12 de jun de 2014

Sabotagem e descompromisso

Uma hóspede sem teto chega à casa de seu anfitrião, que a recebe com as melhores condições possíveis de sobrevivência e abrigo, luxo até, estendendo-lhe o tapete vermelho e abrindo para ela o arsenal de foguetório. Aquela que está ali alojada na casa alheia, depois de curto período de gratidão, começa a voltar-se contra o salvador, e para isso tudo é pretexto. Da decoração da estalagem ao ciúme pela forma cordial como ele recebe também o séquito da viajante de passagem.

Acusa-o de ter extremo mau gosto, critica seu sofá alaranjado e impõe que o troque por um esverdeado, mais a seu gosto. Avisa que ali se instalará por apenas quatro meses, mas nessa fase não aceita cruzar com nenhum dos antigos amigos do dono da casa e exige que seu desejo seja uma ordem, como se direito fosse, até que consiga terminar a reforma da sua própria casa para se mudar em segurança.

O hospedeiro, feliz com a chegada de quem acreditava possuidora de uma varinha de condão para realizar seus sonhos, vai aceitando as imposições, aparentemente como ossos do ofício. Um ou outro dos amigos do hospedeiro se rebela e aparece no recinto, apesar das proibições, ousadia que enfurece a hóspede. É o que detona o ataque ao próprio dono do alojamento.

Publicitários acham cedo para avaliações definitivas

Marina Silva é a hóspede, Eduardo Campos, candidato do PSB à presidência, o hospedeiro. Candidata a vice, está alí abrigada, alegadamente apenas por um curto tempo, junto com seu pequeno séquito mais próximo de militantes ambientalistas e religiosos, enquanto continua a montar e registrar a sua própria agremiação, o Rede Sustentabilidade, de que será finalmente dona e de onde não precisará sair a cada vez que tiver uma de suas exigências recusadas pelos anfitriões que a receberam vida política afora.

Quando a abrigou, o candidato certamente imaginava ver transferidos votos que ela obteve na eleição de 2010 (19,3%), pelo menos aquela parte dos que não foram considerados de protesto. Isso não ocorreu, e, ao contrário, as atitudes da candidata a vice só reforçaram a sangria do apoio que Eduardo já possuia. Marina chegou reduzindo: tirou o agronegócio, a candidata melhor situada no Rio Grande do Sul, Ana Amélia, por ser do PP, para fazer aliança com o PMDB de José Sarney, protagonista nos ataques do candidato a presidente do PSB, chapa na qual é vice. Ambiguidade, confusão, incoerência. Tentou emplacar postes do Rede nas disputas de São Paulo e Minas Gerais, e não conseguindo promete sabotar. De sua região, a Amazônia, não se tem notícias de vantagens.

Esse desfazer foi sempre acompanhado de declarações reducionistas, deselegantes, arrogantes, como se líder de uma ONG em campanha presidencial fosse. Quem apostava na candidatura para valer não entende o descompromisso.

Apenas Marina Silva é o agente causador desse constrangimento na campanha de Eduardo? Não, o candidato a presidente é o maior responsável. Escancarou as portas sem que, como se faz em qualquer pensão, apresentasse à assinatura da hóspede as suas regras. Parece que nada combinaram. Apresentar como básico a manutenção das alianças históricas do seu partido, as soluções dadas pelos diretórios regionais, a manutenção das condições para fazer uma boa bancada, nada disso parece ter constado do decálogo de praxe.

O PSB não estava à venda, tinha seu rumo e seus métodos, e o ainda inexistente Rede, com o traquejo de um diretório estudantil, tomou-o de assalto, mas apenas por uns meses.

Eduardo Campos podia conhecer a personalidade de Marina e seu grupo restrito, mas não achou necessário armar redes de proteção. Faltou até agora, na sua campanha, um seguro planejamento. Sofre, também, a ausência de uma equipe profissional com experiência nacional. Hoje quem comanda é o sociólogo e marqueteiro argentino Diego Brandy, autor das campanhas de eleição e reeleição para o governo de Pernambuco. E falta também uma administração forte, hoje diluída, inclusive para gerir o problema Marina. Que poderia ser um patrimônio da campanha, mas tem sido fator de desestabilização. Disso surgem os boatos de deserção precoce da candidata a vice, de preparação do embarque do candidato a presidente na candidatura Lula, se vier o ex-presidente a trocar de lugar com Dilma. Desrespeito político do qual Eduardo e Marina não podem se queixar, pois está óbvio que a campanha de Eduardo não se preparou para o descompromisso de Marina com a vitória.

As engrenagens para alavancar Eduardo estão emperradas, mas a pesquisa Datafolha do último sábado, confirmada ontem pelo Ibope, completa um panorama eleitoral em que apenas o candidato do PSDB, Aécio Neves, está em situação de melhora, devagar, é verdade, mas sempre.

A avaliação da candidata à reeleição e em queda, Dilma Rousseff, se aproxima perigosamente dos 30% no Datafolha, quando se considerava que 40% era o índice seguro para, mesmo passando ao segundo turno, garantir a eleição. Depois de um período de extrema exposição Brasil afora, depois do programa eleitoral do PT, depois de visitar todos os Estados, depois de dar inúmeras entrevistas sobre a Copa, depois de campanhas de publicidade do governo na TV.

Apontado pela pesquisa, e também ruim para Dilma, é o anseio de mudança, que continua alto: acima dos 70%. E há uma terceira má notícia, medida apenas na antiga pesquisa Ibope de duas semanas atrás mas que precisa ser revertida: na declaração sobre em quem o eleitor não votaria de jeito nenhum (rejeição específica) Dilma pontuou 43%. Muito alto esse índice, o mesmo de José Serra no segundo turno de 2010.

Ou Dilma se recupera e inverte radicalmente a curva de avaliação, ou cede expressivamente o anseio de mudança dos brasileiros e se reduz a taxa de rejeição, ou ficará tecnicamente difícil apostar na vitória líquida e certa. Há tempo e recursos de campanha para mudar esse quadro, muito mais para ela do que para Eduardo Campos e Aécio Neves, uma vez que três em cada três publicitários de campanha continuam considerando cedo para avaliações definitivas.

Rosângela Bittar
No Valor
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WikiLeaks: "Poroshenko estuvo informando a la embajada EE.UU. en 2006"


El nuevo presidente de Ucrania, Piotr Poroshenko, estuvo informando en 2006 al embajador de EE.UU., John Herbst, sobre las consultas para la formación de un Gobierno de coalición, revela WikiLeaks.

De acuerdo con los documentos filtrados, Poroshenko actuó como informante para el Gobierno estadounidense en la primavera de 2006, mientras ejercía el cargo de diputado público.

Según la agencia de noticias RIA Novosti, Poroshenko fue elegido al Parlamento en marzo de 2006 como integrante de la lista del bloque electoral de Nuestra Ucrania del presidente Víktor Yushchenko. En ese momento se llevaban a cabo las negociaciones para la formación de un Gobierno que de la llamada 'coalición naranja'.

El documento describe la reunión de Poroshenko con Herbst el 28 de abril de 2006 en la embajada de EE.UU. durante la cual el diputado informó que en aquel momento no había progresos en la formación de la 'coalición naranja' y aseguró que en un 90% de posibilidades no iba a haber cooperación alguna con el partido de Yanukovich.

Los materiales de WikiLeaks señalan que los diplomáticos estadounidenses dudaban de la veracidad de la información proporcionada por el actual presidente ucraniano. En concreto, sospechaban que estaba implicado en las intrigas con el objetivo de provocar el arresto del primer socio de Yulia Tymoshenko, Alexander Turchínov, quien posteriormente se convertiría en su predecesor ocupando el cargo de presidente interino de Ucrania hasta el 7 de junio de este año.

El informante, por su parte, negó durante el mismo encuentro que él estuviera detrás de la reciente decisión del fiscal general Alexander Medvedko de emitir la orden de arresto de Turchínov.

No RT
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Globo estreia na Copa com pior audiência de todos os tempos


Globo e Band dominaram a audiência com a transmissão de Brasil x Croácia, na abertura da Copa do Mundo de 2014, nesta quinta (12). Segundo dados preliminares, a Globo marcou 35,1 pontos na Grande São Paulo e a Band, 9,1, enquanto a bola rolou na Arena Corinthians. Foi a maior audiência da Globo desde fevereiro, nas primeiras semanas da novela Em Família, mas o menor ibope de um jogo do Brasil em Copa do Mundo na TV aberta em todos os tempos.

Em relação ao Mundial de 2010, a queda foi significativa, de 22%. No primeiro jogo do Brasil na Copa da África do Sul, a Globo cravou 45 pontos e a Band, 10. Na abertura da Copa daquele ano, entre África do Sul e México, a Globou somou 22 e a Band, 5.

A queda da audiência da TV aberta não quer dizer que caiu o interesse do brasileiro pela Copa. Neste ano, há o dobro de lares com TV por assinatura do que em 2010. São quase 18,6 milhões de residências com o serviço, ou quase 60 milhões de telespectadores.


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Paraplégico usa exoesqueleto, chuta bola na abertura da Copa e Globo mostra ônibus da seleção


Após muito suspense, um paraplégico deu um "chute simbólico" em uma bola de futebol na abertura da Copa do Mundo do Brasil utilizando o exoesqueleto, equipamento desenvolvido pela equipe do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis.

A equipe de cientistas havia divulgado que o voluntário caminharia alguns passos para dar o simbólico "chute inaugural" do campeonato. Segundo o Comitê Organizador da Copa do Mundo, o "pontapé inicial" foi fora do campo de jogo, para não prejudicar o gramado por causa do peso do equipamento.

Após a demonstração, Nicolelis postou em seu Twitter a frase "We did it!!!!", que quer dizer, "conseguimos", na tradução do inglês. Em comunicado de imprensa, Nicolelis informou que “foi um grande trabalho de equipe e destaco, especialmente, os oito pacientes, que se dedicaram intensamente para este dia. Coube a Juliano usar o exoesqueleto, mas o chute foi de todos. Foi um grande gol dessas pessoas e da nossa ciência”.

Mais de 156 pesquisadores de vários países integraram um consórcio responsável pela investigação científica, encabeçado pelo brasileiro Miguel Nicolelis, professor da Universidade Duke, nos Estados Unidos, e do Instituto Internacional de Neurociências de Natal – Edmond e Lily Safra (IINN-ELS).

O princípio envolvido no funcionamento do exoesqueleto é a chamada "interface cérebro-máquina", que vem sendo explorada por Nicolelis desde 1999. Esse tipo de conexão prevê que a "força do pensamento" seja capaz de controlar de maneira direta um equipamento externo ao corpo humano.

No caso do exoesqueleto do projeto "Andar de novo", uma touca especial vai captar as atividades elétricas do cérebro por eletroencefalografia. Quando o voluntário se imaginar caminhando por conta própria, os sinais produzidos por seu cérebro serão coletados pela touca e enviados a um computador que fica nas costas da veste robótica.

O computador decodifica essa mensagem e envia a ordem aos membros artificiais, que passarão a executar os movimentos imaginados pelo paraplégico. Ao mesmo tempo, sensores dispostos nos pés do voluntário enviam sinais para a roupa especial. A pessoa, então, sente uma vibração nos braços toda vez que o robô tocar o chão. É como se o tato dos pés fosse transferido para os braços, naquilo que Nicolelis chama de "pele artificial".

Ainda assim, Galvão Bueno e Rede Globo cortam a imagem para destacar a chegada do ônibus da Seleção brasileira.

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Dilma terá cenário mais favorável exatamente no período de campanha

É bom olhar além das pesquisas de opinião para dar um passo à frente na análise de conjuntura e perceber seus impactos na futura campanha eleitoral. O vento está virando a favor de Dilma.

Em termos políticos e econômicos, com todos os percalços, Dilma tem um cenário que caminha do estável para o positivo.

Como já se imaginava, PMDB e PDT oficializaram apoio à sua reeleição. PSD, PP, PTB, PROS e outros estão a caminho de fazer o mesmo, sem surpresas.

As resistências que a presidenta ainda encontra nesses partidos têm muito a ver com as disputas pelos governos estaduais. Mas, como em 2006 e 2010, é preciso olhar não só os candidatos a governador, mas a relação direta que o Planalto tem com prefeitos, inclusive os da oposição.

Mesmo a subida momentânea de Aécio nas pesquisas, maior e antes do esperado, contribui  para configurar o cenário ideal para Dilma, na medida em que o PSDB se firma como o adversário principal e ideal para servir de saco de pancadas.

Dilma ainda depende, politicamente, de uma Copa do Mundo que transcorra com normalidade — torcida não só dela, mas da grande maioria da população.

Mesmo assim, os maiores riscos na Copa se concentram, sem sombra de dúvida, em São Paulo, com foco em um assunto do Governo do Estado — a campanha salarial dos metroviários.

Outro problema, a CPI da Petrobrás, tornou-se tão saturado que a própria oposição deixou de ir à sessão para ouvir o acusado que diziam ser o "homem bomba" do caso.

A possibilidade de segundo turno é ainda real, mas continua no fio da navalha. O desgaste de todos os políticos é um freio de mão puxado para os oposicionistas que, nos setores descontentes do eleitorado, são tidos mais como veneno do que como remédio para a política nacional.

Em termos econômicos, a inflação, alta no primeiro semestre, como no ano passado, tende a iniciar uma tendência de queda e reversão de expectativas negativas.

Além da melhora no preço dos alimentos, um fator crucial entrou em campo: o preço da energia está despencando. O nível dos reservatórios tem ficado acima do esperado, o que se reverte em uma previsão de afluência maior.

Somado à redução na demanda, durante o inverno, o preço da energia está caindo, e muito. A redução, em média, tem chegado a 45%. Na Região Sul, está sendo vendida 60% mais barata.

Na contramão, o governo tucano do Paraná pede que a ANEEL conceda um tarifaço de 32% em favor da companhia elétrica de seu Estado. O assunto já virou tema de campanha dos oposicionistas Roberto Requião (PMDB) e  Gleisi Hoffmann (PT) e é um  prato cheio para ser nacionalizado.

De quebra, a ameaça de crise do sistema (apagões generalizados) ficou cada vez mais remota.

A partir de agosto, com bastante tempo de TV para fazer frente à campanha midiática tucanófila, será hora da candidata responder aos ataques e dizer a que veio, sem ter que se preocupar tanto com inflação, Petrobrás e Copa como tem feito agora.

O grande adversário de Dilma está no campo social. É o risco da mesmice, se seu programa não trouxer grandes e empolgantes propostas de mudança, e o desencanto com a política, para a qual a população gostaria de uma boa chacoalhada.

Quem sabe a própria oposição forneceu o mote ideal para chacoalhar o debate sobre o sistema político.

O decreto presidencial que reforça a participação popular no Governo Federal incomodou os partidos e a mídia tradicionais até mais do que se esperava.

É um ótimo sinal de uma boa briga — a mesma que se comprou em favor do Bolsa Família e dos Mais Médicos; a que faltou no Plano Nacional de Direitos Humanos-3.

Antonio Lassance, cientista político.
No Carta Maior
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El Mundial se estrena con balas de goma y gases lacrimógenos en São Paulo


La Policía brasileña ha dispersado con gases lacrimógenos la primera manifestación contra el Mundial de Brasil 2014 registrada en São Paulo en el día en que comienza la competición, reportan fuentes policiales.

Según informa la agencia de noticias EFE, los manifestantes contrarios a la realización de la Copa del Mundo mantuvieron violentos enfrentamientos con agentes de la Policía militarizada en São Paulo, donde dentro de pocas horas tendrán lugar la ceremonia inaugural y el primer partido del torneo. 


Durante las protestas una productora de la CNN resultó herida tras ser "alcanzada por un objeto lanzado por la Policía", indicó la cadena norteamericana.


También se ha informado que las fuerzas del orden utilizaron balas de goma contra los manifestantes que estaban tratando de cortar la avenida que conduce al estadio Arena Corintios donde en unas horas se celebrará el primer partido de la Copa entre el país anfitrión, Brasil, y Croacia.

 
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Rusia pide que se investigue el posible uso de bombas de fósforo blanco en Ucrania


El embajador ruso ante la ONU, Vitali Churkin, instó a la comunidad internacional a prestar atención a las informaciones sobre el uso de bombas de fósforo blanco por las tropas de Ucrania durante la operación militar en el sureste del país.


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O futebol filosófico do Monty Phyton

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As eleições e a bola

A leitura dos principais jornais brasileiros de circulação nacional, nestes dias que antecedem a abertura da Copa do Mundo, pode provocar uma sensação de estranhamento em pessoas que ainda acreditam que jornalismo e imprensa ainda são expressões sinônimas.

Apanhemos, por exemplo, as reportagens sobre a mais recente pesquisa de intenção de voto do Ibope, que eventualmente aparecem ao lado de repercussões sobre a última consulta eleitoral do Datafolha. Embora os títulos afirmem que caiu a vantagem da presidente Dilma Rousseff, enquanto seus dois principais adversários ganharam pontos, constata-se uma mudança sutil, mas significativa, nas análises dos números.

Todo o esforço dos jornais se concentra agora em demonstrar que aumentou a possibilidade de haver segundo turno. Mas, como sabem os editores, cada pesquisa deve ser lida em um contexto próprio, que inclui o estado de espírito produzido na sociedade em geral pelos fatos mais relevantes. E, como pode perceber qualquer indivíduo medianamente habilitado, a imprensa hegemônica tende a considerar relevante tudo aquilo que pode desgastar a imagem da atual presidente e de seu governo.

Portanto, deve-se considerar que as duas últimas versões dos principais institutos de pesquisa foram produzidas sob intenso bombardeio de notícias e opiniões negativas a respeito da chefe do Executivo nacional. Até mesmo atrasos em obras de responsabilidade de estados e municípios, vinculadas à Copa do Mundo, são atiradas na conta do governo federal. Ainda assim, a reeleição da presidente é o resultado mais provável, mesmo numa disputa em dois turnos.

No Globo, uma comparação da pesquisa Datafolha, feita entre os dias 3 e 5 de junho, com a consulta do Ibope, realizada entre os dias 4 e 7 do mesmo mês, mostra diferenças tão grandes nos resultados que dá a impressão de terem sido apanhadas com anos de distância. No entanto, note-se, os levantamentos foram feitos quase no mesmo período, com amostragens e metodologias semelhantes.

Uma das duas pesquisas está errada. Ou ambas.

Lé com cré

Essa constatação pode indicar que as opiniões políticas andam tão voláteis que podem produzir distorções capazes de invalidar as próprias pesquisas, ou, pelo menos, de desautorizar a importância que os jornais têm dado a elas. Essa volatilidade é provavelmente influenciada pela proximidade da Copa do Mundo, evento capaz de alterar profundamente o humor nacional. Mas pode-se notar que as mudanças de opinião sobre as eleições ocorrem principalmente no Sudeste, região mais suscetível à influência dos grandes jornais de circulação nacional.

Essa última rodada de consultas de intenção de voto é interessante como um marco para identificar o efeito do noticiário negativo sobre as chances de reeleição de Dilma Rousseff. Deve-se, então, considerar que a disposição dos eleitores daqui a um mês vai depender crucialmente do desempenho da seleção brasileira de futebol.

Para fazer com que um de seus candidatos prediletos chegue ao segundo turno em condições de competitividade, a imprensa precisa torcer contra o Brasil na Copa. Ou alguém duvida que o conjunto monolítico das grandes empresas de comunicação tem uma clara preferência política?

Artigos, editoriais e, principalmente, as escolhas das notícias de maior destaque há muito deixaram para trás o mito da imprensa apartidária ou isenta. Resta saber quem seria o candidato de preferência da mídia, e a resposta é simples: aquele com maiores chances de evitar a reeleição de Dilma Rousseff.

Apanhando-se o pacote das pesquisas publicadas desde janeiro, pode-se concluir que o candidato com mais potencial para isso é o ex-governador Eduardo Campos (PSB), se ele superar as divergências com a base de militantes ligados à ex-ministra Marina Silva, sua candidata a vice-presidente. O outro postulante, Aécio Neves (PSDB), mais identificado com a oposição radicalizada, está próximo do seu teto.

Duas outras pesquisas publicadas na quarta-feira (11/6) completam o quadro: numa delas, feita por um consórcio formado pela Fundação Getúlio Vargas, Duke University e CFO Magazine, mostra que os executivos brasileiros são os mais pessimistas do mundo; a outra, feita pela YouGov, agência de pesquisas na internet contratada pelo New York Times, revela que os torcedores brasileiros são os mais confiantes em uma vitória na Copa do Mundo.

Agora basta ligar lé com cré, e o leitor poderá entender por que os jornais parecem meio esquizofrênicos.

Luciano Martins Costa
No OI
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Por que a Copa do Mundo desafia o Brasil?


Quando foi anunciado, nos idos de 2007, que o maior país dos trópicos sediaria o campeonato mundial de futebol em 2014, as ruas brasileiras se encheram de alegria e festa. Era desejo antigo e profundo: ser anfitrião da competição mais proeminente do esporte que marca a identidade nacional, quase sete décadas depois de ter sucumbido ao Uruguai na tragédia de 1950, conhecida como Maracanazo.

O estado de ânimo entre os brasileiros, naquele momento, também colaborou para o clima de euforia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no primeiro ano de seu segundo governo, liderava um projeto capaz de retirar milhões de cidadãos da miséria, impulsionar um crescimento potente da economia, reduzir a desigualdade social e afirmar o país como nação protagonista no cenário mundial.

Apesar da avaliação de que o Brasil teria de enfrentar muitos obstáculos para viabilizar o evento e já se preparar para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, as recompensas pela ousadia pareciam generosas. A Copa do Mundo poderia se configurar em ferramenta para reforçar a imagem internacional, ampliar o fluxo turístico, acelerar investimentos em infraestrutura e modernizar tanto os equipamentos esportivos quanto os sistemas de transporte.

O país abre as portas para o espetáculo, porém, tomado pelo mau humor e a desconfiança. De nacionais e estrangeiros. Por que, afinal, a felicidade de 2007 cedeu ao pessimismo de 2014? O que levou ao envenenamento da Copa do Mundo, pensada como vitrine das mudanças comandadas pelo Partido dos Trabalhadores de Lula e Dilma Rousseff desde 2003?

A primeira razão dessa guinada negativa talvez possa ser encontrada na confluência entre a perda de ritmo nos avanços sócio-econômicos a partir de 2010 e as turbulências provocadas pelo ambicioso projeto para o Mundial de Futebol.

Mesmo que o Brasil atualmente apresente uma das mais baixas taxas de desemprego, inferior a 6%, com aumento real do salário mínimo na casa dos 72,35% desde a posse do presidente Lula, muitas pessoas reclamam que as melhorias ficaram mais lentas. Aproximadamente 35 milhões de brasileiros foram retirados da miséria desde 2003, ampliando o mercado interno e alavancando o crescimento da economia, mas o freio no desenvolvimento afetou o dinamismo dos anos iniciais.

O presidente Lula, além de contar com alguns anos bastante favoráveis no cenário mundial, pode dar importantes saltos a frente com a adoção de programas sociais de amplo alcance, redirecionando recursos do Estado para as camadas mais pobres e excluídas. Seus bons resultados não foram apenas sociais, mas também econômicos: o PIB subiu uma média anual de 4% durante os oito anos do líder histórico petista.

O cenário mudou a partir da posse de Dilma Rousseff. Sem contar com os efeitos multiplicadores de políticas já implementadas e que, portanto, em sua fase de consolidação, não propiciavam mais benefícios de amplo espectro, a presidente também teve o desprazer de ser atingida pelos piores ventos da crise capitalista aberta em 2008.

A economia brasileira passou a crescer modestos 1,8% por ano, com redução relativa do orçamento governamental e, portanto, da capacidade do Estado em ampliar a expansão de direitos e serviços. O governo paga também o preço de continuar refém da política de juros altos, pressionado pelos bancos e os meios de comunicação sob influência do rentismo, que inibe ainda mais os gastos estatais e força maior dispêndio com o financiamento da dívida interna.

Estes dados cinzentos cercearam as possibilidades da administração federal, que moderou ou abandonou políticas para elevação salarial de funcionários públicos, construção de universidades, repactuação das dívidas de estados e municípios, investimentos em infraestrutura, modernização dos serviços públicos. Criou-se a base material para a insatisfação que explodiu nas manifestações de junho do ano passado.

As pessoas não foram às ruas, então, para reclamar de salário e emprego. Da porta para dentro de casa, no que diz respeito à renda das famílias, a curva da economia brasileira é oposta a da maioria dos países, especialmente os Estados Unidos e as nações europeias. Mas da porta para fora a insatisfação gritava: as décadas anteriores, de privatização e recessão, de redução do Estado e submissão à lógica rentista, arruinaram os serviços públicos (especialmente transporte, saúde e educação), sem que os governos petistas pudessem ter feito grande coisa para resgatá-los.

A Copa do Mundo, com seus formidáveis estádios, acabou por se transformar em mote para a indignação, contrapondo os gastos com este megaevento às restrições para a oferta de sistemas mais universais e eficazes de atendimento ao cidadão.

Além das despesas, a preparação da competição esportiva também afetava a vida de muita gente, com remoção de grupos populacionais de áreas destinadas à execução do projeto apresentado a FIFA, explosão de preços imobiliários nas cidades-sede e conturbação provocada pelas próprias obras em curso. A verdade é que, para muitos setores, o cisne acabou virando o patinho feio.

Com a coincidência entre a Copa do Mundo e as eleições presidenciais, previstas para outubro, as correntes oposicionistas e os principais veículos de informação, francamente inimigos do petismo, aproveitaram para desatar verdadeira guerra psicológica sobre o tema. O esforço teve duplo sentido: radicalizar a percepção de que a Copa do Mundo desvia dinheiro dos serviços públicos e apostar no próprio fracasso do evento.

Denuncia-se que o Estado desembolsou 83,6% dos 25,6 bilhões de reais necessários para viabilizar a competição, como se todos esses recursos fossem para a construção de arenas desportivas. Esconde-se, geralmente, que 60,1% dos investimentos são para objetivos permanentes e de interesse geral, como obras viárias, aeroportos e telecomunicação. Tampouco se dá destaque que esses investimentos, durante sete anos, geraram 3,6 milhões de empregos diretos.

O governo gastou sete bilhões de reais para a construção e a reforma de doze estádios, mais 1.5 bilhão para segurança pública durante a Copa. Isso equivale a 3% das despesas públicas anuais com educação, por exemplo. Atribuir a esses gastos as carências em infraestrutura, portanto, não tem qualquer lastro na realidade. Cálculos da Fundação Getúlio Vargas, por outro lado, indicam que o torneio deve gerar negócios adicionais ao redor de R$ 142 bilhões, além de poder quadruplicar a receita da indústria do futebol e modernizar sua estrutura.

Nem mesmo o estouro de orçamento, calculado em 20%, é algo muito grave. Mudanças nos projetos justificam boa parte dessa situação. No mais, este percentual de despesas adicionais está apenas um pouco acima da Copa do Mundo na Alemanha (14%) e bem abaixo da África do Sul (32%).

Algumas dessas obras serão entregues com atraso, pois estava prevista sua inauguração para o Mundial. Mas serão ativos importantes e úteis, mesmo assim, para melhorar a vida nas grandes cidades brasileiras. Novos aeroportos, pontes, viadutos e avenidas que ajudarão a tornar mais confortável o dia-a-dia das metrópoles.

Ainda que os fatos não justifiquem a ofensiva contra a Copa, o governo brasileiro se vê acuado na batalha midiática, dentro e fora das fronteiras. Não tanto pelos problemas concretos que podem ocorrer durante o campeonato, por erros e insuficiências, mas provavelmente porque os petistas subestimaram como seus adversários atuariam.

A comemoração de 2007 criou falsa aparência de unanimidade, que pode ter induzido lideranças da esquerda brasileira a acreditar em um cenário de paz e harmonia. Quando despontaram as primeiras contradições e crises, irrompeu onda de descontentamento estimulada a partir de setores da imprensa, nacional e internacionalmente, contra a qual o governo brasileiro se mostrou vulnerável.

Nunca antes na história do país, como tanto gosta de dizer o ex-presidente Lula, tantos dependeram tanto de tão poucos. Além de confiar que as obras garantam eficácia, segurança e conforto durante o Mundial, o humor nacional poderá depender dos onze jogadores brasileiros e seus reservas.

Talvez a beleza e os resultados do futebol brasileiro sejam a melhor vacina disponível, a essa altura do campeonato, para desfazer a narrativa catastrófica que foi deliberadamente construída para desgastar o processo político dirigido pelo PT desde o início do século.

Breno Altman
No 247
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A Copa começa

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3,5 bilhões de corações e mentes voltados para o Brasil


Copa: De Itaquera para o mundo!

O bairro de Itaquera, na carente Zona Leste da capital paulista, será o centro de mundo nesta quinta-feira (12). O novo estádio do Corinthians, o time mais popular do país, sediará a abertura da Copa. O jogo entre as seleções do Brasil e da Croácia será transmitido para bilhões de pessoas de quase 200 países do planeta. Na soma das partidas, calcula-se que mais de 3,5 bilhões de pessoas acompanhem o desenrolar dos jogos e das festanças no território brasileiro, numa cobertura que envolve 18 mil profissionais credenciados da mídia do mundo inteiro. Para isto, Itaquera se preparou. As ruas estão cobertas de bandeiras, os muros foram grafitados e o clima entre os moradores é de euforia.

Segundo o jornalista Antonio Prada, do portal Terra Magazine, nos minutos que antecedem à partida “milhares de pessoas orbitavam ao redor da arena, como que embriagadas pela materialização da Copa. Cores e sotaques entrelaçados. Turistas-torcedores, de várias nacionalidades. E a população local, que já adotou a área como ponto de encontro e de celebração. Ao redor, e pela artéria Radial Leste que une a região ao centro, pontos comerciais e residenciais não hesitam em gritar pela Copa, com bandeiras nas janelas, enormes pinturas em fachadas e um clima de festa”. É certo, como aponta o jornalista, que a euforia não é unânime. A Copa não superou os graves problemas da sofrida região.

Mas o clima geral é de festa. Até os ocupantes de um terreno próximo ao estádio, batizado de Copa do Povo, estão radiantes. Graças a sua luta, com inúmeras assembleias e passeatas lideradas pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), eles conquistaram a desapropriação da área e agora sonham com a sua casa própria — como descreveu a jornalista Lúcia Rodrigues, numa bela reportagem do blog Viomundo. O povo batalhador de Itaquera e do Brasil, apaixonado pelo futebol, está em festa. Bem diferente de setores da elite e da sua mídia privada, que sempre difundiram o complexo de vira-lata contra o país por causa da sua mentalidade colonizada e mesquinha.

Isto explica o resultado da pesquisa do Instituto Data Popular divulgada nesta semana. Ela mostra que a Copa do Mundo adquiriu as cores de uma disputa classista. As pessoas com renda superior a dez salários mínimos se opõem a realização do torneio (52% são contra); já os que ganham de um a dois salários mínimos, apoiam os jogos no Brasil (72% são favoráveis). O problema não está no futebol, mas sim nas eleições presidenciais de outubro próximo. “O que percebemos é que os mais ricos começam a acreditar que o sucesso da Copa significa a continuidade do governo”, explica Renato Meirelles, presidente do instituto de pesquisa. Felizmente, não é só Itaquera que está em festa!

Altamiro Borges
No No Blog do Miro
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#NaoVaiTerGlobo

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As Copas torcidas

Ainda que a Fifa fosse menos elitista, ou menos europeiamente obtusa em relação ao mundo não europeu, a maioria dos brasileiros não estaria nos estádios que hoje começam a abrir-se para a Copa. Assim como os que têm nas paixões do futebol o seu maior e único diletantismo, todos os outros que acompanharão os jogos estão condenados a fazê-lo pela TV.

Condenados? Isso mesmo. Para quem conhece propriamente dito, em qualquer medida, a imagem de TV ainda não permite ver como o jogo de fato se processa, com a oferta ao espectador de pedaços do campo, apenas. A visão do todo, das distribuições e articulações táticas dos times, é essencial para a percepção do jogo, mas não entra na tela. Há quem aprenda a intuir, no entanto parecem poucos.

A outra condenação é pior. Alcança todos, não só os reais e os pretensos entendidos. Poucos dos chamados narradores esportivos são narradores de fato e sempre. Se houver alguma possível patriotada em cena, o narrador esperado pelo ouvinte revela-se apenas um torcedor mal disfarçado. Para isso, não é incomum que seja preciso distorcer, omitir e ser injusto. Deformação que constitui, por absurdo que seja, uma escola de narração, a pretexto de identificar-se com o público. E, não declarada mas determinante, de conveniências para a publicidade.

Depreciada, a informação que o espectador anseia se perde, entre a atitude torcedora e as divagações de quem deveria complementar a imagem com os pormenores inalcançáveis pelo espectador/ouvinte. Por exemplo: aos movimentos dos atletas juntou-se a transformação deles em "outdoors" publicitários, resultando em maior dificuldade de identificar cada um a cada momento. Isso não conta, porém, para o mal denominado narrador, que prefere banalidades biográficas de um atleta, estatísticas de falsa história e outros descasos com sua função.

Não é por acaso que os narradores objetivos e jornalísticos têm dificuldade de chegar ao nível mais alto de projeção e reconhecimento nas maiores emissoras. Mas a narração do "narrador" torcedor, dirigindo o ouvinte para distorções e passionalismos, é um sistema de deseducação esportiva. E nenhum aprendizado possível com o esporte é mais útil que o de ser ético e justo com o outro.

As maiores emissoras de TV precisam dar aos espectadores um pouco mais do que lhes é devido nos espetáculos esportivos.

Para cada lado

É aconselhável não desconsiderar, por falta de comprovação imediata, que o caso criado pelo PSB de Eduardo Campos com Marina Silva, ao aderir à candidatura de Geraldo Alckmin, tenha sido proposital. Está forte na banda eduardista a convicção de que Marina Silva e o seu grupo da Rede representam mais ônus do que benefícios para o candidato do PSB, e conviria vê-los dissolver a associação.

A rpimeira reação de Marina Silva foi um recuo com docilidade incomum nela. Coerente com uma percepção de propósitos não propriamente eleitorais na adesão do PSB de Campos ao candidato do PSDB paulista, por ela repelido.

Esquisito

O recente Ibope reproduz a queda de três pontos percentuais indicada pelo Datafolha no índice de Dilma Rousseff. Inverte, pouco fora da margem de erro, o índice do Datafolha para Aécio Neves, atribuindo-lhe, em vez da perda de um ponto, mais dois. No índice de Eduardo Campos, porém, dá-se o espanto: o índice, além de ser positivo, sobe para o dobro do visto pelo Datafolha. Neste, há queda de Eduardo Campos de 11% para 7%, e no Ibope há subida de 11% para 13%.

Metade das sondagens deu-se nos mesmos dias. A esquisitice não diminui com a explicação de que os métodos de pesquisa são diferentes, porque, diferentes embora, se destinados a captar uma realidade deveriam apresentar, no mínimo, resultados coerentes e próximos.

Há algo, e não mais no velho reino da Dinamarca. Talvez o mesmo que houve na eleição passada.

Janio de Freitas
No fAlha
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Uma Copa com Sartre

Críticas à Seleção mostra preconceito diante do prestígio de brasileiros pobres, em especial negros, com futebol

Pensei que poderíamos esperar um pouco — quem sabe um jogo mais difícil, ou mesmo uma eventual derrota da Seleção numa partida — para assistir às conhecidas manifestações de preconceito contra nossos jogadores de futebol. Você sabe.

Se os títulos mundiais ajudam a criar uma celebração nacional que permite perdoar temporariamente as diferenças gritantes entre os brasileiros e mascarar o nosso racismo, as derrotas costumam abrir a lata de lixo dos piores instintos.

Costumam ser acompanhadas do vocabulário e expressões que, com clareza mais ou menor, remetem a herança cultural de uma sociedade com passado escravocrata.

Se os títulos mundiais criam heróis, as derrotas criaram “covardes” e “vendidos.” Na melhor das hipóteses, “mercenários”. (Como se pode confiar em quem “cobra” para defender a pátria?!)

Nós temos na verdade uma relação ambígua com o futebol. Nas vitórias, adoramos o prestígio que cinco títulos mundiais proporcionam.

Em caso de derrota, o futebol permite a desforra de quem se sente incomodado com a influência e o prestígio que uma Copa do Mundo permite aos brasileiros pobres, especialmente negros, que conseguiram destacar-se num esporte que hoje mobiliza bilhões de dólares no mundo inteiro, abre as portas mais exclusivas e seduz belíssimas mulheres. Imagine a inveja. A raiva.

Antes mesmo da Copa começar, acabo de saber que tem gente reclamando que nossos craques não costumam ler Jean Paul Sartre e prefem samba e pagode. Então é isso. Além de jogar futebol, tentar ganhar a Copa em meio a tanta pressão e hostilidade, eles deveriam ler Sartre.

Você sabe a origem da história.

Ribery, o grande craque da França, citou o título — veja bem, o título — de um romance de Jean Paul Sartre, “Com a morte na alma”, terceiro volume de uma trilogia de ficção situada na Segunda Guerra, para definir seus sentimentos no momento em que recebeu a notícia de que estava fora da Copa. Normal.

Sartre é um monumento nacional da cultura francesa e leitura escolar obrigatória. “Com a morte na alma” retrata a França ocupada, fala dos campos de concentração. Li a trilogia na juventude e gostei muito.

Mas é bom lembrar que pelo menos neste aspecto nossos craques de futebol são iguais a maioria de nossos estudantes, médicos, advogados, publicitários, jornalistas. Eles também não leram Sartre. Ande pelos cafés de Higienópolis (ou de qualquer outro bairro habitado por pessoas de maior educação formal do que a média) e pergunte: você leu Sarte? Sabe o titulo de uma obra?

Esqueça Sartre e procure por grandes autores nacionais no Largo São Francisco, na Paulista.

Joaquim Nabuco? Guimarães Rosa? Machado de Assis? Difícil.

É muito provável que você ouça menções a Paulo Coelho. Foi ele que chamou Ronaldo, o Fenômeno, de imbecil, porque não disse o que achava que deveria ser dito sobre a Copa. (O próprio Fenômeno, numa virada fenomenal, disse 48 horas depois que sentia vergonha da Copa, da qual foi um dos organizadores durante três anos)

Depois do Sartre de Ribery, teve gente que ficou passando mal só de pensar no autor que um jogador brasileiro iria citar, se ficasse na mesma situação. Em tom de ironia, apresentou-se uma lista de sambistas e pagodeiros que poderiam ser mencionados. Nós sabemos qual é a origem do samba, do pagode. E sabemos aonde essa comparação quer levar, o que ela sugere.

Vamos combinar: embora tenha produzido um pensamento indomável, Sartre foi incorporado de forma desinfetada à cultura de muitos intelectuais brasileiros, tornando-se sinônimo de complexos profundos. Mais do que uma visão cultural, foi transformado numa espécie de grife.

Visto de forma superficial, ele tem um “não sei quê” capaz de provocar dores e tristezas especiais. Talvez porque seja “francês” e no passado muita gente que não tinha se rendido as delícias de Nova York-Washington achava que isso era melhor do que “norte-americano.”

Ou porque era vivo e radical quando alguns de seus admiradores nostálgicos de hoje se imaginavam muito mais vivos e mais radicais do que se tornaram.

Seja como for, numa campanha presidencial, quando Fernando Henrique e Lula se enfrentavam, houve quem dissesse que o país iria escolher entre um Sartre e um encanador.

Na verdade, Sarte é um autor pouco lido até por muitos cidadãos que deveriam ter a obrigação profissional de estudar sua obra, como professores e intelectuais. O que é uma pena.

Estudioso da vida em países colonizados, capaz de associar o racismo e a tortura ao domínio colonial europeu sobre a África, Sartre deixou ensinamentos úteis para o entendimento da vida brasileira.

Vamos estar preparados, portanto. Qualquer derrota nos gramados irá permitir o “mórbido deleite,” como dizia Gilberto Freyre, em Casa Grande & Senzala, página 370:

“Não há brasileiro de classe mais elevada, mesmo nascido e criado depois de oficialmente abolida a escravidão, que não se sinta aparentado do menino Brás Cubas na malvadeza e no gosto de judiar (sic) com o negro. Aquele mórbido deleite em ser mau com os inferiores e com o animais é bem nosso: é de todo menino brasileiro atingido pela influência do sistema escravocrata.”

Paulo Moreira Leite
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Busca, apreensão e intimidação: o estilo Aécio sai de Minas para o Brasil

A produtora de TV Rebeca Mafra, que teve a casa invadida
Os mandados de busca e apreensão de computadores e outros equipamentos eletrônicos na casa de seis pessoas suspeitas de difamar Aécio Neves é uma amostra de seu modus operandi. Esse é o estado de vigilância e intimidação que ele impôs em Minas, cujo resultado é uma imprensa dócil, amedrontada e a favor.

A investigação foi pedida pelo próprio Aécio. O partido emitiu uma nota: “O PSDB, em nenhum momento, requereu a realização de busca e apreensão de quaisquer equipamentos ou documentos, sejam em residências ou em sedes de empresas”.

Fala-se em “quadrilhas virtuais”. Rebeca Mafra, produtora do Canal Brasil, teve seu apartamento na Lapa, no Rio, invadido. “Um grupo de sete oficiais revirou minha casa toda. Levaram um computador, chip da máquina fotográfica, um pen drive e dois HDs externos, tudo material de trabalho”, disse.

“Eu virei perseguida política de um dia para o outro. Eu nunca posto nada de política em rede social. Tenho amigos muito engajados que não sofreram abuso desse tipo. Eu não faço parte do eleitorado dele, mas nunca difamei ninguém. Me sinto insegura. Teria de haver um técnico para que eles realizassem a perícia dos dados sem levar nada, mas levaram isso tudo para a 5ª DP”.

Para além da truculência, há o fator óbvio da ineficácia da medida. Aécio e seus assessores sabem que os boatos não foram inventados por aquelas pessoas e que aquilo não servirá para contê-los. A ideia, porém, é mandar um recado de intimidação. O próximo pode ser você.

E como ficará Rebeca Mafra, que teve a casa ocupada? (Ela conta que escapou de ter a porta arrombada porque uma amiga tinha a chave e viu a movimentação) A quem ela deve apelar?

A Justiça que agiu com rapidez e rigor para apreender laptops não será a mesma. Mas Rebeca, como você, teve um aperitivo do estilo aecista de governar, de lidar com as críticas e, num sentido mais amplo, com o mundo.


Kiko Nogueira
No DCM

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Check-list pra Copa


Duke
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Isso é Ser Brasileiro essa é a Copa das Copas

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Joaquim Barbosa tenta incriminar advogado que o enfrentou

Joaquim Barbosa não é uma pessoa confiável. É capaz de qualquer subterfúgio para defender suas posições. Até armar uma acusação improvável contra o advogado Luiz Pacheco — que cobrou dele a colocação na pauta de recurso sobre a prisão domiciliar de José Genoíno.

O desempenho do advogado no plenário do STF foi firme e perfeitamente normal. Existem as gravações para comprovar. Conversei com ele logo após o incidente estava com pleno domínio de suas faculdades mentais.

Barbosa é capaz de manipular provas para defender suas teses. Que se tome cuidado para impedir uma armação para cima do advogado.

O caso da tentativa de escuta do Palácio do Planalto pelo Ministério Público do Distrito Federal casa-se com decisão recente sua — de prorrogar a prisão fechada de réus devido a uma suposta denúncia anônima cujo autor não quis se identificar. Em dois casos a mesma jogada do off. Agora, um segurança em off incrimina o advogado.

Digo aqui: o presidente do STF Joaquim Barbosa é um manipulador! E já deu provas sobejas disso.

A primeira manipulação ostensiva de Barbosa ocorreu no julgamento do senador e ex-governador de Rondônia Valdir Raupp.

De acordo com seu relatório, Raupp teria desviado recursos do Banco Mundial. Seu relato convenceu cinco Ministros que o acompanharam no recebimento da denúncia.

Coube a Gilmar Mendes identificar a falha no relatório. Um ordenador de despesas do estado havia lançado mão de recursos do convênio para cobrir uma situação momentânea de falta de caixa. Assim que soube, o governador abriu inquérito e mandou devolver os recursos aos cofres do Estado.

Informados dos novos dados, alguns Ministros decidiram mudar seu voto. Barbosa requereu então vista do processo para impedir que um colega — em véspera de aposentadoria — pudesse modificar seu voto.

Uma segunda manipulação aconteceu no chamado mensalão do PSDB. Barbosa apresentou um documento que teria sido assinado por Eduardo Azeredo. Para fundamentar a denúncia, sustentou que a defesa sequer rebatera o seu conteúdo. Era blefe. O advogado de Azeredo, José Gerardo Grossi, explicou que não rebatera porque o documento sequer fazia parte da denúncia.

A última de Barbosa agora é se valer dos seguranças do STF para acusar o advogado Luiz Fernando Pacheco de estar embrigado.

Repito: quando se trata de defender suas teses, Joaquim Barbosa é um manipulador. Ele já ultrapassou todos os limites da decência jurídica.

Luís Nassif
No GGN

O fato:




A versão globlal:




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JB perdeu a última chance de provar que sua valentia física não é seletiva


Pois eu acho que Joaquim Barbosa perdeu uma esplêndida oportunidade de provar se sua valentia física é seletiva ou não.

Em 2008, ele se desentendeu com um velho integrante do STF, Eros Graus, e só não o agrediu porque foi contido.

Eros era um quase septuagenário, e disse que JB depois de bater em mulher bem que podia bater também num velho.

A primeira mulher de Barbosa lavrou um boletim de ocorrência em que se queixava de haver apanhado do marido.

Pois hoje o clima para o pugilato estava estabelecido. O advogado de Genoino estava claramente com raiva de Barbosa. Não quis perder a oportunidade de dizer-lhe umas verdades.


No tapa mais sutil e mais doído, afirmou que JB não honrava o Supremo. E se recusou a parar de falar, e imprecar, mesmo quando o microfone foi desligado.

Era a hora de Joaquim Barbosa repetir o que fez com o velho Eros: partir para cima.

Só que o advogado era jovem, troncudo, marrento e, aparentemente, trocaria murros com enorme prazer com Joaquim Barbosa.

Onde a coragem física?

Ficou guardada. JB preferiu se valer, prudentemente, de seguranças.

Pois perdeu a oportunidade — a derradeira em sua calamitosa passagem pelo STF — de desmentir a maldição de Eros, e provar que sua coragem física vai além de mulher e velho.

Paulo Nogueira
No DCM
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O Estado e a mídia: uma relação nada republicana

Informação pública, lucro privado

Há algo de podre no reino do escândalo, além do próprio escândalo. É o fato de que boa parte das denúncias, sejam elas contra gregos ou troianos, provém de relações promíscuas entre agentes públicos e os veículos de imprensa.

O caso mais gritante é certamente o dos processos que deveriam correr em sigilo. O segredo de justiça tornou-se uma instituição das mais desmoralizadas. A mídia não lhe dá a mínima bola, já se sabe disso faz tempo, mas ela é culpada mais por cumplicidade que por autoria.

Quem joga o sigilo das investigações na lata do lixo são agentes das polícias, do Judiciário e do Ministério Público, justo aqueles que deveriam ser seus guardiães.

Com isso, vai para o esgoto um de nossos preceitos constitucionais, o da presunção de inocência. E vão para o paredão pessoas que as investigações e julgamentos podem revelar serem, afinal, inocentes.

Segredo de justiça não é feito para acobertar crimes e criminosos. Quem faz isso são investigações mal feitas ou não feitas; julgamentos morosos; juízes negligentes com prazos; e aquela imprensa que acaba decidindo selecionar alguns escândalos e manter outros sobre seu obsequioso segredo. Hoje, é a mídia quem decide o que tem e o que não tem segredo.

Em meio ao turbilhão de acusações, passa desapercebido um detalhe que faz toda a diferença: quem divulga?

Normalmente, o agente público que é conhecedor de uma informação pública ainda não divulgada, seja sigilosa ou não, escolhe um veículo de sua preferência para "dar" a informação. Quanto maior a audiência, melhor.

Mas todo e qualquer servidor público sabe muito bem que está impedido, pela Lei da Improbidade (Lei 8.429/1992); pela Lei do Regime Jurídico do Servidor Civil (Lei 8.112/1990); e pelo Código de Ética Profissional do Servidor Público (Decreto 1.171/1994), de se utilizar do cargo para beneficiar familiar, amigo ou "terceiros".

Passar uma informação pública reservada a um único veículo é proporcionar uma vantagem indevida a uma empresa privada que vive da venda de informações. O que o jornalismo chama de "off", "furo" e "informação exclusiva" é lucro no mercado. Uma empresa recebe, outras não.

Mídia técnica: um negócio de pai para filho

A comunicação governamental é uma teimosa descumpridora do provérbio de que tamanho não é documento. A preferência por financiar, em montantes absurdos, um pequeno grupo de grandes corporações midiáticas é camuflado por um eufemismo apelidado de "mídia técnica" por quem comanda a publicidade governamental.

A mídia técnica é um círculo vicioso no qual informações exclusivas, conseguidas graças a agentes públicos que as repassam por meios escusos, são divulgadas por um veículo antes de serem publicadas oficialmente.

Com toda naturalidade, essas informações são vendidas nas bancas, no rádio, tevê e internet. Essas vendas aumentam a audiência dos veículos, que são depois remunerados por essa mesma audiência bombada pelos agentes públicos.

A esquizofrenia que se abate sobre governos de todos os partidos pode ser assim resumida: os governos dão informação privilegiada a alguns veículos de imprensa e depois a compram de volta, a peso de ouro, na forma de publicidade. É ou não é um negócio de pai para filho?

Todos os grandes veículos da mídia tradicional não nasceram grandes. Eles ficaram maiores graças à sua íntima relação com o Estado. Coabitaram por longas décadas com autoridades, com especial gosto por frequentar sua cozinha.

Não à toa, um dos assessores de imprensa do governo Geisel citou, em um livro de memórias, alguns articulistas muito conhecidos do meio jornalístico como habituais "comensais" do Palácio do Planalto. Outros presidentes vieram, mas os comensais continuaram se alimentando de sua proximidade com o poder.

A informação é um bem público — e um dos mais preciosos. Ela pertence a todos, e não a um veículo particular da imprensa. Ela não pode ser "dada", barganhada ou vendida no mercado. Uma matéria que começa com "Governo anuncia..." não pode ser exclusiva para assinantes. Informação de órgão público não pode ser privatizada.

Mas o que ocorre não é e nunca foi isso. Autoridades públicas federais, estaduais e municipais fazem anúncios com exclusividade em alguns veículos prediletos.

Ministros de tribunais superiores antecipam decisões a jornalistas amigos, que depois vão dar descontos camaradas na prestação de serviços como mestres de cerimônia nas faculdades desses mesmos ministros — santa coincidência!

Relatores de CPIs passam cópias de seus votos por baixo dos panos, antes de serem lidos.

O finado Antonio Carlos Magalhães ensinava que, dependendo de quem era o jornalista que ligava à sua procura, era capaz de parar uma cerimônia oficial para atendê-lo; se fosse outro menos importante, mandava o assessor avisar que retornaria a ligação mais tarde.

Assessores de Comunicação (Ascoms) são ensinados a fazer do seu ofício um exercício de coleguismo. E são recriminados pelos "colegas" quando se negam. A suspeita imediata é: "se eu não estou recebendo nada, alguém está. Maldito Ascom!"

Informação pública não é amostra grátis

Ocorre que essas informações são dadas por quem é apenas o portador da informação, e não seu dono. É como um carteiro que resolvesse abrir uma encomenda e dá-la a quem achasse mais interessante. Informação pública não é para ser distribuída como presente ou como amostra grátis.

Informações públicas ou são divulgadas para todos, como deve ser a regra, ou não podem ser dadas a ninguém, como é a exceção, nos casos de sigilo.

Já passou da hora de o Estado Republicano (governos, legislativos e Judiciário) fazer o dever de casa de acabar com a farra da informação privilegiada, em "on" (quando a fonte se identifica) ou em "off" (quando não se identifica).

Informação vazada e divulgada com exclusividade é um escândalo. Deve ser objeto da desconfiança e repugnância de todos — há sempre algo por trás que nunca está bem explicado.

Mesmo que a mensagem seja verossímil, o viés com o qual é divulgada e as relações muitas vezes promíscuas e nada republicanas que a permeiam deixam no ar esse sentimento de que, de fato, o furo tem algo de podre.

Antonio Lassance
No Carta Maior
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