18 de jun de 2014

"Prefiro Miami"

Na primeira pessoa, uma sátira sobre o auto desprezo e outros infernos do mundo coxinha


Após comer uma coxinha estragada ontem à noite, acordei com os neurônios paralisados e dando razão ao pessoal anti-Copa.

Mesmo sendo um grande sucesso, essa Copa não deveria ter acontecido.

O Brasil ainda não tem Saúde e Educação de Primeiro Mundo. Portanto, não podia ter Copa. Tudo bem que os investimentos nos estádios foram 212 vezes inferiores ao que foi gasto com Saúde e Educação nos últimos 4 anos. Tudo bem que não tem dinheiro do orçamento federal nessas obras. Tudo bem que são empréstimos que terão de ser pagos por quem assumiu os estádios. Mas mesmo assim, não deveria ter havido Copa.

Não sei explicar bem o porquê. Não estou conseguindo enxergar direito qual a relação entre uma coisa e outra. Mas acordei revoltado, com vontade de xingar, como o pessoal vip do Itaquerão, e acho porque acho, e pronto!

E digo mais, tem muita coisa também que não deveria ter acontecido no Brasil.

Por exemplo, o João VI chega todo faceiro ao Brasil e, no meio daquele miserê de dar dó, resolve trazer, a peso de ouro, a Missão Francesa ao Brasil. Toda essa gastança para quê? Para implantar o neoclassicismo no Brasil. Imagina! Não tinha nem classicismo no Brasil e o pessoal gastando essa dinheirama para trazer o neoclassicismo!

O povo passando fome, sem nenhum hospital e escola, na fila do tronco, e o coitado do cidadão financiando o Grandjean de Montigny e a construção da Academia Imperial de Belas Artes, aquela frescura superfaturada. O Brasil com 99% de analfabetismo dando dinheiro para o Debret fazer aquelas gravurinhas vagabundas dele. E precisava fazer Jardim Botânico? Mato era o que não faltava no Brasil da época. Típica obra desnecessária.

E o Pedro II, hein? Em 1884, com o Brasil com 98% de analfabetos, com gente morrendo aos montes de febre amarela no Rio de Janeiro, o imperador me inaugura uma ferrovia caríssima que vai até o alto do Corcovado. Para quê, meu Deus? Nem Deus explica, porque o Cristo nem estava lá, ainda. Só chegou em 1931. Sabem o que havia lá encima? O tal do Chapéu do Sol, um mirante para o pessoal fazer piquenique. Não tinha Educação e Saúde e o pessoal fazendo piquenique e pensando em turismo. Até um hotel fizeram lá nas Paineiras.

E precisava botar o Cristo lá no alto? Deus é omnipresente, já estava por lá desde a eternidade. Outra obra claramente desnecessária. Tudo bem que o Cristo foi construído com dinheiro quase todo oriundo de doações. Mas com todo aquele concreto e aquela grana bem que podiam ter feito umas casas populares. Sei lá, um programa tipo Santa Casa, Santa Vida.

Fico possesso quando penso no Maracanã. Em 1950, o Brasil tinha mais de 70% de analfabetos, só uma meia dúzia de universidades, doenças e misérias sem fim e, mesmo assim, resolveram fazer uma Copa por aqui. Mas não resolveram apenas fazer uma Copa. Não! Resolveram fazer também um estádio novinho em folha. E não foi um estádio modesto, não. Os caras simplesmente resolveram fazer o maior estádio do mundo. Carlos Lacerda, o avô dos anti-Copa, bem que advertiu contra esse gasto absurdo, contra essa megalomania tupiniquim. Mas o pessoal fez assim mesmo e o Maracanã acabou virando um “templo do futebol mundial”. Frescura! Sempre fico pensando que, com aquele concreto todo, dava para construir uma gigantesca prisão e botar todos os mendigos do Brasil lá dentro, ao invés de jogá-los no rio Guandú, como Carlos Lacerda fez. Essa sim teria sido uma grande e útil obra!

Fico mais possesso ainda quando penso no Juscelino. O pessoal de hoje fica falando da Dilma, mas o Juscelino era muito pior. Estivesse ele na ala vip do Itaquerão, teria sido esquartejado. Imaginem só, o Brasil com mais da metade da população na miséria e no analfabetismo, sem Bolsa Família, sem Brasil Carinhoso, sem Prouni, sem Reuni, sem Fies, sem Ciência sem Fronteiras, sem Mais Médicos, sem Minha Casa, Minha Vida, sem Transposição do São Francisco, sem qualquer coisa, e o sujeito me resolve construir uma cidade inteira no meio do nada! E ainda ficou justificando que era para “levar o desenvolvimento para o interior”. Ora, era muito mais fácil e barato botar a capital em Juiz de Fora, que fica bem mais perto do Rio e já estava pronta. Estava tudo resolvido. O Aécio não é senador por Minas e não vive no Rio? Então?

Agora, eu fico apoplético é com a origem de tudo isso, de toda essa cultura da gastança desnecessária. A Coroa portuguesa, essa devassa. Portugal, na transição do século XV para século XVI, cheio de miseráveis, com 99,999% de analfabetos, até peste bubônica tinha, e os gajos me resolvem jogar dinheiro e recursos fora com os tais dos “descobrimentos”. Era um tal de mandar o Fernão de Magalhães para lá, o Vasco da Gama para acolá, o Pedro Álvares Cabral para cá. Era uma farra só. Com dobrões públicos!

E o pior é que os caras nem sabiam direito para onde iam! Quando perguntados, diziam com um sorriso cínico: estou a procurar terras desconhecidas a serviço de Sua Majestade. Diziam que queriam achar “uma nova rota para as Índias”. Ora, se já existia uma para que queriam outra? Só para jogar dinheiro fora. Picaretas! Além de gastar inutilmente os parcos recursos do país, ainda arriscavam a vida das pessoas, pois todo o mundo sabe que, naquela época, a Terra era plana, e chegando-se aos seus confins, as naus caíam todas num abismo sem fim. Irresponsáveis!

Ainda tiveram o topete de contratar o tal do Camões para fazer o marketing dessa picaretagem toda. Igualzinho aos “blogs sujos” de hoje!

Razão tinha o Velho do Restelo, que avisou que nada disso ia dar certo.

Alguém pode até argumentar que, sem isso, o próprio Brasil não teria acontecido. Pode ser. Mas eu sou anti-Copa e, como todo anti-Copa, eu nem gosto desse nosso país fútil e gastador. Prefiro Miami.

Marceloi Zero, formado em Ciencias Sociais pela UnB e assessor legislativo do Partido dos Trabalhadores
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Aliado de Aécio Neves é preso por porte ilegal de arma

A imprensa mineira evita, inclusive, citar seu partido. É aecista de carteirinha! Acostumados à impunidade. Em 2006 foi apreendida em seu comitê eleitoral enorme quantidade de dinheiro trocado, no dia da eleição. E até hoje ele tá impune!


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Em clima de Copa

Profetas do caos perderam mais uma vez e só vira-latas não podem comemorar

A Copa do Mundo não completou uma semana e já é possível perceber um novo fiasco hlstórico dos profetas do caos. Os aeroportos não ficaram um inferno nem os vôos atrasaram — na média, o número de atrasos e cancelamentos é um dos melhores do mundo.

Os estádios estão aí, alegrando visitantes e torcedores. Os números de gols mostram matematicamente que esta pode ser uma das melhores Copas de todos os tempos.

O trânsito não está melhor nem pior.

Os problemas reais do Brasil seguem do mesmo tamanho e aguardam solução.

Não custa lembrar, também, que nenhum país está livre de um acidente horrível nos próximos 15 minutos.

Mesmo assim, o clima do país mudou. Já consegue viver uma experiência que se anunciava como tragédia: hospedar uma Copa do Mundo.

O desagradável é que essa situação podia ser percebida em fevereiro.

Foi então que, em companhia do repórter Cláudio Dantas Sequeira, entrevistei Aldo Rebelo para a IstoÉ. Perguntamos ao ministro sobre a ameaça de caos que todos associavam a Copa. Aldo respondeu:

“A experiência mostra que em eventos desse porte há, em primeiro lugar, uma grande permuta entre viajantes e passageiros. Muita gente está chegando à cidade-sede, mas muita gente está saindo. As empresas de evento não fazem feiras nem seminários nessa época. O passageiro tradicional, que visita parente, que viaja a negócios, para ir a um museu, também não viaja.”

Antecipando uma situação que hoje se verifica em voos com menos passageiros do que se anunciava, o ministro disse: “Em Londres, durante a Olimpíada, havia menos gente na cidade durante os jogos olímpicos do que em dias normais. “

Aldo prosseguiu: “Quem não gostava de esporte não foi para Londres naquele período, mas para Budapeste, para Praga, para Madri. Já sabemos que algumas cidades brasileiras terão menos visitantes do que em outras épocas do ano. No Rio de Janeiro, não haverá o mesmo número de visitantes que a cidade recebe durante o Carnaval. Em Salvador também não.”

Em maio, em entrevista ao TV Brasil, Aldo Rebelo apresentou argumentos semelhantes. Mostrou a falácia em torno dos gastos excessivos com a Copa. Fez comparações didáticas. É um depoimento esclarecedor, que você pode ler aqui.

O espantoso é reparar que muitas pessoas trataram estes depoimentos — e outros que tinham o mesmo conteúdo — como exemplo de jornalismo sem valor, chapa-branca.

A realidade — em poucas semanas — encarregou-se de mostrar seu caráter informativo e, com perdão do autoelogio, esclarecedor.

Nélson Rodrigues diagnosticou um mal cultural do brasileiro, o complexo de vira-lata. É certo que este olhar autodepreciativo contribui para embaçar uma visão mais realista da realidade. Ainda mais quando há um interesse, nem sempre oculto, a partir de forças nem um pouco ocultas, como você sabe, de criar um ambiente de medo, desconfiança e derrota.

Mas ouso sugerir uma segunda abordagem à doença, talvez mais atual. Após anos sem tratamento adequado, sem remédios e sem terapia, os sintomas iniciais de subraça se desenvolveram e tomaram conta dos pacientes.

Eles adquiriram uma nova personalidade. Deixaram de temer as próprias fraquezas. Estão convencidos de que condição inferior é sua verdadeira natureza — o que talvez explique a cafajestada, abaixo de qualquer diagnóstico médico, na Arena Corinthiana, tratada com muita naturalidade até que a reação de homens e mulheres comprometidos com valores democráticos.

Não é difícil entender por que, até agora, não conseguem enxergar o que se passa na Copa.

Paulo Moreira Leite
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Nem Freud explica: Ronaldo perde a vergonha e agora é só alegria

Nem Freud explica.

Acredito que somente Pavlov, o psiquiatra russo (o tal dos reflexos condicionados), se vivo fosse poderia explicar a ambiguidade em que se move o ex-jogador e hoje comentarista esportivo da Globo, Ronaldo, um fenômeno.

Ora o rapaz é responsável pela Copa no Brasil e elogia a Copa e rebate os que protestavam contra a Copa.

Depois entra numa outra vibe e declara que sente vergonha do Brasil, porque nada ficou pronto e o Mundo vai falar mal de tudo na Copa.

Agora muda de vibe e declara que a Copa está linda, que tudo está indo muito bem e que só vê alegria em todos.

Entre distinguir o que é quadrado e o que é redondo a cabecinha desse fenômeno gira e se estivesse numa experiência de Pavlov ora correria para o abraço, ora correria pro choque elétrico, até ficar parado babando, confuso, e traumatizado.

Teria essa suposta "síndrome" de ambiguidade a responsável da tal crise nervosa da copa de 98?

Essa ambiguidade parece que acontece amiúde.

Aconteceu até quando teve que distinguir entre rabos de saia, e saia fora de rabudas.

Talvez essa ambiguidade o leve a ver a Brasuca ora redonda, ora quadrada.

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Alexandre Padilha: “Não me preocupo com pesquisas agora”


Aos 42 anos, o médico e ex-ministro da saúde Alexandre Padilha concorrerá ao governo do estado de São Paulo pelo PT. Quando recém formado, Padilha trabalhou na Amazônia coordenando um núcleo da USP no combate à malária e outras epidemias.

Ter vivenciado a importância do médico em comunidades isoladas foi, segundo o candidato, fundamental para poder ajudar Dilma Rousseff a implantar o programa Mais Médicos. Num café na rua Avanhandava, Padilha falou sobre suas propostas com exclusividade ao DCM.

Vamos começar abordando a ausência de Dilma no ato de confirmação de sua candidatura no último domingo. A mídia andou disseminando boatos de falta de prestígio.

O maior sinal de prestígio foi a presidenta ter cunhado o primeiro slogan dessa campanha que foi dizer que sou o ‘volume vivo’ para o estado de São Paulo. E eu na condição de médico infectologista sou o primeiro a entender o motivo pelo qual a presidenta não pode estar presente no domingo. Não esteve fisicamente mas esteve com sua mensagem muito forte que repercutiu o que nós esperávamos. E ela sabe que o maior palanque, o mais intenso na defesa da campanha da reeleição dela será o nosso.

Dilma fez essa menção com relação à crise hídrica do estado (“São Paulo não merece o volume morto e você é o volume vivo”). Como corrigir o tempo perdido do Sistema Cantareira?

Nós faremos em quatro anos as obras que eles não fizeram em dez. Minha mãe é alagoana e todos já ouvimos histórias da seca no nordeste. Todo mundo sabe que um açude no sertão não evapora em uma só temporada de seca. O Cantareira não é um açude. São seis represas interligadas, que começa na divisa de Minas Gerais e vai até a região metropolitana em Mairiporã. Novecentos mihões de metros cúbicos de água, mais de 3 vezes o que é a represa Billings, por exemplo. Ninguém pode dizer que o Cantareira secou porque faltou chuva de dezembro pra cá. O que faltaram foram as obras que desde 2004, quando houve a renovação da outorga do Cantareira, haviam sido apontadas como necessárias. Um conjunto de obras para reduzir a dependência da capital, para distribuir melhor, para fazer com que a capital tivesse outras formas de recebimento de água, para reduzir as perdas que chegam a 30% por vazamentos, para tratamento de esgoto. E nenhuma dessas obras estruturantes foi realizada.

O racionamento começou em dezembro em Campinas, em fevereiro em Guarulhos e a partir de março começou a faltar água em vários bairros da capital. Existe o racionamento na prática mas que não é assumido. Mas só essas obras não bastam. Nós iremos apostar em soluções inovadoras de gestão da água. Estimular a captação de água pluvial, estimular o reuso. Quando fui ministro da saúde coloquei como regra colocar nos hospitais públicos e privados que estavam sendo construídos, mecanismos de reuso da água e de tratamento de esgoto. Tudo para reduzir a dependência no abastecimento de água, para garantir uma gestão sustentável de um recurso que é finito. A Sabesp lucra 2 bilhões de reais e não investe em obras. É preciso que ela invista e é preciso captar recursos do governo federal. Guarulhos fez isso. Captou recursos do PAC. Tinha zero de tratamento de esgoto e hoje tem 50%.

Qual sua opinião sobre a regulamentação da mídia?

Sou defensor intransigente da liberdade de expressão, da divergência de opiniões, acho bom que se tenha uma variedade cada vez maior. E meu governo terá um papel de respeito permanente, independentemente da opinião. Conosco não terá essa coisa de coerção, de agredir jornalista. É muito importante o debate nacional sobre regulação econômica que o PT está levantando sobre isso e que será levado ao congresso nacional. É fundamental que se aprimore regras que defendam a liberdade de expressão e fortaleçam a democracia estimulando vozes discordantes.

Tanto quando fui ministro da coordenação política quanto ministro da saúde sempre alertei minha equipe de que a imprensa, os blogueiros, as redes sociais, os vários meios de comunicação e debate ajudam o governo a agir, a acelerar as opções dos programas. Essa vigilência constante é fundamental e defendo inclusive que governo de estado de São Paulo utilize seus instrumentos de financiamento, de apoio e infraestrutura para ajudar a multiplicar a produção regional de conteúdo. Sonho em ter um concurso de blogs nas escolas, por exemplo, para fomentar a diversidade de opiniões. Podemos pegar a fundação TV Cultura, a fundação Padre Anchieta e estimular isso da forma mais interativa possível, com parcerias com jornais locais para que nosso estado tenha diversidade de opiniões pelos mais variados meios de comunicação. Defendo que se use recursos do estado para instalar estudos de produção de conteúdo para internet, para o Youtube. São Paulo pode ser um grande polo de produção criativa.

No início do programa Mais Médicos, São Paulo liderou a demanda. Hoje o estado conta com 2.187 médicos da atenção básica que garantem atendimento para 7,5 milhões de paulistas resultando em uma redução de 70% no encaminhamento a hospitais. É possível melhorar?

O Mais Médicos é um grande sucesso mas ele é só um primeiro passo. Agora São Paulo precisa organizar sua rede e o governo do estado tem um papel decisivo nisso para que os exames, as cirurgias, os atendimentos médico-hospitalares aconteçam mais perto de onde as pessoas moram. A grande demanda hoje é exatamente nas filas para exames e cirurgias, e nosso programa de governo tem uma proposta muito ousada no sentido de reduzir essas filas em cada região do estado. Portanto o salto que daremos será, com a estrutura que tem o governo, chegar mais próximo das regiões mais desassistidas para reduzir essas filas. O que não pode é o governo do estado continuar com a postura que tem hoje que é de disputar com o município. O estado de São Paulo é o único da região sudeste que não coloca um real no SAMU, que fica totalmente custeado e gerenciado pelo governo federal e governos municipais. O governo atual não construiu nenhuma UPA vinte quatro horas, as únicas que temos foram construídas, equipadas e financiadas pelo governo federal.

Por falar em disputa entre governo e município, ela é muito evidente na região da Cracolândia. As operações Braços Abertos e Recomeço não estão em sintonia.

Essa cooperação entre governo do estado e município é fundamental para enfrentar o problema das drogas nas duas frentes: na do cuidado, do acolhimento para aliviar o sofrimento de quem faz uso abusivo, reconstruindo o projeto de vida da pessoa, reconstruir valores em cooperação com a sociedade civil, bem como nas ações de segurança pública, de enfrentamento ao tráfico. Eu passei pela experiência de estar com o prefeito Haddad, com o secretário de saúde, com o tenente coronel responsável pela área numa manhã participando de um seminário com todos os funcionários, num esforço de interação, e à tarde ocorreu uma ação desastrosa da polícia que nem o tenente da polícia militar sabia, deixando sitiados os profissionais, médicos, pacientes, todos sofrendo com bombas de gás lacrimogêneo, ou seja, a cooperação é fundamental.

O senhor tem dito que agirá com rigor contra o crime organizado e a impunidade, que irá sufocar o fluxo de caixa das facções, valorizar policiais e aumentar o efetivo nas ruas. O que pensa sobre a desmilitarização da PM?

Não gosto de generalizar nada. A PM tem cerca de 100 mil policiais no seu efetivo. Eu tenho tido contato e vejo policiais muito bem qualificados, bem formados e com grau grande de compromisso. O que não se pode permitir é o abuso. Quando ocorre, deve ser fortemente punido. Até hoje, qual a punicão daqueles que abusaram na ação de Pinheirinho? O que foi feito nas ações contra jornalistas ou manifestantes durante as manifestações. Todos nós sabemos que parte do estopim nas manifestações foi abuso na ação de alguns policiais. Isso não iremos deixar de averiguar, inclusive fortalecendo o papel da corregedoria que precisa ser decisiva. Hoje na periferia, pais têm medo de que seus filhos voltem a noite por conta de medo de abuso da polícia e isso precisa ser fortemente punido. Isso passa pela formação.

Eu não tenho uma proposta de acabar com as polícias do jeito que são hoje, nem unificar. A constituição estadual de São Paulo estabeleceu três perfis de polícia: militar, civil e científica. Não entendo que se deve unifica-las mas devemos ter maior integração. Integração já na formação, ou seja, na academia deve haver períodos comuns de formação, de conteúdos e igualmente no dia-a-dia do trabalho. Maior integração do banco de dados, por exemplo. O da polícia militar é um, da polícia civil é outro, do Detran é outro.

Integra-los irá tornar as polícias mais modernas, mais efetivas para combater os crimes. É preciso ter um comando por parte da secretaria de segurança pública e do próprio governador que trabalhe a integração das polícias e não a disputa que é estimulada hoje em dia. É preciso haver uma reorientação. Temos capacidade de fazer que isso funcione melhor. Hoje, 25% das ocorrências do 190 são de pequenos delitos que não necessitariam da atuação da polícia militar. Uma ação da defesa social, da guarda civil metropolitana liberariam o efetivo da PM para ações que cabem a ela fazer.

O senhor promete instituir a ‘aprendizagem continuada’ no lugar daquilo que hoje é conhecido como ‘aprovação automática’ praticada pelo governo tucano. O que é isso?

Os governos tucanos pegaram o conceito da progressão continuada em que se busca garantir que o jovem aprenda progredindo ano a ano e transformaram numa verdadeira aprovação automática, se o jovem aprendeu ou não independe de sua progressão. Não é oferecido condições para que ele dê esse salto. Então antes de mais nada iremos valorizar os professores.

De que maneira? Aumentar salário basta?

São Paulo não pode pagar o 16º salário do país. É preciso haver uma recuperação que sinalize atratividade para os professores. Uma outra ação é, junto às universidades, criar uma academia dos professores, de valorização, uma ação permanente, preparando para as realidades regionais. E também é preciso recuperar a infraestrutura das escolas. A maior parte não tem assesso à internet hoje, apenas 1% da rede pública estadual tem laboratórios de ciência e informática, acessibilidade para deficientes… enfim, na área de educação é mudar ou mudar. Ou mudamos agora ou iremos comprometer o futuro de milhões de jovens. O que me deixa mais triste nesses 20 anos de governos PSDB, foi que eles não tiveram políticas continuadas para a educação. Cada secretário que assumia criava seu próprio programa, suas metas, tudo errático. Com isso hoje você tem uma grande descrença em termos de mudança. Por isso estabeleceremos metas de curto, médio e longo prazo.

Em razão da grave crise financeira da gestão do reitor João Grandino Rodas, criou-se um debate sobre a necessidade de implantar o pagamento de mensalidade na USP. O que pensa sobre o assunto?

Considero isso um absurdo. Não podemos abrir mão de termos uma universidade pública gratuita como USP, UNICAMP, UNESP, pelo papel que elas já tiveram ao longo desses anos todos no desenvolvimento do estado de São Paulo. Inclusive quero estabelecer recursos vinculados ao crescimento do estado para as universidades. Agora, o dado concreto em relação a USP é que pela primeira vez na história democrática do estado de São Paulo, o governo tucano impôs um reitor que a comunidade acadêmica não tinha escolhido. Isso resultou nessa gestão desatrosa do ponto de vista financeiro, fiscal, institucional e político. Tanto é que ele não terminou sua gestão, teve que sair antes. Agora precisamos ser parceiros para reconstruir e podem contar com meu apoio. Para que as universidades possam descobrir novas vacinas, descobrir obtenção de energia através do bagaço da cana.

O senhor comprometeu-se a levar o metrô a vários locais: até Guarulhos, região do ABC, Taboão da Serra, Brasilândia, Osasco. Em quanto tempo?

Vamos. Em 4 anos faremos com que o metrô tenha ultrapassado os limites da capital. Hoje em dia a lentidão das obras está diretamente relacionada à sua gestão. Desde a elaboração dos projetos até o processo licitatório.

Tem que ter transparência. Não se pode permitir superfaturamento. Tanto no metrô quanto nos trens da CPTM ocorre um escândalo de corrupção de 15 anos que só passou a ser apurado depois que a polícia federal, o CADE, o governo federal, autoridades internacionais começaram a questionar. Temos que ser transparentes, fazer o que o PT faz. O PT criou a CGU no governo federal, faz apuração. Não sou contra parceria público-privada. Ela contribui muito para acelerar no conjunto de investimentos que o estado não consegue fazer sozinho. Infraestrutura, metrô, trens, hidrovias podem avançar muito com parcerias. Pegar as estradas concessionadas e ampliar os acessos das cidades pois algumas delas atravessam cidades ignorando-as. Limeira é um exemplo de cidade que não conseguiu ampliar seu parque industrial tecnológico porque não tinha acesso adequado.

Quais as medidas que endossarão a fala da presidente Dilma (no telão) de que sua candidatura tem a marca da mudança?

O PT está preparado para fazer aquilo que nunca foi feito no estado de São Paulo e que precisa ser feito hoje. As gestões municipais de Marta Suplicy e agora Fernando Haddad são um exemplo. Ambos mudaram o transporte coletivo na capital. Fernando Haddad acelerou as obras de execução de corredores de ônibus, em seu primeiro ano fez 36% do que havia se comprometido. Marta criou o bilhete único integrado e Haddad criou agora o bilhete único mensal. Nós vamos lançar o Bilhete Único Metropolitano. A pessoa que precisa usar a EMTU, a CPTM, metrô, pagará uma tarifa só. O cidadão economiza, a integração entre o meios de transporte fica mais rápida.

Já que falamos de transporte, moradia é tema correlato. Como fica seu programa de moradias perante o atual momento de forte pressão realizada pelo MTST?

Faremos parcerias com todos os movimentos de moradia. Sou um defensor desses movimentos. Quando aprovamos o FINIS (Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social) eu era do ministério da coordenação política do presidente Lula e foi a primeira lei de iniciativa popular aprovada pelo congresso nacional desde a nossa constituição. Dentro do escopo do FINIS tinha apoio a projetos junto a movimentos de moradia. O Minha Casa Minha Vida começou como parte disso e agora deu grande salto de parceria com esses movimentos. No estado de São Paulo já entregou ou contratou mais de 600 mil casas. Só para efeito de comparação, a CDHU que surgiu nos anos 80 desde então entregou 500 mil casas.Temos um grande projeto utilizando recursos já existentes do governo do estado que tem 1% do ICMS destinado para a moradia e não é executado na sua integridade.

O tema da mobilidade urbana faz com que precisemos repensar o centro das grandes cidades. Nós queremos, em parceria com as prefeituras, fazer um grande projeto de revitalização trazendo habitação para o centro das cidades. Eu sou morador do centro de São Paulo e sei que todas as grandes cidades só se revitalizaram quando se colocou programa habitacional no centro. E isso não é um problema só da cidade de São Paulo.

No próximo sábado (21), a Convenção Nacional da legenda irá confirmar Dilma na disputa à reeleição e também será formalizada a aliança com o PMDB. Como pretende reverter o quadro negativo de intenção de voto, hoje em 3%?

Será uma campanha bastante disputada e muito rica para o estado de São Paulo porque depois de 20 anos de um partido governando, a população terá oportunidade de ter opiniões diversas. Confio muito na força e na maturidade do PT hoje, que governa mais cidades. Confio na nossa forte presença nos movimentos sindicais e sociais, mas o partido também aprendeu ao longo desses últimos anos a construir alianças muito sólidas nas cidades que governa hoje. Acredito também na força da militância, o PT nunca esteve tão unido. Não me preocupo com as pesquisas agora. Todo mundo já viu essa história que estamos vendo hoje. E, nesse ano, a população só vai começar a debater eleição depois que a Copa acabar. A população está mais exigente, apontando os problemas que precisamos enfrentar e isso é bom, é positivo. Estou tranquilo, a pesquisa que vale é aquela de outubro.

Mauro Donato
No DCM
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A entrevista vazia de Aécio

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“Eles estão roubando vocês!”

Em livro recém-lançado no Brasil, o jornalista britânico Andrew Jennings desnuda farsa de ingressos da Copa e avisa: os brasileiros estão pagando por uma Copa que só trará lucro para Fifa e patrocinadores. Confira aqui a entrevista e trecho do livro em primeira mão.
Andrew Jennings revela esquema ilegal de venda de ingressos para a Copa do Mundo
Foto: o.canada.com
“Conseguir um ingresso para a Copa do Mundo é ganhar na loteria”, resume o jornalista britânico Andrew Jennings, parceiro da Pública, ao falar de seu novo livro “Um jogo cada vez mais sujo”, lançado no Brasil no dia 5 de maio pela Panda Books. A FIFA novamente é o alvo das investigações de Jennings, desta vez focada na distribuição de ingressos por sorteio anunciada para os torcedores que, segundo ele, esconde um mundo de negócios sujos, mercado negro e troca de favores. O repórter também revela outro negócios ilegais que enriqueceram dirigentes da FIFA, incluindo os brasileiros Ricardo Teixeira (ex-presidente da CBF e do Comitê Organizador Local) e João Havelange (ex-presidente da CBF e da FIFA).

Com um estilo descontraído e irônico, Jennings conta quem são os irmãos mexicanos Jaime e Enrique Byrom, donos do grupo Byrom PLC, acionista majoritário da Match Services  e da Match Hospitality, prestadoras de serviço para FIFA. São eles que controlam todos os negócios relacionados a ingressos, acomodações e hospitalidade nas Copas do Mundo da FIFA. E fazem mais: no livro, o jornalista prova que nos mundiais da Alemanha, em 2006, e da África do Sul, em 2010, os Byrom forneceram ingressos para o vice-presidente da FIFA Jack Warner vender no mercado negro em troca de votos que os favoreciam no Comitê Executivo da FIFA.

Jennings recebeu e-mails do advogado dos Byrom, ameaçando processar jornalista e editora, mas não pretende se calar. “Eu disse que se eles continuassem, ia publicar os documentos”, contou o jornalista em entrevista à Pública em que detalha os negócios ilegais relacionados aos ingressos e os motivos que fazem da Copa do Mundo um pote de ouro para a FIFA e os patrocinadores sem trazer benefícios para o torcedor.

Capa do novo livro de Andrew Jennings "Um Jogo Cada Vez Mais Sujo" (Foto: Reprodução)
Capa do novo livro de Andrew Jennings
“Um Jogo Cada Vez Mais Sujo”
No livro você mostra os negócios entre os irmãos Byrom e o vice-presidente da FIFA Jack Warner nas Copas de 2006 e 2010. Em linhas gerais, como esses negócios funcionam?

Existe um mundo negro que os fãs do futebol não conhecem, que é o mundo dos negócios de ingressos. Há 209 associações nacionais de futebol na FIFA, como a CBF, no Brasil. Algumas são bem honestas, mas a maioria não é. As associações nacionais pedem ingressos aos Byrom, que os fornecem em nome do Blatter [presidente da FIFA] e da FIFA. Os negociadores de ingressos do mercado negro vão até essas pessoas em diferentes países da África, da Ásia, alguns da Europa — especialmente os do antigo bloco soviético — e conseguem os ingressos com eles.

Em 2006 na Alemanha, eu revelei que eles estavam vendendo milhares e milhares de ingressos para Jack Warner, que agora está sendo forçado a sair da FIFA. Foi uma grande história, uma grande confusão, e eles fizeram isso de novo em 2010! O Warner, [presidente] da União Caribenha de Futebol, solicitou ingressos [por e-mail] mas copiou um negociante na Noruega! Então os Byrom sabiam que Jack estava comprando deles em nome do cara na Noruega. E eles copiam a correspondência para a FIFA e para a Infront, empresa do Philippe Blatter [sobrinho do presidente da entidade]. Então todos eles sabem o que está acontecendo.

Na Alemanha eles tiveram muito lucro, mas na África do Sul esse mercado entrou em colapso porque ninguém queria ir para lá. É por isso que o escritório de ingressos dos Byrom estava entrando em contato com o Jack e com a Noruega, dizendo: “se vocês não mandarem o dinheiro logo, nós cancelamos seus ingressos”. O Jack Warner estava comprando os ingressos em nome do cara do mercado negro na Noruega e os Byrom precisavam dar ingressos para ele porque ele controla pelo menos três votos no Comitê Executivo da FIFA: se Jack,  quer ingressos, ele ganha ingressos. E o que ele dá em troca é que ele e os amigos votam em você para que você consiga todos os contratos dos ingressos.

O que nós não sabemos é: que outros membros do Comitê Executivo ganha ingressos nessa escala?

Os Byrom conseguem os ingressos por meio do contrato que a FIFA tem com a Match?

Não, a Match é hospitalidade. Existem três diferentes contratos entre os Byrom e a FIFA. Um é para os 3 milhões de ingressos para todos os jogos que vocês vão ter no Brasil nos próximos meses. Esses ingressos são para pessoas como eu e você ficarmos nas arquibancadas de concreto gritando e torcendo pelos times. Outro é para acomodação, porque nós estrangeiros e vocês brasileiros de outras cidades que precisam de um lugar para ficar. Então os Byrom reservam uma grande quantidade de quartos, perto da Copa do Mundo percebem que não venderam todos e começam a se livrar deles.

A terceira coisa é a Match Hospitality, da qual os Byrom são acionistas majoritários, da qual o Philippe, sobrinho do sir Blatter, tem 5% e outros grupos também têm ações… A Match é responsável pela hospitalidade, que são aqueles grandes e caros camarotes de vidro nos estádios, todos novos, pagos, em sua maioria, pelos contribuintes. Tem muito dinheiro na hospitalidade. Eu acho que vai ser um desastre porque essas pessoas não vão vir, mas isso é outra questão.

O que os pacotes de hospitalidade oferecem e para quem eles são vendidos?

Você pode ver no artigo eu fiz para a Pública: A hospitalidade é um bom translado para o estádio, muito espaço, comida, bebidas… Você é pode comprar até as mais luxuosas suítes hospitalidade com uma parede de vidro para que você possa assistir um pouco do jogo de vez em quando, quando você não está fazendo negócios. Onde você não precisa se misturar com as pessoas comuns. Imagine ficar no mesmo terraço que todos esses brasileiros? Urgh.

Está tudo no site deles, com preços astronômicos. Quem compra esses pacotes são pessoas muito ricas que levam seus amigos; executivos; e empresas que levam seus melhores clientes ou seus melhores vendedores, como uma espécie de prêmio. O alvo é o mercado corporativo, é uma hospitalidade corporativa.

Os contribuintes pagaram por esses camarotes de vidro luxuosos, mas vocês não podem comprar esses pacotes. Você pode ter sorte na loteria e conseguir um ingresso para ver um jogo, mas não vai ter dinheiro para esse camarote a não ser que seja um brasileiro muito rico do mundo dos negócios.

A FIFA argumenta que a Match ter o controle exclusivo das vendas de ingressos e de pacotes de hospitalidade impede vendas não autorizadas. Isso é verdade? Por que é interessante para a FIFA manter esse esquema?

Isso é uma besteira. Os Byrom controlam todos os ingressos. Você vai no site da FIFA e encontra todo tipo de lixo sobre impedir as vendas não autorizadas, o que é ridículo, porque todo ingresso vem da porta do fundo dos Byrom. Eu não consigo imprimi-los, você também não. Muitos ingressos são impressos na última hora, porque agora nós não sabemos que time vai jogar na segunda fase e em qual estádio.

Então você ouve um monte de lixo sobre como você deve comprar deles, se não você pode ter o ingresso rasgado na entrada do estádio. Se você compra exclusivamente dos Byrom ou de seus amigos, você vai entrar. Mas o Warner estava comprando ingressos para outras pessoas! Ele não queria 5 mil ingressos para ele assistir à Copa da Alemanha, era para colocá-los direto no mercado!

A FIFA diz que está policiando esse mercado paralelo de ingressos, mas não está. É como um padre que olha para o outro lado!

E os líderes da FIFA também lucram com esse esquema?

Nós não podemos provar. Eu valorizo muito os documentos. Eu ouço histórias, vejo como Jack Warner se safou com milhares e milhares de ingressos, será que outros líderes da FIFA fazem negócios semelhantes? É legítimo fazer essa pergunta, mas nós não temos prova.

Os Byrom controlam todos os ingressos para a Copa do Mundo no Brasil. Os parceiros comerciais deles aqui são o Grupo Traffic e o Grupo Águia, que, como você mostra, tem ligações comprovadas com a CBF e o Ricardo Teixeira. O que isso sugere?

No caso dos ingressos, o Teixeira forçou os Byrom a terem parceiros brasileiros para que seus amigos pudessem ganhar uma fatia. Por isso esses grupos têm alguma ação. Você encontra as referências à Traffic se olhar os relatórios do senador Álvaro Dias [relatórios finais da CPI da CBF, elaborados em 2001] (volume 1 –  volume 2volume 3volume 4).

Isso significa que o povo brasileiro está excluído. Vocês estão pagando pela Copa do Mundo e para vocês é dito que os ingressos vão ser distribuídos de forma justa. Aí você descobre que todo tipo de atividade ilegal relacionada aos ingressos está acontecendo.

Baixe aqui um trecho exclusivo do novo livro de Andrew Jennings “Um jogo cada vez mais sujo” 


No livro, você faz uma analogia entre a pilha de ingressos para a Copa do Mundo e um iceberg, mostrando que apenas a ponta está disponível para os torcedores, enquanto, embaixo d’água, o resto é vendido por meio de negócios ilegais. Então, o documento em que a FIFA explica a distribuição dos ingressos é falso?

Sim, porque existe um mercado negro. E se você está comprando um ingresso de mercado negro, ele pode vir de um país africano, ou de outro lugar. A FIFA fala sobre a ponta do iceberg, mas o fato é que existe um outro mundo sombrio embaixo da superfície, onde existe um imenso mercado de ingressos.

Qual é a chance de um brasileiro que ama futebol assistir o Brasil jogar no estádio na Copa do Mundo?

Gaste o seu dinheiro em uma televisão. Eles não colocam todos os ingressos na loteria! Você não pode acreditar nos gráficos, porque não há como checá-los! Os Byrom têm todas as estatísticas! Você pode checar o que o governo está fazendo, porque você consegue os números, mas os Byrom não precisam publicá-los. Se eles dizem que 100% dos ingressos estão na loteria, você nunca vai provar que isso não é verdade.

Segundo o jornalista, dirigente da FIFA vendia ingressos no mercado negro (Foto: Marcello Casal Jr/Abr/ Reprodução Portal da Copa)
Segundo o jornalista, dirigente da FIFA vendia ingressos no mercado negro
Foto: Marcello Casal Jr/Abr/ Reprodução Portal da Copa
O ingressos do mercado negro são vendidos apenas para pessoas ricas ou para pessoas comuns também?

Pessoas como Jack Warner comprariam ingressos, mas ele os venderia para empresas que os colocariam em pacotes com vôos e acomodação. Se você fosse um turista na Copa do Mundo da Alemanha ou da África do Sul, você viajaria no vôo que eles reservaram, ficaria no quarto que eles reservaram. Mas você olharia no seu ingresso e veria que em vez do seu nome, nele está escrito “Fred Smith”. Todo ano você ouve que eles vão checar os passaportes, mas eles nunca fazem isso. Isso faz parte da farsa de dizer que se você não tem seu nome no ingresso, você está em apuros. É uma grande mentira.

O Ricardo Teixeira e o João Havelange (ex-presidente da CBF e da FIFA) têm relação com esse esquema?

O que nós sabemos é que antes de forçarmos o Teixeira a sair, eles estava no Comitê Organizador Local, que fazia de tudo: ingressos, estádios… Eu não sei qual fatia o Havelange ainda consegue. Ele tem 96 anos. Mas Ricardo estava lá desde o começo. Ele preparou tudo, os negócios, tudo que tinha a ver com a Copa. Nós o forçamos a sair apenas por escândalos externos, ele não esperava por isso. Então você pode atribuir a ele tudo que está errado com a Copa, porque antes dele sair, todos esses contratos já estavam sendo arranjados, não são contratos novos. Ele diz que não tinha controle sobre o que estava acontecendo. Ah, por favor…

O que você descobriu sobre o Ricardo Teixeira?

Eu investiguei as propinas dele na Suíça e os relatórios do Álvaro Dias [da CPI da CBF]. As investigações nos relatórios provam que Teixeira é um grande ladrão. Eu li todas as 500 mil palavras com a ajuda do Google Tradutor [risos]. Você tem que fazer um ato muito criminoso antes de entrar em uma máfia. Eu estaria errado se dissesse que a FIFA deu a Copa do Mundo para o Brasil. Isso é besteira. Blatter deu a Copa do Mundo para o Teixeira. Não a FIFA, o Blatter. São coisas diferentes.

A FIFA é uma máfia, uma família de crime organizado. No livro, eu mostro que ela não é uma organização legítima. Os líderes são ladrões, eles dividem tudo entre eles e estava na hora de dar ao Ricardo a sua Copa do Mundo. A CBF estava falida e isso provou ao Blatter que Teixeira era justamente o tipo que ele queria para organizar a Copa do Mundo.

Que pessoas e organizações lucram com a Copa do Mundo?

Vocês contribuintes pagam por ela. A FIFA consegue lucrar com a bilheteria. Todos o dinheiro da FIFA vem da Copa do Mundo, é sua grande fonte de renda. Nos outros torneios: futebol feminino, sub-17, sub-21, eles perdem dinheiro. Mas eles precisam fazê-los para mostrar que são inclusivos. O Valcke prevê que a FIFA vai ganhar US$ 2,7 bilhões com a Copa, os brasileiros ficam bravos e ele responde: “Mas nós estamos colocando tanto dinheiro de volta”. Isso não é verdade. Quando um quarto de hotel é alugado, isso não é colocar dinheiro, é alugar um quarto de hotel!

Os patrocinadores, como McDonald’s, Visa, Samsung e outros conseguem uma maravilhosa isenção fiscal de 12 meses pela “lei da FIFA”. O Romário lutou contra ela, mas a Dilma forçou sua aprovação. A isenção fiscal para eles é um fardo para vocês. Se eles não pagam os impostos, vocês pagam. Eles estão roubando vocês! Essas empresas, como a Coca-Cola e a Samsung, estão vendendo produtos e não há impostos! Não tem motivo! Se eu for começar uma empresa em São Paulo, eu tenho isenção fiscal? Não, não tenho.

Então a Copa do Mundo é um pretexto para eles lucrarem?

Eu acho que nós poderíamos ter um campeonato mundial de futebol sem eles. Nós não precisamos desse nível de pessoas não transparentes só se preocupando com eles e com seus associados comerciais. Só o dinheiro da venda dos direitos televisivos, que você conseguiria legitimamente, é suficiente para pagar pela Copa do Mundo. As emissoras pagam uma fortuna para transmitir. Você não precisa de negócios por baixo dos panos com patrocinadores ou isenções fiscais especiais.

No Pública
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Campanha eleitoral continua em cima do ódio


Era de se esperar — esperávamos e torcíamos — que fosse apenas um surto e que passados o ódio e a violência verbal contra o PT, para os quais descambou a campanha eleitoral no fim de semana a situação amenizasse, a disputa voltasse ao campo das ideias e propostas e aos ritos ditados pelo calendário, principalmente porque o Brasil vive clima de Copa do Mundo e nele viverá até o próximo dia 13 de julho.

Mas, que nada, a campanha descambou de vez para a virulência e como dissemos no início desta semana aqui, parece que para um ponto de não retorno. Há que se reconhecer, também que nisso ela está sendo muito insuflada por jornais e articulistas que, no afã de favorecer o tucanato a quem apoiam, não deixam a poeira assentar e nem cessam as acusações contra o PT e o presidente Lula de terem iniciado essa escalada de violência. FHC e o PSDB tiveram a “desfaçatez”, como diria o ex-presidente Lula, de divulgar nota em que lamentam que ele tenha descido a esse “nível” de campanha

Nada mais falso. É só ver os fatos em retrospectiva. Quem primeiro fez recrudescer o ódio atiçando a opinião pública de maneira brutal contra governo, situação e, por extensão, o PT, foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na convenção tucana de sábado passado que homologou a candidatura de seu apadrinhado, senador Aécio Neves (PSDB-MG) à Presidência da República.

Quem começou a destilar ódio?

No dia seguinte, domingo, em convenção petista, o ex-presidente Lula apenas respondia a FHC quando lembrou que ele comprou votos para aprovar a emenda constitucional da reeleição — que lhe possibilitou ser o 1º presidente a se reeleger no país — e julgou “desfaçatez” ele falar de corrupção quando houve e há tanta, nos governos tucanos, inclusive na área da saúde “sagrada para os brasileiros”.

Agora os jornalões e seus articulistas acusam que a denúncia do ódio e a radicalização só interessa a Lula, para mobilizar a militância petista e inflamar a campanha. Interessa é a FHC que pela primeira vez nas três últimas disputas presidenciais pode participar da campanha, já quem em 2002 e em 2006, ele deixara o governo com a popularidade no fundo do poço das pesquisas, os candidatos tucanos ao Planalto, José Serra e Geraldo Alckmin o desterraram dos palanques, rádio e TV e em 2010, Serra de novo candidato, quis até exilá-lo, obrigá-lo a só voltar ao Brasil depois da eleição.

Quando FHC deixou a presidência em 2002, pelo Datafolha, tinha a aprovação de apenas 26% dos eleitores e rejeição de 36%. Já o ex-presidente Lula, ao deixar o posto em 2010, pela mesma pesquisa, tinha a aprovação de 83% e só 4% de rejeição. Ainda hoje, apesar de resgatado pelo candidato Aécio, FHC tem aprovação de apenas 12% dos eleitores que dizem que votarão em um candidato apoiado por ele, contra 36% dos eleitores que garantem votar no indicado por Lula e mais 27% que afirmam que “podem” votar num nome indicado pelo petista.

“A questão central no Brasil é sempre a política”

A quem interessa, portanto, pregar o ódio contra o partido e seu líder que têm a preferência dos eleitores pobres confirmada pelas pesquisas de opinião pública?

Agora discussão de ódio, luta de classes, pesquisas e liderança política à parte, no Globo de hoje, um professor de Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mauricio Metri, repete o que o ex-ministro José Dirceu sempre escreveu aqui neste seu blog: a questão central do momento no Brasil, na disputa eleitoral deste ano, inclusive e principalmente, é política.

O professor Mauricio Metri, é perguntado sobre o bordão “é a economia, estúpido!”, que ficou famoso na primeira campanha de Bill Clinton para se eleger presidente dos Estados Unidos, quando ele foi orientado por um de seus gurus marqueteiros a disseminar essa resposta, ainda que não precisasse dá-la diretamente ao adversário com essa crueza. Lá, a questão central era a economia. Aqui, agora, questionado sobre o bordão pelo jornal O Globo, Metri respondeu: “Na verdade (no Brasil), é sempre a política”.

No Blog do Zé
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Coxinhas do "não vai ter copa" na Copa

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Aécio fracassa em entrevista




Aécio Neves, o senador e agora candidato à Presidência da República pelo PSDB, não pôde evitar o sorriso sem graça e o desconcerto trazido pelas perguntas sobre o planejamento no setor elétrico que Renata Lo Prete (14/6), da GloboNews, dirigiu a ele no segundo bloco da entrevista que a jornalista fez com o político mineiro. Renata foi direto ao ponto ao afirmar com toda segurança que a oposição costuma criticar muito a atual administração quando o tema é a gestão do nosso sistema de geração e distribuição de energia.

Ela lembrou ao candidato que “quando o PSDB esteve no poder federal, as tarifas explodiram muito acima da inflação, e um apagão, seguido de racionamento, decretou o fim prematuro do segundo governo Fernando Henrique”. Logo depois veio a pergunta: “O que os tucanos têm a ensinar nesta matéria, senador?”

Aécio começou a esboçar uma resposta, corrigindo a entrevistadora e afirmando que “não era correto comparar momentos tão diferentes da vida nacional, quando as prioridades eram outras”. O senador (PSDB) tentou continuar com sua explicação, mas Lo Prete não o deixou continuar, e interrompeu a fala de seu entrevistado: “Mas será que não, senador?”, questionou a jornalista, sem deixar muito tempo para as reflexões pobres de Aécio: “A gente fala muito de falta de planejamento, e se há uma coisa que a gente sabe bem é que não houve planejamento naquela situação”, afirmou a jornalista. A crise do “apagão” de 2001-2002 custou ao Brasil R$ 45,2 bilhões, de acordo com dados do TCU publicados na revista Época Negócios, em 16/7/2009.

O abismo e o desgoverno

Aécio então deu aquele sorriso peculiar de quem perdeu o rumo da prosa. Foi apanhado desprevenido por uma entrevistadora astuta. Por um momento pareceu perdido. Mas logo continuou, explicando que “não era advogado de Fernando Henrique Cardoso”. Depois tentou corrigir a ambiguidade que lançou sobre o nome de seu companheiro de partido e garantiu que ele “não precisa um” (advogado). Elogiou os governos de FHC, disse que sem eles Lula nada teria feito e ainda tentou lembrar à editora de política do Jornal das 10 da GloboNews que em 2001 “houve muito pouca chuva”.

Não era o dia de Aécio: Renata lembrou que o governo Dilma também viveu um período de estiagem muito longo. Aécio então partiu para uma série de acusações ao PT: sectarismo, irresponsabilidade fiscal, intolerância política com a oposição, mas foi outra vez pressionado pela jornalista. Que quis saber “por que tantas pesquisas, públicas e privadas, registram uma imagem muito ruim dos governos do PSDB”. Aécio finalmente admitiu as derrapadas no segundo mandato de FHC, e afirmou que “mesmo assim ainda restou crédito ao seu governo, graças as suas conquistas anteriores”.

O candidato do PSDB tentou usar a entrevista para aproveitar o mau momento da atual administração. Veio para atacar, mas com retórica frágil e sem o preparo intelectual de FHC, ele só desperdiçou tempo precioso de exposição pública. Nada do que o candidato disse ajudou seu partido ou sua candidatura. É verdade que a administração de Dilma Rousseff não deu a sequência esperada aos melhores momentos dos dois governos de Lula, mas querer estabelecer como verdade absoluta que caminhamos para o abismo e o desgoverno é inaceitável, se partirmos de pontos de vistas factuais.

Dever de casa

A verdade estava lá, na expressão de desamparo de Aécio Neves interrogado sobre FHC e seu fracasso na gestão do setor elétrico. O candidato esperava uma acolhida mais hospitaleira e favorável, em uma emissora que faz oposição ao PT de forma sistemática e muitas vezes desleal. O grande erro de Aécio foi acreditar que as grandes corporações de mídia são entidades monolíticas e os profissionais que trabalham nelas são lacaios dos patrões e seguem a linha editorial imposta por eles sem reflexão. A coisa não é tão simples assim.

A chamada “grande mídia” é complexa e tem muitas faces. Desacreditar tudo aquilo que é produzido por ela é uma imprudência pueril. Nos jornais mais conservadores trabalham profissionais com visões de mundo e opiniões que nem sempre coincidem com as dos seus empregadores. O contrário também é verdadeiro: publicações liberais podem ter em seus quadros gente conservadora que não segue a linha editorial de seus chefes. Jornalistas e editores experientes sabem trabalhar nos limites da autonomia relativa que a imprensa permite. Sabem usar as brechas nas emissoras e publicações onde trabalham.

Aécio Neves ignorou isso e por pouco a entrevista não “azedou” totalmente: em certo momento no segundo bloco, a entrevistadora afirmou que o PT reconhece as conquistas de FHC. O político mineiro replicou: “O PT não reconhece nada”. O candidato quis polemizar. Tentou provocar discussão. Renata Lo Prete mostrou profissionalismo, não aceitou a provocação e foi em frente com a entrevista. E o candidato desperdiçou a oportunidade de mostrar as alternativas de seu partido para o atual governo. O aspirante a presidente não fez o dever de casa, veio mal preparado para a entrevista e ainda deixou bem claro que não tem frieza para enfrentar quem o contrarie com boa argumentação.


Sergio da Motta e Albuquerque, mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor 
No OI
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Brasil tem um dos combustíveis mais baratos do mundo


Custo de produção e impostos são mais baixos que a maioria dos países desenvolvidos, mostra estudo da UHY consultoria

Se você reclama dos preços altos dos combustíveis no Brasil, cuidado ao viajar ao exterior. Não estou falando da Venezuela, onde com “cinco moedas” você enche o tanque, mas da Europa, onde os preços da gasolina e do diesel são muito mais altos que no Brasil.

Comparado com as principais economias do mundo, o Brasil tem um dos menores preços na bomba de gasolina e o custo do diesel chega a ser o mais baixo de todos os países, conforme estudo divulgado pela consultoria UHY, com sede em Londres e presente em 87 países e representada no Brasil pela UHY Moreira.

Os especialistas concluíram que o imposto dos combustíveis no Brasil é mais baixo que em outros países. Reino Unido, França e Alemanha cobram impostos de pelo menos 60% na gasolina, enquanto no Brasil é 35,6%. Observe que, mesmo assim, os impostos no Brasil são altíssimos, o que leva a concluir que os preços mais baratos são resultado também de uma margem menor dos produtores e revendedores.

A consultoria usou como comparação dos preços nos países o tanque da uma van Transit, da Ford. Encher o tanque da Transit com gasolina no Brasil custa US$ 102,73, quase a metade do preço na Dinamarca. Se o combustível for o diesel o custo de encher o tanque da Transit no Brasil é de US$ 89,60, representando menos de metade do custo no Reino Unido, país onde o preço do diesel é o mais elevado.

Para os analistas da UHY, o grande volume de petróleo produzido no Brasil ajuda a manter os preços do combustível baixos.

Em muitos países os altos impostos são usados para estimular o uso de combustíveis alternativos, que podem ser uma opção comercial ao petróleo e também para reduzir as emissões de poluentes.

Porém, também para o GNV – Gás Natural Veicular, uma alternativa mais ecológica à gasolina e ao diesel, o imposto no Brasil é menor que em outros países: 27,2%.

Segundo o estudo, a maioria das economias emergentes tem níveis consideravelmente mais baixos de tributação sobre o combustível do que as economias desenvolvidas.

“As economias emergentes são muito mais focadas no crescimento e em prestar assistência às empresas, através de redução de impostos e subsídios, onde se faz necessário”, explicou Eric Waidergorn, diretor da UHY Moreira.

Diesel
Custo do tanque cheio da Ford Transit (em dólar) 
Gasolina
Custo do tanque cheio da Ford Transit (em dólar) 
 

Gás Natural Veicular
Custo do tanque cheio da Ford Transit (em dólar)
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Mentiras propagadas pelo pensamento econômico dominante

Grande parte dos argumentos mostrados pelos meios de informação e persuasão econômicos para justificar certas políticas são pura ideologia cheia de mentira

Permita-me, senhor leitor, que eu converse com você como se estivéssemos tomando um café, explicando-lhe algumas das maiores mentiras apresentadas diariamente no noticiário econômico. Você deveria ter consciência de que grande parte dos argumentos mostrados pelos maiores meios de informação e persuasão econômicos do país para justificar as políticas públicas ora implementadas são posturas claramente ideológicas, que não se sustentam com base na evidência científica existente. Vou citar algumas das mais importantes, mostrando que os dados contradizem aquilo que se diz. E também tentarei explicar por que continuam repetindo essas mentiras, apesar de a evidência científica questioná-los, e com que finalidade elas são apresentadas diariamente a você e ao público.

Comecemos por uma das mentiras mais importantes, que é a afirmação de que os cortes de gastos nos serviços públicos do Estado de bem-estar social — tais como saúde, educação, serviços domésticos, habitação social e outros (que estão prejudicando enormemente o bem-estar social e a qualidade de vida das classes populares) — são necessários para que o déficit público não aumente. E você se perguntará: “E por que é tão ruim que o déficit público cresça?”. E os reprodutores do senso comum lhe responderão que o motivo de se reduzir o déficit público é que o crescimento desse déficit determina o crescimento da dívida pública, que é o que o Estado tem que pagar (predominantemente aos bancos, que têm uma quantia em torno de mais da metade da dívida pública na Espanha) por ter pedido emprestado dinheiro dos bancos para cobrir o rombo criado pelo déficit público.

Reforça-se, assim, que a dívida pública (considerada um peso para as gerações futuras, que terão de pagá-la) não pode continuar crescendo, devendo-se, para isso, reduzi-la diminuindo o déficit público. Isso quer dizer, para eles, cortar, cortar e cortar o Estado de bem-estar até o ponto de acabar com ele, que é o que está acontecendo na Espanha.

Os argumentos utilizados para justificar os cortes não são críveis.
 
O problema com esta postura é que os dados (que o senso comum oculta ou ignora) mostram exatamente o contrário. Os cortes são enormes (nunca foram tão grades durante a época democrática) e, ainda assim, a dívida pública continua crescendo e crescendo. Veja o que está acontecendo na Espanha, por exemplo, com a saúde pública, um dos serviços públicos mais importantes e mais demandados pela população. O gasto público com saúde enquanto parte do PIB se reduziu em torno de 3,5% no período 2009-2011 (quando deveria ter crescido 7,7% durante esse mesmo período para chegar ao gasto médio dos países de desenvolvimento econômico semelhante ao nosso), e o déficit público diminuiu, passando de 11,1% do PIB em 2009 para 10,6% em 2012. A dívida pública não baixou, mas continuou aumentando, passando de 36% do PIB em 2007 para 86% em 2012. Na verdade, a causa do aumento da dívida pública se deve, em parte, à diminuição dos gasto público.

Como isso pode acontecer?, você se perguntará. A resposta é fácil de enxergar. A diminuição do gasto público implica a redução da demanda pública e, com isso, a diminuição do crescimento e da atividade econômica, fazendo com o que o Estado receba menos recursos através de impostos e taxas. Ao receber menos impostos, o Estado de se endivida mais, e a dívida pública continua crescendo. Desnecessário afirmar que o maior ou menor impacto que estimula o gasto público depende do tipo de gasto. Mas os cortes são nos serviços públicos do Estado de bem-estar, que são os que criam mais emprego e que estão entre os que mais estimulam a economia. Permita-me repetir essa explicação devido à sua enorme importância.

Quando o Estado (tanto central como autônomo e local) aumenta o gasto público, aumenta a demanda de produtos e serviços, e com isso, o estímulo econômico. Quando reduz, diminui a demanda e o crescimento econômico, fazendo com que o Estado receba menos fundos. É aquilo que, na terminologia macroeconômica, se conhece como o efeito multiplicador do gasto público. O investimento e o gasto público facilitam a atividade da economia, o que é negado pelos economistas neoliberais (que se promovem, em sua grande maioria, pelos maiores meios de informação e persuasão do país), apesar da enorme evidência atestada pela literatura científica (veja meu livro Neoliberalismo y Estado del Bienestar, editora Ariel Económica, 1997. Em português, Neoliberalismo e Estado de bem-estar).

Outra farsa: gastamos mais do que temos

O mesmo senso comum está dizendo também que a crise se deve ao fato de termos gastado demais, acima de nossas possibilidades. Daí a necessidade de apertar os cintos (que quer dizer cortar, cortar e cortar o gasto público). Via de regra, essa postura é acompanhada da afirmação de que o Estado tem que se comportar como as famílias, ou seja, “em nenhum momento pode gastar mais do que recebe”. O presidente Rajoy e a Sra. Merkel repetiram essa frase milhares de vezes.

Essa frase tem um componente de hipocrisia e outro de mentira. Deixe-me explicar o porquê de cada um deles. Eu não sei como você, leitor, comprou seu carro. Mas eu, como a grande maioria dos espanhóis, comprou o carro a prazo, quer dizer, usando crédito. Todas as famílias se endividaram, e assim funciona o orçamento familiar. Pagamos nossas dívidas conforme entram os recursos que, para a maior parte dos espanhóis, vem do trabalho. E daí surge o problema atual. Não é que as pessoas gastaram além de suas possibilidades, mas foram suas rendas e suas condições de trabalho que pioraram mais e mais, sem que a população fosse responsável por isso. Na verdade, os responsáveis por isso acontecer são os mesmos que estão dizendo que é preciso cortar os serviços públicos do Estado de Bem-estar e também diminuir os salários. E agora têm a ousadia (para colocar de maneira amável) de dizer que você e eu somos os culpados porque gastamos mais e mais. Eu não sei você, mas eu garanto que a maioria das famílias não comprou e não acumulou produtos como loucos. Pelo contrário.

A mesma hipocrisia existe no argumento de que o Estado gastou muito. Veja você, leitor, que o Estado espanhol gastou muito — não muito mais —, mas muito menos do que outros países de nível de desenvolvimento econômico semelhante. Antes da crise, o gasto público representava somente 39% do PIB, enquanto a média da UE-15 era de 46% do PIB. Na época, o Estado deveria ter despendido, no mínimo, 66 bilhões de euros a mais no gasto público social para ter gastado o correspondente ao seu nível de riqueza. Não é certo que as famílias ou o Estado tenham gastado mais do que deveriam. Apesar disso, continuarão afirmando que a culpa é da maioria da população, que gastou muito e agora tem que apertar os cintos.

Você também provavelmente escutou que esses sacrifícios (os cortes) precisam ser feitos “para salvar o euro”.

Novamente, esta ladainha de que “estes cortes são necessários para salvar o euro” se reproduz. Contudo, ao contrário daquilo que se anuncia constantemente, o euro nunca esteve em perigo. Não há sequer uma mínima possibilidade de alguns países periféricos (os PIGS, Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) da zona do euro serem expulsos da moeda. Na verdade, um dos problemas entre os muitos que estes países têm é que o euro está excessivamente forte e saudável. Sua cotação esteve sempre acima do dólar e seu poder dificulta a economia dos países periféricos da zona do euro. E outro problema é que o capital financeiro alemão lhes emprestou, com grandes lucros, 700 bilhões de euros, e agora quer que os países periféricos os devolvam. Se algum deles deixar o euro, o sistema bancário alemão pode entrar em colapso. O setor bancário (cuja influência é enorme) não quer nem ouvir falar da saída dos países devedores da zona do euro. Eu lhes garanto que é a última coisa que eles querem.

Essa observação a favor da permanência no euro é certamente óbvia, e não um argumento. Na verdade, acredito que os países PIGS deveriam ameaçar sair do euro. Mas é absurdo o argumento que se utiliza de que a Espanha deve, ainda mais, reduzir o tempo de visita ao médico para salvar o euro (que é o código para dizer, “salvar os bancos alemães e lhes devolver o dinheiro que emprestaram obtendo lucros enormes”). São essas as falácias constantemente expostas. Eu lhes garanto que são apresentadas sem que sejam comprovadas por nenhuma evidencia. Isso é claro.

A causa dos cortes

E você se perguntará: Por que então fazem esses cortes? A resposta é fácil de encontrar, ainda que raramente seja vista nos grandes meios de comunicação. É o que se costumava chamar de “luta de classes”, mas agora a mídia não utiliza essa expressão por considerá-la “antiquada”, “ideológica”, “demagógica” ou qualquer adjetivo que usam para mostrar a rejeição e desejo de marginalização daqueles que veem a realidade de acordo com um critério diferente, e inclusive oposto, ao daqueles que definem o senso comum do país.

Mas, por mais que queiram ocultar, essa luta existe. É a luta de uma minoria (os proprietários e gestores do capital, quer dizer, da propriedade que gera rendas) contra a maioria da população (que obtém suas rendas a partir de seu trabalho). É aquilo que meu amigo Noam Chomsky chama de guerra de classes — conforme expõe em sua introdução ao livro Hay alternativas. Propuestas para crear empleo y bienestar social en España, de Juan Torres, Alberto Garzón e eu (Em português, Há alternativas. Propostas para criar emprego e bem-estar social na Espanha).

Desnecessário dizer que essa luta de classes variou de acordou com o período em que se vive. Esta que está acontecendo agora é diferente daquela da época de nossos pais e avós. Na verdade, agora está inclusive mais ampla, pois não é somente das minorias que controlam e administram o capital contra a classe trabalhadora (que continua existindo), mas inclui também grandes setores das classes médias, formando as chamadas classes populares, conjuntamente com a classe trabalhadora. Essa minoria é fortemente poderosa e controla a maioria dos meios de comunicação, e tem também grande influência sobre a classe política. E esse grupo minoritário deseja que os salários diminuam, que a classe trabalhadora fique aterrorizada (daí a função do desemprego) e que perca os direitos trabalhistas e sociais. E está reduzindo os serviços públicos como parte dessa estratégia para enfraquecer tais direitos. A privatização dos serviços públicos, consequência dos cortes, também é um fator importante por permitir a entrada do grande capital (e muito particularmente do capital financeiro e bancários, e das seguradoras) nesses setores, aumentando seus lucros. Você deve ter lido como, na Espanha, as companhias privadas de seguro de saúde estão se expandindo como nunca haviam conseguido antes.

E muitas das empresas financeiras de alto risco (quer dizer, altamente especulativas) estão atualmente controlando grandes instituições de saúde do país graças às políticas privatizantes e aos cortes feitos pelos governos, que justificam essa medida com toda a farsa (e acredite que não há outra forma de dizer) de que precisam fazer isso para reduzir o déficit público e a dívida pública.

Vicenç Navarro, catedrático de Políticas Públicas da Universidade Pompeu Fabra e Professor de Políticas Públicas na Johns Hopkins University. Site pessoal www.vnavarro.org  
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