mídia e políticos: para além das eleições


Períodos eleitorais sempre fazem reaparecer questões sobre o poder da mídia no resultado de eleições. Eleitores, com ou sem preferência definida, querem saber até que ponto a mídia influencia no sucesso e/ou no insucesso de candidatos. Por outro lado, candidatos, partidos e profissionais de “marketing político”, diretamente envolvidos nas campanhas, trabalham para otimizar o uso do tempo (supervalorizado) no horário eleitoral do rádio e da televisão a favor e/ou contra determinadas candidaturas.

Nas sociedades contemporâneas, como se sabe, a mídia [jornais, revistas, rádio, televisão e internet] monopoliza o poder de “dar visibilidade” e de acesso ao debate público, essenciais para a sobrevivência de qualquer político e para a prática democrática. O que poderia ser uma excelente ocasião para se discutir o sistema de mídia brasileiro e propostas de políticas públicas para o setor, passa em branco. É raríssimo que candidatos — a qualquer cargo eletivo — incluam em seus programas propostas relativas às comunicações.

Terminadas as eleições, reestabelecem-se as relações rotineiras entre os políticos e a mídia dentro de um padrão assimétrico de poder em que cada lado busca garantir seus interesses, presentes e futuros. Eleitores, candidatos, partidos e marqueteiros, vencedores e derrotados, “esquecem-se” das questões estruturais relacionadas aos sistemas de mídia.

Trata-se de um circulo vicioso: a questão aflora implicitamente nos processos eleitorais quando o único objetivo é “ganhar as eleições”, mas “desaparece” entre eleições, durante o exercício dos mandatos. Na verdade, salvo honrosas exceções, consolidou-se um tipo de relacionamento entre os políticos e a mídia que bloqueia qualquer tentativa de alteração legal contrária aos interesses dos empresários do setor.

O relatório Leveson

Diante de questões que sempre se repetem, recorro ao infelizmente pouco discutido relatório do Juiz Leveson, resultado do inquérito sobre “a cultura, as práticas e a ética da imprensa”, mandado realizar pelo Primeiro Ministro da Inglaterra e divulgado em novembro de 2012 [cf. V. A. de Lima (org.); Para garantir o direito à comunicação: a lei argentina, o relatório Leveson e o HGL da União Europeia; Perseu Abramo/Maurício Grabois/Barão de Itararé, 2014].

Há uma sessão do documento que trata, especificamente, das relações entre “A imprensa e os políticos” (itens 109 a 137 do Sumário Executivo e 82 a 84 do Sumário de Recomendações).

Embora não tenha sido produzido no Brasil e nem em resposta a questões concretas surgidas da prática política brasileira, o relatório Leveson avalia as relações entre os políticos e a imprensa: aqueles, estão sempre em busca de garantir o seu futuro sucesso eleitoral; e esta, a prevalência de seus interesses — comerciais e outros.

Que padrões de relacionamento se estabelecem e quais suas consequências para a democracia?

Ao examinar as relações entre os políticos e a imprensa na Inglaterra, o relatório Leveson conclui, dentre outros, que nos padrões de comportamento estabelecidos [pouco transparentes], partidos e políticos mantêm “uma relação excessivamente próxima com a imprensa”; que os políticos se tornaram vulneráveis ao lobby da imprensa [“na esperança de um tratamento favorável”] e que isso tem influído em decisões relativas às políticas públicas sobre a mídia, em detrimento do interesse público. Lembra ainda que nem “tudo o que é de interesse de qualquer organização jornalística, ou da imprensa como um todo, é necessariamente do interesse público” e que, além de lobistas poderosos, os membros da imprensa “têm em seu poder um potente alto-falante com influência considerável sobre a reputação pessoal e política dos políticos”.

Diante desse diagnóstico, o relatório apresenta recomendações específicas dentro do quadro geral de recomendações para a regulação da mídia impressa na Inglaterra. São elas:

1. Como primeiro passo, os líderes políticos devem refletir de forma construtiva sobre os méritos de publicar, em nome de seu partido, uma declaração, explicando ao público como pretendem abordar, dentro da política de seu partido, a condução de suas relações com a imprensa.

2. Líderes dos partidos, Ministros e porta-vozes das bancadas devem avaliar a divulgação:

a) da existência de longos relacionamentos com proprietários, editores e altos executivos de empresas de comunicação, que podem ter relevância para suas responsabilidades e,

b) a cada trimestre:

i. detalhes de todos os encontros com proprietários, editores e altos executivos de empresas de comunicação, seja em pessoa, seja através de representantes, incluindo os fatos e natureza geral de qualquer discussão de assuntos de políticas de comunicação nesses encontros; e

ii. um retrato fiel e relativamente completo — por meio de estimativas gerais apenas — da frequência ou grau de outras interações (incluindo correspondências, telefonemas, mensagens de texto e e-mail), mas sem necessariamente incluir o conteúdo.

Lições para o Brasil

O Brasil, por óbvio, não é a Inglaterra. E nem lá as recomendações do Juiz Leveson passam do que realmente são: apenas recomendações. De qualquer maneira, é sempre interessante evocar comparativamente o que ocorre em democracias consolidadas quando se trata das relações da mídia com a política e com os políticos.

Em períodos eleitorais e para além do objetivo de “vencer as eleições”, talvez fique um pouco mais evidente o quanto ainda temos que avançar nas relações entre os políticos e a mídia. Enquanto isso não ocorre é importante que se tenha a verdadeira dimensão das questões envolvidas, inclusive éticas, e o quanto elas afetam diretamente, não só os processos eleitorais, mas a própria consolidação republicana da democracia.

Venício A. Lima, professor titular aposentado de Ciência Política e Comunicação da UnB e pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (CERBRAS) da UFMG.
No GGN
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"Dez razões para não votar em…" — 2: Marina Silva


Mesmo sem ter, ainda, a confirmação de que Marina Silva substituirá Eduardo Campos como candidata do PSB, adianto as razões para que ninguém vote nela.

1. Dignidade e oportunismo. A falta de um e o excesso de outro. Devemos aprender que até na política há limites. Ao vender-se pela “melhor” oferta, Marina e sua Rede mostraram, para mim, não terem dignidade.

Quem tem um projeto não vende esse projeto apenas para se manter sob os holofotes.

É uma das razões, inclusive, que teria apontado para não votar em Eduardo Campos. Vendeu seu projeto para ganhar os holofotes aproveitando a “moda Marina”.

Marina, além de não ter dignidade política, não tem escrúpulos. Vai defender Alckmin em São Paulo?

Não gosto de gente que vende projetos.

É um modelo que não me serve.

2. Marina existe para fazer Marina brilhar. Só isso.

Marina é símbolo do personalismo. Personalismo, para explicar, é diferente de carisma. Ela deve pensar ter carisma. Mas não, tem apenas um grande umbigo. E não mede esforços para fazer valer seus interesses.

E, ainda por cima, acredita no que a mídia oligárquica diz a seu respeito. Acredita que manterá os mesmos votos de 2010.

É um modelo que não me serve.

3. Marina é uma falsa fundamentalista sob quaisquer aspectos que analisemos.

Ninguém, em sã consciência, acredita que seja possível defender o meio ambiente estando associada à empresas que bancam a destruição o que a destroem diretamente.

Itaú é um banco. Ponto. Deveria bastar para todos esse conhecimento. Bancos “cagam e andam” para qualquer coisa que não seja lucro. Não existe essa de banco que investe na natureza. Banco é banco e “foda-se” o resto! O Itaú financia e é credor de milhares de empresas que destroem a natureza.

Qualquer mané sabe, por outro lado, que a Natura, empresa do vice de Marina em 2010, “não é lá essa Brastemp”, como pagam para a mídia oligárquica propagandear.

É um modelo que não me serve.

4. A fazer valer suas posições fundamentalistas, quebrará o Brasil. O Agronegócio, por exemplo, pode não ser o melhor negócio para o meio ambiente, mas ainda é — e será por muito tempo — o que sustenta o Brasil

Eleita, não terá cacife no Congresso para bater de frente com a bancada dita ruralista e com toda a bancada da indústria que vive do agronegócio. Vai paralisar o país.

É um modelo que não me serve.

5. Reclama do fato do PSB estar associado ao PSDB em algumas situações, mas quase ingressou no PPS, a pior espécie de partido que esse país já produziu e que faz parte da coligação do PSB.

É um modelo que não me serve.

6. Não conseguiu gente para criar o “seu” partido. Quer administrar o Brasil?

É um modelo que não me serve.

7. Quem pretende chamar para comandar seus ministérios? Quem será o presidente do Banco Central? Quem será o ministro da Fazenda? Quem comandará o Ministério do Meio Ambiente? O da Justiça?

E como vai lidar com o Poder Judiciário?

E quem cuidará das políticas sociais?

Gente do PPS?

É um modelo que não me serve.

8. Pertencendo a uma religião sabidamente fundamentalista e contrária a qualquer coisa que não seja “a palavra de Deus que está na Bíblia”, como vai lidar com as questões de gênero, raça, aborto, laicismo do estado, e tantas outras que já conquistamos como sociedade?

Não saberá lidar, claro! Ou melhor, saberá dar apoio para a bancada fundamentalista no Congresso e teremos uma grande volta à Idade Média.

E a educação? Será que voltaremos a ter o fundamentalismo religioso como matéria obrigatória nas escolas públicas?

Não quero gente assim no governo.

É um modelo que não me serve.

9. Marina é um embuste. Desde que surgiu na vida pública do Brasil. Marina é projeto da Marina para a Marina. Sequer as propostas que ela diz serem “ambientalistas” subsistem a uma boa análise.

Não podemos viver de ventos e do Sol. A agricultura familiar não sustenta 200 milhões de brasileiros. Por muitos e muitos anos ainda viveremos de petróleo e derivados, mais do que seus tataranetos também viverão dele.

E precisamos, sim, de tantas Belo Monte quantas sejam necessárias para iluminar as agências do Itaú Brasil afora.

E precisamos de petróleo para asfaltar as rodovias e fornecer combustível para os caminhões.

Precisamos destruir o meio ambiente.

Não há, em Marina, alternativas consistentes. Não por outra razão foi apelidada, nas redes sociais, de “blablarina”. Fala, fala e não diz nada. É só blá blá blá… E quando consegue, o que é raro, juntar blá com blá…

É um modelo que não me serve.

10. A mídia oligárquica já dava sinais de cansaço com a candidatura do Aécio Neves. Começava, ainda que muito sutilmente, a dar maior visibilidade para Eduardo Campos.

Não que goste de um ou outro. Afinal, quer apenas que o PT apeie do governo.

E fará de Marina, observem, a nova redentora. A “herdeira” do legado de Eduardo Campos (se é que ele tinha algum).

Há tempos a mídia oligárquica busca um “novo Collor”. Ela vive disso, vive de lucros. E lucros dependem de vendas. E vendas dependem de “novidades”.

E nada melhor para a mídia oligárquica que a morte de Eduardo Campos. O rei morreu, viva o rei!

E Marina vai embarcar “facinho” na cantilena…  O PSB também…

Pra mim, falta caráter.

É um modelo que não me serve.

Luiz Afonso Alencastre Escosteguy
No Escosteguy

Leia também: “Dez razões para não votar em…” — 1
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Acidente aéreo em Santos prepara bomba semiótica sincromística

O trágico acidente aéreo em Santos que vitimou o candidato à presidência da República Eduardo Campos reacende por caminhos mórbidos a esperança da grande mídia, com a pressão uníssona de que Marina Silva assuma a candidatura. O timing da tragédia foi perfeito, num momento em que já estava esgotado o arsenal de bombas semióticas midiáticas — a última foi a irrelevância da não-notícia da “fraude da Wikipédia”. Mais do que que levantar teorias conspiratórias, as sincronias e coincidências que cercaram o acidente, somado a uma espécie de discurso do “destino manifesto”, do “imponderável” e do “destino”, estão ajudando a preparar a talvez derradeira bomba semiótica, dessa vez sincromística porque utiliza como matéria-prima a simbologia arquetípica do “Mágico”, baseado em estratégia do mundo do Marketing e da Publicidade que manipula arquétipos do inconsciente coletivo para a criação da imagem de marcas, produtos e serviços.

Teorias da conspiração não surgem por acaso. É por ser a realidade estranhamente sincrônica que acaba sugerindo a suspeita de eventos milimetricamente maquinados, como no caso da trágica morte do candidato à presidência da República Eduardo Campos em um acidente aéreo na cidade de Santos-SP no último dia 13.

Logo após o incidente, redes sociais e grande mídia se apressaram a fazer um mórbido inventário de “coincidências”: Eduardo Campos morreu no mesmo dia que o seu avô Miguel Arraes; o DDD de Santos é o mesmo do dia da tragédia (13) que, por sua vez, é o mesmo número que identifica o PT nas eleições; a soma das letras do candidato morto soma 13; o acidente aéreo ocorre pouco tempo depois da denúncia envolvendo o candidato Aécio Neves sobre um aeroporto construído com dinheiro público ao lado de fazenda da sua família; em 2006, também no período de eleições presidenciais, ocorreu o acidente aéreo do choque do Boeing da Gol com um jato Legacy matando 154 pessoas; o acidente aéreo de Santos se soma a uma sequência de acidentes como o desaparecimento do Boeing da Malaysian Airlines no Oceano Pacífico (ou teria sido no Índico?), a queda de outro Malaysian na Ucrânia e uma mais recente de um Boeing na África...

Mas parece que ainda poucos estão vendo a maior de todas coincidências, uma feliz surpresa para uma grande mídia politicamente combalida: o acidente aéreo vitima um candidato de oposição ao Governo Federal no momento em que o arsenal das bombas semióticas já tinha se esgotado, como pudemos diagnosticar em postagens anteriores.

Como vimos, a últimas arma foi a da não-notícia, detonada com a denúncia da suposta fraude da CPI da Petrobrás (a hilária descoberta que existe media training nas corporações) e a denúncia reduzida a pó de traque da “fraude dos perfis da Wikipédia”. Era evidente que essa última arma era a mais frágil de todas que foram detonadas desde as grandes manifestações de rua de junho do ano passado. A repercussão dessas últimas explosões teve fôlego curto, pela própria natureza de irrelevância da matéria-prima dessas bombas.

Grande mídia: do desânimo à euforia


Esse desânimo ficava claro nas hostes dos intelectuais orgânicos da oposição como o historiador Marco Antonio Villa. Se em maio no Jornal O Globo, Villa declarava “Adeus, PT” onde comemorava “a derrota do PT e a implosão do seu bloco político”, em julho, desiludido com a performance de Aécio Neves e o êxito da Copa do Mundo, falava no mesmo jornal em “desilusão com a política”, o “notório sentimento popular de cansaço” e o “voto como ato inútil, que nada muda”.

Pois em meio ao desânimo frente a um contínuo midiático que começava a se tornar opaco e resistente às ondas de choque das últimas bombas semióticas, eis que inesperadamente um jato com alta tecnologia aeronáutica pilotado por profissionais experientes inexplicavelmente mergulha precisamente no único espaço aberto em quarteirão de um bairro populoso de Santos, trazendo no seu interior um candidato à corrida presidencial.

Em questão de poucas horas o mercado financeiro demonstrou todo o seu insensível pragmatismo: com a apreensão de que a vice de Eduardo Campos, Marina Silva, estivesse também na aeronave as perdas do início do pregão da BM&FBovespa se aprofundaram. Quando o mercado soube que ela não estava no voo os índices voltaram a subir, sinalizando aquilo que a grande mídia já começava a repercutir — o mercado financeiro quer Marina Silva para reduzir a incerteza sobre uma possível vitória da Dilma no primeiro turno.

Do desânimo e incertezas a grande mídia pulou imediatamente para a euforia especulativa. Marco Antonio Villa, por exemplo, em poucas horas já tinha superado seu niilismo político: “são duas campanhas... a que começa hoje apresenta um quadro absolutamente imprevisível!”.

Wishful thinking da grande mídia

Para a Folha, eleição é a ˜sucessão presidencial"
O Jornal O Estado de São Paulo já declarava que “Morte de Campos embaralha a eleição e Marina é tratada por sucessora natural” — tratada por “lideranças”, diz o jornal. Já a Folha foi mais direta com a manchete “adversários se preparam para enfrentar Marina Silva” e com um pequeno wishful thinking com o título “mudança de rumo na SUCESSÃO presidencial”. O jornal abandona o termo “eleições” ou “corrida presidencial” para usar uma expressão que sugere o desejo de mudança de ocupante do Palácio do Planalto.

“Eleição imprevisível”, “acirrar a eleição”, “reviravolta se Marina enfrentar a disputa”: uma hora depois da confirmação da morte de Eduardo Campos o clima midiático era radicalmente diferente, com sofresse um choque de adrenalina e otimismo.

O curioso é que as análises de conjuntura política instantânea dos analistas veio acompanhada de expressões etéreas como “o imponderável”, “rasteira do destino”, “o impacto do acaso” etc. Nessas análises de conjuntura política e econômica tão instantâneas (analistas econômicos já falam em “cenário-base com Marina Silva”), somente uma causa tão imaterial para explicar um efeito tão poderoso e a decisão uníssona da grande mídia e mercados financeiros: Marina Silva precisa substituir Eduardo Campos.

A bomba semiótica sincromística

 
Portanto, estamos acompanhando nesse momento o início da montagem de uma nova bomba semiótica, dessa vez mais poderosa que a das não-notícias. Uma bomba baseada num processo de semiotização a partir de um forte signo-arquétipo: o arquétipo do Mágico. Assim como as cartas de Tarot onde cada figura corresponde a um aspecto arquetípico do psiquismo humano, a figura de Marina Silva começa a ser construída pela grande mídia associada ao “destino”, “acaso”, “coincidências” (ela deveria estar naquele voo, mas preferiu na última hora viajar em outro avião) etc., conceitos tão etéreos quanto a causalidade da súbita mudança de humores midiáticos.

Tomando o conceito de arquétipo da psicologia profunda de Jung (arquétipo como símbolo do inconsciente coletivo), Carol Pearson, PhD em Psicologia e professora em Estudos sobre Liderança da Maryland University nos EUA vai encontrar, a partir dos estudos da simbologia arquetípica, doze modelos de simbologia inconsciente que, segundo ela, motivariam a espécie humana: Inocente, Explorador, Sábio, Herói, Fora-da-Lei, Mágico, Normal, Amante, Palhaço, Protetor, Criador, Poderoso. A princípio voltado para servir de ferramenta para táticas de engenharia organizacional, chega ao mundo do Marketing e da Publicidade como estratégia de criação da imagem de marcas, produtos e serviços — PEARSON, Carol. Awakening the Heroes Within: Twelve Archetypes That Help Us Find Ourselves and Transform our World, Harper SanFrancisco, 1991; e The Hero and the Outlaw: Building Extraordinary Brands Through The Power of Archetypes, McGraw-Hill, 2001.

O Mágico no Tarot é o arcano da Mística, do concentrado, do impulso criado. Está associado a experiências extra-sensoriais, coincidências e sincronicidades — momentos mágicos de experiências de transformação.

Uma semiótica de Marina Silva

A grande mídia não só pressiona para que Marina Silva assuma a candidatura do PSB como já está construindo uma imagem mística e mágica da personagem, encaixando-a no personagem arquetípico do Mágico. E a imagem atual de Marina favorece isso: enquanto Dilma possui uma imagem “dura”(tecnocrática e gestora) e Aécio é “soft” (playboy e bon vivant), Marina Silva é “orgânica” — amiga pessoal do mito trágico Chico Mendes, ambientalista e evangélica.

Marina foi salva pelo destino por uma coincidência. Esse é o primeiro passo para a construção do signo-arquétipo do mágico para depois ser construída a mitologia: o destino manifesto, experiências de transformação a partir de imprevistos, milagres e o desenvolvimento de uma “visão”.

Por isso Marina Silva, com a sua Rede Sustentabilidade, é a queridinha do meio corporativo e financeiro, que também constrói a sua própria mitologia com o mesmo signo-arquétipo do mágico — como, por exemplo, nos discursos da “visão” e “missão” que as organizações criam no seu próprio endomarketing.

Em si mesmo o conceito de sustentabilidade é tão mágico e etéreo como uma pedra filosofal, mas uma ideia motivadora para a linguagem corporativa cheia de eufemismos e linguagem indireta que esconde intenções mais pragmáticas e concretas.

Projeto Pipoca da TV Globo:
reprodução de bagres é mais
importante do que o
crescimento econômico?
Quando vemos coisas como o Projeto Pipoca da TV Globo (levar cinema gratuito para comunidades periféricas) programando filmes como Tainá e Xingu, pressente-se uma estratégia abrangente de condicionamento de uma nova sensibilidade que ache mais importante a proteção da reprodução dos bagres do que a construção de uma usina hidrelétrica que impulsione o desenvolvimento econômico nacional.

O discurso místico-ecológico-sustentável

Essa é a origem de toda a atual mórbida excitação midiática e corporativa com a morte de Eduardo Campos: o discurso místico-ecológico-sustentável é o Plano B do neoliberalismo dos mercados financeiros.

E por que os mercados financeiros caem de amores por esse discurso mágico? Por que Marina Silva reacende as esperanças da oposição e dos mercados financeiros? Ódio de classe contra o chamado “lulopetismo”? A oposição política certamente, mas os mercados são muito pragmáticos para alimentar rixas ideológicas: o discurso ecológico é a piece de resistance do neoliberalismo  por ser o instrumento para frear o crescimento econômico e manter a hegemonia da agenda da financeirização global.

A assessoria de Marina Silva é formada por economistas que pregam a austeridade e baixo crescimento econômico como um fim em si mesmo sob o álibi do discurso ambientalista. Para o mercado financeiro, todas as fontes naturais ou humanas devem ser escassas para se transformarem em comodities e serem especuladas - sobre esse tema clique aqui. O discurso ambientalista somado ao neo-pentecostalismo pré-luterano de Marina Silva são a combinação perfeita entre as expectativas da banca e a moralidade da penúria como um valor em si mesmo de virtude e salvação.

Por isso, o acidente aéreo de Santos é a preparação de uma bomba semiótica sincromística: detonar na opinião público uma espécie de destino manifesto de uma candidata, envolta por uma aura de magia e misticismo — uma estranho mix de sincronismo e coincidências com neopentecostalismo e ambientalismo. É o signo-arquétipo do Mágico, a matéria-prima da mais nova bomba simbólica disparada contra a opinião pública.

Wilson Ferreira
No Cinegnose
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Sem bola de cristal

São tantas as variações possíveis, entre a solução para substituir Eduardo Campos e os desdobramentos disso nos arranjos políticos e no eleitorado, que as muitas especulações a respeito não alcançam nem o mais leve sentido. Mesmo os negociadores e outros interessados diretos estão no escuro, à falta de indícios para orientar as decisões.

Só alguns exemplos, entre tantos disponíveis. Quantos dos candidatos a governos estaduais comprometidos com Eduardo, sobretudo os não filiados ao PSB, tenderiam a apoiar de fato a campanha de Marina Silva? Mesmo sem vitória, que perspectivas a Rede, de Marina, ofereceria para o crescimento desejado por seu hospedeiro PSB? Até onde a Rede, fortalecida, prejudicaria as eleições pretendidas pelo PSB para o Congresso?

Decisivo em muitos sentidos, até o potencial de Marina é obscuro. Quem adota como indicador o seu desempenho na disputa passada, imagina possibilidades otimistas para agora. Mas a decepcionante transferência de apoios para Eduardo Campos e a queda da própria Marina, nas últimas pesquisas em que recebeu sondagem individual, jogam mais do que interrogação sobre aquele otimismo.

Algumas respostas preliminares podem vir de pesquisas nos próximos dias. Mas o básico para percepção do novo quadro, como já se tinha na formação anterior de forças e tendências, precisará de mais tempo do que os donos de bola de cristal suportam. Os indícios aproveitáveis não virão deles, como sempre, até por estarem fazendo mais política e torcida do que outra coisa.

Previsto para depois de amanhã, o início do horário eleitoral é o que de mais claro se pode ter de imediato: é provável que logo dê ideia da musculatura com que cada campanha entre no jogo duro. Mas, nessa indicação, também um defeito comprometedor: o programa forçosamente improvisado do PSB, com ou sem Marina.

O mordomo

"Falha humana", na explicação dos desastres aéreos, é como a culpa do mordomo. O comandante do voo de Eduardo Campos já está lançado na culpa hipotética por "desorientação espacial", como publicado na Folha, pela Aeronáutica e pela Polícia Federal.

Desorientação do piloto gerou o fogo que moradores da área dizem ter visto no avião? Ou, antes de coletados os destroços todos do avião, a Aeronáutica e a Polícia Federal comprovaram que os testemunhos são inconfiáveis? E, ainda que não houvesse fogo, são inúmeras as possíveis causas da queda, não havendo mais do que a hipótese de leviandade para a atribuição barata de culpa do comandante.

O segredo que por lei encobre as investigações sobre desastres aéreos não tem cabimento, ouvi há pouco de pessoa muito autorizada a dizê-lo. No Brasil já houve desastres, na aviação comercial, decorrentes de repetidas falhas de manutenção e de instrução silenciados com óbvio benefício para a empresa.

O atacante

Em carta à Folha, o assessor de imprensa Otávio Cabral diz que "a campanha de Aécio Neves" jamais associou uma eventual vitória de Eduardo Campos à socialização dos bens particulares, "como escreveu Janio de Freitas". Acusa-me de informação "inverídica".

Se lesse o artigo com mais atenção e menos má vontade, o assessor notaria que não me referi à campanha DE Aécio, ou seja, à campanha oficial do candidato. Meu texto mencionou "a campanha PRÓ-Aécio", isto é, a que apoiadores de Aécio fazem por seu candidato na internet e onde mais queiram. O resultado seria o mesmo se o assessor lesse o "Panorama Político" do "Globo" ou desse uma olhada na internet.

Quanto à campanha DE Aécio Neves dizer que é "marcada pelo debate de ideias e soluções" e "sem espaço para ataques pessoais", exige supor que também os demais leiam jornal e internet sem atenção. A premissa do próprio Aécio, de fácil comprovação em jornais, são ataques a Dilma Rousseff, com citação do nome, e à sua ação presidencial. O velho método de desqualificar o adversário, com que Eduardo Campos deu algumas espetadas em Aécio Neves.

Janio de Freitas
No fAlha
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Velório de Campos mistura emoção e propaganda


O velório de Eduardo Campos, iniciado ontem à noite, quando os restos mortais do ex-governador de Pernambuco chegaram ao Recife, foi também um ato político, o primeiro da campanha de Marina Silva à presidência da República.

No caminhão do corpo de bombeiros, estava colada a frase "Não vamos desistir do Brasil", a última dita por Eduardo Campos, no Jornal Nacional, na véspera de sua morte.

Ao receber o caixão do pai, os filhos de Eduardo Campos também usavam uma camisa amarela, estampada com os mesmos dizeres. Estavam de luto, mas vestiam algo que transmitia uma mensagem política.

A frase "Não vamos desistir do Brasil" vem sendo tratada por integrantes do PSB e colunistas da mídia como o "testamento político" de Eduardo Campos. Visa atingir uma grande parcela do eleitorado, que hoje parece mais propensa a anular o voto. A esperança, entre os integrantes do PSB que apoiam a candidatura de Marina Silva, é que a ex-senadora consiga fisgar esses eleitores desencantados com a política tradicional.

Do lado de fora do Palácio das Princesas, que recebeu o caixão de Eduardo Campos, militantes gritavam "Justiça" e outras palavras de ordem, como se Eduardo Campos tivesse sido assassinado — e não vítima de um trágico acidente. Na transmissão, o maior foco se dava em Marina Silva, herdeira do espólio político de Campos.
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