26 de jun de 2014

Produtividade ou arrocho?

Democracia, organização popular e produtividade compõem a alternativa à agenda de arrocho e desemprego preconizada pelo conservadorismo.

O entusiasmo do ex-presidente Lula com um programa de fomento tecnológico a ser anunciado pelo governo — Plataformas do Conhecimento, cuja existência ele antecipou em palestra a empresários, nesta 3ª feira — reflete a ansiedade do campo progressista diante de uma corrida contra o tempo que pode decidir o futuro brasileiro.

‘Há dois modelos em jogo, um prega a volta ao passado, com arrocho salarial e a alienação do patrimônio. Nós propomos maior distribuição de renda', resumiu a Presidenta Dilma em discurso quase simultâneo ao de Lula, na mesma 3ª feira.

Ele em São Paulo, ela em Brasília, ambos falavam sobre o mesmo tema: a disjuntiva por trás dos dois projetos de país em disputa nas urnas de outubro.

A encruzilhada do desenvolvimento brasileiro é real.

A dimensão dos conflitos acirrados pela crise internacional — marcada pela anemia da demanda, a canibalização de mercados e a voragem por mais-valia — induz o conservadorismo brasileiro a abraçar uma versão ainda mais radical do seu projeto para o país.

Não importa o que diz a oratória dissimulada de seus candidatos de sorriso fácil: eles cavalgam uma lógica imiscível com os avanços econômicos e sociais registrados desde 2002 .

Nos salões do dinheiro grosso, seus formuladores despem a dissimulação e adiantam que será preciso baixar a ordem unida do desemprego para ajustar a economia à taxa de exploração compatível com a voragem conservadora global.
Competitividade para eles é isso.

A continuidade do projeto progressista, no entanto, requer igualmente uma inflexão de densidade que não pode ser subestimada.

Ela só vingará com um enorme esforço político desdobrado em uma alavanca de três pontos de apoio: organização popular, democracia participativa e salto tecnológico sistêmico, que irradie a produtividade necessária para atender à demanda por direitos e qualidade de vida.

Não é uma operação de natureza contábil.

Trata-se de deslocar a correlação de forças para uma nova hegemonia capaz de definir o rosto de um Brasil onde palavras como igualdade, cidadania e democracia participativa não sejam mero adorno do futuro.

Mais democracia, mais organização popular e mais produtividade.

As três pontas do tripé se equivalem em importância.

Mas o salto de produtividade é o lubrificante estratégico para contrapor o ganho tecnológico ao lacto purga conservador feito de arrocho salarial & desemprego.

‘São dois modelos em jogo e nós propomos maior distribuição de renda’, disse-o bem a Presidenta da República.

Essa é a nervura política por trás do programa Plataformas do Conhecimento, que entusiasma Lula.

E o entusiasma por vislumbrar aí o espaço para a construção de uma democracia social negociada, condizente com uma mudança progressiva na correlação de forças não apenas no país, mas na geopolítica mundial.

Para dizê-lo de modo muito grosseiro: o Brasil precisa de mais uma década para o pré-sal maturar e os Brics se consolidarem como um polo alternativo à truculenta hegemonia do capital financeiro mundial.

A confrontação direta, nas condições atuais, teria poucas chances de êxito.

Nas palavras de Maria da Conceição Tavares: ‘é preciso resistir para avançar’.

Não uma resistência passiva. Mas feita de prioridades pactuadas, o que inclui setores onde fincar as estacas fundadoras do passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.

Maria da Conceição Tavares, na entrevista citada, admitia que o Brasil talvez não possa mais recuperar integralmente o espaço perdido pela sua indústria para a concorrência internacional.

Mas preconizava uma revitalização em novas bases, injetando fôlego tecnológico adicional em setores em que o país já detém certa vantagem competitiva.

É o que visa o programa antecipado por Lula, que tem entre os seu salvos a agropecuária, o petróleo (a cadeia do pré-sal) e a aeronáutica.

Os dois primeiros são de pertinência reconhecida.

Mas é justamente no menos óbvio — a aeronáutica — que se evidencia, de forma exemplar, o papel de uma política pública de fomento tecnológico, capaz de catalisar potencialidades que de outra forma seriam desperdiçadas pelo país.

Em março último, Carta Maior relatou um caso exemplar nessa fronteira entre o desperdício e o salto para o futuro.

Reportagens publicadas então na Exame e na revista on line, ‘Defesa Aérea e Naval’, chamaram a atenção de Carta Maior.

As matérias davam conta de que a Polaris, empresa de ex-engenheiros do CTA/ITA, de São José dos Campos (SP), havia desenvolvido uma micro turbina, com densidade tecnológica suficiente para credenciar o Brasil no seleto clube dos fabricantes mundiais de grandes turbinas aeronáuticas, dominado por um número muito reduzido de corporações.

A oportunidade, porém, estava ameaçada de se perder — ou ‘migrar’ para centros de desenvolvimento em países ricos — por falta de apoio de políticas públicas.

O caso da Polaris remetia, ademais, à contraposição de projetos antagônicos, destinados a resgatar a eficiência e a competitividade da industrialização brasileira no século XXI.

Falta uma peça na engrenagem de uma nação que tem 8,8 milhões de pequenos empresários, mas não possui uma estrutura favorável à emergência de startups mundiais, como as credenciadas na famosa lista do Wall Street Journal, avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares cada uma.

A Polaris poderia ser uma delas, se há vinte anos o Brasil tivesse criado uma plataforma de fomento semelhante a essa que tanto entusiasma Lula.

Avançar de uma economia de renda média, como a brasileira, para um padrão de renda alta, capaz de associar eficiência produtiva, bons empregos e qualidade de vida implica não mais desperdiçar essas oportunidades.

A questão é: quem comandará o desbaste dos gargalos? Que forças podem e devem impulsioná-lo? Que diferença faz a escolha de um ou de outro protagonista?

A pedra de toque do tabuleiro conservador, a redução do ‘Custo Brasil’, mal disfarça o propósito de quebrar a espinha dorsal dos assalariados, com uma purga de arrocho nos holerites e cortes de direitos sociais expandidos desde 2003.

O arrocho, ademais da funcionalidade econômica, tem sentido político.

O objetivo é lubrificar a adesão das empresas à derrubada drástica das tarifas de importação, compensando-as duplamente, com o corte nas folhas de pagamento, e o ajuste no câmbio que deprime o poder de compra real dos trabalhadores.

Substituir a carta branca delegada aos mercados pela negociação política de um novo pacto para o desenvolvimento é a alternativa progressista.

Nele, a alavanca da produtividade ocupa o espaço reservado à marretada do arrocho.

Que destino amargaria uma empresa brasileira como a Polaris, em um governo embarcado na lógica da marreta?

E quantas outras milhares de startups de potencial equivalente não teriam o mesmo destino sombrio?

O engenheiro Alberto Carlos Pereira Filho, presidente da Polaris, explica, por exemplo, que o processo de desenvolvimento e certificação internacional de uma turbina para aviões comerciais custa dezenas de milhões de dólares.

O percurso do laboratório ao mercado leva anos: é impensável sem um apoio efetivo do setor estatal.

Foi por isso que a Polaris optou, inicialmente, por uma versão de menor complexidade, com investimentos de R$ 4,5 milhões, via Finep (Financiadora de Estudos e Projetos).

Vencida a barreira do conhecimento e, com dois anos de testes, a TJ200 é a primeira turbina aeronáutica de pequeno porte a entrar em produção num mundo cada vez mais receptivo ao seu uso civil.

’A disseminação de drones para serviços de correio’, exemplifica Luis Klein, diretor comercial da empresa, ‘vai acelerar a adequação desses equipamentos — a exemplo do que deve ocorrer também na agricultura, nas operações de pulverização e controle’.

Daí para disputar o mercado de aviões comerciais configura um salto que está nas mãos do governo, diz ele.

As oportunidades não são tão remotas quanto se imagina.

‘Recentemente’, exemplifica, ‘o Brasil assinou um contrato para o primeiro avião a ser fabricado 100% dentro da Unasul; a turbina prevista é de origem russa’.

‘Poderíamos ter acoplado ao projeto o desenvolvimento de uma tecnologia própria’, lamenta: ‘São apenas dois exemplos de oportunidades à espera de uma política estratégica de Estado’.

O Programa de Plataformas do Conhecimento a ser anunciado por Dilma pode ser um sinal de que esses equívocos começam a ser retificados pela necessidade de se oferecer uma resposta crível à estratégia conservadora do arrocho.

Se for assim, será uma auspiciosa ruptura com a lógica embutida nos planos da candidatura conservadora.

Mas não com a receita de adensamento tecnológico adotada pelas maiores economias industriais do planeta.

Caso dos EUA, por exemplo, cuja bilionária política de encomendas do setor militar constitui a principal alavanca de impulsão tecnológica do país.

Ainda hoje, o orçamento militar norte-americano figura como o maior sistema de encomendas públicas e de incentivo à inovação do mundo.

A tal ponto que Estado autoriza margens de preferência de até 50% nas compras do Exército — ou seja, as compras bilionárias das Forças Armadas dos EUA privilegiam empresas locais, mesmo que o seu preço seja até 50% superior ao similar importado.

Pelo menos até a crise de 2008, mais de 30% dos gastos dos EUA com pesquisas correspondiam a recursos canalizados a empresas inovadoras.

É assim que a maior economia capitalista do planeta fomenta novas tecnologias, garantindo-lhes uma escala de compras compatível com a sua sustentação comercial.

Uma dessas linhas de fomento, a Small Business Innovation Research Program, foi a estufa onde floresceu a Microsoft.

A centralidade de uma política industrial soberana, portanto, não é um mero fetiche da esquerda. Tampouco um anacronismo ideológico da Unicamp, como quer a soberba tucana.

Trata-se de um trunfo indispensável à irradiação da produtividade sistêmica, sem a qual não haverá excedente econômico capaz de ampliar direitos sociais, empregos de qualidade e salários dignos.

A indução estatal desse processo não esgota o duplo desafio de conciliar a construção de uma democracia social no Brasil com a inserção de sua economia nas grandes cadeias globais.

Mas figura, por assim dizer, como a chave-mestra das escolhas fundadoras de um novo ciclo.

Elas vão decidir se o país logrará se reposicionar no século XXI como uma economia dotada de turbinas próprias, ou como figurante caudatário, a turbinar interesses antagônicos aos do seu povo.

Saul Leblon
No Carta Maior
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MST ocupa rádio no Sertão de Sergipe e exige democratização da comunicação


Nesta quarta-feira (25/06), cerca de 500 militantes do MST ocuparam a emissora de rádio Xodó FM na cidade de Nossa Senhora da Glória (Alto Sertão de Sergipe).

Os trabalhadores rurais denunciaram a forma difamatória e insultante com a qual Anselmo Tavares, locutor do Jornal da Xodó, trata as ações dos movimentos sociais na região, cobrando o direito à resposta.

Segundo Gileno Damascena, da direção estadual do MST, o Jornal da Xodó vem tratando há tempo as questões das lutas pela terra e pela moradia de forma incorreta e preconceituosa, chegando a chamar de “corjas” os trabalhadores rurais do MST.

“Hoje, exercemos o nosso direito de dialogar com a sociedade”, disse Gileno. “A emissora de rádio beneficia de uma concessão pública. Ela deve ser aberta a toda a sociedade. Mas quando difama a ação dos movimentos sociais, a rádio Xodó descumpre sua função social. É isto que estamos denunciando”, explicou o dirigente.

Para José Borges Sobrinho, dirigente do MST em Glória, a discriminação sistemática dos movimentos sociais pelo Jornal da Xodó é mais uma consequência da concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucas e ricas famílias e grupos políticos. “Este ato reforça a necessidade de lutar pela democratização dos meios de comunicação no Brasil”, ressaltou.

A mobilização contou com cerca de 500 militantes do MST, que se agruparam frente à sede da rádio Xodó FM. O Movimento reivindicava o direito de expor sua opinião ao vivo no Jornal da Xodó, apresentado pelo Anselmo Tavares.

Diante da recusa do locutor, os manifestantes resolveram entrar e ocupar a rádio. Após uma negociação dentro do estúdio, em presença da Polícia Militar do estado de Sergipe, os integrantes do MST conquistaram o direito à palavra ao vivo durante trinta minutos.

Vários militantes destacaram o papel positivo da ação do MST na região do Alto Sertão sergipano, tendo conseguido, em 30 anos de luta, dividir a terra outrora monopolizada por grandes latifundiários, gerando uma fonte de renda por milhares de famílias camponesas e desenvolvendo a economia da região.

Enquanto os líderes falavam ao vivo no programa Jornal da Xodó, fora do estúdio os manifestantes celebravam a cultura nordestina com forró pé de serra e canções populares.

Frases denunciando Anselmo Tavares como “pistoleiro da comunicação” e reivindicando a “democratização da mídia” foram pichadas nas paredes da rádio. Após o final do programa, os manifestantes se retiraram.

O ato também contou com a presença do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento dos Trabalhadores Urbanos (MOTU), Levante Popular da Juventude, Movimento Hip-Hop.

No MST
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Roedor

Quase vimos a primeira cena de canibalismo numa Copa do Mundo, ontem. O Suárez começou dando uma dentada no ombro do italiano Chiellini e ninguém sabe onde ele iria parar. A Fifa deve punir o jogador uruguaio principalmente para que não se crie um precedente e comece todo mundo a tentar comer o adversário. Como tem uma cara de roedor, o Suárez talvez tenha sucumbido a um impulso atávico, mas isso não o desculpa.

Mistério. Para onde vai o futebol quando deixa um jogador? Às vezes, a perda é explicável. Uma contusão mal curada, um drama familiar, um amor perdido, uma súbita angústia existencial, ou simplesmente velhice. Mas nenhum destes parece ser o caso dos dois maiores exemplos atuais de jogadores cujo futebol desapareceu: Paulinho, da seleção brasileira, e Forlán, da seleção uruguaia.

Paulinho, dizem todos, foi o melhor jogador da seleção que venceu a Copa das Confederações no ano passado. De grande presença num campeonato passou a grande ausência em outro. Que se saiba, não houve nenhum trauma na vida do Paulinho, de lá para cá. Nada que justificasse a sua queda. Qual é a explicação? Dizem que futebol não se desaprende. Que é como andar de bicicleta - quem aprendeu nunca esquece. É verdade que, se eu montasse numa bicicleta hoje, saberia o que fazer em tese, mas não conseguiria dar uma pedalada sem a ajuda de familiares, amigos e, talvez, o corpo de bombeiros. Mas o Paulinho é um jovem. Está em perfeitas condições físicas. Que fim levou seu futebol?

O Forlán é um exemplo ainda mais intrigante. Há quatro anos, na África do Sul, ele foi o melhor jogador da Copa. Liderou o time do Uruguai até quase a final e fez de tudo em campo, com garra e elegância. Quando o Internacional de Porto Alegre o comprou da Internazionale de Milão, foi pensando que ele ainda era aquele. Por alguma razão, não era mais. Na própria Internazionale ele tinha ficado mais tempo no banco do que no campo. Com 35 anos, Forlán tem a desculpa da idade que Paulinho não tem, mas já faz alguns anos que seu futebol desapareceu por completo. Pode ser que ele ainda volte ao time do Uruguai nesta Copa, e pode ser que ainda brilhe. Seria uma espécie de ressurreição, mas pouco provável. Mistério. 

* * *

E o Benzema?

Um jogo fácil como se imaginava que seria França x Equador desperta em nós (para não dizer em mim) uma certa expectativa sádica.

Um adversário fraco nos permite apreciar melhor os talentos do adversário forte, e ontem seria um bom dia para ver o Karim Benzema acabar com o jogo, fazer dois ou três gols e brilhar contra o coitadinho do time do Equador.

O Equador não ajudou, no entanto. Enfrentou a poderosa França como gente grande, chegou perto de ganhar mesmo jogando com dez e se recusou a ser coitadinho. E o Benzema não fez nada.

Vampiro. Deu no jornal The Guardian da Inglaterra que um "bookmaker" na Suécia pagou uma boa quantia a mais de cem ganhadores de uma aposta insólita: se o Luis Suárez iria ou não morder alguém nesta Copa do Mundo.

Descobre-se agora que o uruguaio é um mordedor impulsivo, que já tinha cravado seus dentes protuberantes em vários adversários. Um Hannibal Lecter (lembra dos filmes?) do futebol.

Estranhamente, esse traço da sua personalidade era desconhecido por aqui. A própria FIFA o ignorava, e não tomou nenhum providência, como a de obrigá-lo a jogar com focinheira.

O Uruguai também não alertou ninguém para o perigo que seria a presença do Suárez na grande área, na cobrança de um escanteio, por exemplo, com tantos pescoços apetitosos a sua volta, pedindo dentadas.

Aparentemente, os uruguaios concluíram que a ameaça pública que representava ter um vampiro na equipe era compensada pelo fato de ele ser um vampiro goleador.

Desvios de conduta patológicos como gostar de morder os outros podem ser controlados com psicologia, mas nenhuma psicologia cria bons centroavantes.

Detalhe. Argentina e Nigéria foi o grande jogo que se esperava. Os longilíneos nigerianos continuarão na Copa e ainda vão incomodar.

A Argentina fez três mas levou dois, o que confirma o que se diz dela: grande ataque, defesa nem tanto. Mas com Messi no time quem se importa com detalhes?

Luís Fernando Veríssimo
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Entrevista com João Otávio Brizola

Em sua primeira entrevista, filho de Leonel Brizola falou sobre a relação com o pai, os problemas da família e os erros e acertos do político

Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

O arquiteto João Otávio, 61 anos, é o único filho de Leonel Brizola que sempre fugiu dos holofotes e da imprensa. Ao contrário de seus dois irmãos, José Vicente — o mais velho, morto em 2013 — e Neuzinha — a mais nova, morta em 2011 —, nunca brigou ou desafiou publicamente o pai. Era o filho com quem Brizola, nos últimos anos de vida, vinha conversando, reavaliando decisões políticas, como se estivesse fazendo um inventário de sua trajetória pública e privada.

Brizola foi prefeito de Porto Alegre, deputado e governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. Morreu há 10 anos, em 21 de junho de 2004, aos 82 anos, vítima de infarto. Por ser testemunha privilegiada de momentos cruciais da vida do pai, João Otávio decidiu escrever um livro de memórias — ainda sem editor (confira um trecho abaixo).

Pai de João Eduardo, João Otávio vive hoje entre o Rio de Janeiro e o Uruguai, onde administra a fazenda que era da família e uma academia de ginástica. É incentivador da carreira política dos sobrinhos, a deputada estadual gaúcha Juliana Brizola, o vereador do Rio Leonel Brizola Neto e o ex-ministro Carlos Daudt Brizola (conhecido por Brizola Neto). Os três são filhos de José Vicente.

Durante passagem por Porto Alegre, ele aceitou, pela primeira vez, dar uma entrevista. Falou por duas horas com Zero Hora sobre a relação com o pai, os problemas da família e os erros e acertos de Brizola.

Por que escrever um livro sobre seu pai?

Eu tinha uma história para contar. Não tem mais muitas testemunhas vivas para falar de todos os períodos da vida de meu pai. Minha mãe e meus irmãos (José Vicente e Neuzinha) já morreram. Resolvi contar do ponto de vista da nossa relação.

Ser filho de Brizola ajudou ou atrapalhou?

As duas coisas. Ajudou no crescimento profissional. Soube aproveitar as oportunidades que me foram dadas. Mas tem um legado desagradável de ser filho de um político de esquerda, particularmente dele. Tudo o que se fala e se falou de Brizola é política pesada. É política a ferro e fogo. Ou amavam ou detestavam ele. Era assim no Rio e no Rio Grande do Sul. Ainda que no Rio Grande do Sul ele tenha se transformado em figura histórica respeitada já anos antes de morrer. O que não acontecia no Rio. O legado negativo é toda a falta de ter um pai, a dificuldade de relacionamento, associada a cobranças e ameaças para que fôssemos perfeitos.

Como eram essas cobranças e ameaças?

Meu pai e minha mãe (Neusa Goulart Brizola) eram pessoas muito diferentes e, ao mesmo tempo, muito iguais. Eles se amavam muito, mas cada um tinha seu gênio. Ela vinha de uma família rica, sempre teve tudo que quis. Quando tinha 22, 23 anos, o pai dela morreu. Minha mãe teve de assumir os negócios da família junto com meu tio Jango (João Goulart, ex-presidente da República). Era uma moça bonita, elegante, inteligente e rica. Meu pai veio de família pobre, se formou à custa de muito trabalho e se fez sozinho. O casamento tinha amor, mas também teve muita conveniência política. Ela tinha surtos de poder e ele querendo conter isso. Ela estava acostumada a ter empregados. Na fazenda, eram mais de 20 famílias que viviam ali pela comida, coisas do período da escravidão. A família Goulart era vizinha de Getúlio Vargas. Tudo isso proporcionou um mundo de prosperidade e de poder para minha mãe e para o tio Jango. Por isso minha família tinha contradições muito grandes.

Que contradições?

Minha mãe queria uma coisa e meu pai queria que a gente parecesse outra. Quando pequenos, morávamos na Rua Tobias da Silva (no bairro Moinhos de Vento). Toda a família da minha mãe frequentava o Leopoldina Juvenil. Mas nós tínhamos de ir para o Grêmio Náutico União porque era mais popular. Quando o pai virou governador, foi ainda pior. Ele só queria que fôssemos num clube ainda mais popular, o Grêmio Náutico Gaúcho. Lembro que teve uma competição de natação de 50 metros. Fui participar todo animado. Só tinha um na raia, geralmente se colocavam uns cinco ou seis na raia. Esse único que competia parou na metade da prova para deixar eu ganhar. A mãe se deu conta e ficou furiosa. Ela disse "vocês nunca mais pisam aqui". Tudo porque tínhamos de fazer a imagem. Todos da família da minha mãe eram gremistas históricos. Nós tínhamos de ser colorados para parecer mais populares. E todas essas contradições apareceram mais tarde, criando problemas para mim e para os meus irmãos.

Que tipo de problemas?

De se rebelar contra ele. Eu, talvez, tenha tido um destino diferente dos meus irmãos por causa de minha madrinha, a dona Mila Cauduro, que me influenciou muito. Já o José Vicente e a Neuzinha se rebelaram muito contra o pai. Esse foi o lado ruim. O pai sempre dizia que tínhamos de lutar para conseguir as coisas, porque ele lutou, mas não se dava conta de que morávamos num palácio. Era outra realidade. E a minha mãe lutando contra isso, contra esse lado forte dele. Era difícil.

E o lado bom dos pais?

Sem dúvida que houve. Minha mãe era muito carinhosa. Ele também sabia ser quando queria.

Brizola se dedicava aos filhos?

Muito pouco. Quando morávamos em Porto Alegre, geralmente os domingos eram dedicados à família. A imagem que ficou é do pai e da mãe discutindo, e era muito desagradável. Ele adorava acampar no alto do Morro da Polícia. Uma vez, quando era prefeito da cidade, parou numa estrada que cruzava por Gravataí ou Viamão, não lembro bem. Parou na esquina e montou acampamento, fez fogo. Passamos a noite numa barraca. (risos) Meu pai era um homem do campo. E a minha mãe era a dona do campo. Essa é a história.

Eles brigavam muito?

Muito, tinham fúrias. Principalmente depois que fomos para o exílio. Ali os problemas afloraram. Eles não se davam conta, mas em Porto Alegre a gente estudava num colégio de primeira, o Farroupilha. Chegamos a Montevidéu e fomos para um de terceira categoria. De repente, estávamos num colégio onde as pessoas até roubavam dos outros. Não sabíamos direito o que estava acontecendo. Foi um choque. Não tínhamos documentação, então tivemos de ir para onde nos aceitavam. Como escrevo em meu livro, passamos de principal família dirigente de um país para bandidos fugindo da lei. Já meus primos, filhos do Jango, foram para um colégio americano. Acho que toda a natureza das histórias de contradição vem daí. Pensando bem, minha mãe casou com meu pai para fazer frente ao Jango. Já Jango casou com a Maria Thereza para fazer frente à família dele. Maria Thereza não era a pessoa que os Goulart queriam. Ela mesma dizia que caiu de paraquedas. Vai entender.

Ao contrário de José Vicente e Neuzinha, você sempre fugiu dos holofotes. Por quê?

A Neuza Maria sempre foi problemática. Era a queridinha de meu pai, filha mulher, acostumada a ter tudo o que queria. Quando era contrariada, queria virar a mesa. E assim cresceu. Lá pelo quarto ano de exílio, tive de ir para a Inglaterra fazer uma cirurgia de correção no fêmur (em razão de um acidente de trânsito), e ela foi junto. Ficou interna num colégio. Lembro que fomos visitá-la, certa vez, e Neuzinha tinha engordado muito. A mãe ficou apavorada, quis tirá-la de lá, pois estava achando horrível. Acho que foi um erro da mãe, ela estava engordando mas não tanto assim. E a Neuzinha não queria sair de lá, estava se sentindo bem. Acabaram levando de volta ao Uruguai. Colocaram a Neuzinha numa escola britânica em Montevidéu. De lá, ela foi expulsa e nunca mais engrenou. Em seguida parou de estudar.

E José Vicente?

Com ele foi diferente. A briga dele com o meu pai sempre foi mais política. O Zé Vicente sempre foi muito desastrado, não conseguia fazer as coisas direito, parou de estudar. Chegou a ser deputado federal (eleito em 1990), mas numa época em que meu pai elegia até um poste. Não me dava muito bem com ele, embora nunca tenha rompido. Com minha irmã, a relação era mais fácil. As loucuras dela não eram comigo, eram mais para atingir meu pai. No Brasil, bem ou mal, tínhamos uma vida traçada. Depois do golpe militar, tudo mudou radicalmente. Minha mãe várias vezes entrou em crise. Talvez meus pais não se dessem conta de que nós não éramos eles, que a gente ia sofrer com toda essa mudança. Faltou um pouco de psicologia.


No início do exílio, Brizola tentou voltar por meio da guerrilha. Como foi esse período?

Ele conspirou muito, recebeu dinheiro, não tenho dúvida disso.

Dinheiro do governo de Fidel Castro?

Certamente, até porque não tinha outro para dar. Cuba era o país que estava deixando o mundo nervoso. Meu pai se agarrou no primeiro cipó. Durante os primeiros quatro meses, estava tudo tranquilo. Meu pai e Jango eram muito amigos, se frequentavam o dia inteiro. Mas o pai querendo conspirar. Tinha um grupo político forte lá, de umas 300 pessoas. Darcy Ribeiro e Waldir Pires foram a Cuba fazer essa gestão (de buscar o dinheiro para a organização da guerrilha). Quando eles voltaram, lembro que era tudo em moedas de 50 pesos mexicano. Eram umas moedas de ouro. Não sei como era o trato disso. Ele montou em uma chácara perto de Montevidéu um centro de treinamento de guerrilha. No fundo, ele via a realidade que acontecia na época com muita clareza. O país levou muito tempo para acordar.

Você chegou a frequentar essa chácara?

Fui umas três, quatro vezes. Eram os piqueniques de domingo. Esse era o motivo. Daí eu via que tinha armas lá. Ele me ensinou a atirar, eu atirava em pombas. Mas, logo depois, me desinteressei. Várias vezes chegavam cargas de armas lá. Uns três meses depois, ele brigou com meu tio de forma definitiva, romperam publicamente.

Como foi esse rompimento com Jango?

Segundo meu pai contava, ele tinha um plano de explodir o entreposto da Deal (Departamento Estadual de Abastecimento de Leite), em Porto Alegre, tinha toda uma operação montada para isso e que foi abortada. E o Jango foi contra essa operação. Lembro da minha mãe dizendo que o irmão dela não participaria e que ela não queria que meu pai também participasse. E aí romperam. Só reataram em 1976, pouco tempo antes de Jango morrer. Meu pai começou a deixar o governo uruguaio muito nervoso, a pressão do governo brasileiro para confiná-lo era grande. Acabaram confinando ele no Balneário de Atlântida (nas proximidades de Montevidéu). Isso foi em fevereiro de 1965. Era um balneário deserto. Em seguida, meu pai alugou um edifício, tinha uns 20 apartamentos. Era a base perfeita, ele driblava a polícia uruguaia. Lembro dos movimentos estranhos. A emprega tinha de entregar 20 pratos de comida, dar três batidas na porta e depois sair correndo porque não podia ver quem estava lá. Nós éramos totalmente proibidos de ir do sexto andar para cima.

Você presenciou alguma cena da guerrilha?

Teve um episódio em que ele me chamou para ir junto. Foi numa praia, à noite, ao fundo uma luz piscando e daí surgiu uma lancha de motor rápido e encalha na areia. Começaram a baixar caixas de armas, entregaram um saco de dinheiro para um cara, a lancha voltou para o barco que fazia sinal e a gente foi embora. Eu perguntava o que estava acontecendo. Meu pai dizia "não te interessa". Ele sempre dizia assim: "Especula, especula". No final de 1966, ele fechou tudo, decidiu comprar uma fazenda perto de Atlântida e montou um tambo de leite, que nunca deu certo. Daí começou a trabalhar, passamos por uma fase de tranquilidade. Em 1968, fui para a Inglaterra fazer a cirurgia. Nos últimos anos, os negócios estavam dando certo, ele estava comprando terras, ficando mais próspero.

Quanto veio de dinheiro de Cuba?

Dizem que foi US$ 1 milhão.

Ele falava abertamente sobre isso?

Falava, mas eu tinha de arrancar. Lembro de um baú de madeira enorme com moedas de ouro. Ele se trancava nos quartos e, certa vez, eu entrei e vi um monte de moedas. E não era pouco. Outra vez, ainda em Atlântida, cheguei a uma lanchonete e havia três brasileiros bêbados falando que eram do esquema do Brizola em Caparaó. Muito tempo depois, eu perguntei para ele se havia esse plano de armar uma guerrilha na Serra do Caparaó (divisa entre Minas e Espírito Santo). Ele disse que havia o plano de fazer algo como a revolução cubana (que começou por Sierra Maestra). Mas logo viu que o povo não iria aderir, não tinha a menor chance de dar certo. As próprias pessoas que chegavam para ser treinadas vinham de terno e sapato. Para fazer uma operação de campo como essa tinha de ter experiência em montanhas. Tanto que só durou três, quatro dias.

E o que foi feito com todo esse armamento?

Ele sempre teve paixão por armas. Tanto que quando morreu encontramos em um armário do apartamento de Copacabana vários rifles. Deu trabalho se livrar dessas armas. Como você vai justificar? Chamamos um coronel da PM que era da nossa confiança e pedimos para dar um jeito. Os últimos exemplares estão lá num contêiner na fazenda. Tem uns três ou quatro. Da grande parte do armamento ele deve ter se livrado, mas sempre guardou alguma coisa.

E o que foi feito do dinheiro?

É complicado dizer exatamente, porque eu não sei. Minha mãe tinha terras em São Borja, eles tinham uma fazenda em Mostardas, conhecida como Pangaré, e que depois ele deu metade para um projeto de reforma agrária. Minha mãe, com razão, xingou ele a vida inteira por ter feito isso. Logo que veio o golpe de 1964 essas terras foram compradas a preço de nada. No Uruguai, tinham uma fazenda de 2 mil hectares, um apartamento. Eles viviam apertados, o orçamento era limitado. Já com Jango era mais folgado, até porque ele sabia fazer negócios. Meu pai sabia mais era fazer política.

De que forma seu pai se referia a Jango?

Depois do rompimento, Jango era o satã. Tanto que em uma determinada época, eu tinha uns 16, 17 anos, quis me aproximar de meu tio para ver se era isso mesmo. Foi uma das melhores coisas. Meu pai sempre chamava os adversários daquilo que eles não eram. Com o meu pai tinha de ser do jeito dele ou de jeito nenhum. Já o Jango era conciliador, queria resolver as coisas numa boa. Ficava difícil os dois conviverem pacificamente. Tanto que tomaram caminhos diferente. A mais afetada por essa briga deles foi a minha mãe. Ela era muito amiga do irmão, cresceram juntos. No início do exílio estava tudo bem, as famílias sempre juntas, mas depois, com o rompimento, ela começou entrar em baixa, a ficar deprimida, a beber.

Brizola sabia lidar com a situação?

Foi difícil. Ela precisou ser internada várias vezes, tinha crises. E ele fica muito mal, às vezes transferia a depressão, as frustrações dele para nós. E a gente não sabia para onde ir.

Como foi a expulsão do Uruguai e viagem para Nova York?

Nessa época estávamos todos muito mais maduros. O Uruguai estava ficando difícil, Jango já tinha morrido (em dezembro de 1976) e o meu pai se sentia seguido. Era uma ditadura feroz. Estava exilado há 13 anos, quieto, numa vida mais tranquila e um dia chegou um decreto do governo determinando cinco dias para sair do país. Eu já estava estudando no Rio de Janeiro, o Zé Vicente estava em Porto Alegre e a Neuzinha morava com eles. Fui para Montevidéu. Cheguei lá e senti o clima estava tenso. Quando o pai vinha voltando do escritório do governo uruguaio, após assinar o documento da expulsão, ele decidiu entrar na embaixada americana e pedir asilo. E daí é a história que todos conhecem. O pai sempre dizia que foi o próprio Jimmy Carter (presidente americano) quem decidiu pela entrada dele nos Estados Unidos.

E a chegada em Nova York?

O Jornal Nacional fez uma reportagem mostrando o desembarque dele. A partir dali, não sei direito por que, começou a contagem regressiva para a volta dele ao Brasil. Na minha opinião, foi a jogada mais inteligente que o meu pai fez na vida dele, a de entrar na embaixada americana e pedir asilo. Foi total feeling dele. Ele sempre disse isso, que queria testar a política de direito humanos do governo Carter. E funcionou.

Em algum momento o Brizola realmente se sentiu ameaçado de morte?

Nos últimos dias no Uruguai, sim. Mas nunca teve um atentado contra ele nesses 15 anos de exílio.

Brizola retornou ao Brasil com a Lei da Anistia, em 1979, dando início a uma terceira fase da vida. Como foi a volta?

Tão logo se instalou no Rio, o pai começou a montar o partido, a se movimentar politicamente. E minha mãe voltou a entrar em depressão. Dizia que não era isso que esperava, que queria voltar para a fazenda no Uruguai. Ela adorou o período em que estiveram em Nova York, porque lá estava ao lado dele o tempo todo. No Rio ela não conseguiu acompanhá-lo, e daí não se recuperou mais, nunca mais voltou a ser a mesma. Por pouco eles não se separaram. Ela não conseguia seguir o tranco dele. Ainda por cima ele era muito chegado a mulher, mulherengo.

A Neusa sabia dos relacionamentos dele?

Sabia. Ele negava sempre, mas estava na cara. Ficava difícil ela controlar a situação. Eles retornaram ao país no final de 1979. Entre 1980 e 1981, o pai se dedicou a montar o PDT. Na eleição de 1982 (a primeira eleição direta para governador após quase duas décadas de ditadura), o pai só passou a ser o favorito na disputa nos últimos dois meses de campanha, mas a mãe já estava em Nova York em tratamento. A situação estava ruim. Ela retornou ao Brasil três meses depois de ele ter tomado posse. Tentou assumir algumas funções assistenciais.


Que tipo de tratamento ela fez?

Psiquiátrico, para tentar superar toda essa mudança. No Brasil, não tinha a menor condição. Quando ela voltou, teve um período de recuperação, mas, em seguida, ela parou de acompanhar ele. Eu já estava trabalhando numa construtora como arquiteto recém-formado. Era residente de uma obra. Meu pai saltou nas pesquisas, e a construtora viu que eu tinha que ter outras funções. Sem falar que já juntava gente para me pedir emprego. Não tinha mais condições de eu continuar naquele escritório. Pedi para sair, para a grande decepção deles. Fui ajudar meu pai, mas ele também não deixava eu chegar muito perto dele. Até que surgiu a possibilidade de eu contribuir no projeto de construção do sambódromo.

Por que ele não deixava você chegar perto?

Ele achava que não era da nossa conta. Quando a gente perguntava alguma coisa, a resposta era a mesma: "Isso não é da sua conta". Como se quisesse nos proteger. Dizia "você tem de aprender muito para chegar até aqui, olha quem eu sou e olha quem tu és". No fundo, era uma pessoa muito carinhosa, como todo bom político. Nos tratava como aliados políticos ocasionais. E não éramos, né?

O sambódromo foi a primeira missão que ele lhe deu?

De trabalho, foi. Ele disse que eu poderia ser o fiscal da obra. Ali cresci profissionalmente, já estava com 27 anos. No fim, já estava dirigindo a obra toda. Mas, antes disso, ainda no exílio, fui várias vezes para Portugal (onde Brizola morou por um tempo), fazia ligações para ele, já gerenciava os negócios no Uruguai. Ele sempre manteve o José Vicente distante disso tudo. Tanto que ele montou um negócio totalmente separado para ele no Uruguai.

Por que Brizola confiava mais em você?

Ele via que eu não gastava dinheiro, que me preocupava com o equilíbrio econômico dos negócios. Eu tinha outra visão. Mas, na infância, não foi assim. O pai e a mãe davam muito mais coisas para o Zé Vicente porque ele era o primogênito. Na família da minha mãe sempre teve o culto ao primogênito. Não sei de onde veio isso, nem todas as famílias do Rio Grande do Sul faziam isso. Então o maior sempre tinha os privilégios e era o dono da verdade. E o meu irmão sempre teve um caráter violento, eu brigava muito com ele. Eu sempre levava a pior, a razão sempre estava com ele. E isso foi me distanciando um pouco deles. Isso fazia eu ir muito na casa da minha madrinha (Mila Cauduro). Ela me ensinava etiqueta, coisas que, para meu pai, eram mundanas demais. Comecei a ver o mundo de uma forma diferente. Ela me ensinou que o dinheiro não vinha fácil e era preciso saber gastar. Ela me influenciou muito. Tenho certeza de que optei pela arquitetura por causa disso.

O segundo mandato de Brizola como governador do Rio (1991-1994) foi muito contestado. Foi ali que ele soube que o sonho de chegar à Presidência estava sepultado (Brizola concorreu para presidente nas eleições de 1989 e 1994)?

Não. O sonho de chegar à Presidência foi sepultado em 1989. Foi uma eleição muito estranha. Eu acompanhei bem porque ali já tinha voz ativa, sempre dentro dos limites que ele permitia. Mas cada vez ele me ouvia mais. Às vezes, tinha uma atitude debochada, tipo "você não sabe de nada, tem muito que aprender". E adorava fazer isso na frente dos outros, para a minha desgraça (risos). Mas. voltando a 1989, ele mesmo dizia que tinha uma coisa que prendia ele para trás. O general Golbery (do Couto e Silva, chefe da Casa Civil dos governos militares de Geisel e Figueiredo) foi muito inteligente. Até hoje a política brasileira vive de suas decisões e ensinamentos. Ele criou esse modelo partidário que está aí, dividindo o sindicalismo, deixando ascender o Lula, uma pessoa que não era comprometida com o passado. Lula era muito mais fácil de ser digerido em 1989. Os militares botaram uma carga de negativismo em cima do legado de Getúlio, Jango e Brizola. Principalmente no modelo sindical criado por Getúlio. Eles queriam sepultar a história. Meu pai tentou se aproximar de Lula diversas vezes, mas ele sempre o hostilizava. Então a esquerda ficou dividida em 1989. Ainda colocaram as candidaturas de Ulysses Guimarães e Mário Covas para tirar votos da esquerda. Já a direita se uniu em torno de Fernando Collor. Foi ali que meu pai se convenceu que era muito difícil se tornar presidente.

Como era a relação de Brizola com Lula?

O pai tentou muito se aproximar dele. O ponto mais próximo foi na eleição de 1998 (quando Brizola concorreu como vice de Lula), mas não tinham chance de vencer. Depois, quando Lula ganhou, em 2002, o José Dirceu (braço direito de Lula, que viria a ser ministro) não deixou que meu pai fosse ministro de nada. Disse que era para colocar Brizola como embaixador no Uruguai. Primeiro cogitaram que ele fosse ministro da Agricultura, depois, da Educação. Acabou não ficando com nada.

O convite para ser embaixador foi feito?

Sim, foi feito. Mas o pai me dizia: "Ainda vou ter de ficar apertando a mão desse cara (José Dirceu) na pista do aeroporto de Montevidéu como se fosse empregado dele". As relações entre Brizola e Lula terminaram muito mal. (Quando Brizola morreu, ambos já estavam rompidos politicamente)

Quais foram os maiores acertos do seu pai?

Ele manteve as finanças nos eixos, sempre com arrecadação eficiente. Foi assim no governo do Rio Grande do Sul. Nos governos dele, sempre havia dinheiro para investir em projetos sociais. Sou suspeito para falar, mas não teve nenhum outro governo brilhante no Rio Grande do Sul depois do dele. Já nos dois governos do Rio foi mais difícil, tinha oposição do governo federal. Mesmo assim, fez um plano de investimentos que poucos fizeram até hoje. A eficiência administrativa era muito boa. Praticamente não havia endividamento.

E os maiores erros políticos?

A minha visão foi que ele subestimou o poder dos Estados Unidos antes do golpe militar. Ele achava que o poder dos americanos era só nas armas. Não era. O poder estava também em Wall Street e em Hollywood. O primeiro comanda a engrenagem financeira, o outro comanda como o mundo pensa e se comporta. Pouco antes de morrer, conversando com ele na fazenda, perguntei se ele não tinha se dado conta disso. Mas ele não aceitava. Nunca compreendeu que era muito difícil fazer as reformas de base da maneira que queria. Estava claro que quem mandava eram os Estados Unidos. Daí vem um gaúcho querendo implantar reformas. Outro erro estratégico ocorreu quando ele voltou ao Brasil (em 1979, depois de um exílio de 15 anos). Poderia ter chegado à Presidência e feito parte das reformas que tanto queria se tivesse sido um pouco mais flexível, se tivesse se aberto mais para a direita.

Que avaliação você faz do PDT?

A avaliação é muito ruim. Tudo se desvirtuou muito. De um lado, tem os meus sobrinhos, com suas aspirações legítimas. São jovens, têm o gene da política. Por outro, todo esse grupo que controla o PDT. Toda essa briga é devastadora. Meu medo é que, nas próximas eleições, a resposta venha. O partido não tem mensagem, simplesmente quer se juntar com outros para ter cargos. Nunca foi o que o pai quis fazer. Meu pai sempre preferiu ficar no ostracismo a fazer composições. Me pergunto por que o Carlos Lupi (presidente do partido desde que Brizola morreu) não sai candidato nas eleições se ele está tão bem, tão firme, tem tantos diretórios na mão? Meu sempre dizia que o partido tem de ser controlado por quem tem votos.

Os seus sobrinhos carregam o DNA do avô?

Cada um tem um pouquinho. Todos os três são inteligentes. A mãe e a avó deles (Nereida e Dóris Daudt) fizeram muito o caráter deles. Tudo que talvez o José Vicente não tenha dado, elas conseguiram. Também tiveram a chance de conviver com meu pai. Eles têm tudo para serem grandes políticos. Eu não tive esse DNA.

Por que você não teve esse DNA?

Talvez porque me identificava mais com o estilo de meu tio (João Goulart) do que com o de meu pai. Minhas natureza é mais calma, conciliadora. E isso não era aceito. A maneira de fazer política para o meu pai era fazer do jeito que ele queria.

O seu irmão, José Vicente, chegou a ser deputado, mas não vingou como político.

Não, não vingou. Ele só foi deputado porque a situação era muito fácil. O Zé Vicente se elegeu em 1990, quando meu pai se elegeu pela segunda vez governador do Rio, com 60% dos votos válidos. Minha mãe trabalhou todo tempo para eleger o filho. Lembro que ela renasceu naquele período.

Você leu o livro sobre a sua irmã, Neuzinha?

Não li todo. Mas a Laila (filha de Neuzinha) quis fazer o livro a partir de depoimentos gravados da mãe. Não conheço o autor do livro, mas minha irmã sempre foi de uma imaginação fértil demais. Gostava de aumentar as histórias. Tem vários episódios em que não dá para acreditar. Que ela tinha problemas com drogas toda nossa geração teve, uns mais, outros menos. É um relato da vida dela, da imaginação dela.

Você sente saudade do seu pai?

Sinto. Sinto falta, mas, em outras horas, não sinto, por tudo que passei. Vou contar uma coisa importante. Alguns anos antes de ele morrer, começou a pedir para eu retornar dos Estados Unidos (João Otávio morava em San Diego, onde tinha uma empresa de construção e reforma de casas). Ele dizia: "João, está na hora de você voltar para casa, de ficar por aqui". Também não sabia se aquele era o meu projeto de vida ficar construindo casas. Quando voltei, em 2002, passei a conviver mais com ele. Viajávamos todos os meses para o Uruguai. Virei um companheiro de viagem. Tudo acontece por uma razão. Aproveitei esses momentos juntos para falar sobre tudo, como se tivesse saneando minha relação com ele. Falei sobre todos os assuntos bons e ruins.

Que tipo de conversa?

Eu perguntava coisas como "você nunca pensou que seus filhos cresceram num palácio e que jamais poderiam estudar numa escola rural ou ser engraxates na Galeria Chaves, que a nossa educação era outra, que não adiantava forçar para parecermos mais do povo?". Ou "por que vocês nos criaram com tão pouco amor próprio?" Ele respondia: "Porque eu não sabia fazer melhor, achava que era o certo". Aos poucos, fui entendendo o outro lado. Consegui conversar de uma forma que jamais conseguira.

Por que ele rompeu com seu irmão mais velho, José Vicente?

No auge da briga dos dois (entre 2000 e 2003), o pai me mostrou um álbum de fotografias em que aparecia uma foto dos três filhos pequenos sentados em um murinho da casa de Capão da Canoa. E ele me perguntou como se não soubesse a resposta: "Nós criamos vocês a pão-de-ló, como pode seu irmão ter saído assim?" Ele me perguntava querendo saber onde foi que errou, sem admitir que sabia onde tinha errado. Eu disse que ele tinha nos criado sem muito amor-próprio em função da sua profissão, sempre querendo que as coisas estivessem no lugar que ele queria. Nós éramos uns brinquedinhos. Falei para ele da atitude de querer ralhar com a gente na frente dos outros para dar exemplo. Essas conversas foram saneando nossa relação.

Alguma vez você rompeu com seu pai?

Nunca, mas ficaram muitos danos. E isso fazia com que eu tivesse bloqueios. O pai e a mãe nos dividiam, quando crianças, para poder nos controlar. Isso deixou os irmãos muito desunidos.

Quando você foi se dar conta disso?

Só depois de adulto. Tanto que, uma vez, eu disse a ele que não adiantava mais falar mal do Zé Vicente para mim pois eu não poderia resolver os problemas dele. O pai tinha dificuldade de fazer a gente conhecer o mundo como ele realmente era. A relação era de muita nitroglicerina, piorada com o exílio. Ele tinha só 42 anos quando foi obrigado a deixar o país. Eu tinha 11, o Zé, 13, e a Neuzinha, nove. Do dia para a noite, a sorte e a fortuna da família mudaram radicalmente.

Brizola, em algum momento, no final da vida, admitiu os erros familiares que cometeu?

Uns 15 dias antes de morrer, ele chamou minha prima, a Denize (filha de João Goulart). Queria pedir desculpas para ela, em nome de meu tio, da minha mãe e dele, por tudo que eles fizeram de errado na relação com os filhos e sobrinhos. Era como se estivesse passando a vida a limpo. E, em seguida, ele se foi. Só soube dessa conversa depois que ele morreu.

Confira um trecho do livro de memórias que João Otávio está escrevendo:

"Nós nos mudamos para um apartamento no centro de Montevidéu ao lado da Casa do Governo, apenas a

sete quadras de distância da escola. No primeiro ano, fomos sempre levados para a escola por um motorista, por

razões de segurança, mas, como as coisas se acalmaram, tornou-se possível se comportar mais como cidadãos normais. Às vezes, nossa mãe nos levava a pé para a escola no período da manhã . Em uma dessas vezes, vi um amigo da minha ex-escola no Brasil caminhar no sentido oposto com sua mãe.

— Mamãe, olha — eu falei, animadamente

— É o Pedro!

— É mesmo. Vamos lá e dizer 'olá' — disse minha mãe.

Naquele momento, a mãe do Pedro nos viu e eu nunca vou esquecer o olhar de horror que atravessou seu rosto enquanto Pedro levantou a mão para acenar. Ela agarrou o braço dele e os dois fugiram tão rápido quanto eles

podiam. Ela sequer tentava fingir. Embora eu não entendia o que estava acontecendo, minha mãe entendeu completamente. Para qualquer brasileiro, naqueles tempos, ser associado com alguma coisa a ver com Leonel Brizola era arriscar prisão, literalmente e socialmente.

— Vamos para casa — disse ela, dando-me um abraço.

E eu vi que ela estava chorando.

— Leonel — ela gritou, logo que entrou em casa.

— Você não vai acreditar no que aconteceu ...
Eu comecei a entender um pouco melhor o que estava acontecendo. Fui até o meu quarto. Meu pai tentou acalmá-la e, depois de um tempo, veio e sentou ao meu lado na cama, colocando o braço em volta dos meus ombros.

— Você tem que entender, João, que essas coisas são tão precisas quanto um cálculo estrutural. Quando você está no poder, você atrai muita gente, todos querem chegar perto de você. Mas, quando você está exilado, eles vão

fugir de você, verão apenas seus defeitos. Você vai ver na vida que, quando se está no governo, todo mundo é seu amigo e tudo é belo, mas quando você está fora, todos vão estar à procura de razões para evitar você. Eles são como abutres, circulando no céu, observando e esperando você tropeçar antes de atacar e se alimentar do seu cadáver.

Como um engenheiro, ele foi sempre soube explicar as coisas em termos precisos."

Dione Kuhn
No Zero Hora
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Disputa no DF assombra os eleitores

Eleição no Distrito Federal tem governador impopular, candidatos com longas fichas corridas conhecidas e uma terceira via que não consegue se viabilizar

O ex-governador do Distrito Federal deixa a Superintendência
da Polícia Federal em abril de 2010. Ele foi condenado,
mas recorre em liberdade
José Cruz/Ag.Brasil
A quatro meses das eleições, a grande maioria dos eleitores brasilienses não definiu seu candidato para a sucessão do governo do Distrito Federal. O desencanto captado pelas pesquisas não causa estranheza aos analistas políticos. De um lado da disputa está o governador Agnelo Queiróz, do PT, com um dos piores índices de aprovação do País. De outro, a oposição articula-se em torno do ex-governador José Roberto Arruda, preso em 2010 após ser flagrado em vídeo recebendo propina de Durval Barbosa, delator e um dos operadores do “mensalão do DEM”, esquema de corrupção com distribuição de mesadas a parlamentares.

À candidatura de Arruda, juntaram-se os ex-senadores Luiz Estevão e Joaquim Roriz, velhos conhecidos das páginas policiais. E os concorrentes da “terceira via” ainda penam para vencer a barreira dos dois dígitos nas intenções de voto.

Na mais recente pesquisa registrada na Justiça Eleitoral, o Instituto Veritás consultou 2.227 eleitores do Distrito Federal entre 3 e 6 de junho. Nas respostas espontâneas, 63,4% dos entrevistados afirmaram não saber em quem votar. Outros 11,3% indicaram voto branco ou nulo. Somente no cenário estimulado, com a apresentação dos prováveis candidatos, Arruda lidera a corrida eleitoral com 24,5% das intenções de voto, seguido por Queiróz, com 13%. Entre os nomes da “terceira via”, o melhor posicionado é o senador Rodrigo Rollemberg, do PSB, com 9,8%.

“Esse cenário não chega a surpreender. Na ausência de lideranças alternativas consolidadas, o eleitor vê-se obrigado a escolher entre os políticos tradicionais, por mais nebuloso que seja o passado deles”, avalia o cientista político Claudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas. “Surpreendente é ver Brasília, a capital da República, atolada num panorama político tão desolador.”

A ficha corrida dos principais atores da política brasiliense é singular. Antes de entrar para a história do País como o primeiro governador preso no exercício do mandato, Arruda viu-se forçado a renunciar ao mandato de senador em 2001, após admitir ter violado o painel de votação do Senado no ano anterior. Temia ter o mesmo destino que seu atual aliado, Luiz Estevão, primeiro senador da República a ter o mandato cassado, em 2000, por desvios na obra do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Acabou condenado a 31 anos de prisão, mas recorre da sentença.

Com longa trajetória de processos na Justiça, Joaquim Roriz acabou barrado pela Ficha Limpa em 2010, quando tentava o quinto mandato no governo, por ter renunciado ao mandato no Senado em 2007. À época, foi acusado de negociar uma partilha irregular de 2,2 milhões de reais com o presidente do Banco Regional de Brasília (BRB). De última hora, abdicou da candidatura em favor da mulher Weslian Roriz, que chegou a disputar o segundo turno contra Agnelo Queiróz. Inexperiente, a mulher deu vexame nos debates e facilitou a vitória do petista.

Para as eleições de 2014, Roriz decidiu escalar a filha Liliane Roriz, deputada distrital pelo PRTB. Depois, anunciou apoio a Arruda, com a filha como vice na chapa. Liliane desistiu, porém, das pretensões ao Palácio do Buriti. Disputará a reeleição na Assembleia Legislativa, embora mantenha o apoio a Arruda.

Mesmo diante da fragilidade dos adversários, Queiróz terá enorme dificuldade para reeleger-se. No fim de 2013, seu governo era avaliado positivamente por apenas 9% da população, segundo o Ibope. Além disso, sua administração não é exatamente um exemplo de lisura. Recentemente, a primeira-dama do Distrito Federal, Ilza Queiroz, foi flagrada em grampo telefônico pedindo a um administrador regional, investigado pela Polícia Civil por fraudar alvarás, que “agilizasse” o processo de uma clínica. “Dona Ilza, pode dormir sabendo que amanhã a licença está na mão deles”, respondeu o funcionário, nomeado pelo governador.

Pesam ainda numerosas denúncias de superfaturamento em contratos públicos firmados durante a administração petista, a começar pela reforma do Estádio Nacional de Brasília, o mais caro da Copa, bancado integralmente pelos cofres públicos. Em março, uma auditoria do Tribunal de Contas da União apontou indícios de superfaturamento de 431 milhões de reais na execução da obra. O governador nega todas as acusações, e culpa a oposição pela sanha persecutória. Mas algumas histórias são realmente difíceis de engolir, como o gasto de 5,5 milhões de reais para a compra de 17 mil capas de chuva para a Polícia Militar, tendo em vista a realização da Copa das Confederações e a Copa do Mundo. Como se sabe, no período dos eventos esportivos, a capital federal passa por um período de seca.

O que intriga os especialistas é a incapacidade de renovação política. “É assustador ver essa turma liderando a disputa eleitoral”, afirma o cientista político João Paulo Peixoto, da UnB. A atual crise de representatividade, afirma o professor, pode ter relação com o excesso de poder da capital federal. Embora seja uma unidade federativa diferenciada dos demais estados, o Brasília tem direitos semelhantes: elege oito deputados e três senadores. Mas dispõe de regalias, como o repasse de recursos da União para bancar a segurança pública. O orçamento é de fazer inveja a muitos estados brasileiros: 35 bilhões de reais previstos para 2014. O valor é 60% superior ao orçamento do vizinho estado de Goiás, que dispõe de uma população 2,3 vezes maior.

“É muito poder para grupos dispostos a parasitar”, afirma Peixoto. “Todos os gastos da capital dos Estados Unidos precisam ser aprovados pelo Congresso americano. E Washington DC não tem direito a eleger senadores. Ottawa, a capital do Canadá, é uma cidade como outra qualquer, sem nenhuma regalia especial.”

Além disso, no Distrito Federal, não há municípios autônomos. O governador nomeia todos os 31 administradores regionais das “cidades-satélites”, lembra Claudio Couto, da FGV. “Essa centralização dificulta o surgimento de novas lideranças”.

Rodrigo Martins
No CartaCapital
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Luciana entrevista Dudu. Ou foi um sósia?

Palmeira não dá côco…

Como diz o Janio: embuste quando era a favor da Dilma e embuste, contra
Campos é comparado a Chico Buarque e cai em pegadinhas de Luciana Gimenez



O ex-governador Pernambucano ainda caiu em duas pegadinhas. Numa delas, o humorista Diogo Portugal perguntou (sic):

— Antes do dilúvio, que durou 40 dias e 40 noites, Moisés colocou na arca 35 pares de animais. Quantos animais tinham ao todo?

— Setenta — respondeu Campos, de bate-pronto, antes de ser alertado pelo humorista que a arca era de Noé.

Nesse instante, Luciana Gimenez, não perdeu tempo.

— Em uma ilha há 3 palmeiras e cada uma dá 3 cocos por dia. Quantos cocos tinham na ilha após uma semana.

— Sessenta e três — respondeu Campos.

— Não tinha nenhum, palmeira não dá coco — retrucou a apresentadora.

[...]

Ao começar a falar de política e economia, tecendo críticas ao governo Dilma Rousseff e apresentando alternativas para o país, ouviu da apresentadora.

— Tá me dando depressão…

No CAf
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Dilma domina naquilo que de fato importa: o tempo de TV

Quebrou a cara quem apostou no desgaste da presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, a ponto de provocar uma debandada de aliados na véspera do início oficial da campanha eleitoral, na próxima semana. Em lugar da violência dos protestos e do caos da infraestrutura nas cidades-sede, previstos pela oposição e pela mídia familiar para dar um cavalo de pau nas pesquisas, a Copa no Brasil está sendo festejada aqui e no mundo todo como o melhor e mais bem organizado evento da Fifa, tanto dentro como fora do campo.

Ainda não se tem notícias de novo Ibope ou Datafolha, pesquisas que antes eram praticamente semanais, mas os levantamentos publicados nesta quinta-feira sobre o tempo de televisão destinado a cada candidato, que é o que mais importa na campanha presidencial, dão uma ampla vantagem à presidente, com as alianças praticamente já definidas.

Com 9 minutos e 41 segundos já garantidos, podendo chegar a 11min25s em cada bloco de 25 minutos, Dilma tem o triplo do tempo do seu principal adversário, o tucano Aécio Neves (3min10s), e cinco vezes o de Eduardo Campos, do PSB, que ficou com um número (1min46s) bem próximo dos nanicos.

Ou seja, a candidata à reeleição poderá ter quase a metade de todo o tempo reservado aos candidatos para presidente da República, que ela pretende ocupar mostrando o que foi feito no seu governo e nos dois mandatos de Lula para melhorar a vida dos brasileiros — o seu grande trunfo eleitoral —, fazendo uma comparação com as administrações anteriores.

dilma ok Dilma domina naquilo que de fato importa: o tempo de TV
aecio ok Dilma domina naquilo que de fato importa: o tempo de TV
eduardo campos Dilma domina naquilo que de fato importa: o tempo de TV

No início da semana, quando o PTB de Roberto Jefferson pulou do barco governista para apoiar Aécio, festejou-se nos arraiais da oposição midiático-partidária-empresarial como se esta fosse uma tendência inexorável na base aliada. Não foi o que aconteceu: pelas últimas contas, Dilma tem o apoio de nove partidos, um a menos do que na aliança vitoriosa de 2010, mas com mais tempo na TV porque as bancadas aliadas têm agora maior número de deputados.

Como o prazo para a formação de alianças termina no sábado e a propaganda eleitoral no rádio e na televisão só começa em agosto, pode-se dizer que Dilma Rousseff, que mantem a liderança folgada em todas as pesquisas até aqui divulgadas, larga com grande vantagem na corrida presidencial.

Pode-se também discutir os métodos empregados nos acordos feitos para conquistar esta maioria, com a troca de ministros e a entrega de cargos para assegurar apoios partidários, mas o fato é que a candidata do PT conseguiu sobreviver, sem perder o favoritismo, a um primeiro semestre bastante difícil, tanto na economia como na articulação política, enfrentando críticas de setores do próprio partido, que só agora desistiram do "volta Lula".

Sobre os métodos utilizados para conquistar aliados, tanto no plano federal como nas campanhas estaduais, porém, ninguém poderá falar nada de ninguém, já que princípios programáticos, ética e fidelidade partidárias não são propriamente características dos políticos brasileiros (ver no post anterior: "Orgia partidária é a falência do sistema político"). A não ser que aconteça alguma tragédia, este cenário deverá permanecer congelado até a bola parar de rolar em campo, mas na campanha eleitoral, assim como na Copa, não dá ainda para dizer quem vai ganhar.

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Arnaldo Jabor vai se retratar?

Semanas antes do início do mundial, comentarista da Globo prometeu, em rede nacional, que haveria caos e vexame internacional no que chamou de "Copa do Medo". Ele irá se retratar?

Arnaldo Jabor prometeu “caos” na Copa 2014
"O mais claro sinal de que vivemos uma mutação histórica é esta Copa do Medo. Há o suspense de saber se haverá um vexame internacional que já nos ameaça. Será péssimo para tudo, para economia, transações políticas, se ficar visível com clareza sinistra nossa incompetência endêmica, secular. Nunca pensei em ver isso. O amor pelo futebol parecia-me indestrutível".

"A Copa vai revelar ao mundo nossa incompetência"

Esses pensamentos de Arnaldo Jabor, produzidos no início desse mês, refletem a expectativa de grande parte da imprensa brasileira com relação a Copa do Mundo.

Desde que o Brasil foi anunciado como sede, muitas certezas foram construídas. O "caos aéreo", por exemplo, tinha a sua convocação garantida para o grande evento. Durante anos, jornalistas e políticos oposicionistas cravavam suas previsões:


O caos aéreo era apenas um dos inúmeros problemas que revelavam a nossa incapacidade em sediar um evento desse porte. A pregação pessimista incluía também o "apagão de mão de obra", "estádio inseguros" e "blecaute de comunicação". Até uma "aliança entre black blocs e PCC" nas manifestações durante os jogos aterrorizou a população. Durante anos o medo do vexame na Copa do Mundo martelou no noticiário:

Muito "apagão", muito "caos", muita "vergonha". O quadro pintado pela mídia nacional e, por tabela, a internacional, não poderia atiçar mais o complexo de vira-lata brasileiro.

Mas, eis que chega a Copa, e nenhuma das profecias foi cumprida. A Copa do Medo não deu as caras. Estamos no fim da primeira fase e até agora não chegamos nem perto de um caos aéreo. Muito pelo contrário. Os atrasos nos aeroportos estão abaixo da média internacional, contrariando a histeria pré-Copa. A tragédia anunciada no espaço aéreo se mostrou um grande furada, o que deixou muita gente perplexa.



Mas o mais importante de tudo é que hoje nossa imprensa está em festa. O medo do vexame deu lugar a um sentimento de "sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor". Estádios ficaram prontos, aeroportos trabalham com eficiência, não houve blecaute de comunicação, a imprensa internacional elogia (o que é sempre fundamental!), enfim, o país está dando conta do recado e não há como negar.

Até os mais empenhados em apontar nossos defeitos tiveram que dar o braço a torcer. As profecias apocalípticas nem parecem ter naufragado, tamanha a desenvoltura com que exaltam a Copa, a alegria dos estrangeiros e a boa organização do evento.

E, pra ilustrar essa guinada dos nossos colegas, encerremos do jeito que começamos: com pensamentos jaborianos, dessa vez produzidos logo após o início do que ele chamou de "Copa do Medo".


"Vamos torcer até morrer! Não dá pé usar a Copa como motivo de manifestações."

"O Brasil ficou tão calmo (...) Há muito tempo não vejo tanta normalidade na vida brasileira"

É, Arnaldo, imagina nas Olimpíadas!

Jornalismo Wando
No Pragmatismo Político
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O PIB desmorona... nos EUA!




Por motivos políticos-eleitorais, a mídia tucana tenta vender a imagem de que o Brasil está afundando numa violenta crise econômica. Todos os dias, os jornalões e as emissoras de rádio e tevê preveem o colapso final. Até parece que o mundo está a mil maravilhas, em plena prosperidade, e o Brasil está na lanterninha. A manipulação deliberada, já que os barões da mídia sabem perfeitamente que a economia capitalista vive um período de prolongada crise, não resiste à realidade. Nesta quinta-feira (26), a imprensa mundial confirmou que os EUA tiveram a maior contração econômica dos últimos anos. A tal recuperação ianque não passava de uma lenda difundida pela mídia colonizada do Brasil.

Segundo o jornal Valor, “a economia dos Estados Unidos teve contração a uma taxa anualizada de 2,9% no primeiro trimestre deste ano” — o pior resultado desde 2009. Os dados negativos surpreenderam o próprio governo Barack Obama, que havia anunciado uma retração de “apenas” 1% no Produto Interno Bruto (PIB). “A revisão do desempenho econômico, de queda de 1% para recuo de 2,9%, foi a maior feita pelo Departamento do Comércio do país desde 1976. O recuo da economia dos EUA entre janeiro e março reflete as contribuições negativas dos investimentos nos estoques privados, das exportações, dos gastos dos governos estaduais e locais e do investimento fixo não residencial e residencial”.

A notícia bombástica mereceria manchetes nos jornalões e longos comentários nos telejornais. Isto, porém, poderia ajudar a desmascarar o falso terrorismo da mídia contra o Brasil. Folha, Estadão e O Globo preferiram publicar pequenas notas, sem qualquer escarcéu. Já na tevê, os tais “especialistas de mercado” — nome fictício dos porta-vozes dos banqueiros — evitaram análises mais ácidas. Nos próximos dias, a violenta queda do PIB dos EUA obrigatoriamente terá que ser tratada. Afinal, é a principal economia do mundo capitalista. Sua retração afeta todo o planeta. Será que os “calunistas” vão afirmar que a situação da economia brasileira é bem mais saudável do que a do império?

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Quem está por trás da ONG ‘Repórteres Sem Fronteiras’

Reinaldo Azevedo, Arnaldo Jabor, Demétrio Magnoli, Guilherme Fiúza, Augusto Nunes, Diogo Mainardi, Lobão, Danilo Gentili e Marcelo Madureira.

Essa é a escalação da seleção feita por Alberto Cantalice, vice-presidente do PT, com a qual ele não gostaria de jogar. Em recente artigo, Cantalice afirmou que esse time não faz outra coisa a não ser propagar o ódio.

“Diurtunamente lançam vitupérios, achincalhes e deboches contra os avanços do país visando desgastar o governo federal e a imagem do Brasil no exterior. Inimigos que são das políticas sociais, políticas essas que visam efetivamente uma maior integração entre todos os brasileiros pregam seu fim (…) são contra as cotas sociais e raciais; as reservas de vagas para negros nos serviços públicos; as demarcações de terras indígenas; o Bolsa Família, o Prouni e tudo o mais.”

Obviamente a mais feroz reação veio de Reinaldo Azevedo que ameaça processar Cantalice. E contou com algum apoio do Repórteres Sem Fronteiras. De resto, o próprio Azevedo queixou-se do silêncio dos colegas de classe.

Nem sempre personificar é bom. Nem sempre não quer dizer nunca. Listar quem só fomenta o pessimismo e depreciação da classe política é até didático nesse caso. A generalização trouxe alguns efeitos colaterais durantes as manifestações. Criticar a “grande mídia” sem dar nome aos bois fez com que muitos repórteres e jornalistas fossem expulsos das ruas ou mesmo agredidos. Aconteceu até com Caco Barcellos.

E como posicionou-se o Repórteres Sem Fronteiras? Emitiu uma nota mencionando preocupação com a “tensão entre governo e jornalistas da oposição”, como se um cerceamento da liberdade de imprensa estivesse em marcha, fazendo coro ao discurso atualmente disseminado pela mídia entre as classes menos informadas.

Primeiro, Cantalice não é governo, é o vice-presidente do partido. Segundo, a Repórteres Sem Fronteiras não goza de isenção para dar esse pitaco.

A ONG é sensivelmente opositora de governos de esquerda e sua preocupação com jornalistas costuma seguir a mesma tendência.

Quando tropas americanas atacaram o hotel Palestina em Bagdá e três jornalistas que cobriam a invasão dos EUA no Iraque morreram, a ONG não fez estardalhaço. No mesmo dia a sede da TV Al Jazeera também foi atacada. O RSF não condenou as mortes. E há inúmeros outros exemplos.

Causa desconfiança o fato da entidade ser financiada por campanhas americanas contra governos que lhe são contrários. Cuba e Venezuela são fregueses de carteirinha. Quem faz os aportes em nome do governo dos Estados Unidos é a National Endowment for Democracy (Fundação Nacional pela Democracia). Maxime Vivas, escritor francês, lançou há alguns anos o livro ‘A Face escondida do RSF’ no qual indica as relações da organização com o governo dos Estados Unidos e com a CIA.

Foi Vivas quem denunciou a cumplicidade do fundador e diretor Robert Ménard do Repórteres sem Fronteiras com os órgãos norte-americanos de inteligência ao mencionar o Center for a Free Cuba e a NED como seus únicos patrocinadores durante aquela longa gestão. Ménard, tal qual Reinaldo Azevedo, ameaçou processar o escritor, mas bateu em retirada. Tempos depois, manifestou sua simpatia pela Frente Nacional, partido de extrema-direita da França que prega o racismo, a xenofobia e demais devaneios.

A Veja nos últimos dias tem se referido a ela como a “respeitada organização Repórteres Sem Fronteiras”. Como diria Gilberto Gil: procure saber.

Mauro Donato
No DCM
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