15 de jun de 2014

A “coragem” de Danilo Gentili ao engrossar o coro do Itaquerão pelo Twitter

Ele
Enquanto no Itaquerão 65 mil pessoas se comportavam como Danilo Gentili, o próprio Danilo Gentili estava reproduzindo, nas redes sociais, o comportamente daquela multidão.

Com quase 6 milhões de seguidores no Twitter, ele escreveu “Ei, Dilma, vai tomar no c…” durante a partida de estreia do Brasil. A frase foi retuitada mais de 1 400 vezes. Como Gentili foi orientado pelo SBT para maneirar com Dilma e Lula, ele usa outros meios para exercer sua “coragem”.

Quando recebe críticas, atribui à perseguição de “blogs patrocinados com dinheiro público”, ou seja, dele, fingindo não levar em conta os 150 milhões de reais por ano que o governo federal despeja em sua emissora. Em outras palavras, seguindo seu raciocínio, você está pagando parte do salário dele e de Sheherazade.

Mesmo na TV, porém, ele escapa de si mesmo. Na semana do caso Dilma, Gentili foi descoberto pela imprensa musical estrangeira. A cantora Sky Ferreira, revelação do rock americano, fez a bobagem de comparecer ao “The Noite” durante sua passagem no Brasil.

Antes de cantar “You’re Not The One”, Gentili a entrevistou com a ajuda de um comediante de seu programa, que serviu de intérprete. “Você acha que todo mundo está adorando o seu trabalho por causa da música ou por causa da capa?”, perguntou Gentili. A foto de de “Night Time, My Time” traz Sky com um dos seios de fora.

O resto do papo é um desastre de desinformação que transforma Jô Soares, por comparação, em gênio. Ela registraria sua impressão do entrevistador no site DIY: “Passei por isso em todos os países em que estive nessa turnê. E a propósito, conheci pessoas bem mais inteligentes/legais/boas do que idiotas sem cérebro”.

Como sempre em tudo o que cerca DG, uma dúvida paira no ar: qual é a graça? Como sempre, a resposta é: nenhuma. Gentili não faz humor, faz pequenas sessões de cretinice garantidas na Constituição.

O que fica cada vez mais patente é a seletividade do seu ódio. Não era completamente assim. Em 2010, em seu show “Politicamente Incorreto”, ele gastou alguns minutos discorrendo sobre Aécio Neves e a cocaína. O DVD vendeu muito e não é exagero dizer que Gentili contribuiu para a fama de Aécio.

Gentili continuará mandando Dilma tomar no c… Sobre Aécio, é duvidoso que retome qualquer assunto espinhoso. A grande certeza que é que, faça o que fizer, ele seguirá enchendo um Itaquerão com piadas feitas por — na definição de Sky Ferreira — um “idiota sem cérebro”.

Kiko Nogueira
No DCM
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Lula na Convenção Estadual do PT - SP


Como este vídeo foi precariamente captado online, algumas imperfeições em áudio e imagem não foram possíveis de serem corrigidas. Vale, entretanto, como documento da fala do ex-presidente.

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NYTimes quer a Copa! O camarote VIP do Itaú, não!



No CAf
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A “massa cheirosa” pisou feio na bola!

Edgar Vasques
Já não há mais dúvida de que as baixarias contra a presidenta Dilma na abertura da Copa do Mundo, na quinta-feira (12), foram puxadas pela área VIP do estádio do Itaquerão. A “elite branca”, segundo o clássico apelido cunhado pelo liberal Claudio Lembo, esbanjou machismo, ódio de classe e intolerância. Até jornalistas críticos do atual governo e da Copa, como Juca Kfouri, condenaram as grosserias dos “endinheirados” — que pagaram quase mil reais pelo ingresso e se chafurdaram no esgoto. Identificados os escrotos, a dúvida agora é sobre os efeitos da sua ação. Em artigo na Folha deste domingo (15), Eliane Cantanhêde, conhecida militante da “massa cheirosa” tucana, avalia que a iniciativa foi um tiro no pé.

Para a colunista, que diariamente ataca a Dilma e não esconde seu desejo de mandá-la para algum lugar bem distante do Palácio do Planalto, os palavrões “não estavam no script” — script de quem? Era para vaiar, mas nunca gritar “Ei, Dilma, vai tomar no c...”. A agressão gerou o efeito inverso, lamenta Cantanhêde. “As redes sociais amanheceram no dia seguinte recheadas de manifestações de desagravo, solidariedade e simpatia pela ‘presidente, pela mulher, pela mãe, pela avó’. E com o X da questão: tudo começou na área da elite endinheirada. De ré que merecia vaias pelo ‘mau humor e arrogância’, como desferiu Aécio Neves, Dilma evoluiu para vítima de xingamentos infames diante do mundo”.

Além de destacar a imediata reação dos internautas, que incomodam tanto os barões da mídia e seus serviçais, a colunista da Folha também critica o ex-presidente, o que já virou quase uma obsessão doentia. “Lula ofereceu uma fotogênica rosa branca à pupila ofendida e, de repente, admitiu que trouxe para o Brasil uma Copa ‘para ricos’... Em menos de 24 horas, Aécio amenizou o tom, conforme a música da opinião pública, e passou a criticar os xingamentos. Com seu recuo, selou o êxito da estratégia lulista. Os gritos do Itaquerão deixam de ser limão contra Dilma, viram limonada a favor dela e reforçam o bordão dos ‘pobres contra os ricos’”.

A “massa cheirosa” realmente pisou feio na bola!

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Torcida do Japão dá um verdadeiro show de educação

Após a derrota da seleção japonesa para Costa do Marfim, por 2 a 1, neste sábado, os torcedores japoneses deram um verdadeiro exemplo de civilidade. Logo após o apito final, a torcida nipônica ajudou a coletar e ensacar o lixo produzido por eles nas arquibancadas da Arena Pernambuco.

Torcida do Japão dá um verdadeiro show de educação
Torcida do Japão dá um verdadeiro show de educação
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Colômbia: Candidato de Uribe e paramilitares é derrotado, J.M. Santos segue presidente


El presidente de Colombia, Juan Manuel Santos, que aspira a la reelección, se colocó a cabeza en las elecciones celebradas hoy con el 51,65 % de los votos frente al candidato uribista, Óscar Iván Zuluaga, quien obtuvo el 44,11 %, cuando se ha escrutado un 14,31 % de las papeletas.

En los dos primeros boletines aparecia como más votado Zuluaga, pero en el tercero, difundido por la Registraduría Nacional del Estado Civil, organizadora de los comicios, Santos se coloca en primera posición.

Más de 32 millones de colombianos elegirán mañana en segunda vuelta a los presidente y vicepresidente del país por el período 2014-2018, en una contienda entre el actual mandatario Juan Manuel Santos y Oscar Iván Zuluaga, del Centro Democrático.
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A solidão dos centroavantes

Vi o Fred contra a Croácia, na quinta-feira, e o Eto'o contra o México, ontem, e pensei no que poderia ser feito para acabar com a solidão do centroavante.

É uma solidão de eremita, de faroleiro, de náufrago de cartum. Ninguém é mais sozinho do que um centroavante. Ele está sempre cercado de gente, mas são inimigos.

É um isolado na multidão, um paradoxo de chuteiras. Seus companheiros não lhe dão bola, literalmente. Quando dão, a bola chega tinindo, intratável, exigindo sua atenção, mas só lhe dando segundos para providenciá-la.

Na maior parte do tempo, não maior parte do tempo ele é um Robinson Crusoé antes do Sexta-Feira, sem salvação no horizonte.

Por isso, somo tolerantes com os centroavantes. Não os julgamos como se julga os outros homens. Não exigimos nada deles, a não ser seu sacrifício solitário.

E gols, é claro. Mas deve haver uma maneira de resgatá-lo da sua dolorosa solidão, pensei.

Ontem também, no jogo entre Holanda e Espanha, vi duas formas possíveis de caridade com os centroavantes. A Espanha, com seu famoso toque-toque, nunca deixa seu centroavante sozinho. O time chega sempre junto ao seu centroavante, em comitiva, lhe traz mantimentos, notícias de casa e conforto espiritual.

Participar da finalização de um toque-toque coletivo é uma maneira de o centroavante se intregrar ao jogo e não se sentir abandonado.

É verdade que, quando o toque-toque não funciona, o centroavante desaparece também. Mas, pelo menos, desaparece entre amigos.

Já a Holanda tem um Van Persie que se fixa na grande área como um centroavante clássico, mas frequenta o resto do campo com a mesma naturalidade.

O centroavante da Holanda nunca se sente só, ou, quando se sente, vai atrás de companhia. Claro que Holanda 5 x 1 Espanha  foi um jogo tão atípico que não prova nada. Foi um jogo à prova de teses e conclusões apressadas.

Mas, pelo menos, nota-se uma preocupação, no futebol moderno, em diminuir o sacrifício dos centroavantes.

A vitória da Holandasó serviu para aprofundar um mistério que me intriga. Por que o Robben, que vem jogando o que jogou ontem há muito tempo, pelo seu país e pelo Bayern de Munique, nunca foi lembrado como melhor jogador do mundo? Afinal existe alguém no mundo que jogue mais do que ele?

Luís Fernando Veríssimo
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O perfeito coxinha tucano

O perfeito idiota de classe média brasileiro

A meca do PICMB
Ele não faz trabalhos domésticos. Não tem gosto nem respeito por trabalhos manuais. Se puder, atrapalha o trabalho de quem pega no pesado. Aprendi isso em criança: só enfia o pé na lama com gosto quem nunca teve o desgosto de ir para o tanque na área de serviço, depois, esfregar o tênis ou a chuteira debaixo de água fria. Só deixa um resto de bebida secar no fundo de um copo quem nunca teve que fazer o malabarismo de meter a mão lá dentro com uma esponja, com a barriga encostada na pia, para tentar lavá-lo.

Trata-se de uma tradição lusitana, ibérica, que vem sendo reproduzida aqui na colônia desde os tempos em que os negros carregavam em barris, nas costas, a toilete dos seus proprietários, e eram chamados de “tigres” — porque os excrementos lhes caíam sobre as costas, formando listras que lembravam a pelagem do animal. O perfeito idiota de classe média brasileiro, ou PICMB, não ajuda em casa também por influência da mamãe, que nunca deixou que ele participasse das tarefas — nem mesmo por ou tirar uma mesa, nem mesmo arrumar a própria cama. Ele atira suas coisas pela casa, no chão, em qualquer lugar, e as deixa lá, pelo caminho. Não é com ele. Ele foi criado irresponsável e inconsequente. É o tipo de cara que pede um copo d’água deitado no sofá. E não faz nenhuma questão de mudar. O PICMB é um especialista em não fazer, em fazer de conta, em empurrar com a barriga, em se fazer de morto. Ele sabe que alguém fará por ele. Então ele se desenvolveu um sujeito preguiçoso. Folgado. Que se escora nos outros, não reconhece obrigações e que adora levar vantagem. Esse é o seu esporte predileto — transformar quem o cerca em seus otários particulares.

O tempo do perfeito idiota de classe média brasileiro vale mais que o das demais pessoas. É a mãe que fura a fila de carros no colégio dos filhos. É a moça que estaciona em vaga para deficientes ou para idosos no shopping. É o casal que atrasa uma hora num jantar com os amigos. A lei e as regras só valem para os outros. O PICMB não aceita restrições. Para ele, só privilégios e prerrogativas. Um direito divino — porque ele é melhor que todos os outros. É um adepto do vale tudo social, do cada um por si e do seja o que deus quiser. Ele só tem olhos para o próprio umbigo e os únicos interesses válidos são os seus.

O PICMB é o parâmetro de tudo. Quanto mais alguém for diferente dele, mais errado esse alguém estará. Ele tem preconceito contra pretos, pardos, pobres, nordestinos, baixos, gordos, gente do interior, gente que mora longe. E ele é sexista para caramba. Mesma lógica: quem não é da sua tribo, do seu quintal, é torto. E às vezes até quem é da tribo entra na moenda dos seus pré-julgamentos e da sua maledicência. A discriminação também é um jeito de você se tornar externo, e oposto, a um padrão que reconhece em si mas de que não gosta. É quando o narigudo se insurge contra narizes grandes. O PICMB adora isso.

O perfeito idiota de classe média brasileiro vai para Orlando sempre que pode. Seu templo, seu centro de peregrinação, é um outlet na Flórida. Acha a Europa chata. E a Ásia, um planeta esquisito com gente estranha e amarela que não lhe interessa. Há um tempo, o PICMB descobriu Nova York — para onde vai exclusivamente para comprar. Ficou meia hora dentro do Metropolitan, uma vez, mas achou aquilo aborrecido demais. Come pizza no Sbarro. Joga lixo no chão. Só anda de táxi — metrô, com a galera, nem em Manhattan. Nos anos 90, comprava camiseta no Hard Rock Cafe. Hoje virou um sacoleiro em lojas com Abercrombie & Fitch e Tommy Hillfiger. Depois de toda a farra, ainda troca cotoveladas no free shop para comprar uísque, perfume, chocolate e maquiagem. O PICMB é, sobretudo, um cara cafona. Usa roupas de polo sem saber o lado por onde se monta num cavalo. Nem sabe que aquelas roupas são de polo. Ou que polo é um esporte.

O PICMB adora pagar caro. Faz questão. Não apenas porque, para ele, caro é sinônimo de bom. Mas, principalmente, porque caro é sinônimo de “cheguei lá” e “eu posso” e “veja o quanto eu paguei nesse relógio ou nessa calça da Diesel”. Ele exibe marcas como penduricalhos numa árvore de natal. É assim que se mostra para os outros. Se pudesse, deixaria as etiquetas presas aos itens do vestuário e aos acessórios que carrega. O PICMB é jeca. É brega. Compra para se afirmar, para compensar o vazio e as frustrações, para se expressar de algum modo. O perfeito idiota de classe média brasileiro não se sente idiota pagando 4 000 reais por um console de vídeo game que custa 400 dólares lá fora. Nem acha um acinte pagar 100 000 reais por um carro que vale 25 000 dólares. Essa é a sua religião. Ele não se importa de ficar no vermelho — a preocupação com ter as contas em dias é para os fracos. Ele é o protótipo do novo rico burro. Do sujeito que acha que o bolso cheio pode compensar uma cabeça vazia.

O PICMB é cleptomaníaco. Sua obsessão por ter, e sua mania de locupletação material, lhe fazem roubar roupão de hotel e garrafinha de bebida do avião e amostra grátis de perfume em loja de departamento. Ele pega qualquer amostra de produto que esteja sendo ofertada numa degustação no supermercado. Mesmo que não goste daquilo. O PICMB adora boca livre e hotéis “all inclusive”. Ele adora camarote — quando ele consegue sentir o sangue azul fluindo em suas veias. Ele é a tradução perfeito do que é um pequeno burguês.

O perfeito idiota de classe média brasileiro entende Annita. Vibra com Latino. Seu mundo cabe dentro do imaginário do sertanejo romântico. Ele adora shows megaproduzidos, com pirotecnia, luzes e muita coreografia, cujos ingressos custem mais de 500 reais — mesmo que ele não conheça o artista. Ele não se importa de pagar uma taxa de conveniência escorchante para comprar esse ingresso da maneira mais barata para quem lhe vendeu — pela internet.

E o PICMB detesta ler. Comprou “50 Tons” para a mulher. E um livro de autoajuda para si mesmo. Mas agora que a novela está boa ficou difícil achar tempo para ler.

* * *

A pobreza no Brasil não é uma circunstância,
uma situação conjuntural a que todos
estamos expostos – é uma condição estrutural
que rotula e afasta milhões de pessoas,
consideradas para sempre subcidadãs.
O PICMB morre de medo disso. E adora rir disso.
Acho que o texto tocou num ponto importante — um padrão de comportamento que transforma muitos de nós em seres com um cartão de crédito no bolso e nenhuma ideia na cabeça. Aterrissei essa atitude na classe média — porque é ali, nesse terreno largo, em que o poder aquisitivo nem sempre é construído par e passo com a instrução, que ela pode ser encontrada com mais clareza e fartura. Mas é claro que esse comportamento acomete pessoas em outras camadas sociais. Ele pode ser visto na aspiração dos pobres e também no descaso dos ricos brasileiros.

O PICMB se traduz numa pessoa mimada, indolente, incivilizada, pouco cidadã. Que se escuda atrás de marcas e de produtos caros — porque, de resto, tem pouca coisa a oferecer. É um praticante e uma vítima da reificação — o processo de coisificação das pessoas, dos sentimentos, dos relacionamentos. O PICMB é brega no uso do dinheiro. E cafona no que pensa e no que diz — porque não se preparou para exercer da melhor maneira as suas conquistas financeiras. Acha que não precisa fazê-lo. Ele está interessado em ter, não em ser. Ou: ele só considera que é na medida em que tem.

Há outros dois aspectos que ajudam bem a caracterizar o PICMB — que, perceba, é muito mais uma função do que uma estrutura, muito mais um software do que um hardware, muito mais um sistema ético do que um determinado grupo de pessoas.

O primeiro deles: o medo bizarro da classe média brasileira de parecer pobre.

E o modo mais direto de não parecer pobre, de afirmar ou de fingir riqueza, é pagar caro. A visão que nós temos de um cara rico, no Brasil, não é a de um cara que trabalha e que economiza — mas de alguém opulento e perdulário. Por isso os preços aumentam à nossa volta — e o PICMB acha bonito pagar por eles. Pagar menos é erodir valor. Pagar caro, ao contrário, deixa todo mundo ver que você não é pobre. O tipo de consumismo que nutrimos entre nós tem esse viés: as coisas tem que ser caras. O uso grosseiro de marcas famosas vem daí — elas não são nada além de uma sinalização pouco sutil para todos os outros de que você tem dinheiro para torrar naquilo. (Mesmo os produtos comprados em liquidações, nos outlets de Orlando, que lotamos com nossa voracidade vazia, não se despem dessa função, ao gritarem: “eu estive em Orlando, você não”. A exclusividade é uma forma de segregação social e econômica que nós adoramos praticar.) Não raro, o único valor de um produto é esse: ser caro. Ele nem é tão legal, mas você usa porque todo mundo sabe que ele custa os olhos da cara. Ninguém acha que você é um tremendo pato agindo desse jeito — todo mundo acha você que é bacana. Nós devotamos ao PICMB uma admiração (sempre banhada em veneno) que lhe faz vibrar por dentro.

O PICMB acha que reclamar dos preços, ou discuti-los, ou pechinchar, ou procurar pelas melhores ofertas, é coisa de pobre. E nós temos horror a isso — “pobrismo”. Trata-se, obviamente, de um trauma terceiro-mundista, de quem foi pobre por muito tempo, e de quem ainda convive muito de perto com a pobreza. Escandinavos, holandeses, belgas e suíços, por exemplo, não tem essa dicotomia instalada dentro de si. Por isso se dão ao luxo de dar mais valor ao seu dinheiro e de não enxergar sentido na ostentação. Nós, ao contrário, respiramos essa dicotomia. Nosso jeito de lidar com ela é ampliar, entre nós, o contraste entre quem tem e quem não tem, ao invés de tentar incluir todo mundo para que mais pessoas possam ter. Vivemos para mostrar. Para agredir o outro com aquilo que logramos adquirir. Por isso, para o PICMB, a regra é comprar sem olhar. Essa irresponsabilidade com o dinheiro, essa falta de amor à economia, nos define. Os americanos, para não irmos muito longe, respeitam muito cada dólar que tem na carteira. Por isso o dólar é valorizado. A valorização cambial de uma moeda começa na valorização que os usuários fazem dela individualmente, dentro do seu próprio bolso. Como os americanos, nós elegemos o dinheiro como um deus — só que um deus que precisa ser imolado diariamente no fio do cartão de crédito internacional com limite estourado.

Esse pudor de parecer mesquinho é o que permite que os estacionamentos e as sobremesas, para citar dois preços que inflacionaram barbaramente nos últimos anos, aumentem descaradamente numa cidade como São Paulo. A gente paga. Então a primeira hora do valet em qualquer lugar, de 8 ou 10 reais, passou, num par de anos, para 20 ou 25 reais. Porque a gente paga. Por isso um taça minúscula de qualquer coisa doce após uma refeição passou de 10 ou 12 reais, para 25 reais em qualquer restaurante bem posicionado na cidade. Porque a gente paga. A gente não reclama — porque regatear preço é coisa de pobre. Por isso o governo aumenta seus gastos e a nossa carga tributária todo ano e tudo bem: a gente continua pagando. As tungadas vem de todo lugar — do IPTU ao serviço de controle da emissão de gases do seu carro (uma piada de humor sombrio aplicada aos paulistanos todo ano). A gente paga. A gente assente. Enquanto isso nos separar daquelas pessoas que não podem pagar, continuaremos pagando — porque isso nos faz sentir bem.

O outro aspecto que ajuda a caracterizar o comportamento do PICMB é um individualismo atroz, que embute um total descaso pelo outro e que obstaculiza a construção de uma Nação com N maiúsculo sobre esse país com p minúsculo.

Trata-se de tentar sempre garantir privilégios individuais imediatos ao invés de crescer como sociedade a médio prazo. A magistrada que bloqueou recentemente, no bairro do Humaitá, no Rio, um trecho de calçada em frente à sua casa, para poder manobrar com o seu carro, é a cara desse Brasil. Somos um país de posseiros. O país da apropriação indébita. Ao invés da soma dos interesses privados gerarem o bem público — afinal, é do interesse comum, de cada um de nós, que seja bom para todos —, a gente parte para o cada um por si e para o quem pode mais chora menos. Assim não construímos sistemas — porque sistemas dependem de que cada parte funcione por si só mas também para o todo. A gente não liga para o todo — temos a ilusão de que se resolvermos o nosso está bom. (Enquanto eu estiver bem dentro do meu carro, que se exploda o metrô!) Adoramos prerrogativas, vantagens especiais, contarmos com mais direitos do que os outros. Somos fascinados por camarotes, por bocas livres, por crachás que deem acesso a lugares onde os outros não chegam. Eis o ponto: nada é mais distante, insignificante e sem valor para um brasileiro do que outro brasileiro. Daí a vida valer tão pouco por aqui. O outro não vale nada. Amarra o ladrão no poste e lincha. Problema dele, não meu. O PICMB cuida de si e dos seus — e cada um que cuide de si. Não existe solidariedade no Brasil. Nem o pensamento coletivo, o sentimento de conjunto. Somos um empilhamento mal combinado de milhões de indivíduos que só querem saber de si mesmos. O PICMB é um fruto e um arauto disso.

Daí utilizarmos o acostamento descaradamente. Trata-se de um espaço coletivo — que o PICMB transforma em espaço particular, à revelia dos demais. Daí a luz amarela do semáforo no Brasil ser um sinal para avançar, que ainda dá tempo — enquanto no Japão, por exemplo, é um sinal para parar, que não dá mais tempo. Nada traduz melhor nossa sanha por avançar sobre o outro, sobre o espaço do outro, sobre o tempo do outro. Parar no amarelo significaria oferecer a sua contribuição individual, em nome da coletividade, para que o sistema funcione para todos. Uma coisa que o PICMB prefere morrer antes a ter de fazer.

Por fim, um teste simples para identificar outras atitudes que definem o PICMB: liste as coisas que você teria que fazer se saísse do Brasil hoje para morar em Berlim ou em Toronto ou em Sidney. Lavar a própria roupa, arrumar a própria casa. Usar o transporte público. Respeitar a faixa de pedestres, tanto a pé quanto atrás de um volante. Esperar a sua vez. Compreender que as leis são feitas para todos, inclusive para você. Aceitar que todos os cidadãos tem os mesmos direitos e os mesmo deveres — não há cidadãos de primeira classe e excluídos. Não oferecer mimos que possam ser confundidos com propina. Não manter um caixa 2 que lhe permita burlar o fisco. Entender que a coisa pública é de todos — e não uma terra de ninguém à sua disposição para fincar o garfo. Ser honesto, ser justo, ser pontual. Se tudo isso lhe for intragável, não tenha dúvida: você está se transformando num PICMB. Reaja.

Adriano Silva
No Manual da Ingenuidade
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O novo direito

Tal como fazem os arrastões que interrompem uma estrada: "Ninguém passa", e ponto. Feita a limpeza das carteiras e demais bens à vista, as vítimas e seus carrões são liberados pelos bandidos. Os 20 a 30 aeroviários que fecham a via de acesso ao aeroporto do Galeão mantêm a retenção. O que exigem não são carteiras, nem lhes pode ser dado pelos ocupantes dos carros parados. Não interessa: "Ninguém passa", e pronto.

Quinze minutos, meia hora, o engarrafamento já é longo, uma hora de obstrução, agora são também pessoas a caminho do trabalho que espicham o engarrafamento a vias anteriores, quase duas horas de imobilidade — é o desespero para muita gente. Não há informação de quantos perderam os seus voos. Foram muitos, gente que argumentava, pedia, gente que exibia as passagens como reforço ao apelo. "Ninguém passa", e pronto.

A Copa não motivara protesto, mas motivara pretexto. A inovadora reivindicação de um "bônus da Copa", adicional pelo trabalho como aeroviários neste período, e a pressão ao incidir no dia de inauguração dos jogos.

A reivindicação não precisa ser justificável para ser um direito. A greve, reivindicatória ou de protesto, é um direito, se não é antissocial. Mas o que ocorre em muitas cidades brasileiras, como o ato violento dos aeroviários dirigidos pela Força Sindical, ou como a surpresa covarde dos metroviários paulistanos comandados pelo PSOL, e ações instigada pelo PSTU como a violência "black bloc", pertencem a uma categoria nascente. São formas da pretensão de direito à violência contra o que não é violento, nem é responsável por violências econômicas, injustiças sociais nem a má qualidade de serviços públicos.

Essa pretensão de direito à violência cega, uma espécie de imitação da ditadura militar, é um chamariz para a violência contrária. É claro que a tolerância dos governantes tem limites, até porque em jogo está a sua sobrevivência política. É claro que a contenção inofensiva dos atos mais perturbadores, depositada nas funções das polícias, jamais  fiacrá nos limites da civilidade se houver desafio  físico à ação policial. E é o que tem havido. Quase sempre com intenção mesmo.

Os secretários de Segurança do Rio e de São Paulo, José Mariano Beltrame e Fernando Grella, têm posto em prática esforços incríveis para evitar confrontos e, quando ocorrem, para que suas PMs não cometam excessos contra os excessos alheios. Os avanços já foram bastante grandes. Mas o que aconteceu nas duas cidades, e ainda em Belo Horizonte, nos últimos dias, mostra que não há muito mais a avançar, tanto para prevenir como para conter a liberação de violências variadas pelos que se dizem em protesto ou em reivindicação. E que são e serão cada vez mais numerosos como ativistas e como agenda de atos. O Brasil e o mundo entram em nova e ainda não compreendida fase de conturbações.

Secretários de segurança entregaram ao Congresso, há pouco, estudos seus para adaptações da legislação penal às atuais necessidades do combate ao crime e do convívio urbano. Um exemplo simples: a pena para receptador de roubo é muito branda, o que leva ladrões à alegação de compra dos carros e das joias que roubaram e, portanto, à liberdade quase imediata para voltar ao crime. Muitas das práticas da violência, contra a pessoa e contra o patrimônio, têm a mesma facilitação. E há muito mais, e mais grave. Inclusive para conter a arregimentação dos crescentes grupos que se formam para violências a pretexto de reivindicações e protestos.

Se, porém, os governos estaduais e os meios de comunicação não demonstrarem algum interesse em discutir as propostas, para adotá-las ou reformá-las, tudo ficará nos limites a que estão chegando — tão insatisfatórios e tão cheios de maus presságios.

Indigno

Os árbitros são sempre os atacados se marcam um pênalti inexistente, ainda que iludidos. E o jogador que o induziu ao erro ou facilitou a montagem? O autor do ato forjado, o falsificador da situação, é o jogador. Está absolvido por antecipação, no entanto. Dele dirão apenas que "cavou o penâlti".

Tudo o que a situação forjada custará às vítimas, o que empenharam para chegar até ali e ao futuro que se esvai, não diz nada senão para quem foi usurpado por um ato de indignidade.

Janio de Freitas
No fAlha
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Blogueiro da Veja que critica anúncio de estatais na ESPN tem patrocínio da Petrobras

O blogueiro da Veja Reinaldo Azevedo, em seu ataque ao jornalista José Trajano, da ESPN Brasil, acusou a emissora de abrigar anúncios de empresas estatais.

Curiosamente, a página de Azevedo tinha, no momento em que ele investia contra Trajano, patrocínio da Petrobras.

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Néscio Mainardi tenta discutir com cientista

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O desabafo de Trajano

Viralizou
E eis que José Trajano, da ESPN Brasil, viralizou.

Um vídeo em que ele cita quatro colunistas que instigam ódio circula freneticamente pela internet nestes dias.

Ele enxergou, com razão, uma relação espiritual entre os que xingaram Dilma no estádio e os colunistas que mencionou.

Trajano falou de Demetrio Magnolli, Augusto Nunes, Mainardi e Reinaldo Azevedo, mas poderia falar de muitos outros.

Outro dia li uma expressão do Nobel de Economia Paul Krugman e pensei exatamente no tipo de jornalista da pequena lista de Trajano.

São os “sicários da plutocracia”. São pagos, às vezes muito bem pagos, apenas para defender os interesses de seus patrões.

Os Marinhos, ou os Frias, ou os Civitas, ou os Mesquitas, não podem, eles mesmos, assinar artigos em defesa de suas próprias causas. Então contratam pessoas como as de que Trajano trata.

Muitos leitores, em sua ingenuidade desumana, vêem alguma coragem nos “sicários da plutocracia”.

É o oposto. Ao se alinhar aos poderosos — aqueles que fizeram o Brasil ser um dos campeões mundiais da desigualdade — eles têm toda a proteção que o dinheiro é capaz de oferecer.

Não correm risco de ficar sem emprego, por exemplo. Podem cometer erros grosseiros de avaliação, de prognóstico, de estilo, do que for.

Mesmo assim, estarão seguros porque cumprem o papel de voz dos que podem muito.

Vi em Trajano um desabafo, uma explosão, e entendo por duas razões.

Primeiro, Trajano sempre foi explosivo, temperamental. É um traço seu desde sempre, bem como a paixão pelo Ameriquinha.

Depois, Trajano ecoou um sentimento que representa o espírito do tempo.

Há um cansaço generalizado, uma irritação crescente com os “sicários da plutocracia”. Não apenas pela soberba vazia, pela arrogância de quem sabe que terá microfone em qualquer circunstância, não apenas pela vilania constante.

Mas pela compreensão de que eles representam um obstáculo brutal ao avanço social brasileiro.

Eles estão na linha de frente da resistência a um Brasil menos desigual.

Eles surgem em circunstâncias especiais. Seu papel é minar, perante a opinião pública, administrações populares.

O maior da espécie, Carlos Lacerda, se notabilizou ao levar GV ao suicídio e Jango à deposição.

Eles sumiram nas décadas que se seguiram ao Golpe de 64, por serem desnecessários. O Estado — com os incríveis privilégios e mamatas à base de dinheiro público — estava ocupado pela plutocracia. Já não tinham serventia.

Voltaram quando Lula ganhou, a despeito de todas as concessões petistas fixadas na Carta aos Brasileiros.

Voltaram com o PT, assim como voltariam com qualquer outros partido que representasse ameaça às vantagens de séculos, como livre acesso aos cofres do BNDES e outras coisas do gênero.

Neste sentido, é bom entender que não é algo contra o PT e sim contra o risco, real ou imaginário, do fim das regalias.

Você pode identificar claramente o processo de retorno dos sicários.

O primeiro deles foi Diogo Mainardi, na Veja. Logo depois, também na Veja, mas na internet, apareceu Reinaldo Azevedo.

Não eram conhecidos na elite dos jornalistas, mas ganharam um espaço privilegiado porque se dispuseram a fazer a propaganda, disfarçada de jornalismo, das causas de quem quer que o Brasil continue do jeito que sempre foi.

Aos poucos foram chegando outros, e hoje são muitos.

É um processo curioso: quanto menos votos têm os representantes da plutocracia, mais colunistas da direita vão aparecendo. É como se houvesse a esperança de, uma hora, aparecer um novo Lacerda e resolver o problema.

Mas a sociedade brasileira está cansada de tanta desigualdade, e é difícil acreditar que as lorotas dos sicários vão ter algum resultado parecido com o que houve em 54 ou 64.

O Brasil merece ser uma sociedade nórdica, escandinava, em que ninguém seja melhor ou pior que ninguém por causa do dinheiro, e na qual não haja os abismos de opulência e de miséria.

Os sicários aos quais Trajano se referiu simbolizam o oposto de tudo que escrevi acima.

Desta vez, ao contrário de 54 e 64, não triunfarão — até porque a internet deu voz a quem não tinha e retirou a exclusividade monopolística e predadora dos que favelizaram o Brasil enquando acumulavam fortunas extraordinárias.

Paulo Nogueira
No DCM

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Convenção tucana reúne a massa cheirosa e militância paga



Os organizadores da convenção do PSDB que escolheu o candidato Aécio Neves (PSDB- MG) disseram que algumas milhares de pessoas estiveram no evento realizado neste sábado, no Expo Center Norte, em São Paulo. Disseram também, à reportagem do jornal O Estado de São Paulo, que a maioria recebeu R$ 25 em dinheiro para comparecer ao ato.

A maior parte da plateia foi formada por líderes políticos regionais, que chegaram em ônibus fretados. Um grupo de Minas chegou ao ato agitando um boneco gigante do ex-presidente Tancredo Neves, avô de Aécio.

Segundo informações do Estadão, moradoras na Grande São Paulo, disseram que ainda não têm título de eleitor e que cada uma recebeu R$ 25 pela presença. 

De acordo com a reportagem, três amigos de Belo Horizonte, do bairro de Barreiro, na periferia da capital e principal colégio eleitoral da cidade, são amigos do filho de uma militante. Indagados se receberam dinheiro, responderam, que sim e disse que ganharam “lanche” também.

Na plateia da convenção tucana estavam os dois últimos candidatos do PSDB à Presidência, Serra (2002 e 2010) e Alckmin (2006), cujas campanhas procuraram esconder FHC.

No discurso, Aécio Neves diz que promoverá 'reencontro do Brasil consigo mesmo'. Enquanto Paulinho da Força, discursava: "Chegou numa situação que o povo não vaia mais, esculhamba! ...

PSDB se firma como partido da elite

Abraços e fotos, só com boneco de papelão de Aécio
O que mais chamou atenção na convenção tucana não foram os ataques raivosos dirigido a presidenta Dilma e ao PT. Foi o fato de, no final  do evento, Aécio Neves, ter se afastado da "militância". Aécio, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Paulinho (da Força Sindical) e Geraldo Alckmin, foram para uma sala bater papo, enquanto o pessoal pobre, pago a R$ 25, que saiu  da periferia de São Paulo para participar do evento, tirava fotos com alguns dos vários  bonecos  de papelão de Aécio Neves espalhados em um grande salão.

Aécio não passa de um "sinhôzinho" — da Casa Grandes das Gerais. Ligado às mais arcaicas oligarquias, nunca foi às ruas, nunca se posicionou ao lado do povo.

Ah, sim... Essa é Dilma, com o povo... Você já viu algum politico do PSDB sendo abraçado assim, pelo povo?

Essa é Dilma, tirando fotos com o povo

Com Os Amigos do Presidente Lula
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Desculpas, dona Dilma


Cara dona Dilma,

dirijo-me à senhora Dilma Rousseff pessoa física mesmo, não à presidente do meu país, e chamando-a de dona porque foi assim que aprendi a me dirigir a pessoas do sexo feminino que já tenham uma certa idade e sejam mães ou avós de família.

E sabe onde aprendi como me dirigir educadamente a quem quer que seja, mas principalmente às senhoras?

Foi na zona leste, dona Dilma, lá mesmo pras bandas do estádio em que a senhora foi tão rude e desrespeitosamente tratada na última quinta-feira.

Tendo nascido e sido criado naquele cantão da cidade e conhecedor da índole daquele povo todo, dona Dilma, eu humildemente peço desculpas pelo tratamento que a senhora recebeu ali no nosso pedaço. E tenho toda a serenidade do mundo para lhe garantir: não fomos nós, povo da Zona Leste, que a ofendeu daquele jeito.

Ah, não foi mesmo, viu?

Sabe por quê? Porque mandar uma senhora como a senhora pro lugar onde a mandaram já resultou em muita briga e até morte pra aquelas bandas. Isso não se faz, ninguém por ali deixa barato ir xingando assim a mãe dos outros, ainda mais com a filha sentada do lado, onde já se viu?

A gente boa da zona leste, dona Dilma, não é disso, não.

Respeita pra ser respeitada.

Tampouco é um pessoal que fica adulando poderosos ou puxando o saco de quem quer que seja, não se trata disso. Se é pra protestar, o povo protesta. Se é pra vaiar, vaia.

Mas a educação que a gente recebeu em casa ensinou que não se fala palavrão para uma senhora e não é desta maneira, ofendendo a todos os que ouviram os absurdos que lhe disseram, que se vai se mudar alguma coisa, qualquer coisa.

Não, dona Dilma, não fomos nós da ZL que xingamos a senhora — eu falo nós, embora não more mais por aquelas bandas, porque meu coração nunca sairá de lá, e vira e mexe estou zanzando por ali, visitando gente amiga na Penha, Vila Esperança, Vila Granada, Vila Ré, Guaianases, Itaquera…

Também achei necessário me dirigir à senhora, dona Dilma, porque uns amigos que foram ao jogo me informaram que os xingamentos, as palavras de baixo calão vieram principalmente do setor do estádio em que os ingressos custavam quase mil reais ou as cadeiras eram ocupadas por VIPs — e milão prum ingresso não rola aqui na ZL, não, muito menos a gente é very important people pra receber este tipo de convite.

De modo que, mesmo sem procuração, falo em nome da gente boa da ZL para não apenas me desculpar pela grosseria, pela deselegância e pelas ofensas que foi obrigada a ouvir, mas também para fazer um convite: aparece de novo lá no nosso estádio!

Mas vai num dia de jogo do Timão.

Olha, pode ser até que a senhora ouça alguma vaia, viu, porque afinal é difícil separar uma mulher que tem filha e neto, e já merece respeito apenas por isso, da presidente da República — e ali a gente vota como quer, respeita opinião diferente e acredita em democracia.

Agora, garanto que com o estádio sem toda aquela gente diferenciada que tomou conta de Itaquera no jogo do Brasil, ninguém vai mandar a senhora àquela parte, não.

Porque se algum engraçadinho se atrever a fazer isso, vai acabar levando um tapa na boca.

Porque é assim que fomos educados.

Um abraço pra senhora e um beijo pro Gabriel, seu neto, que aliás tem o mesmo nome do meu.

Luiz Caversan
No fAlha 
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