7 de jul de 2014

Cambistas padrão Fifa


Ray Whelan foi detido nesta segunda-feira no Copacabana Palace.

As acusações são de lavagem de dinheiro, associação criminosa e comércio ilegal. Segundo a polícia, Whelan seria o chefe de Lamine Fofana, o empresário argelino preso na semana passada também por comércio ilegal de ingressos e que transita bem no futebol brasileiro. Alguns ex-jogadores brasileiros estão na mira da investigação.

Então vamos lá: quem é Ray Whelan? Diretor da empresa Match. Que empresa é a Match? Associada à FIFA, possui direitos exclusivos para a venda de pacotes para a Copa.

Em 2007, houve uma licitação e o Comitê Executivo da Fifa cedeu o contrato de exclusividade à Match. Pouco depois, Philippe Blatter adquiriu 5% da empresa. O sobrenome lhe é familiar? Sim, ele é sobrinho de Joseph Blatter, o manda-chuva.

Anteriomente, Philippe Blatter trabalhava como executivo-chefe de uma agência de marketing, a Infront, que também havia ganhado generosos contratos de direitos de marketing e de transmissão de TV da Copa do Mundo na Alemanha.

Um detalhe nada desprezível, é que a Infront ocupava o mesmo conjunto de escritórios em que Jean-Marie Weber organizava as remessas de propinas da ISL.

Vamos lá novamente: quem é Jean-Marie Weber? O “homem da mala”, o gerente de marketing da ISL que distribuiu 100 milhões de dólares a dirigentes esportivos, incluindo João Havelange, sogro de Ricardo Teixeira.

Tá captando a intrincada teia da ilibada Fifa?

O anúncio da concessão de exclusividade, tinha ares de preocupação com as vendas de ingressos no mercado negro. O texto oficial dizia: “O acordo fortalece ainda mais a luta da Fifa contra a venda não autorizada de ingressos. Graças a sua experiência e sua infraestrutura de monitoramento, a Match Hospitality terá condições de auxiliar a Fifa a reforçar os dispositivos que regulamentam a venda de pacotes de hospitalidade, prevenindo de maneira eficaz que vendedores não autorizados convençam clientes corporativos e pessoas físicas a comprarem tais pacotes diretamente deles”.

É para rir?

Em novembro de 2010, o contrato com a Match foi estendido até 2023.

Mauro Donato
No DCM
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Polícia prende "tubarão" da Fifa que agia na máfia dos ingressos

Ray Whelan é um dos diretores da Match, empresa associada à Fifa


O delegado da 18ª DP (Praça da Bandeira) Fábio Barucke, que conduz as investigações da máfia dos ingressos na Copa do Mundo, prendeu Ray Whelan. Ele é um dos diretores da Match, empresa associada à Fifa e que tem direitos exclusivos na venda de pacotes para os jogos da Copa do Mundo. A Match Hospitality é ligada a Phillipe Blatter, sobrinho do presidente de Fifa, Joseph Blatter. Ray foi preso no Copacabana Palace. Na suíte dele, foram apreendidos cerca de 100 ingressos da Copa do Mundo.

Segundo as investigações, Ray estaria acima do franco-argelino Mohamadou Lamine Fofana, preso desde a semana passada por participação no esquema.

O nome do acusado bateu com um dos nomes que constam na lista de credenciados pela Fifa para a Copa do Mundo no Brasil. A lista com os credenciados foi enviada pela entidade máxima do futebol.

O delegado irá pedir a delação premiada ao advogado paulista assim que sua prisão temporária vencer, o que deve acontecer em cinco dias. Segundo ele, a colaboração de Massih foi essencial para a investigação.

Fifa foi conivente e atrapalhou boa investigação da polícia

A Fifa foi conivente e omissa, porque sabia de todo esse esquema e tentou atrapalhar a investigação da polícia. A diretora de comunicação da entidade deveria ser presa e impedida de deixar o país. A legislação brasileira diz que omissão é crime. Se fosse na Inglaterra ou nos Estados Unidos, essas pessoas já estariam, presas há muito tempo. Eles humilharam a dignidade da polícia brasileira, que produziu um inquérito de grande qualidade, que o mundo está apreciando agora.

Escutas revelam 900 ligações de Lamine para celular da Fifa

Uma reportagem do programa Fantástico, da TV Globo, revelou neste domingo (6) que o franco-argelino Mohamadou Lamine Fofana, de 57 anos, acusado de liderar a quadrilha internacional que vendia no mercado negro os ingressos para a Copa do Mundo, fez pelo menos 900 ligações para um celular oficial da Fifa no Brasil, desde o início do Mundial. A Polícia do Rio já anunciou que a prisão do suposto membro da Fifa envolvido com a máfia dos ingressos pode acontecer a qualquer momento.



Lamine foi preso com outros 10 integrantes do grupo na última terça-feira (1), indiciados por suspeita de cambismo, associação criminosa e lavagem de dinheiro. O chefe da quadrilha estava em um apartamento no condomínio Santa Mônica, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, que foi alugado por 12 mil dólares, do ex-jogador Júnior Baiano.

Após as prisões, a Fifa se reuniu com a única empresa responsável pela comercialização das entradas no torneio, a Match Services. No entanto, nenhuma das duas entidades forneceu os nomes dos funcionários supostamente envolvidos no esquema, como vem solicitando a Justiça e a polícia. De acordo com o delegado da 18a. DP (Praça da Bandeira) Fábio Barucke, há indícios de participação de integrantes da Fifa, da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e das federações de futebol da Argentina e da Espanha no esquema.

Na quarta-feira passada (2), o delegado Barucke havia dito que o advogado de Lamine, José Massih, chegou a revelar logo após a prisão, o nome de um homem que seria integrante da Fifa e ligado ao grupo de cambista. A mesma versão foi sustentada pelo promotor Marcos Kac, da 9a. Promotoria de Investigação Penal (PIP) do Rio.

No JB
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O Anti-Nelson Rodrigues: Arnaldo Jabor e sua luta para que o brasileiro se sinta um derrotado

Ele
O Anti-Nelson Rodrigues é uma das últimas peças de Nelson Rodrigues. O nome extravagante tem um motivo óbvio: o final é feliz.

Um beijo cinematográfico sela a história: os dois protagonistas estarão juntos para sempre, como num conto de fadas.

Isto é o anti-Nelson Rodrigues: suas peças jamais terminaram bem.

Fora do terreno da dramaturgia, temos hoje no Brasil o anti-Nelson Rodrigues. Paradoxalmente, é alguém que se considera um discípulo apaixonado de Nelson Rodrigues e o cita obsessivamente.

É Arnaldo Jabor.

Jabor é o anti-Nelson Rodrigues porque faz exatamente o oposto daquilo a que o maior dramaturgo brasileiro se dedicou com tamanho empenho.

Nelson Rodrigues gastou boa parte de seus incontáveis artigos nos jornais identificando, e combatendo, uma patologia nacional.

Ele dizia que o brasileiro era um Narciso às avessas, alguém que cospe na própria imagem.

Para ele, o futebol retirou o brasileiro da sarjeta emocional em que se arrastava desde sempre. O primeiro título mundial, em 1958 na Suécia, fez o brasileiro finalmente se orgulhar de seu país, e de si mesmo.

Isto, sabia ele, era fundamental para a construção do país. Você não constrói nada – uma família, uma empresa, muito menos um país — sem que as pessoas sintam respeito por elas mesmas e pelo grupo a que pertencem.

O anti-Nelson Rodrigues faz o oposto.

Em seus artigos e comentários no rádio e na tevê, Jabor se esmera em depreciar o Brasil e os brasileiros.

Numa fala na CBN que viralizou na internet, e já é um clássico das grandes asneiras da mídia, Jabor disse algum tempo antes da Copa que o Brasil daria um vexame mundial.

Nossa incompetência para organizar um evento de tal envergadura ficaria brutalmente exposta, segundo ele.

Veio a Copa e ela foi o anti-Jabor.

No mesmo texto em que vaticinou o apocalipse futebolístico, ele disse que o Brasil não é sequer o terceiro mundo. É o quarto.

Os ouvintes e leitores de Jabor são regularmente massacrados com a mensagem de que o país deles não presta — e nem eles.

Razões objetivas para detestar o Brasil ele não tem. Em que outro país teria o espaço na mídia que o Brasil lhe oferece? Em que outro país faria palestras a 20 mil reais ou mais a hora?

O Brasil é uma mãe amorosa para Jabor. E Jabor devolve o amor com desprezo. Ele lembra, neste sentido, o Oswaldinho de o Anti-Nelson Rodrigues. A mãe o adora, e ele a despreza com ferocidade. “A senhora sempre liga na hora errada”, grita Oswaldinho ao telefone numa cena à mãe rejeitada.

Por que tanto ódio?

É alguma coisa que só o próprio Jabor pode responder. Eis um homem atormentado, você logo percebe.

Teria sido o fracasso no cinema o responsável pela raiva que inunda Jabor? Só ele sabe.

O que ele talvez não saiba é o mal que, como Anti-Nelson Rodrigues, faz aos que o ouvem no rádio, o lêem nos jornais e o vêem na tevê.

Jabor projeta sobre eles, impiedosamente, toda a sua amargura, todas as suas frustrações, todo o seu rancor.

Os que hoje o levam a sério um dia, caso acordem, podem desejar algum tipo de indenização por terem sido devastados numa coisa tão importante como o respeito por si mesmos.

É uma conta que jamais poderá ser paga — nem pelo anti-Nelson Rodrigues que atende por Jabor e nem por ninguém.

Paulo Nogueira
No DCM
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Que fim levou a direita ilustrada?


Quando entrei na USP em 1984 meus avós ficaram preocupados. Ainda era época do degelo militar e a Psicologia vinha com um traço “róseo” que levantava suspeitas em meu querido avô. Formado da tradição liberal inglesa, voraz leitor do Estadão, ele iniciou uma espécie de profilaxia que consistia em receber-me, às quartas feiras, para uma conversa sobre temas de sua livre escolha: economia, política ou cultura. Minha avó esperava a ocasião com uma generosa torrada sobre a qual repousavam dois ovos pochés, em cima dos quais salpicava-se pimenta, extraída de um daqueles antigos e compridos moedores feitos de madeira. Depois do fausto e antes da partida de xadrez, vinha a chamada oral em torno dos artigos, previamente selecionados na semana anterior: Delfim Neto, Pedreira, Paulo Francis, Simonsen, Joelmir Beting e ao fim o indefectível Bob Fields (Roberto Campos), combinavam-se com artigos mais informativos do The Economist ou das revistas francesas ou alemãs, que minha avó conseguia interpolar na conversa. Lembro particularmente de um luminar da direita americana chamado Rush Limbaugh, que quando ativado era o código para “agora o comunismo vai tremer nas bases” e Cuba deixará de ser o exemplo eterno de superioridade moral em matéria de educação e saúde. Rapidamente descobri que havia alguns caras que “pegavam mais leve” e que havia uma tensão a ser explorada entre meus dois avós, já que ela gostava mesmo era da Folha.

À medida que a esquerda foi entrando, no país e nos meus anos de graduação, as batalhas verbais com meu avô aumentavam em teor de pimenta. Daquela época retive o diagnóstico de que as verdadeiras ideias liberais jamais tinham sido realmente implantadas no Brasil. Não tínhamos instituições fortes, nossa economia era ridiculamente fechada e o espírito de discussão livre, pública e democrática havia sido sequestrado por dois grandes malfeitores: o governo corruptor de adultos e a esquerda corruptora de jovens. A alma do capitalismo é o risco, e as joint ventures públicas ou privadas deviam ser o ponto nevrálgico de um grande sistema baseado em punições e recompensas, praticadas pelas mãos invisíveis de Adam Smith.

Havia ainda outro lado da direita liberal. Sua capacidade de erudição, seu gosto cultivado e seu exercício da ilustração. Independente do sentido aristocrático ou popular deste tipo de virtude, ela não vinha sem alguma humildade, característica daqueles que sabem o tamanho do problema que se está a enfrentar. Talvez seja por isso que os antigos cadernos culturais tinham títulos diminutivos como o Pasquim e o Folhetim, ou que indicavam sua condição acessória como o Suplemento Literário. Hoje passamos para a época dos superlativos como o Mais!, ou a atual Ilustríssima. À esquerda podia-se perdoar a falta de lastro cultural, que em tese seria substituído pela aposta em novas formas, vanguardas ou não, populares se benfazejas. Afinal, cultura implica conservar, cuidar, manter. Por isso a direita tinha a obrigação moral de pagar o imposto por sua própria vocação e conservar os clássicos, louvar as origens e cantar as descendências. Foi assim que a própria relação entre política e cultura tornou-se um tema mais político para a esquerda e mais cultural para a direita.

Fato é que aprendi a respeitar este tipo de pensamento liberal que era realmente uma forma de pensamento, um estilo, que podia ser mais ou menos conservador, mais inglês que francês, mais protestante que católico, mais liberal do que progressista, mais aderido aos fatos do que às interpretações, mais realista do que construtivista. Ser de direita não tornava o sujeito imediatamente desrespeitável, mas um adversário a ser batido. Podia-se refazer a genealogia imaginária deste tipo de liberalismo no pessimismo auto-irônico de Machado de Assis (o nosso Chesterton), na poesia densa de João Cabral, na sobriedade metodológica de Villa Lobos, ou nas tragédias de Nelson Rodrigues (o nosso Swift). Todos eles expressões mais ou menos reativas ao positivismo francês e seu moralismo de ocasião.

Nos anos 1980 a ecologia apareceu como um tema emergente, meio político, meio cultural. Logo foi metabolizado pelos liberais na seguinte máxima: “nada menos ecológico do que uma criança com a barriga vazia”. Para este tipo de pensamento progresso e economia vêm primeiro, justiça e distribuição são uma espécie de consequência natural: “Primeiro vamos fazer o bolo crescer, depois distribuímos suas fatias” – era a lei de Delfim. Para esta narrativa nossos heróis são os capitães de indústria de Mauá a Hermírio de Morais passando por Chatô. Foi também nesta época que o tema do “social” caiu no colo da esquerda, para desespero de meu avô. Como observou outro dia Paulo Arantes, em entrevista a Mario Sergio Conti, no… GloboNews (isso sim teria levado meu velho ao colapso) a identificação entre a esquerda e a defesa de temas sociais é relativamente recente. E esta ideia de um Estado benemérito, sem mexer no “core” da economia, é, no fundo, senão estratégica, um pouco estranha.

Tais “maravilhosas” sínteses facultavam que na hora de escolher entre o sórdido caráter egoísta e hobbesiano ou a alegre idealização de nós mesmos, promovida pela Liga da Justiça formada pelos descendentes de Rousseau e Marx, seria preciso optar sempre pela primeira alternativa.

Gostaria que meu velho avô Colin voltasse para este mundo, apenas para ver ao que se reduziu o pensamento de direita e quiçá dar-me razão, pelo menos uma vez, senão em vida, depois da morte. Talvez ele tenha prenunciado os novos tempos quando em um de seus últimos gestos renunciou à revista Veja dizendo que aquilo tinha virado propaganda de remédio aplicada à política. Quando leio Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi, Rodrigo Constantino e os chamados neoconservadores eu me pergunto: o que aconteceu com a tênue, mas boa, tradição da direita ilustrada brasileira? Que fim levou o pessoal que realmente acreditava nas ideias de Milton Friedman, que queria discutir Ayn Rand ou que, no geral, tinha teses para interpretar o Brasil?

Gostaria de dizer para meu velho avô: olha aí, aquilo deu nisso. Mas não é verdade. Há uma espécie de erro de continuidade neste filme onde, de repente, aparece um pessoal dançando uma espécie de “Lepo Lepo” sanguinário contra o PT. Uma espécie de macarthismo retórico contra tudo o que cheire, pareça ou suporte a projeção vermelha. É uma turma que surge do nada, fantasiada de Capitão Nascimento, dizendo coisas que nem o Maluf do “estupra, mas não mata” seria capaz de dizer. Há uma fratura de gerações na direita, que de repente deu a luz a espécimes mutantes capazes de argumentar que o “2014” escrito em vermelho no logotipo da Copa do Mundo só pode ser uma propaganda subliminar da esquerda. Se o poder perdeu a vergonha, a reflexão de direita sobre o poder transformou a crítica em pichação. Esquecendo sua nobre origem liberal, não se pode reconhecer nos neoconservadores nem mesmo os bibelôs da história: seus heróis, ideias ou compromissos. Basta entrar no Bonde do “Ai se eu te pego” para perseguir, criar e vender inimigos, qual romanos vendendo bárbaros aprisionados como escravos.

Ninguém viu, ninguém sabe como chegaram esses sujeitos a posições de reputada representação em grandes diários, revistas, canais de televisão ou blogs correlatos. Passagem pelo governo, partido ou qualquer outro órgão politicamente formativo: nenhuma. Experiência com movimentos sociais, terceiro setor ou com grandes corporações: desprezível. Reputação acadêmica da moçada: zero. Aliás, para esta turma, a academia deveria ser extinta, privatizada, vendida como ferro velho, ou comprimida e coada antes da floculação tendo em vista a extração vendável de pigmento vermelhiforme.

Da antiga indignação liberal, ainda que com a típica arrogância dos vencedores, que não obstante entendiam-se como guardiões da virtude, não sobrou mais que a raiva dos impotentes. Leia-se: a cólera esbravejante dos que acreditam que possuem mais poder do que realmente têm. Antes a velha direita cheirava a dinheiro e gostava de dizer-se acima de esquerdas ou direitas, pois era tão somente contrária à vulgaridade. Ao que a velha esquerda respondia com “o meu partido é um coração partido”. Hoje, denunciam, reagem e latem como caçadores baratos de celebridade. E o sentimento basal é de vergonha alheia. Com uma direita destas quem precisa de esquerda?

Esta direita está mais para os ovos poché de minha avó do que para o Rush Limbaugh de meu avô. São quadrados, ásperos e chatos como uma torrada queimada. Os ovos são moles e espalham tudo com qualquer furinho à toa. Mas o pior é que ainda não entenderam que não é para sentar em cima do moedor de pimenta.

Christian Ingo Lenz Dunker
Do Boitempo
No Aldeia Gaulesa

Confira aqui a tréplica de Christian Dunker à resposta de Rodrigo Constantino a este artigo.
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A máquina de dar joelhadas na espinha do Brasil

As linhas gerais do Programa de Governo de Dilma incluem goleadas históricas, mas se omitem diante de uma questão chave, que pode por a perder um jogo decisivo.

As linhas gerais do Programa de Governo da candidatura Dilma Roussef, entregues à Justiça Eleitoral, no último sábado, ocupam 10 mil palavras. Compõem, mais que  tudo, um painel  informativo  dos avanços e conquistas registrados nas diferentes áreas do país durante os 12 anos em que a sociedade escolheu ser dirigida por  três  governos sucessivos de centro esquerda.

O período e o feito, inéditos na história, estão ali descritos em pinceladas  recheadas de números expressivos.

O conjunto retrata uma goleada histórica, raramente ou nunca exposta na mídia conservadora na forma de um acervo completo e detalhado.

Do conjunto sobressai a percepção nítida de que a ocultação, mais que isso, a desqualificação desse arcabouço — como tentou fazer o jornal O Globo, na semana passada, em cima de um discurso de Lula — obedece a um instinto de sobrevivência.

Com todas as limitações sabidas — que não são poucas,  não há, rigorosamente, nenhum saldo, em qualquer frente, que justifique a nostalgia  em relação ao país legado em 2002 pelo PSDB, após oito anos em Brasília.

Fica difícil eles ganharem esse jogo na bola.

Por exemplo:

“Em 2002, a inflação anual chegou a 12,5%; em 2013, estava num patamar de 5,9%; a expectativa para 2014 estará dentro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (centro de 4,5% e teto de 6,5%).

A taxa de investimento da economia brasileira, que era de 16,4% em 2002, passou para 18,2% em 2013.

A taxa de desemprego, em dezembro de 2002, era de 10,5% da população economicamente ativa; em abril de 2014, caiu para 4,9%.

As exportações, que somavam US$ 60 bilhões em 2002, atingiram US$ 242 bilhões em 2013.

No período de doze meses encerrado em maio de 2014, o Brasil recebeu US$ 66,5 bilhões em Investimento Direto Externo (IDE), quatro vezes o montante de 2002 (US$ 16,6 bilhões).

A dívida líquida do setor público decresceu de 60,2%, em 2002, para o patamar de 34,6% em maio de 2014.

O programa Minha Casa, Minha Vida, em suas duas fases, já contratou 3,45 milhões de casas, 1,7 milhão das quais já foi entregue, o que corresponde a mais de 6 milhões de brasileiros vivendo em casa própria, o equivalente à população da cidade do Rio de Janeiro, a segunda maior do país.

O sistema de financiamento habitacional, por meio do SBPE-Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo, financiou 529,8 mil moradias em 2013, 18 vezes mais do que em 2002, quando foram financiadas 28,9 mil moradias.

Ou ainda, questões pouco afeitas ao eleitor urbano, como a democratização do acesso à água no sertão nordestino: até agora, já foram entregues, no Nordeste, 937 mil cisternas, das quais 607 mil somente no governo da Presidenta Dilma. Até o final de 2014, 1,080 milhão cisternas estarão instaladas por todo o Nordeste.

“Vale destacar que, embora o Brasil tenha vivido nos últimos três anos a maior seca das últimas décadas, não houve o drama dos retirantes famintos e sem rumo que nos afligia no passado...”, lembra o texto.

São algumas das goleadas nesse clássico de 12 anos.

A autoconsciência dessa inferioridade explica o empenho virulento do conservadorismo em bloquear qualquer  ensaio de regulação dos canais de comunicação, que venha a propiciar um leque mais amplo de pontos de vista  nas escolhas que vão definir o passo seguinte da sociedade brasileira e de seu desenvolvimento.

O  interdito ao debate em uma encruzilhada fornida de desafios — a exigir uma repactuação de prioridades, metas, prazos, concessões e salvaguardas — constitui o grande trunfo para impedir uma mudança histórica na correlação de forças na vida nacional.

Não há, no texto levado à Justiça eleitoral, qualquer menção a esse aspecto crucial da luta política, através do qual a mídia passou a suprir a carência de projetos e lideranças conservadoras, distribuindo joelhadas cotidianas nas costas do país e de sua autoestima.

O objetivo desse Juan Zuñiga sistêmico é quebrar a espinha dorsal da resistência ao lacto purga social intrínseco às propostas dos candidatos vivamente empenhados em devolver a economia ao livre arbítrio dos mercados.

A omissão, afirma-se, reflete a natureza inconclusa do documento.

Trata-se de um couvert. Não o cardápio definitivo da candidata, ou o do PT.

Mas um aperitivo palatável à ecumênica coligação de forças políticas — do PMDB ao PCdoB, passando pelo PP e o PR — que sustentam a candidatura Dilma.

Por isso mesmo a ressalva das ‘linhas gerais’.

Ou seja, um ponto de partida  que “...o Partido dos Trabalhadores (PT) propõe para debate, num processo de ampla consulta aos movimentos sociais e aos partidos aliados ( quando) será aprofundado por meio de grupo temáticos’, diz a advertência introdutória ao documento (leia a sua íntegra ao final desta nota).

É fundamental que seja assim e que assim seja.

Sem suprir as lacunas do seu ferramental político, as diretrizes progressistas explicitadas no texto correm o risco de ficar à deriva.

A principal delas diz respeito à consolidação de um Estado social no país. A outra, a determinação de reformar o sistema político e ampliar a democracia participativa.

Ambas entrelaçadas ao propósito de elevar o Brasil à condição de uma economia desenvolvida nos próximos anos.

Portanto, a economia não irá a lugar nenhum sem eles. E eles não sairão das boas intenções sem canais que facultem à sociedade o debate ponderado, informativo e formativo sobre seus desafios.

“Ampliar a democracia política é um objetivo que anda junto com o compromisso de aumentar cada vez mais a democracia econômica — a distribuição de renda e a eliminação da pobreza. Além das medidas que serão tomadas de aprofundamento da democracia, soma-se o Sistema Nacional de Participação Popular, que terá a função  de consolidar as formas de participação colocadas em prática nos governos Lula e Dilma e institucionalizá-las. A proposta é transformar a participação popular em uma cultura de gestão e as novas tecnologias permitem ampliar e estimular o debate da população (...) Construir um novo ciclo de transformações significa transpor o degrau que hoje separa o Brasil do mundo desenvolvido, isso apenas pouco mais de uma década depois de termos iniciado, e estarmos vencendo, a batalha contra a miséria e a desigualdade. O Brasil não será sempre um país em desenvolvimento. Seu destino é ser um país desenvolvido. Chegou a hora de alçarmos o Brasil à condição de desenvolvido e justo (...) ”, afirma o documento.
A centralidade da questão democrática é um avanço em relação às plataformas eleitorais anteriores do PT.

Não se trata mais de cobrar um espaço para os excluídos no sistema político, mas de mudar a própria  natureza desse sistema para que eles possam de fato ter voz nas decisões nacionais.

A democracia brasileira oculta, no aparente contrato de um acordo social periodicamente repactuado nas urnas, a hegemonia de uma desigualdade bruta que ainda grita sua ostensiva presença no ranking das maiores do mundo.

O Estado brasileiro é o cão de guarda dessa engrenagem, que o conservadorismo quer manter obediente à coleira dos interesses unilaterais dos endinheirados.

Os avanços registrados nos últimos anos mexeram na divisão do fluxo da riqueza no país, sem no entanto  alterar o estoque que alicerça esses privilégios, bem como as estruturas que enraízam um sistema de poder ferozmente elitista defendido com unhas e dentes  pela emissão conservadora.

 Subverter a natureza desse aparato implica não apenas mudar o financiamento eleitoral ou oxigenar a gestão do Estado com uma bem-vinda institucionalização da participação consultiva dos movimentos sociais na gestão das políticas públicas.

É preciso dar a esse deslocamento a  audiência das grandes massas, de modo a  traduzi-lo em uma correlação de forças que possa sustentar um ciclo de desenvolvimento emancipador.

Isso não acontecerá sem uma  democratização dos meios de comunicação. E será boicotado até o limite da ruptura democrática pelo oligopólio hoje existente.
As linhas gerais do Programa de Governo de Dilma incluem goleadas históricas encorajadoras.

Mas  se omitem diante de uma questão chave, que pode por a perder o jogo decisivo do desenvolvimento brasileiro.

O debate sobre o documento deve superar essa hesitação.

A máquina de dar joelhadas  já quebrou a espinha política do país algumas vezes no passado.

E nada indica que não o fará de novo.

Leia aqui a íntegra das Linhas Gerais do Programa de Governo de Dilma Rousseff, 'Mais Mudanças, Mais Futuro'.

Saul Leblon
No Carta Maior
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Primeiros olhares sobre a Rússia


A palavra comunismo é quase um palavrão na Rússia atual. A geração mais jovem não tem ideia do que seja, apenas repete que "é muito ruim". Os mais velhos praticamente se recusam a falar do período soviético. Resmungam alguma coisa, falam do racionamento e insistem que essa coisa de comunismo não passa de uma "fantasia de filósofos". Os russos vivenciaram uma realidade bem diferente da maioria dos países. Saíram de um mundo imperial, dominado pela violência dos czares, direto para o que chamaram socialismo. Não passaram pelo processo de uma revolução burguesa. E isso é o que estão vivendo agora.

O mundo da nova geração russa não se diferencia em nada da maioria do planeta. Concentração de riqueza em alguma regiões (o desenvolvimento do subdesenvolvimento) e pobreza extrema em outras. Nas grandes cidades abundam os xópins, com todas as marcas globalizadas, inclusive o Mc Donalds, Subway, Armani, e tudo mais. Noventa e nove por centro dos jovens estão com a cara enfiada num "smart" fone e o mundo do consumo é intenso. Em Moscou, a famosa rua Arbat, antes um espaço mais cult, dos pintores e artistas de rua, agora é um paraíso para a classe média emergente e para os turistas que querem comprar coisas de marca.

As marcas do período soviético tem sido sistematicamente apagadas e o que não é destruído fica relegado ao ostracismo. Os guias turísticos sabem na ponta da língua tudo sobre a Rússia dos czares, mas raramente citam algum fato do mundo "comunista". Quando não há jeito, procuram minimizar os efeitos.

Uma das coisas que parece imperdoável no que diz respeito aos dirigentes da Rússia comunista foi a destruição das igrejas. Ao percorrer mais de mil quilômetros em ônibus, visitando as pequenas cidades, tudo o que ouvia era do sacrilégio que havia sido cometido com relação aos espaços sagrados. Durante o regime soviético, as igrejas - que são milhares - foram fechadas e muitas delas, de rara beleza, acabaram convertidas em estábulos, depósitos de comida, dormitórios para tropas ou destruídas. Para a maioria da população esse crime não tem perdão. Não é por acaso que se vê um renascimento quase fundamentalista da religião cristã ortodoxa, tradicional da Rússia. Ao longo desses anos pós- abertura, todas as antigas igrejas foram recuperadas, restauradas e estão abertas outra vez. As grandes catedrais, reformadas, agora são museus, visitados por milhares de turistas e reverenciadas com fervor pela população local.

Um exemplo da força do transcendente é o que aconteceu em Moscou. Uma das maiores catedrais da igreja ortodoxa foi destruída e no seu local construída uma grande piscina pública, bem no centro da capital, próximo ao Kremlin. Pois assim que caiu o regime comunista, a população, organizada pelos padres, arrecadou dinheiro e reconstruiu a catedral exatamente como era antes, em apenas 4 anos. A igreja consumiu 8 milhões de dólares, foi erguida em quatro anos e contou com a participação de 500 pintores russos que decoraram seus interiores. Hoje, a imensa catedral é ponto turístico. "Os comunistas prenderam nosso patriarca (equivalente ao papa do catolicismo), nossos padres e destruíram nossas igrejas. Também mataram a família real e prenderam os ricos. Hoje está tudo no lugar de novo", conta Lara, uma guia turística explicando a nova Rússia para os visitantes.

No campo, na região noroeste e norte, o cenário é bem diferente das grandes cidades. As famílias seguem vivendo como nos tempos imperiais. Para esses agricultores, o tempo soviético foi bem melhor. Eles foram organizados em cooperativas e conseguiam produzir o suficiente para viver, além de vender o excedente. Com o fim do regime, as cooperativas acabaram, os novos ricos compraram as terras a preço de nada e foram concentrando outra vez as propriedades. Sobraram os mais velhos, que se recusaram a vender o pouco que haviam conseguido com a repartição de terras. Mas, sobreviver individualmente não é coisa fácil numa região em que a terra é pantanosa e pouco fértil. Assim, o que se vê ao longo de quilômetros são as tradicionais casinhas de madeira dos camponeses se despedaçando, sem que possam reformá-las para garantir calefação e água no inverno. Essa estação chega a apresentar termômetros de 30 graus abaixo de zero, e sem as condições financeiras para uma tubulação resistente, a água se congela e não passa pelos canos. Justamente quando faz mais frio é que os camponeses precisam buscar água no poço. "Hoje, estamos como no tempo dos czares", reclama uma "matrioska" (mãezinha - senhora mais velha). Enquanto isso, para os da nova geração é bom que as terras estejam na mão dos mais ricos pois, segundo dizem, esses têm "mais amor" por ela, enquanto os camponeses são uns "beberrões".

Na cidade de Vladimir, que fica bem próxima a grande Moscou, pode-se perceber o velho ranço aristocrata que voltou a tomar conta das almas russas, principalmente da nova classe média. Ao circular pelas ruas com uma guia, ela apontava uma parte da cidade onde estavam confinados os "insignificantes e inúteis", referindo-se aos trabalhadores artesanais e camponeses. Uma expressão chocante, muito mais apropriada na boca de uma Catarina II do que a de uma moça trabalhadora, que sequer tem o emprego garantido. Na Rússia, os contratos de trabalho são anuais e os patrões podem demitir a qualquer hora, sem apresentar justificativa. Tampouco existe hoje a instituição de férias. "Podemos tirar férias, mas não ganhamos por isso", explica Júlia, ainda louvando os valores do novo mundo capitalista.

Figuras como as dos antigos czares são reverenciadas outra vez, tais como Pedro, o Grande, que europeizou a Rússia e Ivan, o terrível, que chegou a matar seu próprio filho por conta de uma discussão sobre a nora. As mortes e a violência de seus governos são reputadas como necessárias e bem menos prejudiciais que os expurgos comunistas. "Ivan matou muita gente, mas Stálin matou mais", insiste Lara. Nas lojas de recordações abundam os ícones dos antigos czares com destaque para Catarina, a grande, e o último dos imperadores, Nicolau II (assassinado pelos bolcheviques), que foi , agora, canonizado pela igreja ortodoxa, sendo considerado um mártir da pátria. As lembranças soviéticas são mínimas e praticamente só são vendidas em comércios mais populares. As estátuas de Lênin, que estão em todas as cidades, não foram derrubadas por questões técnicas. "Custa muito caro tirar as estátuas, então deixamos aí", explica Júlia. Já o corpo embalsamado do líder bolchevique, que ainda é bastante visitado pelos turistas, pode ser enterrado. "Já houve debate na Duma (congresso) sobre isso, mas consideraram que os mais velhos sofreriam com isso. Estamos esperando os mais velhos morrerem para resolver sobre esse tema", diz a guia.

Elaine Tavares
No Palavras Insurgentes
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Quanto custou o HC do Dr Abdelmassih

Será que foram só os R$ 500 mil?​


Como se sabe, o ilustre Dr Roger Abdelmassih foi condenado a 278 anos de prisão por estuprar 37 pacientes, em sua clínica de fertilização, no coração do Jardim Europa, reduto da aristocracia paulistana.

Como se sabe, na calada do ano, nas férias do Natal, em solitária decisão, o ex-Supremo Presidente Supremo do Supremo, Gilmar 'Dantas' concedeu-lhe um habeas corpus.

O Dr Abdelmassih faria o que qualquer condenado a 278 anos faria, depois de uma carta de alforria dessas: se pirulitou.

Escafedeu-se.

Se estivessem a sério, a Polícia Federal, o Ministério Público e a Polícia de São Paulo seguiriam a estratégia universal: ir atrás do dinheiro, follow the money.

O Dr Abdelmassih pode ter sido muito rico, milionário, à custa de suas bem-sucedidas experiências genéticas.

Mas, uma hora, o dinheiro ou acaba ou cada vez fica mais difícil levantar e transferir dinheiro para sustentá-lo — no Brasil ou no exterior.

Foi o que fez o Conversa Afiada — com a ajuda de diligente amigo navegante: foi atrás do dinheiro.

E descobriu quanto o ilustre Dr Abdelmassih pagou ao advogado Marcio Thomaz Bastos para conseguir de Gilmar 'Dantas' providencial HC.

Como demonstra o documento anexo, ou pedaço de documento anexo, recuperado de uma das casas por onde Abdelmassih passou, no interior de São Paulo, através do Banco do Brasil, ele pagou, de entrada, R$ 50.000; e, em duas parcelas, R$ 500 mil e R$ 450 mil ao Dr. Márcio: “efetuado pagamento”.

Não foi possível descobrir quem pagou.

Nem de onde veio o dinheiro.

Mas, na mesma cesta de lixo, no mesmo escritório, outros pedaços de documentos revelam, conforme os anexos:

— que Larissa Maria, atual mulher de Abdelmassih, pode ser um dos meios de se chegar à movimentação financeira dele, hoje;

— da mesma forma, a Agropecuária Colamar, de propriedade de Abdelmassih pode ter sido utilizada em operações financeiras.

Não precisa ser um gênio para saber que o Banco 001 é o Banco do Brasil e o 356 é o Real, hoje Santander.

O site Terra publicou que o Governo de São Paulo ofereceu uma recompensa de R$ 10 mil a quem disser onde está Abdelmassih.

É pouco e muito.

Pouco, porque aos que prepararam o plano de fuga do Marcola e deram com a língua nos dentes o Governo de São Paulo pagou R$ 5 mil.

Quer dizer que um Abdelmassih só vale dois Marcola?

Mas, pensando bem, R$ 10 mil é muito.

Porque basta seguir o dinheiro.

Será que o HC custou mais que R$ 500 mil?

Paulo Henrique Amorim
No CAf

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Desnudando la noticia del 03-07-2014

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Campanha bilionária e reforma política

Encerrado o prazo para o registro das candidaturas, os partidos apresentaram suas estimativas de gastos na campanha presidencial de 2014. As cifras são assustadoras e comprovam que a democracia brasileira exige, com urgência, uma profunda reforma política. Do contrário, o poder do dinheiro vai desfigurá-la por completo. De acordo com os dados disponibilizados, os custos da disputa sucessória deste ano chegam a R$ 916,7 milhões. As campanhas mais caras são as de Dilma Rousseff, que tenta a reeleição, e a de Aécio Neves, o cambaleante presidenciável do PSDB — a primeira estimada em R$ 298 milhões e a segunda, em R$ 290 milhões. Confira abaixo a previsão de gastos dos candidatos:

1- Dilma Rousseff (PT): R$ 298 milhões

2- Aécio Neves (PSDB): R$ 290 milhões

3- Eduardo Campos (PSB): R$ 150 milhões

4- Eduardo Jorge (PV): R$ 90 milhões

5- Pastor Everaldo (PSC): R$ 50 milhões

6- Eymael (PSDC): R$ 25 milhões

7- Levy Fidélix (PRTB): R$ 12 milhões

8- Luciana Genro (PSOL): R$ 900 mil

9- Zé Maria (PSTU): R$ 400 mil

10- Rui Costa Pimenta (PCO): R$ 300 mil

11- Mauro Iasi (PCB): R$ 100 mil

Nas eleições presidenciais de 2010, o PT fixou inicialmente o gasto de R$ 157 milhões no primeiro turno, valor que foi alterado para R$ 191 milhões, com a ida de Dilma Rousseff ao segundo turno. A campanha do então candidato José Serra (PSDB) registrou custo de R$ 180 milhões — que também foi revisto na sequência. Agora, os dois partidos elevaram suas estimativas e as campanhas dos 11 presidenciáveis beiram R$ 1 bilhão de gastos apenas no primeiro turno. O grosso desta grana será gasto nos programas eleitorais que irão ao ar, em rede nacional de rádio e tevê, a partir de agosto. Viagens pelo Brasil, comícios em centenas de cidades e outras atividades abocanharão o restante destes recursos.

Afora a disputa presidencial, o Brasil também terá em outubro eleições de governadores, senadores, deputados federais e estaduais. O volume de grana será ainda maior. Em 2010 foram declarados gastos de R$ 3,23 bilhões no conjunto destas campanhas. A tendência agora é de mais do dobro de custos — cerca de R$ 6 bilhões. Apenas no pleito do governador de São Paulo, Paulo Skaf (PMDB) registrou gasto de R$ 95 milhões; Alexandre Padilha (PT) definiu seu teto em R$ 92 milhões; e Geraldo Alckmin (PSDB) declarou gastos de até R$ 90 milhões para a sua reeleição. Todas estas cifras contabilizam somente os recursos oficiais da campanha. Não incluem o famoso Caixa-2, que não é registrado nos tribunais regionais e é considerado crime.

Com o atual sistema eleitoral e num país de dimensões continentais não dá para escapar destes gastos milionários — ao não ser que se pretenda apenas marcar posição na disputa. O problema é que esta fortuna desfigura a democracia, que se aparta ainda mais da sociedade. Com o tempo, a disputa eleitoral se torna cada vez mais elitista, num típica democracia dos ricaços. Além disso, a maior parte destes recursos é financiada por poderosas empresas, que têm seus interesses políticos e econômicos nas eleições. Como ninguém doa dinheiro de graça, esta grana será cobrada dos futuros governantes e legisladores. O resultado é a criação de um terreno propício para a corrupção.

Vários setores da sociedade já perceberam que é preciso alterar urgentemente este quadro para salvar a democracia brasileira. OAB, CNBB, UNE, centrais sindicais e vários outros movimentos sociais apresentaram um projeto de reforma política que tem como centro a financiamento público das eleições. No mesmo rumo, está em curso no país a campanha pela convocação do plebiscito para a Constituinte da reforma política, que visa elevar a consciência política da sociedade e aumentar a pressão sobre o Congresso Nacional. O financiamento público exclusivo não corrigirá todas as distorções do sistema eleitoral numa democracia liberal, mas servirá ao menos para minimizar o poder do dinheiro nas eleições.

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O modus operandi é Tucano

Ronaldo Laranjeira pode perder contrato de 114 milhões na cracolândia

Alckmin e Laranjeira
A quem interessa a politica de proibição das drogas? Certamente aos traficantes, policiais, governos corruptos e sem dúvida às clínicas de reabilitação — mercado este do qual o psiquiatra Ronaldo Laranjeira entende muito bem.

O MPE (Ministério Público Estadual) entrou com uma ação civil pública contra a Secretaria Estadual da Saúde pedindo à Justiça a anulação de contrato de R$ 114 milhões firmado entre a pasta e a organização SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) para a administração de um hospital para dependentes químicos na Cracolândia, região central de São Paulo.

Conforme revelado pelo jornal O Estado de S.Paulo em abril, a entidade é presidida pelo psiquiatra Ronaldo Laranjeira, que também é coordenador do Programa Recomeço, projeto estadual de combate à dependência em crack, o que, para a Promotoria, configura conflito de interesse.

Segundo o promotor Arthur Pinto Filho, responsável pela ação, a SPDM teve acesso a informações privilegiadas sobre o projeto do hospital e, por isso, pode ter sido beneficiada no chamamento público feito pelo governo do Estado que convocou entidades interessadas a apresentar propostas.

— No início de novembro do ano passado, a SPDM já sabia sobre o prédio e sobre o projeto do hospital, mas o edital só foi lançado depois e o contrato, firmado em dezembro.

Na ação, Pinto Filho afirma que o acesso a informações privilegiadas fez com que a SPDM fosse a única com condições a apresentar proposta. “Somente isto explicaria a SPDM ser a única a ter apresentado propostas no chamamento público realizado, uma vez que o mesmo propunha prazos completamente desarrazoados para manifestação de interesse e apresentação de proposta. De fato, tem-se que as organizações sociais tinham apenas cinco dias para manifestar interesse no projeto e sete dias para apresentar suas propostas”, diz a ação.

Para o promotor, o contrato fere os princípios da igualdade, por não dar direitos idênticos às diversas organizações para participar da concorrência, e da impessoalidade, ao misturar interesses públicos e privados.

— O coordenador do programa responsável pelo chamamento público é o mesmo da organização social que se apresentou. Assim, o interesse do Estado se confunde com o do próprio senhor Ronaldo Laranjeira, que, quando na função de coordenação de um programa público estadual, é considerado um agente público e, portanto, deve servir somente ao interesse público. Todavia, o senhor Laranjeira, na qualidade de presidente do Conselho Administrativo da SPDM, também representa o interesse de uma associação privada, a qual, no caso, foi escolhida para atuar no programa do Estado.

O promotor também questiona o fato de a SPDM já ter recebido R$ 7 milhões para a realização de reforma no prédio do hospital.

— A SPDM não pode ser responsável por uma reforma, não tem essa expertise, conforme prevê seu próprio estatuto.

O pedido liminar de anulação do contrato deverá ser julgado ainda nesta semana.

No Blog do Mário
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O elogio da solidão

Nighthawks, de Hopper
O homem sábio basta a si mesmo. É um pensamento ao qual constantemente se agarram diversas escolas de filosofia ocidentais. A solidão é um caminho para sabedoria. E no entanto vivemos num mundo em que a introspeção parece uma praga da qual todos fugimos. A solidão como que embaraça e envergonha. Tente se lembrar de uma campanha publicitária baseada em alguém só. Ou de um filme americano em que o personagem na solidão não seja um atormentado.

As tradições orientais, do taoísmo ao hinduísmo, também sublinham a solidão como uma etapa indispensável para o autoconhecimento. Na China e no Japão antigos, os homens poderosos se recolhiam à solidão monástica no final da vida em busca da elevação espiritual. Cícero resumiu isso assim: “Quem depende apenas de si mesmo e em si mesmo coloca tudo tem todas as condições de ser feliz”.

Arthur Schopenhauer, o grande pensador alemão do século 19, se deteve longamente neste tema, o da solidão. No final de sua vida, morava em Frankfurt na companhia de Atma, seu cão poodle. Tinha poucos amigos e jamais se casou. Mais que pregar a reclusão, ele a praticou. E os ecos de sua voz se ouvem em múltiplos lugares. Movimentos como o existencialismo e artistas como Tolstói, Proust e Wagner sofreram intensa influência da voz pessimista, ou simplesmente realista, de Schopenhauer. Todo homem digno, segundo ele, é retraído. “O que faz dos homens seres sociáveis é a sua incapacidade de suportar a solidão e, nesta, a si mesmos.”

As pessoas retraídas, numa cultura que supervaloriza a tagarelice vazia e a “desenvoltura” social, podem sentir-se diferentes das outras, e para pior. Se lerem Schopenhauer, terão uma outra visão de si próprios, fracamente mais positiva. Numa obra já da maturidade, Aforismos para a Sabedoria de Vida (Martins Fontes), ele produziu reflexões memoráveis sobre a convivência entre as pessoas.

Não há doçura nessas reflexões, não há indulgência e nem modos polidos, mas uma agudeza mordaz que ao mesmo tempo incomoda e encanta. “A chamada boa sociedade nos obriga a demonstrar uma paciência sem limites com qualquer insensatez, loucura, absurdo. Os méritos pessoais devem mendigar perdão ou se ocultar, pois a superioridade intelectual fere por sua mera existência. Eis por que a sociedade, chamada de boa, tem não só a desvantagem de pôr-nos em contato com homens que não podemos amar nem louvar, mas também a de não permitir que sejamos nós mesmos, de acordo com a nossa natureza. Antes, nos obriga a nos encolhermos ou a nos desfigurarmos. Discursos ou idéias espirituosas, na sociedade ordinária, são francamente odiados.”

Schopenhauer exagera? É possível. Ele tinha um estilo veemente de expor suas idéias. Mas reflita com calma sobre a passagem acima. Tire o que possa parecer exagerado. Faz sentido ou não? Você pode concordar com Schopenhauer ou discordar. Amá-lo ou odiá-lo. O que não dá é para não reconhecer a força colossal duradoura de seus pensamentos.

Paulo Nogueira
No DCM
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FHC acobertou a corrupção no Brasil

http://ajusticeiradeesquerda.blogspot.com.br/
No comício de lançamento da candidatura da senadora Gleisi Hoffmann ao governo do Paraná, na semana passada, o ex-presidente Lula fez uma afirmação que irritou os tucanos que militam nas redes sociais. Com todas as letras, ele disse que FHC “desmantelou instrumentos de combate à corrupção” durante o seu triste reinado (1995/2002). Segundo relato do repórter César Felício, do jornal Valor, o líder petista ainda comparou a sua gestão à dos tucanos no que se refere à defesa da ética. “Eu queria que vocês estudassem todos os governos anteriores ao meu, e se fizeram 50% do que fiz em termos de criar instrumentos de combate à corrupção”, afirmou. Os tucaninhos detestam estas comparações.

Ainda segundo o repórter, o ex-presidente citou alguns tristes episódios do seu antecessor. Lembrou que uma das primeiras iniciativas de FHC foi baixar o decreto 1376/95, que extinguiu uma comissão especial, criada por Itamar Franco, para investigar as denúncias de corrupção no governo. “Depois, eles nomearam o engavetador-geral da República e engavetaram os casos Sivam, Pasta Rosa e a compra de votos da reeleição, num total de 459 inquéritos criminais, sendo quatro contra o próprio FHC”, prosseguiu o petista. “O termo engavetador-geral usado por Lula fez alusão ao ex-procurador-geral Geraldo Brindeiro, assim denominado por seus adversários à época”, lembra o jornalista.

O duro discurso de Lula gerou reações imediatas e raivosas dos militantes digitais da direita nativa — muitos deles, profissionalizados e anônimos. Eles negaram que FHC tenha acobertado a corrupção, juraram de pé junto que o grão-tucano é um exemplo de ética e atacaram os “petralhas” e os “mensaleiros”. Mas se já é difícil esquecer o que ­se escreve, como rogou FHC em certa ocasião, mais difícil ainda é se apagar da memória o que se fez. Só para atazanar a vida dos tucaninhos da rede, reproduzo abaixo uma lista singela dos crimes acobertados no reinado de FHC:

* * *

A lista dos crimes tucanos

Denúncias abafadas: Já no início do seu primeiro mandato, em 19 de janeiro de 1995, FHC fincou o marco que mostraria a sua conivência com a corrupção. Ele extinguiu, por decreto, a Comissão Especial de Investigação, criada por Itamar Franco e formada por representantes da sociedade civil, que visava combater o desvio de recursos públicos. Em 2001, fustigado pela ameaça de uma CPI da Corrupção, ele criou a Controladoria-Geral da União, mas este órgão se notabilizou exatamente por abafar denúncias.

Caso Sivam: Também no início do seu primeiro mandato, surgiram denúncias de tráfico de influência e corrupção no contrato de execução do Sistema de Vigilância e Proteção da Amazônia (Sivam/Sipam). O escândalo derrubou o brigadeiro Mauro Gandra e serviu para FHC “punir” o embaixador Júlio César dos Santos com uma promoção. Ele foi nomeado embaixador junto à FAO, em Roma, “um exílio dourado”. A empresa ESCA, encarregada de incorporar a tecnologia da estadunidense Raytheon, foi extinta por fraude comprovada contra a Previdência. Não houve CPI sobre o assunto. FHC bloqueou.

Pasta Rosa: Em fevereiro de 1996, a Procuradoria-Geral da República resolveu arquivar definitivamente os processos da pasta rosa. Era uma alusão à pasta com documentos citando doações ilegais de banqueiros para campanhas eleitorais de políticos da base de sustentação do governo. Naquele tempo, o procurador-geral, Geraldo Brindeiro, ficou conhecido pela alcunha de “engavetador-geral da República”.

Compra de votos: A reeleição de FHC custou caro ao país. Para mudar a Constituição, houve um pesado esquema para a compra de voto, conforme inúmeras denúncias feitas à época. Gravações revelaram que os deputados Ronivon Santiago e João Maia, do PFL do Acre, ganharam R$ 200 mil para votar a favor do projeto. Eles foram expulsos do partido e renunciaram aos mandatos. Outros três deputados acusados de vender o voto, Chicão Brígido, Osmir Lima e Zila Bezerra, foram absolvidos pelo plenário da Câmara. Como sempre, FHC resolveu o problema abafando-o e impedido a constituição de uma CPI.

Vale do Rio Doce: Apesar da mobilização da sociedade em defesa da CVRD, a empresa foi vendida num leilão por apenas R$ 3,3 bilhões, enquanto especialistas estimavam seu preço em ao menos R$ 30 bilhões. Foi um crime de lesa-pátria, pois a empresa era lucrativa e estratégica para os interesses nacionais. Ela detinha, além de enormes jazidas, uma gigantesca infra-estrutura acumulada ao longo de mais de 50 anos, com navios, portos e ferrovias. Um ano depois da privatização, seus novos donos anunciaram um lucro de R$ 1 bilhão. O preço pago pela empresa equivale hoje ao lucro trimestral da CVRD.

Privatização da Telebrás: O jogo de cartas marcadas da privatização do sistema de telecomunicações envolveu diretamente o nome de FHC, citado em inúmeras gravações divulgadas pela imprensa. Vários “grampos” comprovaram o envolvimento de lobistas com autoridades tucanas. As fitas mostraram que informações privilegiadas foram repassadas aos “queridinhos” de FHC. O mais grave foi o preço que as empresas privadas pagaram pelo sistema Telebrás, cerca de R$ 22 bilhões. O detalhe é que nos dois anos e meio anteriores à “venda”, o governo investiu na infra-estrutura do setor mais de R$ 21 bilhões. Pior ainda, o BNDES ainda financiou metade dos R$ 8 bilhões dados como entrada neste meganegócio. Uma verdadeira rapinagem contra o Brasil e que o governo FHC impediu que fosse investigada.

Ex-caixa de FHC: A privatização do sistema Telebrás foi marcada pela suspeição. Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-caixa das campanhas de FHC e do senador José Serra e ex-diretor do Banco do Brasil, foi acusado de cobrar R$ 90 milhões para ajudar na montagem do consórcio Telemar. Grampos do BNDES também flagraram conversas de Luiz Carlos Mendonça de Barros, então ministro das Comunicações, e André Lara Resende, então presidente do banco, articulando o apoio da Previ para beneficiar o consórcio do Opportunity, que tinha como um dos donos o economista Pérsio Arida, amigo de Mendonça de Barros e de Lara Resende. Até FHC entrou na história, autorizando o uso de seu nome para pressionar o fundo de pensão. Além de “vender” o patrimônio público, o BNDES destinou cerca de 10 bilhões de reais para socorrer empresas que assumiram o controle das estatais privatizadas. Em uma das diversas operações, ele injetou 686,8 milhões de reais na Telemar, assumindo 25% do controle acionário da empresa.

Juiz Lalau: A escandalosa construção do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo levou para o ralo R$ 169 milhões. O caso surgiu em 1998, mas os nomes dos envolvidos só apareceram em 2000. A CPI do Judiciário contribuiu para levar à cadeia o juiz Nicolau dos Santos Neto, ex-presidente do TRT, e para cassar o mandato do senador Luiz Estevão, dois dos principais envolvidos no caso. Num dos maiores escândalos da era FHC, vários nomes ligados ao governo surgiram no emaranhado das denúncias. O pior é que FHC, ao ser questionado por que liberara as verbas para uma obra que o Tribunal de Contas já alertara que tinha irregularidades, respondeu de forma irresponsável: “assinei sem ver”.

Farra do Proer: O Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional (Proer) demonstrou, já em sua gênese, no final de 1995, como seriam as relações do governo FHC com o sistema financeiro. Para ele, o custo do programa ao Tesouro Nacional foi de 1% do PIB. Para os ex-presidentes do BC, Gustavo Loyola e Gustavo Franco, atingiu 3% do PIB. Mas para economistas da Cepal, os gastos chegaram a 12,3% do PIB, ou R$ 111,3 bilhões, incluindo a recapitalização do Banco do Brasil, da CEF e o socorro aos bancos estaduais. Vale lembrar que um dos socorridos foi o Banco Nacional, da família Magalhães Pinto, a qual tinha como agregado um dos filhos de FHC.

Desvalorização do real: De forma eleitoreira, FHC segurou a paridade entre o real e o dólar apenas para assegurar a sua reeleição em 1998, mesmo às custas da queima de bilhões de dólares das reservas do país. Comprovou-se o vazamento de informações do Banco Central. O PT divulgou uma lista com o nome de 24 bancos que lucraram com a mudança e de outros quatro que registraram movimentação especulativa suspeita às vésperas do anúncio das medidas. Há indícios da existência de um esquema dentro do BC para a venda de informações privilegiadas sobre câmbio e juros a determinados bancos ligados à turma de FHC. No bojo da desvalorização cambial, surgiu o escandaloso caso dos bancos Marka e FonteCindam, “graciosamente” socorridos pelo Banco Central com 1,6 bilhão de reais. Houve favorecimento descarado, com empréstimos em dólar a preços mais baixos do que os praticados pelo mercado.

Sudam e Sudene: De 1994 a 1999, houve uma orgia de fraudes na Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), ultrapassando R$ 2 bilhões. Ao invés de desbaratar a corrupção e pôr os culpados na cadeia, FHC extinguiu o órgão. Já na Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), a farra também foi grande, com a apuração de desvios de R$ 1,4 bilhão. A prática consistia na emissão de notas fiscais frias para a comprovação de que os recursos do Fundo de Investimentos do Nordeste foram aplicados. Como fez com a Sudam, FHC extinguiu a Sudene, em vez de colocar os culpados na cadeia.


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Chame o ladrão

Num Estado em que maca é
contabilizada como vaga em
prisão, é preciso encarar
indicadores com um pé atrás

Declarações sinceras de políticos ou governantes, muitas vezes, costumam dar pistas: o sujeito está deixando o cargo e resolveu falar a verdade; ou então trata-se de confissão de incompetência.

Ainda é cedo para saber onde encaixar afirmações como a do secretário da Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella, diante da escalada de roubos no Estado. As palavras chegam a ser desconcertantes. "Estou estudando. Dentro de uma ou duas semanas a gente vai ter alguma conclusão a respeito [...]. Não adianta dizer que é isso ou aquilo, porque isso é achismo'. Precisamos nos debruçar, estudar, fazer o diagnóstico."

Enquanto o secretário se debruça, São Paulo vive uma epidemia de criminalidade. Segundo manchete desta Folha, o número de roubos cresceu em 11 das 12 macrorregiões do Estado entre janeiro e maio, na comparação com o ano passado. A capital liderou a alta: 42%. O mais alarmante é uma das explicações oficiais. Diz que o índice disparou porque agora é possível registrar ocorrências pela internet. A acreditar na tese, é provável que nos últimos anos o volume de roubos tenha sido artificialmente rebaixado por falta de notificações das vítimas. O que, vamos e venhamos, só piora o cenário.

Num Estado em que macas em enfermaria são contabilizadas como vagas em presídio e apenas um em cada dez casos de roubo motivam um inquérito, o bom senso recomenda encarar indicadores com um pé atrás. Tanto para o bem, quanto para o mal.

Aqui vai um exemplo. O governo tucano não desperdiça chances de comemorar a pretensa queda de homicídios. Ótimo se fosse assim mesmo. Digo mais: todos torcemos para isso. Então surge a dúvida: até que ponto tais números não são obra da "contabilidade criativa" que o governador critica na esfera federal, mas que ele mesmo pratica nos dados que distribui à imprensa? Tomando emprestado o repertório da meteorologia, por mais que o governo paulista festeje dados sobre a queda do número de mortes, a "sensação térmica" de insegurança no Estado é muito pior do que imagina o pessoal do Bandeirantes. Basta ouvir as ruas e prestar atenção ao próprio noticiário.

Até hoje, as autoridades paulistas não deram uma explicação convincente ao papel exercido por facções como o PCC no comando da criminalidade, mesmo seus líderes estando formalmente na cadeia. Tampouco sabe-se de medidas eficazes para coibir delitos; assiste-se apenas a operações espalhafatosas para ganhar espaço em telejornais. Quando não é assim, parte-se para práticas do Velho Oeste: oferecer recompensas para quem denunciar malfeitores. A valorização da função policial, sobretudo a preventiva, esgota-se em discursos e promessas nunca cumpridas. Tudo isso sem falar no péssimo exemplo da complacência com a corrupção e com os larápios incrustados no aparelho do Estado.

Sem atacar esses males, continuaremos apenas a ouvir lamúrias e perder a carteira, quando não conhecidos e familiares.

Serviço pela metade

A Prefeitura de São Paulo informou que fiscais da máfia do ISS foram finalmente demitidos, oito meses depois de descobertos. Antes tarde do que nunca.

Mas o que a prefeitura, o Ministério Público e a Justiça têm a falar sobre as incorporadoras, empreiteiras e construtoras que ganharam uma bolada subornando servidores? O que aconteceu com elas? E os políticos que fizeram vistas grossas diante da roubalheira? Qualquer um que teve acesso ao escândalo viu, no papel, listas detalhadas com o nome dos grupos corruptores, valores que deveriam pagos e os que foram efetivamente depositados para os gatunos à custa do contribuinte paulistano. Muita gente pertence à sobrenomecracia. Está aí a explicação para o silêncio?

Ricardo Melo
No fAlha
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Jornalista da Band pensa que Nederland é o nome de Robben

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Dilma e Lula mudaram o Brasil


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