23 de jul de 2014

FHC, vira-latas, não quis ser do G7

Antes dos Brics

George Bush e Al Gore estavam em plena corrida eleitoral no segundo semestre de 2000 quando o embaixador de FHC nos Estados Unidos entrou em contato com a assessoria dos candidatos.

"Vocês precisam prestar atenção no Brasil", afirmou Rubens Barbosa. "Não somos apenas um país latino-americano. Somos um dos Big Four, junto com Índia, China e Rússia."

Ninguém em Washington enxergava no Brasil um peso pesado. Na visão dominante, sua economia era instável e sua sociedade, atrasada. A sigla Bric ainda não existia.

Em seguida à vitória de Bush, Barbosa enviou um telegrama secreto para o Itamaraty: "O momento de agir e de lançar as bases de um novo relacionamento [com os Estados Unidos] é agora". E apresentou um projeto para elevar o perfil brasileiro na capital americana.

No entanto, o embaixador ficou sem resposta. A relação diplomática entre os dois países ia de mal a pior, e ninguém em Brasília estava disposto a bancar uma grande iniciativa.

Esse era o clima quando FHC encontrou Bush pela primeira vez, no início de 2001.

Os dois presidentes seguiram o script da conversa à risca durante a parte formal do encontro. Porém, nos 18 minutos que tiveram de conversa reservada, o diálogo empacou.

FHC propôs um acordo entre Mercosul e Estados Unidos como forma de evitar uma Área de Livre Comércio das Américas (Alca), mas Bush desconversou.

Em seguida, FHC mencionou a reforma do Conselho de Segurança da ONU. "A ONU é um shopping center de boas ideias", diria Bush a Lula anos depois.

Em 2001, falando com FHC, o presidente americano deu uma resposta que pegou a diplomacia brasileira de surpresa. "Vocês precisam entrar para o G7", disse Bush.

Era uma ideia radical. Afinal, o G7 era um clube exclusivo que mantinha um diálogo formal com a Rússia, mas não com países como o Brasil.

Em tese, a proposta era excelente para FHC, que insistia em uma "repactuação" do poder mundial. No entanto, a documentação disponível revela que o tucano deixou o comentário sem resposta.

Por quê?

Segundo um assessor, a proposta soava tão irrealista que mais parecia uma tentativa americana de desviar a conversa.

Não é essa a memória americana. "As palavras de Bush eram genuínas", lembra um colaborador de Bush. "Cardoso deveria ter se agarrado a elas."

Nas semanas seguintes, a Casa Branca plantou o boato em Wall Street de que pressionaria os europeus a expandir o G7, abrindo espaço para grandes economias emergentes.

Por isso, ninguém na equipe de Bush se surpreendeu quando o banco Goldman Sachs cunhou a expressão Bric.

A caracterização de Brasil, Rússia, Índia e China como membros de um mesmo clube era mais do que mera aposta econômica. "O G7", concluía o relatório do banco, em sintonia com o governo americano, "precisa ser ajustado." 

Matias Spektor, doutor pela Universidade de Oxford e ensina relações internacionais na FGV. Seu livro mais recente é "18 Dias: Quando Lula e FHC se Uniram para Conquistar o Apoio de Bush" (Objetiva, 2014)

No fAlha
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Aécio e sua “bolsa família”: Parasitismo estatal para si, liberalismo para os outros


Em várias declarações já ouvimos Aécio dizer que os petistas não podem perder a presidência da República, dentre outros motivos, para não ver cair seu padrão de vida. Provocação barata que ocupa o espaço dos debates estruturais que deveriam presidir uma disputa eleitoral da magnitude desta que temos à frente.

Mas, entremos no clima por ele proposto.

Aécio, de fato, não precisa se preocupar com seu padrão de vida. Ganhando ou perdendo eleições. Aliás, nunca se preocupou. Descendente das oligarquias conservadoras mineiras, que foram geradas nas entranhas do Estado, desde o império, ele não tem a menor ideia do que seja empreender na iniciativa privada. Do que seja arriscar em negócios e disputas de mercado. Do que seja encarar uma falência, uma cobrança bancária, uma perda de patrimônio.

Pasmem: é esse o candidato que faz apologia do livre mercado, da iniciativa individual como base para a ascensão social e da ideia do “cada um por si” como critério de sobrevivência na selva do capitalismo contemporâneo.

Até sua carreira eleitoral tem como fato gerador a agonia terminal do avô, cuja morte “coincidiu” com o dia de Tiradentes. Seu primeiro cargo eletivo é tributário disso: em 1986 ele obteve mais de 200 mil votos para deputado federal sem lastro político próprio. Quatro anos mais tarde, distante do “fato gerador”, ele se reelegeu com magros 42.412 votos.

No quadro a seguir temos um diminuto resumo da versão de sua “bolsa família”.

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Reitera-se: trata-se de um “diminuto resumo”. A história de seus avós paternos e maternos é a reprodução integral de como foram formadas as elites mineiras: indispensável vínculo estatal (cargos de confiança no Executivo, cartório e muita influência no Judiciário), formação de patrimônio fundiário à base da incorporação de terras devolutas e estreitas ligações com carreiras parlamentares.

O pai, Aécio Cunha, por exemplo, morava no Rio de Janeiro quando,  em 1952 retorna a Belo Horizonte e, com 27 anos de idade, em 1954, “elegeu-se deputado estadual, pela região do Mucuri e do Médio Jequitinhonha, ainda que pouco conhecesse a região (…)” conforme descrição no Wikipédia. Seus oito mandatos parlamentares nasceram de sua ascendência oligarca. Do avô materno, Tancredo, dispensa-se maiores apresentações. Atípico sobrevivente de várias crises institucionais que levaram presidentes à morte, à deposição e ao exílio, Tancredo Neves sempre esteve na “crista da onda”. Nunca como empresário. Quase sempre como interlocutor confiável dos que quebravam a normalidade democrática.

Aécio Neves, por sua vez, era um bon vivant quando passa a secretariar o avô, governador de Minas Gerais, a partir de 1983. Nunca foi empresário, nunca prestou concurso público, nunca chefiou nenhum empreendimento privado. Sua famosa rádio “Arco Íris” foi um presente de José Sarney e Antônio Carlos Magalhães. Boa parte de seu patrimônio é herança familiar construída pelo que se relatou anteriormente. O caso do aeroporto do município mineiro de Cláudio é apenas mais uma ponta do iceberg.

Enfim, ele é isso: um produto estatal que prega liberalismo, competição, livre mercado… para os outros. Uma contradição em movimento. Herdeiro, portanto, de uma típica “bolsa família”; só que orientada para poucos.

Aliás, esse parasitismo estatal é característico da maior parte das elites brasileiras. Paradoxal é defenderem os valores neoliberais.

Luis Carlos da Silva, sociólogo e assessor do bloco Minas Sem Censura
No Viomundo
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A pergunta de 2014


IBOPE confirma vantagem de Dilma e mostra dificuldade da oposição para crescer

Os números do Ibope divulgados ontem mostram que Dilma Rousseff e Aécio Neves permanecem no mesmo patamar anterior a Copa, em 7 de junho: 38% e 22% das intenções de voto, respectivamente.

Quem caiu foi Eduardo Campos, rebaixado de 13% para 8%.

A maioria dos analistas apressou-se em dizer que estes números mostram que a Copa das Copas não trouxe benefícios para Dilma. É uma tentativa de transformar uma derrota em vitória.

Explico. O que a oposição pretendia — e as bolas de Cristal da mídia sobre a Copa refletiam isso — era para arrancar eleitores do governo. Apostando numa profecia que se revelou um fiasco histórico, achava inevitável que Dilma saísse da Copa menor do que entrou.

Mas Dilma permanece do mesmo tamanho e os adversários não cresceram. O terceiro colocado até diminuiu. Quem você acha que ganhou?

Quem tem tamanho para jogar na defesa, sabendo que irá ganhar se impedir ataques adversários. Este é o retrato político que o Ibope desenhou. Não é uma surpresa.

O sociólogo Antônio Lavareda, insuspeito de simpatias petistas, criou o Índice Band, que trabalha com votos válidos, universo que exclui nulos e brancos, de quem já resolveu em quem irá votar em 5 de outubro. O resultado é o seguinte:

50% para Dilma

27% para Aécio

11% para Eduardo Campos

4% para o pastor Everaldo

E só.

Isso quer dizer que se as eleições fossem hoje, Dilma levava no primeiro turno por 50% a 42% sobre o conjunto dos adversários — muito além de qualquer margem de erro.

Você pode argumentar que os “votos válidos” irão aumentar até o dia da eleição — e isso é verdade. Pode até calcular que nos próximos levantamentos, os adversários de Dilma irão ganhar num ritmo maior do que o dela — é possível, até porque ela já atingiu um bom tamanho, conquistou a metade dos votos de quem já sabe em que vai votar.

Mas o retrato do momento, a eleição real, está aqui. Lavareda construiu o Índice Band fazendo uma média dos números dos principais institutos de pesquisa. É um índice válido, cada vez mais usado, por exemplo, em eleições norte-americanas. Tem um grau de confiança maior, mas não é infalível, evidentemente. Sua vantagem é que ajuda a evitar que institutos que têm um viés — político, regional, ou qualquer outro — possam contaminar o resultado final. A desvantagem é que, trabalhando com vários números, de datas diferentes, pode se mostrar mais lento para apontar tendências e mudanças de ultima hora.

O dado importante é que apesar de toda torcida Aécio Neves e Eduardo Campos tem caminhado bem devagar.

Compare com 2010. Em fevereiro daquele ano, quando já não podia ser chamada de poste, Dilma perdia de 28% a 35% para José Serra.

Mas em 23 de junho de 2010, a data em que o último Ibope foi fechado, Dilma já estava na dianteira, cravou 40% a 35% — e não parou mais.

Em julho de 2014, com um mês a menos até a votação, Dilma lidera as pesquisas e nenhum candidato representa como uma ameaça próxima. Aécio segue firme em segundo e Eduardo Campos ainda não chegou ao patamar que Marina Silva exibia em 2010, no mesmo período. Já em abril ela havia atingido 9 pontos.

Essa situação traduz um aspecto importante. A campanha de 2014 está longe de expressar um movimento irresistível contra o governo. Dilma entrou como favorita e segue nesta situação. Em 2010, mesmo em desvantagem numérica para Serra, nenhum observador atento deixaria de apontar a candidata do PT como provável vitoriosa.

Ainda assim, é razoável avaliar que o condomínio Lula-Dilma enfrenta, em 2014, a mais difícil disputa eleitoral em doze anos.

A eleição ocorre em ambiente político muito diferente.

Nem a primeira vitória de Lula, em 2002, quando o mercado financeiro ameaçou jogar o país no precipício como forma de terrorismo eleitoral, ocorreu num ambiente tão hostil e difícil.

Em 2002, um executivo do Goldman Sachs, um dos principais bancos de investimento do mundo, chegou a criar o Lulômetro, instrumento que servia para elevar o pânico junto aos eleitores de classe média. George Soros, um dos maiores especuladores do planeta, chegou a dar declarações de espírito colonial intimando o eleitorado brasileiro a votar em José Serra.

Naquela eleição, no entanto, aceitava-se a vitória de Lula como simples evento democrático: é natural que, vez por outra, ocorra uma alternância no poder. Mas era uma visão formal. Não se imaginava que o governo vitorioso em 2002 fosse implementar um conjunto de mudanças em maior profundidade, que permitiram mais duas vitórias consecutivas e a possiblidade de entrar com uma candidatura favorita 12 anos depois.

Em 2014, o Lulômetro deixou de ser trabalho de uma instituição. A unidade entre a oposição e o grande poder econômico tornou-se explícita e abrangente, o que explica movimentos da Bolsa, que levantam e derrubam — artificialmente — os índices sempre que aparece uma novidade favorável a oposição. Se estivéssemos num ambiente político mais sério, plural, com debates consistentes, essas altas e baixas da Bolsa deveriam prejudicar a oposição. Pois seriam vistos como aquilo que são: prova de que ela faz a alegria dos especuladores, investidores que não geram um posto de trabalho, nem pavimentam o futuro do país, mas promovem um cassino onde a sociedade sempre perde e seus proprietários sempre ganham, como explicou o Prêmio Nobel Joseph Stiglitz ao falar do colapso de 2008.

São operações de valor 100% especulativo, já que não há a mais remota razão plausível para se imaginar que a vida dos brasileiros — nem das empresas com papéis na Bolsa, a começar pela Petrobrás, bússola dos investimentos no país — pode ficar melhor em caso de uma vitória dos adversários. Essa turma é contra a Petrobrás antes dela ter sido criada. Seus avôs e bisavôs políticos trabalharam pelo suicídio de Vargas, seu fundador, antes que ela começasse a explorar petróleo para valer no país.

O lugar de Dilma se explica por um motivo fácil de entender. No retrospecto, em doze anos a vida da maioria da população tornou-se reconhecidamente melhor. Na perspectiva dos próximos quatro anos, não se vê uma proposta dos adversários capaz de proteger as conquistas obtidas, muito menos ampliar o que já foi feito. Depois de fazer uma única afirmação consistente sobre o rumo de seu eventual governo — a aplicar “medidas impopulares” — Aécio Neves preferiu manter-se em conveniente silêncio a respeito de seus planos para o país.

Mas é este o ponto central da eleição, como explica o professor Fabiano Santos, em coluna recente no Valor Econômico:

“Há algo de novo no ar,” diz ele, comparando 2014 com os pleitos anteriores. “Não se percebia, no contexto do segundo mandato de Lula, o quanto havia de potencialmente conflitivo naquele modelo de crescimento, baseado em políticas de inclusão social. A economia crescia, todos ganhavam. O contexto mudou. Agora, perdas terão de ser impostas no curto prazo para que ganhos sejam retomados em bases mais seguras e promissoras no futuro. Quem pagará a conta?” pergunta Fabiano Santos.

Esta é a pergunta. Mesmo com a inflação em torno de 6%, e um crescimento fraco, ainda que real, o governo tem conseguido manter a opção que lhe permitiu chegar até aqui — e é isso que explica os números de Dilma.

Como explicou Ricardo Berzoini em entrevista para Carolina Oms, da revista Dinheiro:

“O governo busca o centro da meta, mas há duas maneiras de se tratar a meta da inflação. Uma é tratar como objetivo único da economia. Outra é tratar a meta combinada com outros objetivos como emprego, renda dos trabalhadores, crescimento econômico, investimento público e privado. Se o governo pudesse trazer a inflação para 4,5% ao ano, traria, mas temos uma série de pressões inflacionárias. Se você usar a política monetária de maneira demasiada, vai provocar uma recessão. É importante ter um olho na inflação e outro na geração de emprego e renda. A inflação incomoda os trabalhadores. Mas, para o trabalhador, pior do que inflação é desemprego alto e arrocho salarial.”

O debate é este.

Paulo Moreira Leite
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Fazenda de tio de Aécio já foi flagrada com trabalho análogo à escravidão

Oitenta trabalhadores em destilaria da família Tolentino foram resgatados, em 2009, em área ao lado do aeroporto construído por Aécio

Múcio Guimarães Tolentino, 88 anos, é tio-avô de Aécio Neves. Ex-prefeito da cidade de Cláudio, no interior de Minas Gerais, é dono da fazenda Santa Isabel, que o governo mineiro, em 2010 — então sob a gestão do sobrinho —, escolheu desapropriar uma parcela para construir um aeroporto a um custo de R$ 14 milhões. Segundo a Folha de S.Paulo publicou, o acesso à pista, embora seja pública, é controlado pela família Tolentino.

O caso revelado até agora pela “Folha” já demonstra que Cláudio pode ser um grande problema para a campanha de Aécio Neves, mas a “ficha corrida” da fazenda Santa Isabel e as relações entre os Tolentino e o ex-governador do Estado trazem outros elementos, que rescendem a uma mistura entre o público e o privado e remontam a tristes lembranças da herança escravocrata que ajudou a consolidar relações de poder no estado mineiro.

Tranquilo: Aécio, ontem (22), quando disse que construção do aeroporto foi legal e usou pareceres de ex-ministros do STF (Foto: OBritoNews)
Tranquilo: Aécio, ontem (22), quando disse que
construção do aeroporto foi legal e usou
pareceres de ex-ministros do STF
Foto: OBritoNews
Apoio à família

Em 2005, a Destilaria Alpha, que tinha como representante legal Marcelo de Campos Tolentino, contou com apoio direto do governador para reativar sua atividade industrial de produção de álcool combustível. Consta do Diário Oficial do Estado de Minas, em 28 de setembro de 2005, protocolo de intenções entre a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais e o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais com assinatura do próprio governador Aécio Neves, que previa “viabilizar a reativação da Alpha, de sua unidade industrial localizada no município de Cláudio (MG), destinada à produção de álcool combustível hidratado”.

O documento previa a possibilidade de empréstimos à Destilaria Alpha. O representante legal da empresa foi Marcelo de Campos Tolentino, que embora com telefone e residência na capital Belo Horizonte, tem raízes na cidade de Cláudio. O empresário já contribuiu com campanha eleitoral de Aécio, tendo doado R$ 1 mil na sua primeira eleição para governador, em 2002. Já Marina Tolentino ocupou o cargo de diretora financeira na Alpha Destilaria.

Ministério flagra trabalho análogo à escravidão

Quatro anos depois, a mesma empresa que fora reativada com a ajuda do governador, foi flagrada com trabalhadores em situação análoga à escravidão. Fiscalização do MTE resgatou 80 deles nas fazendas Santa Isabel e Santo Antônio. A notícia, à época, não ganhou as manchetes dos jornais.

Texto que foi publicado no Diário Oficial de MG em 2005 (Reprodução)
Texto que foi publicado no
Diário Oficial de MG em 2005
Reprodução
Em junho de 2013, a Alpha passou a figurar no cadastro de empregadores flagrados com mão de obra análoga à de escravo, a chamada “lista suja” do Ministério do Trabalho. Fazer parte dessa lista impede, por exemplo, que empresas contratem empréstimos junto a bancos públicos federais ou que possam fornecer produtos para mais de 400 empresas signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, com a Petrobras.

Clique aqui e veja compilação do Repórter Brasil com a “Lista Suja do trabalho escravo”.

Imagem de satélite mostra onde MP fez fiscalização de trabalho escravo (na seta) e o aeroporto construído com dinheiro público, em cinza (Reprodução/Google)
Imagem de satélite mostra onde MP fez
fiscalização de trabalho escravo (na seta) e o aeroporto construído com dinheiro público,
em cinza
Reprodução/Google

Cachaça envelhecida na fazenda da Mata, o “palácio de Versalhes” de Aécio

Nem só de álcool vive o emaranhado político-econômico dos Tolentino. Além de outras atividades que demonstram como Cláudio tem no clã uma de suas famílias mais poderosas (com ex-prefeitos, vereadores, deputados e até um governador no seu histórico de relações com o poder), os Tolentino produzem a cachaça Mingote, que tem como sócio Tancredo Tolentino, filho de Múcio.

Tancredo Tolentino, o “Kedo”, primo de Aécio, foi acusado de integrar uma quadrilha de venda de decisões judiciais, desbaratada pela Polícia Federal em 2011. Foi acusado de formação de quadrilha e corrupção ativa. Apesar de tal retrospecto — ou por conta disso, já que ocupando cargo público poderia ter mais facilidade de enfrentar ações judiciais — Kedo  também já tentou ser candidato a prefeito da cidade, e teve seu registro impugnado.

Outro Tolentino que parece ligado ao negócio de álcool e cana-de-açúcar é Claudio Tolentino, vereador na cidade. Um telefone em nome da Destilaria Alpha remete a seu escritório.

(Reprodução/www.mingote.com.br)
Reprodução/www.mingote.com.br
A cachaça Mingote, cujo nome legal é “Tolentino & Tolentino LTDA.”, já assinou Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público do Trabalho por empregar menores de idade, em 2011.

Segundo divulgado em fóruns e sites do mercado de cachaça artesanal (clique aqui e aqui e veja dois exemplos), a Mingote — ou apenas uma parte de sua produção — é envelhecida na fazenda da Mata, na qual Aécio passa finais de semana e onde mantém o cavalo Ofegante e um fusca azul 1964.

A história da produção em Cláudio começou, segundo os Tolentino informam no site da cachaça Mingote, com um engenho na própria fazenda da Mata, no século XIX quando os irmãos “Quinca Barão” (Joaquim da Silva Guimarães) e Domingos da Silva Guimarães, o “Mingote” deram início à ocupação e desenvolvimento de Cláudio.

Aécio na fazenda da Mata (Foto: Reprodução/Instagram)
Aécio na fazenda da Mata
Foto: Reprodução/Instagram
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A pinga da família de Aécio Neves é tradicional, e o senador, ao que tudo indica, um entusiasta.  Ele é um garoto-propaganda da cachaça Mingote, produzida por Tancredo, Múcio e outros Tolentinos. No site da empresa, mostra-se o desvelo com a versão “Governador’, “cachaça não-comercializada, reserva pessoal, estocada em tonel de amendoim e registrada em homenagem ao ex-governador Aécio Neves”. Segundo informam os donos da cachaça Mingote, a versão Governador é usada para “presentear amigos e visitantes de outras regiões e do exterior”, sendo engarrafada “em louça de primeira qualidade”.

Aécio e "Kedo" Tolentino, filho de Múcio, dono da fazenda onde  foi construído aeroporto (Foto: Reprodução/www.mingote.com.br)
Aécio e “Kêdo” Tolentino, filho de Múcio,
dono da fazenda onde foi construído aeroporto
Foto: Reprodução/www.mingote.com.br
Múcio, o “Paca”, tem também a versão em sua homenagem, embora com menos refinamento. “Cachaça com dois anos de descanso em Jequitiba, suave com pouca coloração”, afirma a família Tolentino na descrição do produto.

Há também a versão do Cruzeiro, clube que tinha como presidente Zezé Perrella, aliado de Aécio Neves. Zezé é aquele cuja família teve um helicóptero apreendido com 400 quilos de cocaína em novembro do ano passado.

(Reprodução/www.mingote.com.br)
A cachaça Azulzinha, em homenagem ao E.C. Cruzeiro
Reprodução/www.mingote.com.br

No Entre Fatos
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Ariano Suassuna


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O príncipe e o sem teto

http://www.maurosantayana.com/2014/07/o-principe-e-o-sem-teto.html

 

O príncipe George, filho de Catherine Midleton e do príncipe William, da Inglaterra, completou ontem um ano de vida.

Segundo a AFP, “em comemoração à data, a coroa britânica divulgou imagens exclusivas do menino de cabelo louro, vestindo um macacão azul e uma camisa azul marinho”, registradas, há alguns dias, em um museu londrino. “ao qual o duque e a duquesa de Cambridge levaram seu filho para ver uma exposição sobre borboletas”. Em uma das imagens George aparece andando, cena saudada como "Os primeiros passos seguros do futuro rei da Inglaterra", pelo Sunday Telegraph.

É triste. Mas devemos cumprir o doloroso dever de informar, que, segundo um último balanço, também publicado ontem, 143 crianças palestinas, 80 delas com menos de 12 anos de idade, não poderão ver as borboletas do museu britânico, nem nenhuma outra que estiver voando por aí, por terem perecido, segundo a UNICEF, desde que começou a ofensiva israelense na Faixa de Gaza.

Nem elas poderão fazê-lo, nem o pequeno bebê de onze meses, que morreu no hospital, depois de ter ficado trinta e cinco horas, soterrado, com sua família, sob um prédio em construção que desabou em Aracaju.

A humanidade está — infelizmente — cada vez mais fútil. Incapazes de revestir sua própria vida de maior interesse, enriquecendo-a com um pouco de cultura, ou dos sentimentos de justiça e solidariedade, milhões de pessoas mergulham no culto a “celebridades”, às vezes tão efêmeras e descartáveis como lâminas de barbear, e acompanham suas peripécias pelas publicações disponíveis nas salas de espera e nos salões de cabeleireiro.

O pequeno príncipe britânico, herdeiro da opulência de um império que cresceu pela exploração de dezenas de colônias e povos como os indianos, ou os aborígenes canadenses e australianos, acaba de entrar na lista — tão ridícula como absurda — das “dez crianças mais poderosas do mundo”.

O pequeno sem teto brasileiro, um mês mais novo que ele, morreu de frio e inanição, no escuro, debaixo das ruínas do prédio em construção — no qual sua família dormia por não ter outro lugar para ir — porque sua mãe não conseguia se mover para aquecê-lo e amamentá-lo.

Os meios de comunicação noticiaram os dois fatos, cada um, naturalmente, em sua correspondente seção. Uma, festiva, perto das notas de variedades ou editoriais de moda. A outra, nas notícias de polícia, ou de cidades, lamentando, como não poderia deixar de ser, o desabamento do prédio e as vítimas do acidente de Aracaju.

Faltou alguém somar os dois meninos, e pensar, ao menos por um segundo, em seus diferentes destinos. Perguntando-se, porque, em pleno Século XXI, algumas crianças ainda nascem em suntuosos palácios, enquanto outras continuam morrendo debaixo de bombas em Gaza, ou sob os escombros de uma marquise, porque não tinham — como certo menino que nasceu em uma manjedoura — outro lugar para se abrigar.
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Getúlio, Lula, as eleições e o Estadão

Fernão e os demônios
A boa notícia, para Fernão Lara Mesquita, um dos herdeiros do Estadão, é que nunca um artigo seu repercutiu tanto na internet.

A má é que a repercussão se deu na forma de gargalhadas.

Fernão é, neste momento, uma piada digital.

Merecidamente.

Num texto pomposo e pretensamente profundo, Fernão atribuiu todos os problemas do Brasil a Getúlio Vargas.

Getúlio se matou e entrou para a história em 1954, mas segundo Fernão ele reencarnou em Lula.

Num universo distópico, há um foco de resistência aos dois demônios: São Paulo.

São Paulo, diz Fernão, resistiu primeiro a Getúlio, na fracassada rebelião de 1932. E, mais recentemente, vem resistindo ao PT.

Um capítulo importante dessa saga paulista contra o mal se dará, avisa Fernão, nas eleições de outubro.

Bem, já foi dito que editores ruins fazem mais mal aos jornais que a internet. Antes que a internet varresse a mídia impressa, o Estadão já fora vítima disso, dos maus editores.

Mais especificamente, maus donos, uma vez que os Mesquitas sempre se puseram na condição de jornalistas.

Nos anos 1980, a Folha passou o Estadão muito mais pelos defeitos deste do que por seus próprios méritos.

O Estadão não enxergou a importância do movimento das Diretas Já, e sofreu uma humilhante ultrapassagem sem retorno.

Compare as contribuições de Getúlio e dos Mesquitas, para voltarmos a Fernão.

Getúlio deu o voto para as mulheres. Eliminou o voto de cabresto. Criou leis trabalhistas que civilizaram o ambiente do trabalho no Brasil: limite de jornada, férias, fundo de garantia foram algumas das conquistas.

Estimulou a formação de sindicatos, para que os trabalhadores não ficassem à mercê das empresas. Industrializou o Brasil. Criou a Petrobras.

Também de extrema importância, Getúlio derrotou os paulistas em 1932.

Se São Paulo tivesse vencido, o Brasil retrocederia aos tempos brutalmente arcaicos da República Velha.

Getúlio, numa frase, inaugurou o Brasil moderno.

Mais?

Por coisas assim, os barões da mídia jamais perdoaram Getúlio. Há uma passagem significativa em sua história, contada por seu biógrafo, Lira Neto.

Deposto pela direita em 1945, Getúlio foi se recuperar do desgaste em seu berço, no sul. Recebeu, um dia, jornalistas.

Perguntou a um deles o que achava de um decreto do governo que estimulava um piso para o trabalho dos jornalistas.

O jornalista teceu grandes elogios à medida.

Getúlio então disse que fora exatamente por causa do piso para os jornalistas que os barões da imprensa se bateram tanto para derrubá-lo.

Olhemos agora para o outro lado: as contribuições do Estadão.

A passagem mais marcante dos Mesquitas, na história recente, foi a participação ativa na conspiração que levou à ditadura militar.

Mas, para Fernão, o mal está em Getúlio Vargas, agora reencarnado em Lula.

Para o Estadão, portanto, a luta continua.

Enquanto essa luta épica, sem fim e sem sentido consome a energia do jornal e de seus donos, outras coisas acontecem sem serem notadas.

A passagem do tempo, por exemplo. A mudança de mentalidade das pessoas.

E, nos últimos anos, a internet.

Se você se absorve completamente numa guerra, não consegue administrar outros problemas. Pior: não os vê.

O Estadão está condenado a morrer lutando, ontem, hoje, sempre, contra um fantasma, o de GV — sem enxergar a realidade que vai liquidá-lo.

Paulo Nogueira
No DCM
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Há qualquer coisa no ar, além dos aviões de carreira


Google Earth: Aécio é um fanfarrão

Wellington, de quem é aquele aviãozinho ali?

O Conversa Afiada reproduz contribuição de amigo navegante que passeia pelo Google:

Aécio MENTE:

Nota do candidato do PSDB:

“Não se trata também de construção de um novo aeroporto, mas de melhorias realizadas em pista de pouso que existia há mais de 20 anos no local, realizadas por meio do ProAero, programa criado no governo Aécio Neves e que garantiu investimentos em inúmeros aeroportos do Estado.”

“A escolha da área se deu por critérios técnicos, não tendo interferido na decisão o fato do proprietário à época ser ou não ser parente do então governador. Já havia no terreno em questão uma pista de pouso construída há 20 anos, o que tornaria a obra muito mais barata. Prevaleceu exclusivamente o interesse público.”


1) Aeroporto de Cláudio (pista paralela à rodovia), 31/10/2007:



2) Aeroporto em obras de terraplenagem, 14/03/2010:


3) Aeroporto com a pista em nova posição, 15/06/2013:




Por que a ANAC tem de investigar o caso:

Avião estacionado na pista clandestina de Cláudio. De quem será?



Senador, Cláudio não é polo siderúrgico

Divinópolis tem um aeroporto tão bom, Senador … Pra que o de Cláudio?

Aécioporto desmascara discurso tucano

Um aparte, senador? Até agora sem nota formal do governo mineiro e sem pronunciamento oficial da assessoria do senador Aécio Neves, nos valemos para aparteá-lo sobre uma nota de sua campanha eleitoral divulgada em seu perfil no facebook.

O bloco parlamentar Minas Sem Censura, exercendo suas prerrogativas fiscalizatórias, vem — de público — cobrar de sua excelência explicações cabais sobre o caso.

Em texto confuso, carregado de generalidades, imprecisões de dados e feito às pressas, como provam os erros de concordância e regência, sua assessoria ajuda a complicar a situação.

Transcrevemos, para exemplo, um trecho integralmente:
“Cláudio é um próspero município da região centro-oeste de Minas Gerais. A cidade é conhecida por seu grande pólo de fundições e metalúrgica, considerado um dos maiores do Brasil e da América Latina. Destacam-se a produção de móveis em alumínio, peças de ferro fundido e outros. Mais de 100 empresas do setor atuam na cidade. Apenas em 2014, foram formalizados junto ao Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (INDI) novos investimentos da ordem de R$ 1 bilhão no município.”
O município de Cláudio merece nosso respeito. Mas é muito exagero afirmar que seria um polo continental de siderurgia. Qualquer busca básica na internet, via IBGE, mostrará anuários econômicos, publicações e informações em que não confirmam esse diagnóstico apressado da assessoria do senador.

Enfim, a cidade polo da região é Divinópolis, com uma população oito vezes maior, um parque industrial muito superior ao de Cláudio (ainda que não seja de destaque na América Latina) e que tem um aeroporto em condições receber aviões de grande porte. Nada justificaria, portanto, esse investimento.

Além, a Anac alega que não foram enviados todos os documentos para a devida homologação do aeroporto. Esse atraso é funcional ao uso privativo, pelos familiares do senador e por ele próprio, da citada obra pública em terreno sub judice.

Aos leitores, convidamos a visitar Cláudio. Cidade acolhedora, que é conhecida como a “cidade dos apelidos” (dizem que todos os moradores de lá tem algum tipo de apelido) e cujas atividades econômicas se resumem ao que o link abaixo detalha:


Ao senador, sugerimos a revisão do seu texto no facebook.
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“Mineiros querem saber por que o aeroporto sempre teve uso particular, inclusive cadeado”


Bloco Minas Sem Censura quer investigação sobre aeroporto construído em Cláudio

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Em visita ao Ministério Público Estadual, os deputados Pompilio Canavez, Rogério Correia e Adelmo Leão entregam ao Ministério Público documentos que denunciam abuso de recursos públicos
Representando o bloco Minas Sem Censura, os deputados Pompilio Canavez, Rogério Correia e Adelmo Leão foram nesta terça-feira (22) à Procuradoria de Justiça, em Belo Horizonte, solicitar a investigação do aeroporto construído na cidade de Cláudio com dinheiro público em terreno pertencente à família do senador tucano Aécio Neves. A obra cobrou da população mineira quase R$14 milhões e foi realizada durante o segundo mandato de Aécio como governador de Minas Gerais.

Os deputados entregaram ao promotor Júlio César Luciano, sorteado pelo Ministério Público Estadual para cuidar do caso, cópias da reportagem que denunciou o empreendimento a todo o país, do programa Proaero, do processo de desapropriação do território do tio-avô de Aécio, Múcio Guimarães Tolentino, na justiça mineira e outras informações. “Pedimos para que o Ministério Público averigue e cumpra o seu papel. Os mineiros querem saber por que esse aeroporto sempre teve uso particular. Inclusive tem cadeado. Esse caso se enquadra em uma improbidade administrativa”, afirmou o deputado Pompilio Canavez, líder do Minas Sem Censura. O parlamentar também questiona onde o interesse público se encaixaria nesse empreendimento, já que em cidades vizinhas a Cláudio existem aeroportos capazes de suprir as demandas.

O aeroporto não tem funcionários e sua operação ainda não é considerada regular pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que também não recebeu do estado todos os documentos para realizar a homologação do aeroporto e permitir que seja aberto ao público. Para pousar por lá é necessária a autorização de familiares do senador Aécio Neves.

Na reunião, o deputado Rogério Correia apontou outras questões relacionadas ao aeroporto, como o alto gasto para sua construção, equivalente ao valor de aeroportos completos e com voos regulares. “Que aviões pousam lá? Quem são os passageiros? Isso precisa ser levantado”, indagou Rogério. Outro fato destacado é que a empreiteira que fez a obra do aeroporto, Vilasa Construtora Ltda, fez uma doação de R$ 67 mil para a campanha de Aécio Neves em 2006.

Com a representação em mãos, o promotor Júlio Cesar assegurou que o assunto será apurado e fará o possível para dar uma resposta aos deputados e ao povo mineiro.

CPI

Para que a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) também investigue o caso, os deputados do Bloco Minas Sem Censura estão recolhendo assinaturas de parlamentares para instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). “A dificuldade é que a ALMG está em recesso, mas estamos entrando em contato com cada deputado pedindo a assinatura. Mas sabemos que ter uma CPI em Minas Gerais é muito difícil. Já são 12 anos que não acontece”, explicou o líder do bloco, Pompilio Canavez.

Para efetivar uma CPI são necessárias 26 assinaturas. “Queremos livrar nosso país do que acontece em Minas Gerais”, pontuou Rogério Correia.

No Viomundo
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Fernando Haddad no El País

O prefeito Fernando Haddad
Bosco Martín
Um ano e seis meses após ter tomado posse, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), afilhado político do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enfrenta o pior momento de sua popularidade. Em um mês, a insatisfação ao seu Governo foi de 36% para 47%. Entre os jovens, parcela da população que foi às ruas em junho contra a alta da tarifa, sua aceitação caiu 35 pontos percentuais de antes dos atos para o mês passado, embora tenha voltado a crescer neste mês, após a inauguração de uma série de ciclovias.

Sua baixa aceitação acendeu um alerta no PT, que em outubro quer emplacar Alexandre Padilha como governador do Estado e quebrar os 20 anos do comando do PSDB. O partido de Dilma Rousseff nunca teve boa aceitação no principal Estado do país, visto como bastião da elite conservadora, refratária à imagem do sindicalismo de Lula.

A rejeição ao prefeito e sua dificuldade de se comunicar com a população têm gerado críticas no partido, que pressiona para que ele mude de postura. “Temos uma questão a resolver, que é como fazer o cidadão perceber [que a cidade está mudando]”, assume o prefeito, que defende suas realizações, como a construção das ciclovias e de corredores de ônibus, uma estação de lixo que vai triplicar a coleta seletiva, e a reabertura de ícones da cidade, como o cinema Belas Artes, na rua da Consolação, região central de São Paulo.

Entre elas, está ainda o Plano Diretor, aprovado no início do mês, e visto por muitos urbanistas como o projeto mais importante de São Paulo nos últimos anos. O plano dobra o número de áreas para habitações populares, incentiva construções perto do transporte público e cria mecanismos como a cota de solidariedade (grandes empreendimentos terão que destinar parte do terreno ou verba para casas populares) e padroniza o limite de um coeficiente máximo de construção igual a 1 (um terreno de 100 metros quadrados só pode construir um imóvel com até 100 metros quadrados; mais do que isso, deverá pagar a chamada outorga onerosa, taxa que vai para o fundo de construção de casas populares, praças e transporte).

O plano diretor está claro para as pessoas?

O que tem de mais inovador no plano não foi discutido pela imprensa. A dinâmica da cidade vai se alterar completamente. O plano habitacional que é viabilizado pelo plano não foi discutido. O município está se apropriando de toda a mais-valia fundiária ao fixar o coeficiente básico [de construção] igual a um. Isso é o sonho dos urbanistas desde os anos 1970 e, 40 anos depois, dizemos: ‘Você não vai mais especular com o seu terreno. Você pode construir uma vez [o tamanho do seu terreno] e tudo o que você construir a mais vai ter que pagar a outorga onerosa’. Esse dinheiro vai para um fundo de urbanização e de desenvolvimento urbano, o Fundurb. Está carimbado para habitação popular, para transporte público, para áreas verdes. É uma enorme transformação.

A outorga já existe...

A outorga não existe, na verdade. Porque o mercado imobiliário introduziu exceções à regra no Plano Diretor anterior, que acabaram gerando em 12 anos um bilhão de reais em receita. Isso não dá para fazer um parque por ano. Você adensa a cidade, mas o município não tem resposta para aumentar os espaços públicos. Agora os novos empreendimentos em São Paulo têm que colaborar com o desenvolvimento da cidade. Ou seja, não se produz mais empreendimento, se produz cidade. Por que a gente aprovou o alinhamento viário da cidade inteira? Para impedir o que aconteceu na avenida Santo Amaro, onde os prédios foram verticalizados a uma distância face a face de 25 metros. Como vai ter calçada, corredor de ônibus e ciclovia em 25 metros nos dois sentidos? Impossível. Estamos fazendo um planejamento que não é de 16 anos. Esse plano vai se constituir na nova dinâmica da cidade pelo século XXI.

A outorga vai ser caixa para a Prefeitura?

Sim, mas não deve impactar minha gestão.

Quais fontes de receita estão encontrando para viabilizar a gestão?

Corte de despesa de contrato terceirizado. Em todas as áreas, já fizemos mais de 800 milhões de reais de economia.

Se o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto [que acampou em frente à Câmara dos Vereadores até o projeto ser aprovado] não tivesse feito pressão, o Plano teria sido aprovado?

Acho que sim.

Da mesma maneira?

Acho que o movimento social, no caso, teve o efeito de jogar luz sobre as conquistas que o plano já trazia na sua remessa para a Câmara. Esse plano é fruto de 40 anos de reflexão sobre a cidade, que não encontrava espaço no marco regulatório do desenvolvimento de São Paulo.

E por que encontrou agora?

Primeiro, há um amadurecimento da cidade de que era preciso tomar providências mais radicais. Segundo, porque, com toda a modéstia, eu te digo que tem uma pessoa a frente da cidade que não está preocupada com a vida fácil, que está querendo fazer mudanças estruturais. Uma coisa é você passar pela prefeitura farejando oportunidades políticas para depois do seu mandato. Não é o meu caso. Eu gosto de ser prefeito de São Paulo e quero deixar marcas, independentemente da compreensão de curto prazo que isso possa me trazer. Eu não tenho problemas em comprar boas brigas que vão representar um futuro melhor para os meus filhos e netos.

Qual foi a maior dificuldade para aprovar o Plano?

Não sou a pessoa mais indicada para responder.

Não houve uma pressão imobiliária?

Houve. Desde sempre. Na gestão da Marta [Suplicy] também houve. Ela não conseguiu aprovar o plano que ela queria. Eu consegui. Mas a conjuntura política na época era de muita imaturidade. A direita no Brasil, que tem muita força, é muito inculta, demora a aprender. Às vezes a experiência internacional ajuda mais do que a local. Eu conseguiria implementar 400 quilômetros de faixa exclusiva de ônibus, 400 quilômetros de ciclovia [ambas promessas para até o fim do mandato], duplicar as áreas de ZEIS [para habitação popular], se não houvesse um amadurecimento também de fora para dentro? De Medellín, de Bogotá, de Nova York, de Paris... Nós estamos atrasados. Podíamos ter sido pioneiros, na gestão da [Luiza] Erundina, da Marta, que eram progressistas.

O plano fala em mudar a cidade inteira. A gente já sabe que o centro, de certa forma, já está formado de forma desorganizada...

Já está havendo uma mudança nítida do centro. Uma decisão simples que tomamos: não tinha coleta de lixo aos domingos no centro porque se dizia que o centro fecha no final de semana e não produz lixo. Decidi testar. Foram cem toneladas recolhidas. O centro agora é outro na segunda de manhã. Isso atrai investimento. Quando eu assumi tinha 17 praças ocupadas por barracas, não tem nenhuma. Estava havendo uma favelização das praças em São Paulo. Hoje, se eu tivesse recursos, eu compraria um imóvel no centro. Tende a se valorizar.

Há urbanistas que criticam que o plano colocou poucas regras em áreas que vão ser alvos de especulação, como as margens dos rios, os antigos bairros industriais... Há preocupação para que se evite que o mercado imobiliário faça suas próprias operações urbanas nessas áreas?

Se for bem organizada a operação urbana...

Mas quando ela é colocada pelo mercado imobiliário não vai privilegiar praça, espaços de uso comum.

Será que isso também não mudou?

A interferência do mercado imobiliário nesse plano diretor não foi para tornar a cidade mais humana. Fez com que as cotas de solidariedade mudassem e permitissem que as moradias populares fossem construídas em locais distintos dos grandes empreendimentos, ao contrário do que se previa. O mercado vai pagar para que os mais pobres fiquem longe, segundo a Raquel Rolnik.

Mas qual a cidade do Brasil que tem cota de solidariedade?

Nenhuma. Mas houve essa concessão importante ao mercado...

Eu não fiz concessão nenhuma. Nem estava no projeto original a cota de solidariedade. A gente até avaliou que seria talvez uma proposta polêmica demais para ser feita pelo Executivo. Construímos por dentro da Câmara. A pressão, se existiu, não foi aqui, foi lá. E, se for ver, a Câmara avançou em relação ao projeto do Executivo. Temos chance de avançar mais ainda nas leis de ocupação e nas operações urbanas. As operações urbanas não vão mais poder ser como eram. Não vai mais poder ter operação urbana sem habitação popular.

Política

Há quem comente que é alta a chance de você não ser reeleito em 2016, mas que seria reconhecido no futuro. Como vê isso?

Acho que isso não está dado, nem uma coisa, nem outra. Não está dada qual vai ser a percepção da cidade em 2016. Óbvio que optamos por correr riscos e fazer as mudanças. Eu vou continuar fazendo as mudanças que São Paulo precisa. A cidade precisa de um horizonte de longo prazo, que ela não tem. Eu entendo que tem um tripé da minha administração que é o Plano Diretor, o PAC [Programa de Aceleração ao Crescimento] e a renegociação da dívida com a União que, se tudo der certo, o Senado vota depois da eleição. Isso repercute no dia a dia do cidadão lá de Cidade Tiradentes? Imediatamente não, mas eu vou estar salvando a vida dos filhos e netos dessa pessoa. Se alguém não se preocupar com o longo prazo, o futuro não vai chegar.

Essa sua postura incomoda o seu partido. Tem pessoas que dizem que você tem um estilo de governo “exageradamente reservado e técnico”, pouco populista...

Nos meus oito anos de Ministério da Educação, seis e meio como ministro, a crítica [que recebia] era exatamente essa. No dia que eu sai, eu sai como o ministro mais bem avaliado do governo Dilma. Ela vai para a campanha com as marcas da educação, como o Enem, o Prouni. Mas foram oito anos de trabalho para chegar nisso. O estilo era o mesmo. Eu não fazia pirotecnia, aguardava maturar os projetos, as pessoas compreenderem.

Mas o PT não está no melhor momento na visão dos paulistanos....

O PT quando está no pior momento está melhor do que qualquer partido. No pior momento, está com o triplo de intenções de voto do segundo colocado.

Em São Paulo não é bem assim.

Estou falando do Brasil. Em São Paulo nós sempre tivemos dificuldade, na cidade e no Estado. Depois da eleição do Lula nós só voltamos a ganhar na minha eleição. Perdemos em 2004, 2006, 2008 e 2010 com o Lula com 80% de aprovação, inclusive na cidade de São Paulo. Pra não falar na Marta, que perdeu a reeleição e é hoje considerada a melhor prefeita da cidade. A cidade reage muito por impulso, às vezes vai se apropriar de uma conquista anos depois.

Mas ninguém do partido está pressionando você para mudar?

Sim, tem um debate acontecendo sobre a questão da comunicação. Essa semana [semana passada] o governo municipal entregou a única central de triagem mecanizada da América Latina para triplicar a coleta seletiva da cidade. Anunciamos o parque do Jockey Clube, que é uma demanda de 20 anos. O Belas Artes reabriu e quem foi atrás da Caixa Econômica Federal para isso foi o Juca Ferreira, meu secretário de Cultura. Estou falando dessa semana. E quem sabe? Quem junta lé com cré de que está acontecendo alguma coisa na cidade? Temos uma questão a resolver, que é como fazer o cidadão perceber que tem uma ordenação. São Paulo não inaugura um hospital há dez anos, eu vou inaugurar o meu primeiro agora e licitar mais dois esse ano. Acabei com a aprovação automática nas escolas, depois de 20 anos de debate. Quando eu falo tudo isso para o Lula, ele fala: ‘Como a gente faz chegar nas pessoas o que está acontecendo?’.

E como vão fazer?

É um desafio. Existe um bloqueio em relação ao PT. Eu sou mais cobrado em um ano e meio de governo do que o Governo estadual por 20 anos ininterruptos. É um contexto, nós precisamos compreender o que está acontecendo e tentar estabelecer canais de comunicação com as pessoas. Não é só pelo Governo. É para as pessoas se apropriarem das coisas. Não é uma questão da política partidária propriamente dita, mas da grande política, das políticas públicas, de pra onde vai a cidade.

Será que também não havia uma expectativa enorme de mudança com seu governo?

Eu não tenho problema nenhum com a grande expectativa gerada. Eu tenho preocupação com o tempo que eu tenho que ter para dar consequência para tudo que está em execução (risos). São Paulo ficou oito anos sem entregar um quilômetro de corredor de ônibus. Estou com 37 quilômetros em execução. No começo do ano que vem nós vamos chegar a cem quilômetros em execução e, se Deus quiser, eu termino a execução de outros 50. Mas eu tenho que fazer licenciamento ambiental, desapropriação, licitação, negociar com o Tribunal de Contas do Município, com a Caixa Econômica Federal, fazer financiamento do PAC. Não é uma coisa que você toma posse e dá a ordem de serviço.

A pesquisa Datafolha mostra que despencou a sua aprovação entre os jovens, justamente a parcela da população que tem mais expectativa de mudança.

Tem muita desinformação também. Se tem alguém que ampliou as oportunidades educacionais nesse país pros jovens fui eu.

Mas se a gente fala de cidade... Esses jovens também querem se apropriar da rua. Querem coisas práticas para o cotidiano deles, praça, ciclovia.

A vida inteira que eu conversava com a juventude no Governo da Marta, pediam as praças wi-fi. Até o final do ano vamos instalar 120 praças wi-fi, 24 já estão operacionais. E aí? O cara não associa. Caiu do céu a praça wi-fi (risos).

E por que você acha que caiu a sua aprovação?

Eu não fiz análise de pesquisa. Com todo o respeito, pesquisa é uma coisa importante, mas eu acho que o jornalismo dá importância desmedida para isso. Eu passei a campanha inteira ouvindo que eu seria derrotado, que eu não iria para o segundo turno. Acho pesquisa legal, até olho de vez em quando. Mas vamos relativizar um pouco a importância. Tem vários artigos que eu guardei de recordação na eleição, apostas definitivas de que eu estava fora do segundo turno.

Mantendo o assunto na juventude. A Copa surpreendeu... Foi impressionante o que aconteceu na Vila Madalena. São Paulo não tem preparo para receber tanta gente assim?

Acho que provou o contrário, que tem...

Mas houve momentos de conflito...

Com 70.000 pessoas em um quarteirão, estaríamos pedindo o impossível... São Paulo deu um banho na Copa. Mostrou que é cosmopolita, que está pronta para qualquer desafio, como eu sempre disse.

O policiamento funcionou em relação à criminalidade. Dilma Rousseff disse que houve uma coordenação positiva entre Estado, município, Governo federal. Por que no dia a dia não há essa coordenação?

Porque a segurança pública é uma atribuição do Governo do Estado. Esse modelo tem que mudar. Para a Copa houve todo um arranjo institucional. Quem conhece mais da cidade é o prefeito, por definição. Como o prefeito não opina sobre segurança pública na cidade? O comando da capital só conversa comigo por deferência, não por regras institucionais.

Esse debate de mudança institucional da polícia já começou a ser feito pelos presidenciáveis. É possível mudar rapidamente?

Acho que os candidatos a governador vão apresentar propostas diferenciadas sem a necessidade de mudar a Constituição. A responsabilidade pode continuar sendo do Estado. Mas nas regiões metropolitanas, a governança não pode ser como numa cidade pequena do interior. Aqui precisa ter uma gestão compartilhada da segurança, como foi na Copa. Funcionou. Mas foi excepcionalmente.

E como transformar a exceção em regra?

Depende do Governo do Estado. Tem que cobrar os candidatos. Tenho falado muito com o Padilha, que ele tem a oportunidade de propor um outro tipo de governança da segurança pública.

Se mudasse esse eixo da segurança pública poderia melhorar essa questão dos abusos policiais?

Tudo melhoraria numa gestão mais partilhada com os prefeitos.

Se o PT conseguir o Governo do Estado, o que seria mais urgente fazer?

Acho que o que o Padilha vai propor é, sem sombra de dúvida, [política de] segurança. Ensino médio é outro problema grave. E a questão federativa, sobretudo na região metropolitana. Quando o Padilha fala em lançar o Bilhete Único metropolitano ele sabe que tem muitos trabalhadores que não moram em São Paulo e trabalham aqui. E pagam uma fortuna de transporte porque não há integração.

O Eduardo Campos, candidato à presidência, está falando em tarifa zero para o transporte público. É viável?

Eu já disse que se fossem municipalizados os tributos que incidem sobre a gasolina, seria possível ter uma política de subsídio, que podia representar o congelamento, a redução ou até o passe livre, talvez para alguns segmentos, não necessariamente universal. Fiz uma proposta pública. Se ele abraçar essa proposta tem que dizer como vai viabilizar.

O que mudou desde a última vez que conversamos?

Acho que 2013 foi totalmente atípico. Imagina no quarto mês de governo, uma pessoa presenciar uma mudança de humor. E teve muita politização, no mau sentido da palavra, de temas que poderiam ser conversados com um pouco mais de tranquilidade e que não foram. Foram temas muito apaixonados e que ninguém mediu as consequências para São Paulo, como a revogação aumento do IPTU, da tarifa, uma série de coisas. Não foi um impacto para o Fernando Haddad, foi para a cidade. Vivemos um 2013 assim, em que não era possível aprofundar os debates.

Esse ano é mais fértil para isso?

Até por ser um ano eleitoral, acho que teremos mais oportunidade disso. Quando o espaço de debate está interditado é tudo binário, empobrece a política. Acho que a eleição pode ajudar.

Na outra entrevista, você disse que sua métrica de sucesso não era a reeleição. A eleição do Padilha é uma métrica de sucesso para você?

Essa não é nem a expectativa dele. Não deve ser assim que funciona. Até porque, como eu disse, o Lula era presidente da República e nós não conseguimos nos eleger em São Paulo. Não existe esse vaso comunicante.

Mas não tem como negar que a rejeição a seu governo pode refletir na eleição do Padilha.

Não estou negando que não possa refletir. É natural que isso [rejeição] seja usado [na eleição]. Mas também é uma oportunidade de explicar o que estou fazendo. Qual a oportunidade que os partidos políticos têm de explicar o que estão fazendo? Nas eleições. Então da mesma forma que você me diz isso, eu te digo: tem uma oportunidade da gente convocar na TV, nas rádios, a discussão de políticas públicas. Quem acha que está fazendo uma boa política pública, acha bom.
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Robson Marinho será a estrela na TV?

Ele
Já está definido o tempo que os candidatos ao governo de São Paulo terão no horário eleitoral “gratuito” de tevê, que começa em 19 de agosto. O empresário Paulo Skaf, do PMDB, garfou a maior fatia - 5 minutos e 58 segundos. Ele terá um minuto a mais de exposição do que o governador Geraldo Alckmin (PSDB), que ficou com 4 minutos e 51 segundos. Já o ex-ministro Alexandre Padilha (PT) terá quase o mesmo tempo do tucano — 4 minutos e 22 segundos. Se os dois oposicionistas utilizarem bem o seu tempo de televisão, a vida do tucano não será nada fácil. Até agora, ele lidera com folga nas pesquisas — algumas delas que mais se parecem como peças de campanha eleitoral —, mas o seu telhado de vidro é frágil!

Os programas dos adversários poderão explorar, com fartura de imagens e depoimentos, a grave crise de água que atinge o Estado mais rico da federação. Estudos técnicos ajudarão a comprovar que o colapso do abastecimento não é culpa de São Pedro, mas sim da falta de planejamento e de investimento no setor. Também poderão exibir as cenas dantescas da superlotação do Metrô, com suas panes quase diárias em decorrência da ridícula ampliação do sistema e da ausência de manutenção. Outro tema muito sensível é o da segurança pública, que atormenta milhões de paulistas — inclusive a própria família de Geraldo Alckmin, que recentemente foi vítima de uma tentativa de sequestro. A mídia amiga simplesmente abafou o caso!

Mas um assunto que assusta até o glacial “picolé de chuchu” — segundo a corrosiva definição de José Simão — é o da corrupção nestas quase duas décadas de reinado tucano em São Paulo. O caso mais recente — o do “trensalão tucano”, o bilionário esquema de propina entre multinacionais e secretários de vários governos do PSDB — pode abalar as pretensões Geraldo Alckmin. Basta expor com frequência a imagem de Robson Marinho, o principal pivô do escândalo e atual integrante do Tribunal de Contas do Estado — uma raposa tomando conta do galinheiro. Os documentos sobre desvio de grana e montagem de Caixa-2 são explosivos. Suas mansões no litoral paulista também são fotogênicas.

A própria Folha tucana, numa notinha publicada em 20 de março, revelou que este é o maior temor do atual governador, que tenta a reeleição. “Estrategistas tucanos avaliam que as acusações contra Robson Marinho, conselheiro do TCE e ex-chefe da Casa Civil de Mario Covas, envolvido no caso Alstom, são as que têm maior potencial de dano eleitoral. ‘A foto dele todo dia com a medalha no peito tornou-se insuportável. O partido deveria colocá-lo em uma mala e mandá-lo para a Groenlândia’, diz um conselheiro do governador”. Ou seja: há muito material inflamável para expor na televisão. O que não foi dito pela mídia tucana agora poderá ser desnudado — desde que não predominem as furadas teses “propositivas” dos marqueteiros!

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Falha em projeto provocou queda de viaduto em BH, diz construtora


Empresa recomendou demolição de outra alça por risco de desabamento.
Resultados de perícia feita por construtora foram apresentados nesta terça.

A construtora Cowan, responsável pela obra do Viaduto Guararapes que caiu e matou duas pessoas em Belo Horizonte, afirmou nesta terça-feira (22) que falhas no projeto executivo provocaram o acidente com a estrutura. A empresa ainda recomendou a demolição imediata da outra alça do viaduto.

Segundo a Cowan, os resultados dos pareceres técnicos sobre o projeto executivo apontaram os problemas. As conclusões da perícia contratada pela construtora foram apresentadas nesta tarde em entrevista coletiva na capital mineira.

O viaduto caiu no dia 3 de julho sobre a Avenida Pedro I. Um micro-ônibus, um carro e dois caminhões foram atingidos, duas pessoas morreram e 23 ficaram feridas.

Segundo o perito Catão Francisco Ribeiro, o bloco de sustentação deveria ter recebido mais ferragem na armação, e que apenas 1/10 do necessário foi usado. Com relação a esta falha identificada, a empresa afirmou que não é função dela reavaliar um projeto entregue pela Prefeitura. (Veja, abaixo, o vídeo divulgado pela construtora)



Ainda de acordo com Ribeiro, é um “milagre” que a outra alça ainda não tenha desabado. Ele ainda afirmou que as escoras deste elevado foram retiradas nesta terça-feira por representar riscos aos trabalhadores.

A recomendação de demolição da outra alça e a interdição total do local da queda já foram repassadas à Prefeitura, conforme a Cowan.

A construtora afirmou que construiu 11 viadutos em Belo Horizonte e que os outros 10 elevados não correm nenhum risco de desabamento.

O projeto executivo foi elaborado pela Consol Engenheiros Consultores. A empresa informou que está reavaliando o projeto, e aguarda o resultado da perícia oficial para a conclusão final.

Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura disse que está analisando o relatório apresentado pela construtora, para tomar as providências que julgar necessárias em relação ao viaduto Guararapes.
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A explicação de Aécio não decola


Desde domingo, quando o repórter Lucas Ferraz contou que a Viúva construiu uma pista de pouso asfaltada no município de Cláudio (MG), a seis quilômetros da fazenda centenária do ramo materno da família de Aécio Neves, o candidato tucano à Presidência da República ofereceu explicações insuficientes para satisfazer a curiosidade de uma pessoa que pretenda votar nele em nome do seu compromisso com a gestão e a transparência.

Situações desse tipo afloram em campanhas eleitorais e a maneira como os candidatos lidam com elas instrui o julgamento que se faz deles.

O campo de aviação de Cláudio fica a 120 quilômetros do aeroporto de Confins e a 36 quilômetros da pista bem equipada de Divinópolis. Lá estão as terras da família Tolentino, na qual nasceu Risoleta, avó de Aécio e mulher de Tancredo Neves.

Ela morreu em 2003, deixando no espólio a Fazenda da Mata, recanto onde seu neto às vezes se refugia. A obra custou R$ 13,9 milhões ao governo do estado e foi construída em 2010 quando ele o governava. No ano anterior, segundo o IBGE, a receita orçamentária realizada do município foi de R$ 26,3 milhões.

Aécio respondeu com uma generalidade: “Tudo foi feito com a mais absoluta transparência e correção.” Juntou uma redundância: “O aeroporto foi construído em área pertencente ao estado, não havendo, portanto, investimento público em área privada.” Finalizou com uma precipitação: “Já foi tudo explicado.”

Por enquanto há em Cláudio uma pista de um quilômetro, capaz de receber jatinhos de até 50 lugares, sem equipamento ou homologação da Anac. Falta explicar é a necessidade de a Viúva ter construído essa nova pista naquelas terras.

A área foi desapropriada em 2008. Sem isso a obra não poderia ter sido custeada pelo governo do estado. Os Tolentino disputam o valor oferecido pelas terras (R$ 1 milhão). Uma peritagem, ainda que tardia, poderá resolver a questão.

O próprio candidato argumenta que “aeroportos locais, que não possuem voos comerciais, ou pistas de pouso fechadas são prática comum em aeroportos públicos, no interior do país, como forma de evitar invasões (...) que possam oferecer riscos à segurança dos usuários”.

Tem toda razão e leva ainda o mérito de expor uma questão relacionada com os investimentos públicos em pistas que só recebem aviões privados. Talvez Cláudio precisasse de uma. Do jeito que está, recebe irregularmente uns dois aviões por semana.

O ex-governador informa também que não se tratou de construir uma nova pista, mas apenas de modernizar outra, de terra, feita em 1983, quando seu avô era governador e um Tolentino, prefeito da cidade. A Viúva não deve ter ficado com essa conta, pois a terra era privada.

A comodidade de uma pista de pouso paga e mantida pela Boa Senhora é o objeto do desejo de todo fazendeiro. Tome-se, porém, o exemplo de Paul Mellon, um finíssimo bilionário que vivia entre seu haras da Virgínia e o mundo.

Comprou um avião e, para seu conforto, construiu um aeroporto dentro de suas terras, em Upperville. Lá, avisa-se: “Uso privado. É necessária autorização para pousar.”

Mellon fez o aeroporto com o dinheiro dele. A pista de Cláudio, como diria Armínio Fraga, foi construída com o “meu, o seu, o nosso”.

Elio Gaspari
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