25 de jun de 2014

“Pibinho” é nos EUA…


Você conseguem imaginar como se comportariam os jornais brasileiros se acontecesse aqui o que se passou hoje nos EUA?

Em maio, foi anunciado que o Produto Interno Bruto do país caíra 1%.

Culpou-se, com alguma razão, o frio recorde no território norteamericano.

No início do mês os jornais já falavam numa revisão dos números que levaria a queda da economia para perto de 2%.

Hoje saiu a revisão oficial: queda de 2,9%.

Quase o triplo da primeira medida e a maior desde a recessão pós-crise de 2008, como você vê no gráfico lá em cima.

Haja frio para explicar.

Tente lembrar, agora, do escândalo que se criou aqui com um crescimento de 1,9% no PIB brasileiro.

Ou quando a dirigente do Federal Reserve, o BC deles, dizia há poucos meses que estávamos nós entre os “Cinco Frágeis”.

“Pibinho”, dizem nossos comentaristas econômicos, mesmo sabendo que temos uma economia dependente da economia do mundo e que a economia do mundo reflete, e muito, o desempenho da economia americana.

Que vai apresentar um resultado melhor, claro, no segundo semestre, porque a base de comparação do primeiro trimestre é baixa, muito baixa.

Melhor, mas muito longe de recuperar as perdas dos primeiros três meses do ano.

O Brasil vai precisar fazer o que o período eleitoral e a pressão da mídia não permitem.

Ampliar muito e muito mais o investimento público e o consumo, medidas clássicas de políticas econômicas anticíclicas como se fez no Governo Lula, diante da crise global.

Mas estamos amarrados à “camisa-de-força” da ortodoxia econômica que o “diktat” do mercado nos impõe.

Ou, para sair do economês, fazer aquilo que sugeriu o ex-presidente Lula ao Arno Augustin:

— Arno, um dia você vai ter que me explicar por que, se a gente não tem inflação de demanda, por que a gente está barrando crédito. Porque com o crédito todo mundo vai à luta, o comércio vai à fábrica, a fábrica vai produzir, melhora a vida de todo mundo. Sem crédito ninguém vai a lugar nenhum.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Veja Aécio Jackson e sua vontade de voltar para trás


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Maior que Libra, cessão onerosa é só da Petrobras. É o horror para o mercado


Em plena Copa, uma notícia passa sem o impacto que deveria ter na mídia.

Talvez porque seja uma das melhores notícias que se pudesse dar.

Como este blog havia informado em novembro do ano passado, o Governo entregou à Petrobrás, como estava autorizado pelas leis que aprovaram o regime de partilha, aprovadas no final do Governo Lula, quatro das seis áreas de cessão onerosa utilizadas como garantia no processo de capitalização da empresa.

Concentradas no campo de Franco, agora chamado de Búzios, tem entre 10 e 14 bilhões de barris de petróleo recuperáveis, quase o mesmo que as reservas provadas do nosso país. Algo como 25% mais do que Libra, o maior campo de petróleo descoberto no mundo neste milênio.

Além de Búzios, foram entregues as áreas do entorno de Iara, Florim e Nordeste de Tupi, que provavelmente serão  unitizados (reunidos, em linguagem do setor) em uma só área de exploração.

Fora as receitas de impostos, só de lucro líquido para o país — que fica com três quartos do lucro, cabendo um quarto à Petrobras — o campo renderá à educação é a saúde brasileiras algo como 700 bilhões de reais, a preços de hoje.

É uma área capaz de, ao longo de 30 anos de produção, permitir uma extração média de 1,3 milhão de barris diários, ou metade do que tudo o que é produzido hoje no país.

E, curiosamente, a reação do mercado, na negociação das ações da Petrobras, derrubou o valor dos papéis da empresa.

É que isso irá, nos próximos anos, fazer a Petrobras ter de investir — e quase tudo dentro do Brasil — cerca de R$ 500 bilhões.

Ou, para os que gostam de comparações, 20 vezes tudo o que se chama de “gastos” com a Copa. Ou 120 vezes o valor dos empréstimos do BNDES para a construção de estádios.

São pelo menos 20 navios-plataforma, dezenas de sondas, centenas de barcos de apoio e instalações em terra.

Uma imensa máquina de distribuir receita, impostos, indústrias e serviços da cadeia de suprimento necessária.

Aos que estranharam a posição deste blog quando se tratou de leiloar o campo de Libra, à procura de parceiros capazes de injetar capital na exploração do campo de Libra, aí está a resposta do porque.

Era preciso “guardar” a capacidade da Petrobras de explorar estes campos ainda maiores.

E fazê-lo de forma a proteger o patrimônio nacional das tentativas, que não terminam, de entregar essa riqueza ao capital estrangeiro.

No final de 2016, início de 2017, Búzios produzirá seu primeiro óleo comercial e, nos dois anos seguintes, sua produção vai começar a pagar parte deste volume de investimentos.

Em um período de sete ou oito anos depois disso, a extração alcançará o limite de 5 bilhões de barris contratados, em condições mais favoráveis à Petrobras, pois passam a vigir as regras mais pesadas acertadas hoje com o Governo.

Até lá, este dinheiro vai remunerar o crescimento da participação governamental no aumento de capital da empresa, o que tornou possível recuperar parte do pedaço da Petrobras entregue por Fernando Henrique Cardoso, ao vender suas ações na bolsa de Nova York.

Hoje, este assunto se resumirá em pequenas e ácidas matérias nas páginas de economia dos jornais.

Em 20 anos, talvez, meus netos aprendam nos livros de escola sobre esta segunda independência — a econômica — do Brasil.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Inglaterra: jornalista ex-chefe do News of the World é condenado

Após oito meses de julgamento, Andy Coulson, ex-chefe do tabloide britânico News of the World, de propriedade do magnata mundial de mídia, o australiano Rupert Murdoch, foi condenado pelo uso de grampos telefônicos de políticos e celebridades, incluindo membros dos Windsor, a família real inglesa.

Coulson esteve no comando do tablóide de Murdoch entre 2003 e 2007. O jornal foi fechado em julho de 2011, após 168 anos de existência. Parou de circular quando veio à público o esquema de espionagem de celebridades e suborno de servidores públicos, pelo qual obtinham notícias, inclusive sensacionalistas, que o jornal publicava numa das mais conhecidas e comprovadas invasões dos direitos individuais e da privacidade das pessoas.

Após o escândelo o governo britânico criou, inclusive, um órgão regulador de imprensa apesar de toda resistência da área que, lá como aqui, não queria. É, lá os barões da mídia também são fortes, mas, o governo foi em frente e conseguiu unir em torno da aprovação da legislação os dois maiores e tradicionais partidos Trabalhista e Conservador.

Para colocar a regulação em vigor, o governo Cameron precisou recorrer, inclusive, a uma aprovação excepcional de Elizabeth II, fato raro na política deles, já que lá a monarca reina, é a chefe do Estado e da Comunidade Britânica, mas não governa, não se imiscui em assuntos políticos do governo. A condenação de Coulson foi uma bomba para o primeiro-ministro David Cameron (Partido Conservador) que já havia, inclusive, pedido desculpas publicamente por të-lo contratado como seu assessor de imprensa, em 2010.

2,5 milhões de exemplares

News of the World chegou a vender mais de 2,5 milhões de exemplares semanais e, grande parte, do sucesso se devia às “informações exclusivas” conseguidas graças à espionagem e às violações da privacidade das personalidades. E, não só celebridades. O telefone de Milly Dowler, de 13 anos, desaparecida em 2002 e assassinada, foi grampeado pelo tablóide e mensagens chegaram a ser apagadas, fazendo com que os investigadores achassem que a menina estava viva.

Até agora, dos sete acusados, cinco foram absolvidos: a conselheira de Murdoch, Rebekah Brooks (antecessora de Coulson na direção do jornal entre 2000 e 2003); seu marido Charlie Brooks; a assistente de Charlie, Cheryl Carter; o ex-editor Stuart Kuttner;e o chefe de segurança do tabloide, Mark Hanna.

Coulson foi considerado culpado e o editor de temas monárquicos, Clive Goodman, ainda aguarda o pronunciamento do juri. Segundo o “Guardian”, Murdoch deve ser ouvido em breve pelas autoridades britânicas. Hoje, seu grupo mantém os jornais “The Times”, “The Sun” e “The Sunday Times”.

Crime na mídia inglesa resulta em condenação. Já aqui…

Vocês viram que na Inglaterra, esta semana, após oito meses de julgamento, o jornalista Andy Coulson, ex-chefe do tablóide londrino News of the World, do todo-poderoso magnata mundial da mídia Rudolph Murdoch, foi condenado pelo uso de grampos telefônicos contra políticos, celebridades e até membros da família real?

Coulson esteve no comando do tablóide de Murdoch entre 2003 e 2007 e o jornal parou de circular em julho de 2011, após 168 anos de existência, exatamente quando veio à público o esquema de espionagem e suborno de servidores públicos. E aqui no Brasil? Nem em sonho isso acontece.

Aqui a mídia reina absoluta, sem lei nem autoridade que coiba seus abusos, sem temer a nada nem a ninguém. Aqui é o verdadeiro império dos barões da mídia, dominada por meia dúzia de família que detém o monopólio da comunicação, da informação — e da manipulação — dos grandes conglomerados midiáticos.

Uma coisa é um crime cometido pela mídia inglesa; outra, pela brasileira

Isso é ruim porque não pode, nem deve haver ninguém, nem nenhuma atividade que se desenvolva em nosso país, e em nenhum outro, que esteja acima da lei. Mas, lembram-se do caso da invasão da privacidade do ex-ministro José Dirceu, em 2012, por um repórter da revista Veja, quando ele mantinha seu escritório político no Naoum Plaza Hotel, em Brasília?

Vocês devem se lembrar, ele tratou da questão várias vezes aqui quando escrevia este seu blog. Pois é passados mais de dois anos daquela barbaridade, verdadeiro crime, não aconteceu nada. É isso mesmo que vocês estão lendo: aquela brutal invasão da privacidade do ex-ministro José Dirceu, em 2012, por um repórter da VEJA, não deu em nada. Absolutamente, nada.

Ainda chegaram a instaurar um inquérito policial na 5ª Delegacia de Polícia Civil de Brasília (DF) para investigar o roubo de imagens feitas por câmeras de segurança de parlamentares e autoridades nos corredores do de parlamentares e autoridades nos corredores do Naoum e por solicitação do hotel mas, também, não deu em nada.

Coisas estranhas no processo de invasão da privacidade de Dirceu pela Veja

Coisas estranhas e inexplicáveis aconteceram com o processo por aquela invasão de privacidade de Dirceu que corria em Brasília contra o repórter da Veja. O delegado Edson Medina de Oliveira, que presidiu o inquérito e indiciou o repórter Gustavo Ribeiro, recomendando ainda ao Ministério Público Distrital que seguisse com o processo na Justiça, foi afastado afastado da 5ª DP-DF sem qualquer explicação. E em 19 de dezembro de 2012, um promotor, Bruno Osmar Freitas, pediu o arquivamento do caso.

Pouco mais de um mês depois, em 24 de janeiro de 2012, o juiz Raimundo Silvino da Costa Neto acatou o pedido do promotor e o caso foi encerrado. O juiz acatou um estranho argumento: não teria havido o crime de invasão de privacidade porque o repórter, denunciado por uma camareira do hotel, acabou fugindo pela escada, antes de ser pego pelos seguranças, colocados em seu encalço pelo gerente Rogério Tonatto.

Depois, outro inquérito foi instaurado, já para tratar de outro aspecto da questão: o roubo das imagens das pessoas entrando e saindo do escritório de Dirceu. Segundo áudios da Operação Monte Carlo, que investigou o bicheiro Carlinhos Cachoeira e que foram objeto de matéria da revista Carta Capital, arapongas que prestavam serviço a ele e o diretor da Veja em Brasília, Policarpo Júnior, travaram negociações para que as imagens captadas pelas câmaras do sistema de segurança do Hotel pudessem ser utilizadas pela reportagem que a revista publicou sobre as atividades de Dirceu em seu escritório no Naoum Plaza Hotel, na semana seguinte à tentativa de invasão.

As razões para o resgate dessa história

O que queremos mostrar ao resgatar essa história é a dificuldade para se levar ao devido termo um processo contra um veículo de comunicação no Brasil, mesmo que fique claramente comprovado que ele cometeu uma transgressão à lei, mesmo que inquéritos tenham sido instaurados e que os fatos tenham sido devidamente documentados: a tentativa da realização do crime, com autoria conhecida e tudo.

Já na Inglaterra, oito meses depois de iniciado o julgamento de um dos implicados no crime de invasão de privacidade com a instalação de grampos telefônicos contra celebridades e autoridades públicas, e de suborno a funcionários da máquina estatal…e se tem a primeira condenação de um dos responsáveis. Na Inglaterra o escândalo resultou numa lei de regulação da mídia… já aqui…

No Blog do Zé
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STF autoriza trabalho externo para José Dirceu


Por maioria de votos, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou hoje (25) o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu a trabalhar durante o dia em um escritório de advocacia em Brasília. Dirceu vai prestar serviços no escritório do advogado José Gerardo Grossi, em Brasília. Ele vai ajudar na pesquisa de jurisprudência de processos e na parte administrativa com salário de R$ 2,1 mil. A jornada é das 8h às 18h, com uma hora de almoço.

Os ministros aceitaram recurso da defesa contra decisão do presidente da Corte, Joaquim Barbosa, que rejeitou a autorização em maio, por entender que Dirceu e os demais apenados não cumpriram o mínimo de um sexto da pena para terem direito benefício. O ex-ministro foi condenado a sete anos e 11 meses de prisão em regime semiaberto. Com base no entendimento, José Dirceu nem chegou a ter o benefício autorizado.

Ao divergir de Barbosa, a maioria do plenário concordou com o voto do relator das execuções penais dos condenados, ministro Luís Roberto Barroso. Para o ministro, não é necessária a exigência de um sexto da pena para que o condenado em regime semiaberto possa deixar a prisão durante o dia para trabalhar.

Segundo Barroso, a jurisprudência sobre o assunto é antiga no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o entendimento contrário não pode ser alterado somente para os condenados no processo do mensalão. “A negação ao direito ao trabalho externo para reintroduzir a exigência do prévio cumprimento da um sexto da pena vai ao desencontro das circunstâncias do sistema carcerário de hoje.”

No caso específico de Dirceu, o relator afirmou que o trabalho externo em um escritório de advocacia é inconveniente, no entanto, a questão não impede que a autorização seja concedida. Na decisão, o presidente da Corte avaliou que a proposta de emprego era “uma ação entre amigos”.

Com o recesso no Judiciário , que começará na terça-feira (1º), os recursos do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, do ex-deputado federal Romeu Queiroz e advogado Rogério Tolentino, ligado ao publicitário Marcos Valério, poderão ser decididos individualmente por Barroso. Todos tiveram o benefício cassado por Barbosa, com os mesmos argumentos.

André Richter
Agência Brasil

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Turistas gastaram R$ 500 milhões em Fortaleza na primeira fase

No total, o estádio recebeu 237,7 mil torcedores – média de 59,4 mil por jogo
Os turistas que viajaram a Fortaleza na primeira fase da Copa do Mundo injetaram, de forma direta, cerca de R$ 500 milhões na economia da cidade. Os números foram apresentados nesta quarta-feira (25.06) em entrevista coletiva no Centro Aberto de Mídia (CAM). Segundo o secretário especial da Copa do Ceará (Secopa), Ferruccio Feitosa, os principais gastos dos visitantes brasileiros e estrangeiros foram com hospedagem, comércio, serviços e passeios turísticos.

Entre os 167 mil visitantes que compraram ingressos para as quatro partidas da primeira fase na Arena Castelão, 94,5 mil eram estrangeiros e 72,5 mil de outros estados do País. No total, o estádio recebeu 237,7 mil torcedores – média de 59,4 mil por jogo e ocupação de 93%. Se forem contabilizados os visitantes que viajaram à capital cearense sem ingressos para os jogos no Castelão, a estimativa é de que mais de 200 mil pessoas passaram pela cidade na primeira fase.

Próximas partidas

Para os jogos das oitavas e quartas-de-final no Castelão, segundo o secretário Ferruccio Feitosa, 91,8 mil turistas compraram ingressos. A partida entre Holanda e México, no próximo domingo (29.06), terá 28,4 mil estrangeiros e 16 mil visitantes de outros estados. A expectativa é de que 7 mil mexicanos e 1,5 mil holandeses compareçam à partida. Já o duelo das quartas-de-final prevê 19,8 mil turistas de outros países e 27,6 mil brasileiros. As duas partidas devem ter público de mais de 60 mil pessoas cada. 

Fan Fest

Já a arena da Fan Fest, no aterro da Praia de Iracema, registrou 357 mil pessoas na fase inicial da Copa (média de 25,5 mil por dia). O pico de público foi registrado no dia da partida entre Brasil e México, em 17 de junho, quando 44 mil pessoas passaram pelo espaço. Já no último sábado (21.06), quando Alemanha e Gana se enfrentavam na Arena Castelão, a Fan Fest registrou 38 mil torcedores. Foram 357 atendimentos médicos no posto de saúde da Praia de Iracema, com 49 remoções para hospitais da cidade.

“Os números mostram que vale a pena sediar uma Copa do Mundo. Sempre enxergamos o evento como uma oportunidade de apresentar Fortaleza para o Brasil e para o mundo. Estamos vendo aqui uma verdadeira confraternização, onde pessoas de vários países estão se encontrando e celebrando a paz por meio do futebol”, disse Feitosa. “Estamos realizando em Fortaleza a ‘Copa das Copas’ na sede das sedes”, afirmou a secretária extraordinária da Copa de Fortaleza (Secopafor), Patrícia Macedo.

Transporte

Mais de 183 mil pessoas utilizaram os 300 ônibus especiais para se deslocar ao Castelão na primeira fase do Mundial – média de 45 mil por partida. No total, foram 40 mil torcedores no duelo entre Uruguai e Costa Rica, 45 mil em Brasil e México, 50 mil em Gana e Alemanha e outras 48 mil no jogo entre Grécia e Costa do Marfim.  Além deles, 12 mil torcedores com mobilidade reduzida foram transportados até a porta do estádio por meio dos micro-ônibus especiais.

Resíduos sólidos

Os 100 catadores de materiais recicláveis que trabalham em Fortaleza durante a Copa recolheram 22,5 toneladas de resíduos no entorno do Castelão e na área da Fan Fest, na Praia de Iracema. A expectativa é de que mais de 30 toneladas sejam coletadas até o fim do Mundial.

Números da Copa em Fortaleza

Torcedores no Castelão
237,7 mil (167 mil turistas)
Média: 59,4 mil por jogo
Ocupação: 93%
Próximos 2 jogos
120 mil pessoas (91,8 mil turistas)

Fan Fest
357 mil pessoas
Média: 25,5 mil por dia

Atendimentos médicos
Fan Fest: 357, com 49 remoções
Castelão: 79 atendimentos, com duas remoções

Transporte – ônibus extras para o Castelão
183 mil pessoas
Média: 45 mil por jogo

Resíduos
22,5 toneladas recolhidas  no Castelão e Fan Fest

Segurança
16 prisões em flagrante nas áreas de concentração de torcedores

Thiago Cafardo
No Portal da Copa, em Fortaleza
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Rola-Bosta Futebol Clube (Titulares e Reservas)


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Luciano Huck promove turismo sexual na Copa


No SQN
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Programa Sem Fronteiras: O que foi dito e o que não foi dito sobre o EII‏L


O programa Sem Fronteiras da Globo News, apresentou dias atrás um especial chamado O radicalismo do Estado Islâmico do Iraque e da Síria no qual abordou um tema que tem ocupado as manchetes dos informativos internacionais nos últimos dias: o avanço de grupos “radicais” no Iraque e a possível fragmentação do país árabe. O assunto foi abordado com o sensacionalismo e a parcialidade habituais, sedimentando velhos estereótipos e preconceitos, principalmente ao sonegar informações fundamentais para entender os acontecimentos.



Não é de hoje que o mundo árabe é apresentado na mídia como um mundo caótico e selvagem, onde devemos esperar que aconteçam as piores barbáries, isso é mostrado abertamente ou de forma subliminal como algo “natural” da região ou como parte da cultura árabe e de Médio Oriente, porém seria bom lembrar que o maior atentado a bomba contra populações civis foi realizado por países não-árabes em Hiroshima e Nagazaki, também seria bom lembrar que as guerras mundiais, que deixaram dezenas de milhões de mortos, não aconteceram em países árabes, nem islâmicos.
Também não foram árabes que lançaram toneladas de Napalm e Agente Laranja em áreas habitadas por civis, causando efeitos devastadores sobre a cobertura vegetal e a população durante a guerra do Vietnã. Então está na hora de parar de querer colar a pecha de “selvagem” no mundo árabe e começar a repartir as culpas pelo caos instaurado na região.

Não foram árabes que lançaram toneladas de Napalm e Agente Laranja no Vietnã.
Dito isto, vamos ao programa em questão que pretendia explicar o surgimento do “radicalismo” e para o qual foram convidados três especialistas que seguramente tiveram suas falas recortadas com objetivos mais que evidentes.

O que foi dito e o que não foi dito.

1- Como se fortaleceram os chamados “radicais islâmicos” do EIIL

O professor Charles Tripp da Universidade de Londres afirma que embora o EIIL seja formado maioritariamente por sírios e iraquianos de “alguma forma a guerra civil na Síria e o conflito no Iraque atraíram pessoas do Norte da África, Sul da Asia e Europa.”

O EIIL não surgiu e se fortaleceu “de alguma forma” misteriosa, não foi resultado de um processo migratório de “manadas humanas”, nem um acontecimento espontâneo, na verdade este grupo nada mais é que um exército mercenário, ao qual algumas pessoas se unem por ideologia (estimulados por alguns sheiks extremistas) e outras se aproximam por dinheiro. O exército atrai “mão de obra” marginalizada e desempregada de diversos países com promessas de enriquecimento fácil, inclusive recrutando menores de idade como foi denunciado em várias ocasiões.

Tanto se transformou o EIIL numa empresa que o próprio entrevistado chega a afirmar que muitos consideram o grupo como um “modelo de empresa do século XXI” pela sua habilidade em captar recursos, seja através de patrocínio, como através de sequestros, roubos, cobrança de taxas e desvio de petróleo das regiões ocupadas, etc. Porém, na reportagem não foram citados seus patrocinadores ocidentais, como França, Reino Unido e EUA, todos países aliados da Arabia Saudita, principal patrocinadora do EIIL.

Este tipo de exércitos começou a ser montado para derrocar governos que não se curvavam o suficiente aos interesses ocidentais, como a Líbia de Kadaffi. Em 2011, quando eclodiu o que se chamou de “primavera árabe”, houve a formação do Conselho Nacional de Transição (CNT), na Líbia, que tinha um braço político e um braço armado patrocinado por Qatar e Turquia com amplo apoio de países ocidentais. Graças ao apoio ocidental, o suporte da ONU, a participação da OTAN (que bombardeou cidades repletas de civis com o pretexto de protege-los) e de seus aliados regionais, este grupo conseguiu chegar ao poder na Líbia em agosto de 2011, assassinando sob tortura o líder do país africano. Durante este período houve intenso fornecimento de armas a estes grupos por parte de diversos países.

Milicianos do CNT líbio.
Posteriormente, muitos destes milicianos foram transferidos para Síria com o objetivo de promover a troca de governo nos mesmos moldes que tinha sido feito na Líbia, porém enfrentaram forte resistência por parte do governo e da própria população síria que estava aterrorizada com os recentes acontecimentos na Líbia.

O primeiro grupo de milicianos a se formar na Síria nesse período foi o Exército Livre Sírio ou ELS (FSA na sigla em inglês) criado em 29 de julho de 2011 e que contou com apoio e patrocínio ocidental e local (principalmente de Turquia e Qatar). A partir de julho de 2012, EUA passou patrocinar abertamente o grupo conhecido como “Amigos da Síria” que era o braço político do ELS, realizando diversos encontros em Ancara, Turquia.

EUA e seus aliados sempre defenderam que o ELS era um grupo “laico e moderado” mas desde sua criação o grupo tem radicais na sua composição, tanto é que as diversos facções extremistas que surgiram posteriormente são formados por desertores do ELS.

Ao não conseguir seus objetivos, o ELS se fragmentou e começaram violentas batalhas entre as milícias que eram patrocinadas por diferentes atores regionais, assim surgiram numerosos grupos como a frente Ahrar al Sham, a 19ª Divisão, a milícia Al Tawhid e a temida Frente ​al-N​usra (este último patrocinado por Arabia Saudita). Cada patrocinador tentava impor no terreno sua milícia particular e assim muitas armas eram trocadas, roubadas e/ou vendidas entre os grupos, inclusive armas químicas como as que foram usadas no distrito de Damasco causando a morte de mais de 1.000 inocentes.

Exército Livre Sírio
Então é inegável que o EIIL, que tinha sido criado em 2004 no Iraque, cresceu e se fortaleceu graças ao patrocínio ocidental aos grupos que tentam derrocar o presidente sírio Bashar Al Assad já que muitas armas passaram ao seu poder durante os combates entre os grupos e também por causa das alianças entre eles.

Há, também, denúncias publicadas em várias mídias internacionais que afirmam que EUA prestou treinamento militar a milicianos ligados a EIIL na Jordânia.

Tanto a Frente AlNusra como o EIIL foram declaradas organizações terroristas por EUA, mas não aconteceu o mesmo com o ELS que continua sendo considerado um grupo “moderado” embora use os mesmos métodos violentos (decapitações, execuções sumárias, etc) e atuem juntos em várias frentes, aliás, durante a invasão de Mossul, dias atrás, a bandeira do Exército Livre Sírio pode ser vista misturada às bandeiras do EIIL nos vídeos divulgados nas suas páginas nas redes sociais.

Portanto o discurso oficial, repetido pela imprensa monopólica, é que existem “bons jihadistas” (quando lutam a favor de interesses ocidentais) e “maus jihadistas” (quando defendem seus próprios interesses ou apoiam governos que ocidente desaprova).

2- E o Panarabismo, onde foi parar?

O professor Zachary Lockman da Universidade de Nova York afirma que embora o conflito tenha raízes bem limitadas no século VII (divisão de sunitas e xiitas após morte do profeta), o que acontece agora é um “fenômeno moderno”. Segundo ele ambas comunidades conviviam lado a lado, havendo inclusive muitos casamentos entre membros de ambos grupos, principalmente na classe média. Disse que durante muito tempo não era bem visto socialmente perguntar se alguém era sunita ou xiita, senão que todos se identificavam principalmente como árabes e iraquianos antes que nada.

O que foi omitido no programa foi um dos principais factores que propiciaram esta convivência: o panarabismo e o nacionalismo árabe.

Desde a independência dos países árabes do jugo otomano, houve a consciência que devido a diversidade étnica, cultural e religiosa o mais vantajoso para a região seria procurar a unidade através de um movimento laico que englobasse todos os árabes, independentemente de sua origem. Assim surgiram o nasserismo (no Egito) e o partido Baath (na Síria e no Iraque), as duas correntes políticas principais na defesa do nacionalismo árabe e com forte influência socialista. Entre suas reivindicações defendiam a unificação do mundo árabe numa só nação, nacionalização das empresas estrangeiras e reforma agrária, além do desenvolvimento e modernização de serviços públicos, educação laica para homens e mulheres e redução da desigualdade social.

Estes movimentos alcançaram o seu auge na década de 60/70, começando o seu declínio nos anos 80. Por causa da defesa dos interesses nacionais o panarabismo era temido por ocidente que começou a apostar em grupos islâmicos como a Irmandade Muçulmana no Egito para minar o apoio ao nacionalismo árabe. No Afeganistão, após o triunfo de uma revolução comunista, EUA passou a financiar movimentos anticomunistas para provocar a invasão soviética, para isto a começo de 1979 oficiais estadunidenses começaram se reunir com insurgentes, que passaram a ser patrocinados abertamente a partir de julho de 1979. A “jihad” contra a influência soviética no Afeganistão foi apoiada pelas administrações de Carter e Reagan.

Reagan na Casa Branca, março de 1983.
Se calcula que EUA investiu uns 40 bilhões de dólares com os mujahidines, provendo eles de armamentos modernos e todo tipo de equipamento necessário. Já na década de 1990, a Argélia foi o palco de uma guerra civil promovida pelos extremistas que retornaram do Afeganistão, contra o governo laico.

Na Palestina, os grupos islâmicos foram promovidos por Israel para tentar enfraquecer as bases dos grupos palestinos nacionalistas seculares. Da mesma forma foram patrocinadas milícias islâmicas contra os governos seculares de Kadaffi e de Bashar AlAssad.

Então podemos perceber que durante a guerra fria o agora chamado de “radicalismo” islâmico era visto pelo Ocidente como um “mal menor” ou simplesmente como um aliado pois o principal inimigo a combater era o comunismo. E o panarabismo, que colocava muitos países árabes na área de influência soviética, também devia ser combatido.

Com o fortalecimento da Rússia e o recrudescimento da guerra fria, os alvos passaram a ser os países com alguma proximidade do eixo russo-iraniano, para esse fim nada melhor que um exército mercenário anti-russo e anti-xiita.

3- Quem são os políticos que apoiam o sectarismo religioso?

Segundo Lockman, “há políticos explorando as diferenças religiosas para ter vantagens e isso trará consequencias terríveis”. Não há como discordar das afirmações de Lockman, só que infelizmente este políticos não foram citados.

Teria sido interessante conhecer o nome dos políticos que incentivam o sectarismo religioso, segundo o estudioso.

Poderiamos sugerir para a lista alguns políticos regionais como os membros da casa Saud, muitos políticos libaneses que apoiam os terroristas, o primeiro ministro turco, Erdogan, e o destronado membro da Irmandade Muçulmana, Mursi, entre outros. Sem esquecer que Israel também prestou suporte hospitalar a muitos extremistas que fugiram d​a​ Síria pelo Golan, mas o apoio sionista aos extremistas tem sido “na surdina” para não despertar a ira dos próprios cidadãos israelenses, motivo pelo qual optaram por prestar apoio através de bombardeios ocasionais e apoio logístico discreto.

Senador MacCain em encontro com membros do Exército Livre Sírio.
Já entre os apoiadores ocidentais vale a pena citar o “filósofo” francês Bernard Henri Levi, que foi o principal incentivador para que o ex-presidente Nicolas Sarkozy embarcasse na guerra contra a Líbia. Políticos ingleses e franceses fizeram lobby para que fossem aprovados subsídios destes países aos extremistas. Políticos americanos também participaram entusiásticamente do grupo de “amigos da Síria” como Hillary Clinton e posteriormente John Kerry e especialmente o senador John MacCain que promoveu muitos encontros com os “jihadistas do bem” do ELS. E não podemos esquecer do Obama, que tem prestado vivo apoio aos “terroristas moderados”.

4- Síria, uma “ditadura” alawita?

Entre as informações fornecidas e sonegadas no programa, temos que destacar um dos argumentos mais inverossímeis que têm sido usados contra o legítimo governo sírio e é a tese de que uma minoria alawita teria implantado uma espécie de ditadura sectária religiosa sobre a maioria sunita do país. O próprio professor Lockman se atreve a afirmar durante a entrevista que “na Síria há uma revolta da maioria contra um governo de minorias” enquanto “no Iraque uma minoria luta contra um governo da maioria”. Esta tese descabelada se choca com fatos concretos e incontestáveis: se na Síria há uma “ditadura de uma minoria” como se explica que o governo tenha resistido por mais de três anos? Se no Iraque o governo tem apoio da maioria como explicar que um grupo tenha conseguido tomar o controle de quase um terço do território em apenas 10 dias? Não faz o menor sentido!

Então vamos aos fatos. O governo da República Árabe Síria é laico e panarabista, o partido que está no governo é o velho Baath sírio, composto maioritariamente por sunitas, portanto não é um governo baseado na religião, ao contrário, estimula o convívio religioso entre cristãos e muçulmanos xiitas e sunitas. Outro dado importante é que 75% dos soldados do Exército Sírio são sunitas, se o que acontece na Síria fosse uma “revolta sunita” como defende Lockman, o governo teria caído em questão de semanas pois os alawitas não chegam nem a 10% da população síria.

Na Síria as pessoas são antes que nada sírias, e depois que se identificam como cristãos, druzos ou muçulmanos.

5- O intolerável “sectarismo” de Maliki

Lockman disse que EUA ajudou a instalar no Iraque um regime sectário e por isso não surprende que exista uma revolta sunita contra o regime. Ele afirma que “Bagdá era uma cidade heterogênea e atualmente é uma cidade xiita”. Mais adiante, no vídeo podemos ouvir que: “Europa e EUA consideram Maliki sectário demais na defesa dos interesses xiitas contra os sunitas do Iraque” e que “Maliki resiste às pressões de países ocidentais para governar com mais isenção internamente e não se alinhar tanto com o vizinho Irã”.

É possível que o primeiro-ministro iraquiano tenha agido com sectarismo mas o que mais impressiona é a hipocrisia ocidental que pressiona por mudanças no governo iraquiano enquanto seus maiores aliados, Arabia Saudita e Israel, são os países mais sectários da região.

Por que incomoda tanto à Europa e EUA o suposto sectarismo de Maliki e não incomoda o sectarismo da casa Saud, por exemplo? Ou o sectarismo e a limpeza étnica na Palestina?

Outra coisa que chama a atenção é que um dos objetivos declarados do EIIL no Iraque é derrocar o primeiro-ministro Maliki e, “coincidentemente”, este também é um dos objetivos da administração Obama.

​6​ - Mortos iraquianos na guerra são esquecidos

No final do programa o repórter afirma: “Pega muito mal a situação atual do Iraque depois da morte de 4.000 soldados americanos e o gasto de 1 trilhão de dólares na guerra que pode ter sido em vão.”

E os mortos iraquianos? Como é possível fazer um programa sobre o Iraque e “esquecer” completamente dos mortos provocados por essa guerra? Se estima que entre 500.000 a 1.200.000 iraquianos teriam morrido de forma violenta por situações relacionadas, direta ou indiretamente, à guerra. Houve algo em torno de 4 milhões de refugiados (16% da população da época), dos quais metade fugiu para países vizinhos e o resto se deslocou internamente.

Segundo a ONU, 40 % da classe média iraquiana fugiu do país e não regressou. Milhares de mulheres iraquianas foram estupradas e forçadas a se prostituir no Iraque ou países vizinhos.

Prisão de Abu Ghraib, no Iraque
Todo tipo de abusos contra os direitos humanos foram cometidos no Iraque desde 2003, incluindo bombardeios sobre áreas civis, tortura institucionalizada, uso de armas químicas, assassinatos de inocentes, todo tipo de abusos contra crianças, destruição de infraestrutura sanitária: hospitais, escolas, saneamento básico, isso sem falar nas crianças de Fallujah que até hoje nascem com malformações congênitas causadas pela contaminação do solo pelo urânio empobrecido e o fósforo branco usado nas bombas.

Isto é apenas um resumo de todas as atrocidades que aconteceram no Iraque e o programa só fala nos mortos ocidentais?

Então o que podemos concluir é que o que realmente “pega muito mal” na edição do programa da Globo News são todos os dados esquecidos, os mortos ignorados e os patrocínios e cumplicidades escondidos.

Natália Forcat
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É fantástico?


A Rede Globo anunciou há semanas com pompa e circunstância, como sempre, sua novidade para as noites da domingo: um novo fantástico. Mas na verdade não era o novo conteúdo com novos formatos o que interessava. O importante era a ideia da mudança. Ou seja, mais relevante do que criar novos conteúdos com novas linguagens para tentar conter a sangria de audiência que a Rede sofre, a simples ideia da mudança era a notícia.

Bem, quando aparece o "novo fantástico" o que temos é a mesma música rearranjada pela enésima vez e uma suposta aposta no jornalismo. Um jornalismo estranho em que os temas são propostos numa interatividade duvidosa, por atores globais misturados a "representantes do público" e até alguns jornalistas. Tudo ao vivo. Ou seja, mais relevante do que o novo formato era a notícia deste novo formato. O resultado? Reportagens superficiais, muitas delas de duvidoso interesse público e um forte cheiro de borracha recauchutada.

No mesmo período o jornal Zero Hora anuncia... sim, com pompa e circunstância, a sua também enésima mudança gráfica. O jornal gaúcho, que acompanha a tendência inaugurada pelo USA Today na década de 1980 de privilegiar a forma ao conteúdo, radicaliza na sua atualização gráfica, sacrifica o conteúdo ao seu limite e coloca o jornalismo em plano secundário, embora faça juras de valorizá-lo.

Imersas na perplexidade em que setores da imprensa se encontram a partir das novas tecnologias e do abandono contínuo de leitores/telespectadores/ouvintes, compreensivamente cansados com a opinião substituindo a informação, linguagens empobrecidas, conteúdos superficiais e interesses particulares apresentados como de interesse público, as empresas de jornalismo apostam na única saída que seu modelo de negócio permite: as mudanças formais. Novas cores e apresentadores sentados ou de pé frente às câmeras de televisão. Jornalistas travestidos de animadores de auditório no rádio, mudanças do corpo ou da família de letras e o aumento do espaço em branco nos jornais e revistas. Numa espécie de curto circuito midiático, como conceitua Ignacio Ramonet, o jornal tenta se mimetizar em televisão, a televisão em internet e a internet é a única que tem certeza que é um boteco eletrônico sem o charme dos botecos da vida real.

Diferente do Fantástico com suas mudanças cosméticas, Zero Hora desta vez realiza sua mudança gráfica a partir de uma ideia de mudança editorial. A começar pela sua capa, que assume um papel de cartaz desestruturado, com um logotipo publicitário que possivelmente se tornará obsoleto antes dos seis meses de existência, manchetes enigmáticas e risíveis e uma visível crise de critério jornalístico, a não ser o de continuar com seu papel partidário histórico e de eficácia já comprovadamente ineficiente.

O jornalismo foi reduzido a um quarto do jornal, amontoado num único espaço chamado de notícias. Enquanto até os supermercados sabem que consumidores precisam achar seus produtos rapidamente, os leitores de Zero Hora agora devem revirar o caderno em busca da notícia de política, que pode estar junto à uma internacional, ou a de economia junto à uma de cidade. As demais páginas do jornal ficaram com um caderno de esportes que vem sistematicamente sendo afastado do jornalismo, um de cultura e outro de estilo de vida, seja lá o que for isso. Na verdade o jornal é a síntese da internet.

A tese que parece vencedora, tanto na Globo com seu Fantástico, como na RBS com a Zero Hora, é de que o jornalismo acabou. Ignorando o papel histórico do jornalismo e sua necessidade social, enebriados pelo olhar embaçado do capital, as empresas atiram no seu próprio pé, não sem antes atingir vítimas inocentes.

As primeiras vítimas, como sempre, são os jornalistas. Demitidos, realocados, constrangidos a papéis humilhantes, ensaiam reações e resistências. A segunda vítima imediata é o público. Guindado à condição de cúmplice e co-participe, o leitor/telespectador/ouvinte é traído e não leva nem mesmo o gato pela lebre comprada. A terceira e decisiva vítima é a esfera pública e a democracia, que, com o fim da mediação do jornalismo, perdem um suporte decisivo. Tudo é fantástico? Parece que sim, mas não jornalismo.

Celso Schröder, Professor de Jornalismo na Famecos e Presidente da FENAJ
No Fenaj
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Luciana Genro

Recomendo a leitura da entrevista concedida à Folha de S. Paulo por Luciana Genro, candidata do PSOL à presidência da República, substituindo Randolfe Rodrigues.

A entrevista está aqui.

A crítica a seguir baseia-se nesta versão, divulgada no blog da própria Luciana Genro. Desconheço se há uma versão integral.

A entrevista tem passagens interessantes, por exemplo sobre as drogas e sobre o aborto, onde Luciana defende o ponto de vista "clássico" da esquerda e dos setores democráticos.

Também muito interessante é a seguinte frase: Posso dizer que me orgulho de ter sido expulsa do PT pelo José Dirceu, que hoje está preso. Acontece que Luciana não foi expulsa por Dirceu, foi expulsa pela ampla maioria do Diretório Nacional do PT, que derrotou a esquerda que votou contra a expulsão. É perfeitamente possível vincular a posição de Dirceu naquele episódio da expulsão, com os procedimentos que levaram a crise de 2005. O problema está em vincular o "orgulho de ter sido expulsa" com a frase "hoje está preso", como se esta prisão fosse um ato de justiça, sob qualquer aspecto. Clara concessão ao udenismo.

Igualmente interessante é sua resposta acerca de Cuba: não vejo Cuba como um país democrático. Criticar o socialismo cubano é um direito, mas criticar o bloqueio é uma obrigação. Ademais, é reveladora a ênfase que ela dá à ausência de "liberdade de organização partidária".

Na questão do financiamento, há um diálogo curioso, tendo em vista a polêmica ocorrida no próprio PSOL acerca da Gerdau; e também tendo em vista a tradição da esquerda, de questionar o latifúndio, o agronegócio e o grande capital em geral: a gente não tem relação com empresas. Se uma empresa quiser fazer uma doação nós vamos avaliar na nossa coordenação de campanha. Desde que não se enquadre nas proibições do nosso estatuto, que são empreiteiras, bancos e multinacionais.

Na questão da Copa Luciana Genro tenta recuar da posição original do PSOL, mas sem fazer autocrítica de fundo. E sem diferenciar a posição do PSOL da posição da oposição de direita e do oligopólio da mídia: os brasileiros todos estavam torcendo, receosos por causa das filas, dos atrasos, mas a gente não apostava no quanto pior melhor. Diz também que a expectativa era tão ruim que ao ter saído relativamente [bem] as pessoas se surpreenderam.

No caso das vaias no Itaquerão, por exemplo, sua preocupação principal é criticar o PT (a "esquerda que traiu os seus princípios"). Sobre os vaiantes é dito que teriam mais poder aquisitivo, mas seriam as mesmas que há dez anos foram para as ruas comemorar a vitória do Lula, setores que estão sendo sacrificados nessa tributação excessiva. Como se vê, não é apenas na questão do mensalão que Luciana Genro mantém sintonia fina com determinado discurso.

Registre-se as respostas "politicamente corretas" (e portanto parciais, para dizer o mínimo) quanto a polêmica envolvendo Safatle e Maringoni, bem como para a desistência da Randolfe Rodrigues, casos reveladores acerca do PSOL realmente existente.

O fundamental da entrevista, óbvio, está na análise das candidaturas de Dilma, de Aécio e de Campos. Para Luciana Genro, as três teriam em comum a decisão política de manter este sistema político. Ou seja, ela simplesmente desconsidera a defesa pública que Dilma faz da Constituinte, da reforma política; assim como desconsidera o engajamento do PT no Plebiscito popular.

Luciana diz, também, que as três candidaturas teriam em comum a decisão política de manter este sistema econômico e de, a partir de 2015, fazer um ajuste que significa cortes nas áreas sociais, que significa alta da taxa de juros, aumento de tarifas públicas, repressão aos movimentos sociais.

Mesmo alertada pela Folha de que o PT e Dilma não falam deste ajuste (que é defendido claramente por Aécio e disfarçadamente por Campos), Luciana Genro reiterou a acusação. Mas, contraditoriamente, admitiu que com uma eventual vitória do PSDB haveria retrocesso com certeza, mais privatizações, mais ataques. 

O curioso é que, na hora de expor positivamente seu programa, Luciana Genro diz que o PSOL defende uma democracia real e um modelo econômico que faça com que os bancos paguem mais impostos, com que os milionários paguem mais impostos, que desonere a classe média e a classe trabalhadora e que volte a economia para os interesses do conjunto do país, e não para os interesses para o capital financeiro, como tem sido hoje.

Atacar o capital financeiro é uma necessidade e faz parte do beabá, não apenas da esquerda e dos setores democráticos, mas também de alguns setores da direita: fazer a auditoria da dívida; suspender pagamento preservando os interesses de pequenos poupadores; acabar com a especulação, atacar os interesses dos bancos, que os bancos paguem mais impostos, que os especuladores sejam banidos do país. 

Também é importante defender que as grandes empresas paguem mais impostos. Mas falta responder como reorganizar o conjunto da economia, especialmente como tratar o agronegócio, o grande capital monopolista e transnacional, a dinâmica de investimentos privados e públicos.

A esse respeito, um sinal dos tempos: perguntada se o PSOL defende a reestatização de algum setor que foi entregue à iniciativa privada, Luciana Genro responde que isso vai demandar nós chegarmos ao governo para avaliar a real situação (...) à medida da necessidade haveria sim expropriações no sentido de garantir que o interesse público prevaleça (...) As empresas de energia elétrica que foram privatizadas. Não sei como se comportariam essas empresas em um governo do PSOL. Se for necessário, elas terão que ser reestatizadas.

Pode ser que na íntegra da entrevista, se existir, haja algo mais. Entretanto, tomando como base o que está transcrito no blog da própria Luciana Genro, trata-se de um "clássico" programa social-democrata (mais democracia, mais bem-estar, mais impostos, controle sobre o setor financeiro, ampliar quando necessária a presença direta do Estado etc.). Não admira que, ao chegar ao governo (como em Macapá) o PSOL se veja diante de dilemas tão bem conhecidos por nós.

Valter Pomar

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"O Nobre Deputado"



A corrupção é um dos grandes males que destrói a vida social e desqualifica o poder público em nosso século, de qualquer modo que se apresente. É uma das causas decisivas da carência dos serviços públicos essenciais, da pobreza de muitos municípios e razão da penúria financeira de cidades e da miséria permanente de muitos países, como o Brasil.

A corrupção corrói a dignidade do cidadão, deteriora o convívio social, contamina os indivíduos e compromete a vida das gerações atuais e futuras. Isso ocorre quando boa parte dos impostos pagos pelos cidadãos são apropriados por pessoas que muitas vezes são pagas para defender o interesse público. Para se protegerem, os indivíduos isolam-se nos seus interesses particulares e a desconfiança mútua rompe os laços de solidariedade social. Opor-se à corrupção é, pois, um dever de quem acredita na capacidade de se construir uma vida digna. Aceitar a corrupção é deixar-se corromper por ela.

A AMARRIBO Brasil, representante da Transparência Internacional no país, e autora do livro “O Combate à Corrupção nas Prefeituras do Brasil”, possui 15 anos de luta contra a corrupção e conhece com propriedade a realidade brasileira. O Índice de Percepção da Corrupção, da Transparência Internacional, coloca o Brasil em 72º lugar, com 42 pontos. Uma posição nada honrosa.

No Congresso Nacional, diversos deputados e senadores são alvos de investigação por questões de desvio de dinheiro público, tráfico de influência, dentre outros crimes. Diversos deputados foram condenados por corrupção. O processo do Mensalão representa, apenas, a ponta do iceberg do que ocorre no submundo da política nacional, envolvendo diferentes partidos.

O Juiz Márlon Reis, integrante do MCCE – Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral — e conselheiro da AMARRIBO Brasil, retrata, com objetividade cristalina e coragem pessoal, em seu livro “O Nobre Deputado”, a realidade do que se passa nos bastidores da política brasileira, contando a maneira como alguns parlamentares de várias instâncias compram votos para os seus mandatos. A deterioração da atividade política no país e os escândalos de corrupção têm levado a crescente descontentamento da população e a manifestações de diversos movimentos sociais em todo o país.

O presidente da Câmara, Deputado Henrique Eduardo Alves, rebateu a reportagem exibida pelo Fantástico sobre o livro “O Nobre Deputado”. O Deputado, que declara patrimônio de R$ 5,5 milhões e declarou gasto de R$ 3,3 milhões em sua campanha que recebeu doações de empresas, nega que obras superfaturadas e licitações ilícitas digam respeito às atividades do Congresso Nacional, e disse que a Câmara vai enviar ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) uma representação contra o juiz Márlon Reis.

A atitude do Presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, também investigado pelo Ministério Público, de atacar o Juiz Márlon, por ter dado um alerta à nação sobre a exacerbação do problema da corrupção, e fazer uma defesa patética do parlamento é lamentável. Ao invés de buscar enfrentar o problema, Henrique Alves age corporativamente para defender o indefensável.

Cerca de metade dos nobres congressistas tem pendências criminais. Pouco menos de 300 parlamentares, de um total de 594, respondem a inquérito ou ação penal no Supremo, segundo o procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

O livro do Juiz Marlon Reis é um grito de alerta para todos, e um atitude patriótica de defesa do país. Retrata a realidade do país que prejudica a eleição dos honestos e favorece quem conquista mandatos pelo poder econômico, inclusive pela compra de votos, e reafirma e promove a democracia ao levantar um grito contra a corrupção. É esta que desacredita as instituições e diminui a credibilidade da atividade política.

Recentemente o Supremo Tribunal Federal deu a maioria de votos pela inconstitucionalidade das doações de empresas, em ação de inconstitucionalidade movida pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), e o julgamento foi interrompido pelo pedido de vista do ministro Gilmar Mendes. O Brasil precisa a dignificar a ética e a integridade na política, e denunciar a corrupção, que pode ameaçar a democracia. Infelizmente, o Presidente da Câmara adota uma via jurídica, insustentável política e eticamente.

Márlon Reis, que trabalha para reunir 1,6 milhão de assinaturas (1% do eleitorado) para apresentar Projeto de Iniciativa Popular de Reforma Política, com propostas como a proibição do financiamento empresarial de campanha e eleições legislativas em dois turnos, teve coragem de denunciar uma realidade presente na política brasileira. É preciso mudar o sistema eleitoral, exatamente pela realidade que o livro “O Nobre Deputado” retrata. É necessária uma verdadeira reforma política que favoreça a eleição de pessoas com espírito público e não com interesses privados de empresas que financiam campanhas. A AMARRIBO Brasil apoia à ação do Juiz Márlon Reis, a publicação de seu livro e o serviço prestado à sociedade brasileira.
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Por que o partido de Roberto Jefferson defeccionou?

Dirigentes do PTB atribuem a reviravolta de sua posição na disputa presidencial ao lado obscuro da política, ou seja, o financiamento privado de campanha.

De todos os partidos aliados à reeleição de Dilma, até agora, a única defecção foi o PTB.

Ao declarar apoio a Aécio Neves, o PTB provocou uma reviravolta surpreendente em sua posição, considerando-se que compõe o governo desde a presidência Lula.

A decisão, já antecipada pelo presidente do Partido, Benito Gama, será referendada no próximo dia 27, na convenção nacional que o partido realizará em Salvador-BA.

Alguns dirigentes do próprio partido atribuíram a guinada ao "lado obscuro" da política, o que significa dizer acordos em torno de algumas candidaturas nos estados e que envolveriam, claro, generosos acertos para o financiamento privado de campanha - aquele assunto que o ministro do STF, Gilmar Mendes, teima em dizer que pode ficar para depois.

O PTB tem várias disputas regionais com outros partidos aliados e, também, algumas rusgas profundas em relação a questões firmadas pelos governos de Lula e Dilma.

Em Roraima, o senador Mozarildo Cavalcanti nunca perdoou a decisão do Governo Lula favorável à demarcação da reserva indígena de Raposa Serra do Sol. Dilma, por sua vez, vetou o projeto de Mozarildo que regulamentava a criação novos de municípios.

No DF, as desavenças maiores foram com o Senador Gim Argelo, que recentemente teve sua indicação ao TCU frustrada por denúncias de lavagem de dinheiro.

Gim, que está com Aécio e não abre, articula-se aos opositores do governador petista do DF, Agnelo Queiroz. Depois de ter sido defenestrado na indicação ao TCU, o plano de Gim é concorrer à reeleição ao Senado com o apoio dos ex-governadores Joaquim Roriz e José Roberto Arruda (pivô do mensalão do DEM).

Há suposições de que o próprio ex-presidente do partido, Roberto Jeferson, embora preso, tenha sido consultado e mandado seu recado ao PTB, em meio a visitas feitas por sua filha.

O PT considerava que a relação com o PTB estava acertada principalmente pelo apoio à candidatura do senador petebista Armando Monteiro ao governo do Estado de Pernambuco. Enganou-se.

A decisão do PTB nacional deve rachar o partido ao meio, nos estados. Não será o único. Em várias unidades da federação, a briga entre Dilma e Aécio provocará estragos difíceis de serem depois plenamente remendados.

Os velhos partidos tendem a chegar em 2015 em frangalhos, tomados pela autofagia e com mais uma penca de denúncias relacionadas ao financiamento privado de campanha.

Enquanto isso, o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves, anuncia que entrará com uma representação no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) contra o juiz Marlon Reis, autor do livro "O Nobre Deputado".

Reis, que encabeça o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, criou um personagem "fictício", um deputado, que revela a prática costumeira de compra de votos e de financiamentos espúrios em campanhas eleitorais para o Congresso. (saiba mais aqui)

Esqueceu-se de reproduzir a famosa frase: "esta é uma obra de ficção". Possivelmente, porque não seja mesmo.

Antonio Lassance, cientista político.
No Carta Maior
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Vergonha da PM de Santa Catarina — Assista


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Argentina: a dívida e a dúvida. O dilema de Cristina Kirtchner

País deveria ter a solidariedade dos outros governos da região, vitimas do mesmo capital especulativo. O braço de ferro com os fundos abutres refletirá nas perspectivas econômicas e políticas da região

Como os outros países da região, a Argentina acumulou grande divida externa durante a ditadura militar, multiplicada pelos governos neoliberais de Carlos Menem (1989-1999), que sobrou como herança para a democracia.

Só que, no caso argentino, Menem privatizou ainda mais radicalmente que no Brasil. Tendo levado o peronismo para o governo, esvaziou o campo de oposição à esquerda, e pôde, inclusive, privatizar a YPF, a estatal petrolífera que havia permitido ao pais chegar à autossuficiência energética. Às dividas herdadas se somaram assim desequilíbrios nas contas publicas, pela necessidade de importar energia além de subsidiar o seu consumo.

Nestor Kirchner não dispunha nem de empresas estatais para amparar a obtenção de financiamentos externos. Valeu-se do calote decretado por um dos vários presidentes — Rodrigues Sá — durante a crise de 2001/2002, para desenvolver a estratégia de renegociação da divida, com grande abatimento.

A renegociação foi aceita por 93% dos credores e a Argentina passou a pagar sua dívida. Porém os 7% restantes não apenas entraram em instâncias do Judiciário norte-americano, reivindicando seu direito de receber os papéis da dívida pelo seu montante original, como querendo prioridade para recebê-los. Além disso, compraram papéis muito baratos, porque estão acostumados a fazer esse negócio.

O mesmo proprietário maior desses papéis — Paul Singer, o ruim (nada a ver com o professor e economista brasileiro) —, fez negócios similares com papéis do Peru e da Republica Democrática do Congo, entre outros, contando com a corrupção de parlamentares e de juízes norte-americanos.

Diante da divida argentina, os fundos abutres — como são chamados — conseguiram decisão jurídica que obriga o governo a pagá-los prioritariamente e com data fixada — 30 de junho. A mesma data de um novo pagamento aos credores que haviam aceito a renegociação. Feitos os cálculos, a Argentina poderia ser obrigada a usar a metade ou até mais da metade das suas reservas.

Coloca-se o duro dilema para o governo de Cristina Kirchner entre pagar e ficar fragilizada em termos de reservas ou, se deixar de pagar, ter que decretar o calote, com todas as consequências. Caso tente pagar aos fundos que aceitaram os termos da renegociação, os recursos podem ser apropriados para serem destinados aos fundos abutres.

A economia argentina já não vive um bom momento, com a previsão de recessão para este ano, com inflação crescente — próxima de 30% ao ano —, com dólar paralelo alto. Qualquer que seja a solução que o governo consiga dar ao problema da divida, a situação econômica será afetada. Desde já, depois de ter renegociado as dividas com o Clube de Paris e com a Repsol, esperando normalizar o fluxo de entradas de capitais, este ingresso fica suspenso diante das incertezas atuais.

O governo tenta renegociar as condições impostas pelo Judiciário, seja nesta instância, seja diretamente com os fundos abutres, tentando flexibilizar as condições de pagamento. No plano interno, a oposição — a de direita e a de ultra-esquerda — não presta solidariedade ao governo. A mesma direita que contraiu essas dividas, agora se aproveita da situação para enfraquecer ainda mais um governo que já tem perspectivas difíceis para as eleições presidências de outubro de 2015.

A Argentina deveria contar com a solidariedade dos outros governos da região, vitimas, em níveis diferentes, do mesmo capital especulativo. Deveriam aproveitar a circunstancia para considerar concretamente a adoção de taxação sobre a livre circulação do capital financeiro. Até porque do braço de ferro da Argentina com os fundos abutre depende em boa parte as perspectivas econômicas e políticas da região em relação aos organismos financeiros internacionais.

Emir Sader
No RBA
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Dez anos sem Brizola, o galo


Há dez anos, morria o grande Leonel de Moura Brizola, o homem da Legalidade. Hoje, quero falar como a ele se referem os gaúchos nas ruas, nos bares e em qualquer simples: esse era galo. É assim que se diz. O velho Briza era de faca na bota. Esse era dos nossos. As expressões populares destacam a coragem, o ímpeto, o espírito de fogo, o entusiasmo e o engajamento do líder trabalhista. Houve poucos como Brizola neste nosso universo político de eternos defensores do poder e de reprodutores das desigualdades. Brizola errou e acertou como todo mundo. Acertou muito mais. Nunca se omitiu. Além de ter sido um grande construtor de escolas, iniciou a reforma agrária no Rio Grande do Sul.

Fazer isso exigia fibra, valentia e determinação.

Em 1961, Brizola impulsionou o MASTER, o Movimento dos Agricultores Sem Terra, antecessor do MST. Naqueles tempos de vergonhosa concentração de terras, deu uma estocada magistral no latifúndio soberano e intocável. Brizola criou o Instituto Gaúcho de Reforma Agrária. Na Fazenda Sarandi, berço da reforma agrária, enfrentou o absurdo: 20 mil hectares improdutivos. Em 1962, bancou a reforma agrária do Banhado do Colégio, em Camaquã, 25 mil hectares para famílias desesperadas por trabalho. Para coroar seu reformismo, usou 45% das terras herdadas por sua mulher, Neusa, para uma experiência, na fazenda Pangaré, em Palmares: 30 agricultores receberam 1.038 hectares para a instalação da cooperativa Bacopari. A imprensa e os setores conservadores caíam de pau em cima dele. Nunca seria perdoado.

Tocou no ponto mais sensível do conservadorismo.

Foi o melhor governador da história do Rio Grande do Sul. Encampou as companhias estrangeiras de luz e telefone. Deu um tapa na cara do parasitismo internacional que prestava maus serviços, ganhava muito dinheiro e ignorava os apelos dos seus clientes. Eu me orgulho de ter escrito um livro, “Vozes da legalidade”, em homenagem às façanhas de Brizola. Guardo as primeiras linhas na ponta da língua: “Conta-se que o caçula rejeitou o próprio nome antes mesmo de saber o significado de um nome, como se houvesse uma misteriosa educação pelo nome, uma pedagogia da identidade, ele que, depois de se impor um nome, faria ecoar seu sobrenome pelo mundo inteiro, como se em cada etapa da sua vida precisasse de um novo batismo, chamando para si, numa solidão orgulhosa e inexplicável, por vezes melancólica e demorada, a tarefa de sentir o momento da virada e de se renomear até alcançar renome. Nascido Brizola, em Cruzinha, pedaço de Carazinho, distrito de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, em 22 de janeiro de 1922, chamado de Itagiba por uma mãe zelosa e aflita…”

Itagiba virou Leonel, que virou Leonel Brizola. Andou pelo mundo. Viveu a amargura do exílio. Coloriu os debates políticos com sua retórica maravilhosamente floreada de metáforas e tiradas espirituosas. Deixou um legado, do seu governo no Rio Grande do Sul, de 5902 escolas, 278 escolas técnicas e 131 ginásios. Até hoje, não foi batido.

Esse era galo.

Daí o ódio por ele dos conservadores.

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