20 de jun de 2014

O analfabeto midiático


“Ele imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo esforço intelectual”. Reflexões em torno de poema de Brecht, no século 21

O pior analfabeto é o analfabeto midiático.

Ele ouve e assimila sem questionar, fala e repete o que ouviu, não participa dos acontecimentos políticos, aliás, abomina a política, mas usa as redes sociais com ganas e ânsias de quem veio para justiçar o mundo. Prega ideias preconceituosas e discriminatórias, e interpreta os fatos com a ingenuidade de quem não sabe quem o manipula. Nas passeatas e na internet, pede liberdade de expressão, mas censura e ataca quem defende bandeiras políticas.

Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

E que elas — na era da informação instantânea de massa — são muito influenciadas pela manipulação midiática dos fatos. Não vê a pressão de jornalistas e colunistas na mídia impressa, em emissoras de rádio e tevê — que também estão presentes na internet — a anunciar catástrofes diárias na contramão do que apontam as estatísticas mais confiáveis. Avanços significativos são desprezados e pequenos deslizes são tratados como se fossem enormes escândalos. O objetivo é desestabilizar e impedir que políticas públicas de sucesso possam ameaçar os lucros da iniciativa privada. O mesmo tratamento não se aplica a determinados partidos políticos e a corruptos que ajudam a manter a enorme desigualdade social no país.

Questões iguais ou semelhantes são tratadas de forma distinta pela mídia. Aula prática: prestar atenção como a mídia conduz o noticiário sobre o escabroso caso que veio à tona com as informações da alemã Siemens. Não houve nenhuma indignação dos principais colunistas, nenhum editorial contundente. A principal emissora de TV do país calou-se por duas semanas após matéria de capa da revista IstoÉ denunciando o esquema de superfaturar trens e metrôs em 30%.

O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito para dizer que viu/ouviu a informação no Jornal Nacional e leu na Veja, por exemplo. Ele não entende como é produzida cada notícia: como se escolhem as pautas e as fontes, sabendo antecipadamente como cada uma delas vai se pronunciar. Não desconfia que, em muitas tevês, revistas e jornais, a notícia já sai quase pronta da redação, bastando ouvir as pessoas que vão confirmar o que o jornalista, o editor e, principalmente, o “dono da voz” (obrigado, Chico Buarque!) quer como a verdade dos fatos. Para isso as notícias se apoiam, às vezes, em fotos e imagens. Dizem que “uma foto vale mais que mil palavras”. Não é tão simples (Millôr, ironicamente, contra-argumentou: “então diga isto com uma imagem”). Fotos e imagens também são construções, a partir de um determinado olhar. Também as imagens podem ser manipuladas e editadas “ao gosto do freguês”. Há uma infinidade de exemplos. Usaram-se imagens para provar que o Iraque possuía depósitos de armas químicas que nunca foram encontrados. A irresponsabilidade e a falta de independência da mídia norte-americana ajudaram a convencer a opinião pública, e mais uma guerra com milhares de inocentes mortos foi deflagrada.

O analfabeto midiático não percebe que o enfoque pode ser uma escolha construída para chegar a conclusões que seriam diferentes se outras fontes fossem contatadas ou os jornalistas narrassem os fatos de outro ponto de vista.

O analfabeto midiático imagina que tudo pode ser compreendido sem o mínimo de esforço intelectual. Não se apoia na filosofia, na sociologia, na história, na antropologia, nas ciências política e econômica — para não estender demais os campos do conhecimento — para compreender minimamente a complexidade dos fatos. Sua mente não absorve tanta informação e ele prefere acreditar em “especialistas” e veículos de comunicação comprometidos com interesses de poderosos grupos políticos e econômicos. Lê pouquíssimo, geralmente “best-sellers” e livros de autoajuda. Tem certeza de que o que lê, ouve e vê é o suficiente, e corresponde à realidade. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o espoliador das empresas nacionais e multinacionais.”

O analfabeto midiático gosta de criticar os políticos corruptos e não entende que eles são uma extensão do capital, tão necessários para aumentar fortunas e concentrar a renda. Por isso recebem todo o apoio financeiro para serem eleitos. E, depois, contribuem para drenar o dinheiro do Estado para uma parcela da iniciativa privada e para os bolsos de uma elite que se especializou em roubar o dinheiro público. Assim, por vias tortas, só sabe enxergar o político corrupto sem nunca identificar o empresário corruptor, o detentor do grande capital, que aprisiona os governos, com a enorme contribuição da mídia, para adotar políticas que privilegiam os mais ricos e mantenham à margem as populações mais pobres. Em resumo: destroem a democracia.

Para o analfabeto midiático, Brecht teria, ainda, uma última observação a fazer: Nada é impossível de mudar. Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

Celso Vicenzi
No Outras Palavras
O analfabeto político

O pior analfabeto, é o analfabeto político.

Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida,

O preço do feijão, do peixe, da farinha

Do aluguel, do sapato e do remédio

Depende das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que

Se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.

Não sabe o imbecil,

Que da sua ignorância nasce a prostituta,

O menor abandonado,

O assaltante e o pior de todos os bandidos

Que é o político vigarista,

Pilanta, o corrupto e o espoliador

Das empresas nacionais e multinacionais.

Bertold Brecht
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O verdadeiro pecado de Mário Sérgio Conti

Felipão foi o de menos
A entrevista com o falso Felipão entra na crônica do jornalismo brasileiro como uma das maiores besteiras já cometidas.

A pergunta que emerge para o autor, Mário Sérgio Conti, é a seguinte: em que planeta ele vive?

Mas é algo no terreno da anedota.

Conti tem razão quando diz que ninguém morreu por conta do erro, e nem a bolsa se movimentou, ou coisas do gênero.

Conti, é verdade, vai passar para a história como aquele jornalista do Felipão.

Mas seu real pecado, na carreira, é algo muito mais sério.

Conti, como diretor de redação da Veja, comandou uma das coberturas mais abjetas e mais canalhas do jornalismo nacional: a que levou ao impedimento de Collor.

Ali a Veja mostrou, sem que ninguém percebesse, o que faria depois: o abandono completo do compromisso com os fatos na sede de derrubar inimigos.

É uma opinião que tenho desde sempre, e a compartilhei várias vezes com jornalistas da Abril nos anos em que trabalhei lá — durante e depois  do crime jornalístico feito pela Veja.

A Veja se baseou, essencialmente, em declarações. Mais que tudo, o depoimento envenenado e raivoso de Pedro Collor foi vital no material jornalístico que a revista produziu naqueles dias.

Nasceu da vingança de Pedro a célebre capa cujo título era: “Pedro Collor conta tudo”.

Meu ponto, desde o início, era o seguinte. Imagine que o irmão do presidente dos Estados Unidos batesse na porta do diretor de redação da revista Time e dissesse que tinha coisas hirríveis para contar.

A Time publicaria?

Jamais. Antes, caso achasse que ali coisas críveis, investigaria profundamente as acusações. Só publicaria com provas, primeiro porque de outra forma sua imagem jornalística ficaria arranhada. Depois porque a Justiça americana, ao contrário da brasileira, não aceita blablablás como evidências.

Num caso notável, Paulo Francis chamou diretores da Petrobras de corruptos. Como a acusação foi feita no Manhattan Connection, os executivos puderam processar Francis na Justiça americana, a despeito da pressão de FHC, então presidente, para que não agissem assim.

Os americanos pediram provas a Francis e ele nada tinha além de sua verve. Na iminência de uma multa que talvez o arruinasse, ele se atormentou. Morreu de enfarto durante o processo, e amigos atribuíram o coração quebrado ao pavor da sentença iminente.

Não espanta que, anos depois da queda de Collor, ele tenha sido absolvido no STF por ausência de provas.

Este fato é, em si, uma prova espetacular da inconsistência da cobertura da Veja.

Por trás de tudo, de todas as maldades jornalísticas praticadas pela Veja, estava Mário Sérgio Conti, uma das figuras mais amplamente detestadas pelos jornalistas brasileiros.

Mário Sérgio posaria, depois, como “derrubador de presidente”, o que não fez bem a sua carreira na Veja.

O dono da Veja, Roberto Civita, também gostou do título de “derrubador de presidente”, e a revista, embora grande, era pequena demais para dois derrubadores.

RC, pouco depois, deu um jeito de mandar embora Conti. (Antes de ser demitido, ele teve a chance de inventar Mainardi como colunista.) Foi uma demissão florida: Conti teve dois anos remunerados ao longo dos quais escreveu Notícias do Planalto, um livro sobre o episódio Collor.

É um livro no qual ele bajulava todos os donos de jornais e revistas, e ao mesmo tempo atacava jornalistas dos quais não gostava, a começar pelo homem a quem devia o cargo de diretor da Veja, JR Guzzo.

Um dia o jornalismo brasileiro haverá de realizar um trabalho arqueológico sobre o caso Collor.

E então se perceberá que a origem do horror em que a Veja se transformou nos últimos anos estava ali, sob as mãos malévolas de Mário Sérgio Conti, o cara do Felipão.

Paulo Nogueira
No DCM
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As razões da briga entre o Movimento Ocupe Estelita e o consórcio Novo Recife


Nesta terça-feira (17), às 04h30, o Batalhão de Choque e a cavalaria da Polícia Militar de Pernambuco fizeram um bloqueio no Cais José Estelita, em Recife.

O objetivo da PM era retirar um grupo de manifestantes que ocupava o cais há quase um mês.

A polícia usou balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Várias pessoas se feriram e seis delas foram presas, sob a acusação de agredirem a polícia ou incitarem a violência contra ela.

A desocupação do Cais José Estelita foi um pedido judicial do Consórcio Novo Recife, proprietário do terreno, que pretende construir um grande projeto imobiliário na região, cujo valor foi estimado em 800 milhões de reais.

O que há nesse Cais?

A área onde fica o Cais José Estelita possui 101,7 mil metros quadrados. Está localizada entre os bairros de Boa Viagem e Recife antigo.

Por ser um cartão postal da cidade, com uma bela paisagem de frente à bacia do Pina, a região passou a ser cobiçada por várias construtoras da região. 
Famílias passeando no Cais
O leilão do terreno, que pertencia à antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA), ocorreu há seis anos, com uma única proposta de compra, que foi a do Consórcio Novo Recife, formado pelas construtoras Moura Dubeux, Queiroz Galvão, Ara Empreendimentos e GL Empreendimentos, pelo valor mínimo estipulado de 55 milhões de reais. Pagaram aproximadamente 540 reais por metro quadrado.

O projeto imobiliário do consórcio, que foi criado em 2012, pretende construir 12 prédios que poderão ter até o tamanho máximo de 40 andares. Serão sete torres residenciais para apartamentos de luxo, duas comerciais, dois flats e um hotel. Também há projetos para construir estacionamentos para até 5000 veículos. O custo do metro quadrado da área construída será de aproximadamente 4000 reais.

Em contrapartida, o consórcio também deverá gastar 62 milhões de reais em “ações de mitigação”, para compensar o impacto negativo da obra. Deverão ser construídas quadras poliesportivas, uma biblioteca pública, ciclovias e um parque municipal, dentre outras obras.

Hoje há cinco ações na justiça questionando o projeto: uma do Ministério Público Federal (MPF), uma do Ministério Público estadual de Pernambuco (MPPE) e três ações populares.

De acordo com o MPF, o leilão da área nunca poderia ter sido feito, pois a União não poderia ter vendido o terreno sem antes consultar outros órgãos públicos que poderiam ter interesse na área, como o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que havia manifestado esse interesse. 

A ação do Ministério Público Estadual, feita pela promotora Belize Câmara, foi criada sob o argumento de que o projeto não tinha atendido a requisitos básicos como a divisão do terreno em lotes, antes da aprovação do projeto. Com base nisso, a licença da obra foi suspensa, mas a promotora foi afastada do cargo poucos dias depois, sob a alegação de estar acumulando funções, pois era também promotora da infância em outra cidade.

As três ações populares pedem a anulação do ato administrativo do conselho de desenvolvimento urbano (CDU), que aprovou o projeto no fim de dezembro de 2012, nos últimos dias do mandato do ex-prefeito João da Costa (PT), numa sessão a portas fechadas.

Esses prédios enormes, construídos em frente ao Rio, numa área de patrimônio histórico, que é um cartão postal de Recife, irão bloquear uma bela paisagem da cidade. Isso somado a uma série de outros problemas no projeto revoltou muitos moradores de Recife, que se uniram em torno do grupo Direitos Urbanos, que já realizou muitas manifestações, participou de audiências públicas, fez denúncias ao Ministério Público, dentre várias outras ações contra o projeto Novo Recife.

Como está a área hoje
Como poderá ficar a área após o projeto
Por que os manifestantes ocupavam a área?

No dia 21 de maio, o consórcio Novo Recife conseguiu autorização da prefeitura para demolir os armazéns de açúcar abandonados do cais. No mesmo dia à noite iniciaram a demolição.

Os integrantes do grupo "Direitos Urbanos" correram até o Cais e fizeram uma grande manifestação para impedir a demolição dos armazéns. 

Os galpões do cais parcialmente demolidos.
No dia seguinte, 22, a demolição foi embargada por uma liminar do IPHAN, que alegou que o consórcio descumpriu um Termo de ajuste de conduta entre o consórcio e o IPHAN, que visava garantir a proteção dos registros relacionados à produção de conhecimento sobre a área.

O que seria apenas uma manifestação contra a demolição dos armazéns, acabou se tornando uma ocupação, que ficou conhecida como “Ocupe Estelita”, com muitos  manifestantes ocupando diariamente o local, para impedir que uma nova demolição fosse iniciada.

A ocupação recebeu apoio de vários políticos e artistas do país. Vários deles como Jean Wyllys, Camila Pitanga e Ney Matogrosso manifestaram apoio através das redes sociais. Os cantores Otto e Karina Buhr fizeram shows gratuitos, reunindo milhares de pessoas no cais.

No dia 3 de junho, a prefeitura resolveu suspender a licença que autorizava a demolição dos galpões do cais. Dois dias depois, a construtora Moura Dubeux, declarou que o consórcio Novo recife seria favorável à criação de um novo projeto para a área.

No dia 16 de junho, houve uma reunião entre o consórcio Novo Recife, a prefeitura, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU), o Conselho Regional de engenharia e agronomia (CREA), o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e a Universidade Federal de Pernambuco. Nessa reunião foi estabelecido um prazo de 30 dias para que fossem modificadas as diretrizes urbanísticas do projeto Novo Recife.

Segundo os manifestantes que ocupavam o Cais, o acordo também previa que se fosse ocorrer uma ação de reintegração de posse da área, ela deveria ser comunicada com 48 horas de antecedência e deveria contar com a presença do Ministério Público.

Eduardo Campos, o atual governador de Pernambuco, que está afastado para se dedicar à campanha presidencial, publicou nesse dia em seu perfil no twitter: “Não se governa uma nação sem ouvir as pessoas. A boa política é feita sempre com muito diálogo, e transparência em todos os sentidos”.

Porém no dia seguinte, sob as ordens do vice-governador João Lira, o batalhão de choque foi enviado para expulsar à força os manifestantes que ocupavam o local, sem avisar ao Ministério Público e sem permitir a entrada dos advogados para negociar a desocupação da área. 

Fizeram a desocupação justamente no dia em que haveria uma partida da seleção brasileira na Copa do Mundo, quando a imprensa estaria distraída falando sobre o jogo.

A secretária de meio ambiente e sustentabilidade do Recife, Cida Pedrosa, indignada, publicou uma nota em seu perfil do facebook, condenando a ação da PM. 
"[...] Isso é um absurdo que rompe um processo de negociação que estava sendo construído com a participação de várias entidades e sob a coordenação da Prefeitura do Recife. Escrevo esse texto muito triste e com muita raiva, pois ontem estava sentada numa mesa de negociação que foi totalmente desrespeitada", disse a secretária.

Até mesmo Marina Silva, que será candidata à vice-presidência, ao lado de Eduardo Campos, criticou a ação e publicou no facebook: “O pedido de reintegração de posse expedido pela Justiça e executado nesta terça-feira poderia ter seguido o mesmo princípio do diálogo, em vez de terminar com uma desocupação arbitrária”.

Nesta quinta-feira, 19 de junho, os trabalhadores do consórcio Novo Recife estavam construindo muros e cercas de arame farpado para impedir a entrada dos manifestantes no local, que se mantinham acampados num viaduto próximo ao cais, na esperança de impedir um projeto que na visão deles será muito prejudicial à cidade. 

No Jornalismo alternativo
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A Copa dos arrependidos


Eu me arrependi. Me arrependi de não ter comprado ingressos, de não ter tirado férias, de não estar hoje em Porto Alegre e amanhã em Manaus. De não poder torcer ao vivo pelo Brasil, pela Austrália ou por Gana. Me arrependi de ter ficado de mimimi na hora errada.

Eu gosto de futebol, mas gosto de várias outras coisas muito mais do que de futebol. E uma delas é Copa do Mundo. Um não tem nada a ver com o outro, ainda que tenha tudo a ver. Cada uma delas marca a gente de um jeito diferente.

Me lembro onde estava em todos os anos desde 1982, quando o Brasil foi desclassificado e meu pai levou meu irmão e eu para tomar um sorvete e esfriar os ânimos. Os ânimos dele. Eu ainda não entendia muito bem a dimensão de tudo aquilo, mas ainda lembro da cara de desconsolo do velho e do silêncio sepulcral da cidade. Acho que foi quando eu descobri o que era decepção. Foi a Copa do sorvete.

Teve um ano, que a gente se reunia na chácara de uns amigos para fazer churrasco e ver todos os jogos do Brasil. Não lembro da escalação, nem quem ganhou a Copa, mas lembro do Ricardo, um menino de franja caída sobre os olhos, por quem eu era apaixonada, que chegava sempre chapado num Fiat 147 rebaixado. Ele mal olhava para mim, mas eu só tinha olhos para ele. Foi a Copa do Ricardo.

Em 1998, eu estudava no Canadá. Já no primeiro jogo, descobrimos em Little Portugal um bar sintonizado no jogo. Encheu de brasileiro, ganhamos sei lá contra quem, fechamos a rua, teve Carnaval, a polícia não entendeu nada. No segundo jogo, o esperto do portuga, dono do bar, conseguiu transmissão da Globo e passou a cobrar 10 doletas de entrada. Entupia. Perdemos na final, a rua lotada de brasileiros e gringos na maior festa. Os policiais não se conformavam: haven't you lost the game? Foi a Copa do Galvão.

O ano do Japão e da Coreia do Sul eu não esqueço, pelo menos do perrengue. Colocava o despertador para acordar de madrugada e ir para a sala enrolada num cobertor. Ouvia os gritos nos prédios ao lado, as luzes acendiam. O Brasil ganhava, ninguém mais dormia e eu morria de arrependimento de não estar no bar mesmo com frio e com sono. Mas o que eu me lembro mesmo foi que me reuni com um turma para tomar café da manhã e ver a final. A gente ganhou, mas ver jogo de madrugada é muito chulé. Foi a Copa do #nãovaitercerveja.

Então, chega o ano em que a Copa é no Brasil. Sempre quis uma Copa no Brasil. Vou tirar férias, passar o mês viajando pelo país, assistir a todos os jogos possíveis, fazer festa na rua, me embebedar abraçada com gente desconhecida.
Broxei junto com o clima anti-copa e não fiz nada para participar dela.

Ela chegou e eu fiquei de fora. Engrossei a massa dos sem-ingresso. Também quero cantar o hino à capela, quero ir na FIFA Fun Fest, quero beber na Vila Madalena até de manhã com gente feliz e estrangeira. Quero esquecer até 13 de julho que tudo foi feito errado.

Ontem, quando ficava pronta para ir ao trabalho, um amigo me ofereceu ingressos para ver a Espanha ser despachada de volta pra casa. Sem condição. Tinha que bater ponto em Curicica. Assisti ao jogo pela TV. Continuo em último no bolão. Mas tenho me divertido mesmo à distância como nunca em todos os mundiais da minha vida com tudo que leio, vejo e ouço. Eita, povo criativo. Eita, povo emocionante.

Ainda tenho esperança de emplacar um jogo ao vivo e fazer num dia só o que planejei para o mês todo. Tem gente que está preocupado se o Brasil vai ganhar, eu só quero me divertir. Está sendo a Copa das Copas.

Mariliz Pereira Jorge, formada em comunicação social, tem pós-graduação em relações internacionais, curso de marketing estratégico e especialização em nutrição e aromaterapia. Já trabalhou na Folha e escreveu para as revistas 'Veja', 'Men's Health' , 'VIP' e 'Boa Forma', entre outras. Atualmente, é editora do 'Encontro com Fátima Bernardes', da TV Globo.
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Mudança no perfil do telespectador e mudança de canal


O perfil do telespectador brasileiro está mudando e suas escolhas também. Nas duas últimas Copas, a Globo, que sempre contou com a hegemonia da audiência, perdeu quase metade de seus telespectadores. No jogo de abertura da Copa de 2006, na Alemanha, a audiência da vênus platinada foi de 65,7 pontos. No primeiro jogo da Copa de 2010, na África do Sul, caiu para 45,2 pontos. Já na estreia do Brasil na Copa deste ano, a audiência da Globo foi de 37,5 pontos, de acordo com a coluna Outro Canal, da Folha de S. Paulo, baseada em dados do Ibope.

De acordo com dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), nos últimos quatro anos, cerca de 30 milhões de brasileiros passaram a ter acesso a canais pagos. Com o aumento de ofertas, a audiência da Copa nas TVs por assinatura triplicou neste ano em relação ao mundial da África do Sul, em 2010.

O fenômeno é reflexo da melhor distribuição de renda no país, que pulveriza os recursos financeiros e permite a inclusão social e aumento do consumo, o que tem permitido a mudança da conhecida pirâmide social que mantinha um grande número de excluídos em baixo e, em cima, um ínfimo grupo de privilegiados.

Ainda assim, a grande maioria ainda assiste os jogos da Copa pela TV aberta. As alternativas são Globo e Band. No entanto, ter alternativas permitiu que o número de telespectadores ligados nas TVs abertas caísse quando se compara a Copa de 2010 com a atual: a proporção em 2010 era de 7,5 telespectadores das TVs abertas para cada um das TVs por assinatura; hoje são 6,8 das TVs abertas contra um das pagas.
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Los Angeles Times tira o sarro da revista Veja


A teoria da conspiração do colunista Rodrigo Constantino, da revista Veja, sobre o “2014” em cor vermelha no logo da Copa do Mundo ser uma propaganda subliminar em pleno ano eleitoral pode ter sido considerada uma genial sacada por muitos dos leitores do autor, na rede, no entanto, o texto virou motivo de discussão e Constantino virou piada.

O correspondente do periódico Los Angeles Times, Vincent Bevins, leu o texto “O logo vermelho da Copa”, e postou em seu Twitter: “Oh Deus. Colunista brasileiro defendendo que o vermelho 2014 na logo da Copa do Mundo é obviamente uma propaganda socialista”.

Não demorou muito para que seus seguidores caíssem na risada e sugerissem que a Coca-Cola também deve ser socialista.

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“A única resposta possível para isso é….”

"Quase certo que a Coca Cola seja socialista raivosa também"

“Quase certo que a Coca Cola seja socialista raivosa também”

Ao passo que um dos seguidores tentou argumentar que o Brasil, sendo governado pelo PT vermelho, deve ter tido alguma influência na escolha, Bevins aponta que o colunista da Veja deveria ter no mínimo consultado o Google para saber quem de fato fez a criação do logo antes de escrever um texto inflamatório.

logo copaO logo em verde, amarelo e o subliminar vermelho foi criado pela agência de publicidade África – que concorreu com outros cinco logos também criados por agências. Segundo a “Gazeta Press”, o logo foi escolhido por uma equipe de notáveis formada pelo presidente do Comitê Organizador Local da Copa (COL), Ricardo Teixeira, o secretário da Fifa, Jerome Valcke, Oscar Niemeyer, Paulo Coelho, Ivete Sangalo, Gisele Bündchen e Hans Donner

Como apontou o site Muda Mais, provavelmente a maior má impressão que ficará para a imprensa estrangeira nessa Copa, será a “duvidosa” linha editorial de alguns dos periódicos brasileiros.

No Fórum
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Nota de Repúdio ao colunista Reinaldo Azevedo


A Associação Paulista do Ministério Público (APMP), entidade que representa Promotores e Procuradores de Justiça do Estado de São Paulo, da ativa e aposentados, vem a público refutar e repudiar as declarações feitas pelo colunista Reinaldo Azevedo nesta quarta-feira, 18/06/2014, em seu blog hospedado no site da revista Veja, contra o Promotor de Justiça José Carlos de Freitas e o Ministério Público do Estado de São Paulo.

O direito à livre imprensa é fundamental no estado democrático de direito. A divergência de opinião, saudável e necessária. Por acreditar nisso, o Ministério Público, em São Paulo e em todo o país, sempre lutou por essas garantias. E foi exatamente pelo seu papel de relevância na redemocratização do país, na elaboração de nossa Constituição e na defesa da cidadania que jornalistas como Reinaldo Azevedo têm, hoje, direito e espaço para opinar.

Porém, nada autoriza a veiculação de agressões e ofensas gratuitas, e pior, com acusações infundadas e injustas. Não se pode tratar um agente público, que trabalha pela e para a população, de tal maneira. Não se podem permitir ataques baixos e grosseiros contra uma das instituições mais respeitadas de São Paulo e do Brasil. E, particularmente, contra um colega Promotor de Justiça cuja conduta prima pela seriedade, responsabilidade e qualidade do trabalho desenvolvido.

Por tudo isso, a APMP avaliza e defende a atuação do Promotor de Justiça José Carlos de Freitas e condena com veemência a postura lamentável do colunista Reinaldo Azevedo com relação ao colega e ao Ministério Público.

São Paulo, 10 de janeiro de 2014.

Diretoria da Associação Paulista do Ministério Público
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Contem outra

Em 1998, uma cara colega que achava que tudo era ironia nessa história do jornalista que confundiu Felipão com um sósia — e, ainda pior, também o “Neymar” na poltrona próxima… — mais se divertia com Paris que com a Copa que, a princípio, estava escalada para cobrir para mostrar o “outro lado” do Mundial. Sim, ela podia não ver alguns jogos. Mas não deixar de ver quase todos como fez. Como outro caro colega que adorava dizer que não via jogos ruins da Copa. Justamente os que são mais Copa. Justamente os que o levaram a ser pago para executar a função. E com o privilégio que muita gente pagaria para fazer enquanto ele dormia no Mundial.

A cara colega tinha como fazer o que escrevia do Leblon, do Barra Shopping, da estátua do Borga Gato, sei lá eu. Mas ela fazia o seu bom serviço ocupando lugares que seriam de jornalistas esportivos. Essa gente menor e limitada. Alienada. Essa subespécie da imprensa.Esse pessoal da editoria do esporte que não sabe qual é a capa da Época. Da Veja. Da Isto é. Da GQ. Essas revistas de pouca circulação que se confundiram e postaram também capas e reportagens com sósias do Felipão e do Neymar que trabalham no Zorra Total.

Não conheço jornalista esportivo que tenha confundido ministro com sósia.

Mas conheço muito colunista premiado por chefia padrão Fifa que ganha credencial de Copa como se fosse promoção de patrocinador da entidade. Do tipo:

— Escreva mal do governo (qualquer um) por 4 anos e ganhe um mês no centro de imprensa da Copa do Mundo! Não requer prática nem habilidade! Chupe algum artigo do El País, cite Eduardo Galeano, escreva sobre um bistrô fantástico que você foi com alguns jornalistas da antiga até de madrugada, e esteja na final da Copa do mundo vendo o jogo. Se o Brasil perder, diga que torce pelo Barcelona e que perdeu o encanto com o futebol no Sarriá; se o Brasil for hexa, diga que isso não pode jamais reeleger a Dilma.

É isso. É simples.

Tão fácil quanto imaginar que Neymar seria um pouco mais assediado se realmente estivesse no voo, e não o sósia do Zorra Total (?!).

Tão fácil quanto imaginar que o treinador da Seleção não falaria o que falou a um desconhecido que o desconhecia além do aceitável para qualquer jornalista. Para não dizer para qualquer brasileiro.

Mas, isso, só os limitados jornalistas esportivos sabem. Os doutos colegas-doutores que vão dar um outro enfoque na cobertura esportiva jamais seriam tão focas de publicar uma entrevista com sósia de treinador pentacampeão flanando de avião pelo pais da Copa.

Um culto e letrado colega que tudo sabe dos bastidores da notícia não erraria jamais! Onde já se leu?!!!

Ele, como outros, abusaria da ironia. Sentado numa posição de jornalista em estádio da Copa escrevendo a respeito da mensagem subliminar comunista da bola vermelha da bandeira do Japão… Ou qualquer outra constatação intestina constantina.

Foram os fatos que desandaram. Não a versão publicada no jornal e sumida na internet.

Afinal, é mais fácil nessa condição profissional do nobre colega saber quem é sócio do patrão que reconhecer um sósia do Felipão.

Conte outra.

Nós, limitados jornalistas esportivos, vamos continuar contando nossas tacanhas historinhas.

Nos vemos na Rússia 2018, colegas colunistas.

Ou, provavelmente, não.

Lá só vai colunista para fazer paralelo com a Revolução de 17, Glasnost, queda da URSS, Putin.

É muito areia pro nosso aviãozinho da Ponte Aérea.

Mauro Beting
No Lancenet
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Crise nas arquibancadas: A torcida alheia é melhor que a nossa?


O Brasil vive uma crise na Copa. Uma crise da qual não ser quer falar, por ser politicamente incorreto. Afinal, mesmo que indiretamente, representa uma crítica a outros brasileiros.

Não estávamos lá, mas uma boa parte dos jornalistas presentes a Brasil x México, em Fortaleza, considera que a torcida mexicana ganhou o duelo.

Por que?

Não sabemos. Podemos apenas aventar algumas hipóteses. Tivemos a sorte de testemunhar os dois jogos da Colômbia até agora nesta Copa. Uma em Belo Horizonte, outra em Brasília. Em ambas, a torcida colombiana fez o papel de décimo terceiro jogador, incentivando o time com o grito de “ole, ole, ole, ole, ole, ola, hoy mi Colombia va ganar”. É a chamada “febre amarela”.

Enquanto o refrão dos colombianos diz respeito diretamente à seleção, o mais conhecido dos brasileiros diz respeito a eles próprios, torcedores: “Eu, sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”.

Ou seja, é um agrado ao próprio umbigo, de uma torcida que parece mais preocupada em postar “selfies” no Facebook e não entende a dinâmica do jogo.

No mesmo Facebook, um leitor chegou a propor uma ideia radical:
Mauro Moreira
Sem falar dos lugares vazios, ingressos destinados a patrocinadores que não foram usados, etc. Se EU fosse a DILMA, já coordenava com o Ministério dos Esportes, Comitê Organizador e FIFA uma solução. Que tal após o inicio de um partida, permitir a entrada nos estádios de uma quantidade X de torcedores? Poderia se articular com comunidades carentes, fazendo uma cadastro reserva, etc.
Essa sugestão foi feita depois de eu, Azenha, na brincadeira, sugerir que se convocasse urgentemente a torcida do Flamengo, com o que eu quis dizer convocar “o povo” a torcer pelo Brasil. Torcedores que saibam puxar coros e inventar refrões, como a torcida do Flamengo e de tantos outros clubes brasileiros.

Numa pesquisa não científica feita em três partidas da Copa, constatei que a grande maioria dos brasileiros presentes não é frequentadora de estádios e mal sabe torcer.

Tratamos disso em um capítulo do livro O Lado Sujo do Futebol: a privataria vai afastar os pobres do estádio, aqueles que realmente se importam com o destino de seus clubes de futebol.

Esta reportagem da Folha de S. Paulo dá uma ideia do que pode vir a prejudicar o Brasil nas próximas partidas:


ELIANE BRUM
ENVIADA ESPECIAL A FORTALEZA
17/06/2014 18h23

“Você viu o corredor?”, pergunta Michele Sancho, 28 anos, professora universitária. “Me senti muito mal.”

Michele se referia ao longo corredor por onde ela e a família, junto com outros milhares de torcedores, passaram para entrar no Castelão, em Fortaleza, para assistir ao Brasil jogar contra o México. Mais de uma centena de metros em linha reta, atravessando a comunidade pobre que se debruçava sobre a grade na tentativa de vender alguma coisa ou só “ver como as pessoas se vestem”. Michele escreve uma dissertação de mestrado sobre o “Conceito Constitucional da Dignidade Coletiva”. “Vi minha dissertação ir embora ao passar por aquele corredor.”

A cena era impressionante — pelo menos para quem se impressiona. Uma passarela em que torcedores, a maioria brancos, desfila sua felicidade rumo ao estádio, enquanto os pobres, a maioria pretos e pardos, se debruçam para vê-los passar. Há quem se constranja, como Michele e a família, assumindo-se como “elite”. “Uma situação como essa estimula a raiva e o ódio”, diz Marcos Sancho, 62 anos, administrador de empresas. “Napoleão já dizia que, se não fosse a religião, os pobres tinham devorado os ricos.”

Há os que recusam a classificação. “Não pode dizer que todo mundo aqui dentro é filhinho de papai. Tem gente que trabalha dentro do estádio, não fica esperando o governo”, pontifica Victor Hugo Batista de Araújo, 33 anos, “dono de imobiliária, mas comecei como corretor”. Ele faz questão de dizer que foi um dos que xingou Dilma no Itaquerão. “Gritei porque não gosto dela e tem de ser agressivo mesmo.”

Poucas vezes o lado de dentro foi tão imageticamente dentro. Ao ouvir a opinião de Araújo, o advogado paulistano Marco Aurélio Purini aborda a repórter. “Eu penso totalmente diferente dele, quer ouvir? Vim para cá de táxi e o taxista, que mora aqui perto do estádio, disse que queria muito poder entrar. Eu entrei, ele não. Passei por esse corredor inteiro pensando que toda a população brasileira queria estar aqui, mas só eu e muito poucos conseguem entrar. O Castelão reflete o Brasil: uma arena moderna, de última geração, convivendo com uma das partes mais pobres de Fortaleza.”

Do lado de fora, dessa vez explicitamente fora, Jurandir Fernandes da Silva, 45 anos, decorador de gesso, assiste ao desfile com os amigos. “A gente fica triste de mais uma vez ficar de fora, mas a vida toda foi assim, não podemos fazer nada. Só ver eles entrar e sair.” E ele vê, com os amigos, como se estivesse diante de um programa de TV, conformado com o lugar de plateia. Alguns metros antes dele, Robson Tavares Galvão, 32 anos, motoboy desempregado, tenta vender latinhas de cerveja. “Não adianta protestar por ficar sempre do lado de fora. Isso é reserva de classe social.”

O cozinheiro Antonio Erlir Paiva, 33 anos, levou três dos quatro filhos para assistir ao desfile dos torcedores. “Esses são meus filhos”, apresenta, orgulhoso da lindeza de seus meninos. Maria Suiane, de sete, Antonio Alisson, de seis, e Maria Iasmin, de dez, botaram roupa bonita e até maquiagem Iasmin fez. “O Brasil ainda não está no ponto de ser todo mundo igual, mas a gente fica satisfeito só de olhar, ver como as pessoas se vestem”, ele diz. “Tou esperando minha patroa passar. Ela sempre passa por aqui e ontem me ligou dizendo que conseguiu ingresso. Eu gosto de ver ela passar.”

Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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Chance perdida

Aécio e Eduardo ganhariam ao verberar as manifestações da tribuna vip do Itaquerão. Mas quem odeia quem?

Aécio Neves e Eduardo Campos perderam uma oportunidade de puro diamante para mostrar maturidade política, elegância e até mesmo astúcia. Senhoras e senhores da tribuna vip do Itaquerão, na estreia da Seleção Canarinho, primeiro dia da Copa, encenaram um espetáculo que envergonha o Brasil diante do mundo. Quase todos ali são, obviamente, eleitores dos candidatos da oposição, e estes desperdiçaram a chance de condenar o clamoroso, selvagem desrespeito a quem chefia o Estado e o governo.

O pior calão atirado pelos burguesotes chamados a engalanar a festa não surpreende. A dita elite brasileira em boa parte é primária e feroz, prepotente e vulgar, arrogante e ignorante. Muito ignorante. No fundo, a tribuna vip funcionava no Itaquerão como o alpendre da casa-grande. Creio que aquela manifestação, tão reveladora dos comportamentos de quantos ostentam as grifes e acreditam viver em Dubai, não favoreça as candidaturas da oposição, ao acentuar as diferenças e precipitar a polarização. Mas onde estavam os marqueteiros?

Cabia, no meu entendimento, a reação ponderada e imediata de Aécio e Eduardo, prontos a defender a sadia ideia de que a Presidência da República faz jus ao respeito devido ao cargo, acima do acirramento do confronto eleitoral. Aécio, depois de ter declarado que o ocorrido exibia a impopularidade da presidenta, voltou atrás nas redes sociais para uma crítica morna e tardia. No entanto, a disputa torna-se mais agressiva, com a contribuição useira da mídia. Quem odeia quem? Segundo a tese em voga na área da reação, o PT se esforça, com raro brilho e denodo vitorioso, para ser odiado. E ganha as manchetes a polêmica entre Fernando Henrique e Lula, com réplica, tréplica e não sei mais o quê.

É oportuno registrar algumas verdades factuais, do conhecimento até do mundo mineral, embora não haja como acusar a carência de cavernícolas da Idade da Pedra. Então, vejamos.

A mídia nativa sempre e sistematicamente combateu o PT, nascido da reforma partidária imposta pela ditadura no final de 1979. O partido era apresentado como de esquerda revolucionária, conquanto viesse a sofrer alterações de rota ao longo do caminho. O jornalismo pátrio sempre postou-se contra candidaturas petistas onde quer que aparecessem, a começar por aquela de Lula contra Collor, Fernando Henrique, José Serra e Geraldo Alckmin, e de Dilma Rousseff, novamente contra Serra. E mesmo os meteoritos sabem que a mídia distorce, manipula, inventa, omite e mente para desancar o inimigo.

Ao iniciar a tal polêmica, FHC falou em corrupção e ladrões, e me apresso a garantir que as falésias de Dover, elas inclusive, entenderam que se referia ao PT. Donde, a reação de Lula, inegavelmente alguém que põe medo à direita e tem, ao contrário de FHC, apurado senso de humor. Esqueceu-se o tucano, de todo modo, de alguns fatos a macular seu governo. A compra dos votos para conseguir a reeleição, obtida finalmente ao sabor de uma campanha conduzida à sombra da bandeira da estabilidade, rasgada 12 dias depois de reempossado, com o resultado de quebrar o País. Mas a maior bandalheira-roubalheira da história brasileira deu-se com a privatização das comunicações, largamente demonstrada pelos grampos das conversas entre os rapazes do bando, Luiz Carlos Mendonça de Barros, André Lara Resende e Pérsio Arida, cujas passagens mais candentes foram publicadas por CartaCapital, enquanto Época e Veja saíram com as versões corrigidas pelo governo, simpaticamente entregues à Globo por José Serra e à Abril por Eduardo Jorge.

Sim, o PT no poder portou-se como aqueles que o precederam e o próprio Lula reconheceu na entrevista publicada pela edição 802 de CartaCapital. “O PT erra — disse Lula textualmente — quando usa as mesmas práticas dos demais partidos.” Vale acrescentar que o caminho dos chamados “mensalões” foi aberto pelo tucanato ainda no século passado.

Fala-se em ódio contra Lula, Dilma e o partido. Mas como negá-lo? Tentem ouvir os privilegiados do Brasil e seus aspirantes e verifiquem que os graúdos do Itaquerão os representam à perfeição. E de ódio se trata, semeado e regado em primeiro lugar pela mídia. Há quem alegue ódio de classe e aqui me pergunto se a definição é justa. Não sei, sinceramente. Ódio de classe se espalha depois da Revolução Francesa, evento decisivo que até hoje não ocorreu no Brasil. Envolve burguesia, pequena burguesia e proletariado. Aqui ainda vivemos a dicotomia nefanda da casa-grande e da senzala, e os senhores odeiam quem acena com mudanças. Sustentar que o PT faz de tudo para ser odiado é igual a dizer que assim também agiam os judeus dos guetos.

Aliás, Aécio Neves anuncia um tsunami para varrer o PT da face da terra. Em qual país democrático e civilizado frase similar cairia da boca de um candidato ao se referir ao adversário? Algo é certo: o tsunami não partirá da tribuna vip do Itaquerão. A tigrada, além de tudo, é velhaca.

Mino Carta
No CartaCapital
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Algumas considerações sobre a Copa e a “grande” mídia brasileira.


Em entrevista aos blogueiros, no dia 08 de abril, Lula afirmou que imaginou a Copa como um “encontro de civilizações” e que queria mostrar o Brasil ao mundo, como nós somos, com nossas qualidades e nossos problemas.

Eu prefiro falar em encontro de culturas, nesse mundo tão misturado do século XXI, mas não é mesmo isso o que está acontecendo?

Disse o Lula: “A Copa do Mundo aqui no Brasil é um encontro de civilizações causado pelo esporte. É mais do que dinheiro. São milhares e milhares de pessoas que vêm pra cá pra conhecer esse país, pra comer a comida desse país, pra ver a gente desse país do jeito que ela é. Ninguém vai esconder ninguém, mas vai permitir que ele tome um banho em Copacabana, que ele coma um frango preguento no Xapuri, lá em Minas Gerais; que ele possa ir na Dona Lucinha comer uma galinha com quiabo e saber o que nós comemos”.

Ele gosta mesmo da comidinha nossa de Minas, saborosa como ela só!!!”

Todos nós sabemos que os preparativos para a Copa foram muito complicados, com atrasos não só nos estádios mas em grande parte das obras, senão na maioria.

Isso é inegável e era obrigação da mídia tratar desses problemas. Sem esquecer as mortes e ferimentos em trabalhadores das obras, em razão de falhas na segurança.

Mas me parece também inegável concluir que, pelo menos por enquanto, com apenas 6 dias do início da Copa, os problemas de organização são pequenos diante do sucesso que o evento tem tido, com um fluxo de 3,7 milhões de visitantes para as 12 cidades sede, incluindo 600 mil turistas estrangeiros, segundo dados do Ministério do Turismo.

É claro que não estou ignorando os abusos das PMs, que ainda não aprenderam a tratar manifestantes com civilidade e os que depredam, apenas com a lei. E, também, não estou ignorando os desmandos e o autoritarismo da FIFA e da CBF.

De todo modo, fico com a clara sensação de que a “grande” mídia quis, por interesses políticos (ou seja, para desestabilizar o governo Dilma), exacerbar o clima anti-Copa e o mau-humor. Uma mídia que, para desgastar o governo liderado pelo PT e favorecer a oposição, parece sempre torcer contra o Brasil, seja contra o sucesso da Copa ou contra a Petrobras. Uma mídia que só destaca os problemas e quase nunca reconhece os avanços.

Creio que é inevitável ficar com essa sensação. Que, na verdade, não é uma simples sensação!!! Parece-me um fato.

Temos uma mídia que ficou numa espécie de “síndrome bipolar”: não queria falar bem da Copa para detonar o governo Dilma e fazer o jogo da oposição, mas, ao mesmo tempo, precisa da Copa desesperadamente, para manter a audiência, alavancar seus negócios e pagar suas contas.

É possível mesmo imaginar que, sem a campanha “do contra” dessa mídia que se diz “isenta”, mas é terrivelmente manipuladora, o número de turistas fosse ainda maior.

Conforme afirma o Fernando Brito, do Tijolaço, “imagina sem mídia” contra!

Espero, sinceramente, que tudo continue bem e que fique ainda melhor!!!

E, claro, que a seleção brasileira conquiste o Hexa!!!

Não sou ufanista, mas que o Hexa seria ótimo, isso seria!!!

Afinal, em nome de quê tirar do povo essa alegria? Ou alguém ainda acha que as pessoas se esquecem dos seus problemas porque o país pode ganhar, pela sexta vez, a Copa do Mundo de Futebol? E mais, seria a primeira vez em casa, no Maracanã, depois da frustração de 1950.

Kátia Gerab Baggio, professora associada de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
No Viomundo
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Grandes entrevistas de Mario Sergio Conti

Felipão
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Jô Soares
Jesus Cristo
Elvis Presley

No SQN

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Porque xingaram a Dilma?

A vaia que o Presidente Getúlio Vargas recebeu no Jóquei Clube de São Paulo em agosto de 1954 foi apenas o sintoma de um descontentamento. Naquele mês Vargas entrava no seu inferno astral. O seu ex-ministro do Trabalho, João Goulart, havia se demitido após elevar em 100% o salário-mínimo numa estratégia combinada com Vargas. O atentado da Rua Tonelero contra o jornalista Carlos Lacerda (da UDN, na época) iria desencadear uma espiral golpista que somente seria refreada com o corpo do Presidente, sacrificado em benefício de seu projeto nacionalista e social. O Estado de São Paulo — a “locomotiva” do Brasil, como se considerava — há mais de um ano alijado do processo decisório central, perdida a hegemonia que mantivera na Primeira República pela política do café-com-leite. O descontentamento era, assim, regional e de classe. São Paulo representava, em agosto de 1954, não somente o núcleo da ofensiva contra o governo Vargas, mas a sua classe dominante sentia-se fortemente ameaçada pelo processo de regulação da atividade produtiva, expresso pelo controle da inflação e pelos direitos sociais e trabalhistas.

Vargas, diante das vaias, se fez de desentendido.

Em 2014, o cenário aparenta semelhança. No final de seu primeiro mandato, respaldada por doze anos dos governos do PT, a Presidente Dilma Rousseff inaugura a maior e — já hoje, em seu sexto dia — uma das mais festejadas Copas do Mundo de Futebol. Os ataques ao seu governo se intensificaram. Um ódio virulento ao PT tem sido estimulado pelos veículos da grande imprensa e está disseminado nas redes sociais, embora não tenha acontecido nenhum evento parecido com o atentado da Tonelero, que pôs a termo o governo Vargas. A Presidente reagiu positivamente aos protestos de junho de 2013 — em especial, com a proposta de plebiscito e de reforma política — e seus opositores, apesar do ódio, caem de maduros mesmo, sem maiores surpresas.

Assim, num dos estádios construídos por conta da Copa, e em São Paulo — que mais uma vez é o reduto da oposição —, as vaias de outrora se transformam hoje em xingamento de baixo calão. A qualidade do público é facilmente identificada: a dita “elite”, seja por nome próprio, filiação empresarial ou preço do ingresso. E por que quem já é favorecido pela lex mercatoria ou mesmo quem tira vantagem da volatilidade especulativa, parece não ter o que comemorar? Não seriam estes os mais recentes privilegiados pelo governo? Talvez o problema seja mais embaixo.

Disputam hoje o acesso a bens e direitos classes sociais cujas origens são bastante distintas. Uns são filhos e netos de um extrato médio mais “tradicional”, desde sempre almejando mais status. Na história recente do país foi dali que veio o apoio ao golpe em 1964, por exemplo. Ciosos de suas origens e desejosos de sucesso, não suportam compartilhar o bônus com seus novos companheiros de faixa social. Estes, a “nova” classe média, emergiram em um surpreendente pouco tempo de políticas de crédito e pleno emprego e “invadiram” um espaço antes considerado “exclusivo”. Querem mais do que já possuem e não têm medo de usar o que têm.

E isto choca os filhos da tradição.

O xingamento localizado na área vip não é somente contra a Presidente. Também não é contra a Copa do Mundo (todos estavam na estréia da Copa para torcer, imagina-se). É um xingamento que destila uma questão mais profunda: talvez porque este governo represente uma movimentação sensível no cotidiano e na vida social dos que sempre se sentiram de alguma forma privilegiados, embora talvez não sejam tão vip’s assim. Antes, estes olhavam para cima, para as verdadeiras elites econômicas, e almejavam ser parte das mesmas – se não de fato, pelo menos simbolicamente, e se viam como uma incontrastável nata. Agora, olhando para baixo, não notam mais a diferença, a distância e o estranhamento de cor e de status. Vêem iguais, cada vez buscando mais igualdade. Vêem os alunos cotistas nas Universidades públicas fazendo bonito. Vêem os negros médicos cubanos dando o exemplo. Vêem os subalternos vestindo-se com as mesmas roupas e freqüentando aeroportos. Reduziram-se os “privilégios” simbólicos que marcavam uma “diferença” de classe. Confundem-se a “locomotiva” e seus vagões. Talvez, por isto, xinguem e não apenas vaiem.

A Presidente Dilma recebeu os impropérios soberana.

Diferentemente de Vargas, já acossado pela UDN — e pelos interesses golpistas, que vinham também dos EUA —, não precisou tergiversar ou fazer de conta que não era com ela. A aprovação de seu governo é alta e as intenções de voto lhe favorecem. Esses indicadores apontam que o “povo” está com ela e, numa democracia, o povo decide. A estratégia “mar de lama”, que colou em Vargas, não alcança a Presidente. Depois de xingada, pôde responder serenamente, deixando claro que não tem porque temer ou se perturbar com o episódio. Pôde, inclusive, comemorar de forma efusiva os gols da Seleção. Passadas as eleições, talvez possamos celebrar — por ora — o fim dos golpes à democracia brasileira.

O xingamento do Itaquerão entra para a história política do país como uma espécie de parábola da humildade. Os convidados, ao invés de se sentarem em seus lugares e se sentirem como iguais numa torcida de futebol, agiram de acordo com o privilégio que os permitiu acesso à abertura da Copa: numa auto-glorificação arrogante e cheia de razão, assumiram seus assentos de protagonistas e moralizadores. O resultado é que estão sendo chamados a se retirar de forma envergonhada, porque ali não mereciam estar. Demonstraram ser muito mais baixos do que aqueles que, no fundo, queriam desprezar com o destilar de seu ódio. E mais: o fracasso do “não vai ter copa” comprova-se à larga não só pelo acontecimento em si, mas pelo novo brado da oposição: “não vai ter Olimpíadas”. Seria triste se não fosse cômico. Como consequência, é esta oposição que se encontra, agora, em seu inferno astral.


Rogerio Dultra dos Santos, Doutor em Ciência Política pelo antigo IUPERJ e Professor de Teoria do Direito e Teoria da Constituição da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense.
No Carta Maior
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Entrevista com sósias de “Reinaldo Azevedo” e “Eliane Cantanhede” ou vice-versa.


Não é prerrogativa de Mario Sérgio Conti, jornalista da Folha e de O Globo e ex-apresentador do programa Roda Viva da TV Tucana. Este blogueiro que vos escreve também comete “barrigadas” !!!

Na tentativa de mudar de assunto (só Copa e política não dá !!!) tentei fazer um documentário em parceria com o SBT sobre a vida animal mas fomos safadamente enganados por um casal de sósias de “renomados” jornalistas da velha mídia comercial e golpista. Mesmo assim, achamos por bem publicar a “matéria” posto que nela está cientificamente explicado e revelado como se desenvolvem e proliferam as suas larvas, digo, leitores.


Ênio Barroso
No PTrem das Treze
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Para FHC, professor é 'coitado' que não conseguiu ser pesquisador

 Da série: Relembrando 

 27/11/2001 

O presidente Fernando Henrique Cardoso cometeu hoje uma gafe com os professores durante a cerimônia de entrega do prêmio nacional do Finep de inovação tecnológica.

Ao relatar sua experiência como professor no Instituto de Estudos Avançados de Princeton (EUA), FHC afirmou que os pesquisadores e bolsistas da universidade que não conseguiam produzir viravam professores.

"Se a pessoa não consegue produzir, coitado, vai ser professor. Então fica a angústia: se ele vai ter um nome na praça ou se ele vai dar aula a vida inteira e repetir o que os outros fazem", afirmou o presidente.

Ao encerrar discurso na cerimônia de entrega do Prêmio Finep de Inovação Tecnológica, FHC afirmou: "Lá (o instituto de Princeton) é um lugar de pessoas selecionadas nos Estados Unidos, de jovens PhD, os mais brilhantes — eu não era, porque eu já era professor, eu não sou brilhante, mas estava lá".

Depois de afirmar que os que não conseguem produzir vão dar aula, FHC continuou: "Aí me ensinaram uma coisa que me deixou muito atormentado a vida toda: eles [do instituto] pegam os mais jovens, porque, para poder ter capacidade de inovação, para ter criatividade, pelo menos em física teórica e matemática, tem de ser muito jovem".

Segundo o presidente, os mais velhos sabem muito, "e quem sabe muito não cria, fica com medo de criar, porque 'fulano fez isso, beltrano fez aquilo, se eu disser isso vão dizer que é ridículo'".

Para FHC, 70, o que o salva é que pertence à área de ciências humanas. "Quem sabe [nessa área] a gente possa criar até certa idade, mas depois dos 70 não tem jeito."

No fAlha
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