3 de jul de 2014

Gilmar Mendes, um Ministro acima da lei e do decoro

No dia em que caiu a casa de Demóstenes Torres, com a denúncia sobre suas ligações com Carlinhos Cachoeira, o Ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal) estava em seu apartamento, consolando o amigo.

São relações antigas, pessoais.

Gilmar ignorou todas essas relações e não se declarou impedido para conceder uma liminar reintegrando Demóstenes ao Ministério Público de Goiás.

A alegação foi a da eternização do julgamento — a demora do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) em julgar Demóstenes.

Com essa decisão, Gilmar não apenas atropelou princípios de impessoalidade no julgamento, como os próprios ensinamentos do IDP (Instituto Brasiliense de Direito Público), de sua propriedade.

No IDP se aprende o princípio da proporcionalidade. Por ele, o interesse da sociedade deve sempre prevalecer sobre o interesse das partes. Deve-se impedir abusos contra os réus, mas levando-se em conta a gravidade das acusações e, a partir dela, o chamado interesse público.

O caso Demóstenes é cristalino. Ele é alvo de denúncias gravíssimas, muitas dela devidamente comprovadas. Quando existem provas de tal naipe, há que se cuidar do prazo de julgamento, mas não sendo julgado de imediato não pode significar a retomada dos direitos. Trata-se de uma aberração jurídica, devolvendo as atribuições de procurador a alguém com tal volume de suspeitas.

Vingando a tese de Gilmar, qualquer advogado conseguiria a libertação dos réus meramente recorrendo a práticas procrastinatórias.

É hora de se saber se esse país têm contrapontos institucionais ou não, ou se, mesmo após a saída de Joaquim Barbosa, o STF continuará permitindo abusos dessa ordem.

Qual vai ser a atitude do CNMP ante essa arbitrariedade? E da Ordem dos Advogados do Brasil? E do próprio CNJ?

Luís Nassif
No GGN
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Foto de Dirceu vale mil palavras!

Dirceu sabe quem combater: não é como Barbosa, um homem oco

A raiva santa!

Uma foto de Dirceu na portaria do prédio onde começou a trabalhar conta tudo.

Ele tem as cicatrizes do sofrimento.

Em tem também o olhar do desafio, da resposta, do combate.

Um mês de alimentação normal, um pouco de sol, e esse aspecto frágil vai embora.

Sobrevive o político militante, que tem uma causa: a dos pobres e oprimidos.

Joaquim Barbosa o atingiu, o enfraqueceu, mas vai embora em opróbrio.

Como herói dos que fizeram dele um instrumento político.

Queriam quebrar o PT e encarcerar o Lula.

Perderam nos dois rounds.

Barbosa tornou-se dispensável.

Barbosa é um homem oco, vazio.

Os adversários de Dirceu tem nome, sobrenome e endereço.

Não são como os de Barbosa, que ele não teve coragem de denunciar, na saída melancólica.

Dirceu tem dentro dele uma raiva santa: o acerto de contas.

Como um condenado injustamente.

José Dirceu ganhou.

Ele passa esse fim de semana em casa, com a filha de três anos, o ponto mais agudo de sua tristeza.

Paulo Henrique Amorim

Em tempo: Do amigo navegante Edmilson Botequio:

Barbosa prestou um enorme serviço à classe dominante e sua mídia espúria, ao passo que prestou um enorme desserviço ao Brasil e ao seu povo. Subverteu os fatos e a ordem das coisas. Perdeu a oportunidade ímpar de julgar um caixa dois de campanha, como ele é, denunciar o nefasto financiamento privado de campanha, e criar um ambiente político que tornaria inevitável a reforma política. Barbosa perdeu o bonde da história, criminalizou a política e o partido que mais combate o status quo. Um dia essa história será contada como ela é e o que significou para o país. Barbosa Silvério dos Reis.
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Marilena Chaui e a Classe Média Paulistana

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Turista encantado com o Brasil

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Os gráficos da pesquisa DatafAlha

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Deu zebra: Dilma derrota urubuzada na festa da Copa


Tudo foi planejado e feito para derrubar os índices de Dilma Rousseff nas pesquisas durante o anunciado fracasso do governo na organização da Copa no Brasil. Deu zebra: saiu tudo errado para os pregadores apocalípticos da urubuzada midiático-empresarial-partidária, como mostra a nova pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira, três semanas após o início da competição.

Não só a presidente candidata à reeleição subiu quatro pontos em relação à pesquisa anterior, voltando aos 38 % que tinha em abril, antes da onda de protestos e greves selvagens estimulados pela velha imprensa, como seus principais adversários, o tucano Aécio Neves (20%) e Eduardo Campos (9%), do PSB, continuaram empacados, crescendo apenas um ponto na comparação com os índices de junho.

Quando Dilma disse e repetiu que esta seria a "Copa das Copas", caíram matando na presidente e chegaram ao delírio quando ela foi vaiada e xingada na abertura do Mundial no Itaquerão. Pois agora que a Copa no Brasil está sendo celebrada unanimemente no mundo inteiro como a maior de todos os tempos, dentro e fora dos gramados, o que vão dizer?

"Copa melhora o humor do país, e Dilma cresce", diz a manchete do jornal que promoveu a pesquisa, a mesma Folha que, até a véspera do jogo inaugural contra a Croácia, foi o mais ácido crítico das ações do governo desde a escolha do nosso país para sediar o evento, em 2007. "A probabilidade de que a presidente tenha crescido, porém, é maior do que a de que nada tenha acontecido", conforma-se o instituto de pesquisas, ao apontar a variação dos números no limite das margens de erro.

Seus concorrentes do Instituto Millenium foram na mesma linha para justificar o cavalo de pau que a realidade dos fatos deu nas expectativas funéreas turbinadas pelo noticiário da turma do "quanto pior, melhor para nós". E quem foi que criou o clima de mau humor generalizado antes da bola rolar? Foi a imprensa estrangeira, como querem dizer agora?

Como o "Não vai ter Copa" não deu certo, vão inventar o que agora: o "Não vai ter Eleições" ou o "Não vai ter Olimpíadas"?

Sim, também acho que não se deve confundir futebol com política, mas de quem partiu a iniciativa de misturar as coisas e apontar o fracasso da Copa no Brasil como o fracasso do governo petista? Até agora, não vi nenhuma ação do governo, além dos desabafos da presidente contra a urubuzada, para faturar o sucesso, mas também não vi ninguém vir a público para pedir desculpas pelos prejuízos causados durante os últimos meses pelo bombardeio midiático à imagem do país.

O resultado está aí no Datafolha: 60% dos entrevistados disseram que estão orgulhosos com a organização da Copa no Brasil, 65% ficaram com vergonha dos protestos e 76% condenaram as ofensas feitas à presidente da República. Quer dizer, Dilma fez barba, bigode e cabelo nos adversários, como se costuma dizer na linguagem dos estádios.

A vergonha do Ronaldo Fenômeno, agora grande empresário e comentarista gaguejante da Globo, em poucos dias transformou-se no orgulho da grande maioria dos brasileiros, que também não confundem futebol com política, nem gol com voto, nem Dilma com Felipão.

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Papa faz piada com gol do Brasil em encontro com bispos —Veja também: Imagens da infância do Papa


Sempre ligado em futebol, o papa Francisco foi flagrado falando de Copa do Mundo em encontro com bispos da América Latina. Em vídeo divulgado, o argentino faz até piadas com o gol contra de Marcelo, que abriu o placar para a Croácia contra o Brasil.

"E o primeiro gol do Brasil foi contra... Difícil de engolir, não?", brincou o papa entre risadas. A piada foi dirigida para um bispo brasileiro de Salvador.

Logo depois, com autoridades colombianas, ele comentou a possibilidade da Colômbia vencer a Grécia em jogo que ocorreu no sábado. Os latinos saíram de campo com a vitória.

Assista ao vídeo com aúdio em inglês:


Imagens da infância do Papa:

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Datafolha: mídia sofre goleada na Copa


A pesquisa Datafolha, que aponta o crescimento de Dilma Rousseff de 34% para 38% das intenções de voto, confirma que a mídia tucana apanhou de goleada na Copa do Mundo. Com seu complexo de vira-lata e sua visão neoliberal de negação do Estado, ela fez baita terrorismo contra o megaevento com o nítido propósito de desgastar a imagem da atual presidenta. Não deu certo! Até a Fifa, outra tranqueira elitista e corrupta, já afirma que esta é a “Copa das Copas”. O sucesso parece que teve reflexos imediatos na pesquisa, que deve ser encarada como uma simples fotografia do momento, evitando-se qualquer salto alto — um desastre nos jogos e, mais ainda, numa eleição tão disputada!

A própria Folha confessa, amargurada, na sua manchete desta quinta-feira (3): “Copa melhora o humor do país, e Dilma cresce”. O jornal tucano foi um dos principais veículos do viralatismo nativo. Criou até um “protestômetro” para incentivar manifestações contra o evento. Na retranca “A Copa como ela é”, o diário abusou das notícias negativas — num “azedume” criticado até por sua ombudswoman. Agora, porém, a Folha admite a surra — dentro e fora dos campos. “A Copa do Mundo mudou o humor geral dos brasileiros e parece estar influenciando a avaliação do governo, as expectativas econômicas e até a eleição presidencial. No plano político, a presidente Dilma Rousseff (PT) é a maior beneficiada”.

Segundo o Datafolha, a proporção de eleitores favoráveis à Copa no Brasil subiu de 51% para 63% em um mês. Já o orgulho com a realização dos jogos saltou de 45% para 60%. “De carona nisso, as intenções de voto em Dilma avançaram de 34% para 38% — a maior variação entre todos os concorrentes — e a aprovação do governo variou positivamente, de 33% para 35%. No mesmo período, o senador Aécio Neves (PSDB) oscilou de 19% para 20%. E Eduardo Campos (PSB) foi de 7% para 9%, deixando assim a posição de empate técnico com Pastor Everaldo (PSC), estacionado em 4%”. Já na pesquisa espontânea, que é mais segura, Dilma subiu de 19% para 25% das intenções de voto.

Todo o pessimismo destilado pela mídia tucana nos últimos meses sofreu um momentâneo revés nestes dias dos jogos da Copa. “Na economia, a reversão do humor aparece em relação à expectativa de inflação (recuo de 64% para 58%), desemprego (de 48% para 43%) e poder de compra do salário (avanço de 27% para 32% dos que esperam melhoria). Agora, 30% acham que a economia do país irá melhorar. Eram 26% em julho. E 48% estão otimistas com a própria situação econômica. Eram 42% há um mês. O Datafolha mostrou também que, para 76%, os torcedores que xingaram a presidente no jogo de estreia da Copa, em São Paulo, agiram mal”, relata a incrédula e desesperada Folha.

A pesquisa, porém, não deve gerar ilusões. A Copa do Mundo termina no próximo dia 13 e o Brasil volta à normalidade. A campanha eleitoral começa de fato em agosto, com o início do horário eleitoral “gratuito” de rádio e televisão. O jogo será pesado, o mais sujo da história recente do país. A mídia tucana foi goleada na Copa, mas não desistiu da guerra. A própria pesquisa aponta para a maior probabilidade do segundo turno. Até os que xingaram e atacaram o evento, apostando num desastre do governo, agora se travestem de torcedores — é risível a foto de Aécio Neves com a camisa da seleção no aeroporto do Rio de Janeiro. Eles perderam esta partida, mas não desistiram do “futebol”.

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The Future of Newspapers

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Caio Prado Júnior - formação social brasileira e relações de classe


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As origens elitistas e racistas do futebol, por Mário Rodrigues (o irmão de Nelson)

Carlos Alberto, o “pó-de-arroz”
Uma das razões pelas quais não concordo com o epíteto de “reacionário” que a direitosa adotou como verdade absoluta para se referir a Nelson Rodrigues (1912-1980), sem nunca tê-lo lido, é seu pioneirismo na denúncia ao racismo velado brasileiro. Amigo de Abdias do Nascimento (1914-2011), autor de Anjo Negro, uma tragédia sobre o racismo, Nelson questionava o mito da “democracia racial” e se indignava com o preconceito contra os negros em nosso País. “Nos Estados Unidos o negro é caçado a pauladas e incendiado com gasolina. Mas no Brasil é pior: ele é humilhado até as últimas consequências”, dizia. Vamos combinar que não tem absolutamente nada a ver com gente que defende que “não existe racismo no Brasil”.

O irmão de Nelson, Mário Rodrigues Filho (1908-1966), considerado um dos maiores jornalistas esportivos de todos os tempos (o Maracanã leva seu nome), também denunciou o racismo em um grande clássico, O Negro no Futebol Brasileiro. No livro, reeditado pela Mauad há dois anos, Mário Filho conta como, de esporte de ricos descendente de ingleses, o futebol se transformou na diversão de meninos pretos e pobres que se tornariam os grandes craques da bola até hoje. Malvistos pela torcida grã-fina, muitos atletas negros tentavam inclusive disfarçar a origem, alisando os cabelos e apelando à maquiagem para clarear a pele. Em 1921, o presidente Epitácio Pessoa “recomendou” que a seleção não convocasse negros, e até 1952 havia times no Brasil que não aceitavam “pessoas de cor”.

Mesmo na Inglaterra, onde surgiu, o futebol era jogado nas escolas frequentadas pela aristocracia. Suas regras foram feitas nestes colégios e só daí passaram a ser aplicadas no esporte que já se praticava nas ruas, pela classe operária. Rapidamente a burguesia agiria para transformá-lo em “ópio do povo”. Segundo Roberto Ramos em Futebol: Ideologia do Poder, “os burgueses descobriram o futebol como meio de despolitização dos trabalhadores na década de 1860. As massas do proletariado industrial começaram a interessar-se por este esporte. Os empresários ingleses aproveitaram a oportunidade. Fomentaram o seu desenvolvimento. O objetivo era claro. Eles precisavam manter os operários à margem da atividade política dentro de suas organizações de classe”.

Ou seja, a elite branca que ocupa os estádios brasileiros nesta Copa do Mundo era de fato a “dona da bola” no começo, tanto aqui como na terra natal do futebol. Charles Miller (nome da praça onde fica o Pacaembu), o filho de ingleses que teria trazido a primeira bola de futebol para o Brasil em 1894, apresentou o esporte à elite paulista. Os clubes de ingleses do Rio de Janeiro disputam com Miller a primazia: em 1874, 20 anos antes de Miller ter chegado com a tal bola, já haveria jogos de futebol na orla carioca. No princípio, existia uma separação oficial entre os times dos ricos e os dos pobres, mas do nome do jogo às posições dos atletas em campo, todos os termos eram em inglês. Mário Filho conta tudo.

Este DNA racista e elitista do futebol, a meu ver, pode explicar o porquê de tantos jogadores negros ainda serem alvo de preconceito. No esporte “bretão”, “branco”, os negros eram bem-vindos para jogar bola, mas não para frequentar as dependências e festas dos clubes que os contratavam, como ocorria com qualquer empregado. Não me parece muito diferente do que acontece atualmente: enquanto o jogador negro, regiamente pago, faz gols, é bem tratado e festejado. Basta cometer algum erro, porém, que a cor de sua pele vem à tona, como nos episódios recentes em que atletas foram insultados, chamados de “macacos”, e bananas foram atiradas no campo.

Vale a pena ler o livro de Mário Filho. Outra editora de São Paulo, a Ex Machina, lançou neste ano da Copa As Coisas Incríveis do Futebol: as Melhores Crônicas de Mário Filho. Imperdível para quem gosta de futebol ou não. Leia abaixo os trechos de O Negro no Futebol Brasileiro que compilei sobre os primórdios do esporte.

* * *

(O mulato Arthur Friedenreich)
O mulato Arthur Friedenreich
O Negro no Futebol Brasileiro

Por Mário Rodrigues Filho

O futebol importado, made in England, tinha de ser traduzido. E enquanto não se traduzisse e se abrasileirasse, quem gostasse dele precisava familiarizar-se com os nomes ingleses. De jogadores, de tudo. Em campo um jogador que se prezasse tinha de falar em inglês. Ou melhor: gritar em inglês.

O repertório do capitão do time, justamente quem gritava mais em campo, precisava ser vasto. Quando um jogador do seu time estava com a bola e outro corria para tomá-la, tinha de avisar: ‘man on you’. Quando o outro time atacava e ele precisava chamar seus jogadores lá na frente, a senha era: ‘come back forwards’. E havia ‘take you man’ e havia mais. Onze posições de jogadores num time: goalkeeper, fullback-right, fullback-left, halfbeck-right, center-half, halfback-left, winger-right, inside-right, center-forward, inside-left e winger-left.

O juiz era o referee, transformado em referi ou refe, o bandeirinha era o linesman, e por aí afora.

* * *

Para alguém entrar no Fluminense tinha de ser, sem sombra de dúvida, de boa família. Se não, ficava de fora, feito os moleques do Retiro da Guanabara, célebre reduto de malandros e desordeiros.

Os moleques debruçavam-se na cerca de arame para ver os treinos, se a bola ia fora podiam correr atrás dela, dar um chute. Mas nada de demora. Se demorassem não levariam as malas dos jogadores, acabado o treino, até o bonde que passava na Rua das Laranjeiras.

(…) Não se tratava de só querer branco legítimo. Ninguém no Fluminense pensava em termos de cor, de raça. Se Joaquim Prado, winger-left do Paulistano, quer dizer, extrema-esquerda, preto, do ramo preto da família Prado, se transferisse para o Rio, seria recebido de braços abertos no Fluminense. Joaquim Prado era preto, mas era de família ilustre, rico, vivia nas melhores rodas.

(…) Por isso, quem ia a São Paulo jogar um match de futebol, voltava encantado com Joaquim Prado, sem reparar até, que ele era preto.

* * *

O que distinguia o Bangu do Botafogo, do Fluminense, era o operário. O Bangu, clube de fábrica, botava operários no time em pé de igualdade com os mestres ingleses. O Botafogo e o Fluminense, não, nem brincando, só gente fina. Foi a primeira distinção que se fez, entre clube grande e pequeno, um, o clube dos grandes, o outro, o clube dos pequenos.

* * *

(…) Os pretinhos, filhos da cozinheira, sabiam fazer bolas de meia, redondinhas, que saltavam.

Boas bolas, aquelas de meia, feitas pelos moleques. Podia se fazer com elas o que se quisesse. Até quebrar vridraças. Melhor do que as bolas de pelica dos meninos de boas famílias, muito leves, como balões de papel de seda, subindo com qualquer chutinho. As bolas de meia ficavam mais no chão. Quase presas ao pé, aperfeiçoando, nos moleques, o que se chamaria mais tarde, o domínio da bola. Da ‘esfera de couro’ de certos cronistas que não queriam escrever, em letras de forma, essa palavra tão corriqueira: bola.

Isso fazia quem era do remo, olhar mais por cima quem era do futebol. O futebol se vulgarizava, se alastrava como uma praga. Qualquer moleque, qualquer preto podia jogar futebol. No meio das ruas, nos terrenos baldios, onde se atirava lixo, nos capinzais. Basgtava arranjar uma bola de meia, de borracha, de couro. E fabricar um gol, com duas maletas de colégio, dois paletós bem dobrados, dois paralelepípedos, dois pedaços de pau.

Em todo canto um time, um clube. Time de garotos, de moleques, clubes de operários, de gente fina. Mas muito clube, clube demais.

No remo não havia esse perigo.

* * *

Valia a pena ser Fluminense, Botafogo, Flamengo, clube de brancos. Se aparecia um mulato, num deles, mesmo disfarçado, o branco pobre, o mulato, o preto da geral, eram os primeiros a reparar.

O caso de Carlos Alberto, do Fluminense. Tinha vindo do América, com os Mendonças, Marcos e Luís. Enquanto esteve no América, jogando no segundo time, quase ninguém reparou que ele era mulato. Também Carlos Alberto, no América, não quis passar por branco. No Fluminense foi para o primeiro time, ficou logo em exposição. Tinha de entrar em campo, correr para o lugar mais cheio de moças da arquibancada, parar um instante, levantar o braço, abrir a boca num hip, hip, hurrah.

Era o momento que Carlos Alberto mais temia. Preparava-se para ele, por isso mesmo, cuidadosamente, enchendo a cara de pó-de-arroz, ficando quase cinzento. não podia enganar ninguém, chamava até mais atenção. O cabelo de escadinha ficava mais escadinha, emoldurando o rosto, cinzento de tanto pó-de-arroz.

Quando o Fluminense ia jogar com o América, a torcida de Campos Sales caía em cima de Carlos Alberto:

– Pó de arroz! Pó de arroz!

A torcida do Fluminense procurava esquecer de que Carlos Alberto era mulato. Um bom rapaz, muito fino.

* * *

Friedenreich, de olhos verdes, um leve tom de azeitona no rosto moreno, podia passar se não fosse o cabelo. O cabelo farto mas duro, rebelde. Friedenreich levava, pelo menos, meia hora, amansando o cabelo.

Primeiro untava o cabelo de brilhantina. Depois, com o pente, puxava o cabelo para trás. O cabelo não cedendo ao pente, não se deitando na cabeça, querendo se levantar. Friedenreich tinha de puxar o pente com força, para trás, com a mão livre segurar o cabelo. Senão ele não ficava colado na cabeça, como uma carapuça.

O pente, a mão não bastavam. Era preciso amarrar a cabeça com uma toalha, fazer da toalha um turbante e enterrá-lo na cabeça. E ficar esperando que o cabelo assentasse.

Levava tempo. Embora principiasse quando estava jogando o segundo time, só terminava quase na hora da saída do jogo do primeiro time. O juiz impaciente, ameaçando começar a partida sem Friedenreich, e Friedenreich lá dentro, no vestiário, a toalha amarrada na cabeça, esperando, ainda desconfiado de que não chegara a hora de tirar o turbante.

* * *

O Fluminense, cansado de perder campeonatos, tornou-se um pioneiro de profissionalismo. Com o profissionalismo, ele lutaria em igualdade de condições com os outros clubes. (…) E poderia formar um grande time, capaz de levantar campeonatos, indo buscar jogadores nos clubes pequenos, nos subúrbios, nos Estados, fosse onde fosse, brancos, mulatos e pretos.

Porque com o profissionalismo não fazia mal o Fluminense botar um mulato, um preto no time, contanto que fosse um grande jogador. Melhor branco. Mulato ou preto, só grande jogador.

(…) O preto jogava, ajudava o Fluminense a vencer, acabado o jogo, mudava de roupa, ia embora. Não havia perigo do preto frequentar a sede, aparecer numa soirée, num baile de gala do Fluminense. O jogador profissional, branco, mulato ou preto, era um empregado do clube. O clube pagava, toma lá, dá cá. O jogador ficava no seu lugar, mais no seu lugar do que nunca.

Naturalmente, entre o preto e o branco, o Fluminense tinha de preferir o branco. Se fosse possível um time só de brancos, melhor. E talvez fosse possível. Não faltava bom jogador branco. Se não fosse possível um time só de branco, botava-se um preto, dois, nada de abusar.

* * *

As vaias, o torcedor do Fluminense aguentava. Para isso tinha seu clássico ‘uh! uh!’. Não aguentava era o ‘pó-de-arroz’. Um grito de ‘pó-de-arroz’ partia de lá, um grito de ‘pó-de-carvão’ partia de cá. O torcedor do Fluminense dizendo que preferia ser ‘pó-de-arroz’ a ser ‘pó-de-carvão’. Podia preferir, mas se ofendia com aquele ‘pó-de-arroz’.

O torcedor do Flamengo, não, nem se importava com o ‘pó-de-carvão’. Orgulhava-se dos pretos que vestiam a camisa rubro-negra. Até mesmo dos que tinham sido escorraçados dos outros clubes, como Leônidas.

Ninguém queria Leônidas, o Flamengo queria.

No Socialista Morena
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Dirceu sai para primeiro dia de trabalho externo


O ex- ministro da Casa Civil, condenado a 7 anos e 11 meses na Ação Penal 470, o chamado 'mensalão', deixou o Centro de Progressão Penitenciária por volta das 7h30 e foi para o escritório do advogado e ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral, José Gerardo Grossi, onde desempenhará a função de auxiliar de biblioteca. Como condição, a Justiça exigiu que Dirceu permaneça em uma sala isolada sem telefone ou internet.
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O que mostra o vídeo de desculpas a Dilma


Viralizou na internet um vídeo com desculpas a Dilma pelas vaias na estreia do Brasil na Copa.

A locução é do ator José de Abreu.

É um vídeo partidário, e isso significa que os petistas estão amando e os antipetistas detestando.

No YouTube, no momento em que escrevo este texto, havia um empate técnico entre as pessoas que aprovavam e reprovavam o vídeo.

Paixões políticas à parte, o vídeo nota e imortaliza o papel abjeto desempenhado pela mídia antes da Copa. E isso em si é um grande mérito e, mais que isso, um registro histórico.

O objetivo da mídia era, antecipadamente, atribuir a Dilma a culpa pelo que seria o fracasso monumental de organização da Copa.

Jabor aparece dizendo, com euforia fúnebre, que o mundo veria a incompetência do Brasil em fazer um torneio como a Copa.

É um paradoxo.

Jabor é dos colunistas brasileiros um dos que mais se esforçam por espalhar entre os brasileiros o célebre complexo de vira-latas consagrado por Nelson Rodrigues.

A ironia é que ele é obcecado por NR, a quem cita frequentemente e de quem chegou a filmar histórias como Toda Nudez Será Castigada.

Isso quer dizer o seguinte: Jabor lê sem entender Nelson Rodrigues. NR lutava para que os brasileiros se livrassem da viralatice. Jabor luta pelo oposto: para que cada um de nós comece a latir pelas ruas.

Como jornalista, faz tempo que me chama a atenção um fenômeno: a impunidade entre colunistas e comentaristas como Jabor e tantos outros, como o “professor” Villa ou o “economista” Constantino.

Eles podem cometer todo tipo de erro que nada lhes é cobrado.

No vídeo em questão: Jabor fala o que se comprovou ser um disparate.

Você imagina que alguém um editor, um chefe na Globo, vá cobrá-lo?

Nas vésperas das eleições de 2012, lembro um vídeo em que o “professor” Villa dizia, com a convicção dos fanáticos: “Lula é o maior perdedor.”

Num jornalismo menos imperfeito, Villa teria sido obrigado a arcar com o preço de uma previsão tão errada.

Mas você o vê em toda mídia, como se seu prontuário fosse feito de acertos sobre acertos, e não de erros como os das eleições de 2012. (Suas primeiras impressões dos protestos de junho passado são antológicas também.)

O vídeo de desculpas a Dilma tem, repito, valor pedagógico. Os pósteros o verão e saberão, com clareza, o tipo de mídia de que era vítima a sociedade brasileira nestes dias.

Fora isso, que já não é pouco, o vídeo mostra o que todo mundo já sabe: as vaias do Itaquerão acabaram fazendo muito mais bem que mal para Dilma.

Paulo Nogueira
No DCM
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Saída sem adeus

O silêncio da maioria dos ministros sobre
a renúncia e a sessão final de Joaquim
Barbosa se autoexplicam

A maneira como Joaquim Barbosa encerrou sua participação no Supremo Tribunal Federal, saindo no decorrer da sessão e sem que houvesse a formalidade de despedida dos colegas e de advogados, não se deveu só — se é que se deveu em alguma medida — a peculiaridades psicológicas ou outras do ex-ministro. Foi uma decorrência do ambiente de convívio difícil no Supremo, pontuado por frequentes exposições de hostilidade, no qual Joaquim Barbosa figurou como centro gerador.

Alguma coisa desse ambiente foi exibida ao país em certos momentos televisados do julgamento do mensalão, nas eventualidades em que o relator Joaquim Barbosa se viu confrontado por discordâncias. Situações, quase todas, com o ministro Ricardo Lewandowski como alvo.

Mas, na vida não exposta do Supremo, as dificuldades e impossibilidades de convívio — mesmo o convívio meramente profissional — não estiveram restritas aos dois ministros, nem começaram nas sessões sobre o mensalão. À altura deste julgamento, já vinham de longe.

A respeito bastará lembrar a renúncia, ainda antes de entrada a ação 470, da ministra Ellen Gracie, também ex-presidente do tribunal. Entre os motivos de sua decisão, se não foi o único, esteve a inaceitação das circunstâncias internas do Supremo que, mesmo sem o seu envolvimento direto, lhe pareciam intoleráveis. Discreta, Ellen Gracie nunca fez, de público, sequer insinuação sobre qualquer aspecto do tribunal, nem da sua decisão de retirar-se. Uma renúncia inesperada e inexplicada já é, no entanto, uma sugestão.

O silêncio da maioria dos ministros sobre a renúncia e a sessão final de Joaquim Barbosa se autoexplicam. Ainda assim, houve quem quisesse falar. Marco Aurélio Mello: "Vossa Excelência [Ricardo Lewandowski] vai assumir a presidência do Poder Judiciário. (...) Precisamos resgatar os valores quanto a essa mesma chefia. (...) Precisamos voltar ao padrão anterior, (...) que deve ser também o das instituições brasileiras. E esse padrão foi arranhado na última gestão".

Gilmar Mendes, sobre Joaquim Barbosa e o julgamento do mensalão: "Foi um julgamento muito difícil, muito tumultuado. (...) Tudo contribuiu para certa agitação, assim como o temperamento do ministro Joaquim Barbosa".

Joaquim Barbosa, já do lado de fora, enquanto a sessão continuava no tribunal, repetiu as insinuações, vagas, mas identificáveis, de motivações ímprobas dos ministros que dele discordam. Mas, como disse para quem quiser crer, sai de "alma leve".

Ao que se pode supor, assim ficará, também, o ambiente no Supremo.

Conclusão

Para o tamanho do escândalo sobre o que seria o envolvimento do Ministério da Saúde, quando ministro o hoje candidato Alexandre Padilha, com o laboratório Labogen, do doleiro Alberto Youssef, seria de justiça que o noticiário registrasse: a sindicância interna sobre o tal contrato de parceria não encontrou indício algum de prática irregular. O Laboratório da Marinha, parte poupada pela imprensa nas versões de irregularidades, está liberado para levar adiante o seu projeto de produção sustado pelo escândalo. 

Janio de Freitas
No fAlha
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Dilma Rousseff colheu o que não semeou

A presidenta colheu precisamente os resultados do que não semeou: não promoveu a emergência de um sistema democrático de informação.

Aproveitando a vaia pornofônica que singularizou a participação dos reacionários e distraídos na abertura da Copa das Copas, a oposição saiu-se com o comentário de que a presidenta Dilma Roussef colheu o que semeou. Pensou que estava abafando. Não estava. Para além da falta de compostura e civilidade, a oposição errava outra vez no diagnóstico. A presidenta colheu precisamente os resultados do que não semeou: não promoveu a emergência de um sistema de informação democratizado.

A falta de pluralismo nos meios de comunicação não é ambição de esquerdas partidárias. Trata-se da prestação de um serviço privado, pago por consumidores, atualmente fraudados em suas aspirações de consumo. Ler um jornal, uma revista ou assistir ao noticiário da televisão faz parte da pauta de itens que a vida moderna põe, ou devia por, à disposição de quem os deseje usufruir. E os consumidores têm o direito de protestar. Assim como os passageiros urbanos reclamam da qualidade dos serviços pelos quais pagam, os leitores e espectadores insatisfeitos se julgam ludibriados pelos fornecedores da mercadoria que compram.

Os jornais, revistas e emissoras de televisão registraram com olhos complacentes os quebra-quebras aleatórios propulsionados pela carestia e falta de qualidade dos transportes em circulação. Não seria bom para a democracia, tal como não o eram os destemperos de violência, que os desgostosos com o pífio padrão do jornalismo, minorias como as de junho do ano passado ou maiorias como a queda de audiência e circulação atestam, empastelassem jornais ou ocupassem estações de televisão, exigindo participação e honestidade de gestão.

Durante o período que antecedeu a Copa das Copas e não somente em relação a ela, os meios de informação sonegaram centenas, milhares de notícias altamente relevantes para a vida dos leitores e espectadores. Mais do que isso, disseminaram incansavelmente uma visão de mundo incompatível com a realidade dos fatos. Era falso que os aeroportos, estádios, avenidas e metrôs não iriam ficar prontos. Era falso que os gramados não drenariam as chuvas, as comunicações não funcionariam, os holofotes não acenderiam. Era falso que os turistas seriam assaltados, que não haveria segurança, que conflitos gigantescos ofuscariam os jogos nos campos de futebol pela pancadaria generalizada nas arenas do lado de fora. Tudo falso. Moeda falsa. Produto estragado vendido a preço de luxo.

As trombetas da derrocada econômica, da inflação sem controle, do afinal bem vindo desemprego, são igualmente serviço fraudulento. Os leitores estão sendo diariamente lesados em sua boa fé, duplamente: não são informados do que ocorre efetivamente na sua cidade, no seu estado e no país, e são levados a acreditar que há um pesadelo à espreita assim que puserem os pés fora de casa. Quando não o vêem não é porque não exista, mas porque ainda não chegou a alguns lares: inflação, desemprego, falta de saúde e de educação; pior, falta de perspectiva.

A lição é terrível. Dela sabiam os tiranos da antiguidade, os tiranos da contemporaneidade os imitaram: um sistema articulado de falsidades pode produzir os delírios fantasistas ou as angústias aterradoras de uma droga, se absorvido por tempo suficiente. Uma imprensa oligopolizada é nada menos do que uma droga. Eficientíssima, capaz de produzir o pessimismo sem fundamento das análises econômicas, tanto quanto o desvario irracional das vaias pornofônicas. Ao se manter indiferente à péssima qualidade do serviço pago, inclusive com as bondades das concessões e outras benfeitorias, a presidenta Dilma Roussef colheu o que não semeou.

Wanderley Guilherme dos Santos
No Carta Maior
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Uma aula de História contemporânea

O professor de História André Luiz Ribeiro, de 27 anos, é o protagonista de um episódio que resume de maneira dramática as condições em que vive a população das grandes cidades brasileiras. No caso, o cenário é o bairro de Parelheiros, na zona Sul de São Paulo, e o enredo envolve assalto, tentativa de linchamento, inoperância do sistema de segurança pública e uma curiosa inversão de valores por parte de agentes do Estado.

Segundo relato publicado na quarta-feira (2/6) pelo Estado de S.Paulo e a Folha de S.Paulo, Ribeiro saiu de casa por volta de 19 horas da quarta passada (25/6), para correr pelas ruas do bairro, como fazia diariamente. Em determinado trecho do seu trajeto, ele foi interceptado por um grupo de moradores, liderado pelo dono de um bar e seu filho, que o acusaram de ter participado de um assalto ao estabelecimento. O professor foi acorrentado e atacado a socos e pontapés até ser resgatado por uma equipe de bombeiros, exatamente quando alguém ia buscar um facão para executá-lo.

O desfecho seria mais um desses casos de linchamento que se tornaram comuns na periferia de São Paulo, que, segundo estudo da socióloga Ariadne Lima Natal, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, resultam de uma falência geral da educação social no Brasil.

Na contramão das opiniões generalizadas pela imprensa, ela entende que não é a ausência de agentes do Estado em bairros da periferia que facilita ou provoca essas tentativas de protagonismo policial por parte de cidadãos comuns. A causa, na perspectiva da pesquisadora, é a falta de consciência social de uma ampla maioria da população, incluídos aqueles que têm acesso à educação formal.

As notícias espetaculosas sobre linchamentos estimulam a repetição desses atos, conforme observou a socióloga ao estudar cerca de dois mil casos ocorridos entre 1980 e 2009. O mais recente deles e de maior repercussão teve como vítima a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, trucidada por uma multidão no dia 3 de maio, no bairro de Morrinhos, município de Guarujá, litoral paulista. Ela foi identificada como uma suposta sequestradora de crianças, mito urbano que sobrevive em boatos e nas redes sociais digitais.

Inversão de valores

O irônico, no caso do professor André Luiz Ribeiro, é que ele foi o único personagem da história a ser punido: passou dois dias na cadeia e foi indiciado, acusado de ter assaltado o bar. O dono do estabelecimento, líder da horda que tentou assassiná-lo, foi registrado como vítima.

Segundo consta, Ribeiro somente foi resgatado pelos bombeiros e escapou da morte porque foi capaz de dar uma rápida aula de História. E sobre que assunto discorreu o professor? Segundo as reportagens, ele foi obrigado a falar sobre a Revolução Francesa.

Recomenda-se ao leitor e à leitora que reflitam sobre o significado desse conjunto de fatos aparentemente simples e casuais, lembrando que não foram poucos os analistas dos movimentos de protesto que ocorrem no país desde o ano passado, que fizeram comparações entre a Queda da Bastilha e os grupos que se movem pelas cidades, causando depredações.

Qual seria a diferença entre os ativistas que pretendem mudar as instituições quebrando vitrinas e os celerados que tentam tirar a vida de alguém com base em mitos ou acusações levianas?

A semelhança entre eles é que ambos os grupos imaginam estar fazendo História, ou pretendem mudar a História, pelo caminho da violência.

Entre os ativistas das depredações há os que acreditam sinceramente que estão mobilizando a violência revolucionária em favor da sociedade. Entre os que deixam sua vidas pacatas para correr atrás de suspeitos com paus e pedras, há certamente uma maioria que acredita estar fazendo justiça.

Cabe ao Estado evidenciar que em ambos os casos estão sendo cometidos crimes, e dar aos perpetradores a oportunidade de se explicar à Justiça.

À imprensa deveria cumprir o papel de mostrar o absurdo que representa punir a vítima com dois dias de cadeia e o indiciamento, e deixar livres os autores da tentativa de assassinato. Mas os jornalistas não questionam a autoridade policial pelo fato muito mais grave — ainda que fosse comprovado que o acusado havia participado de um assalto.

Quanto ao professor, salvou-o a História.

Luciano Martins Costa
No OI

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Professor ‘dá uma aula’ de Revolução Francesa para não ser linchado

Confundido com ladrão, ele improvisou sobre conteúdo para não ser espancado

O professor André Luiz Ribeiro teve que dar uma aula
 sobre Revolução Francesa para não ser linchado
SÃO PAULO — Confundido com um ladrão, um professor de História foi espancado por moradores da periferia de São Paulo e só conseguiu se livrar do linchamento quando, segundo ele, foi obrigado a dar uma aula sobre Revolução Francesa. Ainda assim, André Luiz Ribeiro, mulato de 27 anos, foi levado para a delegacia, onde ficou por dois dias, já que o dono do bar assaltado confirmou em depoimento que André seria o ladrão.

O professor contou que, socorrido por bombeiros, teve de falar sobre a Revolução Francesa para provar sua inocência. Os bombeiros informaram que “informações são improcedentes” e que não houve “desrespeito ou deboche”. André conta que estava correndo na última quarta-feira no bairro Balneário São José, quando um bar foi assaltado.

— Eu corro dez quilômetros todos os dias, estava de fone de ouvido, sem identificação porque moro por perto, e fui confundido com um dos três assaltantes. O dono do bar e o filho dele me acorrentaram. Umas 20 pessoas me cercaram e começaram a me bater. Acorrentaram meus braços e pernas e me colocaram de barriga para baixo na rua.

O professor foi socorrido por bombeiros que passavam no local. Um deles, segundo Ribeiro, teria dito: “Se você é professor de História, então dá uma aula sobre Revolução Francesa”.

— Falei que a França era o local onde o antigo regime manifestava maior força, e que a burguesia comandou uma revolta junto com as causas populares, e que havia fases da revolução. Falei por uns três minutos e perguntei se já estava bom.

Ribeiro também diz que foram os bombeiros que salvaram a vida dele pois enquanto ele dava a aula sobre a Revolução Francesa para provar que era professor, ouviu o proprietário do bar dizer que ia buscar um facão. Em seguida, a Polícia Militar chegou no local, o levou para o pronto-socorro da região e depois o encaminhou para o 101º Distrito Policial (Jardim das Imbuias), onde ficou preso até sexta-feira.

O proprietário do bar assaltado, Djalma dos Santos, 70 anos, negou que tenha espancado o professor. Questionado se tinha certeza de que Ribeiro era um dos assaltantes, ele desconversou.

— A população que acorrentou, que bateu, eu não fiz nada. O que eu tinha que falar já falei na delegacia. Não adianta nada ficar perguntando, não vou retirar o que disse. Eu gritei que era ladrão e a população da rua foi atrás dele. Se ele não devia nada, vai dar uma mancada dessas de estar correndo no meio dos bandidos na hora do assalto? — afirmou o proprietário do bar.

O advogado de Ribeiro, Cláudio Reimberg, afirmou que irá amanhã até o 58º DP (Jardim Mirna) registrar a ocorrência de lesão corporal e tentativa de homicídio.

— Inicialmente, nossa prioridade era a liberdade dele, até pela integridade dele. Agora, vamos registrar a ocorrência e pedir ação indenizatória tanto do proprietário do bar, quanto do estado, já que no 101º DP não foi registrada a ocorrência de agressão a ele, só do assalto ao bar — afirmou o advogado.

A Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que o delegado André Antiqueira, titular do 101º DP, “se coloca à disposição para ouvir em depoimento quem tenha novas informações para acrescentar à investigação”, já que os criminosos que participaram do crime ainda não foram presos.

“O professor foi preso em flagrante em cumprimento do artigo 302 do Código Penal, já que a vitima o reconheceu como um dos participantes do roubo ao estabelecimento comercial em duas oportunidades. A Justiça concedeu liberdade provisória ao acusado”, diz nota da SSP.

No O Globo
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