27 de jul de 2014

Jesus entraria no novo Templo de Salomão?


O Templo de Salomão está para as igrejas como estava o Maracanã para os estádios nos anos 50. Tem 35 mil metros quadrados, o que o torna quatro vezes maior do que a Basílica de Aparecida.

A Exame fez uma lista das curiosidades: 40 mil metros quadros de pedras importadas de Hebron (em Israel), doze oliveiras do Uruguai, cadeiras da Espanha. Um museu, chamado de Memorial, contará a história das 12 tribos perdidas.

Edir Macedo deixou a barba crescer até ele ficar pronto, como promessa. Já pregou lá em uma das inaugurações. Mudou o figurino: agora usa uma espécie de manto curto branco com detalhes em azul claro, preso por uma corrente no pescoço, nos ombros; Na cabeça uma quiçá maior que o modelo usado pelos judeus, parecida com aquela que é utilizada por muçulmanos.

A obra custou, oficialmente, 680 milhões de reais e levou quatro anos para ser construída. O dinheiro, oficialmente, veio de doações de fieis de todo o mundo.

Macedo mandou construir ali um túmulo especial, onde ele será enterrado — como os faraós e como Sarney, que fez um mausoléu em sua “fundação” no Maranhão.

A capacidade é para 10 mil pessoas. A ideia é ser uma réplica do templo em Jerusalém que foi destruído duas vezes na Antiguidade. A primeira por Nabucodonosor, da Babilônia, em 586 a.C. (a obra era de autoria do próprio rei Salomão, filho de Davi).

A segunda versão foi erguida em 164 a.C. e derrubada pelos romanos em 70 d.C.

O grande homenageado ali é, obviamente, o próprio Edir Macedo, que se eterniza como o Maluf do neopentecostalismo. O Templo de Salomão é o seu Minhocão, um atestado de poder e glória terrenos.

Jesus é pobre demais para entrar. Em sua época, ele expulsou os vendilhões, reclamando que estavam transformando sua casa em um “covil de ladrões”.

Ele profetizou a derrocada. O Evangelho de Mateus, capítulo 24, diz o seguinte: “Ao sair do templo, os discípulos aproximaram-se de Jesus e fizeram-no apreciar as construções. Jesus, porém, respondeu-lhes: Vedes todos estes edifícios? Em verdade vos declaro: não ficará aqui pedra sobre pedra; tudo será destruído”.

Batata. Mas isso foi há dois milênios. Se tivesse sido consultado, ele provavelmente aconselharia: “Que isso, Edirzão… Olha as crianças com fome, malandro”. Como não tem nada a ver com isso, o templo da Universal tem tudo para durar mil anos numa cidade que já tem a estátua do Borba Gato.

Kiko Nogueira
No DCM
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Marcha em São Paulo exige rompimento imediato das relações com Israel

“Com o apoio do imperialismo estadunidense, sionistas estão despejando bombas para impor um Estado racista”, condenou Júlio Turra, da executiva da CUT

Milhares marcharam da avenida Paulista
até o Parque do Ibirapuera
Enfrentando o frio e a garoa fina que caiu sobre São Paulo neste domingo (27), milhares de manifestantes voltaram às ruas para exigir “o rompimento imediato das relações militares, comerciais e diplomáticas com Israel; bem como o fim do Tratado de Livre Comércio do Mercosul com o Estado sionista”, como consta na petição pública enviada ao governo brasileiro.

De forma unitária, partidos e movimentos sociais se concentraram na Praça Oswaldo Cruz, no início da avenida Paulista — de onde saíram até o Parque do Ibirapuera — erguendo faixas e cartazes com riscos sobre as suásticas, igualando o sionismo com o nazismo, e alertando para as mais de mil mortes e seis mil feridos e mutilados pelos bombardeios israelenses a escolas, hospitais e residências.

“Com o apoio do imperialismo estadunidense, os sionistas estão despejando bombas para impor um Estado racista, de apartheid”, condenou Júlio Turra, da executiva nacional da CUT, destacando o apoio da Central à petição pública que pede ainda “o fim dos acordos com a Elbit Systems, a Mekorot e todas as empresas ligadas às violações da lei internacional perpetradas por Israel; a condenação pública das prisões políticas, do tratamento desumano aos prisioneiros e da tortura praticada contra os palestinos nas prisões, centros de detenção e colônias israelenses, bem como a exigência da libertação imediata de todos os presos políticos palestinos”. 

Júlio Turra (CUT): "Israel é uma cabeça de ponte
instalada pelo imperialismo norte-americano no Oriente Médio".

O dirigente cutista denunciou que “Israel é uma cabeça de ponte instalada pelo imperialismo na estratégica região do Oriente Médio” e que a derrota do regime de segregação que mantém sob cerco a Cisjordânia e “Gaza como o maior campo de concentração a céu aberto do mundo”, é o único caminho para a construção do Estado palestino e a efetivação da paz.

Marcelo Buzetto, da coordenação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), condenou a política de “terrorismo de Estado” adotada por Israel, com o “bombardeio indiscriminado de aviões e tanques a alvos civis, que já causaram mais de mil mortes de mulheres, crianças e idosos”.

A presidenta do Conselho Mundial da Paz e do CebrapazSocorro Gomes, frisou que “o fato da Venezuela já ter rompido relações diplomáticas com Israel” e do “Chile ter rompido os acordos comerciais com o Estado sionista” são passos importantes para isolar o regime de apartheid. “O governo brasileiro aumentou o tom, mas precisamos ir além e exigir o rompimento de todos os acordos com Israel, particularmente na área de armamentos, pois as mesmas armas que matam o povo palestino matam aqui também”, acrescentou.

A secretária de Relações Internacionais da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), Maria Pimentel, lembrou que desde 1967 os palestinos lutam para não desaparecer, pois a política de apartheid é uma política segregacionista e expansionista. “A Palestina precisa de nós e o boicote aos produtos de Israel é hoje um instrumento para construir a paz e a justiça”.

O deputado estadual Adriano Diogo (PT-SP) condenou as recentes declarações da chancelaria de Israel, que demonstrou seu “alinhamento com uma suposta supremacia alemã, numa visão nazista, fascista mesmo”. “É inadmissível a visão do Estado Sionista. O governo brasileiro tem que romper relações diplomáticas com Israel”, frisou. Para a vereadora paulistana Juliana Cardoso (PT), “é preciso que o Brasil coloque todo o seu peso político para deter o genocídio”.

Representando o Partido Democrático Trabalhista (PDT), Abdo Masloum, disse que o povo palestino está sendo submetido a um verdadeiro “holocausto” por armas muitas vezes comercializadas entre nossos países. “Israel tem ignorado a legislação internacional, avançando sobre terras que não lhe pertencem e desconstruindo qualquer perspectiva de paz”, assinalou.

Membro da direção nacional do Partido Pátria Livre (PPL), Nathaniel Braia ironizou o fato de o secretário de Estado dos EUA ter chamado a matança promovida por aviões e tanques sionistas, que já custou a vida de mais de 300 crianças, de “direito de defesa de Israel”. Diante das acintosas declarações de um porta-voz israelense de que o Brasil é um “anão diplomático”, Braia asseverou que a melhor resposta é exigir sua saída do país como “persona non grata”.

Entre outros movimentos e partidos, participaram representantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Conlutas, do PCB, PCdoB e PSOL.

Leonardo Wexell Severo
No CUT
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O médico norueguês que convidou Obama a passar uma noite no hospital de Gaza

Um sonhador com os pés no chão
Clap, clap, clap.

De pé.

O médico norueguês Mads Gilbert, 67 anos, é um foco tocante, inspirador, soberbo de luz no cenário desolador de Gaza.

Você olha para Gilbert e recupera, ao menos parcialmente, a fé na humanidade.

Gilbert presta serviços voluntários num hospital de Gaza. É um hospital precário e extraordinariamente ativo, dadas as circunstâncias.

Como disse Gilbert, os equipamentos ali poderiam estar num museu nas grandes cidades ocidentais.

Gilbert chamou a atenção, nestes dias, ao mandar uma carta aberta ao presidente Barack Obama.

Convidou-o a passar uma noite, “uma só noite”, no hospital. Disfarçado como homem de limpeza, sugeriu.

Para Gilbert, qualquer pessoa que tiver coração e poder colocará fim à matança de Gaza.

Poder ele sabe que Obama tem. Coração, ele não sabe ao certo. Na carta, ele pergunta: “Você tem coração?”

Os depoimentos de Gilbert sobre Gaza dizem quase tanto quanto as fotos que chegam a nós.

Ele elogia entusiasmadamente as pessoas que trabalham no hospital: enfermeiros, motoristas de ambulâncias, demais médicos. Ninguém se queixa, ninguém desiste. Todos fazem o seu serviço, em jornadas de trabalho que podem chegar a 24 horas.

Povo valente o palestino, testemunha ele.

Quanto a si próprio, Gilbert confessa que muitas vezes tem vontade de abraçar, confortar, acalentar as crianças ensanguentadas que chegam ao hospital — e gritar.

Mas a firmeza que vê a seu redor lhe dá forças para, também ele, trabalhar.

Gilbert tem suas crianças: dois netos. Ele enviuvou do primeiro casamento, teve uma relação forte depois e hoje está solteiro, ou casado com a causa humanitária que o levou a Gaza.

Ele é natural de uma terra cuja cultura é o exato oposto do que existe no Oriente Médio.

Na Noruega, vigora o que se conhece como “Janteloven”, ou Leis de Jante. Jante é uma cidade imaginária criada por um romancista nórdico décadas atrás.

Em Jante, existem regras. A principal delas é a que determina que você não é melhor que ninguém, e nem pior.

O doutor não é melhor que o lixeiro. O presidente de uma empresa não é melhor que o contínuo.

Isto é a “Janteloven”, base do igualitarismo social que é marca da Escandinávia — e uma referência permanente para nós do DCM.

Onde Gilbert está, o que impera é o anti-Janteloven. O cidadão israelense é tudo, e o palestino nada.

Obama não vai aceitar o convite do médico norueguês. Irá lê-la? Talvez, em escassos segundos.

Mas sonhemos por um segundo: e se Obama topasse a ideia de Gilbert e passasse uma noite no hospital de Gaza, disfarçado?

No mundo das coisas reais, é difícil acreditar que um homem, mesmo chamado Barack Obama, tivesse poder suficiente para alterar as coisas em Gaza.

Mas, de todo jeito, é bom ver alguém que, como Mads Gilbert, ainda consegue sonhar no pesadelo de Gaza — ao mesmo tempo em que trabalha, e trabalha, e trabalha.

Paulo Nogueira
No DCM
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Veja ataca Fórum de forma leviana


Está virando hábito. Após a IstoÉ caluniar a Fórum, agora é a vez da publicação da Editora Abril voltar suas baterias contra a revista em sua edição que começou a circular neste final de semana.

Na matéria “Caça ao tucano”, de quatro páginas e assinada por duas jornalistas, a publicação usa duas fotos da página eletrônica de Fórum, uma do portal e outra do blog do jornalista Rodrigo Vianna. A legenda diz: “Com patrocínio, sem responsabilidade: Nos sites ligados ao PT, a guerra mal começou”.

Curiosamente, não há no texto qualquer menção à Fórum, apenas acusações genéricas ao que a revista denomina como “guerrilha suja da internet”. Não há qualquer observação sobre matéria, artigo ou reportagem publicados no portal, na edição digital semanal ou por qualquer blogueiro de Fórum. Isso só evidencia o nível da publicação dos Civita, que foge ao debate e prefere o xingamento ao debate democrático.

Mas o fato é que as acusações ali são somente coadjuvantes. O texto serve somente para fazer um trabalho de assessoria de imprensa (informal?) do presidenciável Aécio Neves. Os adjetivos negativos que pululam para designar inimigos imaginários dos tucanos tornam-se positivos ao extremo quando estão relacionados ao senador mineiro.

São trechos dóceis e amáveis como: “Com trinta anos de vida pública, neto de Tancredo Neves, duas vezes governador de Minas Gerais, deputado federal, senador, sempre bem avaliado em suas gestões e mandatos, Aécio, obviamente, não pode ter sua biografia desmontada pelos guerrilheiros oficiais na internet”. Lendo isso parece até que Veja teve acesso ao roteiro do programa de rádio e TV do presidenciável no horário eleitoral gratuito.

Ao fim e ao cabo, esse novo ataque à Fórum mostra que os veículos que fazem parte do oligopólio da mídia brasileira continuam se incomodando com a “nuvem de marimbondos” representada por blogueiros e veículos que não rezam pela sua cartilha. Como não há argumentos, resta a calúnia e a leviandade. Esse tipo de ataque não deixa de ser um bom sinal.

Renato Rovai
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O massacre de Gaza e o complexo de vira-lata

O Governo de Israel disse que o Brasil é irrelevante e criador de problemas, segundo manchete de O Globo. Há nisso uma contradição. Se é irrelevante não pode criar problemas. Se cria problemas não é irrelevante. Aliás, se fosse mesmo irrelevante, não teria levado o Governo israelense ao extremo de quebrar todos os códigos diplomáticos ao ponto de insultar o Governo brasileiro com um ironia chula envolvendo a Copa, como se nós, brasileiros, fôssemos uns idiotas capazes de confundir massacre de inocentes com jogo de futebol.

Ainda pior que o insulto israelense a um país que sempre tratou com simpatia Israel, mesmo em momentos em que ele não merecia isso, é o comportamento da grande mídia brasileira. A invasão truculenta de Gaza é tratada como uma guerra entre iguais. O massacre de crianças e mulheres numa área confinada, sem saída, é apresentado como consequência natural do conflito. O recurso a uma violência extrema aparece como natural. E o Governo brasileiro é ridicularizado porque fala do óbvio, a saber, do uso desproporcional da força.

Na essência, tudo isso é a expressão reiterada do “complexo de vira-lata” da maior parte da grande mídia, segundo o qual tudo o que os Estados Unidos fazem é bom, sendo que os Estados Unidos, no caso, fazem tudo o que quer a direita israelense, e nós, subalternos e incompetentes, devemos nos alinhar cegamente a eles independentemente de uma visão crítica da política envolvida. Diante disso, ter uma atitude diplomática independente, generosa e equilibrada é assumida pela grande mídia como irrelevante na busca de humilhar o Governo, quando o que se está tentando fazer é humilhar o Estado e a própria nação.

Estamos diante do maior massacre de inocentes por uma força bruta militar, equipada com os mais modernos recursos tecnológicos do planeta, desde o Holocausto. Há, certo, uma diferença de escala. Qualitativamente, contudo, a câmara de Gaza se equipara à câmara de gás: ninguém pode sair lá de dentro enquanto os foguetes e o fogo da artilharia e dos tanques colhe a vida de crianças e mulheres. Parece que há em tudo uma contabilidade macabra: foram assassinados pelo Hamas três jovens judeus inocentes; a lei de Talião diz olho por olho, mas a lei do atual Israel diz que um judeu assassinado vale no mínimo 300 palestinos mortos, ou mais.

Ah, sim, os extremistas do Hamas! E acaso não há extremistas em Israel? O fato é que cada vez mais esses extremistas comandam o Governo israelense enterrando todo tipo de iniciativa de paz, inclusive os tratados de Oslo, em nome da posse de uma terra invadida, roubada, sob o pretexto de uma herança bíblica que enterra o amoroso Senhor da Misericórdia debaixo do ódio primitivo do Senhor dos Exércitos. Caveat, Israel é o único fator presente no mundo contemporâneo que pode levar o planeta a uma guerra nuclear. Note-se que o pequeno David já não tem fundas, tem armas atômicas!

A diplomacia brasileira talvez seja irrelevante. Junto com a da Turquia, tentou uma alternativa diplomática para resolver o impasse entre os Estados Unidos e o Irã na questão do desenvolvimento do projeto nuclear pacífico iraniano. Os Estados Unidos, insuflados por Israel, mataram a iniciativa que eles próprios estimularam. A razão foi simples: Israel queria uma guerra contra o Irã. Queria repetir o que fez com o Iraque nos anos 80: bombardear as instalações nucleares iranianas. Não foi a prudência que levou os Estados Unidos a tirar o tapete de Israel. Foi o fato de que, do outro lado, havia uma potência nuclear de primeira linha, a Rússia, com respaldo chinês, em apoio ao Irã.

Felizmente já não estamos num mundo unipolar. Se tivéssemos, Israel teria comandado as forças militares norte-americanas no ataque ao Irã apoiado no lobby judaico que, de longe, não distingue entre o que são interesses fundamentalistas da direita com os interesses legítimos do povo que vive em Israel. Deste, a maioria provavelmente deseja a paz com os palestinos, mesmo que isso significa algum tipo de concessão, sobretudo nos assentamentos que violam a própria lei internacional que criou Israel. Nas mãos dos radicais judeus, contudo, todos estamos em risco: ave, Israel, morituri te salutant!

J. Carlos de Assis - Economista, doutor em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB, autor de mais de duas dezenas de livros sobre economia política brasileira.
No GGN
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Sininho: a mídia e os tradutores da polícia


Terroristas liderados pela badalante Sininho planejavam tocar fogo no Rio de Janeiro e fazer do Maracanã uma gigantesca fogueira junina para impedir a realização da Copa do Mundo 2014. O plano diabólico foi descoberto a tempo pela Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI) que identificou os incendiários, decodificou suas mensagens em linguagem cifrada e prendeu a quadrilha, impedindo a transformação do Rio numa Faixa de Gaza. Está tudo gravado pela Polícia.

Foi com base nessas gravações registradas no inquérito policial que o ínclito juiz da 27ª Vara Criminal, Flávio Itabaiana, determinou a prisão dos vândalos. Com estardalhaço, a mídia detalhou o esquema do terror, que consistia em incendiar o prédio da Câmara Municipal, matar policiais, fabricar bombas e explosivos caseiros, quebrar bancos, atacar estádios e até desmoralizar a seleção brasileira, contando com a leniência do Felipão e o financiamento de algumas entidades, como os sindicatos de professores, de petroleiros e da saúde (Sepe, Sindpetro e Sindprev) do Rio.

Como é que soubemos de tudo isso? Autorizada pelo juiz, a polícia grampeou telefones e começou a monitorar emails dos terroristas há mais de um ano. As mensagens gravadas aparentemente inocentes mencionavam “livro”, “caneta”, “aula”, “apostila”, “caderno” e “prova”. O Serviço de Inteligência da Polícia desconfiou dos grampeados, alguns deles professores ou estudantes: “Eles sabiam que estavam sendo monitorados e, por isso, passaram a chamar coquetéis molotovs de ‘pisca-pisca’ ou ´drinques’; bombas de ‘livros’; e ouriços  de ‘canetas’. ” (O Globo 21/7).

Tá ligado?

Os nossos sherlocks queimaram a mufa, mas qual Champollion com a Pedra de Roseta decifraram a linguagem esotérica usada pelos ativistas, embora por razões de segurança nunca revelaram seu método. O resultado está no relatório de duas mil páginas, mantido prudentemente inacessível aos acusados e a seus advogados, mas escancarado aos jornais que divulgaram mensagens dos vândalos. Bendito o país cujas instituições — Policia, Judiciário e  mídia — se unem em defesa da ordem pública! O Taquiprati acessou o relatório por telepatia e registrou o seguinte diálogo:

Camila Jourdan (ativista, professora da Uerj) – Oi, Bom Dia. Não esquece que hoje tem prova, leva pra aula livro, caderno e caneta.

Igor D Icarahy –  Tou ligado. Hoje vai fazer calor.

Camila – Depois da aula, a gente toma uns drinques no bar. 

Mensagem estranha, muito estranha, não é  não? Uma leitura ingênua, ao pé da letra, não percebe que os dois estavam planejando quebrar bancos e tocar fogo em caixas eletrônicos. Mas os brilhantes tradutores da polícia sacaram que bom dia =  bomba diasfixia; prova = enfrentamento com a polícia; aula = passeata, enquanto bar = agência bancária, fazer calor, evidentemente, significa tocar fogo, tou ligado é vou à manifestação e caneta é mesmo ouriço, aquela peça feita de vergalhões e pregos usada nos protestos. Era dessa forma que os baderneiros se comunicavam.

Faltava identificar a origem da bufunfa, “o ouro de Moscou” dos velhos tempos, que hoje é negado pelo Putin, um mão-de-vaca. Com destemor, O Globo denunciou em letras garrafais “A Conexão Sindical” que financia os manifestantes com “dinheiro, transporte, carro de som e alimentação“. Registrou telefonema em que “Sininho pede a um integrante do Sepe cem quentinhas para um ato“. (22/07). Informou ainda que “Sininho liderou a organização das manifestações, não apenas no Rio, mas também em Belo Horizonte (MG), São Paulo (SP) e Porto Alegre (RS). Também tinha a função de arrecadar e distribuir recursos”(21/07).

Este alerta à pátria foi sem dúvida alguma uma contribuição corajosa da inteligência policial e do Globo, que divulgou declarações do candidato a presidente da República, Aécio Neves, apoiando firmemente a prisão dos baderneiros, o que serviu para desviar o debate sobre o tema secundário do aecioporto construído na fazenda de seu tio com recursos públicos.

Bessa 2 a

O outro lado

O que O Globo não revelou, mas nós soubemos através de leitura mediúnica do relatório policial, é que a ação de Elisa Quadros, a Super-Sininho, não se limitou à presença aos mesmo tempo nas três capitais mencionadas, mas foi ela que originou o misterioso “apagão” por seis minutos da seleção brasileira no jogo contra a Alemanha. Acontece que o movimento “Não vai ter copa”, quando se viu derrotado mudou o objetivo para “Não vai ter hexa”. Tem um telefonema antes do jogo contra a Colômbia de Sininho para o Capitão Gancho, codinome do zagueiro Zuñiga:

SininhoCompañero, acuerdate de las FARC. Dale leña en la tercera vértebra, que me encargo de hablar con  el gran rey de España.

Capitão Gancho - Tranquilo, Campanita! Su merced puede confiar. No te olvides de mi “calentita”.

Zuñiga recebeu a “quentinha” das mãos da própria Sininho, a Campanita,  e em seguida fez o que todo mundo viu na televisão. Depois disso, disfarçada com óculos escuros, Sininho, a fada da baderna, entrou sorrateiramente na Granja Comary, em Teresópolis, onde desestabilizou psicologicamente todos os jogadores da seleção brasileira. Sua presença teria sido facilitada pelo “gran rey de España” que segundo as técnicas clássicas de criptografia usadas pela Polícia seria nada mais nada menos que Felipón.

Ou você acredita nesta última história, ou não leva a sério nenhuma delas. Há quem ache que se trata de invenção, esquecendo que a Polícia do Rio tem uma tradição de leitura de intenções delituosas. No Arquivo Nacional, no Fundo Polícia da Corte, encontrei um documento que registra a prisão de um índio, em 1831, por “estar numa atitude de quem estava pensando em roubar“. Embora não tenha conseguido ler as intenções,  entre outros, dos assassinos da dona do Restaurante Guimas, a Polícia usou seu faro para prender, pelo menos, quem estaria pensando em fazer baderna.

O desembargador Siro Darlan foi um dos que não caiu nessa conversa e concedeu habeas-corpus liberando os presos, no que contou com o apoio de várias instituições como OAB, ABI, Anistia Internacional, Justiça Global, Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM) e Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (RENAP).

— A ordem de prisão, baseada em ilações e conjecturas, carece de fundamentação legal – sentenciou o desembargador. Para ele, “a prisão cautelar é medida excepcional que deve ser decretada apenas quando aparada pelos requisitos legais, em observância ao princípio constitucional da presunção de inocência”. Desmoralizou assim as interpretações fantasiosas de grampos telefônicos consideradas pura xaropada e o depoimento à polícia da única testemunha, uma fofoqueira preterida pelo namorado, que teve enorme espaço nos jornais.

Os ativistas, já em liberdade, acham com razão que a mídia reproduz relatórios policiais sem qualquer senso crítico. Em troca do acesso, às vezes com exclusividade, de dados protegidos por “segredo de justiça”, os jornais publicam como verdades acabadas as versões policiais, sem checar com outras versões e sem ouvir o outro lado. Em consequência, acabam criminalizando os movimentos sociais e negando o direito à livre manifestação.

Não se coloca ninguém no paredão sem chance de defesa. A mídia não publicou uma única linha, sequer uma só palavra, com explicações dos acusados, tratados como criminosos, mas que podem ser vistos também como “jovens que, embora se possa discordar dos seus métodos de atuação política, acreditam em um país melhor“, como quer o advogado Patrick Mariano.

Preciso saber o que a mídia me negou, ou seja, o que minha colega da UERJ tem a dizer sobre as acusações da Policia, porque se “livro” for mesmo “bomba” para incendiar bancos, quero manifestar meu desacordo, ainda que reconheça que há livros que são verdadeiras bombas. Mas se “livro” for apenas “livro”, quero somar meu grito ao dela. Afinal, até onde sei, quem quebrou bancos não foi a Sininho e a Camila. Foram  banqueiros como Daniel Dantas, Ângelo Calmon de Sá, Edemar Cid Ferreira, Carlos Eduardo Schahin, acusados de fraudes e evasão fiscal, todos eles em liberdade e que tiveram amplo direito de defesa com espaço na mídia.

José Ribamar Bessa Freire
Do Diário do Amazonas
No Desacato
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FNDC assina carta aberta contra prisões arbitrárias de manifestantes

A violação do direito de manifestação é um grave retrocesso para a liberdade de expressão

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e entidades associadas assinaram carta aberta denunciando as recentes prisões arbitrárias de manifestantes. O Fórum tem acompanhado com preocupação as violações à liberdade de expressão e ao direito de manifestação no Brasil. De acordo com o FNDC, “essa escalada se torna mais grave quando instituições do Estado estão, elas próprias, corroborando práticas antidemocráticas como a prisão preventiva de ativistas sem provas concretas e a criminalização de movimentos e lutas sociais legítimas”.

Para o FNDC, a violação do direito de manifestação é um grave retrocesso para a liberdade de expressão. Por isso, o Fórum e algumas de suas entidades nacionais filiadas, como a CUT, Arpub, Intervozes e Barão de Itararé, assinaram a carta aberta que será amplamente divulgada e apresentada aos mais diversos órgãos da República, além de autoridades e outras instituições.

Para aderir ao documento, organizações da sociedade civil e pessoas físicas podem enviar seus nomes para o e-mail liberdadedemanifestacao@gmail.com. Confira abaixo, o texto da carta aberta na íntegra.

Carta Aberta:

O Brasil está assistindo ao recrudescimento da violência policial e a um aprofundamento de práticas repressivas de exceção. As polícias, o Ministério Público e as Justiças Estaduais estão prendendo e acusando em escala industrial e sem fundamento legal.

Infelizmente esse tipo de prática não é uma completa novidade. A maioria do nosso sistema carcerário é composta por presos que ainda não foram julgados e que por isso muitas vezes ficam detidos por mais tempo do que a própria sentença determinaria.

Não podemos mais esperar. O Estado de Direito está sendo violado e a democracia brasileira sofre grave ameaça, risco que se radicaliza com a criminalização dos movimentos sociais e com a caça ao direito de manifestação.

Chega de intimidação da sociedade civil! Chega de prisões arbitrárias de professores, garis, estudantes, moradores de rua e trabalhadores! Não aceitamos um Estado que funciona no arbítrio e na ilegalidade.

Vivemos em uma democracia e é nosso dever honrá-la e defendê-la. Sigamos em frente em defesa dos princípios democráticos e em honra a todos e todas que lutaram para construí-la e pelos que lutam para mantê-la.

Assinam esta carta coletivos, partidos, associações de classe, professores, juristas, universidades, profissionais de diversas áreas. Em comum temos a indignação com atitudes arbitrárias e antidemocráticas.
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Confrontando o racismo


Mo Asumang, filha de pai ganense e mãe alemã, visita redutos neonazis na Alemanha e a Ku Klux Klan nos EUA



Kiko Nogueira
No DCM
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O Santander e a lobotomia de uma Nação

Os bancos são os grandes provedores de conteúdo da rede Brasil aos cacos. Eles dão a corda, o jornalismo econômico dá o nó, o país entra com o pescoço.

O banco Santander, informa a ‘Folha’, anexou aos extratos enviados a sua clientela de elite, o segmento ‘Select’, uma avaliação de natureza político eleitoral.

Caso Dilma se consolide na dianteira das intenções de voto, adverte o maior banco estrangeiro em operação no país, ações devem cair, os juros vão subir , o chão se esfarelar...

Em linguagem cifrada, ‘não deixe que isso aconteça: vote Aécio’.

Transformar extratos bancários em palanque da guerra das expectativas deve ser inclusive ilegal. O Ministério Público Eleitoral poderá dizê-lo.

O descabido, porém, não constitui anomalia no cenário brasileiro.

Os bancos são os grandes provedores de conteúdo da rede ’Brasil aos cacos’.

Eles dão a corda, o jornalismo econômico dá o nó, o país entra com o pescoço.

Gente treinada e bem remunerada, quadros de elite — não raro egressos do Banco Central no governo do PSDB, encontram-se disponíveis para somar forças com o bravo jornalismo de economia na missão de esgoelar o Brasil.

Um bunker tucano, como o Itaú, hoje uma espécie de Banco Central paralelo, figura como um dos grandes provedores de conteúdo do noticiário econômico.

O recado é sempre o mesmo: não há futuro para o Brasil se a urna sancionar um segundo ciclo do ‘intervencionismo’.

Quando as estatísticas teimam –como agora que a inflação desaba, o apagão se esvai, os juros futuros recuam e o pleno emprego resiste — recorre-se ao talento do jornalismo adversativo.

O varejo, por exemplo, quando cai é uma ‘tendência preocupante’; se sobe, ‘recuperou, mas é pontual’ .

Resultado bom ‘surpreende o mercado’. O inverso ‘veio em linha com as expectativas de deterioração do quadro econômico’.

É infernal.

A experiência brasileira sugere que não há ingrediente mais precioso na luta pelo desenvolvimento do que abrir espaço ao discernimento crítico da sociedade contra o monólogo da desinformação.

Sem isso, prevalecem interesses que se beneficiam do incentivo à amnésia histórica.

Um exemplo?

A origem da tão propalada crise de confiança atribuída ao ‘intervencionismo estatal’.

Aqui e em todo o planeta sua principal fonte, na verdade, foi a intermitente eclosão de colapsos financeiros, a partir dos anos 70, quando a mobilidade dos capitais ficou livre do controle estatal que a banca ainda acha excessivo no Brasil.

Uma a uma, foram desativadas as comportas erguidas a partir de 1929 para disciplinar a natureza intrinsecamente autofágica e desestabilizadora do capitalismo financeiro.

Bill Clinton, em 1999, consumou o arrombamento iniciado por Tatcher e Reagan nos anos 80.

Ao revogar a lei Glass Steagall, o democrata eliminou a distinção entre bancos comerciais e de investimento — estes últimos só podiam arriscar com capital próprio lastreado em reservas.

Isso acabou.

Rompida a barreira, as águas se misturaram — e o risco se diluiu.

O dinheiro fácil, barato, mas de curto prazo, jorrou no vertedouro da especulação engordando-a , ao mesmo tempo em que encurtava seus ciclos.

Como num cassino, o fastígio das primeiras rodadas parecia eterno.

Dessa crença brotaram os créditos ‘ninja’, concedidos a tomadores sem renda, sem emprego e sem garantias.

O chute no escuro empurrou todos os jogadores ao buraco negro das subprimes, em 2008.

O Santander foi, na Espanha, um dos titãs da ciranda que legou ao país o maior encalhe de imóveis do mundo e um desemprego só inferior ao grego.

Em 2011, atolado em hipotecas micadas, jogou a toalha: anunciou uma moratória de três anos sobre o principal, em troca de receber pelo menos o juro dos mutuários espanhóis empobrecidos.

Em 2012, quando a corda apertava seu pescoço na Europa, o presidente do banco, Emilio Botín, aterrissou no Brasil.

Disse que o país era a sua ‘maior prioridade no mundo’: daqui saíam 30% do lucro global do grupo.

Em setembro de 2013, estava de volta.

Depois de reunir-se com a Presidenta Dilma Rousseff, anunciou: ‘Queremos participar ativamente do milionário Plano de Aceleração do Crescimento e financiar uns US$ 10 bilhões em projetos de infraestrutura . O Brasil tem se consolidado como uma grande potencia regional e global, com instituições sólidas e um sistema financeiro muito consolidado’ (EL País; 13/09/2013).

Dez meses depois resolveu lançar extratos bancários consorciados a panfletos eleitorais contra o ‘risco Dilma’.

A memória curta do Santander em relação ao país está em linha com a memória curta da mídia conservadora em relação à origem ‘da crise de confiança’ cujo fato gerador não apenas persiste , como ensaia um novo pico explosivo.

Fatos.

Dos mais de US$ 25 trilhões despejados no sistema financeiro dos EUA desde 2009, para mitigar o caixa rentista, apenas 1% ou 2%, no máximo, chegaram aos lares assalariados, na forma de crédito e financiamento.

O que avulta, ao contrário, é uma explosão irracional dos preços da papelaria financeira sem lastro na riqueza real — a mesma doença pré-2008:

Na zona do euro, onde o Santander é a maior instituição bancária, a desproporção entre a valorização dos ativos (títulos, ações etc) e a curva do emprego e do consumo, replica a dança na boca do vulcão.

Estima-se que nos EUA grandes corporações tenham uns US$ 7 trilhões queimando em caixa. Liquidez ociosa à procura de fatias da riqueza real para uma transfusão de lastro.

Com a economia internacional flertando com a estagnação há seis anos, novas bolhas especulativas engordam no caldeirão.

A Facebook, por exemplo, acaba de pagar US$ 19 bilhões (8% de seu próprio valor) por uma startup, a WhatsApp.

Para que o negócio justifique o preço terá que duplicar sua base de usuários para 1 bilhão.

Com o dinheiro barato irrigado pelo Fed, grandes corporações norte-americanas tomam recursos a juro negativo para recomprar as próprias ações.

O artifício permite bombar balanços sem incrementar a produção.

Estima-se que mais de US$ 750 bilhões de dólares foram utilizados nessas operações em 2013.

Outra evidência da fuga para frente do capital fictício é a súbita procura por bônus de economias reconhecidamente cambaleantes.

Casos da Grécia, Espanha e Portugal, por exemplo.

Os lanterninhas do euro lançaram emissões no mercado financeiro este ano e conseguiram captar bilhões a juros baixíssimos.

Rincões cada vez mais improváveis faíscam aos olhos da sofreguidão especulativa.

A última ‘descoberta’, a África, vê pousar fundos primos dos abutres que acossam a Argentina. Tão aventureiros quanto, compram emissões de Estados acuados por guerras e conflitos étnicos.

A ideia é receber pelo menos uma parte da remuneração indexada a juros cinco a seis vezes acima do custo de captação nos EUA; depois cair fora.

É nesse ambiente camarada que o Santander resolveu reforçar a lobotomia em curso no imaginário brasileiro.

Fomentar a crise de confiança é a pedra basilar de um mutirão eleitoral para escancarar as comportas que permitam ao capital ocioso avançar por aqui, como se o país fosse um banco de sangue complacente à transfusão requerida pela especulação global.

Estamos falando de um alvo de cobiça com população equivalente a dos EUA nos anos 70. E uma renda pouco superior a 1/3 daquela dos norte-americanos nos anos 30.

Com uma distinção não negligenciável: a distribuição no caso brasileiro é melhor que a dos EUA então, atropelado por uma taxa de desemprego que chegou a 27% em 1937.

O Brasil vive perto do pleno emprego; tem população predominante em idade produtiva; um potencial de demanda ainda não atendida e recursos estratégicos abundantes, a exemplo do pré-sal.

Nada sugere que estamos diante dos ingredientes de um fracasso, como aquele vaticinado dia e noite pela rede ‘Brasil aos cacos’.

A curetagem conservadora, porém, pode anular a alma de uma nação — se conseguir convencê-la a rastejar por debaixo de suas possibilidades históricas.

Saul Leblon
No Carta Maior
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Por que Aécio não responde se usou o aeroporto de Cláudio

Ele
Aécio, mais uma vez, se recusou a responder se utilizou o aeroporto de Cláudio, construído num terreno de seu tio-avô Múcio Guimarães Tolentino.

Voltou a insistir que está tudo esclarecido e falou de empreendedorismo.

Em ambas as questões, ele está devendo. O aeroporto não foi homologado pela Anac, o portão era trancado a chave e o imbroglio da desapropriação é feio.

Em matéria de empreendedorismo, Aécio entregou apenas dois dos catorze aeroportos previstos em seu governo, entre 2003 e 2010. Um deles é o de seu parente.

Por que Aécio não responde se usou o aeroporto? Tolentino mesmo declarou que era para todo mundo usar, “inclusive o governador”.

Primeiro porque, por incrível que pareça, passado tanto tempo, ele não sabe o que fazer com a resposta. Sua reação é parecida com a de quando lhe questionam sobre drogas. Aécio trava na defensiva.

Segundo porque a resposta, muito provavelmente, é sim. O velho Paulo Maluf fez um bom diagnóstico do caso numa entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues.

Não é um aeroporto público, segundo Maluf: uma pista para jato precisa de, no mínimo, 1500, 1600 metros de comprimento. “Se fez 1000 metros, é para uso particular da família, para turbo-hélice”, disse.

A obra fica a pouco quilômetro da fazenda de Aécio, muito mais perto do que Confins. Ele define a propriedade que herdou da avó como seu “Palácio de Versalhes”. Copio um trecho de matéria da revista Alfa sobre o lugar:

Um de seus lados menos conhecidos é o de fazendeiro. Com o mesmo entusiasmo com que se joga nas baladas do Rio, o mineiro se enfurna na Fazenda da Mata, propriedade de sua família desde 1867, no município de Cláudio (a 250 quilômetros de Belo Horizonte). Lá, nas noites de lua cheia, paramentado com botina e chapéu, ele participa de cavalgadas num cavalo branco. De noite, à beira de uma fogueira, também costuma reunir amigos e primos para tomar uns tragos da cachaça Mathusalém, fabricada no alambique da família, e cantar modas de viola (“Ele acha que canta bem”, revela um parente próximo). “A gente se diverte”, resume Aécio, entoando seu mantra. Em Cláudio, todos ainda o chamam de Cunha, o sobrenome paterno.

Cunha sabe que usou o aeroporto. Resta combinar com Aécio.

Kiko Nogueira
No DCM
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Aécioporto: Escândalo fez Aécio cair em pleno voo

A equipe responsável pela campanha já tem sinais claros de que a denúncia ganhou grande repercussão e já virou o assunto principal associado ao candidato.

Charge: Ipojucã
A denúncia do aeroporto construído na fazenda que pertencia ao tio de Aécio Neves, com dinheiro público, fez um estrago maior do que o esperado pelo candidato e sua coordenação de campanha.

A equipe responsável pela campanha já tem sinais claros de que a denúncia "pegou" — ou seja, ganhou grande repercussão entre os eleitores mais informados sobre política e já virou o assunto principal associado ao candidato.

Os sinais foram colhidos em pesquisas internas, tanto telefônicas quanto de análise da repercussão em redes sociais.

A péssima notícia virou um grande problema para a campanha oposicionista e deixou seu comando, a começar do próprio Aécio, indeciso sobre o que fazer, de agora em diante.

Até o momento, a tática era a de fugir do assunto o máximo possível.

Pensava-se, de início, que o ideal seria não comentá-la para não dar mais "asas" ao assunto, e diminuir o risco de "o aeroporto do tio de Aécio" — que é como o assunto tem se popularizado - colar ainda mais na imagem do candidato.

Os dados colhidos da percepção dos eleitores mostram que isso já não funciona mais. Pior: pode já estar surtindo efeito contrário.

Quando foi pego de surpresa, Aécio deu declarações que, logo em seguida, foram desmentidas por outras reportagens.

Nos dias seguintes, se calou sobre o caso. Ontem, ao ser perguntado por jornalistas a respeito, Aécio simplesmente recusou-se a responder.

De agora em diante, a postura só ajuda a consolidar a convicção, entre muitos eleitores, de que o candidato está "metido em corrupção" — para usar uma frase comum surgida nas respostas da pesquisa telefônica.

A postura de criticar as investigações da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e do Ministério Público pode piorar o quadro ainda mais, pois deve reforçar a crítica de que se tenta esconder sujeira debaixo do tapete.

Pesquisas internas, como as telefônicas, servem apenas como um recurso rápido para analisar o tamanho da repercussão que um assunto ganha na campanha e calibrar a dose da resposta a ser dada.

Quando se responde a algo com baixo interesse na opinião pública, comete-se o erro de dar importância maior do que se deve, patrocinando notícia negativa.

Por outro lado, minimizar ou fugir de um assunto considerado muito grave por uma grande parcela da opinião pública acarreta um prejuízo bem maior. É o que, entre os profissionais da comunicação, se conhece como tática do avestruz.

A campanha de Aécio já espera por uma queda em suas intenções de voto, a ser aferida nas próximas rodadas, a partir de agosto.

Agora começa a fase na qual a divulgação do escândalo começa a chegar no boca a boca da campanha com mais força.

Doravante, se Aécio for pousar na pista do seu agora muito conhecido aeroporto, escondidinho na cidade de Cláudio, interior de Minas Gerais, é bom pedir ao comandante para avisar: "atenção, torre de controle. Temos um problema!"

Antonio Lassance, cientista político.
No Carta Maior
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Aecioporto: Aécio não passou no teste


O escândalo do aecioporto foi o primeiro teste de vida real enfrentado pelo candidato do PSDB a presidente da República.

E ele foi reprovado.

Especular um pouquinho não mata ninguém, então vamos lá.

Um blogueiro amigo fez a pergunta: quem vazou a informação? Ora, agora que temos mais dados, sabemos que não era exatamente uma informação secreta. Há anos que Aécio usava o aeroporto de Claudio para descansar na fazenda de sua família, a seis quilômetros dali. Todo mundo na cidade via o aeroporto como uma propriedade privada da família Neves.

Ou seja, a informação pode ter vazado de mil maneiras. Por exemplo: o repórter da Folha, querendo alguma matéria sobre o candidato do PSDB, foi tomar uma cerveja num botequim em Belo Horizonte e o primeiro pinguço que conheceu na madrugada lhe contou o “causo” do aeroporto.

Acho mais provável isso do que a teoria de que Serra está por trás, embora também não a possa descartar.

Então os editores da Folha decidiram: “vamos fazer um teste com nosso candidato. Ele tem que mostrar couro duro se quiser ganhar eleição e manter um mínimo de estabilidade no governo. Afinal, teremos que publicar escândalos de vez em quando, e ele terá de aprender a lidar com isso”.

Talvez eles não esperassem o impacto profundo do escândalo nas redes sociais. O editorial da Folha deste domingo deixa transparecer a perplexidade do jornal com a magnitude do impacto do aecioporto nas redes sociais.

E aí eu faço outra especulação.

A repercussão gigantesca do escândalo do aecioporto não tem como pano de fundo nenhuma histeria moralista. Não acho sequer que se estourou mais uma dessas bolhas de ódio, que frequentemente atinge o PT.

Tenho a impressão que a repercussão alastrou-se tanto porque o episódio revela a personalidade política de Aécio Neves.

Preenche uma lacuna que já começava a incomodar os brasileiros: quem é, afinal, esse homem da oposição que apregoa ser o único capaz de derrotar a situação?

Mais que uma denúncia, é um episódio revelador, ilustrativo, pedagógico.

Aécio Neves revelou-se, para um Brasil profundamente angustiado pelo desejo de ter um governo mais moderno e mais ousado, um caso melancólico e contraditório.

Um coronelzinho metido a playboy carioca.

Construiu aeroporto, com verba pública, na fazenda ao lado da sua. Na fazenda que pertencia ao tio.

Outro aeroporto construído por Aécio, em Montezuma, também fica ao lado de uma grande propriedade que herdou do pai, o qual a obteve através de uma bizarra operação de “grilagem” legal de terras públicas do estado de Minas Gerais.

Á luz de tanto aero-patrimonialismo, redescobrimos que FHC também tinha seu aeroportozinho particular, construído pela Camargo Correa num terreno ao lado da fazenda do presidente, logo após sua vitória em 1994.

Enfim, o escândalo do aecioporto parece ter causado sérios danos nas turbinas eleitorais do candidato.

Aécio tenta fugir do assunto dizendo que “está tudo esclarecido” e atribuindo tudo a uma grande conspiração do PT.

De fato, as coisas agora ficaram bem esclarecidas.

A máscara de “moderno”, de “ético”, de Aécio Neves, caiu no chão e se quebrou.

Pior que isso: ele não consegue reagir, porque não sabe o que fazer. Durante anos, em Minas, nunca ninguém lhe contestou.

O Brasil está conhecendo Aécio Neves apenas agora.

Não dá para saber se o escândalo afetará as próximas pesquisas, mas é fácil identificar o estrago profundo que ele já causou em sua candidatura, visto que esta é ancorada nas classes médias e altas, fortemente vulneráveis a essas ondas de escândalo das redes sociais.

Miguel do Rosário
No Tijolaço
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Editorial: o pouso do tucano


O senador mineiro Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência da República, dedicou boa parte dos últimos dias à tentativa de justificar a construção de um aeródromo em Cláudio (MG), num terreno desapropriado pelo governo do Estado durante a gestão do tucano.

Revelado por esta Folha no último domingo, o episódio desde logo chamou a atenção. Primeiro, porque as terras pertenciam a Múcio Tolentino, tio-avô de Aécio e ex-prefeito de Cláudio. Depois, porque o uso da pista de pouso, pronta em 2010, dependia da autorização dos familiares do senador.

Com 1 km de comprimento e condições de receber aeronaves turbo-hélice de pequeno e médio porte (até 50 passageiros), o aeródromo custou R$ 13,9 milhões aos cofres públicos, sem contar a indenização pela desapropriação. O valor oferecido pelo Estado, R$ 1 milhão, é até hoje discutido na Justiça.

De acordo com a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), a pista ainda não teve sua operação liberada ao público. Mesmo assim, Fernando Tolentino, um dos filhos de Múcio, afirmou que ao menos um avião a utiliza por semana.

Entre os usuários estaria o próprio Aécio Neves. Seu refúgio favorito, a Fazenda da Mata, situa-se a 6 km dali. Nas inúmeras explicações que deu ao longo da semana, o tucano não confirma nem nega que tenha aterrissado em Cláudio. O candidato também se eximiu de dizer por que as chaves do local ficavam nas mãos de seus parentes.

Há mais, contudo. Nova reportagem desta Folha mostrou que, em 2001, o tio-avô de Aécio sofreu o bloqueio judicial da área onde está o aeródromo. O Ministério Público pede o ressarcimento dos gastos na construção de uma pista de pouso de terra em 1983, quando Tancredo Neves era o governador mineiro, e Múcio, prefeito de Cláudio.

Para quem não podia dispor de parte das terras, a desapropriação não chega a ser mau negócio. E a indenização, paga com recursos de Minas, poderá ser usada por Múcio para, caso seja condenado, quitar sua dívida com o governo mineiro.

Diante desses fatos, soam no mínimo inverossímeis as declarações de Aécio segundo as quais seus familiares não teriam se beneficiado pela obra. Também caem em descrédito as justificativas técnicas apresentadas pelo tucano.

Pela narrativa oficial, o aeródromo tem importância para as indústrias locais, e a pavimentação da pista de terra representava a opção mais econômica para o Estado.

Mais econômico, na verdade, teria sido não fazer obra nenhuma. A demanda por voos em Cláudio é pequena, e o aeroporto de Divinópolis fica a 50 km de distância.

Ainda que todo o processo tenha sido feito de maneira legal, como sustenta Aécio Neves, restará uma pista de pouso conveniente para o tucano e seus parentes, mas de questionável eficiência administrativa. Não é pouca contradição para um candidato que diz apostar na união da ética com a qualidade na gestão pública.

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O encontro

Os peixinhos nadavam por entre as nossas pernas. Estávamos no mar em frente à casa do José Paulo e da Maria Letícia Cavalcanti, praia do Toquinho, Lagoa Azul, Pernambuco, Brasil, América do Sul, Terra, Via Láctea, Universo, com água pela cintura. Quem éramos nós? Millôr e Cora, Gravatá, Lucia eu e peixinhos anônimos. Zé Paulinho e Maria Lecticia tinha providenciado tudo para que o prazer dos seus hóspedes fosse completo: sol decididamente pernambucano, céu e mar de um azul irretocável, uma mesa flutuante com guarda-sol em cima coberta de coisinhas para comer e bebidinhas para beber. A um sinal do Zé Paulinho, vinha mais camarão, mais marisco, mais caipirinha, mais pássaros, menos pássaros, mais brisa, menos brisa — e de repente, descendo em nossa direção pela praia como uma aparição, um convidado convocado pelos Cavalcantis para que o dia fosse mais que perfeito: o Ariano Suassuna. De calção de banho! Ele entrou no mar, e os peixinhos continuaram nadando entre as nossas pernas, sem nenhuma curiosidade intelectual. Eles só estavam ali para pegar os restos da mesa flutuante, alheios ao grande momento, como se um encontro de Millôr Fernandes e Ariano Suassuna com água pela cintura acontecesse todos os dias. Eu, chupando um picolé de mangaba — eu mencionei que também havia picolé de mangaba? — finalmente descobria o sentido da palavra "embasbacado". Depois do encontro no mar, um almoço magnífico — não fosse comandado pela dona Maria Lecticia. E o dia mais que perfeito terminou com uma visita a um terreno próximo onde o Zé Paulinho criava bodes. Nosso anfitrião queria nos mostrar um animal que importara da África do Sul e que, de tão antipático e posudo, recebera do Suassuna o apelido de "Somebode".

Show

Uma aula do Suassuna era um show, o show do Suassuna era uma aula. Além de produzir ele mesmo boa parte da cultura contemporânea da sua terra, Suassuna conhecia como ninguém a História (e as histórias), as artes e as tradições do Nordeste, esse outro mundo dentro do Brasil, e lutava pra mantê-las vivas. Tinha uma memória fantástica, poemas enormes decorados inteiros para qualquer ocasião, e era notável sua capacidade de, aparentemente, se perder em digressões quando falava sobre determinado assunto, a ponto de criar uma expectativa nervosa na plateia — será que ele volta para o assunto ou não volta? — e retomar o que estava dizendo do ponto exato da digressão, para alívio geral. O Brasil perdeu um tesouro.

Luís Fernando Veríssimo
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O uso da força

O Brasil não fez mais do que seguir a ONU ao externar posição contra "o uso desproporcional da força" pelos militares de Israel no ataque à Faixa de Gaza. E o fez de maneira muito mais branda e contida do que a ONU, que aprovou uma "investigação de crimes de guerra" de Israel. O próprio ministro das Relações Exteriores no governo Fernando Henrique, Luiz Felipe Lampreia, que não reflete simpatia pelas políticas externas dos governos Lula e Dilma Rousseff, considerou a nota brasileira "adequada até porque estamos vendo um protesto generalizado, inclusive da ONU".

Óbvio embora, não custa registrar que a decisão da ONU teve um voto contrário nos 46 do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. O dos Estados Unidos, na sua condição de tão ou mais responsável do que qualquer outro pela situação várias vezes condenada na ONU: as hostilidades não se prolongariam, já em invariáveis 66 anos, sem o anteparo aos radicais da direita israelense por conveniências, financeiras e eleitorais, de senadores e governantes americanos.

A resposta israelense ao Brasil, com força coerentemente desproporcional, não tem a desimportância que o assessor presidencial Marco Aurélio Garcia quis lhe dar, nem foi a voz só "do sub do sub do sub" na Chancelaria de Israel. O porta-voz Yigor Palmor não definiria o Brasil como "irrelevante anão diplomático" se não instruído por seu chefe Avigdor Lieberman, o ministro das Relações Exteriores tão extremista que nem se dá com o direitista primeiro-ministro Netanyahu.

O Brasil não tem por que rever sua atitude, mas há um problema, sim, e é necessária habilidade ao conduzir-se nele. Seja para não internalizar esse problema, risco aberto pela ativa direita da colônia judaica, seja para preservar a possibilidade de colaborações atenuadoras das hostilidades. Se os meios de comunicação deixarem ao menos esse assunto fora da sua pauta eleitoral.

O uso da força

A agenda da Frente Independente Popular, ou FIP das manifestações com violência, foi definida enquanto a moça Sininho e outros integrantes estavam presos: retorno às ruas "para destruir o Estado", recusar qualquer negociação em torno de prisões, elaborar "punições para juízes" que prendam militantes da Frente, enfrentar a polícia e, além de mais, perturbar atos da campanha eleitoral.

A agenda foi comunicada, a meio da semana, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a UERJ, onde se encontram, como alunos e professores, componentes das quatro ou cinco dezenas de militantes destacados da FIP.

O uso da força

A ABI sucumbe em triste luta de correntes, sem sequer representar os jornalistas, quanto mais algum papel de interesse público. A CNBB está em compreensível recolhimento, dedicadas as suas atenções às mudanças que o papa Francisco traz não só para a Igreja Católica. Mas a OAB vem com uma revolução de conceitos, ao que se depreende de sua seção no Rio: em referência às manifestações de rua violentas, exige da polícia a ação preventiva, mas acusa-a de arbitrariedade por haver prendido ativistas antes que fizessem manifestação (na véspera da final da Copa).

O uso da farsa

Até que o Brasil melhorou na escala mundial do Índice de Desenvolvimento Humano. Mas como dar importância a um índice de desenvolvimento humano em que, por exemplo, a Arábia Saudita figura no nível "muito alto", uma ditadura, em que a grande riqueza nacional do petróleo vai toda para uma pretensa nobreza, onde mulheres não têm direito sequer de dirigir automóvel, as leis penais são do gênero medieval? Em desenvolvimento humano, a Arábia Saudita é um vasto deserto. 

Janio de Freitas
No fAlha
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Dois aeroportos e cinco perguntas que pairam no ar

Hoje completa uma semana desde que foi revelado que o governo de Minas teria construído um aeroporto na fazenda do tio de Aécio Neves. Depois veio a público o fato de a construtora do aeroporto haver doado dinheiro para a campanha tucana, e de que o uso de dinheiro público em propriedades privadas não é exatamente novidade em MG. Além disso,  veio à tona  a história do aeroporto de Montezuma, onde o pai de Aécio tinha uma agropecuária. Mas de lá pra cá, ao invés de explicações, só surgiram mais dúvidas. O senador pouco aparece em público e não dá respostas a ninguém. Por isso muitas perguntas ainda pairam no ar. Vamos a elas:

1) Por que dos 14 aeroportos previstos pelo governo de Minas, apenas dois saíram do papel?

O programa ProAero, lançado em 2003 pelo então governador Aécio Neves previa 14 novos aeroportos para Minas Gerais. Acontece que, daqueles, apenas dois saíram do papel: o Regional da Zona da Mata e, vejam só, o de Cláudio! Andrelândia, Barão de Cocais, Brumadinho, Buenópolis, Chapada Gaúcha, Itabira, Lagoa da Prata, Mantena, Monte Santo de Minas, Ouro Preto, Sete Lagoas e Volta Grande ainda estão no aguardo das obras, como afirmou reportagem da Folha de S.Paulo. Por que apenas dois saíram do papel e um deles é exatamente o de Cláudio, onde a família de Aécio tem fazenda?

2) Por que o aeroporto de Cláudio, concluído em 2010, ainda funciona irregularmente?

Ainda que o aeroporto de Cláudio tenha tido as obras concluídas em 2010, ele não tem autorização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para operar com o público. A Anac afirmou que irá solicitar “informações sobre a suposta utilização irregular do aeródromo local, ainda não homologado pela Agência”.

3) Aécio usa o aeroporto de Cláudio? Quem mais?

Opa, mas se o aeroporto não tem autorização para funcionar, como funciona? Isso não sabemos. Mas temos certeza de que ele funciona, como afirmou Múcio Tolentino, ex-prefeito de Cláudio e tio-avô de Aécio. “Aquilo sempre foi de uso público por mais de 50 anos”, disse ao Estadão. Será mesmo que o “aeroporto era para todo mundo usar, até Aécio”? Quem tem avião particular no Brasil? Quem usa serviço de transporte aéreo fretado? Parece que esse pessoal precisa aprender como é que se faz para todo mundo usar um aeroporto.

E Aécio, usa rotineiramente o aeroporto de Cláudio? Já o usou alguma vez? Está difícil conseguir que o candidato responda a essa pergunta. Ontem, quando indagado novamente sobre o assunto, Aécio respondeu: "De novo? Essa matéria já foi mais que esclarecida. Todo homem público tem que esclarecer quaisquer questionamentos. O que é importante é que os esclarecimentos possam chegar à opinião pública. O Estado de Minas não fez um, fez mais de 30 aeródromos". Depois, ainda disse: "há uma exploração política, e é natural que haja. Eu tenho a oferecer ao Brasil uma vida correta."

4) Por que o governo de Minas admite pagar 20 vezes mais pelo terreno de Cláudio?

Em 2009, o governo de Minas ofereceu R$ 1 milhão em indenização pelo terreno de Cláudio. Mas o tio-avô de Aécio pediu mais,  R$ 9 milhões, e a contenda corre na justiça. Entretanto, agora o estado cogita ser possível pagar R$ 20,5 milhões pelo terreno. O valor consta na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2015, como mostrou o R7. Na LDO de 2013 e 2014, o valor máximo era de R$ 3,4 milhões. A Justiça, por enquanto, suspendeu a decisão para fazer nova perícia. Se o pagamento for confirmado, os gastos com indenização chegariam a R$ 33,9 milhões, mais do que o valor da construção do aeródromo.

5) Por que não há registro do aeroporto de Montezuma junto à Anac?

Sabe o aeroporto de Montezuma (cidade de apenas 7500 habitantes) cuja pista foi pavimentada na gestão de Aécio como governador,  que fica onde a família do senador tem propriedades rurais, que fica na terra de uma agropecuária em que Aécio é sócio? Então, esse aeroporto não tem registro na Anac e por isso não pode ser usado pelo público. "Não há, junto à Anac, aeródromo cadastrado ou homologado em Montezuma. Também não há aeródromo no município em processo de homologação/cadastro junto à agência", informou a Anac, em nota divulgada pela Folha.

E aí, Aécio? Temos várias perguntas. Vamos conversar?

No Muda Mais
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Disparate israelense

Ao dizer que Brasil é "anão diplomático" porta-voz de Israel esconde papel brasileiro na fundação de seu Estado

A reação de um porta-voz da chancelaria do governo de Benjamin Netanyaou à notas de repúdio do governo brasileiro diante do massacre de Gaza reflete uma reação insolente, pela diplomacia, e absurda, do ponto de vista histórico.

Definir o Brasil — e qualquer outro país — como “anão diplomático” é um gesto mal educado em qualquer caso mas puro delírio nas relações entre Israel e Brasil.

Isso porque a delegação brasileira presente a Conferência da ONU em San Francisco, em 1948, teve um papel importante na decisão que permitiu a partilha da Palestina, medida que deu origem ao Estado Judeu.

Vamos recapitular o que houve. Encarregado de presidir a sessão da ONU, entidade então em seus rascunhos, o antigo chanceler Oswaldo Aranha, um dos homens fortes durante a maior parte do governo Vargas, foi a San Francisco como chefe da delegação brasileira. Estávamos no governo de Eurico Dutra, bastante alinhado com os Estados Unidos.

Em San Francisco, Aranha fez um levantamento prévio das preferências entre os países presentes. Descobriu que a partilha da Palestina, que o Brasil apoiava, não reunia o mínimo de 2/3 de votos necessários para ser aprovada. Atuando em sua própria lógica, os soviéticos de Josef Stalin apoiavam Israel porque ajudava a prejudicar os inglêses. Os norte-americanos tinham alguma simpatia pela ideia, mas não podiam assumir um alinhamento aberto. Aranha fez, então, uma pequena manobra diplomática.

Adiou a decisão, dando tempo para que os aliados de Israel conquistassem os votos necessários. Foi assim que os israelenses venceram e a ideia de instalar um Estado de fora para dentro numa terra habitada, há pelo menos dois mil anos, por uma população árabe, foi aprovada. A noção de dar uma terra sem povo para um povo sem terra, uma das frases mais absurdas do marketing político mundial — mesmo com a imigração massiva promovida por entidades sionistas nas décadas anteriores a demografia do lugar apresentava dois árabes para cada judeu — ganhou legitimidade internacional. O prestígio de Oswaldo Aranha entre a comunidade israelense tornou-se gigangesto, a ponto de seu nome virar nome de rua em Tel Aviv.

Pesquisas nos arquivos do Itamaraty vieram a demonstrar, décadas depois, que no final da década de 1930 Aranha foi um dos responsáveis pela postura anti-judeus da política de imigração que o governo brasileiro assumiu durante a maior parte da Segunda Guerra. Ainda que na prática tenha ocorrido — por vias legais e também pelo contrabando — uma imigração judaica muito maior do que os textos escritos sugerem, não faltam ordens e resoluções assinadas por Aranha que envergonham quem as lê. Mesmo considerando que refletem um mundo no qual noções de hierarquia racial faziam parte da ideologia vigente, são inaceitáveis.

Mas, em 1948, ele assumiu outra postura, viabilizando um projeto que o movimento sionista buscava desde 1897. Ao contrário do que disse o porta-voz do governo de Israel, que chegou a lembrar a derrota de 7 a 1 para a Alemanha na Copa!, foi, do ponto de vista israelense, um gesto de gigante.

A reação disparatada, 66 anos depois, só não é estranha porque faz parte do comportamento dos governantes israelenses há muito tempo. Ajuda, no plano externo, a evitar a discussão que interessa: a necessidade de interromper um novo ataque brutal a população palestina, massacrada numa região de onde não pode sequer escapar. A nota do governo brasileiro lembra, corretamente, os direitos da população palestina, atacada cotidianamente.

Também ajuda a estimular o nacionalismo judaico, um elemento importante na política israelense desde sempre.

Já em 1949, o drama dos refugiados palestinos — milhares foram retirados e expulsos de suas casas e conduzidos até a fronteira — tornou-se um assunto da diplomacia internacional.

Interessado em encontrar uma saída negociada, o governo do presidente americano Harry Truman mostrou-se decepcionado com a postura de Israel, que não exibia a menor disposição de encontrar uma saída satisfatória para a situação. Fazendo uma analogia dramática, mas que seria usada com frequencia pelos críticos e adversários de Israel nos anos seguintes, Truman usou um emissário para informar Ben Gurion, ministro da Defesa de Israel e seu patrono, para registrar uma mudança em sua visão do problema naquela região que ia muito além de uma simples querela diplomática. Truman mandou dizer que “agora estava inclinado a apoiar os árabes, da mesma forma que anterioramente havia suportado a causa sionista porque tinha simpatia com com os refugiados judeus, sobreviventes do Holocausto.” (“1949 – the first israelis,” de Tom Segev, página 35 e seguintes).

O mesmo Tom Segev, historiador registra a reação de Ben Gurion a mensagem do presidente dos EUA. Em seu diário, Ben Gurion sustenta que Israel foi criado por conta própria e não deve satisfação a ninguém — nem a aliados internacionais, nem a ONU. “O Estado de Israel não foi estabelecido como consequencia da resolução da ONU,” escreve ele. Mais adiante: “a América não levantou um dedo para nos salvar...” Ainda: “não existem refugiados — mas combatentes que querem nos destruir (...) nos exterminar uma segunda vez.” E ainda: “nossa autopreservação é mais importante para nós do que a obediência” aos Estados Unidos.

O que se construiu, ao longo dos anos seguintes, foi uma visão mitológica de Israel, avalia o estudioso Geoffrey Wheatcroft, no livro “The Controversy of Zion.” Analisando um histórico que envolveu várias formas de perseguição, como progroms na antiga Russia, sem falar no Holocausto, Wheatcroft lembra que “é claro que Israel deu aos judeus um novo sentido de orgulho e auto-respeito.” Mas adverte: “sem apoio do Ocidente, Israel não poderia sobreviver.” Investigando essa contradição, Wheatcroft lembra duas questões. Se o nacionalismo judaico ajudou a emancipar os judeus como homens “donos de seu destino”, a criação de Israel se fez na “dependência e generosidade” norte-americana, situação que ajuda a compreender traços que define como “paranóicos” no discurso político israelense.

Há um aspecto curioso nessa dependência em relação aos Estados Unidos, contudo. Envolve uma ajuda militar entre 3 e 5 bilhões de dólares por ano mas não pode ser descrita como uma clássica relação do tipo metrópole-colonia. Os interesses israelenses tem uma presença descomunal na política interna norte-americana.

Desde a guerra pelo Canal de Suez, em 1957, quando mostrou sua importância para enfrentar a resistência dos países árabes, Israel tornou-se a nação amiga dos países ocidentais numa região hostil a exploração imperial do petróleo. Este é seu papel e sua função geopolítica. Mas, se Harry Trumann já havia encontrado problemas com a política de Israel em relação aos vizinhos, o republicano Dwight Einsenhower também encontrou os seus. Explorando a divisão de poderes, lobistas israelenses fizeram uma fortaleza no Congresso americano, graças a um sistema político favorável a intervenção de grandes interesses. Não só não há limites para contribuições privadas em eleições. Também não há verbas públicas para o funcionamento de gabinetes dos parlamentares, que dependem, assim, de amizades endinheiradas para pagar assessores — oferecidos pelas grandes empresas — para tocar boa parte de seus gabinetes. O saldo é que os lobistas de Israel tem a maior organização de Washington, e só perdem para a NRA, a associação dos fabricantes de armas. Embora a população judia dos Estados Unidos represente pouco mais de 2,2% da população, seus lobistas têm 50 milhões de dólares por ano para gastar. Na década passada, venceram por 60 a 0 uma disputa no Senado. Conforme um levantamento da insuspeita revista Economist, sua única derrota relevante ocorreu na década de 1950. Naquela época, o secretário John Foster Dulles, chegou a dizer, ironicamente, que não se considerava inimigo dos judeus “mas não podemos ter nossas políticas feitas em Jerusalém.”

A historiadora brasleira Arlene Clemesha já registrou que os Estados Unidos usaram seu poder de veto mais de 40 vezes para impedir a aprovação de resoluções desfavoráveis a Israel no Conselho de Segurança da ONU. Ela lembra:

“Por que duvidar que a manutenção do conflito israelo-palestino não seja do interesse dos Estados Unidos? Lobistas em Washington pouco poder teriam se suas posições não estivessem em frequente acordo com interesses dos sucessivos governos norte-americanos.”

Esta é a questão. Falar em anões é só um disfarce.

Paulo Moreira Leite
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