1 de jul de 2014

O que é um califado?

Entenda o anúncio de grupo rebelde

O Isis tenta trazer de volta a noção puritana do Islamismo
A palavra "califado" em árabe significa, literalmente, o processo de escolher um líder (o califa) para mulçumanos ao redor do mundo.

O termo também se refere ao sistema de governo que começou após a morte do profeta Mohamed. O último califado foi o Império Otomano, e foi abolido pelo nacionalista e secular líder turco Mustafa Kamal Ataturk em 1924.

O Isis está agora tentando trazer de volta a noção puritana do Islamismo, e se apresentar como líder de todos os mulçumanos.

Essa é uma iniciativa tomada por uma linha extremamente dura do grupo sunita, e não será reconhecida pelo Irã, ou pelos mulçumanos xiitas, assim como pela Arábia Saudita, que se vê como zeladora dos lugares mais sagrados do Islamismo.

Estados e comunidades mulçumanas moderadas também rejeitam esse movimento, e todos os governos da região veem o auto-declarado "Estado Islâmico" como uma ameaça, e perigo de segurança.

O Isis estabeleceu o sistema em partes da Síria e do Iraque, e o maior perigo que o "Estado Islâmico" (IS, na sigla em inglês) apresenta atualmente é aos países vizinhos da Síria e do Iraque, como Líbano, Jordânia, e Arábia Saudita.

O risco para países mulçumanos sunitas é mais interno que externo, caso grupos locais decidam se juntar ao IS e começar a confrontar autoridades e se armar.

O Irã não está sob risco direto por ser uma grande potência militar xiita na região e capaz de deter qualquer ameaça territorial, mas verá a ascensão de um grupo sunita ultramente fundamentalista como o IS como uma ameaça ao seu poder regional e esfera de influência.

O Isis vai querer atrair mais recrutas e expandir ou consolidar seu poder.

O grupo pediu à todos os grupos jihadistas sunitas que jurassem lealdade, e como tal, grupos afiliados à linha dura da Al-Qaeda têm escolhas difíceis para fazer.

Eles tanto podem lutar contra o IS, da mesma forma que grupos como o Jabhat Al Nusra — o afiliado oficial da Al-Qaeda na Síria — tem feito, ou sucumbir ao Isis, ou desafiar e arriscar ser marginalizado em decorrência do sucesso do Isis e se tornar irrelavante.

No Geografia Hoje
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A força da internet nas eleições

Três pesquisas recentes confirmam que a internet, com seus sites, blogs e redes sociais, deverá jogar um papel decisivo nas eleições deste ano. O Instituto Reuters de Estudo do Jornalismo, ligado à Universidade de Oxford (Inglaterra), publicou no início de junho o seu terceiro relatório anual sobre notícias digitais (“Digital News Report-2014”). Feito a partir de entrevistas com 18 mil pessoas em dez países (EUA, Reino Unido, Alemanha, França, Finlândia, Espanha, Dinamarca, Itália, Japão e Brasil), ele revela que o nosso país ocupa o primeiro lugar no ranking mundial no uso dos meios digitais. Segundo a pesquisa, 87% dos brasileiros conectados à internet têm interesse por notícias de cunho jornalístico.

Outro estudo, divulgado em maio, aponta que os blogs brasileiros já ocupam o segundo lugar no ranking mundial de alcance, só perdendo para o Japão. A pesquisa da ComScore traz estatísticas atualizadas sobre a rede no Brasil, com dados comparativos para a América Latina e o mundo. Os números comprovam que o país é um dos mais entusiasmados com a internet. Entre outros dados, a pesquisa mostra que os brasileiros seguem liderando o engajamento online, com usuários que navegam 29,7 horas por mês, sete horas a mais do que a média mundial; que a audiência cresce em média 11% ao ano; e que uma parte da publicidade, mesmo que ainda pequena, passa a se deslocar para os meios digitais.

Por último, vale citar a “Pesquisa Brasileira de Mídia”, publicada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República em fevereiro último. Ela indicou que a tevê segue sendo o meio preferido dos brasileiros, com 76,4% dos votos, mas a internet (13,1%) já superou o rádio (7,9%), jornais (1,5%) e revistas (0,3). Segundo a Secom, o estudo aponta as tendências para o futuro. “Entre os mais jovens, na faixa de 16 a 25 anos, a preferência pela TV cai a 70% e citação da internet sobe a 25%, ficando o rádio com 4% e os demais com menções próximas de 0%. Como em outros países, devemos continuar assistindo também no Brasil ao crescimento da adesão aos meios digitais de comunicação nos próximos anos”.

Estes três estudos explicam porque os partidos políticos brasileiros finalmente despertaram para a força crescente da internet. Todos têm feito investimentos pesados nas novas ferramentas, contratando empresas especializadas, formando seus ativistas digitais e disputando ideias nesta guerrilha online. Este universo dá espaço para os piores instintos, com muitas baixarias e agressões, mas também permite a produção de ótimo conteúdo jornalístico. Através da internet, esta brecha tecnológica, mais vozes podem se manifestar na sociedade, uma conquista da autêntica liberdade de expressão. Mesmo a mídia tradicional já percebeu que não dá para barrar este avanço e passa a investir mais nestas ferramentas.

Já nas eleições de 2010, a jovem blogosfera brasileira cumpriu papel de relevo, ajudando a desmascarar farsas como a da “bolinha de papel” ou da onda preconceituosa contra o direito ao aborto. Não é para menos que passou a ser alvo de setores autoritários, pouco afeitos à liberdade de expressão, que tentaram estigmatizar esta forma de comunicação. Os “blogs sujos”, como foram rotulados pejorativamente, não se intimidaram e conquistaram, com o tempo, maior legitimidade e força. Já em 2013, as redes sociais mostraram sua capacidade de mobilização nos massivos protestos da “jornada de junho”. Nas eleições deste ano, o poder da internet será ainda maior e decisivo!

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Ressaca: pré-sal despeja meio milhão de barris na goela conservadora

No momento em que a Petrobrás alcança meio milhão de barris de petróleo extraídos do pré-sal, ouve-se um silencio sepulcral das goelas conservadoras.

As mesmas que amargam a ressaca da Copa das Copas.

As mesmas que, há menos de uma semana, trovejavam contra a cessão de novos campos à estatal, com mais de 15 bilhões de barris, decidida pela Presidenta Dilma.

O desconforto é enorme.

A eficiência da empresa em extrair — aceleradamente — o óleo existente a seis mil metros abaixo da linha do mar, comprova o acerto da cessão onerosa.

Mas reitera também o regime de partilha que ordena toda a exploração das maiores reservas descobertas no planeta no século XXI — decisão exitosa igualmente bombardeada pelo conservadorismo e seu dispositivo emissor.

A República dos acionistas, que pauta o jornalismo isento, tem alergia a novos investimentos em exploração.

Explica-se: momentaneamente, eles podem reduzir o caixa dos dividendos.

O fato de a cessão ter transformado a estatal na detentora da segunda maior reserva de óleo do mundo, é desprezível aos olhos do interesse particularista que avoca sua supremacia em detrimento da nação e do futuro de sua gente.

Graças à decisão de Dilma, a estatal criada por Getúlio Vargas — cujo legado FHC prometeu dissolver — passou a dispor de um estoque de 31 bilhões de barris exploráveis.

Pouco abaixo apenas da Rosnet (russa), com 33 bi/barris, mas que será certamente ultrapassada pela Petrobrás, que levita num oceano de reservas estimadas em 100 bilhões de barris.

Não estamos falando de um detalhe tangencial à luta pelo desenvolvimento brasileiro.

O pré-sal, é forçoso repetir, quando tantos preferem esquecer, mudou o peso geopolítico do Brasil.

É como se o país ganhasse quatro anos de PIB em petróleo, a preços de hoje — sob controle político da sociedade.

Graças ao regime de partilha, essa riqueza será estatalmente direcionada para reverter mazelas seculares incrustradas em seu tecido social.

Não se trata de um futuro remoto, como o demonstra o marco de meio milhão de barris de óleo atingido agora.

O pré-sal já alterou a curva de produção da Petrobras.

A estatal, que levou 60 anos para chegar à extração de dois milhões de barris/dia, vai dobrar essa marca em apenas sete anos.

Talvez menos.

A ignorância tudo pode, mas quem desdenha dessa mutação em curso sabe muito bem o que está em jogo.

Dez sistemas de produção do pré-sal entram em operação até 2020.

Hoje, apenas oito anos após as descobertas, os novos reservatórios já produzem 500 mil barris/dia.

Em 2020 serão mais dois milhões de barris/dia.

A curva é geométrica.

Para reter as rendas do refino na economia brasileira, a capacidade de processamento da Petrobras crescerá proporcionalmente: de pouco mais de dois milhões de barris/dia hoje, alcançará 3,6 milhões de barris/dia em seis ou sete anos.

Para isso estão sendo erguidas quatro refinarias, simultaneamente.

O conjunto requer US$ 237 bilhões em investimentos até 2017.

É o maior programa de investimento de uma petroleira em curso no mundo.

E será assim por muitos anos — o que explica os surtos recorrentes de urticária da República dos acionistas e de seu jornalismo operoso.

Os desdobramentos desse ciclo não podem ser subestimados.

A infraestrutura é o carro-chefe do investimento nacional no próximo estirão de crescimento a ser pactuado com toda a sociedade.

Mais de 60% do total de R$ 1 trilhão em projetos serão investidos na cadeia de óleo e gás.

Objetivamente: nenhuma agenda política relevante pode negligenciar aquela que é a principal fronteira crível de um salto do país em cadeias tecnológicas que viabilizem a sua inserção soberana no mercado mundial.

Mas foi exatamente esse sugestivo lapso que o candidato ‘mudancista’, Aécio Neves, cujo coordenador de campanha será o não menos ‘mudancista’ presidente dos demos, Agripino Maia, cometeu em dezembro de 2013, quando lançou sua agenda eleitoral, já como presidenciável do PSDB.

Como observou Carta Maior naquela oportunidade, em oito mil e 17 palavras encadeadas em um jorro espumoso do qual se extrai ralo sumo, o candidato tucano não mencionou uma única vez o trunfo que mudou o perfil geopolítico do país.

Repita-se, Aécio Neves lançou uma agenda eleitoral sem a expressão pré-sal.

O tucanato espojou-se no caso Pasadena; convocou fanfarras para alardear ‘o desgoverno’ dentro da estatal, mas não reservou um grão de areia de espaço em sua agenda eleitoral para tratar da grande alavanca estratégica representada pelas novas reservas brasileiras.

A omissão fala mais do que consegue esconder.

O diagnóstico conservador sobre o país — e a purga curativa preconizada a partir dele — é incompatível com a existência desse incômodo cinturão de riqueza, a encorajar a construção de uma democracia social, ainda que tardia, por essas bandas.

Ao abstrair o pré-sal — exceto em confidências de Serra à Chevron, em 2010, quando prometeu reverter a partilha que incomoda as petroleiras internacionais — a agenda do PSDB mais se assemelha a uma viagem de férias à Brazilândia do imaginário conservador, do que à análise do país realmente existente — com seus gargalos e trunfos.

Só se concebe desdenhar dessa janela histórica se a concepção de país embutida em seu projeto negligenciar deliberadamente certas urgências.

Por exemplo, a luta pela reindustrialização brasileira, da qual as encomendas do pré-sal podem figurar como importante alavanca, graças aos índices de nacionalização consagrados no regime de partilha.

Ou o salto da escola pública — que só terá 10% do PIB, como decidiu o Plano Nacional da Educação, porque poderá contar com o fluxo da renda do pré-sal.

Ou ainda a saúde pública, igualmente beneficiada na divisão do fundo petroleiro, que assim poderá ressarcir o corte de R$ 40 bilhões/ano imposto à fila do SUS pela extinção da CPMF, em 2010 — obra grandiosa da aliança ‘mudancista’ demotucana.

Reconheça-se, não é fácil pavimentar o percurso oposto ao apregoado diuturnamente pelos pregoeiros do Brasil aos cacos.

A formação do discernimento social brasileiro está condicionada por implacável máquina de supressão da autoestima, que não apenas dificulta a busca de soluções para a crise, como nega à sociedade competência para faze-lo de forma coordenada e democrática.

Melhor entregar aos mercados, aos mercados, aos mercados, aos mercados...

Eles, sim, sabem o que fazer disso aqui.

Recusa-se aos locais a competência até mesmo para organizar uma Copa do mundo, que dirá gerir as maiores reservas de óleo do planeta, ou construir, uma nação, não qualquer nação, mas uma cujo emblema seja a convergência da riqueza, a contrapelo da lógica documentada por Tomas Piketty.

Com a maturação antecipada da curva do pré-sal — como indica o marco dos 500 mil barris em extração — as chances de êxito nessa empreitada aumentam geometricamente nos próximos anos.

Não é uma certeza, é uma possibilidade histórica. Mas o lastro é cada vez menos negligenciável.

Os efeitos virtuosos desse salto no conjunto da economia, porém, exigem uma costura de determinação política para se efetivarem.

Algo que a agenda eleitoral de quem assumidamente se propõe a ser uma réplica do governo FHC, omite, renega e descarta.

A ver.

Saul Leblon
No Carta Maior
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Sobre os 20 anos do Plano Real


Vamos ouvir falar muito dos 20 anos do Plano Real, mas por motivos muito mais políticos e eleitoreiros do que por razões cívicas e históricas.

Isso ficou claro na capa desta semana da Veja. Uma bomba relógio sugeria que a estabilidade econômica — o principal feito do Plano Real — está prestes a explodir por culpa sabemos bem de quem, na visão da Veja.

A mensagem central dos que lembrarem efusivamente o Real é exatamente esta: a inflação está aí e temos que tirar os petistas do poder.

É, naturalmente, uma falácia eleitoreira.

As duas décadas do Real merecem algumas considerações que só o tempo permite.

A mais importante é que quem criou a hiperinflação — num determinado momento a taxa voava a 80% ao mês, sob o ministro Mailson da Nóbrega, hoje dando aulas de economia por aí — foi o mesmo grupo que hoje quer voltar ao poder.

Numa definição mais ampla, os conservadores. Ou, numa linguagem que me é mais cara, o 1%.

Repito: o 1% fez a hiperinflação e hoje, cinicamente, tenta se apresentar como detentor da fórmula de debelá-la.

A inflação, no início dos anos 60, era uma coisa. Com a ditadura militar, o problema virou crônico e crescente graças a uma das mais desastrosas invenções econômicas da história brasileira: a correção monetária.

O criador foi uma das figuras mais reverenciadas da direita brasileira: o economista Roberto Campos, Bob Fields para a esquerda, homem forte da economia do primeiro governo militar, o do general Castello Branco.

Campos criou um monstro. A correção monetária, que deveria proteger o dinheiro, acabou por se tornar um combustível impiedoso para a inflação.

Planos e mais planos econômicos fracassaram na tentativa de liquidar a inflação por conta, antes e acima de tudo, do mecanismo de correção criado por Roberto Campos.

Sempre houve, também, uma má vontade potente do 1% em enfrentar para valer a inflação. Por motivos óbvios: o 1% sempre ganhou muito com a inflação.

Quem perdia com a inflação eram os pobres, que não tinham sofisticadas aplicações financeiras à disposição para proteger seu patrimônio esquálido.

A inflação era um fator a mais de desigualdade no Brasil. Os ricos — sobretudo os bancos, mas não só eles — ganharam muito dinheiro com ela.

Alguém tinha que ceder para que a estabilidade viesse — mas a elite só aceitou fazer alguma forma de sacrifício quando a situação se tornara simplesmente insustentável.

Foi aí que entrou em cena o Plano Real.

Outra vez: a doença econômica fora criada exatamente pelos conservadores que hoje fingem ter a exclusividade da cura. Mais que isso: pretendem não ter nada a ver com a origem do mal.

O PT, por mais erros que tenha cometido nestes doze anos de poder, já mostrou que é absolutamente capaz de controlar os preços. As estatísticas mostram que a inflação média sob FHC foi maior do que sob Lula e sob Dilma.

Mais que tudo, duas décadas depois, o maior drama econômico nacional está longe de ser a inflação.

O real pesadelo se chama desigualdade social.

Esta deveria ser a prioridade nacional nestes dias: reduzir a abjeta iniquidade que marca o Brasil.

Os níveis de desigualdade brasileiro equivalem aos da Europa de 100 anos atrás.

Números recém-publicados mostram que no processo de redução da desigualdade dos últimos anos o 1% não perdeu nada.

O que o Brasil exige, hoje, é um plano — já que falamos do Real — que retire a sociedade dos extremos de opulência e miséria.

Paulo Nogueira
No DCM
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O amor pela seleção

Choro dos craques vem do abismo entre os craques e o país, aberto pelo anti-Copa e pelo VTNC. É preciso fechá-lo

A conversa do dia é o choro dos meninos da seleção.

Nossa seleção chora de medo, um pavor profundo, um abismo, um buraco escuro na terra. Felipão, o verdadeiro, perdeu a energia e ficou desorientado. O capitão Tiago Silva sentiu medo de cobrar pênalti. Não conseguia nem olhar o chute dos outros. Chorou tanto que ninguém entendeu.

Julio Cesar também chorou e todo mundo entendeu.

Neymar seria o primeiro a bater o pênalti. Preferiu ficar por último. Vencemos, apesar de tudo. Mas não sabemos até onde vamos caminhar. Que importância tem isso?

Nada, quem sabe.

Hoje, tudo.

Eu tinha 5 anos quando o Brasil ganhou a primeira Copa. Estava no terraço — na época não se dizia varanda — do apartamento onde morava, ali na rua Cincinato Braga, no bairro paulistano do Paraíso. Lembro do barulho do alto falante de um caminhão que passava pela rua, no volume máximo, antes de desaparecer no paralalepípedo:
— A Copa do mundo é nossa

Com o brasileiro não há quem possa...

Eeeeeeta esquadrão de ouro

É bom no samba, é bom, no couro
Nem meus pais nem meus irmãos conheciam a música da seleção. Quem cantava era Lola, a babá, uma quase adolescente levada para trabalhar em nossa casa por Alaíde, a irmã mais velha, mais durona. Lola, que era muito mais bonita, sambava e cantarolava no terraço — quando os patrões estavam longe — com sua voz suave, o sorriso sempre nos lábios, os cabelos grandes e crespos, de um jeito que só ficaria na moda dez anos depois.

Fui bicampeão quando estava de cama, em 1962.

Doente, ouvi a final contra a Checoslováquia no quarto de casal dos meus pais. Lembro da voz de Fiori Gigliotti narrando cada gol pelo rádio, um Emerson num estojo de couro marron. O locutor mobilizava o país inteiro numa vibração emocionada, em que os objetos inanimados daquele quarto — o criado mudo, o abajur, as roupas dentro do armário, os cabides, os ternos do meu pai, o sapato de couro e sola de borracha do meu pai, aquelas gravatas bonitas como nunca vi igual, as bolsas que minha mãe guardava em caixas de papelão, e até o revolver 32 que meu pai manteve guardou até descobrir que os filhos estavam brincando com ele — pareciam fazer parte da torcida.

Quando a partida foi chegando ao final, eu estava tão emocionado que tive um delírio, coisa de Jorge Luís Borges. Imaginei que do outro lado do mundo, numa pequena casa na Checoslováquia, um menino ouvia o mesmo jogo ao lado do pai. Mas, na partida transmitida de rádio para aquele país, os checos é que venciam os brasileiros, também por 3 a 1. Os gols haviam sido feitos na mesma sequencia, no mesmo minuto — e lá, como na minha casa, todos estavam em festa, participando da mesma alegria única, inocente, que só o futebol permite.

Esta era minha final imaginária. Eu pulava e abraçava meu pai em São Paulo, e, no mesmo minuto, na Checoslováquia, em movimentos sincronizados e simétricos, aquele menino e seu pai também se abraçavam. Eu dava socos no ar, gritava o nome dos nossos jogadores, o menino gritava o nome dos jogadores da seleção deles, com aqueles nomes esquisitos. Aos poucos, eu via que as ruas de São Paulo e da Checoslováquia estavam ficando cheias, eram duas multidões comemorando a Copa do Mundo, sem perceber que, no país do time adversário, também havia uma grande festa, que as pessoas que falavam outra língua e usavam roupas diferentes — além de tudo, os checos eram comunistas — também eram campeãs mundiais, porque tudo não havia passado de uma magia, de um sonho, embalado pelos locutores de rádio, onde ninguém era derrotado, e só haviam vencedores e todos podiam ficar alegres.

Antes que alguém pergunte, cinco décadas depois, eu respondo.

Não. Não havia mensagem nessa fantasia. Nem utopia. Era pura maravilha, dos bons contos de fada, que são belos porque não querem nos levar a lugar algum, apenas a mundos que não existem, onde vigoram ideias que nunca pensamos, sonhos que nunca tivemos.

Um pouco como acontece com o futebol, vamos reconhecer.

Em 1970, repórter esportivo, cheguei a ouvir num vestiário do time que ia para o México, de onde voltou com o tri, um comentário pavoroso: “Por que o Médici não manda dar porrada nos jornalistas que só falam mal da seleção?”

A natureza humana é crítica, os motivos para queixas existem.

Sempre houve torcida mau humorada e até contra. Até quando isso era arriscado porque vivíamos numa ditadura. Esse direito é inegociável e deve ser respeitado.

Meio século depois, estamos em julho de 2014.

Mas, pela primeira vez na história do conto de fadas do futebol, é proibido torcer a favor. É suspeito. Quem sabe, corrupto. Em alguns ambientes até provoca risadinhas de malícia.

Agora há uma raiva grande contra as alegrias do povo. Há o cinismo.

Isso arranca lágrimas dos meninos. No time de 2014, não há nenhum adulto. Ninguém com autoridade para gritar, levantar a cabeça e reagir.

É um problema real, do time, mas não é só.

No começo, era chique pensar que o concreto dos estádios não era concreto. Também valia questionar estatísticas sem estatísticas. Foi daí que veio o VTNC.

Depois, vieram os estrangeiros, que nunca tiveram dificuldade para se impor sobre a multidão de vira-latas que perambulam pelo país, buscando oportunidades para o bolso em várias formas de lixo humano.

Eles projetaram detalhadamente um apocalipse final, que deixasse a todos com culpa, a todos irmanados naquele que é o sentimento mais profundo e necessário a sua visão de mundo — a vergonha de ser brasileiro. É este sentimento que leva a oferecer tudo, até nossas moças, a estrangeiros, sem o menor respeito, sem perceber que mesmo as mais humildes podem nos dar lições preciosas, ingênuas só na aparência, como fez a babá Lola naquele terraço de 1958.

Não basta ganhar. É preciso merecer. Holandês pode cavar pênalti. Brasileiro não pode.

Vamos pressionar os juízes para que, na dúvida, fiquem contra o Brasil.

É por isso que os meninos choram. Craques têm o temperamento delicado, são verdadeiros animais de raça, fáceis de assustar, a tal ponto que alguns cavalos de raça correm com viseira. Têm a sensibilidade absoluta, como grandes artistas. Sentem-se abandonados pela falta de um sonho que ninguém sonhou, pela ausência de palavras que ninguém disse. O nome disso é angustia.

E é ela que ameaça nossos craques.

O país já venceu o primeiro combate, de fazer a Copa. Não foram só os aeroportos, os estádios, as melhorias que, mesmo entregues pela metade, ou três quartos, ou 100%, ou 0%.

Quem garantiu uma grande Copa foi o povo brasileiro, com sua hospitalidade, seu humor, seu amor pelo futebol. Imagine se fosse um campeonato de críquete.

A auto crítica universal de tantos medalhões confirma que a partir de 2013 se produziu uma Escola Base. Na versão original, ocorreu uma denúncia a partir de um engano, do serviço mal feito, do exibicionismo, do sensacionalismo.

Desta vez, criou-se um ambiente negativo contra um país inteiro, que não se baseava num erro nem em vários erros – mas no oportunismo político. No quanto pior, melhor.

Até hoje o anti Copa não desistiu de ver a derrota de brasileiros em sua própria casa. Espera colher frutos em outubro. Quer o povo de cabeça baixa.

Isso abriu um abismo entre a seleção e o país. Por essa razão os craques choram, não se equilibram, sentem medo com facilidade.

Essa distância precisa ser vencida. Quem diz é o craque Tostão:

“O que salva a seleção é o envolvimento emocional dos jogadores, empurrados pela torcida e pela pressão de jogar em casa.”

Paulo Moreira Leite
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Como uma mentira se espalha na rede: Lula nunca falou sobre a eliminação do Japão da Copa do Mundo

Muitas vezes mentiras são publicadas na internet, às vezes espalhadas como “brincadeiras”. Recentemente foi criada uma notícia falsa com uma fala atribuída ao ex-presidente Lula, que jamais foi dita por ele, sobre a eliminação do Japão na Copa do Mundo. Embora em alguns sites a notícia seja identificada como falsa ou de “humor”, muitos a tem espalhado nas redes como se fosse verdadeira.

O blog de Joselito Müller, que atribuiu de forma muito grosseira a declaração ao ex-presidente Lula, não traz links ou referências a outras fontes que provem onde isso teria sido dito e trata o assunto como “piada”:


Depois começaram a surgir links falsos, que simulam sites de notícias. No site está claro que esta é apenas uma ferramenta para criar notícias falsas, mas assim o boato foi se espalhando na rede:


Dois dias depois do surgimento da fonte inicial da mentira, a afirmação aparece no Twitter de um deputado que ajuda a espalhar a falsa declaração, ainda que depois tenha apagado a mensagem:


Lula nunca afirmou que o Japão foi eliminado da Copa por ter investido em saúde e educação e o absurdo dessa declaração inventada fica claro quando se considera os feitos dos governos Lula e Dilma nestas duas áreas, o que mostra que não há nenhuma contradição entre investimentos em saúde e educação e a realização da Copa do Mundo.

Talvez por ingenuidade, oportunismo, preconceito ou até mesmo falta de conhecimento algumas pessoas têm repassado informações inverídicas, mas não podemos esquecer que o Brasil que realiza a Copa do Mundo em 2014, criou, nos últimos 11 anos, programas como o SAMU, o Mais Médicos, triplicou o orçamento da educação, dobrou o número de estudantes universitários, entre diversas outras melhorias. Lula nunca disse algo desse tipo.

No Instituto Lula
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Alckmin cumpre promessa e reduz pedágio em SP


No SQN
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Mateus, ou melhor, Aloysio, o vice de Aécio, foi guerrilheiro importante na ALN de Marighella

O senador Aloysio Nunes Ferreira Filho, anunciado hoje como candidato a vice-presidente na chapa de Aécio Neves, foi um militante importante da Ação Libertadora Nacional.

A ALN foi a maior organização armada no combate à ditadura instaurada no Brasil em 1964. Seus líderes eram o ex-deputado Carlos Marighella, fuzilado em 1969, e o jornalista Joaquim Câmara Ferreira, morto na tortura em 1970.

O jovem Aloysio migrou do Partido Comunista Brasileiro, do qual Marighella havia sido um dos dirigentes, para a ALN.

Universitário, presidiu o prestigiado Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP.

Na célebre instituição de ensino do Largo São Francisco, estudaram mais de dez guerrilheiros da ALN que integraram grupos de fogo comandados por um técnico em mecânica (Marcos Antonio Braz de Carvalho) e um operário (Virgílio Gomes da Silva).

Aloysio é mencionado em sete páginas do meu livro “Marighella — O guerrilheiro que incendiou o mundo'' (Companhia das Letras).

É impossível conhecer a trajetória do senador ignorando seus tempos de luta armada, quando seu nome de guerra mais usual foi “Mateus''.

Ele participou em agosto de 1968 do legendário assalto ao trem pagador Santos-Jundiaí. Dirigiu um dos carros em que os guerrilheiros que entraram no trem fugiram em seguida. Portava uma carabina. Coube a Aloysio levar o dinheiro arrecadado, como conto em detalhes na biografia de Marighella.

Era com Aloysio que Marighella viajava quando soube que o congresso da União Nacional dos Estudantes havia sido descoberto em Ibiúna (SP), resultando em centenas de presos.

Outra função de Aloysio era transportar Marighella — o líder da ALN não sabia dirigir.

Até hoje seus detratores pensam desqualificá-lo apresentando-o como “o motorista de Marighella''.

Em outubro de 1968, Aloysio esteve na ação que resultou no roubo de um carro-pagador da Massey Ferguson.

Em 1969, Aloysio mudou-se para Paris, onde se transformou no principal quadro da logística da ALN na Europa.

Na década de 1970, ele regressou para o PCB, do qual sairia para o PMDB e, mais tarde, para o PSDB, partido no qual milita hoje.

O senador considera que a guerrilha foi um erro.

Mas nunca se declarou “arrependido'' das lutas que travou contra a ditadura.

Que eu saiba, há ex-militantes da ALN em oito agremiações: PT (a maioria expressiva), PSDB, PDT, PSB, PV, PSOL, PPS e PTB.

Dilma Rousseff, que postula a reeleição, militou em organizações guerrilheiras, mas não na ALN.

A presidente e seus companheiros afirmam que a jovem Dilma não participou de ações armadas, versão reforçada pela documentação histórica conhecida.

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A disputa nos Estados

Em busca de protagonismo nos principais colégios eleitorais, o PT terá mais candidatos a governador do que em 2010; partido está afastado do antigo aliado PSB e com seu maior parceiro, o PMDB, dividido entre Dilma e seus adversários


No fAlha
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Vice-presidente na chapa tucana: a escolha de Aécio

Uma ducha de água gelada na campanha tucana o noticiário de hoje sobre a escolha do senador Aloysio Nunes Ferreira Filho (PSDB-SP) como candidato a vice-presidente da república, na chapa encabeçada pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG). Pelo menos um dia na vida, os jornalões retratam a realidade e mostram que a disputa para os tucanos não é o mar de rosas constante que eles querem passar ao eleitorado!

O que é mostrado, hoje, é que a escolha de Aécio – Aloysio – se deu por absoluta falta de opção. Ele tentou sair com um companheiro do Nordeste para melhorar sua performance pífia nas pesquisas na região, o ex-senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) e o senador recusou; tentou a ex-ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Ellen Gracie e sua equipe de campanha o desaconselhou porque ela seria vista como elitista; e esperou que um partido de peso desertasse da base de apoio da presidenta Dilma Rousseff para escolher nele seu vice – mas esse partido não se desgarrou.

Na falta de outro, foi com Aloysio mesmo, que já entrara nas cogitações há pelo menos dois meses e compõe a chapa apresentado como parte do esforço de Aécio para “pacificar” São Paulo e aproximar-se de José Serra, que disputou com ele a legenda para sair candidato ao Planalto e de quem o senador agora candidato a vice é próximo.

Chapa reedita política do “café com leite”, extinta em 1930

Mídia e adversários lembram hoje que a dupla Aécio-Aloysio reedita agora, quase um século depois, as chapas “café com leite” da República Velha encerrada com a Revolução de 1930, na qual São Paulo (café) e Minas (leite) formavam, se alternando na cabeça,  as chapas de candidatos a presidente e vice-presidente da República até aquele ano.

O Estadão traz entrevista com Aloysio Nunes e pergunta como ele vai se defender de temas Paulo Preto e cartel, que podem explorar ser explorados pelos adversários na campanha. Paulo Preto, próximo de Aloysio,  foi arrecadador de dinheiro para campanhas tucanas anteriores e teria se envolvido em polêmico desvio de fundos que ele nega e o PSDB nunca pode assumir. O senador-candidato a vice teve seu nome envolvido no cartel do trensalão, mas “por falta de indícios suficientes” que o comprometessem foi excluído do processo pelo STF.

Sobre um “bate-boca” recente com um blogueiro em Brasília, que o questionou exatamente sobre essa história do cartel do trensalão, ele promete nessa entrevista evitar conflitos inúteis, mas adianta não ter “sangue de barata”.


No Blog do Zé
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O vídeo imperdível ganhou locução de José de Abreu!


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Reforma Política: só com Lula na rua

A pouco mais de cem dias das eleições a rotatividade na política brasileira é tão intensa que fica difícil acompanhar o sopão das siglas que se misturam.

A pouco mais de cem dias das eleições de outubro a rotatividade na política brasileira é tão intensa que fica difícil acompanhar o sopão das siglas se misturam pela manhã para se dissociarem à noite.

O ziguezague forma um caldeirão desprovido de qualquer  coerência retrospectiva ou prospectiva, para não falar de referencias de somenos importância, como história, ideologia, programas ou projetos de nação.

O cenário político estilhaçado é um dos gargalos à continuidade do desenvolvimento brasileiro, que requer o lastro de amplas maiorias para seguir em frente.

Hoje, é essa lava de interesses incandescentes que modela a composição e a lógica do Congresso brasileiro.

Vinte siglas se digladiam ali num jorro desordenado a equiparar a coerência programática de qualquer governante ao desafio de conduzir um trem longe dos trilhos.

Todos os governantes e todos os partidos são reféns dessa montanha russa desengonçada que compõe o sistema político brasileiro.

O sobe e desce abrupto nos dias que correm tem provocado  sugestivas manifestações de enjoo e indigestão.

O Prefeito do Rio, Eduardo Paes, por exemplo.

Ex-demo, ele classificou de ‘bacanal’ a possível junção entre PMDB, seu atual partido, e o PSDB,  na disputa pelo governo do Estado.

Dias antes, fora a vez de a palavra ‘suruba’ dar o ar da graça no noticiário, para classificar o apoio do PSB ao PT na mesma disputa fluminense. O desabafo veio então do deputado federal pelo PSB, ex-verde, Alfredo Sirkis.

Beirando o despudor em relação ao eleitorado, ao contribuinte e à democracia, o  presidenciável Aécio Neves esponjou-se nesse ambiente carregado de cenas explícitas de promiscuidade.

O tucano exortou os convivas a um comportamento que ilustra o seu conceito de retidão republicana e respeito ao país e ao povo: ‘Suguem mais um pouquinho e depois venham para o nosso lado’, disse esse que se anuncia um cruzado mudancista na vida política nacional.

A sucção tem funcionado bem no seu nariz, mais precisamente em São Paulo, onde Alckmin apunhala Serra e ‘aspira’ Kassab, do PDS — que apoia Dilma —  para candidato a senador, na vaga do PSDB.

Foi no âmbito desse corso financiado pelo dinheiro privado — com todos os complementos daí decorrentes — que a discussão sobre a ‘corrupção petista’, catalisada pelo julgamento da AP 470, assumiu contornos de um imenso biombo.

Savonarolas de biografias inflamáveis e togas coléricas cerraram fileiras para fazer desse episódio  uma nuvem de fumaça capaz de desviar a atenção daquilo que o circunstanciava e decifrava: a urgência de uma reforma política para  libertar a democracia da subordinação a interesses que se impõem à revelia das urnas.

Alertas como os feitos atualmente por dirigentes do PT e membros do governo  — que advertem para a disseminação do estigma conservador, que colou no PT  o carimbo de corrupção —  são benvindos.

Mas correm o risco de perder a força renovadora que carregam, sempre que cederem lugar ao lamento reiterativo, em detrimento da mobilização por uma Constituinte destinada a promover uma mudança efetiva na política do país.

Lula, em vídeo recente em defesa dessa bandeira, foi eloquente em evocar a sua importância como um divisor na história brasileira.


“Para o Brasil continuar mudando, é preciso garantir a legitimidade das instituições e acabar com a interferência do poder econômico nas eleições”, afirmou reiterando que ela é ‘cada vez mais necessária e urgente; um clamor, que nasce das ruas, que vem da sociedade’.

O ex-presidente que deixou o governo com 80% de apoio popular pede adesão a um manifesto que pretende reunir 1,5 milhão de assinaturas para propor ao Congresso Nacional a convocação de uma Constituinte, exclusiva e soberana, com essa finalidade.

 A manifestação é convincente e ilustrativa da centralidade que a radicalização da democracia passou a ocupar na visão petista do que é prioritário — indispensável — para destravar o passo seguinte desenvolvimento brasileiro.

Mas carece, ainda, de um lastro mobilizador efetivo.

A ausência desse requisito reflete certa prostração do campo progressista, que hesita em transformar o aggiornamento histórico de suas reflexões em mobilizações de massa, necessárias para alterar, de fato, a correlação de forças que está na origem dos impasses brasileiros.

Intervenções como a de Lula terão a força requerida pelo objetivo a que se propõem, quando forem parte de um engajamento prático.

Uma determinação feita de agendas, comícios e caminhadas, claramente traduzidos em locais e datas que ofereçam alternativas à participação organizada de amplas esferas da sociedade, para além da franja dos iniciados.

Não apenas isso.

É indispensável explicitar o vínculo entre democracia e superação da encruzilhada do desenvolvimento do país.

Portanto, entre reforma política e retomada do crescimento brasileiro.

Trata-se de rejeitar a mística conservadora de uma estabilidade em si da economia, fruto da terceirização dos destinos da sociedade aos impulsos dos ‘livres’ mercados.

Em primeiro lugar, a ideia de um capitalismo em equilíbrio é uma contradição nos seus próprios termos.

No capitalismo, a estabilidade reivindicada pela ortodoxia equivale, na verdade, à paz salazarista dos cemitérios, na qual o povo faz o papel de defunto e o dinheiro grosso, o de coveiro.

A retomada do crescimento por aí tem outro nome: concentração de renda; expropriação de direitos trabalhistas; regressão social e alienação do patrimônio público.

É o oposto do compromisso com a melhoria efetiva da qualidade de vida das amplas massas brasileiras.

 Só há uma receita econômica compatível com esse pacto: aquela que entende o desenvolvimento como um processo histórico de transformação da sociedade, o que implica superar estruturas existentes e criar outras novas.

Isso não se faz a frio.

 Ao contrário do que sugerem os dogmas neoliberais apregoados pelo jornalismo isento, quem determina a coerência macroeconômica nesse processo é a correlação de forças de cada época.

Dito de forma muito clara: para romper os torniquetes do dinheiro grosso é necessário poder; e poder hoje no Brasil implica subtrair espaços do mercado em favor da democracia.

Quem pode propiciar isso é uma reforma política que amplie os canais de participação popular e assegure maior legitimidade à representação da sociedade.

Lula disse em recente encontro de blogueiros, em maio, que ela virá das ruas.

E ela só virá das ruas se Lula estiver nas ruas.

Saul Leblon
No Carta Maior
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Com e sem Joaquim Barbosa

Está prevista para hoje a última participação do ministro Joaquim Barbosa como presidente e como integrante do Supremo Tribunal Federal, mas da agenda não decorre a certeza de sua presença. É desejável que vá. Considerado o nível de apreço que o ministro tem aparentado pelo Supremo, em referências à corte atual e na renúncia antecipada em relação até ao que já seria grande antecipação, pode bem revelar-se um privilégio vê-lo togado ainda uma vez e, como despedida, em sua plena autenticidade.

O sentido e a dimensão das contribuições de Joaquim Barbosa, para a magistratura e para o Supremo, devem ser medidos e pesados por juristas e magistrados. Seu último e relevante desempenho suscitou, porém, fora do tribunal, admirações exacerbadas e os diferentes opostos disso, além, entre aquelas e estes, de não pouco estarrecimento.

As múltiplas imagens públicas de Joaquim Barbosa, por mais que se devam ao próprio, são obra direta da função de projetá-las que o Supremo deu à TV, ao abrir à indiscrição das câmeras e microfones o que até então era tratado com o temeroso recato da imprensa ante a alta magistratura. Joaquim Barbosa tornou-se, via TV, o que a linguagem modernosa chama de fenômeno midiático. E, em tal condição, protagonista político.

Alguns reflexos desse protagonismo são sociologicamente bastante reveladores. Ministros do Supremo, por exemplo, em especial Luís Roberto Barroso, Dias Toffoli e Teori Zavascki, conhecem o efeito, manifestado por parte da opinião pública e da imprensa, de ter posições divergentes das expostas por Joaquim Barbosa. No Supremo mesmo, aliás, a exaltação de Joaquim Barbosa se difundiu, a ponto de ouvir-se o próprio decano do tribunal, Celso de Mello, em voto descontroladamente irado sobre um recurso, chamar de "ladrões" os recorrentes entre os quais nenhum foi acusado ou condenado como ladrão.

Para ficar em exemplo com base ainda mais segura, tenho a correspondência recebida de leitores. Em minhas três décadas na Folha, jamais me faltaram críticas de leitores. Guardei todas, valiosas como elementos de análise histórica. E nelas se comprova um salto extraordinário: criticar ou mesmo registrar qualquer das muitas violações, por Joaquim Barbosa, do equilíbrio e da compostura que são deveres de todo magistrado, e sem as quais o magistrado deixa de sê-lo, provocou a mudança de linguagem das críticas que antes seriam ásperas.

O crescendo da exaltação de Joaquim Barbosa foi acompanhado do crescendo de insultos, da violência a ponto de haver até ameaça. E, com o novo hábito, não mais a respeito só de pontuações do julgamento, mas já sobre qualquer assunto. As deformações caluniosas do que foi expresso no texto, antes próprias dos judeus de extrema direita (agora mesmo fui atacado por lamentar o fim do mandato do presidente Shimon Peres, um raro estadista israelense), hoje são corriqueiras. O salto nítido na linguagem exprimiu como que uma liberação de iras e fúrias por Joaquim Barbosa, por sua exaltação condenatória.

Não muda nada que a liberação ocorresse à revelia do ministro, talvez desconhecimento. É a revelação de um estrato social que constitui uma espécie de black bloc mental, político e tão ansioso por violência quanto aquele que sai de casa para destruir placas de trânsito, incendiar lixeiras, obstruir partes das cidades e tentar atingir policiais. É a revelação daquela massa que parece compreender, insatisfeita embora, os males da prepotência social e do autoritarismo político, mas está pronta para o contrário. Espera só o pretexto.

Janio de Freitas 
No fAlha
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A direita sem vergonha


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Pai exaltado vai buscar Pondé na redação da Folha

O responsável por Constantino pegou um avião para tirá-lo da Florida
CAMPOS ELÍSEOS - Um pai transtornado invadiu hoje a redação da Folha de S. Paulo para puxar a orelha do colunista Luiz Felipe Pondé. "Meu filho começou a ler Olavo de Carvalho por sua causa!", disse, segurando o choro. Pondé reagiu acendendo um cachimbo. Transtornado, o pai subiu o tom: "Ele passou a usar chapéu panamá, está colecionando as frases da revista Caras e desde então deixou de pegar mulher", lamentou, caindo em pranto.

Pondé olhou para o alto, deu uma cachimabada e declamou: "Você pensa em mim toda hora/ Me come, me cospe, me deixa/ Talvez você não entenda/ Mas hoje eu vou lhe mostrar." Ainda envolto em fumaça, arrematou: "Eu sou a dona de casa/ Nos pegue pagues do mundo/ Eu sou a mão do carrasco/ Sou raso, largo, profundo".

Diante da estupefação de todos, Pondé revelou sua fonte: "Essa é apenas uma passagem de Assim Falou Carvalhosa, obra-magna de Reynold Azevedish, o pai do liberalismo misógino transcendental, contra os fracos de espírito e os adeptos do bolsa-ralé". Dirigindo-se novamente ao pai, o colunista da Folhinha cachimbou uma vez mais e concluiu, enigmático: "Não vai ter Cotas".

Indiferente ao burburinho, o jornalista Clóvis Rossi passou ao lado de Pondé cantarolando em voz alta: "Gracias a la vida que me ha dado tanto/ Me ha dado el sonido y el abecedario"....

O polêmico episódio será tema de um simpósio promovido pelo Departamento de Semiótica da Faap. O caderno Ilustríssima trará uma edição especial de 16 páginas inteiramente dedicadas ao assunto. Pondé aceitou participar com três sonetos inéditos, mas fez uma ressalva: "Sem essa de ouvir o outro lado, que isso é coisa de comunista!".

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A bizarrice intelectual dos discursos anticomunistas


As redes sociais fazem parte da tecnologia de ponta. Mas, como a clonagem na ironia do grande pensador francês Jean Baudrillard, que usa o máximo da ciência para produzir a reprodução das amebas, elas têm servido para os embates ideológicos deslocados no tempo: comunistas versus capitalistas. Anticomunistas atacam seus supostos adversários como se estivéssemos nos anos 1950 ou 1960 à beira de revoluções marxistas. É a chamada retórica macarthista dos comandos de caça aos comunistas e das famílias com Deus pela liberdade. Uma conversa para fazer elefante dormir de tédio.

— Chico Buarque mora no Leblon e tem apartamento em Paris. Isso é que é comunista!

— Que absurdo!

— Por que esse hipócrita não doa tudo e vai morar em Cuba?

— Porque Chico ganhou seu dinheiro trabalhando, vive no capitalismo e não acredita que uma atitude individual, isolada, seja uma solução — responde o observador saturado de ouvir tamanha conversa fiada todos os dias.

Os argumentos dos anticomunistas tradicionais são de uma “sofisticação” intelectual sem tamanho. Coisa de cérebros privilegiados. A lógica não alcança esse discernimento tão particular. Pensamento raro. Rarefeito. Pressupõe-se que os tais “comunistas” queiram a pobreza de todos. Espera-se que coletivistas apostem em soluções individualistas.

Uma faceta desse sopa de ervilhas ideológica é obcecada por uma questão estranha:

— Por que Lula, quando adoece, não vai no SUS?

— Porque pode ir onde quiser.

— Então não acha o SUS bom? Ou só é bom para pobre?

E se for um progresso, mas obviamente não o ideal, enquanto se espera que um dia, no sistema capitalista mesmo, todos tenham direito ao mesmo tratamento? E se a melhoria do capitalismo passar por essa dupla articulação antagônica e complementar: iniciativas individuais e políticas públicas de ampliação dos interesses de todos. Os países escandinavos têm dado exemplos marcantes das possibilidades de êxito dessa estratégia. Os lacerdinhas recorrem a uma lógica bizarra:

— É tudo ou nada.

— Questão de coerência.

— Se o cara quer melhorar a vida dos pobres à custa dos ricos, que viva como pobre e doe seu patrimônio individual.

Faz parte de uma ideologia esperta: parem de querer cobrar impostos, desconcentrar renda, distribuir riqueza, criar uma sociedade mais equilibrada e diminuir desigualdades. Cada um que se vire. Como se vê, uma filosofia social altamente sofisticada e justa. Os problemas nunca são estruturais, sociais, históricos, mas sempre individuais, de “caráter” e de “índole”. Salvo quando o governo não dá incentivos para as “forças produtivas da nação” ou não cobre os prejuízos provocados por excesso de chuva ou secas. A preguiça sempre explica a falta de êxito nessa visão de mundo única.

A sociologia não existe. Só a psicologia. Aos mais aquinhoados devem ser reservadas todas as oportunidades de estudo e de formação. Aos demais, as escolas técnicas. A educação deve ser o mais eficaz sistema de hierarquia social. O lacerdinha cobra infraestrutura perfeita. E gasolina com imposto zero. Só isso. A demagogia é o seu pão de cada dia.

Critica-se a impunidade até se praticar uma infração de trânsito, sofrer uma multa justa e desandar a discursar:

— É a indústria da multa. Tinha era que educar.

O anticomunismo tem cheiro de naftalina. Vive a perseguir fantasmas. Coisa de cachorro louco.

Ou de psicopatas.

Salvo se for apenas indigência intelectual.

No popular, burrice.
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