11 de jul de 2014

Brasil e Alemanha: evoluções opostas


Depois das derrotas de 1982 e 1986, o futebol brasileiro olhou para a Europa: colocou mais um volante, as vezes mais dois, copiou a ligação direta e os alas, desmontou a centralidade da armação no meio-campo (característica primordial do futebol técnico e de valores individuais), o jogador fundamental do time passou a ser o centroavante (quando historicamente era o meia-armador ou o ponta-de-lança, que chegavam no ataque pelo toque de bola ou o drible).

Graças a profissionais maravilhosos, essa guinada anglo-saxônica ainda conseguiu o título de 1994, nos pés de Romário (convocado no final das eliminatórias para evitar uma tragédia, porque até então não fazia parte dos planos do arrogante Parreira), e o de 2002, graças ao brilhantismo individual de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo.

Com a escassez de craques — os únicos que assim podem ser considerados, na equipe atual, são Neymar e a dupla de zagueiros —, ficou desnudada nossa magreza tática e técnica. Somos, agora, muito parecidos com a Alemanha e a Itália de antigamente: força defensiva, chutões para o ataque, chuveirinho na área, bolas paradas, nada de toque de bola, meio-campo de destruição sem criação. Último reduto anticolonial de nossa cultura, o futebol acabou por se dobrar a um esquema que nada tem a ver com nossas aptidões e talentos.

A Alemanha fez curiosamente o caminho inverso. Prestem atenção: sem renunciar ao jogo forte e aplicado de sempre, a seleção germânica é bastante semelhante ao Brasil de 1982: o centro do jogo está em um meio-campo armador, que avança a base do toque de bola, não existe mais chutão (nem quando a bola está perigosamente na área defensiva), o time se compacta com a defesa avançando até o meio-campo e a marcação sendo feita a partir da metade do campo inimigo (o goleiro funciona muitas vezes como libero atrás da zaga!), a evolução da equipe se faz do meio para as pontas e de volta para o meio, sem chuveirinho tolo e sem rumo.

Para resumo da opera e usando termos carimbados: o Brasil virou um futebol-força fracassado, a Alemanha reapareceu com um futebol-arte de grande força. Fracassamos aos nos "germanizarmos", eles ficaram fenomenais ao se "abrasileirarem".

Felipão, Parreira, Tite, Muricy, Mano Menezes e outros da mesma laia são filhotes de Lazaroni. São os responsáveis pela perversão tática e técnica do futebol brasileiro, corolário de uma estrutura decomposta, desorganizada e corrupta. Essa turma tem que ir para a lata do lixo.

Precisamos de um tratamento de choque fora de campo, mas também dentro das quatro linhas. A CBF tem que humilhar nossos treinadores, para que eles percam sua arrogância e voltem a estudar. A hora é de chamar um técnico estrangeiro, como Guardiola, que devolva a seleção ao futebol brasileiro."

Breno Altman
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Mistério argentino


Implicância com Seleção Argentina tem origem no complexo de vira-lata, que substituiu Fuleco como mascote da Copa

Falando com clareza: uma das provas definitivas de subdesenvolvimento mental consiste em torcer contra a Argentina na final de domingo.

Toda pessoa tem seu gosto e sua preferência. Os povos têm sua identidade, sua história e sua cultura, que uns podem admirar ou não.

É claro é legítimo torcer a favor da Alemanha, também.

Mas se é para procurar motivos para implicar com um país…

Eu me pergunto pela motivação interna, profunda, de quem diz que “não gosta dos argentinos.” Seria uma forma de racismo?

A implicância de uma parte de brasileiros com a Argentina tem sua origem num velho conhecido da Copa das Copas. Ele mesmo, o complexo de vira-lata.

Deixando de lado, por um minuto, o 7 a 1, o único fracasso da Copa das Copas de 2014 foi o mascote Fuleco. O verdadeiro bichinho de estimação é o vira-lata.

Embora o Brasil tenha um PIB infinitamente maior do que o da Argentina, e ocupe um lugar no Continente de liderança não mais questionada, etc, etc, etc, os argentinos provocam um sentimento de insegurança e inferioridade que acompanha muitos brasileiros.

Estes ficam felizes quando o vizinho enfrenta dificuldades. Dizem bem-feito até para a cobiça de fundos abutres que ameaçam derrubar a economia do país e até atingir o Brasil e outras partes do mundo.

Vira-latas têm raiva de espelhos que ajudam a mostrar algumas de suas verdades e preferem olhar-se em imagens que confirmam seus enganos e confortos.

Estamos falando de um vizinho que em certos aspectos ajuda a lembrar nosso próprio atraso, o que poderia ser útil para debater a formação dos dois países, mas nem sempre é agradável. Reformas sociais que o Brasil sequer alcançou nos dias de hoje são uma conquista histórica dos argentinos. Os índices de educação são infinitamente superiores. O país é menos desigual.

Embora boa parte de sua riqueza tenha sido dizimada por delírios liberais iniciados na ditadura de 1976 e prolongados quando o governo Carlos Ménen estabeleceu relações carnais com o império americano, entrando numa fase de regressão em vários setores, o país não deixou de acumular novidades que mexem com a estima — já baixa — de quem precisa da desgraça alheia para ter certeza de que tudo vai bem em casa.

Os argentinos acumularam quatro Prêmios Nobel. Também fizeram um papa. Brasil é zero nestes quesitos. Tem gente que se sente menor por isso. Pode?

Claro que pode. Essa é a esperança de quem sonha em transformar uma vitória argentina, domingo, numa derrota brasileira.

Após a derrota fora do campo, pela Copa das Copas, bem sucedida até para investigar mafiosos dos ingressos, o que nunca se fez em nenhuma outra Copa, nem na da Alemanha, o que se quer é estimular baixos intintos para ganhar votos em outubro.

Honestamente… nem o mais pessimista iria imaginar um programa de campanha tão rasteiro. Enquanto se estimula de todas as formas uma rejeição contra os argentinos, se torce secretamente pela vitória de Messi & seus companheiros na esperança de prejudicar Dilma Rousseff.

É com este tipo de debate político que a oposição quer chegar ao Planalto? Deve ser.

Não custa lembrar que a rivalidade entre brasileiros x argentinos (e vice-versa) tem origem externa. Interessados desde o século XIX em dividir para reinar na América do Sul, Estados Unidos e Inglaterra sempre trabalharam para estimular competições inúteis e conflitos desnecessários, jogando uns contra os outros para que a melhor parte do butim ficasse com os outros.

Um dos ganhos da democratização ocorrida nas últimas décadas foi a descoberta de que os dois maiores países da América do Sul só tem a ganhar quando se aproximam. Suas economias se complementam, os mercados têm escala e atraem investimentos. Muitos empregos brasileiros dependem de compras feitas do outro lado da fronteira. A recíproca também é verdadeira.

Viajando ao país por todos os meios a seu alcance, hospedando-se em todas as alternativas de seu bolso, as centenas de milhares de argentinos ajudaram a escrever algumas das mais belas páginas desta Copa que termina. E é preciso muito — mas muito — complexo de vira-lata para não perceber a importância de tudo isso.

Paulo Moreira Leite
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Aécio ama a CBF


Aécio Neves é amigo de José Maria Marin e o homenageou, escondido, no Mineirão.

Deu-se mal porque o que escondeu em sua página na internet, Marin mandou publicar na da CBF.

Aécio também é velho amigo de baladas de Ricardo Teixeira e acaba de dizer que o país não precisa de uma “Futebras”, coisa que ninguém propôs e que passa ao largo, por exemplo, das propostas do Bom Senso FC.

Uma agência reguladora do Esporte seria bem-vinda e é uma das questões que devem surgir neste momento em que se impõe um amplo debate sobre o futuro de nosso humilhado, depauperado e corrompido futebol.

Mas Aécio é amigo de quem o mantém do jeito que está.

Não está nem aí para os que reduziram nosso futebol a pó.

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Juca Kfouri
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Abril transfere 10 revistas à Editora Caras


Aventuras na História, Bons Fluídos, Manequim, Máxima, Minha Casa, Minha Novela, Recreio, Sou+Eu, Vida Simples e Viva Mais serão produzidas por outra editora

A Editora Abril comunicou nessa sexta-feira, 11, que irá transferir dez de seus títulos para a Editora Caras. A partir de agora, Aventuras na História, Bons Fluídos, Manequim, Máxima, Minha Casa, Minha Novela, Recreio, Sou+Eu, Vida Simples e Viva Mais terão sua produção de conteúdo, circulação e venda de publicidade administradas pela Editora Caras.

O presidente da Abril Mídia, Fabio Barbosa, diz, no comunicado, que a negociação permitirá à Abril focar no fortalecimento de suas demais marcas. Já a Editora Caras, por outro lado, deverá ganhar mais produtividade com a chegada dos títulos.

Segundo o comunicado, as redações de todas essas revistas serão transferidas para a Editora Caras até o mês de dezembro. Já os serviços de assinaturas, distribuição e gráfica das dez publicações continuarão sendo realizados pelo Grupo Abril.

Desses dez títulos, três possuem uma circulação superior a 100 mil exemplares por edição. A Manequim tinha, em abril deste ano, média de 179,4 mil exemplares por mês, de acordo com dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC). A Minha Casa tinha uma média de 169,9 mil exemplares em abril deste ano, enquanto a Máxima possuía 108 mil exemplares em abril, segundo o IVC. Apesar disso, a média de circulação dos três títulos vem caindo mensalmente.

Entre as revistas negociadas pela editora, a que mostrava uma curva mais favorável na circulação é a Vida Simples, cuja média aumentou 19% de fevereiro para março deste ano. Em abril, a revista tinha 44,3 mil exemplares de média em circulação.

Foco em outros títulos

Para Fabio Barbosa, o negócio deixará a Abril mais livre para trabalhar suas demais marcas. “Quando se tem um portfólio de 49 títulos fica muito difícil empenhas os mesmos esforços de marketing e de inovação em todos. Com a transferência dessas dez publicações, a Abril ganha mais liberdade para concentrar seus esforços nas outras revistas, ao mesmo tempo em que a Caras terá a chance de expandir seu portfólio no Brasil, que era seu grande objetivo”, revela o executivo.

Ele garante que todas as revistas negociadas eram lucrativas e que a escolha dos dez títulos foi motivada pelo interesse da Editora Caras com os temas das publicações e pelo fato de o grupo ter uma grande expertise em vendas avulsas de revistas (nas bancas) na Argentina, país em que atua com o nome de Editorial Perfil. “Essas publicações da Abril vendem muito bem em bancas e entendemos muito desse negócio por conta do perfil do leitor argentino. Acreditamos muito que esse acordo irá fortalecer os negócios da Caras do Brasil e temos como meta nos tornar, em pouco tempo, a segunda maior editora do Brasil, tanto em número de títulos como em faturamento, projeta Edgardo Martolio, superintendente e diretor editorial de Caras.
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Saudades do Bom Futebol e do Bom Jornalismo que não existem mais

Sou de uma geração privilegiada. Tínhamos o melhor futebol do mundo, e jornais que buscavam sintonia com a alma do país, na vitória e na derrota. Hoje não temos uma coisa nem outra. Basta comparar como os jornais brasileiros se comportaram em dois momentos de dor nacional: as derrotas da Seleção na Copa de 1982 e na de 2014.


Jornalismo e sensibilidade na capa  do Jornal da Tarde em 82. Escárnio e grosseria nas capas de ontem:


Em 82, fomos consolados pela crônica de Carlos Drummond de Andrade, elevada a capa de Esportes do Jornal Brasil e ilustrada por um Chico Caruso que não existe mais. Drummond lambia paternalmente as feridas de um país atônito, e nos convocava a retomar a vida:


Ontem, na capa do UOL,rancor e xenofobia sem sentido contra a Argentina; resumo do incontido desejo de vingança contra a realização bem-sucedida da Copa no Brasil:


Minha geração conheceu o JT, o JB e Telê. Não vou chorar.

Aqui, a íntegra da crônica de Carlos Drummond de Andrade:

Perder, Ganhar, Viver

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmuIas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas…

Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.

Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.

Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.

E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?

Ricardo Amaral
No CAf
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Eduardo Galeano: "Quem deu a Israel o direito de negar todos os direitos?"


O exército israelense, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe a quem mata. Não mata por engano. Mata por horror. As vítimas civis são chamadas de “danos colaterais”, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, de cada dez “danos colaterais”, três são crianças

“Este artigo é dedicado a meus amigos judeus assassinados pelas ditaduras latinoamericanas que Israel assessorou”

Por Eduardo Galeano

Para justificar-se, o terrorismo de estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe pretextos. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, acabará por multiplicá-los.

Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo. Nem sequer têm direito a eleger seus governantes. Quando votam em quem não devem votar são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se em uma armadilha sem saída, desde que o Hamas ganhou limpamente as eleições em 2006. Algo parecido havia ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador. Banhados em sangue, os salvadorenhos expiaram sua má conduta e, desde então, viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem.

São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desajeitada pontaria sobre as terras que foram palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à margem da loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está negando, há muitos anos, o direito à existência da Palestina.

Já resta pouca Palestina. Passo a passo, Israel está apagando-a do mapa. Os colonos invadem, e atrás deles os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam a pilhagem, em legítima defesa.

Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polônia para evitar que a Polônia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma de suas guerras defensivas, Israel devorou outro pedaço da Palestina, e os almoços seguem. O apetite devorador se justifica pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita.

Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, que burla as leis internacionais, e é também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros.

Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está executando a matança de Gaza? O governo espanhol não conseguiu bombardear impunemente ao País Basco para acabar com o ETA, nem o governo britânico pôde arrasar a Irlanda para liquidar o IRA. Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou essa luz verde provém da potência manda chuva que tem em Israel o mais incondicional de seus vassalos?

O exército israelense, o mais moderno e sofisticado mundo, sabe a quem mata. Não mata por engano. Mata por horror. As vítimas civis são chamadas de “danos colaterais”, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, de cada dez “danos colaterais”, três são crianças. E somam aos milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está ensaiando com êxito nesta operação de limpeza étnica.

E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Para cada cem palestinos mortos, um israelense. Gente perigosa, adverte outro bombardeio, a cargo dos meios massivos de manipulação, que nos convidam a crer que uma vida israelense vale tanto quanto cem vidas palestinas. E esses meios também nos convidam a acreditar que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irã foi a que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.

A chamada “comunidade internacional”, existe? É algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? É algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos adotam quando fazem teatro?

Diante da tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial se ilumina uma vez mais. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade.

Diante da tragédia de Gaza, os países árabes lavam as mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos. A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama alguma que outra lágrima, enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caçada de judeus foi sempre um costume europeu, mas há meio século essa dívida histórica está sendo cobrada dos palestinas, que também são semitas e que nunca foram, nem são, antisemitas. Eles estão pagando, com sangue constante e sonoro, uma conta alheia.

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Brasil dá W.O. e Alemanha joga sozinha

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O batalhão de funcionários de Joaquim Barbosa

Ele
O que mais surpreende na notícia de que Joaquim Barbosa quer garantir o emprego de 46 pessoas de seu gabinete não é o fato em si.

Todo mundo, quando se aposenta, se esforça para que seus subordinados sobrevivam.

O que realmente chama a atenção é o número de funcionários de JB: 46. É um pequeno exército.

O que tanta gente faz?

Conhecida a baixa produtividade da Justiça brasileira, eis um mistério.

Quantos funcionários terá cada juiz do Supremo? Se não a quase meia centena do presidente, quantos?

Qual o exemplo que o STF dá à sociedade de uso do dinheiro público? Quem fiscaliza?

Curiosa a mídia: entre tantos perfis endeusadores de Joaquim Barbosa, jamais trouxe à luz a informação do batalhão de funcionários sob suas ordens.

Suponhamos que ele tenha herdado todos. Num mundo menos imperfeito, ele teria realizado um ajuste exemplar, e feito disso um caso de ganho de eficiência num Judiciário tão carente de modernização.

Compare o STF com seu equivalente sueco. Você pode fazer isso caso leia um livro chamado “Um País sem Excelências e Mordomias”, da jornalista brasileira Cláudia Wallin, radicada na Suécia.

Recomendo fortemente.

Cláudia entrevistou Goran Lambertz, presidente da Suprema Corte sueca. “Como todos os juízes e desembargadores da Suécia, Lambertz não tem direito a carro oficial com motorista nem secretária particular”, escreve Claudia. “Sem auxílio moradia, todos pagam do próprio bolso por seus custos de moradia.”

Para ver quanto é diferente a realidade brasileira, no final do ano passado foram comprados carros de 130 mil reais para que os juízes do Supremo façam seus deslocamentos por Brasília.

Lambertz mora numa cidadezinha a 70 quilômetros de Estocolmo. Vai todos os dias da semana para a capital da seguinte maneira: pega sua bicicleta e pedala até a estação de trem.

Ele tem um pequeno escritório, e não tem secretária e nem assistentes. “Luxo pago com dinheiro do contribuinte é imoral e antiético”, disse ele a Cláudia.

Uma equipe de 30 jovens profissionais da área de direito ajuda os 16 juízes da Suprema Corte. Fora isso, são mais 15 assistentes administrativos que ajudam todos os magistrados.

Isso quer dizer o seguinte: 45 pessoas trabalham para todos os integrantes da Suprema Corte da Suécia. Repito: todos. É menos do que os funcionários de Joaquim Barbosa sozinho.

Refeições, Lambertz mesmo paga. “Não almoço com o dinheiro do contribuinte.” Algum juiz do STF poderia dizer o mesmo?

A transparência na Suécia é torrencial. “Qualquer cidadão pode vir aqui e checar as contas dos tribunais e os ganhos dos juízes”, diz Lambertz.

“Autos judiciais e processos em andamento são abertos ao público. As despesas dos juízes também podem ser verificadas, embora neste aspecto não exista muita coisa para checar. Juizes usam bem pouco dinheiro público e não possuem benefícios como verba de representação. Os juízes suecos recebem seus salários e isso é o que eles custam ao Estado.”

Os gastos dos juízes são fiscalizados fora do sistema judiciário. “Se você é um juiz, certamente tem o dever de ser honesto e promover a honestidade, além de estar preparado para ser fiscalizado todo o tempo”, diz Lambertz.

Como um cidadão sueco reagiria à informação de que o presidente da mais alta corte do país gastou o equivalente a 90 mil reais para, como fez Barbosa, reformar banheiros do apartamento funcional?

É uma situação impensável — até porque juiz sueco paga sua própria casa, como qualquer pessoa.

Cláudia perguntou a Lambertz como que o Brasil poderia avançar no mesmo rumo da Justiça sueca. Lambertz falou em “líderes que dêem bons exemplos, líderes que mostrem que não estão em busca de luxo para si”.

Joaquim Barbosa foi proclamado pela Veja, num instante de euforia delirante, “o menino pobre que mudou o Brasil”.

Mas ele cabe na descrição de líder transformador feita por Lambertz? Que um juiz sueco diria de uma equipe de 46 funcionários para um único homem?

Começa uma nova etapa no STF sem Barbosa.

Que comece ali uma reforma de mentalidades ao fim da qual tenhamos uma Justiça ao menos um pouco mais parecida do que a comandada por Garen Lambertz.

Paulo Nogueira
No DCM
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“Tudo por um clique? A influência das métricas no processo de produção jornalístico na internet”

Teclas de computador frenéticas, burburinho de pessoas conversando, reunião de pauta na sala ao lado, som das televisões ligadas em canais de notícia. Não é difícil supor que essa é a descrição do ambiente de uma redação jornalística. No entanto, em meio a artefatos e cenas típicas, surge um novo elemento: uma grande tela que exibe, em tempo real, as métricas registradas pelo Google Analytics. Esse software do Google monitora o percurso dos usuários nos sites cadastrados e sistematiza uma série de registros, tais como origem dos acessos, páginas mais acessadas, tempo de permanência por página, número de usuários únicos e número de páginas visualizadas por usuário.

Mas o que significa a inclusão dessa grande tela no interior das redações? Foi o que esta autora se perguntou durante a etapa de entrevistas para a pesquisa de mestrado, quando sentiu um grande incômodo ao deparar-se com os dados do Google Analytics em letras garrafais em duas redações de veículos jornalísticos. Tal foi a surpresa que o fato foi registrado, de forma breve, nas considerações finais da dissertação:

Nas entrevistas presenciais, foi muito interessante perceber como se estruturam as redações atualmente. Chamou atenção a imagem do Google Analytics projetada nas grandes TVs. Isso quer dizer que todos podem acompanhar, em tempo real, as notícias mais lidas (e as menos lidas também), o número de acessos ao site, entre outras métricas. Trata-se de algo impensável há pouco mais de uma década. Mas o que era para ser uma revolução acaba por causar estranheza: quais são as consequências de uma quase devoção a esses números? Será que eles precisam mesmo ficar projetados, não seria isso uma pressão um pouco cruel? (VIEIRA, 2014)

A partir de uma reflexão mais aprofundada, foram estruturadas as perguntas que deram origem ao projeto de pesquisa doutoral desta autora, aprovado no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC: até que ponto essas métricas pautam, por exemplo, o jornal impresso do dia seguinte? Poderíamos dizer que vivemos a era da “ditadura dos cliques”, em que o que realmente passa a importar é a notícia mais acessada, independentemente de sua qualidade e relevância pública? Esse indicador baseado nos cliques, que gera, por consequência, o ranking dos webjornais mais acessados, pode ser eticamente questionável? Dito de outra forma: há maneiras mais éticas de se pensar as métricas para o produto jornalístico na internet que não tenham como cerne o número de acessos, já que essa informação não garante que o leitor realmente compreendeu e efetivamente leu a notícia? Será que as redações passam a produzir notícias que têm um potencial de grande acesso, com base nas próprias métricas, sem considerar o interesse público? O Google Analytics, software mais usado para métricas, dá conta das particularidades do produto jornalístico ou é necessário pensar numa ferramenta específica para os webjornais?

As questões acima apresentadas se inserem no contexto do jornalismo pós-industrial. Estudá-las em profundidade é enveredar-se pelos caminhos das particularidades do jornalismo online, que merecem ser investigadas também sob o ponto de vista da ética jornalística. Não basta somente mapear as transformações e caracterizá-las. É preciso, muitas vezes, questionar os processos e analisar as implicações dessas novas possibilidades tecnológicas.

Pouca informação, muita curiosidade

A título de exemplo, selecionamos duas postagens de veículos jornalísticos brasileiros no Facebook, que mostram a utilização de uma linguagem persuasiva e têm a nítida intenção de gerar curiosidade, para que o leitor clique. No primeiro exemplo, o jornal O Globo utiliza uma frase impactante, lançando mão até do recurso de “caixa alta”, que chama ainda mais atenção do leitor. No entanto, embora seja de impacto, a frase não diz sobre o que trata a notícia e ainda induz fortemente o leitor a clicar no link para ver por que, de fato, ele precisaria “trocar as senhas na internet agora”. É interessante também analisar os comentários dos leitores, que muitas vezes percebem essa estratégia persuasiva e a criticam, como o leitor que escreveu: “tá querendo aparecer”.

No exemplo seguinte, o jornal Lance! afirma que “nova moradora do Rio corre de camisola pelo Botafogo”. O veículo utiliza um recurso visual apelativo, além do texto “corre que é fogo!”. Diferentemente do exemplo acima, neste o leitor pode supor o assunto da matéria que, pelo título do post, versaria sobre uma mulher que teria corrido de camisola pelo Botafogo. Apesar da ambiguidade do termo “Botafogo”, que poderia fazer referência ao bairro do Rio de Janeiro ou ao time de futebol, o leitor tenderia a optar pela segunda interpretação, já que se trata de um veículo jornalístico especializado em esporte. No entanto, ao clicar na matéria, percebemos que ela não corresponde ao que indicava o post. Na verdade, a mulher não correu de camisola porque torcia pelo Botafogo, mas porque, ao ouvir os gritos da torcida, que chama o time de “Fogo!”, ela se assustou e achou que o prédio estava pegando fogo. Em última instância, o título não estava errado, mas sua conotação muda completamente quando, de fato, lemos a história “inusitada”.

Salientamos que a criação de um texto persuasivo nas redes sociais não configura, em princípio, uma prática antiética, mas tal ação nos leva a pensar nos limites da utilização desses recursos. Os posts dos webjornais devem ser claros quanto às notícias que veiculam? Como dosar o humor e a informação?

Por fim, entendemos que as métricas geram informações valiosas também para os anunciantes. Se, por exemplo, um webjornal tem muitos acessos na editoria de Cultura, é bem provável que os anunciantes do setor se interessem por comprar esses espaços publicitários. Ou seja, além do ponto de vista editorial, as métricas estão também relacionadas com a eficiência dos negócios dos veículos jornalísticos na internet. E a sustentabilidade de um modelo de negócio para o jornalismo online tem sido uma preocupação constante no mercado e na Academia.

Lívia de Souza Vieira, mestre no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisadora do objETHOS
No OI
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Mídia democrática: Aprendendo a dividir


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A direita é prisioneira de seu próprio ódio


Quando parte da torcida de convidados, socialites e gente em condições de pagar um bom dinheiro pelo ingresso — e todos tinham o direito de estar lá — xingaram grosseiramente a presidenta Dilma Rousseff, um impulso incontrolável fez Aécio se solidarizar com a estupidez, para depois voltar atrás, advertido pelos marqueteiros de que “pegava mal”.

Pegou, todos sabem.

Agora, parece que essa força estranha o leva à mesma atitude.


Claro que não é um problema pessoal do candidato tucano, de natureza uma pessoa afável, em condições normais.

Mas Aécio está, mais que nunca, incorporado pela mente coletiva da direita brasileira, que desde a UDN sente “saudades prévias” de um país formado por ilhas de elite e um oceano de excluídos.

O que se traduz, na prática, em ilhas de “modernidade” e um oceano de atraso, o que é, em si, a negação do papel a que o Brasil pode —  não apenas pode mas, necessariamente deve — assumir de grande nação.

Por isso, para estas mentes é impossível entender o Brasil como um ente coletivo, que pertence a todos — indistintamente — e onde, por consequência, os desafios e as conquistas pertencem a todos.

E, claro, também as derrotas.

A Copa, para eles, só era de todos quando foram badalar a conquista de sua realização, em 2007.

Depois, quando vieram as dificuldades, os problemas, os atrasos e, sobretudo, os protestos, ela passou a ser “do Governo Dilma”.

De todos era só o time do Felipão, unanimidade nacional.

Justamente quem perdeu de 7 a 1 o jogo, numa Copa, salvo detalhes, impecavelmente bem organizada.

Ninguém hesitou em “apropriar” ao governo os atrasos e preços de obras sob a responsabilidade de governos estaduais, muitos deles sob a responsabilidade de governantes do PSDB.

Mal disfarçavam, nos discursos e nos “mercados” financeiros, sua esperança num fracasso que nos desmoralizasse como país organizado e capaz.

E desta Copa, como país, saímos assim, embora muito deprimidos – sim, esta é a palavra, e não humilhação – pela derrota inédita em campo.

E nele, e apenas nele, perdemos feio, como não podemos perder por nossas qualidades.

Por isso que a direita brasileira — sim, é ela — quem tenta, da forma mais torpe, se apropriar da frustração com um resultado de jogo de futebol para transferi-la para a política, como faz agora.

Ela não se contém, porque odeia a ideia de um Brasil só, que joga, perde e ganha junto.

Como ganhamos e perdemos, no campo, todos juntos.

E como ganhamos e perdemos na vida, na imensa vida, fora do campo.

Este ódio arrasta seus porta-vozes à insanidade de se tornarem urubus pós-Copa como foram urubus pré-Copa.

O povo brasileiro não está com ódio, está triste. Muito triste.

Quem tem ódio é uma elite que não hesita tentar se apropriar da tristeza do povo para que esqueçamos que o futuro é adiante, não para trás.

E o resultado disso, creiam, não é diferente do que teve o ”vai tomar no c…” vip do jogo de abertura.

O Brasil do povão, embora eles creiam e façam o possível para que seja o contrário, é um país civilizado.

Apesar dos sentimentos selvagens desta gente, que é incapaz de sentir por este povo até mesmo o  que sente  um americano, o jornalista Matthew Futterman, do Wall Street Journal, reproduzido no Diário do Centro do Mundo.

“(…) não compre a história de que esta perda vai deixar alguma cicatriz indelével em um país tentando desesperadamente prosperar em uma série de áreas que não têm nada a ver com futebol. Essa ideia é um pouco humilhante para os brasileiros, que são a coleção de almas mais acolhedoras com que eu me deparei.”

É por isso que as almas mesquinhas e odiosas, Matthew, vão perder feio na disputa pelo coração dos brasileiros.

Porque têm a natureza do escorpião e morrem de seu próprio veneno.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Jornalista americano fala do 7 a 1


A derrota do Brasil para a Alemanha levou os suspeitos de sempre a pintar um cenário tenebroso no país. Ok, foi um massacre, mas houve um certo regozijo sádico, um acerto de contas pelo apocalipse estrutural que não veio. A capa do Globo com um David Luiz de quatro no gramado e a manchete “Vergonha, Vexame, Humilhação” é um exemplo rematado de histeria sensacionalista.


Por incrível que pareça, a vida seguiu adiante no dia seguinte. O jornalista Matthew Futterman, do Wall Street Journal, escreveu um bom artigo contando o que viu no país sob uma perspectiva estranhíssima: o mundo não acabou.


Eis a matéria:

Adivinhe o que aconteceu no Brasil na quarta-feira? 

O sol apareceu. As pessoas foram para o trabalho. Elas dirigiram táxis, abriram supermercados, clicaram em seus computadores para tratar de assuntos jurídicos e financeiros. Médicos curaram os doentes. Assistentes sociais enfrentaram os problemas da grande pobreza neste país de cerca de 200 milhões. A vida continuou. 

Adivinha o que não aconteceu? Cidades não queimaram. Rebeliões em massa não aconteceram. Tanto quanto sabemos, torcedores não se jogaram de edifícios porque sua amada Seleção foi destruída pela Alemanha, por 7-1, na semifinal da Copa. 

À luz cruel do dia, ainda é estranho escrever “Alemanha 7, Brasil 1.” Esse tipo de resultado não acontece neste nível de futebol. O último jogo oficial que o Brasil perdeu em casa foi em 1975. Se eu fosse um nativo, estaria abalado, tentando descrever a debacle que aconteceu em Belo Horizonte. 

Não se engane: a derrota para a Alemanha, para usar a frase favorita do técnico dos EUA, Jurgen Klinsmann, foi uma lástima. As pessoas aqui amam o futebol. O governo declara feriados nos dias de partidas da equipe nacional. Ruas vazias, e eu quero dizer vazias – como se você pudesse montar uma barraca no meio de uma delas e não acontecer nada. 

Ainda assim, não compre a história de que esta perda vai deixar alguma cicatriz indelével em um país tentando desesperadamente prosperar em uma série de áreas que não têm nada a ver com futebol. Essa idéia é um pouco humilhante para os brasileiros, que são a coleção de almas mais acolhedoras com que eu me deparei. 

Houve a mulher na loja de óculos aqui em São Paulo que se recusou a aceitar dinheiro pelo estojo de óculos que ela me deu depois que eu perdi o meu. Houve os estudantes universitários em Natal que me ofereceram um tour pela cidade e uma carona de volta para meu hotel no meio da noite, quando não havia transporte à vista após a vitóriq dos EUA sobre Gana.

Embrulhando o peixe
Embrulhando o peixe
Lá estava o rabino que, 30 segundos depois de me conhecer, insistiu para que eu fosse jantar no sábado em sua casa (eu fui, e a sopa de matzo ball estava incrível). Houve as inúmeras almas pacientes comigo na rua, esperando enquanto eu tateava meu dicionário de bolso de português, procurando a palavra certa para completar uma pergunta idiota, quando certamente eles tinham algo melhor para fazer.

Estive aqui por um mês. Isso dificilmente me qualifica como um especialista na cultura brasileira. Minha amostragem é pequena e limitada a hotéis, restaurantes, estádios de futebol e pistas de corrida ao lado de praias do Rio, Natal, Recife e algumas outras cidades-sedes. Eu sei do crime e da pobreza.

Mas eu também sei que este é um país incrível, diverso. Encare quatro horas de voo rumo à Amazônia a partir de São Paulo e as pessoas parecem completamente diferentes daquelas em qualquer shopping do país. Em Salvador, você pode muito bem achar que está na África Ocidental. Em cada cidade, pessoas de todos os tons de pele — preto, marrom e branco — preenchem áreas de ricos e pobres. É um país de beleza física impressionante e vastos recursos naturais. O tráfego da hora do rush faz as avenidas de Los Angeles parecerem estradas do interior, um sinal claro de que o lugar precisa de alguns melhoramentos de infra-estrutura, mas também que há um grande número pessoas trabalhadoras que querem tornar o amanhã melhor do que hoje.

Em outras palavras, o Brasil é muito mais do que uma camisa canarinho e uma obsessão com o futebol.

O colapso contra a Alemanha certamente vai despertar algum exame de consciência nacional sobre como o Brasil cultiva e desenvolve a sua próxima geração de estrelas do futebol. O país tem um enorme banco de talentos, mas acidentes não podem mais acontecer no esporte. Vencer nesse nível hoje significa não apenas talento, mas dinheiro, treinamento e uma estratégia coerente. 

“Quando você pensa sobre isso”, disse uma brasileira de 20 e poucos em um bar na noite passada,  “é meio engraçado. Quer dizer, sete gols. É engraçado, né?” 

Eu vou apostar que o Brasil como um todo vai se sair muito bem depois disso. Chateado um pouco, claro, mas em última análise, tudo vai dar certo. De muitas maneiras, já deu.

Kiko Nogueira
No DCM
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Eu imploro por um pouco de verdade


Em 2006, quando comentava a Copa do Mundo pelo SporTv, saí do estúdio depois de um programa e fui chamada para ir à sala do diretor. Era a primeira vez que isso acontecia, eu não fazia TV há muito tempo, então achei que era coisa corriqueira. Como minha atuação televisiva estava sendo elogiada, não tive medo e, pimpona, me mandei para o encontro.

Sentada numa cadeira e com uma mesa entre ele e eu escutei que o agente de um jogador da seleção brasileira havia dito que eu estava passando dos limites com as críticas que fazia à atuação dele em campo. Não vou dar o nome, apenas dizer que o objeto de minhas críticas era titular. Perguntei o que meu diretor queria dizer com aquilo, e ele explicou que gostaria apenas que eu soubesse que meu tom estava incomodando gente forte que estava com o time na Alemanha, e que se eu continuasse com essa pegada esse jogador não daria mais entrevista ao canal, assim ele havia sido informado. Como era um jogador importante, ele recomendava que eu fosse para casa pensar. Tudo dito com calma e elegância, sem ordens ou imposições, como manda o manual. Em dúvida, pedi que me dissesse o que eu deveria fazer, e a resposta foi alguma coisa como a escolha é sua. Lembro de ter saído do papo levemente alterada e amedrontada. Dias depois o Brasil seria eliminado e o assunto, esquecido.

Conto esse episódio para falar de como o ambiente que envolve a seleção e tudo o que a cerca — incluindo emissoras de TV, patrocinadores e agentes — pode ser promíscuo. Meses mais tarde, sem que ninguém precisasse pedir minha cabeça, eu mesma trataria de cometer suicídio ao vivo quando, movida por uma mistura perigosa de arrogância e ignorância, levei destrambelhadamente para o ar o que chamamos de “papo de corredor”. Ao ser suficientemente imbecil para comentar durante um Arena SporTv o que teria acontecido entre Rogério Ceni, São Paulo e Arsenal sem ter comigo os fatos acabei me atirando de um penhasco para descobrir que não sabia voar.

Hoje, quase dez anos depois, entendo que eu talvez tenha me feito um enorme favor. Em 2006 eu era alguém com potencial para ser a maior imbecil de todos os tempos, e continuar na TV ia apenas sedimentar meu caminho rumo ao cretinismo.

TV é um meio poderoso e perigoso. Mexe com a vaidade como nenhum outro, e vaidade em excesso acaba afastando a gente de quem a gente é de verdade. Lembro de quando comecei a ser reconhecida na rua, e de como isso me enchia de orgulho próprio. Uma vez, num restaurante com amigas, uma menina se aproximou e disse: “Posso te perguntar uma coisa?”, e eu me empavonei porque entendi que seria reconhecida publicamente na frente de minhas amigas, e que isso seria lindo para minha figura social. Sentei empinada, já procurando uma caneta para autografar o que ela quisesse, e disse, “Claro, pode pergutar”. E ela: “Onde você comprou sua bolsa?” Preferiria que a moça tivesse me dado um tiro.

TV é um meio tão estranhamente cruel que a pena para quem fala besteira no ar é a geladeira, o que significa dizer que você continua a receber o salário, só que não precisa sair de casa. Uma punição que em qualquer outra profissão seria prêmio, mas não na TV porque quem está no comando sabe que não há dor maior do que tirar um rosto do ar. Já vi quem tivesse entrado em depressão por ter sido afastado, já ouvi gente dizer, “estou há semanas fora do ar e nem me reconhecem mais na rua”.

Hoje, longe de tudo isso, fica fácil entender como eu teria me deixado levar. Porque não há de fato muita saída. Somos humanos, queremos ser reconhecidos, queremos ser amados e paparicados. Se é o olhar do outro que nos faz existir, o olhar de muitos outros nos faz existir ainda mais. O problema é que se trata de uma existência rasa porque ela é aparente e, como uma droga, no dia seguinte você precisa de mais e mais e mais para existir e se reconhecer. Mais tempo no vídeo, e mais tempo no vídeo do que o colega ao lado. O canibalismo não apenas é bem-vindo: é ele que sustenta o meio.

É preciso ser alguém muito bom e especial e evoluído para fazer sucesso em TV e não se deixar levar. Conheço alguns, e são pessoas enormes, gigantes que simplesmente continuam a ser quem sempre foram a despeito da quantidade de câmeras e lentes que descansem sobre elas. Eu não era uma dessas pessoas gigantescas e de alma nobre, e teria facilmente sucumbido ao ambiente televisivo, me tornando alguém fútil, e arrogante e ainda mais cretina do que hoje.

Quando um meio forte como esse se associa de forma promíscua a outro enorme reservatório de poder e vaidade como o futebol, o resultado pode ser catastrófico.

O que CBF e veículos de massa fizeram com Neymar nessa Copa é apenas a demonstração de um tipo maligno de vitalidade combinada

Neymar é nosso melhor jogador, talvez cresça para ser um dos maiores do mundo, mas Neymar ainda não é o Neymar que a TV adoraria que ele fosse. Isso não importa porque a TV pode elevar Neymar à categoria de um Deus se assim desejar. E assim ela desejou.

E quando Neymar sai da Copa por contusão, é hora de criar uma campanha de marketing para que entendam definitivamente que uma divindade mora nele. O Big Brother Neymar ganhou violência mercadológica depois que o heroi deixou a concentração. Em véspera de jogo decisivo, tudo o que o telespectador via e ouvia era “Força, Neymar”. Bonés, máscaras, camisetas, recados presidenciais – o vale tudo para manter o ídolo vivo e gerar receita. A quem interessava vender o #forçaneymar? Quem estava por trás disso? O que queriam com a pieguice? Quem ganhou com ela? Certamente não o futebol brasileiro.

O #forçaneymar era a TV enfiando goela abaixo a emoção fabricada, a pieguice e a cultura do cretinismo. A construção do heroi e do mártir a todo o custo. Acontece diariamente, mas você não percebe porque a máquina é forte demais, e avassaladora demais, e, afinal, ela parece tão real e sincera e paternalista. São todos tão simpáticos, e risonhos e cheios de palavras encorajadoras que parecem feitas para mim…

Por tudo isso muita gente se chocou ao ver uma imagem de Neymar andando pouco antes do jogo; dado o drama com que a lesão estava sendo tratada pela imprensa, era de se esperar que talvez ficasse paralítico.

Esse show de cretinismo e manipulação é a maior arma usada contra você pelos veículos de massa, com amplo apoio de seus patrocinadores. Você é apenas um produto e vai ser conduzido a achar o que querem que você ache porque é assim que você será levado a consumir o que querem que você consuma. Neymar sofre, você chora; Neymar vende, você compra.

Não éramos assim em 1982 nem em 1986. Não havia um Neymar, mas havia um time de iguais. Naquela época jogávamos bola e CBF e Globo não viviam a promíscua relação dos amantes por interesse. Mas com as derrotas de 82 e 86 ficou estabelecido que jogo bonito não levantava taça, mas jogo feio sim. Quando a cultura do “vencer a qualquer custo” passou a ser amplamente aceita nosso futebol entrou em agonia e nessa hora a CBF começou a se desenhar como uma sequestradora do nosso futebol.

Seus executivos fecharam-se em um feudo luxuoso dentro do qual só podiam entrar agentes e empresários amigos, e patrocinadores e celebridades (além, claro, de suas respectivas proles que estavam ali para as sessões de fotos e autógrafos com o pessoal da comissão).

Multiplicaram-se os patrocinadores, os agentes, os apadrinhados, o dinheiro, e com isso o elitismo. Ganhamos 94 e 2002 com times medianos e uma certa simpatia da arbitragem. Nada disso importa, e sequer foi comentado pela mídia de massa, porque serviu para nos elevar à categoria de pentacampeões numa sociedade que só valoriza o super-campeão, e com o novo status veio mais dinheiro e mais patrocinadores e mais poder para a CBF, sempre largamente apoiada pela maior emissora de TV do Brasil, e uma das mais poderosas do mundo. Somos grandes, somos os maiores, com a gente ninguém pode – era esse o recado amplificado pela mídia de massa, a despeito do futebol precário que estávamos jogando.

Enquanto a CBF se engrandecia e estabelecia como norma um futebol de resultados, morriam os criadores e os artistas e nasciam os volantes raçudos. Na base, o garoto que queria ser meia era convidado a se inspirar em Dunga. Esqueçam Rivelino, Dirceu, Gérson — esse futebol não é mais eficiente. Não é à toa que nossos craques hoje são zagueiros. Nada é por acaso. Fomos recuando, recuando, recuando, e nosso jogo que era o reflexo mais perfeito de quem somos já não nos representava mais.

Faltas, simulações e sistemas defensivos passaram a dominar tática e estratégia. O samba já não mais nos embalava. Chega de ginga, e de ritmo, e de coragem e de dribles. Essa frescura toda não ganha títulos, ganha apenas um jogo ou outro, e ganhar um jogo ou outro não colabora para o enriquecimento da marca CBF. Futebol não é espetáculo, é um negócio e já era hora de entendermos isso.

O jogo passou então a ser quase exclusivamente analisado por números e estatísticas e dados. Adeus subjetividade e emoção e sensação e percepção; seja bem-vinda matemática.

Tudo isso acontecia e eu me afastava da seleção que um dia amei para me aproximar de uma que um dia odiei.

Amigos me perguntam por que gosto tanto da Argentina, e digo que gosto porque eles me oferecem doses de verdades. Os Argentinos jogam em nome de uma cultura que valoriza o drama, a intensidade, a paixão, a raça. Nunca foram conhecidos por jogarem com arte, mas por jogarem com intesidade e entrega. E apesar de terem “apenas” dois mundiais e de não ganharem um há quase 30 anos, não abriram mão de jogar por uma filosofia na qual acreditam, e que os representa. Não torço por uma nação, mas por valores e crenças e princípios. Em campo, os argentinos ainda dançam o tango e nós já não sambamos mais. Então, como acho que patriotismo é sempre a resposta mais imbecil que pode ser dada a qualquer pergunta, sei que não é porque nasci no Brasil e amo minha terra que preciso torcer pelo time que deixou de representar alguns dos valores que considero mais sólidos.

Enquanto a Argentina me oferece autenticidade, o Brasil me dá produtos. Neymar é um produto e nada nele soa autêntico. Do cabelo à cueca, passando pelas simulações e pelas caras e bocas, absolutamente nada ali me seduz. O novo rei da raça, David Luiz, também não. São, obviamente, jogadores muito acima da média, mas até a raça que David Luiz vomitou em todos os jogos me soa levemente exagerada e fabricada. Porque o ambiente da CBF, uma corporação que preza o dinheiro e o luxo e a arrogância, contamina absolutamente tudo que nela encosta, de jogadores a assessores de imprensa, passando por treinadores e entrevistas coletivas.

Movidos por essa empáfia, o título era dado como certo. Pintaram o ônibus da seleção com a estúpida frase, “Preparem-se, o hexa vem aí”. Parreira, que ontem antes do jogo parecia o tio-véio babão de calça de moletom e máquina fotográfca tirando foto dos jogadores em campo, dizia que a taça já era nossa. Era tão nossa que treinos podiam ser interrompidos para que a Globo gravasse o que bem entendesse. Vamos criar ídolos, porque ídolos vendem produtos, e esses produtos apoiam financeiramente tanto a CBF quanto emissoras de TV. Treino não rende grana, mas entradas ao vivo sim. Então, para aí o treino, ô Felipão, que a gente quer filmar.

Felipão, aliás, foi justamente escolhido para comandar o maior fiasco da história dos fiascos. Quem melhor do que ele para representar toda a decadência do nosso futebol?

Em 30 anos a CBF, com amplo apoio da mídia de massa, conseguiu montar uma seleção com a alma e a cara da nossa elite: violenta, covarde, dissimulada, abrutalhada, cafona. E enquanto o projeto “futebol pobre, seleção campeã, CBF milionária” se fortalecia, o futebol brasileiro agonizava. Estádios velhos, gramados que mais lembravam pastos, estrutura zero.

Tudo parecia que ia mudar em 2002, quando Lula ganhou a eleição e assinou imediatamente o Estatuto do Torcedor, coisa que seu antecessor nunca fez. Mas, depois da empolgação inicial, quando as coisas se encaminhavam para melhorar, Teixeira se aproximou de Lula e nada de fato mudou.

Essa é a história do fiasco como eu a vejo.

A goleada que sofremos ontem está sendo construída há décadas, desde que passamos a nos comportar como um timinho sem recursos técnicos, táticos e estratégicos, sempre covarde e violento. Era apenas uma questão de tempo porque ninguém se afasta impunemente de valores sólidos para se aproximar de valores desprezíveis.

CBF, TVs, Fernando Henrique, Lula e Dilma têm sim responsabilidade nesse fiasco dos sete a um. Como têm Felipão, e assessor de imprensa que sai esmurrando jogador no intervalo, e jogador que prefere se arremessar no gramado a tentar o gol, e todos os que durante esses anos se omitiram e abaixaram as calças para as grandes corporações que comandam tudo a nossa volta, aceitando esquartejar o futebol brasileiro, uma de nossas manifestações culturais mais ricas, e vender cada pedacinho dele como mercadoria.

Mas o que vocês talvez ainda não saibam é que os sete a um vão nos salvar. Porque embora nosso futebol estivesse morto faz tempo, apenas ontem ele começou a feder. E o cheiro é tão forte que vai ser sentido de norte a sul, de leste a oeste, e só vai parar de feder quando essa velharia que comanda o futebol hoje bater asas. Vai demorar, claro, porque o que levou 30 anos para ser destruído não se reconstroi em alguns poucos verões. Mas talvez tenhamos, com essa goleada histórica, encontrado uma porta para escapar de tanta mediocridade.

Que o dia 8 de julho fique para sempre marcado como o dia em que, finalmente, a CBF foi atingida e caiu de joelhos diante do povo brasileiro.

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Aécio e Ronaldo, oportunistas da Copa!

 
A goleada para a Alemanha e o fim do sonho do hexa no Brasil despertou os piores instintos nos oportunistas de plantão. De imediato, nas redes sociais, os mesmos que apostaram no fiasco da Copa — e foram derrotados no seu complexo de vira-latas — partiram para a vingança e debitaram a triste derrota da seleção na conta do governo. Sobraram xingamentos para Dilma! Entre estes oportunistas, porém, dois se destacaram: Aécio Neves, o cambaleante presidenciável do PSDB, e o ex-jogador Ronaldo, que fez fortuna com os preparativos do evento e depois virou cabo eleitoral do tucano. Ambos tentaram se aproveitar do clima de frustração dos torcedores para ensaiar um discurso político de “mudança”.

Segundo a revista CartaCapital, ainda na fatídica terça-feira, o senador mineiro postou na sua conta no Twitter: “Derrota vexatória. Está na hora de repensar não só a seleção brasileira como o Brasil”. Na tragédia, ele tentou se apresentar como salvador, o homem das mudanças. Num curto espaço de tempo, o cambaleante tucano mudou de posição três vezes. Antes do início dos jogos, ele apostou na desorganização e no caos. Questionou os atrasos nas obras, criticou os gastos “exagerados” e culpou o governo pelo “inevitável” fracasso da Copa. Depois, com o sucesso do evento, ele alterou o seu discurso na maior caradura, como registrou a própria Folha tucana em 7 de julho:

* * *

Mudança de humor

O presidenciável Aécio Neves decidiu adotar um tom mais cauteloso sobre a Copa para não ficar na contramão do noticiário predominantemente positivo do evento. Pesquisas internas mostraram que a organização do torneio é bem avaliada e está ajudando Dilma Rousseff a se recuperar na eleição. A um mês da Copa, Aécio criticava atrasos em obras de infraestrutura. Ontem, no primeiro dia oficial de campanha, mudou o tom e disse que o governo tenta se ‘apropriar’ do evento.


* * *

O senador mineiro até foi ao Mineirão no jogo Brasil X Alemanha, mas saiu antes do final da partida — o que é considerado um gesto de traição pelas torcidas mais fanáticas. E saiu atirando. Abandonou seu “tom mais cauteloso” para atacar a presidenta Dilma, como se ela fosse técnica da seleção. Nesta quinta-feira (10), num comício em Vila Velha (ES), ele voltou a criticar a sua adversária. “Parecia até que ela era a artilheira da seleção”, ironizou. E voltou a esbanjar cinismo ao afirmar que o governo é que tentou “se apropriar de um evento que é de todos os brasileiros... Todos nós estamos tristes com o resultado. Estive lá, como torcedor, no Mineirão, atônito com aquele resultado, mas nunca misturei as coisas".

Pior do que o oportunismo de Aécio Neves foi a atitude rancorosa do seu coordenador de campanha na internet, Xico Graziano. Logo após a trágica goleada, ele gozou nas redes sociais. “Lula e Dilma se ferraram. Muda Brasil”. Mas ele não conta, não cheira nem fede — só rosna e promove baixarias! O outro que se destacou no oportunismo foi o ex-jogador Ronaldo, o gaguejante comentarista da Rede Globo. Ela já havia se tornado um “fenômeno” antes da jogo no Mineirão. Como membro do Comitê Organizador Local (COL), ele nunca fez qualquer ressalva à organização do evento e virou estrela em inúmeros comerciais, engordando (não é maldade!) ainda mais a sua bilionária conta bancária. 

Na semana que antecedeu a abertura dos jogos, em pleno “Domingão do Faustão”, ele surpreendeu todo mundo ao dizer que sentia “vergonha” do Brasil. Dias depois, anunciou que seria um militante da campanha de Aécio Neves, seu amigo de tantas farras. Na sequência, com a alegria nas ruas e um protesto em frente a sua residência, ele mudou radicalmente de posição. Disse que a Copa era um “sucesso”. Na terça-feira, com a goleada, ele teve nova recaída e resolveu posar de intelectual. Em sua conta no Instagram, ele comparou o placar do jogo ao número de prêmios Nobel conquistados por brasileiros e alemães: "Alemanha 102 x 0 Brasil. E você acha que 7 x 1 foi goleada?".

Como cabo eleitoral do PSDB, o ex-craque devia perguntar aos seus companheiros de partido quantas universidades FHC construiu no Brasil ou sobre a goleada do desemprego em seu triste reinado! Haja oportunismo!

Altamiro Borges
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Imprensa transfere o peso da derrota para Brasília

Avisem os adolescentes que sonham, os vestibulandos que se iludem com o brilhareco da carreira e os estudantes que ainda acham importante entender a semiótica: para chegar lá, para manipular o microfone, surgir gloriosamente nas telas da televisão ou para ver seu nome estampado em páginas de jornais e revistas, será preciso ter estômago de avestruz e convencer a si mesmo de que é a pauta que inventa o mundo.

Essa é uma das lições que se pode extrair da cobertura que se segue ao desastre futebolístico do Mineirão. O noticiário e o opiniário agasalhados pelos jornais desta quinta-feira (10/7) nos apresentam o padrão que deverá balizar o jornalismo brasileiro após a vexaminosa derrota da seleção nacional para a equipe da Alemanha.

Baixada a poeira da decepção, quando as redes sociais extravasam em ironias e anedotas a capacidade dos brasileiros de superar a tristeza com bom humor, eis que a imprensa resolve abrir sua caixa de maldades. Não, os textos não condenam liminarmente os principais responsáveis pelo fiasco dentro de campo: os jornais tratam de transferir o peso da derrota para Brasília.

Editoriais e artigos, diretamente, tentam fazer a conexão entre o fracasso da equipe de Luiz Felipe Scolari e a disputa eleitoral, buscando uma relação entre política e futebol que de alguma maneira vincule o governo federal ao frustrado projeto do hexacampeonato.

A referência mais explícita está na manchete do Estado de S. Paulo: “Dilma tenta se descolar do fracasso da seleção”, diz o título no alto da primeira página. A frase afirma que há um vínculo a priori entre o futebol e o campo da política.

Ora, se existe esse vínculo, convém que a imprensa esclareça ao público em que grupo político se alinham o presidente da CBF, José Maria Marin, seu sucessor, Marco Polo Del Nero, o coordenador técnico da seleção, Carlos Alberto Parreira, e o técnico Scolari.

Discursos de campanha, frases de efeito e oportunismo caracterizam todas as disputas eleitorais. O problema é o que a imprensa faz com tais manifestações. No caso, claramente, os jornais resguardam os outros candidatos e expõem junto à foto da vergonhosa derrota no futebol a imagem da presidente da República.

Jornalismo obsceno

Ainda que saibamos, todos, que a imprensa adora chutar cachorro morto, pode-se observar certa complacência com relação à entrevista em que Parreira e Scolari defenderam seu projeto fracassado.

Ainda que aqui e ali alguns comentaristas mais críticos afirmem a obviedade de que ambos são responsáveis pelo resultado vergonhoso do projeto, os textos principais da imprensa e os comentários das emissoras mais empenhadas na cobertura da Copa evitam contrariar a avaliação da dupla de que tudo foi planejado com perfeição.

Ora, diante do resultado e com a possibilidade de analisar friamente os seis minutos de pânico e desorganização que permitiram à seleção da Alemanha impor uma goleada irreversível à equipe nacional, o mínimo que se poderia esperar da imprensa era que fizesse o mea culpa e admitisse que havia sido complacente demais com os dois coordenadores da CBF.

Uma mensagem lançada nas redes sociais pelo empresário do jogador Neymar Jr. desmoraliza em poucas linhas o trajeto recente de Luiz Felipe Scolari — que em nada autorizava o entusiasmo com que a imprensa apoiou seu trabalho até o dia do desastre.

Como sabemos todos que a carreira de Scolari e Parreira se encerra por aqui, com o selo do vexame fechando os envelopes de seus currículos, é apenas questão de dias para que os jornais finalmente façam a radiografia de seus erros. A data mais provável é o próximo domingo (13/7), principalmente se a seleção brasileira não conseguir vencer no sábado a desmotivada Holanda, cujo técnico já declarou que preferia voltar para casa do que disputar o terceiro lugar.

Mas antes de fazer o rescaldo completo do fracasso dentro das quatro linhas, a imprensa hegemônica trata de transferir o saldo negativo para o campo político. Trata-se apenas de uma amostra do que vem por aí a partir da semana que vem, quando as atenções estiverem voltadas para a disputa eleitoral.

Tirem as crianças da sala. O jornalismo brasileiro está se aproximando perigosamente da obscenidade.

Luciano Martins Costa
No OI
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Campanha

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Não foi acidente, Dona Lúcia

RIO (mirem-se na Alemanha) – No dia da final da Copa das Confederações, há pouco mais de um ano, Carlos Alberto Parreira fez um dicurso motivacional antes do jogo e usou uma frase de efeito para os jogadores que dali a instantes enfrentariam a Espanha. “Existe uma hierarquia no futebol, e eles foram campeões do mundo sem enfrentar a seleção brasileira!”, bradou para a turma do #ÉTóisss.

Ui, quanta valentia.

E aí a seleção foi para cima da Espanha, um time já envelhecido e que tinha gasto muitas de suas horas em solos brasileiros tomando caipirinha e comendo putas durante um torneio que não valia nada — exceto talvez ajudar os branquelos e branquelas de camiseta de 200 paus da Nike, unhas muito bem pintadas e cabelos loiros, a não se atrapalharem na hora do sonho intenso e raio vívido, muitas vezes trocados pelo amor eterno seja símbolo, naquela zona de hino que fala de coisas incompreensíveis como impávido colosso, florão (flor grande?) da América, terra garrida, clava forte, verde-louro (é aquele da Ana Maria Braga?) e lábaro que ostentas.

O time ganhou, os branquelos aprenderam a cantar o hino, aparentemente, os jogadores passaram a ensaiar os mesmos versos para cantá-los com os dentes cerrados, e vamos para a Copa do Mundo. Antes, vamos quebrar também umas vitrines, culpar a Dilma, criar umas hashtags, #VemPraRua, #NãoVaiTerCopa, reclamar das filas nos aeroportos, bater umas selfies e escrever #ImaginaNaCopa no Facebook quando atrasar um voo da TAM para Orlando.

Acelera o filme e chegamos ao final de maio, maio agora, um mês e meio atrás. Dia de apresentação da seleção em Teresópolis, entrevistas coletivas, olha só como tudo ficou bonito, olha só a estrutura, os quartos, as bicicletas ergométricas, os campos de futebol, a sala de imprensa, as banheiras de hidromassagem, as TVs de LCD, o WiFi funcionando. Felipão: “Nós vamos ganhar a Copa”. Parreira: “Chegou o campeão. Estamos com uma mão na taça. A CBF é o Brasil que deu certo”.

Acelera um pouco mais o filme, chegamos ao dia 8 de julho, vulgo ontem, Mineirão. Como tinham feito nas cinco partidas anteriores, os jogadores entram em campo um com a mão no ombro do outro, feito minha classe na Escola Municipal Dona Chiquinha Rodrigues, em 1971, no Campo Belo, quando eu estava no primeiro ano primário. Cantávamos o hino todos os dias, mas nunca precisei colocar a mão no ombro de ninguém porque era sempre o primeiro da fila, por ordem de tamanho.

Tal rotina cumprida por todo um período escolar me permite não embaralhar versos até hoje, garanto que nunca enfiei a paz no futuro e a glória no passado depois do formoso céu, risonho e límpido, mas ao mesmo tempo me privou de decorar de maneira adequada o hino da independência, porque esse a gente zoava mesmo, eram os cinco filhos do japonês, cada um deles contemplado com uma desgraça diferente, um era vagabundo, outro era punheteiro, e o coitado do quinto tinha nascido sem pinto. Como esse a gente cantava só uma vez por ano, não tinha problema algum abrir mão daquelas baboseiras de garbo juvenil, grilhões da brava gente brasileira, e perfídia astuto ardil é a puta que pariu. Na mesma vida ter de decorar lábaro que ostentas estrelado e ímpias falanges é um pouco demais, não força a amizade.

Pois que os meninos da CBF, o Brasil que deu certo, adentraram o gramado em formação de grupo escolar, perfilaram-se, urraram o hino nacional segurando uma camisa do Neymar Jr. como se fosse a farda de um soldado abatido em Omaha Beach, enquanto o próprio assistia ao jogo em sua casa no Jardim Acapulco pingando fotos no Instagram, #ÉTóiss.

Parêntese. No dia anterior, três dos meninos da CBF também colocaram fotos no Instagram com a hashtag #jogapraele, respondidas, as fotos, com a hashtag #jogapramim pelo soldado abatido na guerra, Neymar Jr. Todos eles, Neymar Jr., Marcelo, Willian e David Luiz, receberam quantia não divulgada da Sadia, patrocinadora da seleção, para a, como se diz hoje, ação. Foram alguns milhões de curtir & compartilhar que deixaram os marqueteiros da empresa muito satisfeitos e ansiosos para saber quantos frangos seriam vendidos no dia seguinte, enquanto os rapazes rangiam seus dentes gritando pátria amada, Brasil.

Então começou o jogo e foi aquela coisa linda.

Então acabou o jogo e estavam todos atônitos, pasmos, chocados, passados, desacorçoados, e os câmeras da FIFA se divertiram fazendo closes de garotinhos com fulecos na cabeça derramando lágrimas no peito de papai com um TAG-Heuer no pulso. Oh, coitados. E os óculos Prada embaçados com as lentes melecadas de rímel? Pobres almas.

Acelera a fita e chegamos à coletiva de hoje, sete figuras em Teresópolis numa mesa, uns dois ou três eu não tenho a menor ideia de quem fossem, ou sejam, porque continuam sendo alguém. Reconheci Parreira, Felipão, Murtosa, o médico, acho que o preparador físico. Tinha um de agasalho, quase um boneco de cera, no centro da mesa tal qual um Jesus Cristo na última ceia, que entrou mudo e saiu calado, e portanto não devia ter grande importância.

E o que se viu foi uma demonstração de arrogância, soberba, prepotência, falta de humildade, um festival de sandices, um arroto coletivo coroado com a carta da dona Lúcia.

Dona Lúcia é a grande personagem desta Copa do Mundo, e surgiu, infelizmente, aos 44 do segundo tempo. Teria sido muito divertido saber o que ela pensava desde o dia 12 de junho, na abertura em Itaquera. Foi sua carta, na verdade um e-mail, afinal estamos em 2014 e nem dona Lúcia escreve mais a mão, fecha um envelope, lambe um selo e vai ao correio, que absolveu toda a CBF, todos os membros da comissão técnica, todos os jogadores, todos os nossos pecados. Foi a carta de dona Lúcia que permitiu a Parreira, a quem encarregaram de dar à luz a missiva, concluir que está tudo perfeito, que ele é perfeito, Felipão também, os demais da mesa, o futebol brasileiro, a CBF. Afinal, como ele disse há um ano, há uma hierarquia no futebol. E estamos no topo dessa cadeia. É nóis, mano. #ÉTóiss.

Bem, vamos a alguns fatos. Foi o pior resultado de uma seleção brasileira desde o dia em que o Homem de Neandertal deu um bico na cabeça do cara da tribo vizinha, arrancando-a e fazendo a dita cuja voar entre duas árvores. Um 7 x 1 numa semifinal de Copa gerou folhas e folhas de estatísticas, todas elas iniciadas com “nunca”. Nunca isso, nunca aquilo.

Não me senti envergonhado de nada nem durante, nem depois do jogo. Quero que a seleção se foda, não dependo dela para viver, torço para a Portuguesa, e para mim, depois de 1982, tanto faz se a CBF tem um escudo com quatro, cinco ou dez estrelas. Para mim, a equação é simples: quem se dá bem quando a seleção ganha? A CBF e os caras que tomam conta dela, mais um pessoal no entorno, mídia incluída, que se apropria das vitórias e se refere ao time na primeira pessoa do plural. Acho todos desprezíveis, então não me importo se ganha, perde, empata, se goleia, se é goleada. Olho tudo, assim, com o distanciamento e isenção necessários e torcendo apenas por uma coisa: que um dia tudo mude.

Mude, porque gosto de futebol. Porque olho para a Alemanha e fico feliz da vida de ver que um projeto feito há não muito tempo dá tão certo e é baseado apenas em honestidade de princípios, trabalho, dedicação, metas, filosofia.

Filosofia. Essa é a palavra. Em 2000, a Alemanha fez uma Eurocopa de merda e não passou da primeira fase. Fritz, Hans, Müller, Klaus e Manfred se reuniram e decidiram salvar o futebol do país. Para isso, era preciso mudar tudo. Clubes, ligas, divisões de base, campeonatos, estádios, distribuição de dinheiro, formação de técnicos, médicos, preparadores físicos, finanças, tudo. O resultado, óbvio e inevitável, seria uma seleção forte, mais dia, menos dia.

Os resultados estão aí e não vou me alongar neles. São quatro semifinais seguidas de Copas, a Bundesliga tem uma média de público assombrosa, os clubes são saudáveis, vivem decidindo os campeonatos europeus, é um sucesso. A coisa é tão bem feita e bem pensada, que os clubes são obrigados até a estabelecer uma filosofia de jogo e aplicá-la em todas as suas divisões. A distribuição de grana não é a obscenidade determinada pela TV Globo aqui, por exemplo. Atende a critérios técnicos, não a planilhas do Ibope. Em resumo, em 14 anos, o que é quase nada, os caras reconstruíram seu futebol. E o futebol na Alemanha, com o perdão da expressão, mas não encontro outra melhor, é do grande caralho.

Enquanto isso, por aqui, ele é infestado por figuras sombrias e deprimentes, gente ligada ao regime militar, múmias carcomidas, antiquadas, obsoletas, conservadoras (o treinador é admirador confesso de Pinochet), adeptas de rituais de guerra, de conceitos bélicos, de atitudes marciais, gente que não sorri, que dá asco, que, definitivamente, não tem nada a ver com o futebol que o Brasil um dia mostrou ao mundo e fez com que o mundo se encantasse por ele. E até hoje isso acontece. Esse encanto, que é claramente uma herança do passado, segue tão vivo que a Alemanha, hoje, pediu desculpas ao Brasil.

Não precisava. Essa gente não merece tamanha consideração. A seleção brasileira não representa nada, a não ser os interesses (pessoais, muitas vezes; não estou falando só de dinheiro) de meia-dúzia que há décadas se locupleta com ela. Como explicar a escolha do técnico, por exemplo? Felipão, nos últimos dez anos, perdeu uma Euro com Portugal para a Grécia em casa, foi demitido do Chelsea, mandado embora de um time uzbeque e rebaixou o Palmeiras para a Série B. Prêmio: virou técnico da seleção brasileira na Copa do Mundo disputada no Brasil.

Hoje, na tal coletiva, brandiu folhas de papel com seu retrospecto e carga horária de treinos para provar que fez tudo direitinho. Parreira, figura hedionda e sorumbática, interrompia o abatido treinador a cada resposta para rebater toda e qualquer crítica e reforçar sua autoproclamada competência, seu currículo inatacável, seu passado vitorioso de líder de polichinelo, flexão de braço, distribuição de coletes e posicionamento de cones.

O futebol brasileiro recebeu alguns recados nos últimos anos. Quando o Santos tomou duas goleadas do Barcelona, por exemplo. Ou quando o Inter foi eliminado do Mundial de Clubes por um time africano. E, depois, o Atlético Mineiro — por uma equipe marroquina. As finais da Libertadores serão retomadas agora, depois da Copa. Sabe quantos clubes brasileiros estão entre os semifinalistas? Nenhum. A média de público da Série A é não menos que ridícula. O campeonato do ano passado acabou num tribunal fajuto porque a CBF não consegue publicar uma suspensão de jogador num site. O clube que reclamou dessa iniquidade foi chantageado e ameaçado de desfiliação e acabou rebaixado, sem ter direito sequer de buscar seus direitos.

Esse futebol, ontem, levou sete gols da Alemanha. Quatro deles em seis minutos. E a turma responsável por esse vexame hilariante, hoje, não desceu do salto. Não assumiu nenhum erro. Não admitiu nenhuma falha. Não reconheceu suas deficiências. Tratou o resultado como um acidente.

Foi quando surgiu a carta de dona Lúcia. Que termina sua peroração dizendo que não entende nada de futebol. Talvez por isso os sete da mesa, mais os que nela não estavam, tenham tentado convencer dona Lúcia de que foi um acidente.

Mas não foi não, dona Lúcia.

* Ilustro este post, que nem queria escrever, porque não escrevi nada desta Copa, infelizmente (foi uma Copa riquíssima e excepcional), com a melhor das capas de jornal que vi hoje. É do “Extra”, aqui do Rio, que enterra de uma vez por todas o Maracanazo. O que aconteceu em 1950 foi uma tragédia. O que aconteceu ontem, uma vergonha. São coisas bem diferentes.

Flávio Gomes
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