23 de jun de 2014

Faustão agora elogia a Copa. Esperto!


O apresentador Faustão, da TV Globo, disputará com o ex-jogador Ronaldo, que também está na Globo, o título de “fenômeno” do oportunismo de 2014. Neste domingo (22), durante o seu programa na emissora, ele mudou radicalmente de opinião e elogiou a Copa no Brasil. Na maior caradura, ele disse que “surpreendentemente” o evento está dando certo e que os problemas ocorridos até agora são de responsabilidade da Fifa. "O que está dando problema é tudo culpa da Fifa. E eles não assumem e colocam a culpa no governo brasileiro. Veja agora o problema da alimentação em Recife, isso é problema da Fifa. A Fifa que assuma as suas responsabilidades”, afirmou no “Domingão do Faustão”.



A crítica à Fifa é justíssima, mas não deve ter agradado a famiglia Marinho – que sempre manteve sinistras ligações com a máfia que se perpetua no comando desta entidade mundial do futebol. Estas relações são antigas, desde a época do corrupto João Havelange. Não é para menos que a TV Globo evita repercutir as recentes denúncias da mídia internacional sobre o esquema de corrupção montado pela Fifa para sediar a Copa no Catar em 2022 ou sobre os aumentos secretos dos salários de seus dirigentes. A Fifa fatura cerca de 1,5 bilhão de dólares com este evento; já a famiglia Marinho mantém-se no topo da lista de bilionários da Forbes, entre outros motivos, por ter a exclusividade na transmissão dos jogos.

Faustão acertou na crítica à Fifa, mas deixou de fazer a sua autocrítica. Até a semana passada, o apresentador global, que recebe uma fortuna da emissora e dos anunciantes, era um dos mais hidrófobos nos ataques à organização da Copa no Brasil. Ele animou muita gente que padece do complexo de vira-lata contra o Brasil e que prega à visão neoliberal de negação do Estado. No “Domingão” que antecedeu a abertura dos jogos, ele esbravejou: “Esse é o país que quer fazer Copa do Mundo com 17 [12] cidades, mas que não faz nem com cinco... Já que vai começar dentro dessa bagunça toda, desses estádios caros, vamos tentar fazer o melhor possível, até porque a minha avó já dizia 'roupa suja se lava em casa'”.

Na sequência, ele explicitou que seu programa virou um palanque eleitoral da oposição. “Não dá para mostrar para o mundo inteiro que somos o país da corrupção e da incompetência. Muita gente já sabe... O Brasil dentro de campo é uma coisa. O Brasil fora é outro. O povo já percebeu. O Brasil precisa ganhar a Copa da educação, da saúde, contra o preconceito. A nossa Copa do Mundo é em outubro, época das eleições”. Ainda na semana passada, ao entrevistar a cantora Cláudia Leite, quase falou um palavrão na emissora, ao esculhambar a solenidade de abertura do torneio no estádio do Itaquerão. Para ele, a “festa merreca” foi uma “m... mercadoria”.

Agora, “supreendentemente”, ele muda de opinião e elogia a organização da Copa. O que houve? Sem dúvida, ele foi contagiado por Ronaldo, o “fenômeno” do oportunismo. A TV Globo trabalha com pesquisas diárias para conhecer o humor de seus telespectadores. Não há ainda nada de oficial, mas nos bastidores circula a informação de que o povo não se deixou abater pelo pessimismo da mídia tucana e está entusiasmado com a Copa. A coluna Painel, da Folha, chegou a noticiar neste final de semana que o apoio popular é de mais de 60% da sociedade. Esperto, Faustão resolveu recuar nas suas bravatas eleitoreiras; ele só não fez autocrítica. Por falta de oportunidade não faltam oportunistas neste mundo!

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O que pensam os eleitores que avaliam o governo Dilma como regular

A maior diferença entre os que consideram o governo regular e os que consideram o governo ótimo/bom reside na percepção da inflação.

Se junho de 2013 representa uma virada na conjuntura política do país, a marca dessa virada parece ser o meio-termo. Pelo menos a se considerar a avaliação do Governo Dilma.

No início daquele mês (7/6), segundo o Datafolha, o governo da presidente Dilma era avaliado como ótimo ou bom por 57% dos eleitores, como regular por 33% e ruim ou péssimo por 9%. Três semanas depois (28/6), a popularidade do governo despencou, segundo o mesmo instituto, mas não a ponto de inverter o quadro.

Desde então, a marca do governo Dilma tem sido o predomínio do "regular", como mostra o gráfico:

Fonte: Datafolha (*)

PESO - Qual é o peso deste eleitor para quem o governo é regular? Sabemos que o eleitor que avalia o governo como ótimo/bom ou como ruim/péssimo tende a votar, respectivamente, em Dilma e na oposição.

A pesquisa estimulada do Datafolha - em que são fornecidos nomes ao entrevistado - revelou que, dentre os que consideram o governo como ótimo ou bom, 72% votam em Dilma, 14% votam em outros candidatos, 5% votam em branco ou nulo e 9% não sabem. Já dentre os que consideram o governo ruim ou péssimo, apenas 2% votam em Dilma, 52% em candidatos de oposição (sendo 31% em Aécio e 10% em Eduardo Campos), expressivos 32% votam em branco ou nulo e 12% ainda não sabem como votarão.

Não é difícil perceber que o pleito de outubro será definido por aqueles que hoje avaliam o governo como "regular". Neste momento, essa parcela do eleitorado divide-se assim: 27% votam em Dilma, 38% em outros candidatos (dos quais 22% em Aécio e 7% em Eduardo Campos), 16% votam em branco ou nulo e 17% não sabem como votarão.

No entanto, a pesquisa aferiu como os eleitores votariam se figurasse o ex-presidente Lula no lugar de Dilma. Nesse cenário, sobre para 41% os que declaram votar em Lula contra 32% dos demais candidatos (sendo 19% para Aécio e 7% para Eduardo Campos), além de 12% que votam em branco ou nulo e 14% que não sabem. Entre os eleitores que consideram o governo Dilma ruim ou péssimo, sobre de 2% para 20% os que votariam em Lula caso ele fosse candidato. O aumento não é desprezível, mas a maioria continuaria com a oposição.

Na projeção de segundo turno feita pelo Datafolha entre Dilma e Aécio, dentre os eleitores que consideram o governo Dilma como regular 43% votariam em Dilma contra 39% em Aécio. 11% votariam em branco ou nulo e 7% não sabem como votariam. Em sendo Eduardo Campos o adversário de Dilma, a vantagem da petista é um pouco maior dentre os eleitores que avaliam o governo como regular: Dilma teria 44% contra 33% de Eduardo Campos, sendo 14% os que votariam em branco ou nulo e 9% de indecisos.

Para se ter dimensão do peso desta parcela do eleitorado, dentre os que consideram o governo Dilma como ótimo ou bom, Dilma teria 87% contra Aécio e 86% contra Eduardo Campos no segundo turno. Inversamente, entre os eleitores que consideram o atual governo ruim ou péssimo, na disputa Dilma x Aécio, apenas 4% votariam em Dilma, enquanto 69% votariam em Aécio, 23% votariam em branco ou nulo e 4% não sabem em quem votariam. Se o adversário da petista fosse Eduardo Campos, seriam 5% para Dilma, 61% para Campos, 29% brancos e nulos e 5% indecisos.

PERCEPÇÃO E EXPECTATIVAS - A interpretação desses dados exige cuidado, sobretudo aquela que revela a diferença na situação com Dilma e na situação com Lula. Antes de mais nada, deve-se considerar que parcela expressiva do eleitorado tem uma percepção da política muito focada em pessoas. A constatação óbvia é que, entre Lula e Aécio, a maioria dos eleitores da coluna do "regular" prefere o petista, ao passo que entre Aécio e Dilma, a maioria fica com o tucano.

Contudo, é possível ir mais fundo. Seria o caso de constatar que, na verdade, parte desses eleitores distingue entre a pessoa e o projeto que ela representa. Se para esse eleitor o período anterior, em que Lula era presidente, era melhor, e se o período atual não é tão bom, uma parte crê que voltará a ser melhor com Aécio - são os que votariam em Lula se o ex-presidente fosse candidato, mas, sendo Dilma a candidata, intencionam votar em Aécio. O ponto é que nenhum dentre estes eleitores acha que, votando em Aécio, vai piorar. Ao contrário.

Seria necessário discernir o quanto da percepção e das expectativas do eleitor deve-se à sua experiência de vida e o quanto se deve à percepção que ele tem da vida dos demais. Nesse quesito, a imprensa talvez tenha grande influência no sentido de fazer a cabeça das pessoas.

A pesquisa Datafolha perguntou aos entrevistados sobre inflação, poder de compra e desemprego: vai aumentar? vai diminuir? vai ficar como está? Trata-se da expectativa do eleitor quanto ao futuro.

Dentre os eleitores que consideram o governo Dilma como regular, 47% acreditam que o desemprego vai aumentar, 16% acreditam que vai diminuir e 30% acreditam que ficará como está; 25% acreditam que o poder de compra aumentará, 39% que diminuirá e 28% que ficará como está; e expressivos 66% creem que a inflação aumentará, 6% que diminuirá e 20% que ficará como está.

O exame destes dados revela que a maior diferença entre os que consideram o governo regular e os que consideram o governo ótimo/bom reside na percepção da inflação. Curiosamente, dentre os três quesitos, aquele que a oposição elegeu para bater no governo e aquele que tem merecido um grande destaque na imprensa - sejam as opiniões da oposição e aquelas difundidas pela imprensa fundamentadas ou não.

Afinal, o quanto da percepção destes eleitores deve-se à propaganda antigoverno e o quanto se deve a sua própria experiência de vida?

Não admira que a avaliação do governo como "regular" é maior entre os mais pobres, como mostramos no final do artigo. A inflação pesa mais sobre o ombro dos que ganham menos. Os eleitores perceberam em junho do ano passado que os alimentos e alugueis estão mais caros ou cresceu o medo de que encareçam devido ao que a imprensa vincula? Provavelmente, ambas as coisas. Sobretudo os alugueis nas capitais e regiões metropolitanas dispararam. Muitos dentre os mais pobres foram jogados para a periferia da periferia. A oposição e a imprensa aproveitam-se para tentar criar uma situação de descontrole dos preços - quando, na verdade, o preço dos alugueis é controlado pelo mercado e determinado pela especulação imobiliária.

De qualquer modo, é interessante atentar para outro dado revelado pela pesquisa. Face à pergunta sobre a situação econômica do país e a própria, enquanto 21% dentre os que avaliam o governo como regular acreditam que a situação do país vai piorar, 36% que vai melhorar e 35% que ficará como está, nada menos que 40% dos entrevistados nesse segmento acreditam que sua situação econômica pessoal vai melhorar e apenas 16% acreditam que vai piorar, sendo 40% os que acreditam que ficará como está. O que revela haver certa desproporção entre a percepção e as expectativas guiadas pela própria experiência de vida e aquelas definidas pelo que se ouve e se lê.

DESAFIO - Se há eleitores dispostos a votar em Lula, se o ex-presidente fosse candidato, mas que votariam em Aécio sendo Dilma a candidata, para Dilma o desafio é mostrar, na campanha, que a disputa é de projeto. Que entre ela e Lula não há diferenças, que ambos representam o mesmo projeto, que Aécio representa um outro projeto, e que entre um e outro há uma antítese. Aassociar às pessoas a marca dos projetos que representam.

A considerar o que Najla Passos mostra em artigo publicado na Carta Maior, há elementos para convencer o eleitor disso: o ex-presidente tucano foi apontado pela pesquisa Datafolha como o pior cabo eleitoral do país, com 57% de rejeição. Já Lula, é o melhor cabo eleitoral.

No caso específico dos eleitores que consideram o governo Dilma como regular, 71% lembram do governo Lula como ótimo ou bom. E 32% dizem que votariam com certeza em um candidato apoiado por Lula. Os que dizem que talvez votariam em um candidato apoiado por Lula são 29%. No total, 61%.

Assim, trazendo a disputa do terreno meramente pessoal para o terreno das ideias, alimentando a polarização entre prioridades, Dilma poderá mostrar que com Aécio será pior. Mas isso não é suficiente. Não basta dizer que com o outro será pior. O eleitor quer que o próximo governo seja melhor. Quer mudanças. Dentre os que consideram o atual governo regular, 84%.

Provavelmente entre o eleitor que quer mudanças, as mudanças desejadas não são necessariamente as mesmas. Face à pergunta "Você é a favor ou contra os protestos que estão ocorrendo em várias cidades brasileiras desde junho do ano passado?", 53% responderam ser a favor, 39% contra. Entre os primeiros, predominam os mais jovens e com maior renda e escolaridade. Entre os segundos, os mais velhos, com menor renda e escolaridade. São duas frações da classe trabalhadora, recortadas pelo critério etário. Dilma terá de falar para ambos. Se ganhar, terá de governar para ambos.

Para tanto, a petista precisa apresentar propostas e assumir compromissos. E cumpri-los, se ganhar a eleição. Assim, paradoxalmente, Dilma terá de atualizar o projeto da qual ela e Lula são representantes. Para fazer o mesmo que Lula fez - ou seja, combinar crescimento econômico e emprego com redução da pobreza e da desigualdade e inclusão - Dilma terá de fazer mudanças.

A pergunta é: que mudanças são essas? Nesse momento, é necessário que se formulem propostas. A direita já tem a sua: ajuste recessivo. Qual é a proposta da esquerda - além da necessária pressão popular? Cabe a portais como a Carta Maior promover esse debate e aos intelectuais, pesquisadores e militantes da esquerda formular e apresentar propostas viáveis que ajudem Dilma em seu segundo mandato.

PERFIL - Qual é o perfil do eleitor que avalia o governo Dilma como regular?

— 40% dos homens, 36% das mulheres.

— 42% dos eleitores entre 16 e 24 anos, 38% dos eleitores entre 25 e 34 anos, 38% dos eleitores entre 35 e 44 anos, 36% dos eleitores entre 46 e 59 anos e 37% dos eleitores com 60 anos ou mais.

— 37% dos eleitores com ensino fundamental, 40% dos eleitores com ensino médio, 36% dos eleitores com ensino superior.

— 40% dos eleitores cuja renda familiar mensal é de até 2 SM, 38% dentre os eleitores de 2 a 5 SM, 37% dos eleitores de 5 a 10 SM, 29% dos eleitores acima de 10 SM.

— 39% dos que vivem em região metropolitana e 38% dos que vivem no interior.

— 38% dos eleitores do sudeste, 35% dos eleitores do sul, 41% dos eleitores do nordeste, 41% dos eleitores do norte, 34% dos eleitores do centro-oeste.

— 37% dos eleitores católicos, 43% dos eleitores evangélicos (pentecostal), 38% dos eleitores evangélicos (não pentecostal), 28% dos eleitores espíritas e 33% dos eleitores umbandistas.

— 41% dos eleitores que intencionam votar em Aécio Neves, 41% dos que intencionam votar em Eduardo Campos, 36% dos eleitores que intencionam votar em branco ou nulo e 50% dos eleitores indecisos (na pesquisa estimulada).

* (Pesquisa realizada entre 3 e 5 de junho. BR-00144/2014. Margem de erro: 2% para cima ou para baixo).

Antônio David, estudante de pós-graduação na FFLCH/USP.
No Carta Maior
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Sarney não concorrerá a reeleição!

Ele

Nota à Imprensa

O senador José Sarney (PMDB-AP) manifestou-se, agora há pouco, a respeito do episódio ocorrido nesta segunda-feira (23) em Macapá, por ocasião do evento do programa Minha Casa Minha Vida, do Governo Federal, em que foi hostilizado por militantes partidários de declarada oposição a ele.

Era esperado que isso pudesse ocorrer, diz, primeiro pelo acirramento do pleito eleitoral que se avizinha, segundo, pela própria mobilização feita com esse propósito, fato este do conhecimento de todos. Sarney diz ter sido convidado pessoalmente pela amiga e aliada Dilma Rousseff, presidente do Brasil e entusiasta do programa de habitação popular iniciado ainda na gestão de Luís Inácio Lula da Silva, outro companheiro de sua estima. Sarney foi, mais uma vez, diplomático, seguiu o protocolo que o evento exigia, para prestigiar a amiga Dilma e os amapaenses beneficiados pelo programa.

Diz também ter recebido no evento — como ocorre por onde quer que vá no país e fora dele — o carinho e a consideração de brasileiros que reconhecem a importância de seu papel na condução do país à redemocratização. “Lá mesmo, na festa da presidente Dilma, muitas pessoas aplaudiram, espontaneamente, a minha presença e a ajuda que tenho dado ao Brasil e ao Estado”, acrescenta o ex-presidente.

O senador, de 84 anos, também confirmou aquilo que seus amigos mais próximos e os aliados em Macapá foram comunicados na semana passada, de que não vai disputar a reeleição para o Senado em outubro próximo. “Essa decisão já estava tomada, comuniquei isso ao meu partido na semana passada. Entendo que é chegada a hora de parar um pouco com esse ritmo de vida pública que consumiu quase 60 anos de minha vida e afastou-me muito do convívio familiar”, declarou.

Sarney tem acompanhado de perto as idas e vindas da esposa, Dona Marly, aos hospitais em repedidas cirurgias e lentos processos de recuperação, em casa, como ocorre atualmente.

Ele confirma presença na Convenção do PMDB na próxima sexta-feira, dia 27. E diz também que irá participar das eleições deste ano, não como candidato, mas ajudando de todas as formas, aos inúmeros amigos e aliados que estarão na disputa. Também será a ocasião para se dirigir aos correligionários e simpatizantes, bem como aos cidadãos e cidadãs de bem do Amapá, a quem nutre “profunda gratidão”.

Macapá-AP, 23 de junho de 2014.

Cleber Barbosa
Jornalista/Colaborador do Gabinete do Senador José Sarney
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A entrevista de Gilberto Carvalho para a fAlha

O ministro Gilberto Carvalho, em seu gabinete no Planalto
Pedro Ladeira
O ministro Gilberto Carvalho afirma que o PT está errado no seu diagnóstico sobre a insatisfação da população com o governo da presidente Dilma Rousseff e tem alimentado a "ilusão" de que "o povo pensa que está tudo bem".

"Acho um erro de diagnóstico", diz o ministro, chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, em entrevista à Folha. "E quando você não tem um bom diagnóstico, não tem um bom remédio."

Carvalho, que condenou as vaias e xingamentos dirigidos a Dilma na abertura da Copa do Mundo, contrariou o discurso adotado pelo PT para reagir ao dizer, na semana passada, que os ataques não partiram só da "elite branca".

O ministro diz que seu objetivo foi alertar para a generalização da insatisfação com o governo, fenômeno que, na sua opinião, tem origem num pensamento conservador ampliado com ajuda da mídia.

Carvalho acredita que a presidente vai se reeleger em outubro, porque aposta que o PT conseguirá "furar esse grande bloqueio" na campanha e mostrar aos eleitores as realizações dos governos petistas nos últimos 12 anos.

A afirmação de que o xingamento contra Dilma não partiu só da "elite branca" foi uma espécie de sincericídio?

Não. Foi muito consciente. Tenho feito esforço enorme para ter muita sintonia com as ruas e para não romper com aquilo que considero justo e honesto, mesmo que me custe. Prefiro ser criticado de sincericídio do que me omitir.

Levou puxão de orelha?

Nenhum.

Mas reclamaram anonimamente pelos jornais...

Só pelas costas [risos]. A única coisa que me incomoda é que a palavra "sincericídio" me subestima, me desqualifica, como se fosse um igrejeiro ingênuo. Repudio [o xingamento]. Uma chefe de Estado, uma mulher, uma pessoa que dá a vida pelo país, por sua história passada e presente, não pode ser alvo disso.

Já houve xingamentos antes.

No show do Rappa [em Ribeirão Preto, em maio]. Quando ouvi o xingamento no estádio, lembrei do show. Confirma um clima estimulado por opiniões na linha de criminalizar tudo que é da política com ódio e adjetivação. A pregação reiterada, acentuada no tempo do mensalão, difere de outros erros.

Como assim?

Não nego atos de corrupção que tivemos. Infelizmente, eles aconteceram, têm de ser reprovados. Esses atos nos doem primeiro a nós mesmos. O problema é o tratamento que se dá a erros dos outros, como o mensalão tucano, que se chama de mensalão mineiro, nem do PSDB dizem que foi. A compra de votos para reeleger [o ex-presidente] Fernando Henrique [Cardoso], que não passou por nenhuma investigação porque havia naquele tempo um esquema para impedir. Precisamos ter clareza disso e combater, porque, do contrário, começa a ganhar corpo uma opinião cada vez mais ampla de que nós estamos prejudicando o país, de que inventamos a corrupção.

O que baseou sua constatação sobre a "elite branca"?

Quando chego em Curitiba e encontro um garçom falando que o PT é o mais corrupto da história. Quando vejo em Fortaleza meninos cobrando a questão da corrupção. Quando vi no metrô meninos entrando e puxando o coro do mesmo palavrão usado no estádio, não posso achar que é um fenômeno apenas na cabeça daquilo que está se chamando de elite branca. Há, sim, um pensamento conservador que se expressa fortemente por meio dos veículos de comunicação e que opera um cerco contra nós. E esse cerco tem dado resultado, na medida em que ganha amplitude.

E qual o efeito sobre a eleição?

Tenho muita convicção de que vamos ganhar. Conseguiremos furar esse grande bloqueio porque vamos poder mostrar para o país, num debate aberto, sem mediações, o que de fato foi e está sendo realizado. Essa minha fala está muito voltada para a necessidade de fazermos uma grande mobilização que não parta da ilusão de que o povo pensa que está tudo bem.

Mas estão negando isso no PT.

Acho um erro de diagnóstico. E quando você não tem um bom diagnóstico, não tem um bom remédio. Para petistas, o xingamento surgiu da área VIP do estádio. Difícil identificar. Nem quero entrar nessa polêmica. O problema não é de onde surgiu, é a generalização. Olha, nós estamos felizes com a Copa, festejando até agora [bate três vezes na madeira, com punho direito fechado], porque nenhuma previsão catastrófica desses setores conservadores se confirmou. O país passa até agora muito bem pelo teste.

A frase da "elite branca" renega a ideia de Copa para todos?

Nós não trabalhamos como trabalhamos para popularizar a Copa para isso. Os estádios estão povoados de brasileiros e estrangeiros que vêm também de setores populares. Fizemos coisas importantes como meia entrada, ingressos para áreas do Bolsa Família, para idosos, portadores de deficiência. Brigamos com a Fifa. Então não vou entrar nessa contradição de dizer que só a elite estava no Itaquerão. Se começou com a elite, e pode ter começado, preocupa ter ganhado adesão mais ampla.

Mas foi Lula quem puxou esse discurso...

Não vou polemizar com Lula nem com meus companheiros. Quero é trazer de volta essa gente, não quero generalizar e colocar os torcedores do Itaquerão do outro lado. Mesmo aqueles que xingaram a Dilma, de maneira inadequada, eu os quero conosco. Quero fazer pontes, não jogá-los do outro lado, na mão de quem quer tê-los.

O sr. disse que a imagem de partido corrupto "pegou" em setores mais populares.

Tenho certeza de que o PT tem na sua imensa maioria uma gente muito séria, honesta. Agora, precisamos de fato ter um rigor interno ético muito grande. Lutar desesperadamente pela reforma política para mudar o indutor da corrupção, que é o financiamento empresarial de campanha. Sinto isso na carne.

Na carne?

Porque vejo companheiros que acabam se enrolando muitas vezes nesses processos de corrupção, em grande parte induzidos por uma prática tradicional no país e que antes, insisto, não aparecia, porque não se investigava. Se houvesse o mesmo padrão de investigação que nós tivemos nesses últimos 12 anos, muita gente do governo anterior estaria na cadeia.

Fala de quais companheiros?

Não quero personalizar.

O sr. é responsável pela interlocução com os movimentos sociais, mas hoje o PT paga militância em campanhas.

Acho que que, na justa medida em que nós nos tornamos uma grande instituição, fomos nos burocratizando. O PT trouxe inovações fundamentais para a ampliação da participação das pessoas na política e dar protagonismo a setores populares marginalizados. Mas o vírus da velha política também nos contaminou, em parte. Acho que não temos que sonhar romanticamente em reconstruir o PT de 1982, mas precisamos reconquistar o sentido coletivo de fazer política. Reanimar a militância. Na medida em que a gente foi se verticalizando, fomos nos tornando mais pragmáticos, perdendo a nossa mística.

Será uma eleição mais difícil?

Não tenho dúvida. Mas vamos ganhar. Há três candidaturas com certa viabilidade, com gente que saiu do nosso projeto [Eduardo Campos].

Dói para Lula ter Eduardo Campos como adversário?

Sempre percebo um lamento. Não só pelo fato de ser amigo, também por ser do nosso projeto. Mas acho que não é o fim da linha. Espero que a gente se reencontre.

O sr. falou que o PT se burocratizou. Como mudar?

Precisamos produzir um grande debate interno. Acho que Lula tem toda condição de capitanear isso. Temos que rejuvenescer o partido.

Com Lula candidato em 2018?

Não acho que é contradição. Ele tem uma incrível capacidade de criar o novo.
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Cantalice: "não vou recuar a eles, os censores"


O vice-presidente do PT, Alberto Cantalice, reagiu à onda de ataques que tem sofrido desde um artigo que publicou: "A desmoralização dos pitbulls da mídia"). Nele, menciona que nove articulistas da mídia familiar — Reinaldo Azevedo, Arnaldo Jabor, Demétrio Magnoli, Guilherme Fiúza, Augusto Nunes, Diogo Mainardi, Lobão, Danilo Gentili e Marcelo Madureira — estimulariam uma discurso reacionário contra o PT e contra políticas sociais, que permitiram a ascensão de uma nova classe média.

Desde então, Cantalice tem sido alvo de inúmeros ataques. Numa interpretação peculiar do artigo, Reinaldo Azevedo leu que o vice-presidente do PT emitia palavras de ordem para os militantes que justificariam até agressões a esses nove personagens. Em seguida, o comparam ao alemão Goebbels, propagandista do nazismo. Hoje, Ricardo Setti, em Veja, o chama de "energúmeno" (veja aqui).

Indignado, Cantalice decidiu reagir. "O comportamento organizado dessa turma só mostra que eu tinha razão", disse ele. "Eles agem em bloco para desmoralizar a atividade política e criminalizar o PT. Podem continuar dizendo o que quiserem. Mas não estão acima da crítica. Não são intocáveis, acima do bem e do mal".

Cantalice prossegue em seu raciocínio afirmando que os mesmos colunistas são saudosos de um tempo de menor liberdade no debate público. "Eles gostariam de ser as vozes do quarto poder, um poder ilegítimo, não eleito pelo povo. Não vou recuar, nem me intimidar a eles, porque eles é que são os verdadeiros censores e tentam calar e ridicularizar todas as vozes que pensam diferente", afirma. "Se dependesse dessa turma não haveria a internet, mas apenas as opiniões de seus patrões que eles vocalizam no rádio, na televisão e nos jornais impressos".

Nesta segunda-feira, o PSDB divulgou uma nota sobre a suposta "lista negra de Cantaliece" (leia mais aqui). "Que lista negra é essa? Eles podem escrever o que quiserem. O problema é de quem lê. Só escrevi que eles foram desmoralizados porque previram o fiasco da Copa. Agora, o PSDB é que deveria explicar por que tentou censurar um livro, o Privataria Tucana, e por que tenta calar e sufocar a internet".

Cantalice diz ainda que irá consultar advogados para ver que providências tomar em relação a Reinaldo Azevedo, que o comparou ao nazista Goebbels (leia aqui). "Eles fazem essas atrocidades e depois eu é que sou o nazista? Onde já se viu o PT, que tem vários jornalistas e tem um histórico em defesa da liberdade de expressão, querer censurar jornalista?"

No 247
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Operação cara de pau: Aécio ataca Cantalice em nome da liberdade de imprensa

PSDB e Aécio atacam exatamente o direito exercido
pelo vice-presidente do PT, Alberto Cantalice
Fotos: ABr/Richard Casas/PT
Aécio Neves e o seu PSDB entraram com pedido de busca e apreensão de computadores e equipamentos eletrônicos de uma série de pessoas no Rio de Janeiro, entre eles o da jornalista Rebeca Mafra, que só não teve a sua casa arrombada pela polícia porque uma vizinha tinha a chave do seu apartamento. Segundo a revista IstoÉ (ainda estamos apurando se isso é verdade, porque não recebemos nenhum comunicado oficial) o candidato tucano está movendo um processo contra a Revista Fórum e o Blog da Cidadania baseado na seguinte acusação, somos uma quadrilha virtual porque recebemos uma publicidade da prefeitura de Guarulhos.

A Revista Fórum que tem 13 anos de existência, vários jornalistas em seus quadros e uma história limpa, pois não tem nenhuma condenação judicial em toda a sua existência por conta do jornalismo que pratica, não parece ser imprensa pela lógica aeciana. Na lógica dele, imprensa deve ser apenas aquele tipo de veículo que o elogia.

Foi assim durante todo o período que esteve à frente do governo de Minas Gerais. Se você não conhece bem a história, assista a este vídeo.

Agora, o PSDB tem a cara de pau de soltar uma nota cujo título é “Pelo Direito a opinião”. Será ótimo podê-la usar a favor de Fórum nos tribunais caso de fato Aécio tenha nos processado. Mas ela é um amontoado de frases que o partido juntou para defender o que não tem defendido.

O texto cujo título é “pelo direito a opinião” ataca exatamente esse direito que foi exercido pelo vice-presidente do PT, Alberto Cantalice. É absurdo querer lhe impedir de escrever que certos colunistas são “pitbulls da grande mídia”. Inclusive porque há anos esses mesmos colunistas atacam ao seu partido como se fosse uma organização criminosa dirigida por bandidos.

Aliás, esses “pitbulls” usam exatamente o mesmo argumento que Aécio utiliza para atacar a imprensa que não o bajula. O tucano já se referiu à blogosfera como quadrilha algumas vezes. E pior, acionou a polícia. Imaginem se Cantalice tivesse entrado com mandado de busca e apreensão na casa daqueles que chama de “pitbulls”.

A grita contra Cantalice, orquestrada principalmente por Reinaldo Azevedo e Danilo Gentili (aliás, qual dos dois é o humorista?), é algo absurdamente exagerado. Quem deveria gritar desse jeito era Rebeca Mafra e todos que já foram silenciados e atacados pela lógica da “liberdade de imprensa” aeciana. Eles, sim, impedidos de usar seu direito a opinião.

Aécio tem se mostrado um perigo para a liberdade de imprensa. Todos os seus movimentos, inclusive este texto contra Cantalice assinado pelo PSDB, demonstram que seu interesse é o de calar as vozes dissonantes e construir unanimidade midiática em torno do seu nome. Quer a mídia tradicional a seu favor. E vai buscar silenciar os outros setores, criminalizando-os. É uma lógica a lá democracia no Egito. Que tem enviado à cadeia jornalistas que denunciam a ditadura por formação de quadrilha. Esse é o risco real.

Segue a nota do PSDB.
Pelo direito à opinião!

O site do Diretório Nacional do PT deu mais um triste passo no estímulo à intolerância, ao ódio e à divisão do país, ao passar a atacar oficialmente, sem nenhum subterfúgio, o livre direito à opinião.

O PT e suas lideranças, que têm perpetrado ataques diários e insistentes à imprensa e seus profissionais, chegaram agora ao absurdo de criar “listas negras” para expor, à execração da sua militância, jornalistas e artistas que pensam diferente do partido e têm a coragem de expressar publicamente estas opiniões.

Não por acaso, na última sexta-feira a Folha de S. Paulo noticia o gesto de um governador do PT de processar criminalmente uma jornalista apenas por ter reproduzido uma declaração de terceiros.

A radicalização das ações do partido contra a liberdade de imprensa e opinião preocupa muitos brasileiros.

Na internet, aumentam as calúnias e difamações contra os adversários do PT. Aqueles que ousam manifestar opiniões contrárias aos interesses do partido são perseguidos por uma rede de comentários agressivos e desrespeitosos.

Há pouco tempo, o jornalista Merval Pereira, de O Globo, foi constrangido em local público. O mesmo aconteceu com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, agredido verbalmente por militantes petistas.

Hoje, os jornais noticiam que agressões à imprensa e a defesa do “controle social da mídia ” ocuparam papel de destaque na Convenção Nacional do PT.

O PSDB repudia toda e qualquer tentativa de limitação do exercício da livre opinião e manifesta, mais uma vez, o seu compromisso com a defesa de todas as liberdades, especialmente a de imprensa.

Brasília, 22 de junho de 2014
Renato Rovai
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A hora e a vez dos corações valentes

Sem politizar a discussão dos modelos em disputa no país, a dinâmica do ajuste deslizará inevitavelmente para a chave do arrocho, ganhe quem ganhar em outubro.

O discurso da Presidenta Dilma na convenção do PT,  que ratificou sua candidatura  à reeleição, neste sábado,  merece mais do que a atenção dispensada  normalmente  à retórica  eleitoral.

Há ali, talvez, o sinal de uma importante transformação.

O economicismo perde espaço como ferramenta central da luta pelo desenvolvimento na concepção  petista e no projeto de reeleição.

Essa primazia passa a ser agora da questão política.

A  pavimentação do  ‘novo ciclo histórico’ que se almeja construir, conforme as palavras da candidata, recai sobre uma democracia tonificada por reformas e pela ampliação de canais com a sociedade. 

“A transformação social produzida por nossos governos criou as bases para a promoção de uma grande transformação democrática e política no Brasil. Nossa missão, agora, é dar vida a esta transformação democrática e política, sem interromper, jamais, a marcha da grande transformação social em curso. Não vejo outro caminho para concretizar a reforma política do que a participação popular, mobilizando todos os setores da sociedade por meio de um Plebiscito (...) São tão amplos os desafios, as propostas e as tarefas que temos, que é mais apropriado chamar o que nos propomos construir de "novo ciclo histórico" — e não apenas de "novo ciclo de desenvolvimento", disse a Presidenta.

No centro das propostas para um quarto mandato do PT no país, portanto, está a reforma política, mas também a ampliação da democracia participativa, através dos conselhos populares, e a democratização da comunicação, como lembrou outro orador do encontro,  o presidente do PT, Rui Falcão.

A nova ênfase não ofusca a atenção aos desafios e metas para expandir os avanços econômicos e sociais acumulados nos últimos 12 anos.

‘Nosso Plano de Transformação Nacional será a ampliação do grande conjunto de mudanças que estamos realizando junto com o povo brasileiro’, disse Dilma.

E o  ex-presidente Lula lembrou que a vitória em outubro passa por uma ampla mobilização para comparar resultados, ‘entre o que eles fizeram e o que nós realizamos’.

O que emerge agora, porém, é a aparente certeza de que nenhum outro compromisso relevante com a população será viável sem dispor do lastro institucional que assegure a celeridade e a sustentação do processo.

A babel partidária no Congresso, a supremacia do dinheiro privado nas campanhas, a desgastante formação das maiorias tornam impossível erguer as linhas de passagem para um novo ciclo de crescimento com a coerência e a rapidez requeridas pelos gargalos da economia e as urgências da sociedade.

Essa é a hora de um coração valente — como lembra o jingle da campanha pela reeleição.

Trata-se de um salto lentamente amadurecido no círculo dirigente do partido. Mas que ganhou impulso e a urgência de uma ruptura, a partir de dois acontecimentos: o processo da AP 470 e os protestos de rua por melhor qualidade de vida, iniciados em junho de 2013.

A narrativa martelada pelo dispositivo midiático conservador sobre esses episódios cuidou de selar o divisor de águas.

Não por acaso, na abertura do 4º Encontro dos Blogueiros e Ativistas Digitais, em 16 de maio, o ex-presidente Lula resumiria essa mudança em uma declaração peremptória: ‘Sem reforma política não faremos nada neste país. E ela terá que ser construída pela rua, por uma Constituinte exclusiva. O Congresso que está aí pode mudar uma vírgula aqui, outra ali. Mas não a fará’, disse ele.

Não era força de expressão.

Trata-se de dar consequência institucional  ao vapor acumulado na caldeira das realizações e das conquistas, mas também das demandas, gargalos e impasses da última década.

Reconhecido pelo FMI como a nação que mais reduziu o desemprego em pleno colapso mundial — 11 milhões desde 2008, enquanto o mundo fechava mais de 60 milhões de vagas — o Brasil avulta agora como a ovelha negra aos olhos do padrão ortodoxo.

O pleno emprego verificado em sua economia impede que os ganhos de produtividade se façam pelo método tradicional de compressão dos holerites.

A ‘purga’ de desemprego e arrocho é a alternativa da ‘ciência’ conservadora para devolver ‘eficiência’ à indústria e moderação aos preços.

A receita é vendida diuturnamente como parte de um calendário inevitável após as eleições, ganhe quem ganhar, embora o ‘consenso’ não conte com a anuência da candidata que lidera a disputa:

‘Eu não fui eleita para trair a confiança do meu povo, nem para arrochar salário de trabalhador! Eu não fui eleita para vender patrimônio público, mendigar dinheiro ao FMI, e colocar, de novo, o país de joelhos, como fizeram! Eu fui eleita, sim, para governar de pé e com a cabeça erguida!’, disse a Presidenta Dilma na convenção de sábado.

Excluir o arrocho das prioridades de governo para relançar o crescimento encerra desafios respeitáveis.

Há problemas reais a enfrentar.

Ao resistir à ‘destruição criativa’ promovida urbi et orbi pela maior crise do capitalismo desde 1929, o Brasil tornou-se de fato um paradoxo.

De um lado, carrega um trunfo social vibrante.

Enquanto a renda do trabalho e a dos mais pobres esfarela em boa parte do mundo, vive-se o inverso aqui.

Entre 1960 e 2000, a fatia do trabalho na renda nacional havia recuado de 56,6% para algo abaixo de 50%.

Entre 2004 e 2010 essa participação cresceu 14,4%.

Em grande parte, segundo o Ipea, por conta do ganho real de poder de compra do salário mínimo, que cresceu 70% de 2003, como lembrou Dilma na convenção.

Sob governos do PT, os  10% mais pobres da população tiveram um crescimento de renda acumulado de 91,2%.

A parcela endinheirada ficou com um ganho da ordem de 17%.

Nas economias ricas, como demonstrou Thomas Piketty,  o ciclo recente agravou um padrão feito de desigualdade ascendente.

Em alguns casos, a mais-valia absoluta está de volta, através de políticas de corte salarial puro e simples, ou do seu congelamento, associado à ampliação da jornada de trabalho.

Grécia, Portugal e Espanha são os laboratórios desse revival da aurora capitalista.

No total, 24% dos europeus não tem renda para sustentar suas necessidades básicas, entre as quais, alimentar-se.

Nos EUA, 47,5 milhões vivem com menos de 2 dólares por dia. O salário mínimo  é inferior ao vigente na era Reagan.

Não é difícil imaginar o impacto dessa espiral regressiva na fragilização dos sindicatos e na predação de direitos.

Os custos salariais recuam celeremente em boa parte do mundo. O conjunto reposiciona os fluxos de comércio, as cadeias de produção e a renda no planeta.

A deterioração das relações de trabalho  no ambiente global fura o bloqueio das políticas progressistas brasileiras através do  canal do comércio exterior.

Uma parte da distribuição de renda promovida desde 2003 vaza para os mercados ricos, gerando encomendas e lucros por lá, através das importações baratas que sufocam a manufatura brasileira.

25% do consumo atual de manufaturados no Brasil tem origem em mercadorias importadas.

O déficit comercial específico nessa área em 2013 foi de US$ 105 bi.

A solução conservadora para esses desequilíbrios é martelada sem trégua pelo seu aparato emissor.

O Brasil precisaria, segundo essa visão das coisas,  de um choque de juros e de um aumento do desemprego; um tarifaço para ajustar os ‘preços represados’ — sem correção dos salários, naturalmente; bem como uma abertura comercial ampla, com cortes de tarifas, câmbio livre e mobilidade irrestrita para os fluxos de capitais.

O conjunto, assegura-se, permitiria desmantelar a couraça de ‘atraso e populismo’ que impede o país de voltar a crescer com eficiência e competitividade.

Trata-se, em síntese, de trazer para o país a crise e os  desdobramentos  que o PT evita desde 2008. De forma algo tardia e em dose única.

Esse é o programa de Aécio e assemelhados para  colocar o Brasil em linha com o cânone global. 

As intervenções da Presidenta Dilma — reforçadas na convenção do PT —  rechaçam a panaceia conservadora.

Seu entendimento é o de que é possível interromper a sangria com medidas destinadas a elevar a produtividade, em duas frentes: a média prazo, com educação, reforma tributária e incentivos ao investimento; a curto prazo, retomando a redução dos juros e a desvalorização do câmbio, tão logo se consolide o recuo da inflação.

A aposta exige  forte coordenação do Estado sobre os mercados para funcionar. E só funcionará associada a uma ampla pactuação de metas para o ‘novo ciclo histórico’ preconizado pela Presidenta Dilma, com o engajamento de partidos, sindicatos e movimentos sociais nesse mutirão democrático.

Exatamente porque é — e será, cada vez mais necessário politizar a discussão dos dois modelos em disputa no país, a reforma política e a regulação da mídia assumiram a centralidade das preocupações de Dilma, Lula e do PT.

Ampliar essa conscientização é o desafio da campanha progressista até as urnas de outubro.

Sem o engajamento de milhões de corações valentes, a dinâmica do ajuste  brasileiro deslizará inevitavelmente para a chave do arrocho.

Ganhe quem ganhar no voto.

Saul Leblon
No Carta Maior
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PM, uma excrescência: ou espanca, ou faz a linha "magoei"!

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Não é mera coincidência!

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Jornais elogiam Copa, e Ruy Castro diz: "Imprensa brasileira teve espírito de porco antes"


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A cartelização mediocrizante da notícia

1.     TODOS os grupos de mídia fizeram a mesma cobertura negativa da Copa, com os mesmos tons de cinza, o mesmo destaque às irrelevâncias prejudicando seu próprio departamento comercial, pelo desânimo geral que chegava aos anunciantes.

2.     NENHUM grupo preparou uma reportagem sequer mostrando os detalhes de uma organização exemplar, que juntou governos federal, estadual, municipal, Ministério Público, Tribunais de Conta, Polícia Federal, Secretarias de Segurança, departamentos de trânsito, construtoras, fundos de investimento. NENHUM!

3.     Depois, TODOS fazem o mea culpa e passam a elogiar a Copa no mesmo momento.

4.     Na CPMI de Carlinhos Cachoeira TODOS atuaram simultaneamente para abafar as investigações.

5.     Na do “mensalão”, TODOS atuaram na mesma direção, no sentido de amplificar as denúncias e esmagar qualquer medida em favor dos réus, até as mais irrelevantes.

6.     Na Operação Satiagraha, pelo contrário, TODOS saíram em defesa do banqueiro Daniel Dantas, indo contra a tendência histórica da mídia de privilegiar o denuncismo.

7.     No episódio Petrobras, TODOS repetiram a mesma falácia de que a presidente Maria da Graça disse que foi um mau negócio e o ex-presidente José Sérgio Gabrielli disse que foi bom negócio. O que ambos disseram é que, no momento da compra, era bom negócio; com as mudanças no mercado, ficou mau negócio. TODOS cometeram o mesmo erro de interpretação de texto e martelaram durante dias e dias, até virar bordão.

8.     No anúncio da Política Nacional de Participação Social, TODOS deram a mesma interpretação conspiratória, de implantação do chavismo e outras bobagens do gênero, apesar das avaliações dos próprios especialistas consultados, de que não havia nada que sugerisse a suspeita. Só depois dos especialistas desmoralizarem a tese, refluíram — com alguns veículos ousando alguma autocrítica envergonhada.

É um cartel, no sentido clássico do termo.

Uma empresa jornalística que de fato acredite no seu mercado jamais incorrerá nos seguintes erros:

1.     Trabalhar sem nenhuma estratégia de diferenciação da concorrência, especialmente se não for o líder de mercado. A Folha tornou-se o maior jornal brasileiro, na década de 80, apostando na diferenciação inteligente.

2.     Atuar deliberadamente para derrubar o entusiasmo dos consumidores e anunciantes em relação ao seu maior evento publicitário da década: a Copa do Mundo.

3.     Expor de tal maneira a fragilidade do seu principal produto — a notícia —, a ponto de municiar por meses e meses seus leitores com a versão falsa de que tudo daria errado na Copa e, depois, ter que voltar atrás. Em nenhum momento houve uma inteligência interna sugerindo que poderia ser um tiro no pé. Ou seja, acreditaram piamente nas informações falsas que veiculavam — a exemplo do que ocorreu com a maxidesvalorização de 1999.

4.     Nos casos clássicos de cartel, um grupo de empresas se junta para repartir a receita e impedir a entrada de novos competidores. No caso brasileiro, a receita publicitária cada vez mais é absorvida pelo líder — a Globo — em detrimento dos demais integrantes do grupo. Para qualquer setor organizado da economia, essa versão brasileira de cartel será motivo de piada.

Tudo isso demonstra que há tempos os grupos de mídia deixaram de lado o foco no mercado e no seu público. Não se trata apenas da perda de espaço com a Internet. Abandonaram o produto principal — a confiabilidade da notícia — para atuar politicamente, julgando estar na política sua tábua de salvação.

A sincronização de todas as ações, em todos os momentos, mostra claramente que existe uma ação articulada, centralmente planejada. Visão conspiratória? Não. Provavelmente devido ao  fato de não existirem mais os grandes capitães de mídia, capazes de estratégias inovadoras individuais. Assim, qualquer estrategista de meia pataca passa a dar as cartas, por falta de interlocução à altura em cada veículo.

Luís Nassif
No GGN
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Eduardo Bueno, o Peninha, chama o Nordeste de "Bosta"

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As orgias de Merval Pereira

http://ajusticeiradeesquerda.blogspot.com.br/
No sábado (21), em sua coluna no jornal O Globo, o “imortal” Merval Pereira criticou as alianças “heterodoxas” firmadas pelo PSB. No artigo intitulado “Orgia partidária”, ele localizou a sua bronca: “Os últimos dias para a definição das coligações estão produzindo um quadro esquizofrênico de alianças que tem na união do PSB com o PT no Rio de Janeiro o seu melhor exemplo”. No estado, como se sabe, a legenda de Eduardo Campos indicou Romário para disputar o Senado na chapa do petista Lindbergh Farias. Para o inimigo declarado do PT, esta chapa é “uma mistura explosiva”. No mesmo dia, porém, o PTB anunciou seu apoio a Aécio Neves e Merval Pereira não ficou nem um pouco indignado!

Na crítica seletiva do colunista global, a aliança carioca não trará nenhum benefício ao PSB, “ao contrário da coligação armada em São Paulo, que dará o lugar de vice do governador Geraldo Alckmin ao partido, com o potencial de vir a governar o estado caso Alckmin se reeleja e ao final do mandato se desincompatibilize para disputar outro cargo”. Ele mesmo se contradiz logo na sequência, ao reconhecer que “o deputado federal Romário, com a desistência de Jandira Feghali, passa a ser o favorito para a vaga, numa disputa acirrada com o ex-governador Sérgio Cabral, que pode até mesmo desistir da candidatura devido a esse quadro novo que se desenha”. Incoerência ou falha de raciocínio do “imortal”?

O que, de fato, incomoda a famiglia Marinho e seu funcionário não são as “coligações heterodoxas”, mas sim qualquer aliança que fortaleça o PT e as forças de esquerda nas eleições de outubro. A Rede Globo teme perder o governo do Rio de Janeiro, onde está sediada, e principalmente a disputa para a presidência da República. Merval Pereira avalia, inclusive, que a aliança de Geraldo Alckmin e Eduardo Campos “é uma questão delicada na geopolítica paulista” – já que pode enfraquecer Aécio Neves, o cambaleante tucano. Não custa lembrar que o mineiro já traiu os paulistas José Serra e Geraldo Alckmin em outras eleições presidenciais. Será que o governador de São Paulo dará o troco em 2014?

Ao final, Merval Pereira explicita toda sua revolta: “A verdade é que esses acordos firmados à última hora refletem a política nossa de todos os dias, onde o programático cede lugar ao pragmático. Às vezes com certos exageros, como frisou o deputado Alfredo Sirkis do PSB ao anunciar que abre mão de se candidatar nas próximas eleições para não participar do que chamou de uma ‘suruba’ partidária”. Já que está preocupado com as “surubas”, o colunista global deveria, ao menos, manifestar certo temor com a decisão do PTB de oficializar, na última hora, o apoio ao tucano Aécio Neves. Afinal, ele sempre criticou a sigla de Roberto Jeferson, o “mensaleiro”, por integrar a base de apoio do governo Dilma.

Segundo a própria Folha, tão tucana quanto o jornal o Globo, o PTB rompeu com Dilma porque não foi atendido nas exigências por mais cargos. “Um dos fiadores do apoio a Aécio foi o ex-deputado Roberto Jefferson, condenado e preso por causa do mensalão. Aécio, que tem acusado o PT de ser tolerante com a corrupção, afirmou que não se constrange com o fato de um condenado do mensalão ter sido o principal articulador do apoio do PTB. ‘Não altera em nada o nosso projeto. É mais um partido político que se soma e é muito bem-vindo’, disse o tucano”, descreveu o diário neste sábado.

Mas Merval Pereira, tão indignado com a “orgia” carioca, nada escreveu sobre esta “suruba” federal, que garantiu a Aécio Neves cerca de 40 segundos na propaganda eleitoral de rádio e tevê. O colunista global é seletivo até nas suas orgias!

Altamiro Borges
No Blog do Miro
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Colunismo de insulto inflama xingamentos, mas detona participação popular

a volta do moderno reacionário...

Faz três anos, escrevi aqui, que o moderno reacionário, um tipo que vinha se popularizando entre jornalistas e neo-intelectuais, abrigados principalmente na grande imprensa, se constituía como uma porta de entrada de um velho fascismo.

Com um cântico sedutor, a agressividade típica de quem se diz dono da liberdade absoluta, “intelectual sem amarras” e, portanto, sem quaisquer limites, os colunistas do insulto realizam com frequência o rebaixamento do debate político a um patamar virulento e repleto de ódio.

Como lembrei na oportunidade: “O presidente é uma anta, passeatas são antros de maconheiros e vagabundos, criminosos defensores de ideais esquerdizóides anacrônicos e outros tantos palavrões de ordem que fariam os retrógrados do Tea Party corarem de constrangimento”.

Nesse panorama, não é de se estranhar os xingamentos à presidenta na abertura da Copa, que escandalizaram o país.

Aquilo deu nisso.

Estamos sendo continuamente acostumados a ouvir de reputados comentaristas os mais rancorosos insultos substituindo a crítica, a violência como signo de liberdade, o preconceito como uma espécie de direito adquirido.

Saber que o cântico de insulto nasceu na área VIP é um aspecto que se imiscui entre a fina ironia e a mais cruel hipocrisia.

Afinal, foi justamente para criar estes espaços nobres de exceção, excrescência das descabidas cláusulas leoninas da FIFA, que o país aceitou à construção de tantos novos estádios. Para abrigar os convidados dos patrocinadores desta hiper-mercantilização do futebol, cujos valores bilionários têm submetido países ao redor do mundo.

Enfim, depois de tanto catastrofismo vazio, do caos aéreo que não veio, da repulsa generalizada pelo campeonato que sucumbiu a seu início, dos estádios que jamais ficariam prontos, conseguimos produzir algo capaz de nos envergonhar na Copa.

Mas não é só.

Ao mesmo tempo em que vaias e xingamentos classe A são celebrados por aqueles que os estimulam ou aproveitam, a ausculta popular em políticas públicas, que se pretendeu viabilizar em recente decreto presidencial, é tratado como golpe, quase um prenúncio do apocalipse.

Volta a virulência para chamar a presidenta de ditadora, marcar o governo como autoritário e rotular de fascista a iniciativa. Em risco, nada menos que a democracia.

Afinal, ouvir o povo, que em regra vem escanteado na condução das políticas de Estado, em face da contínua submissão de governos e também oposições às contingências e interesses do mercado e de grandes corporações, só pode ser mesmo golpe.

O decreto nada mais faz do que permitir que a consulta a cidadãos e entidades da sociedade civil possa ser considerada na eleição de políticas de governo — reflexo talvez da maior distância que o poder se reconheceu das demandas populares, o que, convenhamos, não é um nenhum autoelogio.

Não torna ninguém eleitor privilegiado nem obriga decisões de compadrio.

Não é verdade que despreze ou ultrapasse o Congresso, pois nem todas as iniciativas de governo exigem produção de leis. Tampouco se pode considerar o Parlamento como exaurimento da política nacional — ela é produzida nas escolas, nas ruas, nos sindicatos e em outros tantos lugares que merecem ser ouvidos.

A tônica dos governos costuma ser escutar apenas o que tem vontade de ouvir, mais as sugestões que agregam do que as críticas que o abalam, e usar caixas de ressonância que apenas os estimulam eleitoralmente.

A abertura de participação popular talvez possa reverter parte dessa dinâmica e contribuir para que grupos mais excludentes possam competir com lobistas e midiáticos que tem grande aptidão de influenciar o poder por cima — ainda que essa concorrência continue sendo desleal.

Como conselhos com participação de entidades sociais já existem no Brasil há muitos anos, tampouco se pode dizer que a ideia tenha um cunho revolucionário.

A prática é que poderá separar a participação da mera propaganda, a representatividade da simples cooptação.

Fato é que só a glorificação permanente do insulto pode entender que os xingamentos dos afortunados incomodados, o chilique chique das celebridades, o Brasil ame-o e deixe-o dos revoltados da elite, sejam reputados como mais importantes do que a ausculta popular sobre políticas públicas.

* * *

De listas negras e Reinaldo Azevedo (olha quem está falando)

Colunista nominou juízes por crítica a associação

Após ser nominalmente criticado ao vivo pelo jornalista José Trajano (ESPN), entre os alimentadores do ódio na imprensa, o blogueiro de Veja e agora colunista da Folha de S. Paulo andou dizendo que estava sendo submetido a uma verdadeira “lista negra” — citado que foi, ainda, em crítica de um líder partidário.

A vitimização, todavia, não cabe ao blogueiro.

Em 01/02/11, ao fim de um artigo iracundo em seu blog, com que desferiu inúmeras e grosseiras críticas à Associação Juízes para a Democracia, Reinaldo Azevedo lança ao final de seus impropérios, o nome de todos os juízes que aparecem no site da associação, como forma de provocar a indevida exposição aos milhares de seus seguidores, antecedido da seguinte advertência:
Você tem o direito de saber quem aparece no “Expediente” da página da Associação Juízes para a Democracia. Você tem o direito de saber quais são as pessoas que, num tribunal, também se consideram abaixo dos que rompem “com o estereótipo da alienação, e alimentados de esperança, insistem em colocar o seu ousio e a sua juventude a serviço da alteridade, da democracia e do império dos direitos fundamentais.”
A diferença, uma enorme diferença, é que Trajano cita jornalistas que são amplamente conhecidos e dá nomes a bois que eram absolutamente desnecessários — tamanha a vinculação entre as ideias que criticou e os artigos na grande imprensa. O que, de fato, não trazia qualquer similaridade com os juízes que pretendeu marcar com sua fúria.

Eu não saí entre os nomes citados, por não fazer parte da diretoria da entidade, mas respondi em artigo na coluna do Terra Magazine, após crítica de outro jornalista, publicada na versão impressa da revista.

O artigo de Reinaldo Azevedo pode ser encontrado aqui.

O artigo com que respondi, pode ser lido abaixo:
VEJA quer calar a democracia

Tolice suprema, coleção formidável de bobagens, condoreirismo cafona.

Com esses e outros adjetivos ainda piores, o jornalista Reinaldo Azevedo iniciou, em seu blog, uma onda de ataques da revista VEJA à Associação Juízes para a Democracia (AJD).

Nos posts que buscavam detonar a associação por uma nota crítica à ação da Polícia Militar na USP, sobrou até para os educadores que seguem Paulo Freire: “idiotas brasileiros e cretinos semelhantes mundo afora”.

O nível do artigo já se responde por conta própria.

Todavia, na edição impressa que veio às bancas no sábado último, o editor-executivo da revista subscreveu um texto que, sem qualquer constrangimento ou escrúpulo político, comparou a associação a um tribunal nazista.

O descompromisso com a razão nem é o que mais ressalta no artigo — a foto gigantesca de pupilos de Hitler, fora de tom ou propósito, só se explica como um ato falho. No artigo, Carlos Graieb utiliza expressões que se encaixariam perfeitamente no ideário nazista: propõe dissolver a associação “política” ou impedir que seus membros usem a toga.

Reinaldo Azevedo, com ainda menos pruridos no mundo virtual, explicitou, numa ação que evoca o macarthismo, os nomes de todos os diretores, representantes e membros de conselhos da entidade, alertando leitores para que jamais aceitem ser julgados por estes juízes.

Que competência ou legitimidade para a posição soi-disant de corregedor ele tem não se sabe. Mas seus seguidores foram instados a identificar os juízes associados pelo próprio colunista, que deu status de artigo a mensagem de um advogado falando do desembargador ‘liberal’ apreciador de samba.

VEJA está aturdida e indignada com a afirmação de que existe direito além da lei. Os nazistas também ficavam, porque as barbáries escritas no período mais negro da história da humanidade eram legais. Jamais deixaram de ser barbáries por causa disso.

A prevalência dos princípios constitucionais é o que propunha, sem grandes novidades, a nota da Associação Juízes para a Democracia. Se juízes não podem fazê-lo em um estado democrático de direito, na tutela da Constituição que prometeram defender, algo definitivamente está errado.

Mesmo para quem conhece a linha editorial de VEJA, cuja partidarização na política é sobejamente criticada, espanta que o interesse em calar quem pensa de outra forma, parta justamente de um órgão de imprensa.

Que a falta de pluralismo de suas páginas já fosse, por assim dizer, um oblíquo atentado à liberdade de expressão, o explícito intuito de extirpar opiniões contrárias não deixa de ser aterrorizador. Sob esse prisma, lembrar o nazismo não é mais do que medir o outro com a própria régua.

A Associação Juízes para a Democracia tem vinte anos de serviços prestados ao debate institucional na magistratura e fora dela — e eu me orgulho de fazer parte dessa história quase por inteiro.

A AJD tem entre seus objetivos o respeito incondicional ao estado democrático de direito e jamais deixou de denunciar quando este se fez ameaçado. Bate-se sem cessar pela independência judicial e é militante na consideração do juiz como um garantidor de direitos.

A promoção permanente dos direitos humanos, compartilhada com inúmeras outras entidades da sociedade civil, sempre incomodou aos que se candidatam a porta-voz dos poderosos. Mas recusamos o propósito de quem quer fazer da democracia apenas uma promessa vazia.

A associação nunca se opôs a criticar o elitismo no próprio Judiciário, nem temeu se mostrar favorável à criação de um órgão para exercer o controle externo. Tudo por entender que desempenhamos, sobretudo, um serviço essencial ao público — o que levou a AJD a participar da Reforma do Judiciário propondo, entre outros temas, o fim das sessões secretas e das férias coletivas.

Anticorporativista, a associação jamais defendeu valores em benefícios próprios, o que pode ser incompreensível em certos ambientes. Recentemente, bateu-se pela legalidade da instauração de processos administrativos contra juízes pelo Conselho Nacional de Justiça, na contramão de interesses de classe.

Em vinte anos, seus membros têm sido convidados a participar de vários debates no Poder Judiciário, no Congresso Nacional e também na mídia.

O exercício contínuo da liberdade de expressão, que fascistas de todo o gênero sempre pretenderam mutilar, não vai ceder ao intuito de quem pretende impor sua visão e seus conceitos como únicos.

VEJA não está em condições de ensinar estado de direito, se desprestigia a liberdade de expressão.

Marcelo Semer
No Sem Juízo
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