29 de jun de 2014

Comparações deflacionadas

Em 20 anos de Real inflação subiu mais no governo FHC do que nos governos Lula e no primeiro mandato de Dilma

Estamos assistindo aos primeiros sinais de que o 20º aniversário do Plano Real deverá ser comemorado em grande estilo.

Não é para menos. No caminho da sexta eleição presidencial desde que o Real foi anunciado, o plano é uma bandeira prioritária da oposição para reivindicar a chance de retornar ao Planalto, após três derrotas consecutivas.

Mas é um debate que os criadores do Real devem encarar com cautela. Se em duas décadas a inflação jamais retornou aos planos absurdos de 1993 (2477% ao ano) ou de 1994 (916%) a atuação do PSDB para proteger o bolso dos brasileiros, especialmente os mais humildes, aqueles que mais sofrem com a alta dos preços, foi o pior em 20 anos. Quando os dados são expurgados do prestígio e da preferência que a maioria dos analistas devota aos economistas ligados ao PSDB, verifica-se que a realidade é muito diferente. Coube a governo de FHC cravar as piores médias do período.

Aos números: no primeiro mandato do governo Fernando Henrique, eleito a bordo da nova moeda, o IPCA foi de 22,4 em 1995, 9,5 em 1996, 5,22 em 1997 e 1,6 em 1998. Média anual: 9,3%.

No segundo mandato, a inflação subiu 8,9 em 1999, 5,9 em 2000, 7,6 em 2001 e 12,5 em 2002. Média anual: 8,6%.

No primeiro mandato do governo Lula, as altas foram de 9,3 em 2003, 7,6 em 2004, 5,6 em 2005 e 3,1 em 2006. Média anual: 6.4%

No segundo mandato do governo Lula, as altas foram de 4,4, 5,9, 4,3 e 5,9. Média anual: 5,1%

No governo Dilma, as altas foram de 6,5 em 2011, 5,8 em 2012, 5,9 em 2013 e 6,4 na projeção em 2014. Média anual prevista: 6,1%.

Colocando a avaliação no plano puramente inflacionário, está claro que os melhores números foram obtidos nos dois mandatos de Lula. O governo Dilma fica em 3º lugar, enquanto o governo FHC ocupa as piores posições.

Alguma dúvida?

Paulo Moreira Leite
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FIFA, Governança Global e a Copa do Mundo no Brasil


A realização da Copa do Mundo no Brasil é uma das muitas comprovações das teses críticas e céticas sobre o poderoso — e simpático! — conceito de Governança Global, elaborado nos anos 1990. Basicamente, a ideia era a de sustentar e legitimar a horizontalidade de arranjos e multiplicidade de atores globais na condução de uma “governança sem governo”, isto é, demonstrar que a nova ordem mundial multipolarizada caminhava para uma concertação de interesses cada vez mais convergentes e distantes de um mundo maniqueísta, autoritário e bélico. Governo? Uma palavra muito dura e até ultrapassada, com autoridade vinculante a um determinado território… No mundo político, a palavra Governança veio a captar um estágio bastante particular do sistema-mundo capitalista.

Na década de 1990, a noção de uma sociedade civil global ganhou igualmente força, embalada pelo debate sobre a Reforma da ONU no seu cinquentenário, pela série de conferências internacionais temáticas, pelos riscos classificados como globais, pelas novas tecnologias de informação e comunicação, pela explosão do chamado Terceiro Setor, entre outras razões. Neste espírito aparentemente colaborativo, um conjunto de agendas com potencial primeiramente transformador foi cooptado e neutralizado com outros nomes simpáticos: desenvolvimento sustentável, segurança humana, qualidade da democracia, empresa cidadã, responsabilidade social empresarial — para citar apenas alguns.

Não tardou para um debate crítico contrapor-se à construção deste cenário: a Governança Global seria como uma espécie de nuvem “nebulosa”, na qual as relações de poder e as formas de dominação tornavam-se mais sutis e difíceis de se rastrear e enfrentar. Por dentro e nos meandros, ela não era representativa, transparente, accountable e democrática, apesar dos discursos, receitas e das “boas práticas” incentivadas.

Esta curta e recortada história parece ser bastante útil e significativa para o debate sobre os impactos da Copa do Mundo que está sendo realizada neste exato momento no Brasil. Este é um caminho complementar e alternativo para tentarmos entender como a ausência de democracia nesta nova conformação do sistema internacional afeta radicalmente os níveis locais e nacionais que afinal os compõe. Vivemos em um mundo no qual a decisão de um pequeno número de pessoas do outro lado do planeta tem o poder de vida e morte sobre comunidade inteiras — este foi o diagnóstico de David Held para atestar os abalos à validade da teoria da democracia confinada para dentro dos Estados.

A FIFA, fundada em 1904 e sediada na Suíça, passou por este grande processo de “modernização” tributário da lógica da Governança Global. Possuindo mais membros filiados do que a própria ONU, da qual também faz parte, ela procura acompanhar os discursos e as agendas dos atores amigáveis à democracia, responsabilidade social, desenvolvimento sustentável… Cada vez mais a organização preocupa-se em projetar uma imagem preocupada com práticas democráticas e transparentes, uma resposta às constantes denúncias da forma como é exercido e acumulado seu poder.

O que é o privado e o público na forma como a FIFA atua? Em que medida falar em “corrupção” realmente enquadra o principal objetivo hoje da FIFA? Qual é a importância política global de se negociar limpo? No estágio do turbocapitalismo no qual vivemos, a FIFA estimula um mercado e uma indústria inéditos na profissionalização do futebol, com um toque missionário do esporte como desenvolvimento. O poder político, econômico e simbólico que hoje a FIFA representa e alimenta faz com que a forma como se constrói sua representação política interna importe muito na sua representação política internacional.

Hoje, certamente a FIFA é um dos atores da sociedade civil global mais poderosos da Governança Global no ramo desportivo. A organização carece de todas as práticas que aparentemente estimula: democracia e accountability. A palavra corrupção talvez seja inadequada para pensar a FIFA, como infelizmente o é para o mundo dos negócios e dos interesses privados. Absolutamente descomprometida com o interesse público, embora faça uso de uma paixão muito pública para muitos países, a FIFA se comporta e se movimenta na obscuridade e nebulosidade das poderosas instituições internacionais com fins lucrativos.

Ao sugerir que a FIFA é um típico e representativo ator da Governança Global, não podemos esquecer o papel do Estado, geralmente interlocutor e facilitador da Governança. A controvérsia entre soberania e ingerência é intencionalmente por ele apagada. E aqui chegamos ao Brasil.

Assim como foi na África do Sul e o será na Rússia, o Brasil integra o grupo dos BRICS, o Sul Global de maneira geral, com a perspectiva de projetar uma contra-hegemonia dentro da hegemonia. A realização da Copa do Mundo no Brasil pode ser um gol de placa no que se refere à movimentação da economia interna e à projeção internacional do Brasil; mas, o que realmente não tem preço e nem medida é o encontro de muitas culturas, povos, etnias e nacionalidades dentro do nosso país. Trata-se de uma interessante convivência mista entre nacionalismos e cosmopolitismo em nome do futebol, ainda que não livre de estereótipos, preconceitos, machismos e racismos… Lembra-se que com todas as suas contradições e limites, a campanha contra o racismo levada pela FIFA é extremamente importante política e simbolicamente.

Um dos outros lados da história é o conjunto de injustiças, violências e exclusões nos níveis locais da vida em função da realização do campeonato mundial. A ausência de democracia e justiça no nível internacional se conecta diretamente com os impactos locais de uma Copa que não é popular e não é pública. Um dia o foi? A possibilidade de responsabilização direta sobre a FIFA é praticamente nula; existem muitos níveis governamentais locais e subnacionais que podem e foram pressionados pela sociedade. O “padrão FIFA” foi e é contestado das mais diferentes maneiras. E sabemos que a contestação pública é um dos motores de uma democracia ativa e pulsante, mesmo que a repressão policial desproporcional e descabida às manifestações nos indique exatamente o contrário.

A grande maioria das críticas, absolutamente fundamentadas, disse respeito à forma como foram conduzidas as obras e suas cifras, alimentando o cerco ao estrangulamento da vida nas cidades e nas periferias que vêm aumentando há muitos anos em várias metrópoles do Brasil. Neste sentido, as preparações para a Copa intensificaram o fenômeno da privatização do espaço e da vida pública crescentemente sentidas em muitas capitais do país. Para milhares de pessoas, as consequências foram ainda mais tragicamente concretas.

Por fim, chego então a uma das consequências mais significativas em torno da realização da Copa do Mundo no Brasil: a politização, a mobilização e a discussão sobre os impactos e as injustiças geradas internamente por uma entidade internacional cuja receita orbita para cima de quatro bilhões de dólares. A FIFA e a Copa estão na boca do povo, sem e com oportunismos da oposição política à esquerda e à direita, incluindo nesta última a mídia hegemônica.

Veja-se a declaração do secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke: “Vou dizer algo que é maluco, mas menos democracia às vezes é melhor para se organizar uma Copa do Mundo”. Esta declaração é desanimadora e assustadora para pensarmos o próprio futuro das ações da FIFA, mas faz muito sentido para nos orgulharmos do Brasil. Ao que tudo indica, o Brasil inaugurou um cenário de contestação pública importante para a viabilização das futuras Copas. E a escolha para as próximas de países como a Rússia e o Qatar já começa a ser globalmente questionada, com chance de reversão no caso do último. Não intencionalmente, o Brasil contribuiu para o mundo ao demostrar a urgência da conexão entre a democratização da vida local e internacional, cada vez mais indissociáveis para o combate às injustiças e para a realização da própria democracia.

Luciana Ballestrin
No Aldeia Gaulesa
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Tucanos escondem que Aécio foi nomeado diretor da Caixa por Sarney, aos 25 anos

O Partido Pirata do Brasil, ainda em processo de criação, divulgou a página 15 de um suposto relatório interno do PSDB cujo teor contém estratégias e análise de conjuntura da pré-candidatura presidencial. Não há confirmação da autenticidade do relatório, não há assinatura que identifique a autoria, por isso não é possível tomá-lo como verídico, nem levá-lo a sério.


Mas não deixa de ser curioso um parágrafo, onde diz: "A execução da campanha será feita por Andrea Neves, irmã do nosso candidato. Ela já deu as dicas para não se associar de forma alguma com Sarney, e está estritamente ligada as pesquisas para prover a candidatura de forma dura contra o PT. Deve se encaminhar toda informação para o grupo que ela está trabalhando. O cuidado deve ser redobrado com os grupos ligados a Sarney".

Independentemente da veracidade ou não deste texto, em recente entrevista de Aécio Neves (PSDB), quando perguntado se o PMDB e Sarney comporiam sua base de apoio caso ele fosse eleito, o tucano deu uma resposta em cima do muro, dizendo que não fariam parte do núcleo central do governo.

Na entrevista dá para perceber uma preocupação do tucano em desvencilhar-se da imagem de proximidade com o senador José Sarney (PMDB), hoje em palanque oposto, mas com quem teve uma longa história de relacionamento político.

Ao fim da ditadura em 1985, o PMDB da época lançou a candidatura de Tancredo Neves, avô de Aécio, a presidente ainda em eleições indiretas pelo colégio eleitoral. Dissidentes do PDS, partido de apoio à continuidade civil da ditadura, criaram o PFL e Sarney foi escolhido vice. Tancredo adoeceu, faleceu, e Sarney tornou-se presidente.

Antes da missa de 30º dia de Tancredo, no dia 14 de maio de 1985, o Diário Oficial da União publicava decreto do então presidente José Sarney nomeando um jovem recém-formado de 25 anos para Diretor de Loterias da Caixa Econômica Federal. Era Aécio Neves.

O decreto era assinado também pelo então ministro da Fazenda, atual senador Francisco Dornelles (PP-RJ), primo de Aécio.

A nomeação política, e com nepotismo, do inexperiente Aécio Neves há 29 anos para um cargo tão alto, em uma espécie de primeiro emprego, desconstrói todo o discurso do tucano sobre gestão, meritocracia, aparelhamento político do estado, e outros bordões que os tucanos gostam de dizer, mas não praticam.

Por isso, o relatório divulgado pelo Partido Pirata pode ser ou não verdadeiro, mas a preocupação em não associar o nome de Aécio ao de Sarney faz sentido, pois traz de volta um passado que os tucanos preferem manter abafado, longe do conhecimento e da memória do grande público.

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As duas caras de Aécio, recuos para inglês ver

Aécio com Armínio Fraga (à sua direita) e João Dória Jr., do “Cansei”. Alguma dúvida sobre a sua real cara?
O senador Aécio Neves, candidato do PSDB à presidência da República, é um camaleão em busca de votos.

Sem convicções realmente democráticas, ele apela apenas ao “marketing político”.

Nos últimos meses, foi possível flagrarmos alguns exemplos desse comportamento.

O mais escrachado foi em decorrência dos xingamentos à presidenta Dilma pelos VIPs do camarote do Itaú na abertura da Copa do Mundo, no Itaquerão, em São Paulo.

Aécio disse: os xingamentos foram a resposta à “arrogância” da presidenta.

Maciçamente a sociedade rechaçou os xingamentos. Foram um tiro no pé da elite brasileiros e de setores reacionários da mídia brasileira.

Aécio, então, provavelmente orientado por seus marqueteiros, repentinamente voltou atrás. Afirmou que críticas não devem “ultrapassar limites do respeito”.

Esse ziguezague mostra bem os dois Aécios: o que caminha junto com a direita brasileira e internacional aquele que, ao perceber o custo político-eleitoral da estratégia, recua.

Isso ficou bem claro anteriormente quando, em encontro com empresários, Aécio disse a Mônica Bérgamo, da Folha de  S. Paulo: “estou preparado para [implementar] decisões impopulares”.

Nessa mesmo matéria, Aécio e seu guru econômico, o ex-presidente do Banco Central de FHC, Armínio Fraga, foram muito claros sobre a necessidade de implantar medidas contra a população.

Diante dos ataques de seus adversários, Aécio voltar atrás. Mas de mentira.

Em entrevista recente ao Estadão, Armínio Fraga, que é o coordenador do programa econômico de Aécio,  diz que deve ser revista a política para o salário mínimo, reduzindo os seus aumentos, que provocará menor consumo e terá impactos no crescimento do PIB brasileiro.

Armínio Fraga defende também criar um teto para o gasto público e, assim, aumentar o superávit primário e cortar gastos, muito provavelmente nas áreas sociais, como fez no governo Fernando Henrique Cardoso. Além disto, pensa em diminuir o papel dos bancos públicos, reduzindo o crédito e levando o país à recessão.

O fato simbólico de Aécio ter entrado de mãos dadas com FHC na convenção tucana sinaliza bem como será o seu eventual governo: uma continuidade das políticas neoliberais que quase arruinaram o Brasil nos anos 90.

O governo FHC, para quem não se lembra, aumentou brutalmente a carga tributária, não gastou nas áreas sociais, ampliou o desemprego e quebrou três vezes o Brasil.

Portanto, muito diferente do que se vê hoje, em que mesmo enfrentando o sexto ano da maior crise internacional, o Brasil ainda se aproxima do pleno emprego e gera milhões de empregos.

Nesse sentido, que declarações de Aécio que valem?

As primeiras manifestações, claro, e não os recuos, para inglês ver.

Elas expressam com clareza a linha ideológica neoliberal e a prática política do governo FHC, que concorda em transformar a política e as eleições em partida de futebol e aprofundar o clima de ódio que vê nas redes sociais.

É terrível um candidato à presidência achar normal a agressão de baixo calão à sua adversária e sinalizar que nas eleições teremos um vale tudo.

Esta tragédia é reforçada com a nova declaração de Aécio que sinaliza para os partidos da base aliada “sugarem tudo” [de Dilma] e depois passarem a apoiá-lo.

Esta frase mostra que Aécio, sempre querendo parecer como paladino da moralidade, aprova as ações suspeitas e aceita a possível imoralidade com recursos públicos.

Ainda tem dúvida sobre a cara que vai um eventual governo Aécio?

Antônio de Souza
No Viomundo
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Depois de 12 anos, O Globo publica dados sobre avanços dos governos Lula e Dilma


Num esforço para desqualificar Lula, jornal revela aos leitores 13 números que a imprensa tenta esconder

O jornal carioca publicou, sábado (28), reportagem que reproduz afirmações do ex-presidente Lula, feitas em palestra para dirigentes das Câmaras de Comércio dos países europeus (Eurocâmaras), na última terça-feira.  O texto tenta desqualificar parte dos dados que Lula apresentou sobre o desenvolvimento econômico e social do país nos últimos anos.

Além de não alcançar seu objetivo, o jornal acabou publicando uma série de indicadores positivos sobre os doze anos de Governo Democrático Popular – que de outra forma não chegariam ao conhecimento de seus leitores. O leitor do Globo ficou conhecendo pelo menos 13 dados que confirmam  os avanços do Brasil nesse período:

1)    o salário mínimo teve aumento real de 72% nesse período;

2)    o investimento público em educação passou de 4,8% para 6,4% do PIB;

3)     o Prouni levou mais de 1,5 milhão de jovens à universidade;

4)    a quantidade de brasileiros viajando de avião passou de 37 milhões por ano, para 113 milhões por ano;

5)     a produção de automóveis no país dobrou para 3,7 milhões/ano;

6)     o fluxo de comércio externo passou de US$ 107 bilhões para US$ 482 bilhões por ano;

7)     o PIB per capita saltou de US$ 2,8 mil para US$ 11,7 mil;

8)    a população com conta bancária passou de 70 milhões para 125 milhões;

9)    as reservas internacionais do país, de US$ 380 bilhões, correspondem a 18 meses de importações, o que fortalece o Brasil num mundo em crise;

10)  ao longo da crise mundial o Brasil fez superávit fiscal de 2,58% ao ano, média que nenhum país do G-20 alcançou;

11)    os financiamentos do BNDES para a empresas têm inadimplência zero;

12)   a dívida pública bruta do país, ao longo da crise, está estabilizada em torno de 57% (embora o jornal discorde desse fato)

13)    há 10 anos consecutivos a inflação está dentro das metas estabelecidas pelo governo

O titulo da matéria é “Lula usa dados errados em palestra para empresários”. No esforço para justificar o título, O Globo encontrou dois “deslizes”, numa palestra que durou 90 minutos:

     1) em 84% dos acordos sindicais realizados nos últimos anos foram obtidos reajustes acima da inflação, e não em 94%, como disse Lula. Somando acordos que incorporam o resultado da inflação, o índice sobe para 93,2%. No tempo dos tucanos, os sindicatos abriam mão de vantagens, e até do reajuste da inflação, para evitar mais demissões.

     2) o Brasil é o terceiro maior exportador de alimentos do mundo, depois da União Europeia e EUA, de acordo com a OMC, e não o segundo, como disse Lula na palestra. O Globo lista separadamente os países da União Europeia por porto, o que faz da pequena Holanda o segundo maior exportador de alimentos do mundo. Ainda vamos chegar lá, porque nossa agricultura é a mais produtiva do mundo e o crédito agrícola passou de R$ 26 bilhões para R$ 156 bilhões em 12 anos.

A reportagem do Globo também cometeu seus “deslizes”, mesmo tendo sido alertada com documentos oficiais apresentados por nossa assessoria:

    1) O Brasil foi, sim, o 5º maior destino de investimento externo direto (IED) no mundo em 2013, conforme disse Lula. O dado correto consta do Relatório de Investimento Mundial 2014 da UNCTAD, divulgado em junho. Este relatório corrigiu a previsão anterior do IED no Brasil em 2013, que era de US$ 63 bilhões, quando na realidade foi superior a US$ 64 bilhões. O Globo reproduziu o dado errado, que deixava o Brasil na sétima posição.

     2) O ajuste fiscal determinado pelo governo nos anos de 2003 e 2004 alcançou, sim, 4,2% do PIB, conforme Lula afirmou na palestra. Na verdade, foi de 4,3% em 2003 e 4,6% em 2004, de acordo com a metodologia adotada pelo Banco Central naquele período. O Globo adotou a metodologia atual, que exclui do cálculo o resultado das estatais, e acabou contestando uma verdade histórica.

    3) O Brasil é, sim, a segunda maior economia entre os países emergentes, depois da China, como disse Lula. O PIB brasileiro em dólares correntes, de acordo com a Base de Dados Mundiais do FMI (junho 2014), é de US$ 2,242 trilhões, superior ao da Rússia (US$ 2,118 trilhões) e ao da Índia (1,870 trilhão). O Globo prefere usar o critério de paridade por poder de compra (PPP), que ajusta os preços internos de cada país, eleva o PIB da Rússia e triplica o da Índia. Mas uma plateia de investidores, como a da Eurocâmaras,  não está interessada em comparar o custo da Coca-Cola em cada país: quer saber qual economia é mais forte em moeda internacional, e isso o PPP não informa.

    4) A dívida pública bruta do Brasil está, sim, estabilizada em torno de 57% do PIB desde 2006, como afirmou Lula. O Globo tomou como base o indicador de 2010 para afirmar, equivocadamente, que “no governo Dilma a dívida bruta subiu”. O ex-presidente estava se referindo ao período da crise financeira mundial. A dívida bruta era de 56% do PIB em 2006, subiu para 63% em 2009,  primeiro ano da crise, e desde então oscila em torno dos atuais 57,2%. Isso é melhor visualizado no gráfico acima.

Todos cometem erros, como bem sabe O Globo. Apesar dos “deslizes” cometidos na reportagem de sábado, é muito importante que O Globo e outros jornais de circulação nacional passem a publicar os dados sobre os avanços sociais e econômicos do Brasil. Dessa forma, seus leitores terão acesso às informações necessárias para compreender como o e por que o Brasil mudou para melhor em 12 anos.

Assessoria de Imprensa do Instituto Lula
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As 13 previsões mais catastróficas, e furadas, sobre a Copa no Brasil

É hora de relembrar, com algumas boas gargalhadas, as previsões mais pessimistas e catastróficas feitas por cartomantes de plantão que previram o caos.

A Copa do Mundo não resolveu e não irá resolver todos os problemas do país. Aliás, nem é esta a função de um evento esportivo privado. Mas que o mundial atrai turismo e investimentos externos, não há mais dúvidas. Como também não há nenhuma de que ele mexe com autoestima de um país incentivado durante séculos a cultivar um inapropriado “complexo de vira-latas”!

Por isso, agora que o sucesso do evento já é reconhecido em todo o mundo, que o país já provou que pode ser organizar uma bela copa e que os turistas e os investimentos estrangeiros continuam chegando, é hora de dar boas gargalhadas com previsões mais pessimistas  feitas pelas cartomantes de plantão que tanto torceram contra a realização do mundial.

Das adivinhações às avessas do mago Paulo Coelho à mudança de planos da cineasta que fez sucesso afirmando que não viria ao Brasil, dos prejuízos contabilizados pelo tucanato ao delírio do protesto do chuveiro no “modo quentão”, do mau-humor da imprensa estrangeira à campanha permanente da Veja, confira as 13 previsões mais catastróficas — e furadas — sobre a Copa do Mundo no Brasil!

1 — O mago Paulo Coelho: “A barra vai pesar na Copa do Mundo”

Em entrevista à revista Época, publicada em 5/4/2014, o mago, guru e escritor Paulo Coelho, que mora na Suíça, disse que não viria ao Brasil assistir aos jogos da Copa do Mundo nos estádios, apesar de ter sido presenteado com os ingressos pela FIFA. “A barra vai pesar na Copa. A Copa será um foco de manifestações justas por um Brasil melhor. Os protestos vão explodir durante os jogos porque vai haver mais gente fora do que dentro dos estádios”, afirmou.

O Mago, que “previra” que o Brasil ia ganhar a Copa das Confederações, evita arriscar o resultado para o mundial. E apresenta certezas já desconstruídas pela realidade, como a de que o Brasil deveria disputar a final com a Espanha, eliminada na 1ª fase: “Agora não sei. Certamente o Brasil irá à final com a Alemanha ou a Espanha, duas seleções fortíssimas nesta Copa. A Argentina não. A Suíça vai surpreender. Eu ousaria dizer que a Suíça vai para as quartas. No futebol, você tem que ser otimista, não tem outra escolha. O Brasil tem chances de não ganhar”.

2 — Arnaldo Jabor: “A Copa vai revelar ao mundo a nossa incompetência”

No dia 6/6/2014, às vésperas da abertura da Copa, o cineasta Arnaldo Jabour, em comentário para a Rádio CBN, ainda insistia no pessimismo em relação à Copa, com o objetivo claro de influir no processo eleitoral de outubro. “Nós estamos jogando fora a imensa sorte que temos, por causa de dogmas vergonhosos que não existem mais. Estamos antes do Muro de Berlim e a Copa do Mundo vai revelar ao mundo a nossa incompetência”, afirmou.

3 — Veja: “Por critérios matemáticos, os estádios da Copa não ficarão prontos a tempo”

Em 25/5/2011, a Veja previu o fracasso da Copa do Mundo no Brasil. E com a ajuda da matemática, uma ciência que se diz exata desde tempos imemoriais. Na capa, a data da logo do mundial era substituída por 2038. O intertítulo explicava: “Por critérios matemáticos, os estádios da Copa não ficarão prontos a tempo”.

De lá para cá, foram muitas outras matérias, reportagens e artigos anunciando o fracasso do mundial. E mesmo com o início dos jogos, com estádios prontos e infraestrutura à altura do desafio, a revista estampou, na edição desta semana, uma nova catástrofe iminente: “Só alegria até agora - Um festival de gols no gramado, menos pessimismo nas pesquisas, mais consumo, visitantes em festa e o melhor é aproveitar, pois legado duradouro, esqueça”.

Melhor mesmo é torcer para que, quem sabe até 2038, a Veja aprenda a fazer jornalismo!


4 — Cineasta brasileira radicada nos EUA: “Não, eu não vou para a Copa do Mundo”

Em junho de 2013, a cineasta brasileira Carla Dauden, radicada em Los Angeles, nos Estados Unidos, fez sucesso na internet com o vídeo “No, I’m Not Going to the World Cup” (“Não, eu não vou para a Copa do Mundo”), que alcançou quatro milhões de curtidas. Mas antes mesmo da bola começar a rolar nos gramados brasileiros, a ativista já era vista circulando pelo país.

No Twitter, ela justificou a abrupta mudança de planos: “Não vim para ver a Copa, vim para falar dela. A Copa nunca vai ser a mesma para os brasileiros. As pessoas não vão se esquecer do que acontecerá por aqui”, diagnosticou, antes da abertura. A frase, de fato, parece fazer sentido. Mas por motivos opostos do que aqueles que a ativista advoga!

5 — Protesto do chuveiro no “modo quentão” vai causar apagão!

Até bem pouco tempo antes do início da Copa, eram muitos os setores que insistiam no risco iminente de blackout no país, da oposição à imprensa monopolista. Um grupo de internautas, porém, levou as ameaças infundadas a sério e decidiu criar uma página no Facebook destinada a acelerar o caos: usar os jogos da Copa para provocar um apagão generalizado no Brasil e, assim, boicotar a realização do evento.

A estratégia definida foi a utilização sincronizada dos chuveiros no “modo quentão”. “Chuveiros devem ser ligados na hora dos hinos nos jogos. A carga elétrica anormal derrubará a energia em bairros, cidades, regiões, estados e o país inteiro, em efeito dominó. Acompanhem os hinos por rádio, para maior garantia de sincronização”, diz a descrição do evento que conquistou pouco mais de 4,5 mil curtidas.

Dado o fracasso do evento, a página agora é utilizada para a troca de memes contra o PT, a esquerda e as pautas sociais e progressistas!

6 — Marília Ruiz: “Vai ser um vexame. Um vexame!”

No dia 26/1/2014, a TerraTV publicou um comentário da jornalista esportiva Marília Ruiz em que ela previa que, se o Brasil conseguisse realizar a Copa, já seria uma grande vitória. A antenada comentarista até admitia que os estádios ficariam prontos. Mas sem qualidade: "Se eu sentaria o meu corpinho numa cadeira recém colocada, com um parafuso a menos? Eu não sei”.

Do alto de sua experiência em cobertura de outras copas e de um etnocentrismo latente, ela também alertava que, mesmo fazendo sua Copa após a da África, o país passaria vergonha. “Eu achei que a gente ia passar vergonha, que nós, brasileiros, que o país ia passar vergonha. Aí eu pensei, é até um alento porque a Copa do Brasil vai ser depois da Copa da África: ninguém vai lembrar muito como foi na Alemanha. Muito menos as pessoas vão lembrar como foi no Japão e na Coreia. E eu posso dizer porque estive lá. É uma vergonha ao cubo!”

Confira o comentário completo e saiba quem é que está passando vergonha!

7 — Álvaro Dias: “O país ficará com mais prejuízo do que lucro”

De todas as aves de mau agouro que bravatearam contra a realização da Copa no Brasil, o tucano Álvaro Dias, senador pelo PSDB, foi uma das mais barulhentas. Previu que o governo amargaria um prejuízo de mais de R$ 10 bilhões com a realização do evento, que os turistas não apareceriam, que os aeroportos não ficariam prontos e não dariam conta do fluxo de passageiros.


“O legado da copa do mundo me parece ser um grande fracasso. O país ficará com mais prejuízo do que lucro”, disse ele em entrevista à TV Senado, publicada no Youtube em 7/8/2013. Agora que os turistas chegaram, os investimentos estrangeiros entraram e o país tá fazendo bonito em mobilidade e infraestrutura, o senador desapareceu por completo do noticiário. Não se sabe se está esperando o evento acabar para profetizar outro apocalipse ou aproveitando as férias para curtir os jogos, como fez durante a Copa das Confederações!

8 — Ex-presidente FHC: “A Copa do Mundo como símbolo de desperdício”

Em artigo publicado no norte-americano The Wold Post, em 21/1/2014, o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso se referiu à Copa como símbolo do desperdício de dinheiro público. Tal como seu companheiro Álvaro Dias, perdeu a chance de ficar calado.  Segundo a Fipe, só a Copa das Confederações rendeu R$ 9,7 bilhões ao PIB brasileiro. A projeção de retorno da Copa é de R$ 30 bilhões. A Apex-Brasil, aproveitando a Copa do Mundo, trouxe ao Braisil mais de 2,3 mil empresários estrangeiros, de 104 países. A agência estima trazer US$ 6 bilhões em negócios para o Brasil.

9 — Redação Sport TV: do fracasso ao espírito de porco!

No Programa Redação Sport TV de 22/1/2014, o apresentador deu sonoras gargalhadas ao exibir a foto de um estádio da copa ainda sem gramado e fazer previsões catastróficas sobre o evento. Na edição de 26/6/2014, o tom mudou completamente: um outro apresentador mostrou como a imprensa internacional elogiava o evento e ouviu do entrevistado Ruy Castro: “A nossa imprensa foi rigorosamente espírito de porco antes do evento começar”.

Confira o vídeo com os dois momentos e os dois humores do Sport TV

10 — Governo alemão: “O Brasil é um país de alto risco”

Há seis semanas do início da Copa, o Ministério de Assuntos Exteriores da Alemanha divulgou um relatório pintando uma imagem desoladora do Brasil, descrito como um país ode as leis não são respeitadas e o turista corre o risco de ser roubado, sequestrado e se envolver em conflitos entre policiais e criminosos. O documento listava uma série de cuidados que os gringos deveriam tomar, incluindo atenção redobrada com as prostitutas, apontadas como membros e organizações criminosas, e vigilância contínua com os copos, para não serem vítimas de um “Boa noite, Cinderela”.

Pelo documento, até mesmo a seleção alemã estaria em perigo em terras tupiniquins. E não apenas dentro de campo. “Arrastões e delitos violentos não estão descartados, lamentavelmente, em nenhuma parte do Brasil. Grandes cidades como Belém, Recife, Salvador, Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo oferecem altas taxas de criminalidade”, ressaltava.

O Ministério ainda não divulgou relatórios sobre o número de alemães que vieram ao Brasil e o que estão achando da experiência. Mas quem circula pelas ruas brasileiras, repletas de gringos felizes e sorridentes, já sabe!

11 — Der Spiegel:  “Justamente no país do futebol, a copa poderá ser um fracasso”

Um dos principais semanários da Europa, a revista alemã estampou, um mês antes do início da Copa, a manchete “Morte e Jogos”, destacando que, justamente no país do futebol, a Copa poderia ser um fiasco, por causa dos protestos, da violência nas ruas, dos problemas do transporte coletivo, dos aeroportos e dos estádios. Praticamente um alerta vermelho recomendando que os europeus não viessem ao Brasil.

Mas os turistas vieram e estão adorando. A imprensa estrangeira também: o jornal norte-americano The New York Times, fala em “imenso sucesso”. O francês Le Monde, em “milagre brasileiro”. O espanhol El País diz “não era pra tanto” para as previsões catastróficas.  A revista inglesa The Economist,  remenda que “as expectativas, que eram baixas, foram superadas”. A própria Der Espiegel, na edição desta semana, dá destaque para a animação da torcida e admite que os protestos em massa ainda não aconteceram.

12 — Ronaldo, o fenômeno: “Da vergonha à constatação de que a Copa é um sonho”

Na véspera do início do mundial, o ex-atacante Ronaldo se disse envergonhado com os atrasos das obras da Copa. Mas, membro do Comitê Organizador Local da FIFA que é, defendeu a entidade e culpou o governo Dilma por todos os problemas. “É uma pena. Eu me sinto envergonhado porque é o meu país, o país que eu amo. A gente não podia estar passando essa imagem”, disse à Agência Reuters o cabo eleitoral e amigo do senador Aécio Neves, candidato do PSDB à presidência.

Agora, consolidado o sucesso do evento, tenta mudar o discurso. Em coletiva nesta quinta (26), procurou se justificar. "Não critiquei a organização da Copa, até porque eu faço parte dela. Disse que poderia ser muito melhor se todas as obras de mobilidade urbana tivessem sido entregues”, remendou. ”Vivíamos um clima muito tenso, com a população muito descontente. Começou a Copa, e agora estamos vivendo um sonho", concluiu.

13 —  O vira vira lobisomem de Ney Matogrosso

De passagem por Lisboa, em 11/5, Ney Matogrosso resolveu usar a Copa para criticar duramente a política brasileira na TV ATP. Só esqueceu de estudar, primeiro, os argumentos. “Se existia tanto dinheiro disponível para gastar com a Copa, por que não resolver os problemas do nosso país?”, disse ele, desconhecendo que, desde 2010, quando começaram os preparativos para a Copa, o governo já investiu R$ 850 bilhões em saúde e educação, enquanto os investimentos totais no mundial — incluindo federais, locais e privados — atingem R$ 25,6 bilhões.

Foi ácido quanto à construção dos estádios que, segundo ele, irão virar “elefantes brancos” e não serão usados para mais nada. Embolou dados, números e fatos em vários argumentos. Acabou sustentando uma visão preconceituosa sobre as classes populares. Questionado se há uma maior consciência dos pobres em exigir seus direitos, concordou: “O escândalo é tamanho que até essas pessoas param para refletir”.

Najla Passos
No Carta Maior
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Joaquim está barrando a transição no CNJ

Joaquim Barbosa ainda não completou sua vingança particular, de desmoralizar o Judiciário. Seu alvo agora é o CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

Quando estava para sair do STF (Supremo Tribunal Federal) e do CNJ, Ayres Britto aceitou a nomeação de gente de Barbosa para preparar a transição.

Na sua vez, Joaquim Barbosa não aceitou o pedido de Ricardo Lewandowski, de nomear um juiz auxiliar na Secretaria Geral do órgão, para facilitar a transição.

É sabido, internamente, que o Secretário Geral titular vai rodar. Trata-se de Fábio César dos Santos Oliveira que passou grande parte do mandato nos Estados Unidos, fazendo cursos mas recebendo pelo CNJ.

O interino é do tempo de Ayres Britto. Mas a decisão de não  aceitar um único cargo de Lewandowski foi de Barbosa.

Aliás, ninguém sabe como será o CNJ em agosto. Joaquim pediu férias em julho, e ainda não entregou o pedido de aposentadoria.

O clima é de paralisia, porque todo o pessoal dele está largando o barco, entrando tarde e saindo cedo, sem querer se comprometer com nada.

Luis Nassif
No GGN
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Copa de Todas as Elites


"Senta!" Tomei um susto quando escutei na primeira vez em que assistia a um jogo de Copa do Mundo "no campo", como dissemos, na arquibancada do jogo do Brasil, se é que se pode chamar aquela plateia de arquibancada, que no passado era de cimento batido (Maracanã) ou concreto mal finalizado (Vila Belmiro, Morumbi). "Paguei caro, senta!", insistiu o torcedor brasileiro com muito orgulho e amor.

Desde 1966, quando meu pai, que não era nada fã de futebol, levou toda a família (mulher e cinco crianças) para assistir a um Vasco e Flamengo no Maracanã, como um passeio turístico, no ano em que nos mudamos pro Rio, errou de lugar na arquibancada, nos sentou no meio da torcida do Vasco, apesar de eu estar com a camisa do Flamengo, não parei mais de ir a estádios.

Desde 1977, no histórico Corinthians e Ponte, em que pela primeira vez vi uma torcida assistir aos 90 minutos em pé, sem parar de pular e cantar, nunca mais ouvi: "Senta!".

Há tempos não se grita "senta!" nos estádios brasileiros. Há regras que nenhum estatuto escreveu, criadas pela necessidade de se organizar o caótico evento sem lugar marcado. Entre elas, a proibição de gritar "senta!" e "gol!" antes de a bola entrar. Dá azar. Como membros de uma facção criminosa, vivendo coletivamente num ambiente em que o Estado é ausente, o torcedor brasileiro criou a sua própria ética, não escrita, passada de geração em geração.

Mas a Fifa tinha razão quando exigiu que o governo brasileiro liberasse a breja dentro dos estádios, banida desde 2009. Ela sabe que tem os que vão aos jogos da Copa pensando numa balada, para quem o futebol é secundário. Estar lá já basta. Fotografa feliz um dos eventos mais disputados e caros, exibido em praticamente todos os países. Dança, canta, faz ola e coraçãozinho quando uma câmera de TV aponta. Mesmo durante um ataque perigosíssimo do time pelo qual supostamente torce.

Quem vai ao campo rotineiramente se embebeda depois. Nele, quer atenção redobrada para assistir e torcer, exigir mudanças, raça, empurrar o time, sugerir táticas, gritar por "ladrão" ou para virar o jogo e reclamar com o juiz, como o décimo segundo jogador.

Um jogo de Copa do Mundo parece um embarque para a Disney. Muitas pessoas fantasiadas seguem em fila indiana um agente com a plaquinha de uma corporação. São os convidados por patrocinadores. Plaquinhas de empresas de telecomunicação, eletrodomésticos, bebidas, cartão de crédito, erguidas por uma RP, como em aeroportos, levam seus clientes a seus assentos e camarotes. É a Copa mais Ponto MKT de todas as Copas.

"Quem é este número três?", me pergunta o cara ao lado, durante o jogo do Brasil. Quem é o número três? É o Thiago Silva, do PSG. É o capitão da Seleção. Já foi considerado o melhor zagueiro do mundo e o mais caro do mercado. Para tirá-lo do Milan, desembolsaram 42 milhões. Você não sabe quem é o Thiago Silva? O que está fazendo aqui? Tenho uma pá de amigos que daria de tudo para estar aqui. Tentaram de todas as maneiras um ingresso, passaram madrugadas no site da Fifa, e vo-cê me per-gun-ta quem é o número três?! Só falta gritar "senta"!?

Um casal reclama que tem gente fumando: "Olha esse vício! Não precisa matar os outros!". O fumante não se altera. O casal pede minha cumplicidade e que eu chame a segurança. Informo que é permitido fumar. Comentam irônicos que a Fifa permitiu tudo. Não foi a Fifa, mas a lei n.º 13.541, que proíbe o consumo de "cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos ou de qualquer outro produto fumígeno, derivado ou não do tabaco" em locais públicos, mas estranhamente não em estádios, conhecida como Lei AntiFumo.

De repente, num lance de perigo, vejo os braços se levantarem. O que é isso? O que tá acontecendo?! Abaixem estes braços!

Era a ola. Os caras fazem a ola durante um lance de ataque. Não prestam atenção no jogo? Lá vem ela de novo, pelo amor de Deus, roubaram a bola, é contra-ataque do Brasil, abaixem estes braços, agora não! Olha o gol!

A jogada rola de um lado, mas a maioria olha para o outro. É que a spidercam, ou skycam, a câmera voadora, novidade por aqui, aparece com um drone na frente deles, para levá-los ao telão e delírio. Nem percebem que o Brasil quase levou um gol.

Depois, li relatos de gente reclamando das instalações. No banheiro de mármore da Arena Corinthians, tem sabão em líquido, que cai automaticamente de uma torneirinha, máquinas que secam as mãos com ar quente e muitos faxineiros. No Pacaembu, só existe banheiro no nível do gramado. Sujeito tem que descer toda a arquibancada. Na maioria dos banheiros dos antigos estádios, há poças e poças a serem desviadas. Tampas, sabonetes e papel nem para as autoridades.

Reclamaram da alimentação. De fato, a fila era grande, mas era uma fila. Nos jogos normais, nos amontoamos em torno de uma grade em que uma infeliz, numa gaiola, nos atende sob gritos, em que só tem churros, pipoca, sorvete e dogão, que, todos sabem de cor, custam R$ 4. Temos 15 minutos para arrumar qualquer coisa e correr para um abraço.

Quem acompanha pela TV, pode ter certeza: entre os milhares que lotam os jogos da Copa, está a elite de seus países. Tem tanta área VIP, que o cheiro de champanhe predomina sobre o de Chanel. São ganeses e camaroneses milionários ou membros da elite que governa o país, iranianos e mexicanos que não conseguiriam explicar a origem de seus rendimentos. Os argentinos, chilenos e holandeses parecem autênticos boleiros, já americanos, alemães, franceses, não. Aqueles costa-riquenhos são os riquinhos de lá.

Quem veio, tem conexões, contatos, esquemas ou grana, muita grana. Os ingressos são caríssimos. Para comprá-los, há um labirinto a ser percorrido num site confuso, em inglês, que vive travando. A viagem ao Brasil não é barata. A estada, os custos com alimentação e transporte...

Copa do Mundo é também um evento para todas as elites fazerem coraçãozinho para as câmeras, independentemente do resultado do jogo. Uma gente bem estranha...

Marcelo Rubens Paiva
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Mudaram o 'Não vai ter Copa' pelo 'Não vai ter Hexa'


Eles não esquecem, não perdoam e não aprendem. E não desistem. Para a nossa mídia familiar e os coxinhas tucanos da elite que vão aos estádios da Copa, como mostra a Folha deste domingo, o Brasil simplesmente não pode dar certo, nem dentro nem fora do campo.

Sem jogar nenhuma maravilha, a seleção brasileira vinha fazendo sua melhor partida até aqui, contra o Chile, neste sábado, no Mineirão, até marcar o primeiro gol. Parecia até que seria fácil a classificação para as quartas de final. De repente, numa bobeada grotesca de Hulk, que deu de presente o gol de empate para La Roja, até então assustada em campo, mudou tudo. A nossa torcida chique silenciou, a seleção de Felipão se perdeu, e os chilenos tomaram conta da festa.

Nas praias do Nordeste, os bugueiros (não confundir com blogueiros) costumam perguntar ao turista se prefere fazer os passeios pelas dunas com emoção ou sem emoção. Para nós, ninguém perguntou nada, mas a teimosia do nosso técnico em não mexer no time quando as coisas não estão dando certo, mantendo dois laterais que não marcam nem atacam, e deixam avenidas às suas costas, um meio de campo sem criatividade e o cone Fred estático no meio do ataque, fez do jogo um sofrimento sem fim até a cobrança do último pênalti.

Vejam como é a vida: pois foi esta mesma teimosia mostrada por Felipão ao manter Julio César no gol, contra a vontade de 10 entre 10 comentaristas e torcedores, porém, que acabou sendo o principal responsável pelo Brasil garantir a vaga para a próxima fase. Em lugar de Neymar, que joga numa solidão danada, o herói desta vez foi Julio César, o goleiro crucificado pela nossa eliminação no jogo contra a Holanda, na Copa de 2010.

Quem poderia imaginar uma reviravolta dessas? Só conheci uma pessoa, além de Felipão, que defendeu Julio César antes e durante o jogo, a minha amiga Ana Paula Padrão, com quem assisti ao jogo ao lado de outros amigos aqui no bar da esquina. Até o Sebastian, meu primo alemão que vive nos Estados Unidos e está adorando o Brasil, acabou sofrendo junto, cada vez que errávamos mais um passe e o time simplesmente não conseguia chegar ao gol do Chile. "Eu não disse?" comemorou a Ana Paula ao ver Julio César fazer uma defesa impossível e depois defender dois pênaltis.

Se já não era muito grande a confiança na conquista de mais um título porque esta Copa revelou ótimas seleções, como a da Colômbia, que estão jogando um futebol melhor do que o nosso no momento, agora a urubuzada da imprensa deitou e rolou diante das dificuldades que encontramos, depois de muita emoção, para seguir em frente na Copa. E tem graça futebol sem surpresas e emoções?

Após passar o ano inteiro jogando no "Não vai ter Copa" e batendo pesado no governo, que seria incapaz de organizar um evento como esse sem colocar em risco os torcedores nativos e as seleções visitantes, além dos cofres públicos, eles acabaram se rendendo à grande festa em que se transformou esta Copa no Brasil, e até já estão fazendo autocríticas envergonhadas sobre o erro das suas previsões apocalíticas. Agora, com a maior cara de pau, simplesmente colocam a culpa na "imprensa estrangeira", como se não tivessem sido eles próprios que alimentaram o noticiário negativo desde que o Brasil foi escolhido, sete anos atrás, para sediar a Copa.

Como se dissessem, tudo bem, a Copa é um sucesso, mas vocês vão ver a ressaca que virá depois, agora jogam tudo nas fragilidades da nossa seleção, mudando o discurso para "Não vai ter hexa". Felipão pode até ter um estalo e acertar o time para o próximo jogo que eles vão continuar torcendo contra e anunciando o fim do mundo. Se fora de campo tudo está funcionando muito bem, então dentro do campo tem que dar tudo errado.

Ganhar ou não o hexa pode depender de mil coisas, inclusive da sorte na cobrança de pênaltis e das virtudes de adversários cada vez mais fortes daqui para a frente. Como disse um amuado Felipão na véspera do jogo, se perdermos, não vai ser nenhuma tragédia, e a vida vai seguir em frente. Só uma certeza eu tenho: para quem jogou tudo no caos para desgastar o governo e ficou até com vergonha do Brasil, no entanto, esta Copa já foi perdida. Eles parecem ter nascido para perder.

Que venha a Colômbia!

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Saiu o artigo mais estúpido sobre a Copa e o futebol — e não é de quem você está pensando

Ela
Saiu o artigo mais estúpido sobre a Copa do Mundo e o futebol — e olha que a concorrência é duríssima.

Para chegar ao primeiro posto, a celebridade americana de extrema direita Ann Coulter — advogada, colunista, escritora, apresentadora de TV, loira, alta, uma espécie de Sheherazade albafetizada —, caprichou na caricatura, na ignorância e na tentativa inútil de fazer graça.  O artigo é tão absurdo que você se pergunta se não foi produzido no Coxinheitor, o gerador de textos que junta clichês conservadores.

Não é novidade que protoconservadores americanos odeiam o futebol, considerado uma aberração no chamado “excepcionalismo” dos EUA, coisa de imigrantes, pobres, liberais etc. Mas Coulter, num desespero para chamar a atenção no meio da histeria e do ódio (não é só aqui), se superou. Seria uma peça satírica, não fosse ela mesma uma piada.

“Qualquer interesse no futebol só pode ser um sinal de decadência moral de uma nação”, diz ela, se fingindo chocada com a popularidade da Copa nos Estados Unidos.

E então vem um apanhado de lixo pseudosociológico:
  • A realização individual não é um grande fator no futebol.
  • No futebol, a culpa é dispersa e quase ninguém pontua. Não há heróis, não há perdedores, não há responsabilidade e não se machuca a frágil auto-estima de nenhuma criança.
  • Todo mundo corre para cima e para baixo do campo e, de vez em quando, uma bola acidentalmente cai dentro do gol. Eu já estou dormindo.
  • O beisebol e o basquete apresentam uma ameaça constante de desgraça pessoal. No hóquei, há três ou quatro brigas por jogo. Depois de um jogo de futebol, cada jogador recebe uma fita e um suco.
  • Você não pode usar as mãos no futebol. O que diferencia o homem dos animais menores, além de uma alma, é que temos polegares opositores. Nossas mãos podem segurar as coisas. Aqui está uma ótima idéia: vamos criar um jogo em que você não tem permissão para usá-las!
  • O futebol é como o sistema métrico, que os liberais também adoram porque é europeu. Naturalmente, o sistema métrico surgiu a partir da Revolução Francesa, durante os breves intervalos quando não estavam cometendo assassinatos em massa na guilhotina.
Kiko Nogueira
No DCM
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Coitada da Presidenta Dilma Rousseff


Coitada da Presidenta Dilma Rousseff,

Ela praticamente não existe na velha mídia;

Se depender da velha mídia, o povo fica

Sem saber o que pensa a Presidenta, o

Que ela sente, qual a opinião dela, a

Respeito dum jogo tão sofrido, como o

De hoje, entre Brasil e Chile; a velha

Mídia faz questão de ignorar a nossa

Presidenta, com uma falta de respeito,

Uma falta de educação, uma má vontade,

Que não há justificativas em lugar algum;

Quem é que não gostaria de saber onde

A Presidenta viu o jogo? com quem ela viu

O jogo? o que ela pensou a respeito do

Jogo? como torceu? sofreu? sentiu a dura

Batalha do Brasil dentro de campo contra o

Chile? sinto-me indignado com a covardia

Dos meios de comunicação do país, o

Tratamento dispensado contra Presidenta

Dilma Rousseff, também é uma forma de

Violência e preconceito contra a mulher

Brasileira; o Brasil nunca fará justiça de

Fato, e nunca combaterá de verdade a

Violência contra as mulheres, enquanto

Os meios oficiais permitirem uma agressão

Tão vergonhosa, contra a primeira mulher

Eleita legitimamente, para a Presidência

Da nação; nos tempos de guerras de George

Bush, no Iraque, todo dia ele invadia a

Minha tela de TV, inclusive a orar, antes de

Despejar toneladas de bombas no povo

Iraquiano; assassinos sanguinários a

Metralhar civis, têm vaga garantida no

Horário nobre; já a nossa guerreira da paz,

Que quer preservar vidas, gerar empregos,

Moradias, distribuir renda, garantir saúde,

Segurança, solidariedade, não encontra

Nos veículos de informação, o mesmo

Espaço dedicado aos facínoras; deixa estar,

Presidenta Dima, o povo estará do seu lado.

Ivanovitch Medina
No Blog do Ivanovitch2
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Quem já perdeu a Copa

Fantasmas do anti-Copa eram tão grotescos que a maioria dos brasileiros encara encontro com a realidade com alegria

O Brasil não ficou melhor nem pior com o Mundial.

Mas, acima de tudo, a Copa de 2014 está sendo, para os brasileiros, uma experiência cultural confortadora. Não vamos ser completamente ingênuos. A partir da versão que era preciso aguardar desastres inevitáveis e inúmeras provas de incompetência durante o Mundial, o Imagine na Copa e o Anti-Copa só tentavam nos convencer de que um grande fracasso se aproximava. Deu errado.

A crítica foi tão exagerada, tão desmedida, que a realidade mostrou-se muito melhor do que se queria imaginar. O choque foi muito grande. Equivale a acordar de um pesadelo.

Num tempo de realidades globalizadas, o Mundial permitiu aos brasileiros conhecer o novo lugar do país entre as nações do mundo. E eles estão gostando daquilo que podem enxergar.

Por muito tempo, fomos ensinados a só gostar daquilo que se via lá fora. Nem futebol tinha importância porque “só” era popular no Brasil e outros países parecidos, pobres, pretos, periféricos...

Hoje, o país sedia um campeonato que mobiliza uma plateia que formará uma audiência somada de 20 bilhões de bilhões de pessoas no mundo inteiro, ao longo de todas as partidas. Até os norte-americanos querem feriado para assistir a Copa.

É isso: o Mundial mostra aos brasileiros que eles tem motivos para gostar de seu país. Talvez ajude a diminuir, um pouquinho, quem sabe, nosso complexo de vira-lata.

Era isso, claro, que se temia e se queria impedir.

Quando a Copa chega às oitavas-de-final, e 75% das partidas foram disputadas, com recorde de gols marcados em mais de meio século, a única dúvida sobre o Mundial envolve aquela angústia maravilhosa que vai nos acompanhar até o apito final, em 13 de julho, no Maracanã: qual seleção será campeã?

É bom que seja assim.

Estamos falando de futebol, não de política. Quem não soube distinguir as proximidades e distâncias destes universos, perdeu a Copa na partida inaugural, aquela do VTNC, e foi eliminado sem nenhum ponto ganho.

Os brasileiros aproveitam cada instante para festejar e celebrar o Mundial e as alegrias que proporciona. Cantam, bebem, se esborracham. Dispensando intermediários de imensa desfaçatez e inacreditável ganância, namoram à vontade e beijam com gosto. Adoram feriados. Aplaudem a beleza dos estádios, mais confortáveis e seguros do que jamais visto no país. Aproveitam aeroportos, onde atrasos e cancelamentos de voos estão num padrão aceitável para a ocasião.

Pode-se encontrar até taxistas que falam bem da Copa, o que vai contra o código de ética de uma categoria habituada a reclamar de tudo.

Concordo com quem reclama do preço dos ingressos, que são altíssimos para um país de renda como o nosso. A queixa é certíssima. Sempre será possível pedir preços mais em conta mas é razoável lembrar que não se pode querer um espetáculo milionário, com fortunas para suas estrelas, de tamanho global, com preço de quermesse junina. Um ingresso para um jogo da Copa nunca vai custar barato.

O futebol tornou-se uma parcela dos investimentos de marketing de grandes empresas globais, que moldam o capitalismo no mundo inteiro.

Mesmo assim, e isso tem um divertido aspecto surrealista, não custa lembrar quem foram os campeões do “anti-Copa”, os influentes, aqueles que contam, que colocaram a coisa no debate: grandes campeões da iniciativa privada, porta-vozes das causas mais reacionárias. Não custa lembrar que, em 14 de janeiro, você podia ler o seguinte apelo nas páginas de dois dos mais tradicionais jornais do país:

“A maior Copa de todos os tempos na frase de Dilma, é a Copa mais cara da história. A festa macabra da Fifa, bancada com dinheiro público, simboliza a inigualável soberba do lulismo. Que as pessoas voltem às ruas desde a hora do apito inicial e, no entorno das arenas bilionárias, até a cerimônia de encerramento, exponham ao mundo a desfaçatez dessa aliança profana entre os donos do negócio do futebol e os gerentes dos "negócios do Brasil". Que a polícia trate com urbanidade os manifestantes — e com a dureza da lei os vândalos mascarados.”

Não há nada de errado em criticar investimentos da Copa. Ninguém é obrigado a achar que um país deve sediar um campeonato mundial de futebol. Na época devida, 2007, eu também me perguntei: por que? Para que?

Depois da crise de 2008, a Copa revelou-se uma ideia mais útil do que parecia. Ajudou a economia a crescer — 0,5% do PIB anual — e a criar empregos. O debate mudou: se é verdade que hoje o país cresce menos do que se gostaria, a média de crescimento seria ainda pior sem a Copa.

No debate político de fundo, que se prolongará até as urnas de 2014, investir na Copa foi uma forma de evitar a recessão e rejeitar a austeridade que derrubou a maioria dos países da Europa. Simplificando: Neymar, Messi & os outros ajudaram as ideias de John Maynard Keynes — economista que ensinou o capitalismo a criar empregos e crescimento com apoio do Estado — a entrar em campo.

Será por isso que o Anti-Copa ganhou tanta força? Difícil negar, ainda que se tratava, vamos combinar, de uma ideia que já nasceu condenada a morte.

Baseava-se no desprezo por um sentimento profundo do povo, que é o gosto pelo futebol, que ajudou os brasileiros a construir sua nacionalidade, em particular depois da Copa de 1958, onde se cantava que “com o brasileiro não há quem possa.” (E nós sabemos como a turma anti-Copa, que desembarcou aqui de caravelas, considera o nacionalismo verde-amarelo um atraso, um “populismo”). A única forma de assegurar alguma vitalidade ao ambiente anti-Copa era produzir informações parciais e manipuladas, o que implicava em esconder dados reais sobre os estádios, sobre investimentos em educação, aeroportos e até sobre a isenção fiscal combinada com a FIFA.

Não vamos falar do tratamento generoso que todas as manifestações — anarquistas, stalinistas, tucanas, liberais e fascistas — receberam nos últimos meses. Até vídeos em inglês, com legendas em português!, foram recebidos com simpatia e calor.

E me diga quantas vezes você pode ler manifestações a favor da Copa. Estou falando, e este é um exemplo, do jornal do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá onde se diz o seguinte: “Não seremos contaminados pelo pessimismo dessa elite que apodrece a olhos vistos, porque nossa alegria de ser brasileiro é imbatível.” O texto lembra que não” desanimávamos quando éramos submetidos a uma inflação de mais de mil por cento por ano, quando o Brasil era governado pelos militares para concluir que “nossa vida é só alegria. E trabalho, muito trabalho. ”Na semana passada, o mesmo boletim do sindicato dizia na manchete: “Mostramos nossa alegria e capacidade de trabalho para o resto do mundo.” Detalhe: o sindicato é ligado a Força Sindical, aquela central que promete apoio a oposição.

Na Folha deste sábado, 28 de junho, Ruy Castro fala do tempo em que “Não ia ter Copa”. Chama manifestantes que tentavam impedir a Copa de “desajustados mentais” e reconhece:

“Nós, da mídia, fomos essenciais para esse pessimismo, denunciando a Fifa como Estado invasor, o fracasso na preparação da infraestrutura exigida para receber os visitantes e a diferença entre o custo estimado dos estádios e o custo real — embora não me lembre de nenhuma reportagem dizendo para onde foi o dinheiro. O 'Imagina na Copa!', que começou como uma brincadeira, tornou-se a sentença para a nossa inabalável vocação para o subdesenvolvimento.”

Pois é, meus amigos.

Paulo Moreira Leite
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Quem vai pagar o "prejuízo" da Copa?

"Por causa de todo aquele clima que havia antes, muita gente deixou de se preparar como devia, ficou com medo de investir e ter prejuízo. Pequenos comerciantes, por exemplo, poderiam estar faturando muito se tivessem acreditado que a Copa ia ser assim tão bacana."
Quem me disse isso, talvez não exatamente nestas palavras, foi um amigo querido, cuja família tem um posto de gasolina em São Paulo. Assim como milhares de outros pequenos e médios empresários das grandes cidades brasileiras, ele também ficou constrangido pelo clima do "não vai ter Copa", poderia ter apostado no sucesso do evento, investido mais, criado, por exemplo, eventos, atrativos ou promoções inspirados na Copa para aumentar a clientela.
Mas não fez isso. Não ia ter Copa, lembram?
Algum caro economista aí é capaz de me dizer como faço para calcular o prejuízo que os arautos do pessimismo e do mau humor, 'black blocks' e cia. à frente, causaram ao país?
Por conta de tudo o que não foi feito, tudo o que deixou de ser investido para gerar receita, com tudo o que se poderia ter sido oferecido, vendido para torcedores, turistas, comitivas e quetais, tendo como temática a Copa, e não foi.
Quanto?
Apenas para citar um exemplo: toda esta zona que esta acontecendo na Vila Madalena, em São Paulo, não poderia ter sido evitada se Prefeitura, comerciantes, produtores, artistas, empreendedores em geral desta cidade não tivessem sido contaminados pelo vírus do "não vai ter Copa" e pudessem ter replicado em diversos outros pontos de São Paulo dezenas de "vilas madalenas" com estrutura e opções para que o povo tivesse onde torcer, comemorar, xavecar, encher a cara, que seja, sem criar o transtorno que está ocorrendo num bairro só?
Quantas praças, campos, clubes, ONGs, associações, terreiros, ruas de comes e bebes, casas noturnas, salões de festas, quantas e tantas localidades poderiam ter sido envolvidas em ações para se criarem polos em que a Copa fosse devidamente curtida, aproveitada e explorada comercialmente de uma maneira saudável para todos...
Outro exemplo? O pessoal de turismo, que se amuou e não investiu o que podia na preparação de roteiros, alternativas, pacotes e oportunidades para as centenas de milhares de turistas que estão por aqui não ficassem à toa, pudessem aproveitar melhor o país, seus encantos, suas possibilidades fantásticas, movimentando ainda mais a economia?
Mas não ia ter Copa, e ficou todo mundo meio paralisado, esperando uma tragédia que não houve, um caos que está longe de ocorrer, o vexame inexistente, perdendo um bonde que não vai passar de novo.
Mas fazer o quê? Afinal, como registrou o sempre pertinente jornalista Ricardo Kotscho em seu blog, sofremos um massacre midiático — de dentro e de fora do país — no qual fomos retratados "como um povo de vagabundos, incompetentes, imprestáveis, corruptos, incapazes de organizar um evento deste porte".
Além de pagar o mico de estarmos sendo desmentidos por ninguém menos que nossos próprios visitantes — "Fantastic people", dizem eles repetida e entusiasmadamente —, ainda teremos de conviver com a fantástica oportunidade perdida.
Quem vai pagar esta conta?
 
Luiz Caversan
No fAlha
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Quem vai indenizar as vítimas do terrorismo da mídia em relação à Copa?


Janio de Freitas, que pertence à esquálida cota de pensamento independente da Folha, nota em seu artigo deste domingo um contraste.

Uma pesquisa mundial do Gallup coloca os brasileiros como um povo essencialmente feliz e otimista. Na imprensa, e em pesquisas dos grandes institutos nacionais, o retrato é o oposto. Somos derrotados, miseráveis, atormentados.

Janio brinca no final dizendo se sentir cansado demais para explicar, ou tentar explicar, tamanha disparidade.

Não é fácil para ele se alongar nas razões, sobretudo porque a Folha é uma das centrais mais ativas de disseminação da visão de um Brasil horroroso.

A motivação básica por trás do país de sofredores cultivada pela imprensa é a esperança de que o leitor atribua tanta desgraça — coisas reais ou simplesmente imaginárias — ao governo.

Ponto.

É a imprensa num de seus papeis mais notáveis nos últimos anos: o terrorismo.

A Copa do Mundo foi um prato soberbo para este terrorismo. A imprensa decretou, antes da Copa, que o Brasil — ou melhor: o governo — daria um vexame internacional de proporções históricas.

Em vez do apocalipse anunciado, o que se viu imediatamente após o início da competição foi uma celebração multinacional, multicolorida, multirracial.

Turistas de todas as partes se encantaram com o Brasil e os brasileiros, e a imprensa internacional disse que esta era uma das melhores Copas da história, se não a melhor.

Note o seguinte: a responsabilidade por um eventual fracasso seria atribuída pela mídia ao governo. O sucesso real, pelo que se lê agora, tem vários pais, entre os quais não figura o governo.

O melhor artigo sobre o caso veio de uma colunista da Folha que se proclamou arrependida por ter ouvido o “mimimi” da imprensa.

Ela disse ter perdido a oportunidade de passar um mês desfrutando as delícias que só uma Copa é capaz de oferecer: viagens para ver jogos, confraternizações com gente de culturas diferentes e por aí vai.

É uma oportunidade única na vida — quando haverá outra Copa no Brasil — que ela perdeu por acreditar na imprensa.

Quem vai indenizá-la? O Jornal Nacional? A Veja? O Estadão? E a tantos outros brasileiros como ela vítimas do mesmo terrorismo?

Para coroar o espetáculo, o Jornal Nacional atribuiu a histeria pré-Copa à imprensa internacional.

Pausa para rir.

Mais honesto, infinitamente mais honesto, foi o colunista JR Guzzo, da Veja — o maior mestre que tive no jornalismo, a quem tenho uma gratidão eterna e por quem guardo uma admiração inamomível a despeito de nossas visões de mundo diferentes.

“É bobagem tentar esconder ou inventar desculpas: muito melhor dizer logo de cara que a imprensa de alcance nacional pecou, e pecou feio, ao prever durante meses seguidos que a Copa de 2014 ia ser um desastre sem limites”, escreveu Guzzo em seu artigo na Veja desta semana.

“Deu justamente o contrário”, continua Guzzo. “Os 600 000 visitantes estrangeiros acharam o Brasil o máximo e 24 horas depois de encerrado o primeiro jogo ninguém mais se lembrava dos horrores anunciados durante os últimos meses.”

Bem, não exatamente ninguém: o Jornal Nacional se lembrou. Não para fazer uma reflexão como a de Guzzo — mas para colocar a culpa nos gringos.

Recorro, ainda uma vez, e admitindo minha obsessão, a Wellington: quem acredita nisso acredita em tudo.

O JN parece achar que seus espectadores são completos idiotas.

Paulo Nogueira
No DCM
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Salve-se o estômago

Começou o bacanal eleitoral, o vale tudo por qualquer precinho, com traições por todos os lados

Os ares de quem deu uma grande cartada, com o acordo de apoio mútuo, têm que ceder nos rostos de Geraldo Alckmin e Eduardo Campos ao ar patético de quem apenas iniciou, em São Paulo, o que no Rio o contrariado prefeito Eduardo Paes chamou de "bacanal eleitoral". Ou sejua, o vale tudo por qualquer precinho, com tapeações e traições para todos os lados.

Não pode haver dúvida de que Gilberto Kassab e o seu PSD não decidiram de um dia para o outro o seu pulo do gabinete de Alckmin para os salões fiespinos de Paulo Skaf. Alckmin e o PSDB é que receberam de surpresa essa bem elaborada retribuição à preterição repentina de Kassab, que se sentia na vice da chapa reeleitoral do governador — passo largo para seu voo rumo à própria sucessão de Alckmin. Usada a vice na transação Alckmin-Campos, Kassab não precisa a consolação da candidatura a senador, que pode assegurar-se sem comprometer o seu PSD com o Alckmin. A forra vale mais.

Então fica assim. O PSDB de Alckmin tem Aécio Neves como candidato à Presidência, mas faz um acordo com Eduardo Campos, adversário de Aécio. Kassab e o PSD apoiam a recandidatura de Dilma Roussef, mas em São Paulo se aliam a Skaf, que não apoia Dilma apesar de ser do PMDB que dá apoio e dá o vice na chapa Dilma/PT. Eduardo Campos é o candidato do PSB, mas faz acordo com o PSDB em São Paulo, contra Marina Silva e a Rede que integram o seu partido, e quer apoiar em Minas o candidato do seu concorrente Aécio Neves, mas provavelmente ali receberá a retaliação com um candidato da Rede ao governo.

Isso revira o estômago. Paremos aqui.

Dois países

A imprensa, a TV, as rádios que tocam notícia não deixam que nos enganemos. O nosso desânimo é total, o pessimismo nos imobiliza, o desemprego nos alarma, estamos todos reduzidos a desastres humanos e o país chafurdado na vergonha do seu fracasso. A Confederação Nacional da Indústria, a sádica CNI, ainda tem a perversidade de pagar mais uma sondagem para nos dizer que, nos últimos dias, afundamos ainda mais em nossa humilhação.

Aí vem uma pesquisa internacional, a Gallup World Cup — diz a informação que feita "em mais de 130 países" — e traz esta conclusão: pela oitava vez consecutiva, o Brasil "está no topo" em satisfação com a vida nos futuros cinco anos. Com a nota 8,8 na média da opinião dos brasileiros, em escala que vai de 0 a 10 para a "felicidade futura".

Estou tão desanimado, com o país todo, que não tenho disposição para qualquer comentário sobre o conflito das duas visões e, muito menos, sobre sua causa.

Autorias

Quem leu aqui uma frase do ex-vice-presidente americano Dick Cheney, segundo a qual dirigia seus pensamentos e orações para os poços de petróleo do Iraque, deve agora saber que, como informou a seção "Erramos", a frase foi atribuída ao ex-vice por um humorista americano. Passou porém à internet, onde a encontrei, como de Cheney e como reprodução da revista "New Yorker".

O exemplo

A Costa Rica que fez o prodígio de sobrepor-se a três campeõs do mundo, e passar para a segunda fase da Copa, é um país da América Central conhecido apenas, quando o é, por seus vulcões. Mas se trata de um dos mais originais do mundo. Está, por exemplo, revolucionando a organização do futebol e de outros esportes. Apesar de latino-americano, é uma democracia tão moderna, desde sua reformulação no século passado pelo líder José Figueres, ou Pepe, que ignora golpes de Estado ou meras tentativas: a Costa Rica não tem exército.

Janio de Freitas
No fAlha
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Velha mídia perde a pose

O papel desempenhado pela velha mídia desde que o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo em 2007 beira o ridículo de tão contrário à realização do megaevento no país, colocando em dúvida a capacidade dos brasileiros em organizar eventos de grande porte e jogando sempre no time do quanto pior melhor, parecendo torcer para dar tudo errado, inclusive para a seleção brasileira perder. Mas o tempo colocou tudo no seu devido lugar.

Não é a primeira vez que os fatos derrotam manipulação efetuada pela mídia tradicional. Em 1984 na campanha Diretas Já, a Globo só passou a noticiar a mobilização popular contra a ditadura quando ficou impossível ignorar o fato e os dias da ditadura estavam contados. No ano passado, a mídia começou a atacar as manifestações de junho, depois tentaram a cooptação e mudaram de posição apoiando, depois retornaram à criminalização.

Em relação à Copa, os ataques passaram a ser sistemáticos. Da construção dos estádios à reforma aos aeroportos, tudo era negativo. A reacionária revista Veja, da família Civita, chegou a estampar na capa de 25 de maio de 2013 que os estádios ficariam prontos somente em 2038. Já na edição de quarta-feira (25) estampou: “Só alegria até agora”. Chamada que traiu o desejo claro dos editores em que aconteça alguma desgraça em prejuízo do Brasil.

Diariamente os jornalões e os telejornais apontavam os problemas, os atrasos nas construções e a falta de estrutura e de preparo do país para organizar um evento desse porte. Até uma semana antes da abertura da Copa no dia 12, só noticiavam desgraças e pouco falavam inclusive da seleção.

“A imprensa brasileira já vinha fazendo lentamente o caminho de volta para a realidade ao reconhecer que a Copa do Mundo no Brasil é, até aqui, um grande sucesso e uma ampla coleção de recordes. Até a revista Veja, que há alguns anos abandonou o jornalismo, já ensaiou o processo de transição do pessimismo para a celebração, caso os fatos continuem a desafiar suas próprias previsões”, acentua Luciano Martins Costa no Observatório da Imprensa.

Luciano refere-se ao “mea culpa” feito nesta quinta-feira (26) pelo Jornal Nacional, da Globo, última a assumir o sucesso da Copa no Brasil. Mais uma vez na história a mídia comercial se viu obrigada a se render, inclusive aos apelos comerciais do evento, mas principalmente porque estava ficando muito estranho os posicionamentos midiáticos sobre o país. Como justificar a torcida contra a seleção brasileira?

“A Globo não diz quem alimentou o pessimismo e o noticiário negativo sobre o Brasil nos dias que antecederam o início da Copa do Mundo. De repente, ninguém sabe, ninguém viu quem estimulou o espírito de porco e quem animou o complexo de inferioridade a se manifestar”, questiona o jornalista Luciano.

“Com a chegada da Copa, cerca de 19 mil profissionais de mídia de diversos países do mundo desembarcaram no Brasil. Por si só, esse número já mostra o fracasso da imprensa tradicional brasileira”, revela Helena Sthephanowitz. Segundo ela, “quase ninguém quis comprar suas reportagens e matérias por falta de confiança na narrativa. Todos quiseram ver com seus próprios olhos, fazendo suas próprias reportagens, tanto esportivas como sobre outros acontecimentos”.

O que a mídia comercial não previu era que 3,6 bilhões de pessoas estariam ligados na Copa do Mundo de 2014. Sendo cerca de 600 mil turistas estrangeiros somente no Brasil. A velha mídia perde a pose, mas não a cara-de-pau.

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