17 de jul de 2014

Bomba! Os tentáculos de Serra dentro da CBF





Para entender a importância desta conexão, três livros são obrigatórios: “O Lado Sujo do Futebol”, “A Privataria Tucana” e “Operação Banqueiro”.



Os bastidores e as relações que abriram as portas da Comary para a CBF TV

Equipe da CBF TV na Granja Comary
A primeira providência depois de tragédias é abrir a caixa-preta.

No desastre da seleção brasileira, um dos mistérios a serem revelados tem nome, sobrenome e CNPJ. Possui o dom da onipresença e era o único corpo estranho que cruzava os limites da intimidade do grupo de jogadores, com acesso aos momentos de lazer, refeições, quartos e a momentos sagrados do vestiário. Não bastasse a permanente falta de privacidade nos treinamentos, do lado de dentro da Granja Comary, a preparação do Brasil também tinha seu Big Brother. Acertou quem pensou em CBF TV, a nova menina dos olhos da cúpula da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

No entanto, a CBF TV não tem CNPJ. Conhecer o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica por trás da CBF TV é puxar o fio de um novelo. Puxar uma teia de relações, histórias de padroado, nepotismo, constituições societárias que conduzem a enredos nebulosos, financiamento de campanhas políticas e um mundo de sombras, chegando até aos mais profundos subterrâneos do processo de privatizações que o Brasil viveu. Tudo isso desfilando pelos corredores da concentração. Durante um Mundial de futebol. É nesse ambiente que se deu a preparação de uma equipe com a responsabilidade de disputar uma Copa do Mundo em casa.

Todos os caminhos percorridos para se entender por que uma TV interna conquistou tamanha importância na entidade levam ao mesmo título, o terceirizado que encarna a CBF TV: Mowa Sports. Por trás do singelo nome que provavelmente homenageia a pacata vila na Índia, estão sobrenomes ligados ao poder da confederação e vasos comunicantes com sociedades que encarnam enredos de turbulência e um rastro de pegadas nas páginas judiciais. Tudo muito distante da crença de que “o Brasil que dá certo está resumido na sigla CBF”.

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CBF TV: caminho livre na casa da seleção, em Teresópolis
Quatro acionistas compõem oficialmente a constituição societária da Mowa Sports: Gregório Marin Júnior (maior acionista), Alfredo Monteiro Correia, Flávio de Souza e Guilherme Salvador Santa Rosa. Além dos sócios citados, a empresa tem um corpo de executivos que mais uma vez remete à Índia, com suas castas, hereditariedades e endogamias: Marcus Vinícius Del Nero, filho do atual todo-poderoso da CBF, Marco Polo Del Nero, é o diretor de arte.

A capacidade de absorver os que têm laços com os corredores da CBF abrigou também Rafael Carrion Fernandes. Depois de anos na assessoria de imprensa da CBF, o genro de Wagner Abrahão é agora executivo da Mowa. A saída de Ricardo Teixeira, o parelha fiel de Abrahão, não diminuiu a força deste último na CBF. O dono do Grupo Águia (um dos dois, junto com o grupo Traffic, detentor do direito de comercializar no Brasil os pacotes de hospitalidade da Match), de estreitas relações com a CBF, tem o genro na Mowa mesmo na era José Maria Marin.

Já seria uma boa história, suficiente para tentar se entender por que uma seleção, com o hercúleo desafio de defender seu prestígio em casa, contra todos os fantasmas de clima de frouxidão na concentração, descendentes da Casa do Joá, de 1950, e de Weggis, em 2006, tem alguns terceirizados em suas dependências mais íntimas a serviço da menina dos olhos, a CBF TV.

Com duas dúzias de pessoas, um elenco maior do que o próprio time da seleção brasileira, a Mowa Sports, representando a CBF TV, adentrava os ambientes de uma concentração. Enquanto o time tinha poucos e sofríveis treinamentos, a “Orquestra Mowa” tocava afinada nas dependências restritas aos atletas da Granja Comary. Uma orquestra de terceirizados da CBF maior do que grande parte das equipes de televisão do mundo inteiro ali presentes. Adentrando recantos da concentração onde nas demais seleções reinava a privacidade.

Mas é com o cruzamento dos dados dos sócios da Mowa Sports que a teia se amplia e conduz a trama para bem longe do futebol. E pode-se percorrer os caminhos para entender a influência e a força da empresa portadora da chave que abre as portas dos recantos mais íntimos da seleção brasileira.

Gregório Marin Júnior tem participação em diversas outras empresas. Algumas delas em comum com outros sócios da Mowa. Mas é em uma delas que a participação do majoritário da Mowa chama atenção e fornece pistas para que se alguns caminhos fiquem mais iluminados.

Ao lado do pai, Gregório Marin Preciado e da mãe, Vivência Talan Marin, Gregório Marin Júnior foi acionista da Gremafer Comercial e Importadora Ltda, atualmente sob bloqueio judicial. Vivência é prima-irmã, por parte de mãe, do ex-governador José Serra (Gregório Marin Preciado e José Serra tinham em sociedade um terreno no Morumbi, de 828 metros quadrados). Em 1993, a Gremafer contraiu empréstimo de valor equivalente a US$ 2,5 milhões junto ao Banco do Brasil, em uma agência de São Bernardo do Campo. O empréstimo socorria também a Aceto Vidros e Cristais, de Gregório Marin Preciado.

Já no ano seguinte, a Gremafer, de Gregório Marin Júnior e de seu pai, Gregório Marin Preciado, não consegue honrar o empréstimo do Banco do Brasil.

Imóveis são dados como garantia. Mesmo em dívida, as empresas dos Gregórios pai e filho doaram R$ 87.442,82 para a campanha de José Serra ao senado, em 1994. No fim de 1994, ano em que Fernando Henrique Cardoso vence o pleito presidencial, pedem dois meses para a renegociação. Eleito senador, Serra vai para o Ministério do Planejamento e Ricardo Sérgio de Oliveira, que tinha sido o arrecadador das campanhas de Serra e FHC, vai para a diretoria internacional do Banco do Brasil. Antes disso, o BB decide arrestar imóveis dos devedores. No intervalo entre a decisão do BB e do bater de martelo da justiça, o terreno é vendido por José Serra e Gregório Marin Preciado.

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Cópia do documento que mostra a sociedade da Gremafer
Uma série de ações de rolagem, novos prazos, reduções e novos créditos se seguem em relação ao empréstimo inicial. Todos os movimentos, aqui precariamente resumidos, estão descritos detalhadamente em ação cautelar de improbidade dos Procuradores da República, Alexandre Camanho de Assis e Luiz Francisco Fernandes de Souza, em 17 de setembro de 2002.

Os vínculos entre Preciado e Ricardo Sérgio de Oliveira reaparecem ao público na CPMI do Banestado, onde documento do 16° Ofício de Notas de SP mostra pagamento mensal de R$ 87.700,00 para o procurador de Ricardo Sérgio. A CPMI mostra depósitos de Preciado para Ricardo Sérgio em empresas offshores, valendo-se de doleiro de Barcelona. Vinculada a Ricardo Sérgio, a Franton Interprises recebe mais de US$ 1,2 milhão em depósitos, grande parte oriunda de Gregório Marin Preciado, como consta no relatório da CPMI.

As linhas em comum da Mowa Sports e da Gremafer se cruzam antes mesmo da admissão de Gregório Marin Júnior no quadro societário da Mowa Sports. Já em 16 de fevereiro de 2007, Ismael Pereira de Moraes é admitido entre os acionistas da Mowa Sports com participação de R$ 67.000,00. Ismael Pereira de Moraes foi contador da Gremafer durante 30 anos. Já entra na Mowa como o maior acionista, e o capital do outro sócio, Alfredo Monteiro, é redistribuído, ficando menor do que o de Ismael Pereira de Moraes. O mesmo Ismael Pereira de Moraes que também havia constado como um dos sócios da Gremafer. Em 28 de janeiro de 2010, Ismael retira-se do quadro da Mowa com seus R$ 67.000,00. A saída de Ismael, contador de Gregório Marin Preciado, ocorre na mesma data da entrada de Gregório Marin Júnior, com R$ 67.000,00, assumindo também a condição de maior acionista.
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Cópia do documento mostra entradas de Ismael P. de Moraes e Gregório Marin Junior  como sócios
Gregório Marin Preciado, parceiro do maior acionista da Mowa Sports, seu filho Gregório Marin Júnior, na Gremafer, foi um dos protagonistas de todo o processo de privatização nos anos 1990. Muito além do vínculo familiar com José Serra. Um protagonista que se movia nas sombras e cujo papel até agora segue sem maiores holofotes, apesar de sua importância. Espanhol de nascimento e naturalizado brasileiro, Gregório Marin Preciado chegou Ao Brasil em 22 de abril de 1952, pelo porto de Santos. A dureza dos primeiros dias na Vila Formosa e no Brás ficaria para trás anos depois, como se viu acima. E mais ainda quando os espanhóis começam a ter papeis importantes nas privatizações. Sem cargo formal, representou a Iberdrola, que arrematou empresas nos setores de energia, através de um consórcio, onde estava também Ricardo Sérgio de Oliveira.

No livro “Operação Banqueiro”, de Rubens Valente, Preciado é citado por Carla Cico, braço direito de Daniel Dantas, como elo importante da “Conexão Espanhola”, que teria agido nos bastidores e junto a funcionários do governo em favor da telefonia espanhola no processo. A ampla documentação obtida pelo livro mostra Gregório Marin Preciado, em uma das linhas de investigação privada comandada pela Kroll Associates, como relacionado com o processo de privatização da telefonia.

Lançada em 2003 como marca comercial da Telefônica, da Espanha, a Vivo se tornaria em 2005 patrocinadora da seleção brasileira. Em 2007 e 2010, ocorrem as alterações de sócios, titulares e diretores, que levam para a Mowa nomes em comum (Ismael Pereira e depois Gregório Marin Júnior) com a empresa de Gregório Marin Preciado. Em 2010, já com numerosa equipe, segue produzindo conteúdo na seleção para a Vivo. E agora em 2014, a Mowa, que também tem como cliente a Vivo e mais três patrocinadores em comum com a CBF, além da equipe na concentração da seleção, passou a produzir conteúdo para a CBF TV.

Alfredo Correia, um dos sócios da Mowa, questionado pela reportagem, negou que Gregório Marin Preciado tenha tido alguma participação na intermediação de contratos entre Mowa, patrocinador e CBF. Na nova sede da entidade, a CBF TV terá um suntuoso estúdio.

Questionada pela reportagem, a Mowa afirma que a relação é anterior. “Somos fornecedores da Vivo há mais de 12 anos. Em 2005 vislumbramos o uso de plataformas móveis/digitais em esporte e criamos a primeira ação de equipe jornalística móbile, quando criamos o Repórter Vivo, que segue ativo até hoje”.

Numa demonstração explícita da velha máxima de que o capital não tem pátria (tampouco ideologia), a Mowa, mesmo tendo seu sócio majoritário com laços profundos com o tucanato na política nacional, prestou serviço para o Palácio do Planalto já no mandato da presidenta Dilma Rousseff. Sem licitação, em contrato assinado com a Presidência da República em 25 de junho de 2012, Gregório Marin Júnior representou a Mowa para fornecer “serviço de envio de SMS”. A reportagem enviou questões sobre as razões da escolha sem licitação para a Secretaria Geral da Presidência, que não respondeu.

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Cópia de parte do contrato entre a Presidência da República e a Mowa
Indagada sobre algum tipo de parentesco entre Gregório Marin Júnior, sócio majoritário da Mowa, e o presidente da CBF, José Maria Marin, a Mowa negou e disse ser apenas uma coincidência de nomes.

A CBF não respondeu a reportagem.

Lúcio de Castro, do Rio de Janeiro (RJ), especial para o ESPN
PS do Viomundo: José Serra e Marco Polo Del Nero são conselheiros do Palmeiras. Del Nero, atual vice-presidente da CBF, assume a presidência da entidade em 2015. A CBF é quem banca financeiramente a CBF TV.
No Viomundo
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O "povo" deu aulas ao "topo" e à Política com a Copa



Ninguém aguenta mais o defunto, sabemos, mas como pior será o defunto redivivo voltemos ao tema.

Marin, ele mesmo um quase, apresenta Gilmar Rinaldi como Coordenador de seleções.

Gilmar, terceiro goleiro na seleção de 94, era até há pouco agente de jogadores, por aí.

Por mais que ele venha ser sério no cargo, é muito estranho iniciar assim uma suposta "renovação", algo que deveria de saída atrair a confiança de quem não confia em Marin & Del Nero & Cia por saberem quem são, o que fazem e já fizeram na vida.

Dizem e dirão que é "utopia" etc e é mesmo, mas insistamos: ou essa caquerada toda renuncia e assim possibilita uma reestruturação verdadeira de CBF, estatutos, federações, clubes, ou nada vai acontecer pra valer no futebol brasileiro. Nada.

Os italianos caíram fora da Copa e, no mesmo dia, renunciaram o técnico Prandelli e toda a cúpula da federação. Os alemães iniciaram sua renovação, há mais de uma década, limpando o lixo e afastando roedores que infestavam seu futebol.

Triste e patético esses debates e enquetes sobre quem será o "novo técnico" e quetais, uma fórmula óbvia pra escapar da desastrosa performance na Copa. Atuação reveladora, em todos os quadrantes, do que é, do que cada vez mais se torna o futebol brasileiro.

Um futebol que tem nas sombras o homem que decide quem é grande e quem é pequeno, quem vai ter e quem não vai ter dinheiro. Não são os clubes com milhões e milhões de torcedores e a razão de ser do futebol e do negócio que decidem seu destino, é um homem. Um homem que fala e age em nome de outros homens. Um homem, apropriadamente no caso, chamado... Pinto.

Isso, de Gilmar, Marin, Del Nero, não vai levar a lugar algum, até a Brazuca sabe. Vai apenas permitir que os verdadeiros donos do negócio futebol e seus aliados, a turma das bolas, ganhe tempo, empreste discurso a quem disso precisa pra se recompor e tocar o barco de novo, no mesmo rumo.

Basta ver alegrinhos e alegrinhas, saltitantes na performance jornalismo & entretenimento anunciando cheios e cheias de gracinhas "a volta do Brasileirão". Aquele com jogos medíocres às 10 da noite e série B às terças e sextas. Quase sempre com estádios vazios, ou quase. O torcedor é um detalhe.

Ridículo, constrangedor, e pior ainda ver tanta gente embarcando nisso acriticamente.

Já está evidente do como será mais essa farsa. Assim sendo, é retomar a campanha que, anos depois de iniciada, levaria à queda da gangsteria no Bahêa.

Uma hora cola: Público Zero. Não compareçam aos estádios. Mexam no bolso de patrocinadores, da Tv que manda e desmanda, dos jogadores, do escambau. Só assim a casa cai. Um, dois meses sem ninguém ir aos estádios — a não ser os financiados, aquela bandidagem organizada — e todos seriam enxotados do navio.

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A ironia do livro de Serra


“Se em certo momento
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certa altura
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio sono,
elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.”
O poema acima, chamado “Na Noite Terrível”, é de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa.

É o trecho mais interessante de Cinquenta Anos Esta Noite, o livro em que Serra conta suas memórias da juventude. Elas vão do golpe, quando Serra era presidente da UNE, até sua volta do exílio, em 1977.

Serra diz, no livro, que sugeriu a Eduardo Frei que lesse o poema de Álvaro de Campos.

Frei fora presidente do Chile antes de Salvador Allende. Era um homem de centro. Na gestão de Allende, Frei foi um opositor tenaz.

Isso facilitaria as coisas para o golpe do general Augusto Pinochet, em 1973.

Frei jamais se perdoaria por não ter percebido o que vinha. Morreu amargurado por não ter apoiado Allende quando talvez ainda fosse possível evitar Pinochet.

Foi num encontro em São Paulo, alguns anos depois do golpe, que Serra lhe recomendou a Frei “Na Noite Terrível”.

Não foi uma recomendação capaz de abrandar a dor de alma de Frei, naturalmente. Na verdade, era uma lembrança a mais para Frei de que ele cometera mesmo um erro brutal.

Serra parece jamais ter tido muita sensibilidade para confortar os aflitos, mas não é isto que quero sublinhar. É a ironia que se encerra no poema.

Alguém hoje poderia sugerir a Serra o mesmo que ele sugeriu a Frei: ler “A Noite Terrível”.

E se Serra, em certo momento, tivesse se voltado para a esquerda e não para a direita?

O essencial, na resposta, é que o PSDB não teria se transformado no que é hoje: um partido conservador, ossificado, destituído de charme, de ideias e de sentido.

O PSDB, sob Serra, foi progressivamente se tornando uma versão moderna da UDN. Sua maior força é o apoio torrencial da imprensa, como acontecia com a UDN, e sua bandeira oportunista é o “combate à corrupção”.

O PSDB não foi sempre isso, o abrigo e a esperança da plutocracia. Em sua origem, refletia a social democracia europeia, como diz seu próprio nome. Era de centro-esquerda.

O PSDB acabaria se encaminhando para a direita, e com isso deixaria livre o espaço do centro-esquerda para um PT que entendeu que com sua plataforma original de esquerda não chegaria ao Planalto jamais.

Na guinada conservadora, o PSDB perdeu não só o rumo — mas a ética. Serra foi vital nisso. Alguns episódios são memoráveis.

O Atentado da Bolinha de Papel, por exemplo, na campanha de 2010. Em 2012, Serra mostrou que podia descer ainda mais baixo. Como candidato à prefeitura de São Paulo, tentou num debate derrubar Haddad com a lembrança insistente de que este é amigo de Dirceu.

O livro, em si, pega o período menos interessante da vida de Serra. Você tem que gostar muito dele para se interessar por sua trajetória entre 1964 e 1977.

Serra viraria personagem relevante na política brasileira depois disso.

Haveria muito mais sentido em memórias dos dias do PSDB no poder. Serra teve grandes brigas com a equipe econômica de FHC e foi importante no processo de privatizações.

Como ele as vê hoje? Muita gente compraria um livro em que Serra se debruçasse sobre isso.

Também haveria farto material nas duas tentativas de Serra de se tornar presidente. Na primeira, em 2006, ele esteve com a taça nas mãos.

Lula parecia nas cordas sob o Mensalão, e a crença da mídia em que Serra venceria era tanta que Diogo Mainardi escreveu um artigo que começava assim: “Exatamente daqui a um ano Serra estará subindo a rampa do Planalto.”

Naqueles dias, vistas as coisas em retrospectiva, Serra fizera já o mesmo movimento de Eduardo Frei na gestão de Allende.

Fora, irremediavelmente, para a direita, abraçado à imprensa, e arrastara com ele seu partido.

Paulo Nogueira
No DCM
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Brasil se protegerá con complejos antiaéreos rusos


El Gobierno de Brasil confirmó la compra de tres baterías de los sistemas antiaéreas rusos Pantsir-S1. El contrato presupone la cooperación técnica, ciertas modificaciones del complejo y la formación de los empleados de la empresa de mantenimiento.

El valor del suministro alcanzaría 1.000 millones de dólares estadounidenses. "De momento nos concentramos en solucionar cuestiones tácticas como la estructura del contrato y la entrega de las tecnologías", comentó una fuente en el Ministerio de la Defensa de Brasil al periódico ruso 'Vzgliad'.

En septiembre el grupo de trabajo brasileño viajará a Rusia para ultimar la lista de modificaciones técnicas y en octubre o diciembre se firmará el contrato, afirmó el funcionario.

Un complejo antiaéreo universal

Pantsir-S1 es el complejo antiaéreo más moderno de Rusia. Posee dos bloques de combate consistentes cada uno en seis misiles antiaéreos hipersónicos y dos cañones del calibre 30. El complejo tiene un sistema de localización de blancos avanzado que permite intercambiar datos con los sistemas de misiles y de artillería, además de ofrecer una imagen visual detallada de cualquier objetivo.

"El Pantsir-S1 es un complejo universal para la protección de objetos claves", dijo Yuri Savénkov, vicegerente de la Oficina de Diseño de Instrumentos KBP, la empresa constructora del complejo. El sistema puede atacar cualquier objeto que vuele a una altura de entre 15 metros y 15 kilómetros, ya sea un avión, un misil, un dron u cualquier otro aparato. Además, los misiles pueden también atacar los blancos terrestres.

Asimismo, es el único sistema antiaéreo del mundo capaz de atacar objetivos en pleno movimiento: el Pantsir no necesita período de preparación para abrir fuego.

Cooperación ruso-brasileña

En el marco del contrato Rusia suministrará a Brasil tres baterías de los Pantsir-S1. Además, los especialistas rusos instruirán a los empleados de la empresa brasileña Odebreht Defensa e Tecnologia, que se encargará del mantenimiento de los complejos y de la producción de las municiones para los cañones.

También se planea que Moscú participe en el proyecto del desarrollo de un sistema antiaéreo propio de Brasil con componentes producidos en el país americano. Como primer paso de este programa, los complejos rusos se adaptarán para poder ser instalados en los camiones brasileños.

Brasil ya ha comprado a Rusia automóviles blindados Tigr, helicópteros de ataque Mi 35 y helicópteros de transporte Mi 26. Existe un acuerdo sobre el empleo del sistema de navegación rusa Glonass en Brasil. Los países también podrían cooperar en el sector aeroespacial.

No RT
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Vice de Aécio votou contra o Mais Médicos!

Me engana que eu gosto!


Contribuição notável do infatigável Stanley Burburinho:

Aloysio Nunes vota contra o Programa Mais Médicos

(Atualizado em 17 de outubro, às 16h29) Patrícia Mazzilli – “O Congresso Nacional votou um slogan de programa eleitoral para a campanha da presidente Dilma. A área da saúde não pode mais viver de paliativos e, tampouco, o governo demonizar os médicos brasileiros, desde que editou essa medida provisória, alardeando a tese de que eles não querem trabalhar nas condições que lhes são oferecidas”.

Foi assim que reagiu o líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira (SP), após aprovação, em votação simbólica, durante a discussão nesta quarta (16) da medida provisória que instituiu o Programa Mais Médicos (MP 621/2013).

Para o tucano, o problema da má gestão e do encolhimento do financiamento da saúde pública pelo governo federal não pode ser resolvido apenas com a ideia de importar médicos do exterior.

Ele disse ainda que os médicos não têm as condições necessárias no Brasil para cumprir e exercer a sua missão. “A pedra de toque de todo edifício que haveremos de construir para uma saúde pública sólida está no financiamento da saúde, mas infelizmente o governo está escamoteando”.

Ouça:



No Caf
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Picuinhas, mesquinharias e má-fé


Na primeira página do Estado de S. Paulo, a principal notícia de Política desta quinta-feira (17/7) afirma que, de olho na eleição deste ano, a campanha da presidente Dilma Rousseff vai adotar temas de seus principais adversários, o senador Aécio Neves (PSDB) e o ex-governador Eduardo Campos (PSB).

Na Folha de S. Paulo, a principal chamada de Política na primeira página anuncia que Aécio Neves pretende “aprimorar” os programas sociais criados pelos governos do Partido dos Trabalhadores.

Como na canção popular, “detalhes tão pequenos” e outros mais gritantes fazem a rotina da manipulação de informações que caracteriza o noticiário da imprensa hegemônica. No caso em questão, o Estado faz uma inversão de valores tão escandalosa que autoriza a desconfiar que seus editores perderam completamente o respeito pelo leitor.

Tanto o Estado como a Folha e o Globo noticiam que o candidato do PSDB pretende adotar e “melhorar” o programa Mais Médicos, lançado no ano passado pelo governo federal sob críticas de entidades representativas dos profissionais de saúde, que chegaram a fazer manifestações de protesto nas grandes cidades contra a vinda de médicos estrangeiros.

Como é de conhecimento geral, o então senador Aécio Neves e outros líderes de seu partido condenaram o projeto. Nesta quinta-feira (17/7), ele recebeu o apoio da Associação Médica Brasileira.

Ora, não é preciso ser o gênio da estratégia em política para perceber que, em qualquer disputa eleitoral, quem está na liderança tende a ser copiado, naquilo que dá certo, pelos que tentam subir na escala das preferências.

Pode parecer mera picuinha observar essas mesquinharias da cobertura jornalística, mas o fato é que, obcecados em derrubar do poder o grupo que vence as eleições presidenciais deste 2002, os principais meios de comunicação do País têm se especializado exatamente nisso: picuinhas e mesquinharias.

A mesma vira-latice

Observe-se, por exemplo, a cobertura dos jornais genéricos de circulação nacional sobre a reunião dos líderes de países emergentes e o movimento de aproximação com a América Latina, patrocinado pelo governo brasileiro. Usando a Copa do Mundo como oportunidade para reunir dirigentes dos países que formam o bloco conhecido como Brics, a presidente da República protagoniza um evento importante na busca do equilíbrio entre as forças econômicas e políticas do planeta.

Em qualquer outro país, esse seria o tom predominante no noticiário sobre a 6ª Cúpula dos Brics, encerrada nesta quinta-feira. Aliás, esse é o tom geral da mídia internacional, desde a agência americana Bloomberg até chinesa Xinhua, ou Nova China.

Entre as principais decisões anunciadas, certamente a criação de um banco a ser compartilhado entre os países do bloco é a mais relevante, porque representa mais autonomia econômica para o conjunto de nações emergentes, que passará a contar com uma fonte de financiamento independente das instituições dominadas pelos Estados Unidos e a Europa.

O evento marca outros acontecimentos importantes, como a aproximação entre Rússia, Índia, China e África do Sul e os latino-americanos liderados pelo Brasil, bem como contribui para aliviar as tensões geopolíticas ao proporcionar uma janela de oportunidade para os russos, cercados de sanções por parte de americanos e europeus em função da crise na Ucrânia.

Em qualquer outro país, a imprensa estaria propondo um debate interno sobre esse evento, que pode afetar o desenrolar das relações internacionais.

Mas o que fazem os jornais brasileiros?

Os editores dos diários de circulação nacional parecem ter trocado figurinhas e, nas edições da quinta-feira (17/7), as manchetes eram exatamente iguais:

“Brasil cede e Índia vai presidir banco dos Brics”, dizia o Estado de S. Paulo.

“Brasil cede presidência, e banco dos Brics é criado”, anunciava a Folha.

“Brasil cede, e Índia presidirá banco dos Brics”, afirmava o Globo.


Ora, o Brasil não cedeu coisa alguma, não abaixou a cabeça, como insinuam os jornais — a criação do Banco dos Brics havia sido proposta pela Índia desde a 4ª Cúpula, realizada em Nova Delhi em 2012, quando se convencionou que o país proponente teria a presidência executiva pelos primeiros cinco anos.

O cargo mais relevante na fase de implantação da instituição é a presidência do conselho, e essa função caberá ao Brasil.

O resto é a velha vira-latice da imprensa nacional.

Luciano Martins Costa
No OI
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Filiações: quem é Brics e quem é Wall Street?

Aécio deveria mostrar outras filiações, as históricas. Uma que importa saber, por exemplo, é quem é Brics e quem é Wall Street na disputa de outubro.

Aécio Neves resolveu mostrar a família no site de campanha.

Aquela coisa de ‘elevar’ o leitor ao nível do tanquinho de areia do ensino infantil. Aécio é filho de; pai de; tio de; neto de ... (a foto de Tancredo na parede só falta sorrir, como nos desenhos animados).

A vida é bela; a família mais bela de todas garante que o candidato tucano é um cara bacana...

A ideia, dizem os assessores, é combater o estereotipo do playboy desregrado, que pelo visto calou fundo nas pesquisas.

Aécio deveria mostrar outras filiações, as históricas, aquelas que decorrem de opções feitas na vida pública, não as herdadas na corrente sanguínea.

As eleições brasileiras de outubro — é forçoso reiterar, como tem feito Carta Maior — não podem ser desperdiçadas em um fabulação publicitária feita de personagens simpáticos e imagens cativantes.

As eleições de outubro dialogam com um poder nada simpático.

Apesar da presença invisível nos palanques, como tem sido dito neste espaço, ele detém a singular capacidade de asfixiar o debate nacional, ademais de condicionar a agenda dos partidos e governantes, antes e à revelia do escrutínio das urnas.

A fonte desse poder invisível remete à hegemonia das finanças globalizadas em nosso tempo.

Sua supremacia reduz de forma importante o repertório das iniciativas políticas nacionais.

Não é uma jabuticaba brasileira.

O que vale para o Brasil não é diferente do que ocorre na Argentina, mas também na França, ou na Nigéria.

O ingrediente decisivo da luta pelo desenvolvimento, a soberania reordenada pelo voto democrático, e o poder indutor do Estado, operam hoje por instrumentos sob forte turbulência e restrição.

Não há novidade nisso, claro.

Nas transições de ciclo de desenvolvimento, porém, quando decisões estratégicas devem ser tomadas para desobstruir o passo seguinte da história, tais restrições assumem contornos de uma asfixia quase imobilizante.

É o caso da encruzilhada brasileira atual.

Mudanças de fundo são requeridas para inaugurar um ciclo de investimentos.

Sem avanços na infraestrutura e na produtividade, estreita-se a margem de manobra para consolidar um novo estirão na redistribuição da renda, na redução da desigualdade e na universalização de serviços de qualidade.

As opções são duas.

Entregar a rapadura de vez aos mercados, deixar que eles resolvam os impasses na base do arrocho; ou tentar erguer linhas de passagem de um novo ciclo convergente da riqueza.

A segunda escolha requer a força e o consentimento de uma ordenação pactuada da sociedade e da economia.

Estamos, portanto, diante de uma encruzilhada da democracia.

A ruptura dessa asfixia no ambiente global acaba de registrar um capítulo importante nesta 3ª feira (15-07) .

Um novo banco de desenvolvimento e um fundo de reservas alternativos ao Banco Mundial e ao FMI foram criados na reunião de Cúpula dos líderes dos Brics, realizada em Fortaleza, no Ceará.

A mídia conservadora fez pouco diante desse ensaio de Bretton Woods cearense e preferiu afogar a atenção dos seus leitores naquilo que é secundário.

A saber: o valor dos fundos iniciais e a ocupação de cargos no novo banco ,em que o Brasil terá a estratégica diretoria encarregada de planos de investimento e expansão.

A Índia inaugurará a presidência rotativa e a China sediará a instituição em Xangai.

O desdém em relação aos valores iniciais envolvidos (US$ 100 bi de fundo de reservas e um funding de US$ 50 bilhões, no caso do banco de desenvolvimento) precifica a ignorância ou a má fé, ou as duas coisas juntas, na abordagem obtusa da emissão conservadora.

O que está em jogo no xadrez do século XXI é a construção de novas estruturas de poder global que rompam com os frangalhos resultantes do colapso de Bretton Woods.

Hoje, o FMI e o Banco Mundial restam como um zumbi da arquitetura disciplinadora do capitalismo imaginada para a ordem internacional em 1944.

Inteiramente prestativos aos desígnios dos mercados desregulados — que nasceram para disciplinar — funcionam, a exemplo das agencias de risco, como alavancas pró-cíclicas do vale tudo especulativo.

Na fase de valorização irracional dos ativos e de fastígio do crédito, certificam a higidez das estripulias de Wall Street — como nas vésperas do colapso de 2008; em seguida, acentuam a espiral contracionista, chancelando políticas de arrocho quando as bolhas especulativas explodem.

A reunião dos Brics no Brasil moveu as placas tectônicas dessa ruína cristalizada no xadrez mundial.

Os valores envolvidos ganham dimensões superlativas quando associados à contrapartida política do que está em jogo.

Objetivamente, e de forma consistente, a decisão dos Brics afronta a subordinação passiva das nações à desordem neoliberal.

Países que reúnem um PIB da ordem de US$ 16 trilhões, superior ao da Zona do Euro, e uma população conjunta de 3 bilhões de pessoas, informaram ao mundo que vão construir instituições que colidem com a lógica de Wall Street e de seus braços institucionais.

Convenhamos, não é uma notícia agradável para quem defende que o Brasil, por exemplo, dissolva a sua soberania, seu poder de consumo, o pré-sal e a sua industrialização — para citar alguns de uma longa série de itens — no detergente global dos mercados desregulados.

Carta Maior considera que a iniciativa histórica dos Brics amplia o espaço político para um debate qualificado de sua contrapartida no plano regional e nacional.
Não por acaso os líderes dos Brics se reuniram com os da Unasul, em Brasília, nesta 4ª feira.

A filiação que importa saber e que Aécio não registrou em sua fábula familiar, portanto, é quem é Brics, quem é Unasul e quem é Wall Street na política nacional?

Claramente, a disputa presidencial de outubro opõe dois projetos de futuro que guardam correspondência com a clivagem evidenciada nas decisões da cúpula reunida em Fortaleza.

Traduzir esse debate em textos que abordem a dimensão internacional e nacional da nova ordem em construção é o objetivo do seminário virtual, ‘O Poder da Internacional Financeira’, que Carta Maior está promovendo em sua página.

Para ele estão sendo convidados intelectuais de todo o Brasil e do exterior (leia também ‘O candidato oculto’).

Saul Leblon
No Carta Maior
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Alvo do míssil ucraniano poderia ter sido o avião do presidente Putin




Companhias aéreas de todo o mundo modificam as rotas de seus aviões para evitar Ucrânia


Os voos internacionais estão evitando o espaço aéreo da Ucrânia depois da queda do Boeing 777 da Malaysian Airlines sobre a República Popular de Donetsk.


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Nem reunião do Brics escapa

A contaminação do noticiário pela campanha eleitoral é onipresente. Não escapa nem a reunião do Brics, acrônimo criado por marqueteiros da Goldman Sachs para vender investimentos nos países que originalmente o compunham (era só Bric, não tinha a África do Sul). Que o leitor julgue pelas imagens abaixo, de manchetes do dia 16 de julho. Apenas o Valor destoa da manada e fala mais sério.

A patetada chega ao ponto de terem os três ditos jornalões usado o mesmo verbo e iniciado suas manchetes (mas será que isso é manchete?) com a mesmíssima construção, “Brasil cede”. A mensagem é: “Dilma deu mais uma mancada”. De uma sutileza comovente.

A única divisão é quanto à concordância de número: o Brics é um bloco ou os países são “brics”? (neste caso deve haver influência da publicidade: “O mundo é dos nets!”; não, sem brincadeira, é a influência do “s” final, que entrou na sigla para representar a South Africa). Estadão e Globo ficam com a primeira hipótese; Folha e Valor com a segunda.


Duelos de titãs

Dois minutos de reflexão podem dar razão à linha de interpretação do governo brasileiro: não teria graça querer indicar o primeiro presidente de um banco que não chegasse a existir. A Índia reivindicava sediar o Novo Banco de Desenvolvimento, mas havia consenso a respeito de ser a cidade chinesa de Xangai o local mais adequado para isso, devido ao dinamismo de sua vida financeira e econômica. A compensação dada à Índia foi a primeira presidência, durante cinco anos, após os quais caberá a um brasileiro a função. Não perder de vista que o novo primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, pertence a um partido nacionalista de direita.

Nesse grupo de países, as contradições mais perigosas opõem China e Índia, que há apenas 52 anos fizeram uma guerra de fronteira, com centenas de mortos dos dois lados. A Índia hospeda até hoje o Dalai Lama, líder religioso e político exilado do Tibete, que a China ocupou em 1959. A Índia é uma democracia, com alternância de poder, multipartidarismo, imprensa livre. A China, uma ditadura.

Também não convém esquecer que em 1969 outra guerra de fronteira opôs a então União Soviética e a China. Chegaram a preparar armas nucleares para o confronto. E os conflitos atuais na Ucrânia, e entre os governos ucraniano e russo, mexem com a Europa toda. É um vespeiro infernal. Para não falar em divergências quanto a situações dramáticas em outras partes do mundo, Síria no primeiro plano de um Oriente Médio conflagrado.

Unidade preciosa

Ou seja: conseguir algum tipo de unidade entre esses cinco parceiros, dos quais apenas a China tem fortes laços comerciais com os outros, é um feito importante quando se imagina algum tipo de multipolaridade, ou policentrismo, como sistema capaz de substituir a bipolaridade da Guerra Fria e, em seguida, até hoje, o papel de polícia do mundo exercido (em parte a contragosto) pelos Estados Unidos.

O Brics, tecnicamente, é um instrumento para pressionar pela reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI), paralisada no Congresso americano.

Tudo isso está nas páginas dos quatro jornais acima. Seus repórteres, redatores e editores o sabem melhor do que nós dois, leitor. Mas a elaboração de uma “manchete” não segue as linhas da racionalidade jornalística, menos ainda da isenção.

Linha justa chinesa

Por falar em isenção, um cidadão que parece ter vindo de outro planeta, Li Congjun, presidente da Agência de Notícias Xinhua, assinou ontem no Valor um artigo com proposições absurdas, sob o título “Brics pode ter uma imprensa forte”.

A Xinhua é uma espécie de DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo) da China. O que Li Congjun entende por imprensa forte não é uma imprensa livre, profissional, minimamente isenta, mas sim uma associação de instâncias governamentais para “defender os interesses integrais [sic] dos países do Brics”. Para tanto, “seus meios de comunicação devem ter um entendimento claro e se coordenar para expressar opiniões a partir das posições comuns entre si.”

O pensamento autoritário do dirigente da comunicação chinesa se desnuda no trecho a seguir:

“Os meios de comunicação podem ajudar a aumentar a cooperação entre esses países ao orientar primeiramente a opinião das respectivas populações para com isso influenciar as opiniões públicas de outras nações em desenvolvimento.”

Uau! É todo um programa de conquista, pelo governo chinês (quem pesaria mais nesse concerto?), de corações e mentes nas nações em desenvolvimento. Perto disso, as ameaças censórias praticadas pelo PT ficam até acanhadas.

Mauro Malin
No OI
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O terrorismo econômico da mídia tradicional voltou


Nesta quarta-feira saiu um dado excelente sobre o varejo, que cresceu 0,5% entre abril e maio. Os “analistas” de mercado esperava uma alta de só 0,1%. Mais importante que a comparação mês a mês, é a comparação entre maio de 2013 e maio de 2014, pois assim se tem a noção de como está o crescimento anualizado. Nessa comparação específica, o crescimento foi de 5%.

A notícia foi dada com muita má vontade, não foi destaque na página do Globo nem da Folha. Hoje saiu uma notícia razoável sobre o PIB. Apesar de ter caído 0,18% em maio em relação a abril, segundo índice do Banco Central, na comparação com o mesmo período do ano passado houve alta de 1,9%. A queda de 0,18% também foi menor do que o esperado pelo mercado, de 0,3%.

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Manchetes

Há notícias de primeira página que nunca chegam à primeira página. Ou por falta de espaço — caso do Brasil no último mês, quando o futebol dominou as primeiras páginas de todos os jornais — ou por decisão editorial. Entre as notícias de primeira página que não viraram manchete durante a Copa está a declaração formal das forças armadas brasileiras que nada de anormal, como tortura e mortes, aconteceu em qualquer dependência militar no Brasil no período da ditadura. E pronto. Notícia paralela que também ficou nas páginas internas foi a da prescrição do caso da bomba no Riocentro, que não será mais investigado. Também: assunto encerrado. Quem insistir que houve tortura e morte nos quartéis durante a ditadura, segundo o relato de sobreviventes e averiguações criteriosas já feitas, estará chamando a instituição militar brasileira de mentirosa. Sobre a ação criminosa abortada pela explosão prematura daquela bomba no Puma jamais se saberá mais nada.

Outra notícia que merecia manchetes, mas não passou do bloqueio da Copa, foi a de que dos 32 países que participaram do campeonato, o Brasil foi o que apresentou maior queda nos índices de mortalidade de crianças de até 5 anos de idade nas últimas décadas. Maior do que ocorreu na Alemanha, na Holanda e na Argentina, para ficar só nos quatro finalistas da Copa. Os dados são da Parceria para a Saúde Materna e Recém-nascidos e Crianças, entidade coordenada pela Organização Mundial da Saúde. A divulgação destes números com o destaque merecido talvez diminuíssem os insultos à presidente, que, estes sim, sempre saem na primeira página. Ou talvez aumentassem, vá entender.

Por quê?

O terremoto que arrasou Lisboa também sacudiu a intelectualidade europeia da época, que se dividiu entre os que consideravam a catástrofe um ato de Deus para punir a pecaminosa capital portuguesa e os que diziam que a Natureza, e não um Deus cruel, era responsável pelo cataclismo. Voltaire manteve que o terremoto provava a inexistência de Deus e fez pouco dos que defendiam que era um castigo divino, num famoso poema em que perguntava: se o objetivo era acabar com o pecado, por que escolher logo Lisboa e não Paris, onde havia muito mais pecadores, "mergulhados nas delícias", do que em Lisboa? "Lisboa está arruinada" escreveu, "e dança-se em Paris". Exatamente o que sentimos depois dos 7 a 1, guardadas todas as gigantescas proporções. Nosso futebol está arruinado, e dança-se em países que não têm metade das nossas taças e glórias. E por que nós?!

Luís Fernando Veríssimo
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Por que a mídia é contra o decreto nº 8.243?

"Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente", reza o parágrafo único do Art. 1º da Constituição Federal de 1988 (CF88). Por outro lado, o Título VIII, "Da Ordem Social", estabelece várias formas de participação, sendo que o Art. 204, ao tratar da assistência social, define especificamente diretrizes para a descentralização político-administrativa e a participação popular na formulação de políticas públicas setoriais.

Na CF88 está prevista a instalação de quinze tipos de conselhos, diferenciados por sua inserção normativa, vinculação, atuação, composição, competência e natureza. Regulamentados por lei complementar, inúmeros funcionam rotineiramente, e esse funcionamento passou a ser condição legal para o repasse de recursos financeiros da União e dos estados. Outros cumprem funções relativas à avaliação de instituições públicas.

A diretriz constitucional da descentralização político-administrativa e da participação popular tem sido diretamente responsável por resultados positivos na formulação e avaliação de políticas públicas de setores de direitos fundamentais, há anos.

Apesar de tudo isso, o Decreto nº 8.243 de 23 de maio, que cria a Política Nacional de Participação Social (PNPS), tem provocado uma irritada reação das forças conservadoras. Na Câmara dos Deputados, a oposição faz obstrução da pauta e ameaça impedir a votação de qualquer projeto de lei até que o decreto seja revogado. Além de líderes partidários, editoriais e colunistas de jornais tradicionais têm atacado a PNPS.

É interessante observar que os oligopólios de mídia lideram a reação conservadora: “golpe contra a democracia”, “devastadora desconstrução da democracia”, “decreto suspeito”, “bolivarismo” e “chavismo” são algumas das acusações ao decreto.

O porta-voz do tradicionalismo paulista, por exemplo, afirma em editorial que a presidente “tenta por decreto mudar a ordem constitucional”, que o decreto “é um conjunto de barbaridades jurídicas” e “mais um ato inconstitucional”. Por fim, conclama o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal a declararem “a inconstitucionalidade do decreto”.

Não há novidade na reação da grande mídia. O liberalismo que sempre afirma defender só é democrático no papel e ela tem apoiado sofismas historicamente utilizados para justificar a exclusão e a marginalização de importantes segmentos da população brasileira do exercício republicano da democracia. Mas há, sim, uma especificidade que une a mídia e as diretrizes constitucionais da descentralização político-administrativa e da participação popular. Desde a CF88, elas têm sido interditadas no campo da comunicação social.

Em dezembro de 1991, foi sancionada a Lei nº 8.389, que regulamentou o Art. 224 da CF e instituiu o Conselho de Comunicação Social (CCS). Apesar de ser apenas um órgão auxiliar do Congresso, o CCS teve sua instalação postergada por onze anos, até 2002. Instalado, funcionou durante quatro e ficou inativo de dezembro de 2006 até julho de 2012, quando foi reinstalado de forma polêmica e com uma composição distorcida, favorecendo a representação empresarial.

Por outro lado, desde a promulgação da CF, obedecendo ao princípio constitucional da simetria, nove das 26 Constituições estaduais — Alagoas, Amazonas, Bahia, Goiás, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul — e a Lei Orgânica do Distrito Federal incluíram em seus textos a criação dos Conselhos Estaduais de Comunicação Social (Cecs). Apesar de várias iniciativas tomadas nessas dez unidades da Federação para regulamentar o que está previsto em suas respectivas Constituições, até hoje os Cecs somente funcionam nos estados da Bahia e de Alagoas, e neste de maneira precária e limitada.

A formidável resistência histórica dos oligopólios de mídia impede, há mais de 25 anos, que normas da CF88 e de Constituições estaduais sejam cumpridas no campo da comunicação social.

O mesmo O Estado de S. Paulo publicou editorial, em 2010, no qual afirmava:

As tentativas de controlar os meios de comunicação no Brasil podem ser abertas ou camufladas. (...) A Assembleia Legislativa do Ceará aprovou, por unanimidade, o projeto de uma deputada petista que institui no estado um Conselho de Comunicação Social. (...) O pretendido conselho cearense (...) quer fiscalizar os meios de comunicação do estado, criar condições para a "democratização" da informação e orientar a distribuição das verbas publicitárias estaduais considerando a "qualidade e pluralismo" da programação dos órgãos da mídia eletrônica. (...) Para o diretor executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Ricardo Pedreira, a proposta é "obscurantista, autoritária e inconstitucional". "Quem deve controlar os veículos de comunicação deve ser a sua audiência", argumenta. "Não cabe a nenhum órgão do Estado exercer esse papel”.

Não é de surpreender, portanto, que os oligopólios tradicionais da velha mídia liderem a reação conservadora. Autodenominados defensores da democracia, rejeitam qualquer interferência popular direta na formulação, acompanhamento e avaliação das políticas públicas referentes às concessões do serviço público de radiodifusão. Temem que o Decreto nº 8.243 faça a prática da democracia participativa chegar à comunicação social, o que, até hoje, têm conseguido interditar.

Venício A. de Lima
No Blogue do Souza
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Aécio poderia adotar criança que xingou por oito anos?


Foi providencial o printscreen do portal do PSDB chamando o Bolsa Família de Bolsa Esmola. São os mesmos que criticam os programas sociais mas, quando chega a hora de apresentarem um programa de governo, a primeira proposta, e única, é manterem os programas sociais dos governos Dilma e Lula.


Aécio também abraçou a causa da máfia da Ku Klux Kan. Como já publicou ontem o Tijolaço, “o Governo brasileiro não negocia com Cuba a vinda de médicos, mas com a Organização Panamericana de Saúde, uma entidade com sede na Twenty-third Street, N.W., Washington, D.C, Estados Unidos”. E informa algo que até a máfia de branco, à época, calou: “Quando o governador Siqueira Campos (tucano que, aliás, vem de renunciar ao governo de Tocantins para que seu filho possa se candidatar ao cargo, meu Deus!) contratou 200 médicos cubanos para o Estado que nascia, pagava 50% do valor a Cuba, mas numa contratação direta que a Justiça derrubou, depois de alguns meses.


Aécio deveria explicar melhor por que Minas Gerais é hoje a encruzilhada do narcotráfico internacional, como demonstraram as várias operações da Polícia Federal. Sem contar a história do helipóptero misteriosamente sumidos dos noticiários…


Tirem o apoio inescrupuloso dos grupos mafiomidiáticos por traz do Aécio e não sobra pó sobre pó, que evapora como álcool sobre algodão.

Bolsa Esmola

ELEIÇÕES 2014/SABATINA – AÉCIO NEVES

Aécio promete manter programas sociais e rever Mais Médicos

Tucano quer rediscutir acordo que trouxe mádicos cubanos — Bolsa Família poderia dar extra a aluno com bom desempenho — Candidato admite revisar regras de pensões por morte

O candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, afirmou nesta quarta (16) que, se for eleito, irá manter e "aprimorar" programas sociais que "vêm dando certo", como o Bolsa Família. Em relação ao Mais Médicos, vitrine do PT na área da saúde, prometeu rever normas para igualar os salários dos profissionais estrangeiros. Para isso, precisaria romper e renegociar as regras atuais, já que os profissionais de Cuba, que são maioria, recebem apenas parte do valor pago pelo governo — o Estado cubano fica com o restante. Em sabatina realizada pela Folha, UOL, SBT e rádio Jovem Pan, Aécio admitiu ainda rediscutir o modelo adotado para explorar o petróleo do pré-sal.

Leia a seguir os principais trechos da sabatina:

Bolsa Família

Num antídoto ao que chamou de "terrorismo" eleitoral praticado pelo PT, o candidato dos tucanos à Presidência declarou que "os programas sociais que vem dando certo não só serão mantidos como também aprimorados", caso seja eleito.

Para reforçar seu discurso, falou especificamente sobre o Bolsa Família, que classificou como alvo preferencial de questionamentos por parte de seus adversários. Durante a sabatina, anunciou duas propostas inéditas sobre o que considera melhorias para o programa.

"Acho que uma família beneficiada pelo Bolsa Família que o pai volta a estudar, tem que receber um plus. Um aluno de uma família beneficiária que tem uma média [escolar], digamos, acima de sete, tem que receber um plus. Nós temos que induzir as pessoas a se qualificar", afirmou.

Aécio disse ainda que o PT coloca em xeque a continuidade do programa em períodos eleitorais para gerar "aflição" em seus beneficiários, cerca de 14 milhões de famílias. Ele ressaltou ter proposto, como senador, que o benefício fosse incluído na LOAS (Lei orgânica de Assistência Social), o que, para o mineiro, o elevaria à categoria de programa de Estado (1) e não "de um governo", e que o PT foi contra.

Mais Médicos

parrecio

Nas diretrizes de seu programa de governo, o tucano diz que manterá o Mais Médicos, mas que submeterá os profissionais ao Revalida,(2) exame aplicado a estrangeiros que querem exercer medicina no Brasil mas que foi retirado da agenda de exigências dos que chegaram ao país por meio do programa. Ele diz ainda que irá acabar com a diferenciação salarial que existe entre os profissionais arregimentados para atuar no Brasil.

Na prática, a proposta acaba com o acordo que vigora entre o governo brasileiro e o governo cubano, responsável pelo envio de quase 80% dos mais de 14 mil profissionais de saúde que agora estão no país. Hoje, os médicos cubanos recebem apenas uma parte da remuneração e o restante é pago ao governo de Cuba.

Aécio disse que o Brasil "não deve se submeter" às regras de Cuba e negou que a medida prejudique o programa. Sem os cubanos seria impossível manter o Mais Médicos na escala e alcance que ele tem hoje. O tucano afirmou que irá "renegociar" os termos do acerto entre Brasil e Cuba. "No nosso governo, o Brasil vai criar condições, cursos para qualificação desses médicos, e eles se submeterão ao Revalida", iniciou. "Nós é que temos que concordar com o governo cubano? Na verdade [hoje] o governo brasileiro financia o governo cubano com parte da remuneração dos médicos. (3) Nós vamos financiar os médicos cubanos", encerrou, após dizer que o programa, "mesmo importante", não é "a panaceia" para a saúde no Brasil.

Petróleo

Em meio a uma série de críticas ao que classificou como uma gestão "equivocada" da Petrobras, o presidenciável admitiu que, eleito, irá rediscutir o modelo adotado pelo governo petista para explorar campos de petróleo do pré-sal. A norma vigente prevê o sistema de partilha.

Criado pelo PT, ele dá à Petrobras e ao governo maior controle sobre os investimentos no pré-sal e inibe a entrada de grupos privados e estrangeiros. O modelo de concessões, criado pelos tucanos, e mantido pelos petistas para campos de petróleo mais antigos, força a Petrobras a competir com as multinacionais do setor nos leilões organizados pelo governo.

Segundo Aécio, as concessões "foram benéficas para o Brasil", enquanto o modelo de partilha deixou o país fora do mercado mundial por cinco anos, "período em US$ 300 bilhões foram investidos". "Nas concessões nós trouxemos parceiros privados de várias partes do mundo, foi quando tivemos os melhores e maiores investimentos."

O tucano aproveitou o assunto para explorar escândalos de corrupção recentes na Petrobras e acusar indiretamente a presidente Dilma Rousseff de segurar o preço da gasolina para evitar uma escalada inflacionária, "garroteando" os cofres da estatal.

"Os equívocos em relação à Petrobras foram muitos (…). E taí. Hoje, a empresa frequenta mais as páginas policiais com Pasadena, com a refinaria Abreu e Lima do que as páginas de economia. Ele disse, porém, não ter o "conjunto completo de informações" necessário para decidir se é conveniente liberar os preços praticados pela Petrobras, que diz estarem represados.

Medidas impopulares

Numa tentativa de justificar a declaração de que não temeria adotar "medidas impopulares" que fossem necessárias ao governo — tema que tem sido explorado pelo PT — Aécio acusou quem vincula uma política austera controle da inflação ao aumento do desemprego de fazer o "discurso do terrorismo", ainda que a correlação entre os temas seja quase unânime entre economistas.

"Você só vai combater a inflação gerando desemprego? Isso é uma grande bobagem. Volta nos tempos da hiperinflação. Nós não tínhamos pleno emprego", provocou.

Segundo ele, sua eleição acalmaria o mercado financeiro e reduziria a desconfiança de investidores pela "clareza das propostas" e o "time" que ele está montando — o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga é seu principal consultor.

Questionado se não seria ilusório dizer que será possível controlar a inflação sem gerar desemprego e que o caminho mais ortodoxo sugere ou o aumento de impostos ou o corte de gastos foi taxativo: "Ou eu cresço. E eu opto pelo caminho do crescimento". O PIB do primeiro trimestre deste ano cresceu 0,2% em relação ao período anterior.(4)

Previdência

O plano de governo de Aécio também sugere que o déficit previdenciário, hoje em mais de R$ 40 bilhões, poderia ser minimizado pelo melhor desempenho da economia.

O tucano acusou os governos da presidente Dilma e de seu antecessor, Lula, de terem evitado promover reformas nesse campo e disse que uma das possibilidades que estuda é rever o pagamento de pensões por morte.(5) "Há um certo exagero nisso", afirmou. "Terá que ser discutido com a sociedade, mas acho que qualquer gestão responsável terá que discutir não apenas essa reforma mas um conjunto de reformas que foram sucessivamente adiadas por esse governo", afirmou.

Ele usou o tema para dizer que Lula e Dilma não tiveram "coragem" de promover mudanças importantes. "Sempre que o governo [petista] encontrava um contencioso, que contrariava alguns dos seus núcleos de apoio, as reformas eram arquivadas. Isso ocorreu com a tributária, com a previdenciária, com a política, com a própria reforma do Estado."

Corrupção

Respondendo a um ataque do também candidato ao Planalto Eduardo Campos (PSB-PE), Aécio disse ser "uma injustiça" comparar o escândalo do mensalão com as denúncias de que houve compra de votos de parlamentares na aprovação da emenda constitucional da reeleição, no governo Fernando Henrique Cardoso.

Em defesa inédita, negou que o caso tenha sido negligenciado pelo Ministério Público Federal à época — "não houve provas" — e se envolveu pessoalmente no assunto.(6)

"A minha opinião, a do Aécio parlamentar [ele estava na Câmara na época], é que não houve compra de votos para a reeleição. O Brasil queria a reeleição do presidente FHC e que a maioria do Congresso pudesse ser reeleita." E fez uma provocação: "O PT parece concordar comigo. Ficou 12 anos no governo e não fez nada para reabrir as investigações. Ponto final."

Ele disse ainda que não há escala para comparação entre os dois casos. "A realidade é que no caso do mensalão os principais líderes do PT e do governo hoje cumprem pena porque desviaram recursos públicos em benefício de um projeto de poder."

Apoio do PTB

Aécio defendeu a aliança com o PTB, partido que se juntou à sua chapa às vésperas do prazo final de alianças e que, um mês antes, havia jurado apoio à reeleição de Dilma.

O senador disse que foi infeliz ao usar a expressão "suguem mais um pouquinho e venham para o nosso lado" para estimular outras defecções na base governista. "Foi uma ironia. Temos que ter cuidado, eu confesso."

O mineiro disse não se incomodar com a avaliação de que o PTB optou por seu nome por ver nele uma "expectativa de poder". "Eu acredito que somos mesmo. É bom isso", afirmou, para depois emendar que não houve compromisso de ajuda financeira aos candidatos do PTB. Em 2010, a direção nacional do PSDB repassou R$ 1,4 milhão a partidos que apoiaram sua chapa.

Eduardo Campos

Se antes havia uma sinalização clara de ambos os lados de que a disputa entre Aécio e Eduardo Campos seria amistosa, agora apenas o tucano ensaia tom ameno com o concorrente, ainda que não o poupe de alfinetadas.

Aécio chamou Eduardo de amigo e evitou criticá-lo diretamente, mas ironizou a declaração do rival de que que sua candidatura representaria a ala "conservadora".

"Ele pode querer brigar comigo, eu não vou brigar com ele", disse Aécio. Em seguida, emendou: "Esses conceitos: conservador, progressista, esquerda, direita… são muito abstratos. Quando eu vejo o Eduardo considerar o PSDB conservador e, ao mesmo tempo, apoiar os dois principais governadores da sigla [Geraldo Alckmin em São Paulo e Beto Richa no Paraná], eu tenho que compreender que isso é uma coisa boa, ser conservador", disse aos risos.

Questionado sobre a nova bandeira de Campos, o passe livre para estudantes, disse não achar "justo passe livre para aluno de escola privada que paga R$ 3.000 de mensalidade". Segundo ele, o tema é de alçada "dos municípios", mas pode ser discutido para beneficiar apenas os estudantes de escolas públicas e de baixa renda.

(1) Não é bem assim

As regras do Bolsa Família já são fixadas em lei e sofrem alterações periodicamente. Mesmo que o projeto de Aécio seja aprovado, bastaria maioria simples dos congressistas — quando o quórum é alcançado com metade mais um dos deputados e senadores — para alterar ou extinguir o programa

(2) Faltou dizer

As taxas de reprovação no Revalida alcançam 90% dos médicos formados em outros países que tentam trabalhar no Brasil. Se for aprovado, o médico poderá se instalar onde quiser no país, o que não garante atendimento em regiões de maior carência

(3) Saiba mais

O Brasil não assinou acordo com Cuba, ele é triangulado pela Opas (Organização Panamericana de Saúde). Cuba recebe da Opas por médico enviado a mesma quantia que é paga pelo Brasil aos demais médicos do programa (cerca de R$ 10 mil); assim, a decisão final sobre a fatia paga ao médico é de Cuba

(4) Não é bem assim

Uma redução no índice de inflação pressupõe um desaquecimento da economia em geral e não é compatível com um simultâneo crescimento do PIB, segundo economistas

(5) Saiba mais

O governo prevê deficit de R$ 40 bilhões na Previdência em 2014. Atualmente, os brasileiros se aposentam com 55 anos de idade, em média. Do total de 31,5 milhões de benefícios pagos pela Previdência Social, 22% são pensões por morte.

(6) Faltou dizer

A Folha revelou, em 1997, confissões gravadas de dois deputados federais do Acre que diziam ter votado a favor da emenda da reeleição em troca de R$ 200 mil. Outros três deputados eram citados de maneira explícita. Nenhum foi investigado pelo Congresso nem punido.

No Ficha Corrida
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Longe da democracia

A maneira de usurpar dos brasileiros o direito de contar com um Congresso era o golpe militar, cuja repetição persistente, por um século, o fez parecer a razão de existir do Exército. Nos últimos 25 anos, ou mais ou menos desde a eleição de Collor, as sucessivas composições da Câmara e do Senado têm afastado cada vez mais essas Casas da sua função institucional, com o crescente desregramento interno e o descompromisso sempre maior com as expectativas do país, redemocratizado, em relação ao seu Legislativo.

Estamos a cada dia mais próximos de poder perguntar-nos: o Brasil ainda tem Congresso composto de Câmara e Senado?

Os artifícios para mascarar o recesso que deputados e senadores se dão a partir de hoje, e até as eleições, não mudam a realidade: com a dispensa de comparecimento sem haverem votado, no prazo estabelecido pela Constituição, as diretrizes do Orçamento nacional para o próximo ano, fica instaurada uma situação de ilegalidade. Criada por um dos Três Poderes, é uma situação de anormalidade institucional.

A Constituição e os Regimentos Internos da Câmara e do Senado não foram alterados. Logo, deputados e senadores não podem conceder-se ausências remuneradas fora dos casos admitidos pelas normas vigentes, fixadas pelas próprias Casas. O pagamento e o recebimento das ausências fora das normas, nos 80 dias daqui às eleições, apesar de já programados, não serão legais.

Não é a primeira vez que Câmara e Senado deixam de cumprir o prazo limite, que recai no início das férias de meio do ano, para votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias. Assim foi, por exemplo, no ano passado, com o adiamento da votação para o retorno das férias, no começo de agosto. Neste ano, a transgressão se agrava no prazo, no cancelamento das sessões plenárias já marcadas na Câmara, e na autorização tácita para a ausência sistemática e remunerada fora das férias. A rigor, e a despeito dos mascaramentos em uma ou outra comissão ou discussão, o Congresso fica suspenso.

Diz-se que o Brasil vai eleger, em outubro, deputados e senadores. Não é uma afirmação precisa.

O novo

Eduardo Campos expôs ideias esquisitas, na sabatina Folha/UOL/SBT/Jovem Pan. Entre outras: "... a Federação brasileira concentra tantos recursos e tanto poder que alimenta nos Estados as velhas oligarquias e o velho jeito de fazer política". Ao contrário, se há concentração de recursos e poder, é anti-Federação. O que falta ao Brasil, aliás, é federalismo na Federação apenas nominal.

Mais uma, ao falar de sua aliança com adversários de sempre: "Para chegar vivo aqui, você não imagina que foi fácil. Foi preciso resistir, foi preciso fazer alianças táticas". Já tínhamos ouvido alguma coisa parecida com isso. Ah, talvez aquela velha coisa de alguns acharem que os fins justificam os meios.

Coma

Réu no mensalão mineiro, Clésio Andrade renunciou ao mandato de senador "por motivo de saúde". Motivo tão forte para impedi-lo de ir ao Senado que, ao falar da renúncia, não pôde deixar de referir-se à sua ansiedade por voltar à presidência da Confederação Nacional dos Transportes.

Em Minas, o processo do mensalão do PSDB caminha imóvel para as prescrições. Ou melhor, para mais prescrições.

Janio de Freitas
No fAlha
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O meu maior consolo

O meu maior consolo é em saber,

Que a imprensa brasileira,

É a pior imprensa do mundo;

Mesmo por poder usar,

Os mais modernos meios de comunicação,

E de muitas vezes,

Receber prêmios no exterior,

Por serviços prestados aos patrões dos poderes,

À burguesia e à elite,

Aos donos do sistema financeiro,

Os que trabalham para a imprensa brasileira,

São verdadeiros robôs;

Pensam mal e escrevem mal,

Distorcem a história,

Manipulam e mentem,

Caluniam e difamam;

Bajulam os poderosos,

Escondem os fatos verdadeiros;

Por convicção,

São vira-latas complexados;

Mesmo sem encontrar mais adjetivos,

Para desqualificar a imprensa brasileira,

Representada pelo PIG, Partido da

Imprensa Golpista, a velha mídia vil,

Venal, sabuja e medieval,

Meu maior consolo é em saber,

Que é a pior imprensa do mundo;

Penso que não deve haver,

Em nenhum outro país,

Tipos de jornalistas,

Colunistas e editorialistas e cronistas,

Iguais aos nossos;

Na Colômbia por exemplo,

Um jornalista virou escritor,

E ganhou um Prêmio Nobel de Literatura;

Aqui todos vão juntos para a lata de lixo

Com os seus patrões;

E o meu maior consolo é em saber,

Que o povo trabalhador brasileiro,

Nunca se lembrará de nenhum nome,

Desses serventuários,

Dessas víboras,

Desses pseudo jornalistas,

Dessa mídia sonegadora,

Enganadora e traiçoeira;

Este é o meu maior consolo,

Não me informo como deveria ser,

Não recebo saber e cultura,

Mas não sou conivente,

Com essa imprensa indecente.


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Alckmin abandonou o Opus Dei?


Fiquei numa dúvida atroz quando li na coluna de Julia Duailibi, no jornal Estadão, que o governador Geraldo Alckmin, candidato à reeleição pelo PSDB, promoverá um “reforço espiritual” nos próximos dias. “Os tucanos querem montar uma agenda do candidato com segmentos evangélicos e católicos”. Como ela observa, “com o começo da campanha eleitoral, é comum os candidatos procurarem lideranças religiosas e colocarem na agenda eventos populares, como visitas ao Santuário de Aparecida e à missa do Padre Marcelo. Há cerca de uma semana, Aécio reuniu-se com integrantes da Assembleia de Deus”. Mas minha dúvida é se Geraldo Alckmin teve algum desentendimento com o Opus Dei e abandonou a seita.

A ligação do governador de São Paulo com este “segmento” religioso, famoso por suas posições direitistas, é antiga. Já em 1978, como prefeito de Pindamonhangaba, no interior paulista, ele batizou uma rua da cidade com o nome do fundador do Opus Dei, Josemaría Escrivá Balaguer, como forma de marcar o cinquentenário da seita. Ele também teve como confessor o padre José Teixeira, famoso difusor da organização no Brasil. Os seus vínculos, porém, sempre permaneceram na penumbra, até que a revista Época, de janeiro de 2006, publicou uma reportagem bombástica, assinada por Eliane Brum e Ricardo Mendonça. Ela revelou que o grão-tucano usava o Palácio dos Bandeirantes para reuniões semanais da seita.

“Nos últimos anos, Alckmin tem recebido formação cristã no Palácio dos Bandeirantes de um influente numerário do Opus Dei, o jornalista Carlos Aberto Di Franco... Ela é chamada informalmente de Palestra do Morumbi, numa alusão ao bairro onde se localiza a sede do governo. Alckmin e um grupo de empresários, advogados e juristas recebem preleções de cerca de 30 minutos. Um dos participantes, o desembargador aposentado e professor da USP, Paulo Fernando Toledo, diz que o governador é um dos ‘alunos’ mais aplicados. ‘Ele toma nota de tudo’. Outro membro, José Conduta, dono da corretora Harmonia, relata que Alckmin não faltou a nenhuma reunião, mesmo quando disputava a reeleição em 2002”.

Em dezembro de 2003, na revista IstoÉ, o repórter Mário Simas Filho revelou outro fato curioso: “Quando completou 24 anos, em 7 de novembro de 1976, Geraldo Alckmin estava angustiado. Ele sonhava ser médico, cursava o quinto ano de medicina, era vereador em Pindamonhangaba e na semana seguinte disputaria a eleição para prefeito da cidade. Logo pela manha, recebeu um bilhete de seu pai... Hoje, em sua carteira, ainda carrega o bilhete recebido há 27 anos e se emociona cada vez que o lê. Este bilhete reproduz literalmente o ponto número 702 do livro Caminho [de Josemaría Escriba], que aconselha o devoto a ‘olhar de longe e sem paixão os fatos e as pessoas’ para ascender na sociedade”.

Diante destes relatos sobre a dedicação do governador paulista aos ensinamentos do Opus Dei é que surge a dúvida. Houve algum problema de relacionamento ou as visitas planejadas pela cúpula tucana a outros “segmentos evangélicos e católicos” são apenas ações eleitoreiras típicas de campanha? Porque ninguém mais fala sobre as “palestras do Morumbi” e as preleções semanais de 30 minutos? Afinal, Geraldo Alckmin ainda milita no Opus Dei ou abandonou a seita? Talvez até o final da campanha deste ano surjam algumas pistas. Para quem quiser conhecer melhor como surgiu, o que pensa e como atua esta organização reproduzo abaixo um artigo escrito em 2011.

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Quem são os "éticos" do Opus Dei?

Por Altamiro Borges

O Opus Dei (do latim, Obra de Deus) foi fundado em outubro de 1928, na Espanha, pelo padre Josemaría Escrivá. O jovem sacerdote de 26 anos diz ter recebido a “iluminação divina” durante a sua clausura num mosteiro de Madri. Preocupado com o avanço das esquerdas no país, este excêntrico religioso, visto pelos amigos de batina como um “fanático e doente mental”, decidiu montar uma organização ultra-secreta para interferir nos rumos da Espanha. Segundo as suas palavras, ela seria “uma injeção intravenosa na corrente sanguínea da sociedade”, infiltrando-se em todos os poros de poder. Deveria reunir bispos e padres, mas, principalmente, membros laicos, que não usassem hábitos monásticos ou qualquer tipo de identificação.

Reconhecida oficialmente pelo Vaticano em 1947, esta seita logo se tornou um contraponto ao avanço das idéias progressistas na Igreja. Em 1962, o papa João 23 convocou o Concílio Vaticano II, que marca uma viragem na postura da Igreja, aproximando-a dos anseios populares. No seu fanatismo, Escrivá não acatou a mudança. Criticou o fim da missa rezada em latim, com os padres de costas para os fiéis, e a abolição do Index Librorum Prohibitorum, dogma obscurantista do século 16 que listava livros “perigosos” e proibia sua leitura pelos fiéis. “Este concílio, minhas filhas, é o concílio do diabo”, garantiu Escrivá para alguns seguidores, segundo relato do jornalista Emílio Corbiere no livro “Opus Dei: El totalitarismo católico”.

O poder no Vaticano

Josemaría Escrivá faleceu em 1975. Mas o Opus Dei se manteve e adquiriu maior projeção com a guinada direitista do Vaticano a partir da nomeação do papa polonês João Paulo II. Para o teólogo espanhol Juan Acosta, “a relação entre Karol Wojtyla e o Opus Dei atingiu o seu êxito nos anos 80-90, com a irresistível ascensão da Obra à cúpula do Vaticano, a partir de onde interveio ativamente no processo de reestruturação da Igreja Católica sob o protagonismo do papa e a orientação do cardeal alemão Ratzinger”. Em 1982, a seita foi declarada “prelazia pessoal” – a única existente até hoje –, o que no Direito Canônico significa que ela só presta contas ao papa, que só obedece ao prelado (cargo vitalício hoje ocupado por dom Javier Echevarría) e que seus adeptos não se submetem aos bispos e dioceses, gozando de total autonomia.

O ápice do Opus Dei ocorreu em outubro de 2002, quando o seu fundador foi canonizado pelo papa numa cerimônia que reuniu 350 mil simpatizantes na Praça São Pedro, no Vaticano. A meteórica canonização de Josemaría Escrivá, que durou apenas dez anos, quando geralmente este processo demora décadas e até séculos, gerou fortes críticas de diferentes setores católicos. Muitos advertiram que o Opus Dei estava se tornando uma “igreja dentro da Igreja”. Lembraram um alerta do líder jesuíta Vladimir Ledochowshy que, num memorando ao papa, denunciou a seita pelo “desejo secreto de dominar o mundo”. Apesar da reação, o papa João Paulo II e seu principal teólogo, Joseph Ratzinger, ex-chefe da repressora Congregação para Doutrina da Fé e atual papa Bento 16, não vacilaram em dar maiores poderes ao Opus Dei.

Vários estudos garantem que esta relação privilegiada decorreu de razões políticas e econômicas. No livro “O mundo secreto do Opus Dei”, o jornalista canadense Robert Hutchinson afirma que esta organização acumula uma fortuna de 400 bilhões de dólares e que financiou o sindicato Solidariedade, na Polônia, que teve papel central na débâcle do bloco soviético nos anos 90. O complô explicaria a sólida amizade com o papa, que era polonês e um visceral anticomunista. Já Henrique Magalhães, numa excelente pesquisa na revista A Nova Democracia, confirma o anticomunismo de Wojtyla e relata que “fontes da Igreja Católica atribuem o poder da Obra a quitação da dívida do Banco Ambrosiano, fraudulentamente falido em 1982”.

O vínculo com os fascistas

Além do rigoroso fundamentalismo religioso, o Opus Dei sempre se alinhou aos setores mais direitistas e fascistas. Durante a Guerra Civil Espanhola, deflagrada em 1936, Escrivá deu ostensivo apoio ao general golpista Francisco Franco contra o governo republicano legitimamente eleito. Temendo represálias, ele se asilou na embaixada de Honduras, depois se internou num manicômio, “fingindo-se de louco”, antes de fugir para a França. Só retornou à Espanha após a vitória dos golpistas. Desde então, firmou sólidos laços com o ditador sanguinário Francisco Franco. “O Opus Dei praticamente se fundiu ao Estado espanhol, ao qual forneceu inúmeros ministros e dirigentes de órgãos governamentais”, afirma Henrique Magalhães.

Há também fortes indícios de que Josemaría Escrivá nutria simpatias por Adolf Hitler e pelo nazismo. De forma simulada, advogava as idéias racistas e defendia a violência. Na máxima 367 do livro Caminho, ele afirma que seus fiéis “são belos e inteligentes” e devem olhar aos demais como “inferiores e animais”. Na máxima 643, ensina que a meta “é ocupar cargos e ser um movimento de domínio mundial”. Na máxima 311, ele escancara: “A guerra tem uma finalidade sobrenatural... Mas temos, ao final, de amá-la, como o religioso deve amar suas disciplinas”. Em 1992, um ex-membro do Opus Dei revelou o que este havia lhe dito: “Hitler foi maltratado pela opinião pública. Jamais teria matado 6 milhões de judeus. No máximo, foram 4 milhões”. Outra numerária, Diane DiNicola, garantiu: “Escrivá, com toda certeza, era fascista”.

Escrivá até tentou negar estas relações. Mas, no seu processo de ascensão no Vaticano, ele contou com a ajuda de notórios nazistas. Como descreve a jornalista Maria Amaral, num artigo à revista Caros Amigos, “ao se mudar para Roma, ele estimulou ainda mais as acusações de ser simpático aos regimes autoritários, já que as suas primeiras vitórias no sentido de estabelecer o Opus Dei com estrutura eclesiástica capaz de abrigar leigos e ordenar sacerdotes se deram durante o pontificado do papa Pio XII, por meio do cardeal Eugenio Pacelli, responsável por controverso acordo da Igreja com Hitler”. Outro texto, assinado por um grupo de católicas peruanas, garante que a seita “recrutou adeptos para a organização fascista ‘Jovem Europa’, dirigida por militantes nazistas e com vínculos com o fascismo italiano e espanhol”.

Pouco antes de morrer, Josemaría Escrivá realizou uma “peregrinação” pela América Latina. Ele sempre considerou o continente fundamental para sua seita e para os negócios espanhóis. Na região, o Opus Dei apoiou abertamente várias ditaduras. No Chile, participou do regime terrorista de Augusto Pinochet. O principal ideólogo do ditador, Jaime Guzmá, era membro ativo da seita, assim como centenas de quadros civis e militares. Na Argentina, numerários foram nomeados ministros da ditadura. No Peru, a seita deu sustentação ao corrupto e autoritário Alberto Fujimori. No México, ajudou a eleger como presidente seu antigo aliado, Miguel de La Madri, que extinguiu a secular separação entre o Estado e a Igreja Católica.

Infiltração na mídia

Para semear as suas idéias religiosas e políticas de forma camuflada, Escrivá logo percebeu a importância estratégica dos meios de comunicação. Ele mesmo gostava de dizer que “temos de embrulhar o mundo em papel-jornal”. Para isso, contou com a ajuda da ditadura franquista para a construção da Universidade de Navarra, que possuí um orçamento anual de 240 milhões de euros. Jornalistas do mundo inteiro são formados nos cursos de pós-graduação desta instituição.

O Opus Dei exerce hoje forte influência sobre a mídia. Um relatório confidencial entregue ao Vaticano em 1979 pelo sucessor de Escrivá revelou que a influência da seita se estendia por “479 universidades e escolas secundárias, 604 revistas ou jornais, 52 estações de rádio ou televisões, 38 agências de publicidade e 12 produtores e distribuidoras de filmes”.

Na América Latina, a seita controla o jornal El Observador (Uruguai) e tem peso nos jornais El Mercúrio (Chile), La Nación (Argentina) e O Estado de S.Paulo. Segundo várias denúncias, ela dirige a Sociedade Interamericana de Imprensa, braço da direita na mídia hemisférica. No Brasil, a Universidade de Navarra é comandada por Carlos Alberto di Franco, numerário e articulista do Estadão, responsável pela lavagem cerebral semanal de Geraldo Alckmin nas famosas “palestras do Morumbi”.

Segundo a revista Época, seu “programa de capacitação de editores já formou mais de 200 cargos de chefia dos principais jornais do país”. O mesmo artigo confirma que “o jornalista Carlos Alberto Di Franco circula com desenvoltura nas esferas de poder, especialmente na imprensa e no círculo íntimo do governador Geraldo Alckmin”.

O veterano jornalista Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, há muito denuncia a sinistra relação do Opus Dei com a mídia nacional. Num artigo intitulado “Estranha conversão da Folha”, critica seu “visível crescimento na imprensa brasileira. A Folha de S.Paulo parecia resistir à dominação, mas capitulou”. No mesmo artigo, garante que a seita “já tomou conta da Associação Nacional de Jornais (ANJ)”, que reúne os principais monopólios da mídia do país. Para ele, a seita não visa a “salvação das almas desgarradas. É um projeto de poder, de dominação dos meios de comunicação. E um projeto desta natureza não é nem poderia ser democrático. A conversão da Folha é uma opção estratégica, política e ideológica”.

A “santa máfia”

Durante seus longos anos de atuação nos bastidores do poder, o Opus Dei constituiu uma enorme fortuna, usada para bancar seus projetos reacionários – inclusive seus planos eleitorais. Os recursos foram obtidos com a ajuda de ditadores e o uso de máquinas públicas. “O Opus Dei se infiltrou e parasitou no aparato burocrático do Estado espanhol, ocupando postos-chaves. Constituiu um império econômico graças aos favores nas largas décadas da ditadura franquista, onde vários gabinetes ministeriáveis foram ocupados integralmente por seus membros, que ditaram leis para favorecer os interesses da seita e se envolveram em vários casos de corrupção, malversação e práticas imorais”, acusa um documento de um católico do Peru.

A seita também acumulou riquezas através da doação obrigatória de heranças dos numerários e do dizimo dos supernumerários e simpatizantes infiltrados em governos e corporações empresariais. Com a ofensiva neoliberal dos anos 90, a privatização das estatais virou outra fonte de receitas. Poderosas multinacionais espanholas beneficiadas por este processo, como os bancos Santander e Bilbao Biscaia, a Telefônica e a empresa de petróleo Repsol, têm no seu corpo gerencial adeptos do Opus.

Para católicos mais críticos, que rotulam a seita de “santa máfia”, esta fortuna também deriva de negócios ilícitos. Conforme denuncia Henrique Magalhães, “além da dimensão religiosa e política, o Opus Dei tem uma terceira face: da sociedade secreta de cunho mafioso. Em seus estatutos secretos, redigidos em 1950 e expostos em 1986, a Obra determina que ‘os membros numerários e supernumerários saibam que devem observar sempre um prudente silêncio sobre os nomes dos outros associados e que não deverão revelar nunca a ninguém que eles próprios pertencem ao Opus Dei’. Inimiga jurada da Maçonaria, ela copia sua estrutura fechada, o que frequentemente serve para encobrir atos criminosos”.

O jornalista Emílio Corbiere cita os casos de fraude e remessa ilegal de divisas das empresas espanholas Matesa e Rumasa, em 1969, que financiaram a Universidade de Navarra. Há também a suspeita do uso de bancos espanhóis na lavagem de dinheiro do narcotráfico e da máfia russa. O Opus Dei esteve envolvido na falência fraudulenta do banco Comercial (pertencente ao jornal El Observador) e do Crédito Provincial (Argentina). Neste país, os responsáveis pela privatização da petrolífera YPF e das Aerolineas Argentinas, compradas por grupos espanhóis, foram denunciados por escândalos de corrupção, mas foram absolvidos pela Suprema Corte, dirigida por Antonio Boggiano, outro membro da Opus Dei. No ano retrasado, outro numerário do Opus Dei, o banqueiro Gianmario Roveraro, esteve envolvido na quebra da Parlamat.

“A Internacional Conservadora”

O escritor estadunidense Dan Brown, autor do best seller “O Código da Vinci”, não vacila em acusar esta seita de ser um partido de fanáticos religiosos com ramificações pelo mundo. O Opus Dei teria cerca de 80 milhões de fiéis, muitos deles em cargos-chaves em governos, na mídia e em multinacionais. Henrique Magalhães garante que a “Obra é vanguarda das tendências mais conservadoras da Igreja Católica”.

Num livro feito sob encomenda pelo Opus Dei, o vaticanista John Allen confessa este poderio. Ele admite que a seita possui um patrimônio de US$ 2,8 bilhões – incluindo uma luxuosa sede de US$ 60 milhões em Manhattan – e que esta fortuna serve para manter as suas instituições de fachada, como a Heights School, em Washington, onde estudam os filhos dos congressistas do Partido Republicano de George W.Bush.

Numa reportagem que tenta limpar a barra do Opus Dei, a própria revista Superinteressante, da suspeita Editora Abril, reconhece o enorme influência política desta seita. E conclui: “No Brasil, um dos políticos mais ligados à Obra é o candidato a presidente Geraldo Alckmin, que em seus tempos de governador de São Paulo costumava assistir a palestras sobre doutrina cristã ministradas por numerários e a se confessar com um padre do Opus Dei. Alckmin, porém, nega fazer parte da ordem”. Como se observa, o candidato segue à risca um dos principais ensinamentos do fascista Josemaría Escrivá: “Acostuma-se a dizer não”.

Os tentáculos no Brasil

No Brasil, o Opus Dei fincou a sua primeira raiz em 1957, na cidade de Marília, no interior paulista, com a fundação de dois centros. Em 1961, dada à importância da filial, a seita deslocou o numerário espanhol Xavier Ayala, segundo na hierarquia. “Doutor Xavier, como gostava de ser chamado, embora fosse padre, pisou em solo brasileiro com a missão de fortalecer a ala conservadora da Igreja. Às vésperas do Concílio Vaticano II, o clero progressista da América Latina clamava pelo retorno às origens revolucionárias do cristianismo e à ‘opção pelos pobres’, fundamentos da Teologia da Libertação”, explica Marina Amaral na revista Caros Amigos.

Ainda segundo seu relato, “aos poucos, o Opus Dei foi encontrando seus aliados na direita universitária... Entre os primeiros estavam dois jovens promissores: Ives Gandra Martins e Carlos Alberto Di Franco, o primeiro simpático ao monarquismo e candidato derrotado a deputado; o segundo, um secundarista do Colégio Rio Branco, dos rotarianos do Brasil. Ives começou a freqüentar as reuniões do Opus Dei em 1963; Di Franco ‘apitou’ (pediu para entrar) em 1965. Hoje, a organização diz ter no país pouco mais de três mil membros e cerca de quarenta centros, onde moram aproximadamente seiscentos numerários”.

Crescimento na ditadura

Durante a ditadura, a seita também concentrou sua atuação no meio jurídico, o que rende frutos até hoje. O promotor aposentado e ex-deputado Hélio Bicudo revela ter sido assediado duas vezes por juízes fiéis à organização. O expoente nesta fase foi José Geraldo Rodrigues Alckmin, nomeado ministro do STF pelo ditador Garrastazu Médici em 1972, e tio do governador Geraldo Alckmin. Até os anos 70, porém, o poder do Opus Dei era embrionário. Tinha quadros em posições importantes, mas sem atuação coordenada. Além disso, dividia com a Tradição, Família e Propriedade (TFP) as simpatias dos católicos de extrema direita.

Seu crescimento dependeu da benção dos generais golpistas e dos vínculos com poderosas empresas. Ives Gandra e Di Franco viraram os seus “embaixadores”, relacionando-se com donos da mídia, políticos de direita, bispos e empresários. É desta fase a construção da sua estrutura de fachada – Colégio Catamarã (SP), Casa do Moinho (Cotia) e Editora Quadrante. Ela também criou uma ONG para arrecadar fundos: OSUC (Obras Sociais, Universitárias e Culturais). Esta recebe até hoje doações do Itaú, Bradesco, GM e Citigroup. Confrontado com esta denúncia, Lizandro Carmona, da OSUC, implorou à jornalista Marina Amaral: “Pelo amor de Deus, não vá escrever que empresas como o Itaú doam dinheiro ao Opus Dei”.

Altamiro Borges
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