29 de jul de 2014

Piloto ucraniano afirma ter derrubado Boeing malaio


Piloto ucraniano, que tripula o avião de ataque Su-25, assumiu a responsabilidade pela queda do avião da Malaysia Airlines, segundo a publicação na edição alemã Wahrheit fuer Deutschland.

O piloto contou que disparou contra o Boeing 777 de um canhão instalado a bordo do Su-25 e que foi precisamente o seu avião de ataque que alegadamente aparece nas fotos de satélite apresentadas pelo Ministério da Defesa da Rússia. Segundo o piloto, o Su-25 estava equipado não só com mísseis, mas com um canhão de dois canos de 30 milímetros, do qual ele afirma ter partido o disparo. A edição não revela o nome e o apelido do piloto que fez essas revelações.

Anteriormente, o Ministério da Defesa da Rússia informou que um avião de combate ucraniano seguia por um corredor civil ao mesmo tempo que um avião de passageiros e que os meios russos de controle detectaram o Su-25.

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Futebol: Metrô cede à pressão da Globo

Altino: os torcedores ficam em segundo plano
O governo paulista anunciou nesta terça-feira (29) que mudará o horário de funcionamento do metrô e dos trens de São Paulo nos dias dos jogos para atender aos caprichos e garantir os altos lucros da TV Globo. Na semana passada, parte da torcida corintiana deixou o estádio do Itaquerão antes do final da partida para não perder o transporte. Houve muita reclamação sobre os horários das partidas, que começam às 22 horas para não prejudicar a novela global. Diante da chiadeira, os tucanos decidiram atender à bilionária famiglia Marinho — que, afinal, dá uma baita ajuda na campanha pela reeleição de Geraldo Alckmin. A decisão irritou o presidente do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Altino Prazeres.

Segundo o líder sindical, em entrevista ao site do ESPN, a medida prejudica os metroviários e os torcedores. Ele garante que será impossível, com o atual número de funcionários do metrô, dar bom atendimento às pessoas que vão aos estádios para acompanhar os seus times durante a semana. “É uma decisão que não pensa nos torcedores. Além de torcedores, eles são trabalhadores. Mesmo com o metrô aberto, eles demoram para chegar em suas casas e ainda têm de ir ao trabalho no dia seguinte. Por que não se muda o horário do jogo? É uma decisão que só atende à TV Globo. A cartolagem parece que prefere desse jeito também. Não quer bater de frente [com a Globo], afirmou Altino Prazeres”.

Na última quarta-feira passada (23), no jogo contra o Bahia, vários torcedores deixaram às pressas o estádio antes do apito final para não perder o transporte. Os corintianos ainda acabaram perdendo o último gol do seu time, marcado pelo jogador Renato Augusto já na prorrogação. A TV Globo, que tem os direitos de transmissão do campeonato, evitou destacar a sacanagem. Mas o tema ganhou as redes sociais. Teve até petição online dos torcedores exigindo mudanças. Como lembra a jornalista Camila Mattoso, do ESPN, “o horário das partidas é definido conjuntamente pela CBF e pela TV Globo, a detentora dos direitos do campeonato, que definiu sua grade de programação nesse formato”.

Entrevistada pelo ESPN, a vice-prefeita da capital paulista, Nádia Campeão (PCdoB), defendeu a mudança no horário dos jogos e criticou qualquer alteração no funcionamento do metrô e trens. "O torcedor tem razão ao cobrar melhores condições para desfrutar de seu direito ao lazer. Mas, a meu ver, é mais razoável antecipar o horário das partidas do que mudar o funcionamento de toda a rede de transporte de massa. Como o sistema segue uma série de normas e protocolos para atender ao conjunto da população, o interesse público deve continuar preservado”, afirmou. Já o governo tucano, que deve muitos favores à TV Globo, preferiu ceder aos privilégios da famiglia Marinho.

Altamiro Borges
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Veja quantos furos há nas invenções do Reinaldo Azevedo contra a Dilma

Não adianta se desculpar, a pisada na bola foi feia.
O Reinaldo Azevedo está na carreira errada. Deveria partir para a literatura, criando enredos de ficção ligeiramente inspirados em acontecimentos reais. Tem talento para isso, mas o desperdiça como propagandista da extrema-direta, tentando fazer suas invencionices serem levadas a sério e quase sempre resvalando para o mais absoluto ridículo.

Escrevendo sobre a sabatina presidencial, ele cravou no título que houve "três momentos patéticos" (vide íntegra aqui). Eis o segundo deles, com meus comentários de testemunha ocular da História em vermelho:
"Dilma, sob o codinome Estella, foi a mentora de um roubo milionário. Em julho de 1969, três carros com 11 guerrilheiros da VAR-Palmares estacionam em frente à casa no bairro carioca de Santa Teresa, onde morava um irmão de Ana Capriglioni, notória amante do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Lá, executando uma operação minuciosamente planejada por 'Estella', que não tomou parte na ação, a VAR-Palmares roubou um cofre de chumbo pesando 300kg, recheado com uma bolada de US$ 2,16 milhões.

Dilma não foi "Mentora" nem "Minuciosa planejadora", pois tal papel coube ao Juarez Guimarães de Brito, o maior planejador de operações deste tipo durante a luta armada. Ele tinha sido o cérebro do grupo tático do Colina e continuou sendo-o depois que o Colina se fundiu à VPR, dando origem a Var-Palmares.
Eis o real "mentor"
Dilma não participou da ação simplesmente porque suas funções na Organização eram políticas, nada tendo a ver com as operações armadas (das quais, por questões de segurança e especialização, desincubuam-se outros militantes, sempre os mesmos), ao contrário do que consta na Ficha Policial fajuta que a extrema-direita disseminou na internet para caracterizar "terrorista/assaltante de bancos".
As fantasias mirabolantes do Reinaldo Azevedo são idênticas às do Ternuma: utilitárias, e não históricas.
"Pouco tempo depois, a VAR-Palmares se desintegra, por desentendimentos entre 'Estella' e Carlos Lamarca. A maior parte do grupo seguiu a agora presidente — na época, Cláudio, seu primeiro marido, partira para Cuba a bordo de um avião sequestrado, e Dilma já se enamorava de Carlos, o gaúcho da VAR-Palmares — com quem veio a se casar e com quem teve Paula, a única filha, hoje juíza do Trabalho em Porto Alegre — de quem se separou já depois da redemocratização.

A Var-Palmares rachou no Congresso de Teresópolis (outubro de  1969) como consequência do descontentamento dos chamados militaristas com o que acreditavam ser um desvio massista dos militantes originários do Colina: não estariam priorizando devidamente a montagem da coluna móvel estratégica nem as ações de propaganda armada nas cidades, por entenderem ser necessária a manutenção de alguns elos com os movimentos operário e estudantil. 
Ou seja, os primeiros tinham em mente uma vanguarda que cumpriria estritamente as ações armadas da resistência, deixando as outras tarefas para outros grupos, enquanto os segundos queriam uma organização que mantivesse algum enraizamento nas massas.  
 Falsificações pululam 
A ideia de desfazer a fusão e recriar a VPR partiu de dois comandantes estaduais de São Paulo, o José Raimundo da Costa e eu, tendo como plataforma teórica um documento-proposta do Ladislau Dowbor intitulado "Teses do Jamil".
No Congresso de Teresópolis, os verdadeiros protagonistas da ruptura foram o Lamarca, pelo lado dos militaristas; e o Carlos Franklin Paixão e o Antônio Roberto Espinosa, pelos massistas. Os três eram comandantes nacionais. O casal Juarez Guimarães e Maria do Carmo Brito, igualmente de primeiro escalão, tentava apaziguar os ânimos e manter a Organização unida. Dilma secundava os líderes massistas e foi nesta condição que contestou em alguns momentos o Lamarca.
No final, a VPR recriada teve a adesão de alguns quadros de origem Colina (como o casal Brito) e na Var-Palmares permaneceram militantes de origem VPR (como o Espinosa). Foi então que se abriram vagas no Comando Nacional da VAR e a Dilma a ele ascendeu.
"Parte do dinheiro — US$ 1 milhão — teria sido doada aos rebeldes argelinos. O resto teria sido usado para financiar a guerrilha. Seja como for, uma das guardiãs da grana era… Dilma! Virá daí a sua fixação por dinheiro em moeda sonante?."
Puro samba do crioulo doido. Tudo leva a crer que Reinaldo Azevedo tenha se lembrado vagamente desta entrevista de Maria do Carmo Brito, publicada em O Estado de S.Paulo.
Tão obcecado estava em atacar Dilma que trocou as bolas, atribuindo-lhe o papel que Maria do Carmo Brito afirma ter desempenhado (há que faça restrições a sua versão), relativo à parte do dinheiro que ficou com a VPR, não à parte da VAR. O Reinaldo Azevedo ouviu o galo cantar, mas não sabe onde...
Finalmente, o US$ 1 milhão não foi doado aos rebeldes argelinos, mas sim colocado sob a guarda deles, para devolução quando fosse necessário.
Resumo da opereta: creio ter escancarado a tendenciosidade e absoluta falta de rigor histórico do Reinaldo Azevedo. Que continue acreditando nele quem quiser... ser manipulado!

Celso Lungaretti
No Náufrago da Utopia
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A campanha dos dois pesos e umas 19 medidas


A certa altura da sabatina, que mais parecia um interrogatório feito por quatro jornalistas de diferentes veículos, como se fossem um só, a presidente Dilma Rousseff deu uma pista de como pretende atuar nos debates eleitorais. Em 90 minutos de perguntas duras e respostas por vezes confusas, Dilma passou a primeira parte na defensiva, falando ao mesmo tempo das dificuldades econômicas do momento e das conquistas sociais do seu governo. Quase nada disse sobre as propostas e projetos para um novo mandato, que é o que o eleitor quer saber dos candidatos para definir seu voto.

A conversa seguiu em banho-maria até que foi levantado o inevitável assunto do mensalão petista. Dilma procurou ser didática e não subir o tom nas respostas, mas foi ao ataque: "Tem dois pesos e umas 19 medidas. Porque o mensalão foi investigado. Agora, o mensalão mineiro do PSDB, não foi. Quando foi o nosso caso, não pressionamos juiz, não falamos com procurador, não engavetamos o processo"

Um jornalista logo a corrigiu para lembrar que o mensalão tucano foi, sim, investigado, mas não julgado até agora (embora fosse um caso mais antigo). "E quando vai ser?...", perguntou Dilma, deixando implícita a resposta de que nunca será julgado, exatamente porque o Judiciário trabalha com dois pesos e umas 19 medidas.

O mesmo pode-se dizer também do comportamento da mídia na cobertura da campanha presidencial, em que as denúncias contra o PT e o governo nunca saem das manchetes, e os rolos mal explicados da oposição, que raríssimamente são investigados e publicados, como o do trensalão paulista, logo desaparecem do noticiário, como está acontecendo agora com o enrolado Aécioporto em Minas.

A economia dominou a maior parte da sabatina, com os jornalistas desfiando uma série de índices negativos nas últimas semanas, o que, segundo a presidente, está gerando um "pessimismo inadmissível". Dilma sabe que este será o grande desafio da sua campanha pela reeleição.

"Eu acho que o mesmo pessimismo que ocorreu com a Copa está acontecendo com a economia. E você sabe que na economia é mais grave, porque economia é feita de expectativa. Se alguém bota na cabeça que a situação está descontrolada..."

Dilma lembrou de forma indireta a manchete da "Folha", uma das organizadoras do evento, no dia da abertura da Copa: "Copa começa hoje com seleção em alta e organização em xeque". Vai ficar na história. Deu tudo ao contrário, como sabemos: a seleção foi humilhada dentro de campo e deu tudo certo na organização.

De fato, assim que acabou a Copa, revertendo as previsões catastróficas da mídia, começou mais uma campanha organizada pelo inefável Instituto Millenium para mostrar todos os dias que o país está indo à breca, com desindustrialização, inflação alta, crescimento baixo e ameaças de aumentar o desemprego, sem novos investimentos.

É o clima de baixo astral sonhado pela oposição para prejudicar a candidata do governo. Dilma estava inconformada com o episódio do bancão espanhol Santander que, na véspera, tinha distribuído uma carta a seus correntistas mais abonados, alertando-os que podem perder dinheiro se Dilma for reeleita diante da gravidade da situação econômica. Nesta hora, a Dilma velha de guerra perdeu a paciência e soltou os cachorros:

"É inadmissível para qualquer país, principalmente um país que é a sétima economia do mundo, aceitar qualquer nível de interferência de qualquer integrante do sistema financeiro, de forma institucional, na atividade eleitoral e política".

Conteúdo à parte, Dilma continua errando na forma, dando respostas muito longas, e assim acaba se atrapalhando, sem responder objetivamente às perguntas, como aconteceu no final, quando lhe perguntaram o motivo para guardar R$ 150 mil em espécie debaixo do colchão. É o hábito de responder ao repórter e não a quem está em casa, um defeito de comunicação que os marqueteiros presidenciais já poderiam ter corrigido.

Não tem que encarar o repórter, tem que olhar para a câmera, sabendo que por trás dela está um eleitorado ávido querendo saber o que cada candidato propõe de concreto para melhorar a vida no nosso país. Se os entrevistadores não perguntam, há que se encontrar uma forma para introduzir o assunto sempre que possível.

Nas três sabatinas até aqui promovidas, com Aécio, Eduardo e Dilma, falou-se muito de problemas do presente, denúncias do passado e muito pouco sobre o futuro, que deveria ser o eixo de qualquer campanha eleitoral, já que se trata sempre de uma renovação de esperanças, por maior que seja o desencanto.

Por falar nisso, alguém já viu algum sinal de campanha eleitoral nas ruas, nas casas, nos carros do nosso país? Fora as propagandas em carros de candidatos a deputado, nem dá para imaginar que vamos ter eleições daqui a apenas 65 dias.

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A dupla moral e a política externa tucana

A proposta tucana para política externa evita qualquer dos temas candentes da agenda internacional e não se posiciona sobre a dimensão política da integração regional – nenhuma palavra sobre a UNASUL. Como no passado, é pouco mais do que política comercial, temperada de bom-mocismo

Os tucanos são bichos de temperamentos diversos. Quando espicaçados, uns levantam o bico e se dão ares de ofendidos, outros têm ataques de fúria. Há também aqueles que suspendem qualquer reação aparente, e ficam à espreita para atacar o insolente, pelas costas, quando não houver ninguém por perto.

Agindo de um modo ou outro, porém, todos são muito sensíveis.

Ainda há pouco estavam profundamente ofendidos com o que entendiam ser uma onda de ataques brutais contra seus refinados escribas.

Como ousam apontar-lhes o dedo? Nomear, no meio de um artigo, cinco ou seis colunistas que se tornaram célebres pela virulência da linguagem utilizada em sua cruzada contra os inimigos ideológicos (esses petralhas…)? Violência fascista! Um atentado à liberdade de imprensa!

Meus sais! Onde está a polícia?

Ah… como seria bom se o outro lado pudesse manter o nível do debate! Se discutisse ideias, ao invés de nos responder com grosserias…

Pois bem, seja feita sua vontade. Vamos dar uma olhada desapaixonada no que diz sobre a política externa o mais recente documento de lavra tucana.

A uma leitura rápida, pareceria não haver muito a olhar no texto “Diretrizes Gerais de Governo”, depositado pela Coligação Muda Brasil no TSE há alguns dias. Com efeito, nas 76 de suas páginas, apenas uma delas é dedicada ao tema.

O raquitismo da proposta não surpreende. Política externa não dá voto, dizem os expertos. O reduzido espaço reservado a ela no programa tucano reflete essa sabedoria.

Seria um engano, porém, tomar o lugar acanhado no texto como indício de que a questão internacional tem um papel secundário no programa efetivo da direita orgânica.

Não é preciso muito esforço para demonstrar a assertiva. A página dedicada ao tópico se abre com uma declaração de princípio, tão pomposa quanto vazia.

“A nova política externa … terá por objetivo restabelecer o seu tradicional caráter de política de Estado, visando o interesse nacional, de forma coerente com os valores da democracia e dos direitos humanos.”

Cercado de lugares comuns — “interesse nacional”, “democracia”, “direitos humanos”, quem os contesta? — o conteúdo da frase está condensado no verbo restabelecer, pelo qual se introduz silenciosamente o argumento surrado segundo o qual a autonomia do Itamaraty foi comprometida, desde o primeiro momento, pelo viés ideológico da política externa do governo petista. E sofre agora uma ameaça ainda mais séria, com iniciativas demagógicas, como esse decreto que institui os famigerados conselhos de participação social em todos os ramos da administração pública. Que horror!

Talvez para não parecer ideológico, o documento evita pronunciar-se sobre qualquer dos temas candentes da agenda internacional. Tampouco se posiciona sobre a dimensão política da integração regional — nenhuma palavra sobre a UNASUL (União das Nações Sul-Americanas), pasmem. Como no passado, a política externa para os tucanos é pouco mais do que política comercial, temperada de bom-mocismo.

Em seu item 2, o documento fala em reavaliar as prioridades estratégicas à luz das transformações do cenário internacional — outra platitude — e em reexaminar as políticas seguidas no tocante à integração regional. Aqui ele começa a ficar mais interessante.

Pois as conclusões principais do reexame já estão dadas. Trata-se de “restabelecer a primazia da liberalização comercial para… recuperar seus (do Mercosul) objetivos iniciais e flexibilizar suas regras a fim de poder avançar na negociação com terceiros países.”

Esses países não são especificados, mas sua identidade é tacitamente aludida no item seguinte:

“Definição de nova estratégia de negociações comerciais bilaterais, regionais e globais,… priorizando a abertura de novos mercados e a integração do Brasil às cadeias produtivas globais.”

Ora, os processos de negociação em curso são bastante conhecidos. Temos, de um lado, o acordo Mercosul-União Europeia, que se arrasta há anos. Mas não é dele que se está falando.

Neste particular, a posição do documento tucano não difere tanto assim daquela que vem sendo sustentada pelo governo Dilma: interessa ao Brasil concluir rapidamente a negociação — fato que vai registrado aqui, como tal, independente do juízo que se possa fazer sobre ele.

Há três outros processos em andamento — Aliança do Pacífico, a Parceria Trans-pacífica, e o Acordo Transatlântico de Comércio e Investimento, ora em negociação entre a União Europeia e os Estados Unidos. Ah, falta mencionar ainda o Acordo Comercial sobre Serviços (TISA, na sigla em inglês), tornado público recentemente a partir da divulgação do documento relativo aos serviços financeiros pelo WikiLeaks.

Três características salientes são comuns a tais iniciativas: 1) todas elas adotam um modelo regulatório do tipo “GATT-plus”, ou seja, regras mais estritamente conformes aos interesses das grandes corporações multinacionais, que, por meio delas, conseguem impugnar os esforços do poder público para disciplinar suas práticas; 2) todas propõem inovações que carecem do consenso necessário para serem aprovadas nas arenas multilaterais, como a OMC; 3) na promoção de todas elas, o protagonista é o governo dos Estados Unidos.

A proposta de política externa tucana omite a tradução prática do enunciado geral antes aludido. Mas podemos encontrá-la em outra seção do documento. Com efeito, na parte dedicada ao comércio exterior, fala-se com todas as letras em flexibilizar as regras do Mercosul, para concluir o acordo com a Europa e negociar um outro com os EUA.

Não há nada de muito novo em nada disso. Nesse, como em outros temas, o documento tucano prima pela mesmice. Antes, a ALCA; agora, os novos acordos — que reeditam o mesmo projeto, em outra escala e com outra roupagem.

Nos anos 1990, o must era a globalização, espécie de Elixir Palegórico para males econômicos; agora, depois dos desastres produzidos em seu nome, o mantra é a “integração às cadeias globais de produção”. Mas o conto do vigário não muda.

Alfinetada à parte, temos nessa disputa eleitoral dois programas de inserção internacional nitidamente distintos. Poderíamos ter igualmente a oportunidade de um debate profundo sobre os desafios que o Brasil enfrenta neste momento de grandes transformações na economia e na geopolítica mundiais. Mas não vale a pena alimentar a fantasia. O que tem marcado a campanha da oposição demo-tucana é a desqualificação do oponente, o ataque abaixo da cintura. E será assim até o final.

Esta última observação me devolve ao ponto de partida. Mesmo o político de pele curtida — como deve ter todo aquele que se dedica a esse ofício nobre — prefere a suavidade do sabonete Dove à aspereza do sabão de cozinha. Seria mais agradável para todos, e certamente mais instrutivo, se a disputa política no Brasil pudesse ser desenvolvida com base no ideal da prevalência do melhor argumento, como quer o filósofo.

Mas não se trata de uma questão de escolha. A política não é o foro; como na guerra, nela quem dita a regra é o antagonista.

Houve época em que a comunicação entre as duas forças que se confrontam na arena nacional há quase duas décadas foram mais fluidas. Foi assim até um ou dois meses depois da eleição de FHC à Presidência da República. Mas a implementação de seu programa de governo — a quebra do monopólio do petróleo e o programa de privatização, para citar apenas dois itens – requeria um jogo mais truculento.

Desde a greve da Petrobras, provocada pelo governo, e combatida a ferro e fogo por este, o País passou a ser dividido no discurso oficial, não mais entre autoritários e democratas, mas entre globalistas modernosos, e corporativistas atrasados – ou simplesmente “neobobos”.

A eleição de Lula, em 2002, com um programa brando de reforma social e uma política econômica que os tucanos reivindicavam (erroneamente) como sua, poderia mudar a qualidade das relações políticas no País. Mas, não. Carente de votos, mas solidamente instalada em vários nichos institucionais estratégicos, a nova e ressentida oposição dobrou a aposta, e quis alcançar no grito aquilo que lhe negavam as urnas.

Nesse contexto, a lamúria dos tucanos sobre a agressividade de seus adversários deve ser tomada pelo que é: expressão da dupla moral que eles seguem nessa esfera — e em tantas outras —, manifestação acabada de farisaísmo.

Sebastião Velasco
No Blog do Miro
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O Globo confunde defesa de soberania com tática suicida - o soberano vai morrer


Para O Globo, Cristina Kirchner adotou uma tática suicida na negociação com os fundos abutres, que insistem em receber 100% do pagamento de uma dívida, cuja reestruturação foi aceita por 92% dos credores e vem sendo paga religiosamente nos prazos estipulados.

Trocando em miúdos, para O Globo, resistir à pressão de um grupo de especuladores, que pretende levar um país inteiro à bancarrota, é uma tática suicida.

"Podem inventar outro termo, isso não é moratória. A Argentina pagou e continuará pagando a todos os organismos de crédito com os quais reestruturou sua dívida", declara a presidente Cristina Kirchner. "Esta Presidenta não vai assinar nada que comprometa o futuro das gerações da Argentina como fizeram outros, que assinaram qualquer coisa", completa.

O Globo omite, mas a tática suicida de Cristina conta com o apoio de toda a região e da Organização dos Estados Americanos (OEA), como mostra esse vídeo.


Como não poderia ser diferente, a confusão mal intencionada de O Globo, já ecoou por aqui, o respaldo estratégico do engano e da manipulação. O La Nación está repercutindo.

No Argentina Etc
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Mercosul deve endurecer posição contra Israel


Reunidos em Caracas, os presidentes dos cinco países do bloco, formado por Brasil, Uruguai, Paraguai, Argentina e Venezuela, discutirão uma posição comum em relação aos ataques de Israel contra a Faixa de Gaza, que já deixou mais de 1.000 palestinos mortos, a maioria civis; cientista político Emir Sader defende que Tratado de Livre Comércio com Israel, o primeiro a ser assinado pelo bloco, em 2010, com um país de fora da América Latina, seja suspenso; "A ideia da condenação de Israel, especialmente pela postura em relação à Gaza, é algo absolutamente consensual", opina; Brasil foi chamado de "anão diplomático" por porta-voz da chancelaria israelense quando condenou ataques contra os palestinos; latinos se unirão?

Reunidos em Caracas para a 46ª Cúpula do Mercosul, os presidentes dos cinco países que formam o bloco, Brasil, Uruguai, Paraguai, Argentina e Venezuela, devem discutir, além de outros temas, o conflito entre Israel e os palestinos na região da Faixa de Gaza. Os representantes das nações devem debater uma posição comum diante dos bombardeios das forças militares de Israel, que deixou mais de 1.000 palestinos mortos, a maioria civis, contra 53 soldados israelenses e três civis.

Israel foi o primeiro país fora da América Latina a ter um Tratado de Livre Comércio com o Mercosul, assinado em 2010. Na opinião do cientista político Emir Sader, chegou o momento de discutir a pertinência desse tratado e de o Mercosul "endurecer" sua posição contra o país, em um boicote aos produtos fabricados por Israel em assentamentos palestinos pelos bombardeios contra Gaza. "Países como Brasil e Uruguai têm um intenso intercâmbio militar com Israel. Coisa absolutamente indevida", comentou.

"A ideia da condenação de Israel, especialmente pela postura em relação à Gaza, acho que é algo absolutamente consensual", acrescenta Sader, ainda sobre o Mercosul. O cientista político avalia como positiva a posição do governo brasileiro em relação a Israel, mas lembra que outros países da América Latina tomaram posições formais "mais duras". A Argentina e a Venezuela, por exemplo, estão retirando embaixadores e rompendo relações.

O tema de uma resposta do Mercosul a Israel foi sugerido pelo Brasil para ser discutido na cúpula do bloco. Na semana passada, ao chamar de "ação desproporcional" e classificar de "inaceitável" a escalada de violência na região, o País foi chamado de "anão diplomático" pelo porta-voz da chancelaria israelense, Yigal Palmor. A cúpula em Caracas também vem em boa hora para que os países da América do Sul se unam em defesa do Brasil e contra a ofensa de Israel.

No 247
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Alguém acha que Haddad vai resolver seu problema de comunicação com mais comunicação?

Sob cacetadas da mídia
Vão se acumulando as críticas à capacidade de “comunicação” do prefeito Fernando Haddad, de São Paulo, desde que ele começou a implantar seu programa de governo aprovado nas urnas.

O plano diretor da cidade traz coisas como maior oferta de habitação popular, aproximação de emprego e moradia, estímulo ao uso de bicicletas e transportes coletivos, apoio aos catadores e aumento da reciclagem de lixo sólido, por exemplo.

A última que li foi no Brasil Post, uma associação do Huffington Post americano com a Editora Abril.

A solução mais frequente apontada para os problemas de comunicação dos governos é sempre mais comunicação. Até parece ação orquestrada por… alguma empresa de comunicação.

Tem muita gente que acredita nisso, incluídos muitos petistas. Essa teria sido, essencialmente, a maior causa do escândalo do mensalão, outro grande problema, ou melhor, produto de comunicação.

Acredita em qualquer coisa quem acredita que investimentos e estratégias de comunicação e marketing podem arrefecer o bombardeio de frequência palestina e intensidade israelense promovido pela imprensa brasileira contra os governos petistas.

Há uma guerra da comunicação no Brasil e no mundo atualmente, mas até na guerra existem leis. É proibido usar armas químicas e matar civis, por exemplo. No Brasil, a guerra da comunicação não tem lei.

Mario Covas também acreditava que os jornais não falavam tão bem de seu governo quanto deviam. É natural: político que é político tem que ser narcisista. Senão, não funciona. Como é que o cara vai dizer que é máximo, se nem ele acredita?

A oposição da imprensa não é novidade, nem privilégio ou exclusividade do PT. Perguntem a Fernando Collor de Mello — recentemente absolvido das acusações da imprensa que o levaram à destituição do cargo — se ele não concorda.

Você sabia que, para resolver o problema, Covas mandou a Imprensa Oficial — a gráfica e editora que produzem o Diário Oficial do Estado — fazer uma brochura chamada … Você Sabia?

Pois é, ele mandou a empresa de comunicação do estado que dirigia enfrentar as tropas inimigas e contratou a Abril — dona de um sofisticado esquema de distribuição de revistas e detentora de um cadastro gigante de assinantes — para entregar a revistinha na porta da casa de todo mundo.

Deu pra perceber? Não? Eu explico melhor.

Para informar aos cidadãos que o elegeram as realizações que ele achava que a imprensa não reconhecia nem divulgava, o governador tucano mais popular que São Paulo já teve precisou pagar pelo socorro da imprensa que o perseguia.

Para se defender dos ataques, o governo precisa “investir em comunicação”. E adivinha no bolso de quem vai parar esse “investimento” e quem paga por ele.

Isso mesmo: você.

Para desmentir ou neutralizar uma imprensa que age em grupo — você já reparou que os jornais tem todos a mesma opinião e publicam até manchetes idênticas — os governos são obrigados a manter um exército de funcionários e toda uma estrutura dedicada exclusivamente a produzir “o outro lado” que ela não publica.

Ou, então, se quiser que ela o apoie incondicionalmente, encher suas páginas de anúncios pagos a preços acima do cobrado dos demais anunciantes, comprar assinaturas para colocar nas escolas e bibliotecas públicas onde faltam livros ou oferecer-lhes financiamentos em condições de pais pra filho.

Seja como for, é sempre o governo quem paga a conta. E paga duas vezes: para produzir a sua própria informação e para garantir sua publicação com anúncios.

Os filmes sobre Elliot Ness tornaram famosa a “taxa de proteção” que a máfia de Nova York cobrava para não roubar e matar os comerciantes.

Alguém acha que Haddad pode se defender dela com … mais “comunicação”?

Jura Passos
No DCM
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Empiricus piccaretum est

Picaretagem? Empiricus dizia que ações da OGX iam dobrar, mas despencaram. Agora diz que será o "fim do Brasil"

Confira aqui

Uma tal de Empiricus espalhou um "relatório" imbecil e catastrofista sobre a economia brasileira chamado "Fim do Brasil". Retrata a eleição de Dilma como se fosse o "fim do mundo".

É da mesma linhagem dos que diziam no ano passado que hoje estaríamos em uma "tempestade perfeita" na economia, coisa que, nem de longe, aconteceu. É também da mesma linha dos que diziam em 2008 que o Brasil iria quebrar com a crise internacional igual nos tempos de FHC, e os que criaram o "lulômetro" nas eleições 2002, dizendo que quando Lula subia nas pesquisas, o dólar também subia.

Vamos desenhar: até as agências internacionais bem mais sérias que essa tal de Empiricus, mantiveram a economia do Brasil na categoria sólida de "grau de investimento", coisa que os tucanos sempre almejaram, mas só o governo Lula conseguiu e o governo Dilma mantém, inclusive elevando as reservas. Então esse alarmismo desta tal Empiricus tem cheiro, cor e forma de picaretagem.

Para entender um pouco o que está em jogo, vai uma dica: quem é profissional na área de ganhar dinheiro ensina para todo mundo o pulo do gato?

Quem é dono de uma loja de sucesso, ensina à concorrência as dicas de seu negócio, para todo mundo copiar e sua própria loja perder dinheiro e clientela para os concorrentes?

No mercado de derivativos nas bolsas de valores é muito pior. Não existe possibilidade de ganha-ganha como existe no mercado à vista de ações. Quando um vende para o outro ações ou títulos nos mercados futuros e de opções, um ganha muito e outro perde muito. Quem tem informação valiosa e rara que ajude a prever o rumo do mercado, não conta para ninguém. Usa para ganhar dinheiro para si.

Pois o negócio da Empiricus, acredite se quiser, é vender "cartilhas" que supostamente ensinariam o pulo do gato para todo mundo que segue seus "conselhos" a ganhar dinheiro! Tem assinaturas desde R$ 19,90 por mês até R$ 164,90 por mês. Só falta lançar uma edição de R$ 1,99 chamada de "Elixir milagroso para ficar milionário sem trabalhar".

Como são bonzinhos e abnegados! Em vez de ganharem dinheiro, ensinam os outros a ganharem! (estou ironizando, é claro).

Só que muita gente que seguiu os conselhos da Empiricus em 2009 perdeu muito dinheiro. Há quem tenha perdido praticamente todo o dinheiro que aplicou, seguindo os "conselhos" dos gurus da empresa.

No auge de Eike Batista, em fins de 2009, a Bovespa já tinha subido 80%. As ações da OGX, petroleira de Eike Batista estava cotada em torno de R$ 16,00. A Empiricus espalhou por aí que a OGX tinha potencial para subir mais de 100%.

Com esse tipo de notícia se espalhando, muita gente incauta achando que a Empiricus e assemelhados ensinava a ganhar dinheiro, compraram ações da OGX.

Com muita gente comprando, as ações subiram um pouco num primeiro momento, pela própria procura (mas longe de dobrar de preço com dizia a Empiricus), para em seguida começar a cair. Nunca mais voltou ao que era e despencou. Em vez dos R$ 32,00 previstos pela Empiricus, hoje as ações da OGX valem R$ 0,18.

Um autor de relatórios da Empiricus, Marcos Elias, teve seu registro de analista suspenso pela própria classe por 12 meses devido a alguns relatórios sensacionalistas e, com a suspensão, deixou a empresa. Outros dois analistas da Empiricus que ainda continuam na empresa já foram multados pela falta de seriedade na linguagem sensacionalista.

Existem outras empresas e analistas de mercado sérios, que fazem e vendem análise de balanços, estudos de gráficos de tendência. Existem até softwares que fazem automaticamente estas coisas. Mas quem é sério se limita a estudos numéricos de indicadores objetivos, sem sensacionalismo. E estes estudos são apenas parte do conjunto de informações que operadores do mercado usam para tomar suas decisões de compra ou venda. O pulo do gato para ganhar dinheiro de fato, sabendo a hora de comprar ou vender determinado papel, ninguém ensina por motivos óbvios.

Vender relatórios sobre mercados em linguagem sensacionalista e ainda fazer propaganda paga no Google, de forma também sensacionalista e usando candidaturas para vender assinaturas e, talvez, provocar movimentos especulativos nas bolsas com o sensacionalismo, entra no terreno pantanoso da exploração da boa fé alheia, da propaganda enganosa.

Por isso, exige investigação se está havendo crimes de manipulação do mercado, contra a economia popular e contra a legislação eleitoral, já que as eleições também podem estar sendo usadas com método e planejamento por espertalhões, tanto para especulação financeira contra a economia popular, como para fazer terrorismo eleitoral indevido.

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Veja vídeo do 1º contato dos índios isolados com a Funai no Acre


Faz um mês nesta terça-feira (29) que um povo indígena isolado estabeleceu o primeiro contato com indígenas da etnia ashaninka e servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai), na Aldeia Simpatia da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Rio Envira, no Estado do Acre, na região de fronteira do Brasil com o Peru.

Os grupos de índios isolados da região, que entre si se envolvem em conflitos armados, buscam proteção no lado brasileiro porque estão sendo massacrados por narcotraficantes e madeireiros peruanos.

Terra Magazine, em maio de 2008, mostrou ao mundo (veja) as primeiras imagens de um dos grupos de índios isolados que vivem na região, fotografado durante sobrevoo coordenado pelo sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, que chefiava a Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) da Funai. Dessa vez, o Blog da Amazônia obteve com exclusividade o vídeo inédito do primeiro contato, fotos e o relatório de campo da equipe da Funai.

Há mais de dois anos a FPE foi invadida por peruanos, os servidores da Funai bateram em retirada e desde então foi abandonada pelo governo brasileiro. O pessoal da FPE acompanhava a aproximação dos índios isolados desde o dia 13 de junho. O sertanista José Carlos Meirelles, que atualmente trabalha na Assessoria Indígena do Governo do Acre, tem participado dos contatos.

O primeiro contato com os índios isolados, sem auxílio de intérprete, foi estabelecido pelo índio Fernando Kampa de forma pacífica. Os ashaninka da Aldeia Simpatia se aproximaram e os isolados gesticulavam pedindo a calça de um servidor da Funai, que se aproximou juntamente com os ashaninka apenas de cueca.


— Ao gesticularem pedindo comida, o indígena Fernando Kampa pediu que fossem apanhados dois cachos de banana e os deu aos índios, realizando assim o contato. No momento de entrega das bananas, também apareceu na margem contrária outro índio isolado que havia sido avistado na BAPE Xinane e também uma mulher com um saiote, possivelmente feito de envira, e com uma criança de aproximadamente cinco anos. A mulher entregou um jabuti ao indígena Fernando Kampa como forma de agradecimento ou troca pelas bananas – diz o relatório de campo da equipe da Funai.

Após o primeiro contato, de acordo o relatório, o indígena Fernando Kampa pediu que os ashaninka pegassem suas roupas para dar aos isolados e os chamou para o acompanhar até a aldeia Simpatia. “Mais uma vez não foi possível controlar os avanços dos ashaninka”. Segundo o relatório, as roupas estavam sujas, possivelmente com escarros, doenças sexualmente transmissíveis, que podem ter contaminado os isolados.

O fato é que o grupo de índios isolados contraiu gripe e se deslocou junto com a equipe da Funai para a base da FPE Xinane. O grupo foi convencido a permanecer na aldeia até que fosse encerrado o atendimento médico pela equipe mobilizada pelo geógrafo Carlos Travassos, da Coordenação-geral de Índios Isolados da Funai em Brasília.


Após a conclusão do tratamento, os indígenas retornaram para suas malocas, onde estão os demais integrantes de seu povo. De acordo com informações dos intérpretes que integram a equipe da Funai, os índios pertencem a um subgrupo do tronco linguístico pano.

A equipe da Funai encontrou uma pequena bolsa na qual os índios isolados carregavam cachimbo, camisas, caixa de fósforo peruano, embalagens de sabão peruano, uma carteira do Corinthians enrolada com pedaços de fios coloridos e com um pote contendo um líquido, provavelmente um anticoagulante que é aplicado na ponta das flechas. Havia também cartucho calibre 32, pólvora preta (marca Jacaré), uma espoleta, pacote vazio de sal (marca Caiçara), caucho (sernambi), três lâmpadas incandescentes, parafusos e porcas, que os isolados usam para carregar cartuchos da espingarda. O material foi todo devolvidos aos isolados.


Os índios isolados, que prometeram regressar com familiares no prazo de luas — mais ou menos no começo de setembro —, neste domingo (27) decidiram antecipar. Um grupo de oito isolados se estabeleceu na Aldeia Simpatia, incluindo uma criança.

O índio Zé Correia, da etnia jamináwa, chamado pela Funai como intérprete, contou que os índios isolados preferiram não se identificar porque temem ser alvos de novas correrias (matança organizada de índios) por parte de outros grupos indígenas isolados.

— Mas a situação mais grave envolve os narcotraficantes e madeireiros peruanos. A maioria desse grupo contatado é de jovens. A maioria dos velhos foi massacrada pelos brancos peruanos, que atiram e tocam fogo nas casas dos isolados. Eles disseram que muitos velhos morreram e chegaram enterrar até três pessoas numa cova só. Disseram que morreu tanta gente que não deram conta de enterrar todos e os corpos foram comidos pelos urubus. Nosso povo jamináwa compreende a língua dos isolados e nós vamos acompanhar. O governo brasileiro precisa fazer algo para defender esses povos. Eles disseram que existem outros cinco povos isolados na região e que são grupos bastante numerosos. Apesar das diferenças e dos conflitos que existem entre esses grupos, todos são perseguidos pelos brancos peruanos. Qualquer dia todos esses povos podem procurar o Brasil em busca de proteção. A Frente de Proteção Etnoambiental da Funai precisa de total apoio.  Vai ser impossível se fazer algo apenas com as mãos e as unhas. Não podemos ser cúmplices de genocídios – apelou Correia.

Carlos Travassos, da Coordenação-geral de Índios Isolados da Funai, com o indígena
Zé Correia, que colaborou no contato como tradutor
A equipe da da Frente de Proteção Etnoambiental Envira Envira, entre os dias 17 e 30 de junho, produziu um relatório preliminar de campo denominado “Desenvolvimento das atividades Aldeia Simpatia”.  Veja o que foi relatado sobre o que aconteceu na aldeia nos dias 29 e 30 de junho:

29/06/2014 – domingo

Durante todo o dia ocorreu a tradicional caiçumada dos Ashaninka e no final da tarde, por volta das 16:00, o téc. em enfermagem, Francimar Kaxinawa, retornou às pressas de seu banho no rio e informou a equipe da FUNAI (Marcelo Torres) que os isolados estavam gritando no barranco à margem oposta da praia da aldeia Simpatia.

Outras crianças Ashaninka também ouviram e chamaram rapidamente os adultos que estavam na caiçumada. Neste momento, os indígenas Ashaninka seguiram correndo pela praia até chegarem próximos aos isolados, liderados pelo indígena Fernando Kampa. Todos os Ashaninka aparentavam estar bêbados e bastante alterados.

Um dos indígenas da aldeia Simpatia, Gilberto Kampa, havia subido o rio pouco tempo antes para arrancar macaxeira e após ver os isolados ficou ilhado no roçado. Sua esposa veio até a aldeia chorando e pediu para que fossemos busca-lo. Além de Gilberto, estavam com ele 2 de seus filhos com idade entre 3 e 5 anos.

Os isolados gritavam e gesticulavam, onde foi possível ouvir nitidamente a palavra “camisa” e batendo na barriga como quisessem dizer que estavam com fome. No momento da aparição, estava presente apenas o servidor Marcelo Torres da FUNAI e sendo que Meirelles, Artur e Guilherme estavam mais abaixo no rio Envira pescando.

Não foi possível conter os Ashaninka para aproximação com o grupo isolado, que a princípio se apresentou com 4 índios, os mesmos avistados na BAPE Xinane. Seguiam portando 1 espingarda e os demais com arcos e flechas.

Os Kampas se aproximavam mais e os isolados gesticulavam pedindo a calça do servidor Marcelo Torres, que se aproximou juntamente com os Kampa sem a calça, apenas de cueca. Ao gesticularem pedindo comida, o indígena Fernando Kampa pediu que fossem apanhados dois cachos de banana e os deu aos índios, realizando assim o contato.

No momento de entrega das bananas, também apareceu na margem contrária outro índio isolado que havia sido avistado na BAPE Xinane e também 1 mulher com um saiote possivelmente feito de envira e com 1 criança de aproximadamente 5 anos. A mulher entregou um jabuti que foi entregue ao indígena Fernando Kampa como forma de agradecimento ou troca pelas bananas.

Após este contato, o indígena Fernando Kampa pediu que os Ashaninka pegassem suas roupas para dar aos isolados e os chamou para o acompanhar até a aldeia Simpatia, onde mais uma vez não foi possível controlar os avanços dos Ashaninka. As roupas dadas estavam sujas, possivelmente com escarros, DST’s, etc., que podem ter contaminado os isolados.

Na chegando a praia da aldeia Simpatia, também havia acabado de chegar os servidores Artur e Guilherme, juntamente com Meirelles. A equipe tentou conter os isolados e os Kampa que chegaram a ligar o motor do barco da FUNAI para buscar o indígena Gilberto Kampa no roçado, mas foi praticamente impossível até que Fernando Kampa foi contido após ríspida discussão com a equipe da FUNAI.

Chegaram a aldeia apenas 3 dos índios isolados e os demais permaneciam no barranco à margem contrária. O indígena Fernando Kampa pediu para sua esposa trouxesse caiçuma para os isolados e ao chegar na praia, o servidor Marcelo Torres orientou ao médico da equipe de saúde, Neuber, que chutasse a cuia impedindo que a bebida chegasse até os isolados.

Após este momento, os índios começaram a subir para a aldeia e saquear as casas dos Ashaninka que permaneciam passivos, bêbados, sem qualquer espécie de reação. Foi preciso que a equipe da FUNAI intervisse e impedisse que todas as casas fossem saqueadas. Meirelles precisou ser mais ríspido para que um dos isolados deixasse parte do que iria saquear no chão. Quando eram mostradas armas, os isolados se mostravam extremamente nervosos e agitados, gritando “Shara”.

Depois deste momento de saque, a equipe da FUNAI conseguiu conter um pouco os isolados e os acalmar, sendo possível ver os isolados arremedando animais da mata e também cantando. O servidor Guilherme tentou realizar o contato urgente com Brasília e Rio Branco e não obteve resposta.

A equipe seguiu conversando e tentando manter contato com os isolados para acalmá-los, mas em determinado momento, o grupo isolado ouviu um arremedo de nambu azul vindo da mata próxima ao Ig. Simpatia e se agitaram, gesticulando como se tivessem sido flechados.

Com o cair da noite tornou-se ainda mais difícil conter o grupo e novos saques foram realizados nas casas dos Ashaninka. Pouco tempo depois, chega a aldeia Simpatia pela mata o indígena Gilberto Kampa com seus filhos, assustado e informando que haviam outros índios escondidos na região do roçado.

Na tentativa dos servidores de conter os saques, os mesmos eram ameaçados com flechas. A equipe tentou fazer uma fogueira e sentar com os isolados, mas pouco depois o grupo de isolados desceu e saiu correndo pela praia no sentido do barranco onde estavam os demais índios.

Após o contato e a saída dos índios, as equipes da FUNAI e da Saúde realizaram escala de vigília durante a noite em caso de nova investida dos isolados. Durante o período da noite e madrugada, apesar da vigília, os isolados cortaram todas as cordas das ubás e afundaram uma das voadeiras da FUNAI com motor.


30/06/2014 – segunda-feira

Por volta das 7:00, os Ashaninka que tinham descido na praia do simpatia nos informaram que os índios isolados estavam descendo novamente rumo a aldeia, descemos na praia e montamos um esquema para impedir que eles subissem novamente para realizar saques. Uma equipe ficou na frente e outra com espingardas atrás. Orientamos que ninguém ficasse sozinho frente aos isolados, mantendo sempre um numero maior que eles. Eles utilizaram a ubá do Gilberto Kampa (tinha deixado no rocado) para atravessarem o rio.

Atravessaram o rio Envira e deixaram a ubá na praia localizada acima da aldeia. Estavam em 04 pessoas. Eles se deslocaram pelo rio até a praia.

Ao chegarem à praia da aldeia Simpatia já foram logo pedindo coisas, tipo camisas e panelas.  Não foi fornecido. A equipe da FUNAI manteve um dialogo através de gestos calmo e tranquilo. Eles subiram o barranco, mas foram contidos antes de entrarem na aldeia. Qualquer investida era contida mostrando as armas, o que os deixavam bastantes nervosos. Meirelles tinha esse papel de impedir  a entrada deles, quando tentavam entrar na aldeia ele gritava, assoprava e mostrava a arma.

Foi tentado realizar trocas com os isolados, do tipo mostrávamos um terçado e pedíamos uma flecha, mostrávamos artesanatos (eles demonstravam grande interesse) e pedíamos algum ornamento deles, mas nenhuma troca obteve sucesso.

Ao perceberem que não obteriam sucesso nos saques, pediram algo para comer, foi dada banana, macaxeira cozida, coco e carne assada, sendo que só comeram as bananas. Desconfiavam de tudo que dávamos para eles comerem. Eles abriram os cocos, tomaram um pouco da água e deram o restante para a equipe que ficou a frente na contensão.

Num certo momento o servidor Artur fez um cigarro de tabaco e acendeu em frente aos isolados, eles ficaram bem exaltados e pediram o tabaco e o isqueiro. O tabaco foi fornecido, eles pegaram, cheiraram e pediram para que Artur desse o cigarro feito. Artur forneceu o cigarro, eles deram algumas puxadas e guardaram para mais tarde. Artur tentou trocar o isqueiro por uma flecha, mas os isolados não quiseram.

Fernando Kampa apareceu num certo momento tirando algumas fotos bem de perto, ao bobiar por um minuto, estava mostrando o funcionamento do isqueiro, um isolado tirou a câmera do Fernando que estava no bolso e foi embora.

Ao perceberem que não obteriam sucesso nos produtos industrializados resolveram ir embora. O tempo de permanência foi de 1:30 h no barranco da aldeia Simpatia. Ao sair um indígena isolado espirrou, ao entrar no rio o mesmo deu uma tossida.


IVANA BENTES É necessário amansar os brancos

Documento de cultura, documento de barbárie é a primeira coisa que vem a cabeça vendo os relatos dos indigenistas e agentes que participaram dos contatos com os índios isolados do Acre.

A própria forma de percebê-los ganha materialidade nos confrontos com o Estado: avistamentos, vestígios, confrontos armados, mortes dos “isolados”, mortes dos moradores brancos, conflitos com narcotraficantes, etc.

O que acontece depois do contato? Muitos vão morrer pela simples proximidade e contágio com as gripes e doenças corriqueiras dos brancos. Como se preparar para o encontro, que estratégias, qual o melhor momento? É sintomático que os contatos se intensifiquem quando as terras indígenas são comprimidas, pelo desmatamento, pressão de madeireiros, mineradoras, prospecção de petróleo, tráfico de drogas, missionários.

Os índios isolados “fazem contato” numa situação critica, como disse o antropólogo Terri Aquino. Indios ”isolados” de quem? Não somos isolados, bravos, invisíveis, cercados, somos resistentes. Vocês não acham a gente, índio já está ali desde sempre, é como o jabuti na floresta, ninguém acha o jabuti, só encontra quando ele está passando disse o indígena jaminawá Zé Correia na sessão emocionante de apresentação das imagens inéditas do contato com os “índios isolados” mostradas pela Funai durante 66ª Reunião Anual da SBPC, no Acre.

Correia acompanhou os primeiros contatos da Funai na Aldeia Simpatia da Terra Indígena Kampa e Isolados do Alto Rio Envira, na região do Acre de fronteira do Brasil com o Peru. O depoimento continua dizendo: “Os Indios não são ‘isolados’ são livres e circulam porque não sabem dessas fronteiras que os brancos inventaram, não tem indígena do Peru, do Brasil, da Bolivia, nós somos o mesmo povo. Não queremos ser mandados, queremos ser parceiros da FUNAI para ajudar os parentes isolados.”

No vídeo apresentando vemos as imagens de garotos indígenas muito jovens no primeiro encontro, tenso e com um misto de celebração e desespero dos agentes do encontro: “papa não, não pode! No, no, no! Panela, não! Não, tem doença!” quando pegam uma muda de roupa. A aproximação pelo oferecimento de comida.

O interesse dos indígenas pelos terçados, machados e também gestos de impaciência com as reprimendas e ansiedade dos brancos. O Estado brasileiro (ou qualquer estado) está preparado?

A missão foi exitosa, diz Carlos Travassos, mas as condições precárias da Funai, a burocracia, a dificuldade em trabalhar em cooperação entre Brasil, Peru, Bolivia, os desafios da Pan Amazônia se impõem.

Numa infinita remediação de um campo e uma situação que precisa de atenção mais do que urgente e que sofre retrocessos constantes. “Só queremos viver” disse um dos indígenas.

Foi uma sessão emocionante com antropólogos, estudantes, agentes da Funai, e indígenas na SBPC em Rio Branco-Acre.

Ouvimos os relatos do antropólogo Terri Aquino, do indígena Jaminawá José Correia, do antropólogo de Porto Maldonado, no Peru, Alfredo Gárcia Altamirano, de Carlos Travasso, da Coordenação-geral de Indios Isolados da Funai e de outros indígenas da região.

Ivana Bentes é professora e pesquisadora da Escola de Comunicaçao da UFRJ

No Blog do Altino Machado
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A mídia das manchetes ululantes

Os jornais requentam nas edições de terça-feira (29/7) a polêmica causada pela incursão do banco Santander na campanha eleitoral, ao selecionar declarações feitas pela presidente Dilma Rousseff durante sabatina organizada no Palácio da Alvorada pela Folha de S. Paulo, UOL, SBT e rádio Jovem Pan. Com isso, os leitores têm a oportunidade de refletir mais friamente sobre o comunicado em que o setor de análise de investimentos do banco espanhol recomenda explicitamente a seus clientes brasileiros de alta renda que votem contra a reeleição da presidente.

O episódio tem sido comparado a uma manifestação feita em junho de 2002 pelo magnata americano George Soros, de origem húngara, que previu o caos na economia brasileira caso José Serra não fosse eleito presidente, contra Lula da Silva, do PT. O megainvestidor verbalizou certa convicção que corria no mercado, segundo a qual, se eleito, Lula iria dar o calote na dívida externa e o Brasil deixaria de honrar seus títulos.

Operadores da campanha de Serra espalharam o veneno do pessimismo, e rapidamente a profecia se autorrealizou, trazendo grandes prejuízos à economia nacional. Entre junho e dezembro daquele ano, o câmbio disparou do patamar de R$ 2,63 para R$ 3,55; os juros básicos subiram de 18,5% para 25%, e a inflação mensal foi multiplicada por quase 15 vezes no decorrer do semestre, com o índice anual chegando próximo de 11% em novembro.

Com a posse de Lula e a desconstrução da teoria do apocalipse, o mercado se acomodou e os indicadores voltaram ao seu leito natural.

Análises pessimistas já circulavam com intensidade, por conta da deterioração dos indicadores econômicos no final do governo Fernando Henrique, antes que a Folha de S.Paulo entrevistasse o megainvestidor. A declaração de George Soros apenas consolidou especulações esparsas que aumentavam a volatilidade do mercado e agravavam as dificuldades do governo para manter o controle; mas certamente a imprensa ajudou a espalhar o caos, ao publicar a previsão de George Soros sem oferecer com o mesmo destaque a contrapartida de uma análise mais ponderada.

A fonte de todo saber

A imprensa nunca apresentou aos seus leitores o custo desse episódio, que configurou uma verdadeira conspiração contra os interesses do país, e hoje, como ontem, é de se questionar por que motivo os jornais dão curso às projeções pessimistas com indisfarçável regozijo, em manchetes ululantes.

Se, em 2002, a profecia alarmista de George Soros servia ao propósito da imprensa de interferir na disputa eleitoral em favor de José Serra e contra Lula da Silva, em 2014 a manifestação dos analistas do banco Santander não produz o mesmo efeito.

Qual seria a razão dessa mudança?

Um dos motivos é certamente o fato de que, em doze anos de uma política econômica com mais preocupação social, o Brasil melhorou, a pobreza entrou em queda, a desigualdade foi reduzida e houve uma melhora geral na percepção de bem-estar. Portanto, há um contexto social menos vulnerável a pregações pessimistas, embora persistam circunstâncias preocupantes, como as oscilações de preços e a deterioração histórica da indústria nacional.

Por outro lado, o chamado mercado se tornou mais complexo, e aquele núcleo onde atuam os especuladores não produtivos reduziu-se em relação ao conjunto das movimentações financeiras, enquanto novas fontes de financiamento diversificam os meios de capitalização das empresas.

Mas pode-se acrescentar a esses fatores a queda na credibilidade da mídia tradicional: uma manchete de jornal já não tem o mesmo poder de influência que tinha há pouco mais de uma década, e quem toma decisões financeiras importantes faz uma leitura mais crítica das notícias.

A análise dos consultores do Santander coincide com o que pensam a direção do banco, os especuladores e a imprensa hegemônica. Mas há uma realidade a ser considerada, e ela conta que as instituições financeiras ganharam muito dinheiro com a política econômica baseada no aumento da renda das classes médias.

A maneira atabalhoada com que o presidente do Santander veio a público desfazer o mal-estar apenas escancara a situação ridícula em que se coloca a imprensa ao fazer do mercado a fonte de toda sabedoria.

Luciano Martins Costa
No OI
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Cobrança de devedores

As ameaças dos "ativistas" aos fotógrafos, cinegrafistas e repórteres — "Lutar não é crime / Vocês vão nos pagar" —, berradas em coro dentro do próprio Sindicato dos Jornalistas do Rio, são um equívoco duplo e denunciador de inequívoca obtusidade política. Mas não só.

Lutar pode ser crime, sim, a depender da luta. Lançar um rojão contra um cinegrafista de costas, levando-o à morte, não é lutar. É covardia mortal. Como também é só covardia criminosa, embora, por sorte, não letal, derrubar e ferir um cinegrafista que apenas procurava captar a liberação dos presos por violências apelidadas de "manifestações".

É quase engraçado que os adeptos da violência inútil estejam tomados de ódio aos jornalistas. Tivessem um mínimo de percepção, deveriam exibir-lhes muita gratidão. Na obtusidade da sua ira, ainda não perceberam que devem a jornalistas a sua integridade física, se é que muitos não devem a vida.

Não fossem os cinegrafistas, os fotógrafos e os repórteres que se expõem no testemunho das arruaças, não haveria o clamor das reportagens e artigos que pressionam e convencem os responsáveis pela atividade polícia a conter, desarmar e até sacrificar os métodos e, é preciso dizê-lo, as obrigações repressoras requeridas pela segurança pública.

No Rio e em São Paulo, é muito evidente o esforço das Secretarias de Segurança por uma nova conduta policial, por educar o agente de segurança para os confrontos sem exorbitâncias. Os beneficiários desse avanço não são os jornalistas que os cobraram, inclusive pela exibição de arbitrariedades policiais. São os manifestantes arruaceiros, os grevistas agressivos e os direitos humanos.

Até mamãe Sininho acusa os jornalistas de tornarem "um inferno a vida" da filhota Sininho. Mas não foram os jornalistas que frustraram o plano de incendiar a Câmara Municipal do Rio. Têm dado tratamento até muito camarada às pessoas e investigações das violências passadas e pretendidas. Para percebê-lo, é suficiente imaginar o tratamento aos mesmos fatos e gravações com personagens de outra classe social.

Por falar em gravações: ainda que a polícia tenha "plantado as bombas encontradas", como dizem as defesas, as vozes e diálogos gravados não foram plantados. E também não foram gravados por jornalistas.

Esquecidas

O massacre da população civil fez o Ocidente e seu jornalismo esquecerem o sequestro, pelos terroristas do Boko Haram, das mais de 200 meninas na Nigéria. Há semanas não se tem notícia das tentativas de encontrá-las ou de negociar sua libertação. O jornalismo das tragédias tem hierarquias.

Alto ganho

Teodomiro Braga, "superintendente de imprensa do governo de Minas Gerais", deu como "absolutamente falsa a afirmação do texto 'Aeroporto pode ajudar tio de Aécio em ação na Justiça'", reportagem da Folha de 25/7. Aécio Neves, por sua vez, em pessoa e em notas do seu comitê, por diversas vezes negou qualquer benefício à sua família com a construção do aeródromo, junto à pequena cidade mineira de Cláudio. O ganho, porém, é ainda maior do que o já considerado.

A reportagem revelou a possibilidade de que a família venha a pagar com dinheiro da desapropriação, feita pelo Estado, uma cobrança anterior do próprio Estado, em ação judicial por uso impróprio de recurso público. Mas o maior e já efetivado ganho com a construção da pista em fazenda da família está nesta certeza: a fazenda que circunda a pista asfáltica de mil metros tornou-se um imóvel dotado de infraestrutura especial e incomum. Pista sem custo de construção nem de manutenção, pelo tempo afora, para os proprietários.

A valorização da fazenda comum tornou-a, tão logo a pista foi concluída, um patrimônio de alto nível da família do então governador Aécio Neves. 

Janio de Freitas
No fAlha
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Racionamento já!




O leitor que “mora bem” já deve ter notado. Durante a noite/madrugada a àgua que sai da torneira se resume a um fio. Ou nem sai.

O diretor da Sabesp, Paulo Massato, afirmou que a empresa vem reduzindo a pressão da água distribuída à noite e que, com isso, obteve uma “economia fabulosa”. Ele nega que isso seja racionamento. “Racionamento significa reduzir a cota de água por habitante, e nós não estamos fazendo isso. O que estamos fazendo é uma redução da pressão no período noturno acompanhando a curva de consumo de cada setor de abastecimento”, declarou.

Não me engana que eu não gosto.

Desde o final do ano passado, o fornecimento de água sofre cortes diários em diversas regiões. Poucos haviam associado o sintoma à causa.

Com a estiagem insistindo em não colaborar, bairros nobres e áreas até então preservadas do transtorno passam a sofrer do mesmo mal.

Não decretado oficialmente pelo único motivo de que admiti-lo seria maléfico para a candidatura de Geraldo Alckmin, o racionamento de água precisa ser adotado de maneira urgente e conscientemente.

A estratégia maliciosa de cortar a água apenas durante a madrugada nos redutos eleitoreiros do governador tucano é duplamente condenável. Pela discriminação, por óbvio, e por induzir boa parte da população de que nada há de errado. Dessa maneira, os hábitos de desperdício daqueles que não sofrem na pele o corte da água (a não ser que tenham ficado sem banho após a balada ou tenham constatado o uso de copos descartáveis a partir de determinado horário nos bares descolados) se mantém. E da-lhe lavar calçadas, carros, animais de estimação, encher a piscina….

Nesta segunda-feira, o nível do sistema Cantareira chegou a 15,8%. O Ministério Público Federal recomendou ao governador Geraldo Alckmin (PSDB) e à Sabesp que o racionamento deva ser implantado imediatamente.

A Sabesp recusa a orientação do MPF. Afirmou que isso “penalizaria a população”. Qual delas, dona Sabesp? A que já vinha sofrendo os cortes ou a que ainda não sofre?

Os recursos hídricos do sistema Cantareira pertencem à união, que os concede para a Sabesp.

Já Geraldo Alckmin declarou que “pode ser” necessário o uso de uma segunda cota do volume morto caso não chova torrencialmente. Quase a metade da “primeira cota” (seja lá o que isso quer dizer) já foi utilizada.

Água é um recurso finito e estamos experimentando o drama que será a vida na terra quando começar a faltar de maneira mais severa.

Independentemente de um governador fazer o mea-culpa e decretar oficialmente um racionamento ou um órgão administrador/fornecedor abandonar a postura rebelde, a população deve adotar o uso racional de água e luz (sim, cerca de 97% da energia elétrica produzida no país vem de usinas hidrelétricas, portanto o consumo de um recurso agrava a situação do outro) de forma espontânea e permanente.

Rezar para chover também vale, mas aí vai de cada um.

Mauro Donato
No DCM
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MPF manda Alckmin racionar água

Por que o "Cerra" e ele não fizeram cisternas?

Iustração enviada pelo amigo navegante Juliano Ribas, no Twitter

Segundo o Globo (enterrado no pé da pág. 6), o Ministério Público Federal de São Paulo deu dez dias ao Governador (?) Geraldo Alckmin para racionar o fornecimento de água a 8 milhões de consumidores da cidade de São Paulo abastecidos pelo Sistema Cantareira, que vive no “volume morto” há muito tempo.

Se não racionar, o MPF pode tomar medidas judiciais.

Estudo da Unicamp revela que a Cantareira, sem racionamento, seca inteiramente em cem dias — a tempo de o eleitor mandar os tucanos passear na … Cantareira.
Por que o "Padim Pade Cerra" que também governou (sic) São Paulo e o Alckmin não construíram cisternas ?

A Dilma construiu cisternas e açudes no Nordeste e ninguém mais morre de sede, nem foge para os grandes centros em busca de água e comida.

Se o Eduardo Suplicy fosse menos tucano, na eleição para Senador ele pendurava o racionamento nas costas do "Cerra" também.

Por falar em água e comida: de que vive o "Cerra"?

Em tempo: Padilha vem aí de jaleco branco.

Em tempo2: a empresa estadual de abastecimento de água, a Sabesp, no tempo do Governador (sic) "Cerra", era a central de propaganda da campanha – fracassada — à Presidência. O amigo navegante se lembra de a Sabesp oferecer cano no Acre. E seria a Sabesp a encarregada de construir aquele cano que ia de Sergipe ao Ceará, quando o presidente eleito "Padim Pade Cerra" irrigaria o Nordeste, a partir de São Paulo. Um prodíjio (é assim mesmo, revisor. Obrigado)!

Paulo Henrique Amorim

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Único condenado pelos protestos de 2013 é morador de rua

Preso há 1,1 ano em Bangu 5, Rafael Braga Vieira não possui amigos influentes que o defendam
Rafael Braga Vieira, de 25 anos, foi preso no dia 20 de junho de 2013, no Rio de Janeiro, durante os protestos que sacudiram o Brasil naquele ano. Ele não adotava tática black bloc. Ele não pertence a uma organização anarquista. Não possui amigos influentes que o defendam, pois é morador de rua.

Não se ouviu o Ministro da Injustiça dizer que o inquérito foi forjado. É que até para se lembrar de um acusado é preciso que ele seja bem nascido, com nível superior, preferencialmente branco  e com uma rede de amigos solidários. A grande imprensa e seus áulicos preferiram fazer uma novela de baixa qualidade para acusar “pessoas mais interessantes” como Sininho, Camila e seus “seguidores”. Sem esquecer que  aquelas ativistas são igualmente vítimas da desinformação midiática e da mentalidade fascista de muitos policiais.

Aliás, pessoas como o Ministro e outros políticos graúdos não se solidarizaram nem mesmo com os condenados do seu partido. Se não ajudam aos amigos, o que  dizer dos outros? Mas veremos muita gente (de Direita ou não) escrever que Rafael é terrorista ou que não devia estar ali, já que nada tinha a ver com protestos. Como se protestar também  fosse crime. Bem, Rafael morava ali… Na rua.

A língua da direita

Uma série de articulistas, tradutores, professores de Filosofia, jornalistas, celebridades (ou candidatos a), disputa um mercado de Direita. Os anos do PT no poder unificaram a linguagem (na verdade, vitupérios) de corruptos reais contra a “corrupção”.

Foi assim que  surgiram pérolas como o livro (sic) “Lula minha Anta”. Achincalhar Lula se tornou um esporte nacional. Mas isso não é uma novidade. O baixo calão imperava na imprensa do I Reinado. E durante o Governo Eleito de Getúlio Vargas bastava ler o jornalista Carlos Lacerda para encontrar as figuras de linguagem do humor negro… Mas só uns poucos eleitos escreviam.

O que a internet trouxe, ao lado de muitos bons poetas e escritores iniciantes, é a exposição sem moderação de indivíduos que antes ficavam esquecidos nos quartos de seus preconceitos. Sua expressão dura alguns segundos, felizmente, mas exala o odor fétido da língua simplificada do fascismo. Tais atitudes fizeram com que os Sites políticos ficassem em guetos sem que o debate democrático florescesse. As pessoas só elogiam seus iguais e falam mal dos diferentes.

A violação da língua pelas massas virtuais

Todavia, órgãos de esquerda também não estão livres disso. Em todos os lugares virtuais em que é possível expressar ódio com a confortável mediação de um computador ou sob o anonimato os argumentos fenecem e sobram os adjetivos. Pessoas ditas de esquerda apoiam com palavras covardes as ações policiais de perseguição política simplesmente porque atingem seus “adversários”. Assim, nomes como Sininho, Fabio Hideki, Celso Lusvarghi, Camila Jourdan e tantas outras são comparadas a terroristas por neopetistas e tucanos recém-casados.

Em desrespeito, diga-se de passagem, à própria posição oficial do PT, que se solidarizou com os presos e as presas.

Algumas pessoas simplesmente desqualificam até quem os defende. Utilizam termos como “idiotice”. Perguntam-se “Quem esse sujeito pensa que é?”. Repetem: “Deixe de dizer bobagem”; “Masturbação sociológica”. E usam o sinal interrogativo e as aspas diante da profissão de um comentarista.

Humor

Recorrem ao humor negro com a desfaçatez dos racistas. O humor negro é o que o nome diz: humor contra os negros. Felizmente, Rafael não acessa a internet e não lerá tais insultos que sempre ouviu cara a cara. Afinal, ele é negro. E alguns de nós sabemos o que isso significa.

Recentemente, um dos jornalistas convertidos ao neolulismo, tentou ridicularizar a militante Sininho. Mas do alto de seu poder midiático ele não percebeu o quanto era baixo para seus leitores mais sérios…

Certa vez, no Instituto Goethe, em São Paulo, Sergio Paulo Rouanet fazia uma conferência. De repente foi interrompido asperamente por um ouvinte que reclamava para o humor um caráter libertário universal. Rouanet ouviu, pensou e replicou: não era libertário o riso das massas nazistas diante das piadas de Hitler.

Decerto, há humor libertário. É aquele que ridiculariza a opressão e não os oprimidos. Mas em geral este humor é produzido gratuitamente pela própria Direita. A professora Camila Jourdan disse a um aluno: “Não esqueça os livros”. Na conversa grampeada (!) pela PM a conclusão só pode ser que ela se referia de modo cifrado a bombas. A literatura fantástica de baixa qualidade, como ela mesma disse, impera entre os néscios da repressão.

Receita

Junte uns livros de Bakunin como provas, o nome do delegado que conduz o inquérito contra os ativistas sociais e um ou dois namorados traídos que “denunciaram” seus desafetos. Acrescente canetas, livros e avaliações semestrais da conversa da professora Camila Jourdan e teremos uma bela piada. Tudo bem que não tão engraçada. Em tempo: o delegado tem o nome de Thiers, o carrasco da Comuna de Paris.

Fascismo

A maior prova de que caminhamos para o fascismo é a linguagem dos fascistas, conscientes ou não. Eles exultam com a prisão de pessoas inocentes e se refestelam com o falso discurso contra ricos, classe média e tudo o mais… O fascismo em suas muitas formas históricas tem uma característica imprescindível: ele não se impõe sem o acordo prévio das massas em defesa da Ordem. Mesmo que tal Ordem se volte contra elas próprias.

Alguns (vide reportagem insultuosa da Globo News) já acusam militantes de ter torcido contra a seleção brasileira. Acredito que nem precisarão das velhas tradições da esquerda para chegar ao “nacional-socialismo”. Irão adiante sem o socialismo mesmo.

Diante desses heróis de teclado e alcaguetes virtuais é melhor escolher bem as palavras.

Lincoln Secco, professor de História Contemporânea da Faculdade de Filosofia, Ciências Humanas e Letras da USP.

PS do Viomundo:  Segundo reportagem da BBC, Rafael Braga Vieira, de 25 anos,  morava na rua e usava crack. Sua detenção ocorreu após a manifestação do dia 20 de junho de 2013, no Rio de Janeiro. Ele levava consigo duas garrafas de produtos de limpeza – água sanitária e desinfetante Pinho Sol – consideradas “artefato explosivo ou incendiário” pela polícia e pelo juiz responsável pelo caso. Vieira afirma que não participava do protesto e não tinha relação com os manifestantes. De acordo com a sentença, ele deve cumprir ainda mais quatro anos no presídio de Bangu 5, onde divide cela com outros 70 detentos. Por dia, tem direito a duas horas de sol no pátio da prisão.

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