13 de jul de 2014

Eu, o SUS, a Ironia e o Mau Gosto

"...Pois é, o Brasil é o único país do mundo que distribui gratuitamente o tratamento que eu faço para Esclerose Múltipla. Atenção: o ÚNICO. ..."

Há seis anos atrás eu tive uma dor no olho. Só que a dor no olho era, na verdade, no nervo ótico, que faz parte do sistema nervoso. O meu nervo ótico estava inflamado, e era uma inflamação característica de um processo desmielinizante. Mais tarde eu descobri que a mielina é uma camada de gordura que envolve as células nervosas e que é responsável por passar os estímulos elétricos de uma célula para a outra. Eu descobri também que esta inflamação era causada pelo meu próprio sistema imunológico que, inexplicavelmente, passou a identificar a mielina como um corpo estranho e começou a atacá-la. Em poucas palavras: eu descobri, em detalhes, como se dá uma doença-auto imune no sistema nervoso central. Esta, específica, chama-se Esclerose Múltipla. É o que eu tenho. Há seis anos.

Os médicos sabem tudo sobre o coração e quase nada sobre o cérebro — na minha humilde opinião. Ninguém sabe dizer porque a Esclerose Múltipla se manifesta. Não é uma doença genética. Não tem a ver com estilo de vida, hábitos, vícios. Sabe-se, por mera observação estatística, que mulheres jovens e caucasianas estão mais propensas a desenvolver a doença. Eu tinha 26 anos. Right on target.

Mil médicos diferentes passaram pela minha vida desde então. Uma via crucis de perguntas sem respostas. O plano de saúde, caro, pago religiosamente desde sempre, não cobria os especialistas mais especialistas que os outros. Fui em todos — TODOS — os neurologistas famosos — sim, porque tem disso, médico famoso — e, um por um, eles viam meus exames, confirmavam o diagnóstico, discutiam os mesmos tratamentos e confirmavam que cura, não tem. Minha mãe é uma heroína — mãos dadas comigo o tempo todo, segurando para não chorar. Ela mesma mais destruída do que eu. E os médicos famosos viam os resultados das ressonâncias magnéticas feitas com prata contra seus quadros de luz — mas não olhavam para mim. Alguns dos exames são medievais: agulhas espetadas pelo corpo, eletrodos no córtex cerebral, “estímulos” elétricos para ver se a partes do corpo respondem. Partes do corpo. Pastas e mais pastas sobre mesas com tampos de vidro. Colunas, crânio, córneas. Nos meus olhos, mesmo, ninguém olhava.

O diagnóstico de uma doença grave e incurável é um abismo no qual você é empurrado sem aviso. E sem pára-quedas. E se você ta esperando um “mas” aqui, sinto lhe informar, não tem. Não no meu caso. Não teve revelação divina. Não teve fé súbita em alguma coisa maior. Não teve uma compreensão mais apurada das dores do mundo. O que dá, assim, de cara, é raiva. Porque a vida já caminha na beirada do insuportável sem essa foice tão perto do pescoço. Porque já é suficientemente difícil estar vivo sem esta sentença se morte lenta e degradante. Dá vontade de acreditar em Deus, sim, mas só se for para encher Ele de porrada.

O problema é que uma raiva desse tamanho cansa, e o tempo passa. A minha doença não me define, porque eu não deixo. Ela gostaria muitíssimo de fazê-lo, mas eu não deixo. Fiz um combinado comigo mesma: essa merda vai ter 30% da atenção que ela demanda. Não mais do que isso. E segue o baile. Mas segue diferente, confesso. Segue com menos energia e mais remédios. Segue com dias bons e dias ruins — e inescapáveis internações hospitalares.

A neurologista que me acompanha foi escolhida a dedo: ela tem exatamente a minha idade, olha nos meus olhos durante as minhas consultas, só ri das minhas piadas boas e já me respondeu “eu não sei” mais de uma vez. Eu acho genial um médico que diz “eu não sei, vou pesquisar”. Eu não troco a minha neurologista por figurão nenhum.

 
O meu tratamento custaria algo em torno de R$ 12.000,00 por mês. Isso mesmo: 12 mil reais. “Custaria” porque eu recebo os remédios pelo SUS. Sabe o SUS?! O Sistema Único de Saúde? Aquele lugar nefasto para onde as pessoas econômica e socialmente privilegiadas estão fazendo piada e mandando o ex-presidente Lula ir se tratar do recém descoberto câncer? Pois é, o Brasil é o único país do mundo que distribui gratuitamente o tratamento que eu faço para Esclerose Múltipla. Atenção: o ÚNICO. Se isso implica em uma carga tributária pesada, eu pago o imposto. Eu e as outras 30.000 pessoas que tem o mesmo problema que eu. É pouca gente? Não vale a pena? Todos os remédios para doenças incuráveis no Brasil são distribuídos pelo SUS. E não, corrupção não é exclusividade do Brasil.

O maior especialista em Esclerose Múltipla do Brasil atende no HC, que é do SUS, num ambulatório especial para a doença. De graça, ou melhor, pago pelos impostos que a gente reclama em pagar. Uma vez a cada seis meses, eu me consulto com ele. É no HC que eu pego minhas receitas — para o tratamento propriamente dito e para os remédios que uso para lidar com os efeitos colaterais desse tratamento, que também me são entregues pelo SUS. O que me custaria fácil uns outros R$ 2.000,00.

Eu acredito em poucas coisas nessa vida. Tenho certeza de que o mundo não é justo, mas é irônico. E também sei que só o humor salva. Mas a única pessoa que pode fazer piada com a minha desgraça sou eu — e faço com regularidade. Afinal, uma doença auto-imune é o cúmulo da auto-sabotagem.

Mas attention shoppers: fazer piada com a tragédia alheia não é humor, é mau gosto. É, talvez, falha de caráter. E falar do que não se conhece é coisa de gente burra. Se você nunca pisou no SUS — se a TV Globo é a referência mais próxima que você tem da saúde pública nacional, talvez esse não seja exatamente o melhor assunto para o seu, digamos, “humor”.

Quem me conhece sabe que eu não voto — não voto nem justifico. Pago lá minha multa de três reais e tals depois de cada eleição porque me nego a ser obrigada a votar. O sistema público de saúde está longe de ser o ideal. E eu adoraria não saber tanto dele quanto sei. O mundo, meus amigos, é mesmo uma merda. Mas nós estamos todos juntos nele, não tem jeito. E é bom lembrar: a ironia é uma certeza. Não comemora a desgraça do amiguinho, não.

Nina Crintzs
Do Sociedade Sustentável
No Blog do Mário
Leia Mais ►

O Grande Jogo vai começar


Em Kim, obra-prima de Rudyard Kipling, sobre um garoto indiano que adere ao serviço secreto britânico, os protagonistas costumam falar no “Great Game”, o “Grande Jogo”, que tratava da guerra de espiões travada entre Rússia e Inglaterra para o controle da Ásia.

O termo me veio à memória ao lidar com o assunto mais explosivo do momento: a decisão do “garganta profunda” de liberar a íntegra dos documentos que tratam da sonegação da Globo.

O grande jogo começou.

Na sexta-feira de manhã estivemos no Centro Aberto de Mídia, conversamos com vários jornalistas, explicando o teor da denúncia sobre a sonegação da Globo.

Se a Globo decidir dar “um sumiço” em alguns blogueiros, a imprensa internacional, nacional e até mesmo rádios locais, já estão de olho.

Entretanto, é preciso dar alguns esclarecimentos sobre a origem dos documentos e informar onde eles estão.

O processo foi roubado em 2006, uma servidora foi presa, e ele permaneceu desaparecido por vários anos, até que algumas páginas começaram a vazar em 2013.

A mesma fonte, que até hoje se mantém anônima, voltou a entrar em contato e nos garantiu que, a partir desta semana, começa a vazar a íntegra do processo.

Ela nos informou que está no exterior do país, por questão de segurança. Como aperitivo, nos enviou as seguintes imagens, já publicadas semana passada em alguns blogs:

darf3
darf2
darf1

A partir de segunda ou terça, ela disponibilizará, na internet, os primeiros documentos inéditos.

A fonte se comprometeu a devolver a íntegra do processo às autoridades competentes, depois que o vazamento for completo. Cópias da íntegra do documento foram feitas, mas apenas serão enviadas aos blogueiros caso aconteça alguma coisa com a fonte original. Até o momento, apenas o “garganta profunda” detêm o processo.

No momento da entrega às autoridades, faremos um ato público, com presença de movimentos sociais, sindicatos e todos os interessados em combater a sonegação das grandes empresas, sonegação que sangra os cofres públicos e tira dinheiro da saúde e educação, além de aumentar o peso nos ombros da classe média, dos pequenos empresários e dos trabalhadores.

Aproveito para recapitular o caso e preparar a opinião pública para a chegada desses novos documentos.

No ano passado, o Cafezinho publicou um post informando sobre o vazamento de 25 documentos de um processo administrativo da Receita Federal, no qual a Globo era condenada a pagar R$ 615 milhões, em 2006, em valores não atualizados.
Essas páginas estão aqui:


A imprensa manteve um silêncio sepulcral sobre o escândalo, apenas quebrado quando um internauta descobriu, meio por acaso, um outro fato cabeludo ligado ao processo: os documentos haviam sido roubados por uma servidora da Receita Federal, que logo depois foi condenada e presa.

A blogosfera mergulhou em peso na investigação do caso, fazendo talvez a primeira grande investigação jornalística coletiva da nossa história.

A servidora, Cristina Maris Meinick Ribeiro, autora do furto, condenada pela Justiça Federal, após cumprir um período de prisão, foi liberada com um habeas corpus solicitado junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), concedido pelo ministro Gilmar Mendes. Simples servidora, ela foi defendida por um dos maiores escritórios de advocacia do país.

Aí não teve jeito. A grande mídia foi obrigada a entrar. O Jornal da Record fez três reportagens especiais:



Fizeram até filme do Hitler protestando contra o vazamento do processo.


Há exatamente um ano, no dia 13 de julho, a Folha também noticiou o caso:

folha

Desde então, a mesma fonte que havia feito o vazamento, depois de ameaçar (no bom sentido) várias vezes que iria entregar a íntegra dos documentos, recuou e sumiu.

Agora reapareceu. E garantiu que, dessa vez, irá entregar tudo, e já nos deu algumas provas de que está falando sério.

Importante ressaltar que nossa (digo “nossa” porque foram vários movimentos sociais) primeira iniciativa, ao receber as páginas do processo, foi encaminhá-las ao Ministério Público Federal, para que este investigasse a sonegação de impostos, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e demais crimes contra o sistema financeiro, cometidos eventualmente pela Rede Globo.

O Ministério Público aceitou a denúncia e abriu inquérito. A esta altura, a notícia já ganhava o UOL e a Agência Brasil:

uol_sonegacao

Após apurar a consistência das denúncias, o Ministério Público decidiu encaminhá-las à Delegacia Fazendária da Polícia Federal, na Superintendência do Rio de Janeiro, que aceitou abrir um inquérito sobre o caso.

É o inquérito 926/2013, conduzido pelo delegado Rubens Lyra.

Desde então, não houve novidades sobre o caso. A PF age com discrição, o que se compreende, em se tratando da maior empresa de mídia da América Latina.

O jogo recomeça agora, com o reaparecimento do nosso “garganta profunda”, que provavelmente por estar vivendo no exterior, sentiu-se mais seguro para vazar o resto dos documentos.

Ele havia prometido iniciar o vazamento a partir deste domingo, mas nos pediu mais dois dias para se organizar melhor.

Achamos até bom, porque o Brasil estará hoje e amanhã muito absorvido pelo final da Copa do Mundo.

No O Cafezinho
Leia Mais ►

Os Estados Unidos e o "Combo Control"

http://www.maurosantayana.com/2014/07/os-estados-unidos-e-o-combo-control.html

O domínio do monitoramento, produção e distribuição de conteúdo nas redes globais de comunicação e entretenimento.

Imaginemos, apenas por uma vez, que o empertigado Phileas Fogg, e seu criado Passepartout, do livro A Volta ao Mundo em 80 dias fizessem sua viagem agora, e não, como imaginou Júlio Verne, no segundo semestre de 1872.

Em cada cidade em que chegassem, ao adentrar o quarto de hotel, desfazer as malas e mexer no controle remoto, eles certamente se surpreenderiam, ao ver, na estranha tela retangular que chamamos de televisão, fosse qual fosse o país em que estivessem, sempre as mesmas cenas, repetidas, sem cessar, em inglês, ou dubladas e legendadas no idioma local.

Surgida como alternativa à programação da televisão aberta, a tv por assinatura tornou-se, hoje, o retrato mais bem acabado de um mundo culturalmente unipolar, em que as crianças consomem os mesmos desenhos animados, as mulheres vêem os mesmos programas culinários, os homens assistem à mesma programação esportiva, todos riem das mesmas piadas e tem a cabeça feita e as preferências moldadas por documentários e telejornais estabelecidos dentro das mesmas premissas e abordagem política.

Esse processo de imbecilização progressiva já é tão natural, e dura há tantos anos, que, para as novas gerações, que assistem sempre a mesma coisa, com a única diferença de ser apresentada em seu próprio idioma, fica fácil esquecer que toda essa maçaroca, dos animes à “filosofia”, vem de uma mesma origem e obedece a uma mesma estratégia de controle e pasteurização.

O início foi o telégrafo. Depois, veio o rádio. Impossibilitados, pela tecnologia da época, de tomar seu controle globalmente, os Estados Unidos rapidamente viram no Cinematógrapho dos Irmãos Lumiére uma forma de projetar os mitos sobre o heroísmo e a superioridade dos norte-americanos para além de suas fronteiras.

Para isso, era preciso controlar não apenas a produção de conteúdo, a partir dos grandes estúdios, em Hollywood, mas, também, e principalmente, a distribuição, em um grande número de países. O rádio só resistiu ao cinema, como meio de comunicação e controle de massas, até o advento da televisão. No início, o conteúdo televisivo era local, por ser transmitido obrigatoriamente ao vivo. Depois, com o advento do videotape, ele foi rapidamente dominado pelo país que tinha o maior estoque de conteúdo próprio, os Estados Unidos.

Finalmente, com o passar dos anos, e o avanço da tecnologia, os Estados Unidos conseguiram, finalmente estabelecer o tripé por meio do qual estão estendendo sua influência sobre dezenas de países.

Esse tripé, que poderíamos chamar de Combo Control, ou Combo de Controle, é o mesmo que é oferecido, atualmente, pelas operadoras de telecomunicações:

A internet — cuja rede foi estabelecida inicialmente por eles, e é amplamente dominada por suas empresas, como o Google, a Apple, a Microsoft — que serve para a disseminação de conteúdo, o monitoramento de opiniões e atividades contrárias aos Estados Unidos e para a espionagem e a chantagem do usuário até o nível mais pessoal.

O telefone celular, que hoje se confunde cada vez mais com o computador, e que serve não apenas para monitorar as ligações e seu conteúdo, mas também para estabelecer a localização física de eventuais adversários, até mesmo para sua captura ou assassinato.

E a TV a Cabo, que transformou-se em uma matriz centralizada para a padronização e distribuição, em escala global, de um conteúdo que é sempre o mesmo, para cada país, e os mais diferentes segmentos em que se divide o público televisivo.

Tudo isso é feito, por meio tanto dos grandes grupos de produção de conteúdo, como a Warner, a FOX e a CNN, como dos grandes grupos de distribuição de sinais, por meio de cabo ou satélites.

Com a recente compra da Direct TV, controladora da SKY no Brasil, a AT&T, American Telephone and Telegraph Corporation, dos Estados Unidos, tornou-se líder na distribuição de tv a cabo no Brasil e na América Latina.

Na semana passada, a ANATEL — Agência Nacional de Telecomunicações, “comemorou” a chegada da tv a cabo, no Brasil, ao número de 18 milhões e setecentas mil residências.

Em um país sério, ela estaria, no Congresso e fora dele, estudando uma legislação que nos permitisse oferecer uma alternativa a esse imenso público, que extrapolasse o sempre imutável menu das dezenas de canais norte-americanos.
Leia Mais ►

Presidenta Dilma deseja sucesso à Rússia e convida todos para Olimpíadas 2016

Dilma, Putin e Blatter em cerimônia simbólica de entrega da Copa do Mundo do Brasil para a Rússia.
Foto: Roberto Stuckert Filho/PR.
Na entrega simbólica da Copa do Mundo para a Rússia, momentos antes da partida final entre Alemanha e Argentina neste domingo (13), a presidenta Dilma Rousseff destacou o Brasil pela organização do Mundial 2014 e enalteceu a hospitalidade do povo brasileiro com todos que vieram ao país.
Estou certa que todos os que vieram ao Brasil – delegações, seleções, turistas – levarão de volta a experiência de ter conhecido um belo país, feito por um povo carinhoso e receptivo, e onde impera a diversidade. Nós, brasileiros, guardaremos a emoção e satisfação de ter realizado um evento muito bem sucedido, uma Copa que só não foi perfeita porque o hexacampeonato não veio.
Dilma também desejou sucesso ao povo russo na realização da Copa do Mundo de 2018.
A partir de agora, os fãs do futebol voltam sua atenção para a Rússia, um país especial, de uma cultura rica, e que terá a honra de sediar o maior dos espetáculos do futebol. Desejo ao povo russo muito sucesso na organização e realização da Copa do Mundo FIFA 2018.
A presidenta concluiu fazendo convite, em nome de todos os brasileiros, para retornarem ao país para Olimpíadas e Paraolimpíadas 2016.
Nós, brasileiras e brasileiros de todos os cantos deste imenso e adorado País, convidamos todos a voltarem para as Olimpíadas e Paraolimpíadas 2016, que sediaremos com a mesma competência e hospitalidade dedicadas à Copa do Mundo FIFA Brasil 2014.
No Blog do Planalto
Leia Mais ►

Hoje é dia de rock

Leia Mais ►

Balanço


Tem muita gente afirmando que o fiasco de 2014 foi pior do que o de 1950. Futebolisticamente, não dá pra negar: em 50, ficamos em segundo, por um único gol. Aqui, acabamos em quarto, tomando sete dos alemães, na semi, mais três dos holandeses, na disputa pelo terceiro lugar. A reação do país lá e cá, contudo, sugere que a derrota de 2014 não deixará, fora dos gramados, nem sombra da cicatriz uruguaia.

Diz a lenda que em 50, depois do jogo, havia banquetes abandonados pelas ruas, sendo devorados por pombas e vira-latas. O povo chorava em casa, como se o gol de Ghiggia selasse não apenas o campeonato mas nosso destino de fracassados, fadados ao eterno subdesenvolvimento.

Bem diferente do cenário que encontrei na Savassi, bairro boêmio de BH, voltando do Mineirão, na terça. Mesmo depois da derrota, as ruas continuavam cheias. Ambulantes seguiam vendendo cerveja. Embaixo de uma marquise, um casal se beijava sôfrega e desajeitadamente, como costumam se beijar os casais, na primeira vez. Apesar da tristeza e da perplexidade, a vida seguia seu rumo.

Por muito tempo, fomos um arremedo de país com uma seleção deslumbrante. Eu não cairia no exagero de dizer que a equação se inverteu: estamos longe de ser um país deslumbrante — socialmente, economicamente, eticamente —, mas o que percebi em meio à muvuca e me salvou da depressão foi que, hoje, o Brasil é melhor do que a sua seleção.

Dado o peso que o futebol tem entre nós, tendemos a supervalorizar a sua interpretação. Se a seleção ganha, é o brasileiro mostrando ao mundo o quão incrível ele é. Se a seleção tem um desempenho pífio, é essa porcaria do brasileiro que não consegue mesmo fazer nada que preste.

O fracasso do time serve para escancarar o atraso, a incompetência, a ganância, a burrice e a má-fé que administram o nosso futebol, mas não deve ser estendido ao país como um todo. Claro que os defeitos da cartolagem brotam de certas vicissitudes nacionais, mas a gente não se resume a elas. Temos inúmeros exemplos de brasileiros que se unem com um objetivo e chegam, com trabalho e competência, a resultados extraordinários.

Das meninas do vôlei ao Impa, Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, no Rio de Janeiro. Do Grupo Corpo ao Instituto Butantan. Da Osesp à Pastoral da Criança. De Inhotim ao programa gratuito de tratamento da Aids. Da cozinha do Alex Atala aos programas sociais que tiraram 50 milhões de pessoas da miséria. Sem falar na Copa, que, apesar da seleção, deu certo.

O jogo ainda não está ganho. Longe disso. É preciso mexer bastante no meio de campo, mas não somos uns fracassados, fadados ao eterno subdesenvolvimento. Não sei quanto a você, amigo, mas esse futebol não me representa.

Antonio Prata
No fAlha
Leia Mais ►

Nova armadilha para Dilma


Vitoriosa na Copa das Copas, presidente deve evitar casca de banana clássica: sugerir mudanças para arrumar o futebol

Agora que se comprovou que tivemos a Copa das Copas, surge uma nova armadilha para Dilma Rousseff: cobrar providências para que ela arrume o futebol brasileiro.

Vamos combinar: o último presidente que se aventurou nessa seara foi Fernando Henrique Cardoso,que convocou Pelé para Ministro dos Esportes. O fiasco foi tão grande que todos saíram de fininho e não se falou mais nisso.

Outro caso notável, do economista e professor Luiz Gonzaga Belluzzo, envolveu uma tentativa de arrumar o Palmeiras. A opinião geral é que, como cartola de clube, Belluzzo mostrou que é um ótimo economista e um ótimo sujeito. No futebol, é um fanático com ótimas intenções.

Um governo, qualquer governo, pode e deve ser cobrado por sua atuação política-administrativa. Pode propor medidas de estímulo ao esporte e ao bem-estar da população. Não precisa dar respostas de bolso de colete ao estranho mundo do futebol profissional, com seus billhões, máfias e transações sem nenhuma transparência. Neste caso, estamos falando de um mundo de negócios privados. Cabe ao Estado defender a lei — como acontece de modo exemplar e inédito com a investigação sobre a máfia dos ingressos — e impedir abusos contra o cidadão-torcedor.

O governo brasileiro agiu corretamente na Copa de 2014 que, conforme os internautas da BBC inglêsa, terminou assim:

39% acham que o Brasil fez a melhor Copa da história

10,5% preferem a Itália

8,4% preferem a França

8,1% preferem a Alemanha

É por isso que agora se pede a Dilma que dê palpites para arrumar o futebol. Pura casca de banana.

Num ano eleitoral, a Copa das Copas, que foi apresentada como um fiasco inevitável transformou-se num sucesso tão grandioso que os adversários só podem tentar esconder. Será que um dia iremos lembrar a lista daqueles políticos e jornalistas que pediram o cancelamento da Copa?

Sem a menor necessidade de mostrar intimidade com o mundo das chuteiras, a presidente poderia perfeitamente driblar questões dessa natureza.

Quando faltam pouco mais de dois meses para a sucessão presidencial, cobrar providências para o futebol brasileiro é uma tentativa — tosca e marota — de associar o governo ao desempenho da seleção. É trazer a derrota em campo  — onde ela não joga — para a vitória fora dele, no qual foi autoridade máxima.

O nome disso é marketing.

Em breve vão perguntar a presidente por que ela não pediu a CBF que tirasse o Felipão, levando o sósia junto. Ou porque não sugeriu a saída do Fred já no segundo jogo. Ou porque não mandou uma lei revolucionária para o Congresso. Ou porque não tirou o vilão da vez — sempre um cartola, claro — quando era tempo.

O último presidente que se envolveu diretamente nessa seara foi um ditador, Emílio Médici. Chegou ao ponto de pedir a escalação de Dario, numa linha que tinha Jairzinho, Gerson, Pelé, Tostão e Rivelino.

Não foi ouvido — mesmo falando com ajuda do AI-5. Ainda bem. O país foi tri-campeão.

Paulo Moreira Leite
Leia Mais ►

Acredite no Brasil


A derrota para a Alemanha não pode apagar o brilho da organização impecável de uma das maiores Copas do Mundo da história. O País deve se orgulhar de sua capacidade de realizar grandes feitos e da competência e da qualidade de seu povo

Finalmente chegou ao fim na terça-feira 8, em Belo Horizonte, o trauma que marcou o Brasil pelos últimos 64 anos e ajudou a moldar a visão que os brasileiros têm de si. Quis o destino que o fantasma do Maracanazo, drama que perseguiu e maltratou a autoestima nacional por mais de seis décadas, tenha sido enterrado com uma derrota vergonhosa e acachapante para a Alemanha, no Mineirão. Os sete gols marcados pelo time Müller, Klose, Khedira & cia tornaram aquele chute meio mascado de Ghiggia em 1950 um mero soluço na vitoriosa história do futebol brasileiro. Ainda é cedo para entender a real dimensão de uma derrota tão impactante numa semifinal de Copa do Mundo disputada em casa. Mas nunca é tarde para o País analisar o passado e não incorrer no profundo erro que cometeu em 1950 após perder o Mundial em pleno Maracanã: a crença de que a culpa para o fracasso em uma partida de futebol se deve a uma fragilidade, a uma inferioridade, a um pecado original intrínseco à identidade brasileira. O que ocorreu nestes 64 anos que separam as duas hecatombes prova, com demonstrações indiscutíveis, que o Brasil e os brasileiros precisam livrar-se de uma vez por todas do que o gênio Nelson Rodrigues classificou como complexo de vira-latas.

abre.jpg
UNIÃO
Brasileiros de todas as cores, credos e classes uniram-se para
fazer desta uma das maiores Copas de todos os tempos

Os profundos avanços econômicos, sociais, tecnológicos e culturais brasileiros nas últimas seis décadas são suficientes para aniquilar na raiz qualquer ilação sobre uma pretensa precariedade da alma nacional. De nação puramente agrária, em um lento processo de industrialização e absolutamente desigual, o Brasil transformou-se em uma das maiores economias do mundo, numa das mais avançadas democracias do planeta, dono de um parque tecnológico pujante e ator importante no cenário geopolítico regional e global. Trata-se ainda, é verdade, de um país em construção, com uma série de duros e complexos desafios a enfrentar. Mas é inegável que o Brasil de 2014 não parece nem sombra daquele de seis décadas atrás – e isso não é obra de vira-latas preguiçosos e desleixados. Creditar a derrota de terça-feira a uma suposta supremacia moral alemã, ou a vícios de um povo indolente, é jogar fora mais de 50 anos de trabalho suado, de história vitoriosa confirmada por uma infinidade de estatísticas. Até mesmo no campo — hoje de gosto amargo — do futebol. Desde 1963, as duas seleções se enfrentaram 22 vezes. O Brasil venceu 12 confrontos e empatou cinco. Já os alemães venceram apenas cinco jogos, incluindo a goleada do Mineirão.

O vira-latismo, apesar de antigo, é persistente. Volta e meia uma espécie de surto toma conta do País e, olhando-se de longe, tem-se a impressão de que o Brasil está sempre prestes a sucumbir a uma inerente incapacidade. Foi assim nos meses que antecederam a Copa do Mundo. Até o início da competição, uma vaga de pessimismo espalhou-se por todos os cantos. Os estádios não ficariam prontos, os aeroportos iriam colapsar, a violência tornaria a vida dos estrangeiros um inferno, os protestos e greves paralisariam a economia. O clima era tão ruim que até mesmo o Comitê Olímpico Internacional se dizia preocupado com a capacidade de o País organizar um evento da magnitude da Olimpíada.

ACREDITE-02-IE-2329.jpg

DEU CERTO
O risco de um apagão no sistema de transportes se mostrou infundado
e milhares de estrangeiros cruzaram o país sem problemas

ACREDITE-03-IE-2329.jpg

Não foi preciso muito tempo para a realidade se impor. Em menos de uma semana de Mundial, brasileiros, turistas, jornalistas e mesmo quem estava do outro lado do mundo já começavam a considerar esta como a melhor Copa de todos os tempos. Goleadas históricas, jogos notáveis, viradas emocionantes, disputas improváveis de pênaltis fizeram dentro do campo este Mundial para lá de especial. Fora dele, centenas de milhares de turistas ficaram absolutamente encantados com a maneira de ser do brasileiro. O acolhimento, a generosidade, a capacidade ímpar no mundo de viver com as diferenças e se adaptar a elas conquistaram aqueles que vieram ao Brasil temendo encontrar o caos em seu sentido mais amplo.

Mesmo na infraestrutura, uma área em que o Brasil de fato precisa avançar muito, tudo deu certo. O transporte público nas grandes cidades, como em São Paulo, Rio ou Belo Horizonte, funcionou sem problemas. Os aeroportos, o grande calcanhar de aquiles deste Mundial, suportaram o fluxo concentrado de passageiros de forma exemplar. O percentual de voos atrasados durante a Copa foi inferior à média europeia, por exemplo. E os estádios, tão criticados, cumpriram seu papel com elegância. É verdade que alguns deles, como a Arena Corinthians, iniciaram o torneio ainda necessitando de ajustes, mas que foram resolvidos rapidamente. Apesar do naufrágio do time brasileiro, é impossível não concordar que, se essa não foi a “Copa das Copas”, chegou muito perto de ser. Até um esquema milionário de venda de ingressos por tubarões ligados à Fifa — impunes em várias paragens — acabou desbaratado pela sempre tão criticada polícia brasileira. “Tudo funcionou bem, tudo foi ótimo. Menos a nossa seleção, essa é que não ficou pronta para o Mundial”, brinca o humorista Hélio de La Peña. Outro que ficou impressionado com o que viu foi Mauricio de Sousa, o criador da turma da Mônica. “Foi um sucesso. A profecia da catástrofe não se concretizou.”

IEpag50a55_CopaAcredite-3.jpg

Qual o motivo, então, para o brasileiro ter apostado tanto no fracasso da sua Copa e ter temido um constrangimento colossal justo no seu grande momento de apresentar ao mundo a capacidade de organizar um evento desta magnitude? “É engraçada a dúvida que surgiu no Brasil sobre sua condição de realizar um megaevento de porte mundial”, diz Bryan McCann, professor de história brasileira da Universidade Georgetown, em Washington, nos Estados Unidos. “Foi tudo muito aceitável ou melhor do que a média mundial e quem apostou em desastre claramente exagerou”, diz ele. Para o diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, em São Paulo, Valter Caldana, o que houve foi um debate acalorado demais, que induziu ao erro de avaliações. “O debate saiu do campo técnico e político e foi para o campo eleitoral, o que sempre pode ultrapassar os limites do bom senso”, diz ele.

01.jpg

Com as questões de infraestrutura resolvidas, sobrou espaço para que o Brasil mostrasse ao mundo exatamente o que tem de mais único, de mais especial, algo que os próprios brasileiros têm dificuldade em compreender e aceitar: a tal da brasilidade, esse conjunto de características que une um país de dimensões continentais como nenhum outro no mundo. Darcy Ribeiro, o antropólogo que, como poucos, conseguiu traduzir em palavras a alma brasileira, gostava de dizer: “Os brasileiros se sabem, se sentem e se comportam como uma só gente, pertencente a uma mesma etnia”. O sociólogo Alberto Carlos Almeida, autor do best-seller “A Cabeça do Brasileiro”, diz que, apesar da tradição europeia, não somos um povo europeu. “Essa Copa serviu para mostrar ao mundo as características muito próprias do brasileiro, como a alegria, a flexibilidade e a nossa imensa capacidade de conciliação”, diz ele. “O brasileiro poderia ser mais sério, é verdade. Mas por outro lado não podemos renegar quem somos. A alegria do povo brasileiro é algo maravilhoso, não podemos perder isso”, diz o filósofo Renato Janine Ribeiro. Darcy Ribeiro argumentava que essa alegria veio do índio, para quem o sentido da vida era só um: viver.

ACREDITE-04-IE.jpg
JEITINHO
A improvisação e a alegria dos brasileiros conquistaram os turistas

E não se trata apenas de alegria. Há muita capacidade também. São poucos os países do mundo que podem se orgulhar de ter uma empresa de pesquisa como a Embrapa, que com tecnologia puramente nacional conseguiu fazer com que o Brasil se transformasse em um dos maiores produtores de grãos do planeta. Ou como a Embraer, por exemplo, que pelo empenho de engenheiros nacionais é hoje uma das quatro maiores fabricantes de aviões do mundo. Ou o que dizer de artistas que influenciaram — e influenciam — a arte mundial, como João Gilberto, Tom Jobim e Heitor Villa-Lobos. Por isso, imaginar que a derrota, por mais humilhante que seja, em uma partida de futebol, tem o poder de sintetizar a pretensa inferioridade de um povo como o brasileiro é mais que burrice, trata-se de má-fé. Como diria João Ubaldo Ribeiro, com toda a sua crítica ácida à formação histórica do Brasil: Viva o povo brasileiro.

02.jpg
Foto: Laurence Griffiths/Getty Images,Mario Tama/Getty Images; André Lucas Almeida/Futura Press; Marcio Fernandes/AE; Fernando Nunes/Futura Press; Bruno Santos/Terra, Lucy Nicholson
Ana Carolina Nunes, Paula Rocha e Yan Boechat
No IstoÉ
Leia Mais ►

'Globo Rural' reconhece: 'Mais Médicos' melhoram as condições de saúde em regiões agrícolas distantes

 Imperdível  

Programa da TV Globo enfatizou os benefícios do programam Mais Médicos para as populações de regiões mais carentes
Em reportagem divulgada neste domingo (13), o programa Globo Rural, da Rede Globo, divulgou extensa matéria na qual enfatizou os benefícios do programa Mais Médicos, do governo federal, para as populações de regiões distantes do País.

Foi a primeira vez que a grande mídia brasileira mostra a iniciativa de forma verdadeira, demonstrando a ajuda que os profissionais estrangeiros levam aos moradores de municípios distantes dos grandes centros.

A matéria também conta que o programa foi criado, inicialmente, para a contratação de profissionais brasileiros. Com a ausência de interesse dos médicos nacionais, a iniciativa foi aberta pra especialistas de Cuba, Espanha e até da Alemanha.



Leia a íntegra da matéria.

“Médicos melhoram as condições de saúde em regiões agrícolas distantes


Duas profissionais cubanas atendem pacientes em Calçoene, no Amapá. Ministério da Saúde contratou 14.462 médicos para o programa mais Médicos

No extremo norte do Brasil, a maior parte da população é pobre e sempre sofreu com uma série de problemas de saúde: malária, verminose, leishmaniose, mortalidade infantil elevada.

O povo sofre com doenças variadas, enfrenta epidemias do campo, se acidenta com frequência no trabalho, e padece com o isolamento e atendimento precário. Esta é a realidade da maioria dos lugarejos mais distantes do nosso território. Regiões agrícolas que muitas vezes não tem nem médicos para socorrer a população.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, em 2012 o Brasil contava com 1,8 médicos para cada mil habitantes. A media é baixa quando comparada com outros países, como os vizinhos Uruguai (3,7), Argentina (3,2), ou ainda europeus como Alemanha (3,6) e Espanha (4,0). O mais grave é que a distribuição destes doutores sempre foi muito desigual pelo território brasileiro. De maneira geral, quanto mais pobre e mais distante a região, menos a chance de ela ter médicos em atividade.

A combinação de pobreza e atendimento precário sempre marcou a história do município de Calçoene, na Amazônia. Calçoene fica ao norte de Macapá, capital do Amapá, o segundo estado brasileiro com menos médico por habitante, atrás apenas do Maranhão. No município o povo vive do comércio, da pesca e principalmente da agricultura familiar.

Calçoene conta com um hospital, posto de saúde, enfermeira, dentista e assistente social, mas até há pouco tempo só tinha três médicos em atividade. Três médicos para uma população de 9.700 pessoas, uma média de 0,3 doutores para cada mil habitantes.

“Totalmente insatisfatório. Muitos usuários não conseguiam vaga. Nós já estávamos chegando a um caos. Sem saber o que fazer em relação a essa situação de contratação de médico”, declara Maria de Jesus Caldas, secretária de saúde/Calçoene/AP.

Esse quadro começou a mudar depois que o município recebeu a ajuda de um projeto federal. Iniciado em 2013, o programa Mais Médicos vem contratando doutores para atuar em regiões carentes do país. Calçoene recebeu duas profissionais de Cuba.

Dra. Ceramides Carbonell é uma médica com mestrado em atenção básica de saúde e 17 anos de experiência. Chegou ao Brasil no ano passado e antes de ir para Calçoene fez cursos obrigatórios de português e sobre o sistema de saúde brasileiro. Ela atende a população e orienta mulheres grávidas do município.

“Um dos primeiros indicadores que qualificam a saúde de um povo é a mortalidade infantil. Pra isso você tem que ter um acompanhamento muito bom das grávidas. Por isso também damos a elas orientação sobre higiene e nutrição. Eu estou gostando bastante da experiência”, declara a médica cubana.

A agricultora Valdenora da Costa conta que nunca tinha tido este tipo de acompanhamento. “Eu estou achando muito bom, porque ela é uma pessoa muito atenciosa com a gente”.

No programa, a contratação de médicos ocorreu em etapas, primeiro as vagas foram abertas apenas para médicos formados no Brasil. Só que o volume de interessados foi muito pequeno, por isso em um segundo momento as vagas não preenchidas foram destinadas a doutores de outros países, que acabaram se tornando maioria. Ao todo, o Ministério da Saúde contratou 14.462 médicos.

Dra. Anelie Reguera foi a segunda médica do programa a chegar a Calçoene. Ela também é cubana e tem especialização em atendimento comunitário. Ela faz palestras em escolas sobre prevenção de doenças. “Estamos ensinando para a população como cuidar da saúde para evitar doenças recorrentes”, alerta. Depois das palestras as médicas aproveitam para atender a população.

Os doutores se dedicam exclusivamente a atenção básica, fazendo consultas e dando orientação aos pacientes. A ideia é resolver o máximo de problemas no próprio município e só encaminhar para a capital do estado os casos mais complicados, que exigem exames sofisticados ou atenção de especialistas.

Além dos médicos cubanos, o programa também conta com doutores vindos de outros 40 países, principalmente da América Latina e da Europa. A Dra. Maria Del Carmen é espanhola e atende pacientes no Parque Indígena do Tumucumaque, na divisa do Amapá com o Pará.

Em um encontro na Casa do Índio, em Macapá, ela fez um primeiro contato com os moradores do parque. A médica atuava em hospitais de Sevilha e escolheu trabalhar com índios por seu interesse por medicamentos naturais “Eu estou feliz de trabalhar aqui, porque sei que vou aprender muito com estas pessoas”, diz ela.

Outra médica europeia, que faz parte do programa, é a alemã Anne Kimpchin. Ela vai atuar em uma unidade de saúde de Macapá, que costuma receber muita gente da roça. “Eu trabalhava como clínica geral em hospital e consultório na zona rural”, conta.

Os médicos do programa ganham R$ 10 mil por mês, só que no caso dos cubanos a conta é diferente. O Ministério da Saúde repassa os mesmos R$ 10 mil, mas os doutores só ficam com cerca de R$ 3 mil e a diferença vai para o governo de Cuba. Isso ocorre porque os cubanos não entram no projeto individualmente, mas através de uma acordo de cooperação mediado pela Organização Pan-americana de Saúde.

Além dos três mil mensais, as doutoras de Calçoene recebem mais R$ 2.5 mil do município para gastos com alimentação e moradia. A doutora Anelie vive em, uma casa com sala, cozinha e um quarto espaçoso. Ela nos conta que o contrato do programa é de três anos e que nos períodos de férias pretende visitar a família

Além de trabalhar na cidade, as novas médicas de Calçoene também viajam pela zona rural. A principal área agrícola do município fica a uma hora da cidade por estradas em péssimas condições.

Carnô é um assentamento de reforma agrária que abriga 1.900 pessoas as famílias vivem em um vilarejo e trabalham em lotes de terra que ficam no entorno. Dra. Ceramides visita o assentamento a cada 15 dias em um posto de saúde simplório. Uma nova unidade mais equipada já está em construção no vilarejo e outra na sede do município, ambas com verbas federais.

No atendimento a doutora encontra de tudo. Com a ajuda de enfermeiras e agentes de saúde que moram em Carnô, a médica também visita algumas famílias.

Em uma das casas, a doutora visita a pequena Vitória que teve malária. Ela acaba de tomar as últimas doses do medicamento para enfrentar o problema. Transmitida por mosquito, a doenças provoca febre calafrio e sem tratamento pode até levar a morte. “Ela já não está com nenhum sintoma, eu acho que ela já está totalmente recuperada da malária. Só temos que fazer este teste de comprovação para ver se ela melhorou mesmo e se tratamento deu certo”, explica a Dra. Ceramides.

O teste para identificar a malária pode ser feito em Calçoene e os medicamentos para o tratamento também estão disponíveis no município, só que muitas vezes os problemas dos moradores não podem ser resolvidos no local.

Antonio da Silva, que trabalha na casa de farinha do assentamento, precisa de exames que só podem ser feitos em Macapá. Também é possível que ele tenha que fazer uma cirurgia. “Estou trabalhando para juntar dinheiro pra eu poder ir pra Macapá”, afirma.

Malaria, leishmaniose, gastrite, mal de Parkinson… Em apenas um dia na comunidade a Dra. chega a atender mais de 30 pacientes. Os agricultores do assentamento reconhecem que com a chegada da médica o atendimento melhorou, mas querem mais. “É bom, só que ainda não está 100%. Porque bom mesmo seria se ela estivesse aqui direto com a gente”, declara Antonio da Silva.

Histórias como a de Calçoene se reptem em milhares de localidades pelo Brasil afora. Ao todo, o programa federal contratou médicos para 3.819 municípios, e grande parte deles fica em regiões agrícolas do Norte e do Nordeste do país.

Vale lembrar que apesar de estar a 360 quilômetros de Macapá, Calçoene é ligada à capital por uma estrada asfaltada. Em boa parte da Amazônia, a situação é bem mais complicada, uma vez que acesso em muitos casos só é possível com longas viagens de barco”.

No Agência PT
Leia Mais ►

Imundícies do PSDB, dos seus aliados e da mídia golpista


Disseram que tinha Bolsa-prostituta.

Disseram que o SUS ia dar dinheiro para quem abortasse.

Disseram que a organização da Copa seria um caos.

Disseram que haveria hiper-inflação.

Disseram que o Lulinha era dono da Friboi.

Disseram que a Copa tinha sido comprada.

Disseram que haveria apagão.

Disseram, em 2002, que o PT daria um golpe comunista.

Disseram, ano passado, que o PT daria um golpe comunista.

Disseram, hoje, que o PT daria um golpe comunista.

Disseram que a Petrobras estava falida.

Disseram que iam privatizar a Vale e as telefônicas para melhorar pro povo.

Disseram que aposentados eram vagabundos.

Disseram que a Dilma não podia ir pros EUA porque seria presa.

Disseram que os médicos cubanos estavam vindo dar um golpe comunista.

Disseram que quem falou que a Copa ia ser um caos foi a imprensa estrangeira.

Disseram que o Brasil era o penúltimo do mundo no quesito educação.

Disseram que tirar 30 milhões pessoas da mais absoluta miséria não significava nada.

Disseram que o salário mínimo estava muito alto.

Disseram que se não aumentasse o preço dos combustíveis a Petrobras ia falir.

Disseram que o prédio da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz - imagem acima) era o palácio do Lula.

Disseram que o avião do Corinthians era do Lula.

Disseram que era bom pedir empréstimos ao FMI.

Disseram que o Marco Civil da internet era censura.

Disseram que democratizar a mídia é censura.

Disseram que aumentar a participação popular nas questões do país é ditadura.


E é fazendo uma política suja dessa que querem acabar com a sujeira na política?

Se mentem pra nós agora, imagino se chegarem ao poder.

Claudia Capela Bogdan
No Ornitorrinco
Leia Mais ►

Dilma recebe Brics por banco e fundo de US$ 150 bi


Copa do Mundo da Economia Global tem partida histórica entre a terça-feira 15 e a quarta 16, em Fortaleza; tudo certo para a criação de um banco de desenvolvimento com US$ 50 bilhões em caixa e um fundo de reserva de US$ 100 bilhões, durante a 6ª Cúpula dos Brics; instituição e poupança são alternativas ao Banco Mundial e ao FMI; "ideia é fascinante", aplaude criador do termo, Jim O'Neill; alguma coisa está mudando na ordem mundial

Na próxima terça-feira, apenas dois dias depois da final da Copa do Mundo, no Rio de Janeiro, o Brasil será palco da mais importante reunião internacional de cúpula dos últimos tempos.  Daquelas dignas de entrar para a história. Em Fortaleza, entre a terça-feira 16 e quarta 17, será realizada a 6ª Cúpula dos Brics. No chamado "segundo ciclo" de encontros, que se inicia pelo Brasil depois de todos os países do bloco já terem sediado reuniões, será anunciada a criação de um banco de desenvolvimento com nada menos que US$ 50 bilhões em caixa e um fundo contingencial de reserva de US$ 100 bilhões. A instituição será, na prática, um contraponto ao Banco Mundial, enquanto a poupança fará frente ao FMI.

Os países do bloco terão cotas iguais no novo banco, a partir de depósitos de US$ 10 bilhões cada um. A sede da instituição multilateral ainda não está definida, mas a capital do Ceará já se candidata informalmente para conseguir a primazia. Quanto ao fundo de US$ 100 bi, faz parte do Acordo de Reservas de Contingência (CRA) assinado pelos Brics, com regras para utilização em caso de crise econômica. Os recursos deverão ser aplicados no mercado financeiro global.

— Desde o surgimento dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), em 2009, o diálogo do grupo ganhou em profundidade e extensão, mas agora abrimos um novo ciclo com a criação de dois mecanismos financeiros próprios", disse o subsecretário político do Itamaraty, José Alfredo Graça Lima. o Acordo de Reservas de Contingência (CRA), uma espécie de fundo de estabilização econômica para ajudar países em crises financeiras, serão formalizados na VI Cúpula dos líderes dos Brics.

Em Fortaleza, a presidente Dilma Rousseff será anfitriã do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e dos presidentes Vladimir Putin, da Rússia, Hu Jintao, da China, e Jacob Zuma, da África do Sul. O primeiro dia do encontro será destinado para um grande encontro entre empresários e executivos públicos dos países participantes. Na quarta 17, ocorrerá a criação formal do novo banco de fomento. Os preparativos na capital do Ceará para receber o encontro começaram um ano atrás. Os hotéis estão com lotação completa.

Após o encontro, os líderes dos Bric irão a Brasília, para expor a filosofia da nova instituição e do fundo de reservas para os presidentes que fazem parte da Unasul - Uniao dos Países Sul-Americanos.

— A criação do banco dos Brics é uma resposta à falta de acordos para democratizar o Banco Mundial e o FMI, mas não só isso. É também uma demonstração da capacidade dos Brics, de que não dependem dos grandes organismos multilaterais", acrescentou o embaixador José Alfredo Graça Lima.

"BANCO É IDEIA FASCINANTE", DIZ O'NEILL - O grupo dos Brics foi criado há cinco anos, a partir da expressão do economista Jim O'Neill, então sócio do banco americano Goldman Sachs. Ele é um dos maiores entusiastas da evolução de um conceito para a forma de um bloco econômico real de cinco países emergentes.

—  A ideia de uma banco dos Brics, ou do Sul, como alguns chamam, é absolutamente fascinante, saudou O'Neill à revista alemã Der Spiegel (íntegra abaixo). Ele foi cogitado para ser uma espécie de secretário-geral do bloco, mas, até aqui, isso não prosperou. Com larga experiência no mercado financeiro, entretanto, não é descartado algum tipo de trabalho para ele na formatação do novo banco.

Com o banco de desenvolvimento e fundo de reserva, os Brics ganham, também, em institucionalidade. A partir de agora, os países membros terão tarefas em comum no sentido de erguer a instituição e dar a utilidade correta ao fundo.

— Os Brics são um fórum que serviu para que os cinco países se conheçam melhor e para pressionar por uma nova ordem internacional e uma nova governança nas organizações multilaterais, disse Graça Lima. Ele lembrou que o grupo nasceu a partir de um acrônimo, mas evoluiu política e economicamente, e serviu para permitir aos países emergentes conquistar mais influência na direção política internacional.

Como primeira missão, os presidente dos Brics irão todos à Brasília expor aos integrantes da Unasul (União das Nações Sul-americanas) a filosofia do novo banco de fomento.

Abaixo, clip de Alguma Coisa Está Fora da Ordem, com Caetano Veloso, e entrevista do criador do termos Brics, Jim O'Neill, à revista alemã Der Spiegel, em maio de 2013:


Trabalho para encontrar uma nova ordem mundial e definir seu papel dentro dela.

SPIEGEL: Sr. O’Neill, administrar mais de $800 bilhões em ativos parece ser trabalho desafiador. Por que o senhor anunciou que vai deixar seu posto? Deixou de gostar do que faz?

Jim O’Neill: Nada disso. Gosto muito do que faço. Mas depois de mais de 17 anos como sócio em Goldman Sachs, decidi sair. E cheguei à conclusão de que é hora de sair e tentar uma nova vida lá fora.

SPIEGEL: O que quer dizer com isso? Vai-se aposentar e viajar pelo mundo? Ou vai associar-se à diretoria de outro banco, quem sabe... o Deutsche Bank?

O’Neill: Você está só provocando. Mas não, não posso me estender sobre isso. De qualquer modo, não penso em me retirar completamente dos negócios.

SPIEGEL: Sua aposentadoria terá algo a ver com a péssima imagem do Goldman Sachs, nos últimos tempos? Recentemente, o grupo Greenpeace ‘premiou’ sua empresa com o Troféu “Na Mira da Opinião Pública [orig. Public Eye Award], como “a pior empresa do ano”, porque Goldman Sachs ajudou a Grécia a ocultar o volume das dívidas e, assim, é também responsável pela crise financeira. E agora, outra vez, o Goldman Sachs está voltando a práticas não transparentes.

O’Neill: Nada disso tem qualquer coisa a ver com minha decisão pessoal. Talvez seja surpresa para você, mas, de fato, concordo com essas críticas em vários sentidos. Vários de nós não agiram de forma responsável em alguns pontos. Alguns não conseguiram entender que nossos negócios afetam toda a humanidade. Agiram como se fosse possível operar à parte, fora do mundo real. Agora, estão sendo acertadamente criticados por isso.

SPIEGEL: O senhor poderia iniciar uma segunda carreira, como secretário-geral dos países BRICS.

O’Neill: Nos últimos dias, de fato, recebi algumas ofertas de emprego, e essa, com certeza, seria das mais interessantes! Mas não sei se os países BRICS cogitam de criar esse posto e, se cogitarem, se se interessariam por me dar o emprego. Por outro lado, esse clube de países deve a própria existência a mim – digo-o com toda a modéstia. OK. Esperarei que me convidem, antes de discutir o assunto.

SPIEGEL: Ano passado, na reunião em Delhi, os líderes dos países BRICS já discutiram algumas ações conjuntas bem específicas, como criar o “Banco do Sul”, para competir com o Banco Mundial, controlado por países ocidentais...

O’Neill: ... ideia que me parece fascinante e que está sendo defendida pela Índia, talvez também, provavelmente, pelo Brasil. Mas ainda falta ver se os chineses realmente aprovam o plano. Agora, para os países BRICS seria importante lançar projetos concretos, se querem mesmo ser mais que um clube, unido por laços pouco firmes. Já definiram algumas medidas para facilitar o comércio entre eles e têm demandas conjuntas em alguns tópicos de política exterior e políticas para o meio ambiente. Podem fazer muito mais.

SPIEGEL: Os países BRICS não são diferentes demais entre eles, para constituir grupo realmente poderoso? Quando o senhor cunhou a sigla e o conceito, já supunha que os BRICS teriam tal impacto na política mundial?

O’Neill: Não, claro que não! Tente imaginar a minha situação naquele momento. Foi pouco depois do 11/9. Os ataques terroristas contra Nova York e Washington fortaleceram minha ideia de que era hora de ultrapassar a dominação dos países ocidentais sobre o mundo, ou, no mínimo, que era preciso complementar aquela dominação, acrescentando alguma outra força. Se a globalização devesse prosseguir e ser bem-sucedida, seria necessário abandonar o barco dos EUA e passar a navegar sob outra bandeira. Ocorreu-me que, pelas dimensões territoriais e grandes populações, China, Índia, Rússia e Brasil teriam potencial econômico. O que as economias emergentes têm em comum – além de todas elas desconfiarem do ocidente – é o futuro promissor e brilhante. Mas, fora isso, dificilmente se conseguiria grupo mais heterogêneo em termos políticos e, também, quanto aos respectivos sistemas econômicos.

SPIEGEL: Economicamente, os BRICs desenvolveram-se como o senhor esperava?

O’Neill: Os BRICS ultrapassaram todas as minhas expectativas. Em pouco mais de uma década, o PIB do grupo saltou de aproximadamente $3 bilhões para $13 bilhões. Os países BRIC têm potencial para passar ao largo da recessão mundial e crescer mais depressa que o resto do mundo e nos arrastar, todos nós, com eles como um motor de crescimento.

SPIEGEL: É o que o senhor tem dito. Mas China, Índia, Rússia e Brasil também enfrentam crises significativas. Ruchir Sharma, seu colega e presidente do Morgan Stanley Investment Management, até já anunciou o fim do milagre. Em artigo intitulado “BRICS quebrados”, escreveu que “os novos BRICS da economia mundial estão quebrados”...

O’Neill: ... e parte da imprensa não faz outra coisa além de repetir essa tolice. É ideia tão totalmente errada que eu, conforme o dia e o estado do meu humor, às vezes me irrito, às vezes dou risada.


SPIEGEL: Mas o senhor não pode negar que, ano passado, os BRICS causaram desapontamento considerável e o desempenho da economia daqueles países foi, ano passado, bem menos que esplêndido.

O’Neill: Quanto a isso, há diferentes opiniões. Ano passado, a economia da China cresceu 7,7%. Portanto, em 2012, o país, outra vez, criou riqueza equivalente a toda a economia grega a cada 11 semanas e meia. É baixo crescimento para os padrões chineses. Mas o importante, aí, são as razões que explicam o crescimento menor da China: e são razões estruturais e cíclicas. Foi desaceleração planejada, porque os chineses tratavam de evitar superaquecimento e inflação. No último trimestre a China novamente deu-se bem, e já saiu da área de turbulência.

SPIEGEL: O senhor não vê nenhum sinal de alarme no grande número de greves, na corrupção e no aumento da diferença entre ricos e pobres? O senhor está vendendo participação em fundos chineses nesse momento?

O’Neill: Nas minhas visitas à China, sempre me chama a atenção o quanto o partido governante é maleável e não dogmático em tudo que tenha a ver com tomar decisões de política econômica. Nos últimos dois anos, encurtaram bastante as rédeas das finanças, porque a liderança chinesa tentava proteger-se contra a inflação. Pelo que se vê, parece que deu certo. Não espero movimentos dramáticos da nova liderança política. Só espero que prossigam cautelosamente, no processo de reformas já iniciado com o objetivo de melhorar os padrões de vida e de reduzir a distância, ainda grande, que separa ricos e pobres.

SPIEGEL: E o senhor é igualmente otimista quanto a Rússia, Brasil e Índia?

O’Neill: Nem tanto. A Rússia tem de livrar-se da dependência das exportações de petróleo e gás, mas, sim, tem boa chance de alcançar crescimento contínuo anual ligeiramente acima de 4%. E o Brasil tem de acelerar o crescimento, com grandes oportunidades adiante, para aquele país, no longo prazo, graças às matérias primas e ao desempenho das indústrias. Deixando de lado a África do Sul, que não foi incluída inicialmente no grupo BRIC, o país que enfrenta os maiores desafios é a Índia. O governo em Delhi terá de fazer mais para apoiar o investimento externo direto, e (a economia indiana) carece urgentemente de algum estímulo. Na Índia, há governo de menos. Os políticos indianos acreditam que as coisas podem melhorar por elas mesmas e que nada teriam a fazer para ajudar. Seja como for, o país continua altamente atraente. Além do mais, com população muito jovem, a Índia tem uma forte vantagem demográfica.

SPIEGEL: Muitos investidores sentem que os mercados BRICS já não oferecem o mesmo tipo de retorno dos investimentos que os investidores buscam. O senhor vê outros países emergentes, que possam substituir os BRICS?

O’Neill: Quando identifiquei México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia, como novos mercados em crescimento, houve quem os definisse como “MIST”*...

SPIEGEL: ... há investidores que falam desses quatro países, hoje, como “SMIT”**...

O’Neill: Chamem como quiserem. Esses países estão despertos e andando.

SPIEGEL: E quanto à indústria na qual o senhor sempre trabalhou? O que o senhor pensa da questão que está sendo acaloradamente debatida na Alemanha nesse momento, de separarem-se bancos de investimento e bancos comerciais, para proteger os pequenos investidores do risco de possíveis perdas em transações especulativas?

O’Neill: É uma separação que, em princípio, faz sentido. A banqueiragem [orig. banking] de investimento é muito diferente da banqueiragem comercial. E quanto aos bônus, sou contra aumentos variáveis anuais. A antiga modalidade de sociedade funcionava muito bem. Nesse modelo, o dinheiro ia para uma conta de capital na qual se acumulavam os ganhos, até a aposentadoria. É preciso combater os exageros.

SPIEGEL: Agora, o senhor falou quase como ativista do movimento Occupy.

O’Neill: Em alguns aspectos, sou mesmo marginal, na minha profissão. Seja como for, não faço parte do establishment. O que muito me alegra. Muitos, nessa indústria, são apanhados pelo motorista de manhã, almoçam com pessoas iguais a eles, sempre em restaurantes caríssimo, e o motorista os leva de volta para casa depois de 14 horas no escritório. É gente que simplesmente não sabe que há vida fora do trabalho e além do que fazem, em dinheiro. Eu ando de metrô em Londres e passo horas com amigos e gente de outras profissões. Sempre achei importante conhecer todos os tipos de pessoas. Gosto de futebol e tenho amigos com os quais me reúno regularmente em pubs.

SPIEGEL: Por que tanta abertura?

O’Neill: Com certeza tem a ver com o lugar de onde venho. Meu pai teve de deixar os estudos aos 14 anos e trabalhou como carteiro. Minha irmã e eu crescemos num subúrbio pobre de Manchester. Tudo que nossos pais ganhavam, até o último penny, foi economizado para que pudéssemos frequentar a universidade.

* Em inglês, mist é uma espécie de nevoeiro fino, que atrapalha a visão.  O adjetivo misty significa “obscuro, vago, até ‘misterioso’” [NTs]

** Em inglês, smit é uma espécie de golpe , pancada [NTs].

No 247
Leia Mais ►

Escolha a música...


Argentina me diz: como se sente?
Ver de longe cinco estrelas a brilhar!
Te juro ainda que os anos passem
Você nunca vai me alcançar
Cinco Copas só eu tenho
E sem trapacear
'Mi papa' não se dopou para jogar
Uma coisa mais te digo
Para nunca se esquecer:
O Pelé tem mais Copas que você!
Leia Mais ►

Contra a ruína

Já está digerida e absorvida grande parte, talvez a maior, do choque emocional com a vergonheira oferecida pela seleção. Variados são os sinais em tal sentido. Desde a inundação de piadas a respeito até a quase nenhuma reação à indigna conduta de Felipão e de Carlos Alberto Parreira na entrevista conjunta, com as considerações que representaram, a um só tempo, descarados autoelogios e, mais do que desrespeito, deboche com a frustração sentida e doída no país todo.

Diante da pouca duração demonstrada pela ira de uns e pelo abatimento de outros, quem contava com o desastre da seleção como fator favorável aos oposicionistas, caso sobretudo dos aecistas, passa a ter agora a frustração que a derrota, lá no fundo, não lhes causou. Nos últimos dias, o próprio Aécio Neves tem proclamado: "O governo quis se aproveitar da Copa, agora vai pagar"; "quem tentou explorar a Copa eleitoralmente vai se dar mal".

Pobre Aécio, então. Foi o candidato que, enquanto a seleção avançava, vestiu a camisa do time, com o escudo comprometedor da CBF, assim se fez fotografar até com a mulher recém-parturiente e mandou para redações suas fotos de exploração eleitoral da Copa e da seleção. Há bastante campanha, ainda, para suas declarações recuperarem o pudor.

Para os dirigentes do futebol brasileiro não há tal oportunidade. Nem mesmo com a esperada aprovação, prevista para os próximos dias, da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (fiscal, no caso, refere-se às obrigações financeiras do esporte organizado com o Estado — impostos, INSS e outros).

Em sua forma original, esse projeto do deputado cearense André Figueiredo dava aos clubes anistias a granel. Emendas do fluminense Otávio Leite e de outros deputados substituíram o calote consentido por até 25 anos para pagamento parcelado, e possível responsabilização judicial de dirigentes descumpridores das obrigações do acordo ou vindouras.

Já é um regramento dos clubes para uma dívida de bilhões, que ninguém sabe a quanto vão de fato: a contabilidade dos clubes não é confiável. Até porque fazê-la assim tem sido a primeira cobertura para a conexão entre cofres de clubes e enriquecimento de dirigentes. Mas o primeiro passo não impede a criação de mais endividamentos provenientes do grande problema do futebol: a grande corrupção.

Hoje, a contratação normal de um jogador é engrandecida, por mais que ele ganhe, pelo que outros vão ganhar, com menor ou maior dose de ilegitimidade.

Quem propõe o negócio, quem o discute, quem o autoriza como presidente, ou diretor, ou superintendente, ou técnico, e os empresários e agentes são, em grande número, potenciais recebedores de altas importâncias. O grosso, por baixo da mesa e dos impostos. Salários de jogadores, feitas tais transações, também são passíveis de distribuição de quotas mensais.

Daí a incessante compra e venda de jogadores constatável nos clubes. Daí, também, os altos valores das transações em geral inconciliáveis com a qualidade do contratado.

Do número e do valor das compras e vendas faz-se o rombo financeiro dos clubes, multiplica-se a exportação de jogadores e aprendizes, promissores ou não, e o futebol brasileiro se arruína.

Pelo que disse Dilma Rousseff, depreende-se que o governo descobriu, de uma só vez, o estado em que está o futebol brasileiro, por obra financeiramente oportunista de centenas ou milhares de dirigentes, e a importância do futebol para a significação internacional do país.

Se a descoberta se destinar à busca de resultados, nenhum início seria mais eficiente do que o cerco — investigatório, legislativo e administrativo — do lado degradante dos negócios do futebol.

Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►

Brasil conquista o mundo e seleção perde o respeito


Resumo da ópera: o Brasil conquistou o mundo ao organizar a melhor Copa da Fifa de todos os tempos, segundo a opinião unânime da imprensa internacional, e a seleção brasileira pentacampeã mundial perdeu o respeito de quem ama o futebol.

A derrota por 3 a 0 para a Holanda neste sábado serviu apenas para mostrar que os 7 a 1 que a Alemanha meteu nos meninos de Felipão, quatro dias antes, não foi um acidente de percurso, um "apagão", como quis demonstrar com planilhas a indigente comissão técnica formada pela CBF sob o comando de um provecto senhor chamado José Maria Marin, de triste memória.

Escrevo antes da final entre Alemanha e Argentina, no Maracanã, e de ler o noticiário do dia porque, qualquer que seja o resultado, a Copa no Brasil para mim já terminou e agora não adianta chorar o leite derramado.

Foram, na verdade, duas Copas do Mundo, bem distintas para nós.

Dentro de campo, assistimos a jogos fantásticos, uma chuva de gols, defesas espetaculares, emoção do começo ao fim das disputas, uma festa permanente nos estádios lotados, um bilhão de pessoas no mundo todo assistindo a esta maravilhosa ópera do futebol. A grande decepção ficou por conta da seleção brasileira, tão endeusada por nossa imprensa antes do evento começar. Deu vergonha.

Fora de campo, não só tudo funcionou perfeitamente, do acesso aos estádios aos aeroportos, da segurança aos serviços públicos, bem ao contrário das previsões catastrofistas desta mesma imprensa, como fomos capazes de promover uma grande confratermização universal, que o mundo todo curtiu e aplaudiu durante um mês. Deu orgulho.

Com estes sentimentos contrastantes, somos obrigados a reconhecer: foi uma grande vitória da presidente Dilma Rousseff, que soube segurar o peão a unha e entregou o que o governo brasileiro prometeu, superando todas as expectativas.

E representou, mais uma vez,  a derrota da turma do contra liderada pela grande mídia familiar, incapaz de aceitar até agora que errou feio, antes e durante a copa, passando do terrorismo ao oba-oba, e terminando no chororô de forma melancólica, sem ter um nenhum momento apontado as causas da decadência estrutural do futebol brasileiro, entregue aos que com o esporte apenas querem faturar, faturar, faturar.

Uma rara exceção na nossa imprensa do pensamento único, que é preciso registrar: "O Brasil do eu acredito — Na grande tragédia da seleção brasileira nesta Copa do Mundo não há inocentes, nem mesmo a torcida", de Eliane Brum, publicado na "Folha de S. Paulo, sexta-feira, dia 11 de julho.

Desta forma, tanto faz Felipão ficar ou se aposentar, se os que mandam continuam os mesmos, sobrevivem os mesmos interesses legais ou escusos, os campos de várzea acabaram e não há projetos nem privados nem públicos para a formação de novos jogadores, como a Alemanha vem fazendo há muitos anos com dedicação e competência.

Por isso, vou torcer daqui a pouco para a Alemanha, que hoje está jogando o melhor futebol do mundo, e também porque veio de lá a minha família materna, que merece este título por tudo o que fez, dentro e fora do campo, na inesquecível Copa no Brasil.

Tinha planejado uma feijoada para este domingo da grande final, mas já que não chegamos lá, vou reunir a família em torno de um belo almoço alemão. Gostaria de convidar todos vocês a esquecer a tristeza pelas acachapantes derrotas que sofremos nos últimos dias e comemorar a grande conquista do povo brasileiro que, com sua hospitalidade e alegria, conquistou o mundo.

A festa acabou, vida que segue.

Leia Mais ►

Putin: Estamos interesados en una Latinoamérica unida


El presidente de Rusia, Vladimir Putin, concedió este jueves una entrevista a las agencias de noticias Itar-tass y Prensa Latina, donde comentó los planes dentro su agenda correspondiente a la gira diplomática que realizará a varias naciones latinoamericanas.

Sobre la actualidad de la región, Putin expresó: “Son fuertes las tradiciones del respeto a la libertad, a otros pueblos y otras culturas y son casi nulas las contradicciones entre Estados, tampoco hay ganas de seguir el juego de 'divide y vencerás'. Están dispuestos a trabajar conjuntamente para defender su casa latinoamericana común”.

En ese sentido, Putin agradeció el apoyo casi unánime de los gobiernos de la región a diversas iniciativas presentadas ante la comunidad internacional, “incluidas la desmilitarización del espacio, el fortalecimiento de la seguridad internacional en materia de información, la inadmisibilidad de la glorificación del nazismo”.

Sobre su agenda en territorio latinoamericano, no descartó sostener encuentros amistosos con los organismos de integración que se encuentran en pleno crecimiento.

“Estamos abiertos a interactuar de manera sustancial también con otras asociaciones de integración en la región latinoamericana. Me refiero a la Unión de Naciones Suramericanas (Unasur), el Mercado Común del Sur (Mercosur), la Alianza Bolivariana para los Pueblos de Nuestra América (Alba), la Alianza del Pacífico (AP), el Sistema de la Integración Centroamericana (SICA) y la Comunidad del Caribe (Caricom)”.

En relación con este tema, indicó que espera reforzar los lazos estratégicos de respeto mutuo y cooperación bilateral con Argentina, Brasil y Cuba, países con los que espera aprovechar al máximo el apoyo en diversas áreas de interés común.

Leia Mais ►