25 de mai de 2014

Ser rico e dono da mídia, que mal tem?

Qual o problema de a família mais rica do Brasil ser dona dos principais meios de comunicação do país? Resposta: poder demais

Roberto Marinho (de bigode) e seus três filhos, todos na lista da Forbes
No último dia 13, a Revista Forbes divulgou seu ranking de “ricaços” do Brasil. Os Marinho lideram a competição com uma fortuna estimada em US$ 28,9 bilhões. Qual o problema de a família mais rica do Brasil ser dona dos principais meios de comunicação do país? Resposta: poder demais. Poder econômico e cultural (ideológico, simbólico ou como se quiser chamar). Isso se falarmos genericamente.

Se pensamos de forma mais concreta, observando a história do setor da comunicação social no Brasil, responderemos de outra forma. O total domínio do interesse privado-comercial, o jogo de influências (e privilégios) políticas, a inexistência de mecanismos democráticos de participação social na comunicação (o que gera um sério problema para a garantia da liberdade de expressão), a extrema oligopolização e uma série de outros problemas nos fazem pensar que a resposta mais correta, na verdade é: dominação demais.

Uma sociedade que pressupõe que “todo o poder emana do povo”, que se pretende “livre, justa e solidária” e que afirma que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações” deve fazer os ajustes necessários para que possa garantir liberdade, justiça, solidariedade, igualdade e poder popular. E isso significa não permitir que o poder se concentre nas mãos de alguns poucos indivíduos. E dinheiro é poder. E comunicação é poder.

Opa! Ouvi alguém ali comentando: “mérito!”. Será? Dos 65 bilionários constantes na lista de ricaços do Brasil, 25 são “herdeiros”. Assim também acontece coincidentemente com o trio de irmãos Marinho. Ainda que não fosse isso, porém, quem disse que é legítimo o assassinato da democracia pela meritocracia? E que mérito se tem em ser mais poderoso porque se tem mais recursos do que os outros?

Imediatamente atrás dos Marinho, no ranking, estão as famílias de banqueiros. Safra (da família homônima), Ermírio de Moraes (Votorantim), Moreira Salles (Unibanco-Itaú). Os governos do Brasil pós-ditadura não ousaram mexer com os primeiros, magnatas da comunicação, e nutriram os últimos, senhores do vil metal. Quem se atreveria a enfrentar tamanho poder, diante de compromissos mais urgentes como a garantia da governabilidade? Já pensou o que seria de um governo deslegitimado por todos os meios de comunicação? Melhor não mexer aí, ganhar confiança, oferecer uma vaga de ministro ao Hélio Costa, não insistir com esse papo de mané projeto de Agência Nacional do Audiovisual... Vai que os Marinho se zangam... Já pensou? Nem pensar!

Aliás, os Marinho já constam no ranking da Forbes desde 1987, primeira vez em que foi publicado, acompanhados pelas famílias Ermírio de Moraes e Camargo (Camargo Correa). E, assim, se dá prosseguimento à triste tradição brasileira de mandar quem pode (e tem poder) e obedecer quem tem juízo. Ou não.

Bruno Marinoni, repórter do Observatório do Direito à Comunicação, doutor em Sociologia pela UFPE e integrante do Conselho Diretor do Intervozes
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A brincadeira da mídia com a opinião pública

É inacreditável o nível de autossuficiência atingido pelos grupos de mídia, na fase mais crítica da sua história.
Meses e meses batendo nos gastos da Copa, ajudando a criar essa barafunda informacional, de misturar investimentos em estádios com gastos orçamentários, criticando os "elefantes brancos", anotando cada detalhe incompleto de obras que ainda não estavam prontas, ignorando o enorme investimento na imagem do país.
De repente, como num passe de mágica, fazem uma pausa e, em conjunto, passam a enxergar as virtudes da Copa — maior evento publicitário do ano para eles.
O Estadão solta enorme matéria sobre "a Copa das Copas", lembra o óbvio - vai ser o evento de maior visibilidade para o Brasil, em sua história. 14 mil jornalistas levando a imagem do país para todos os cantos, o maior público de televisão para um evento.
A Folha dá o óbvio incompleto: a informação de que os gastos com a Copa representam um naco dos gastos com educação. Não ousou explicar que são recursos dierentes, que financiamentos não podem ser confundidos com gastos orçamentários, que gastos com obras são permanentes. Mas vá lá!
O que é impressionante é supor que se pode brincar dessa maneira com a opinião de seus leitores, levá-las para onde quiser, ao sabor da manchete do momento, da estratégia de ocasião. Será que não há uma cabeça estratégica para explicar que essa desconsideração para com o leitor é veneno na veia da credibilidade?
Dia desses o Ministro Aldo Rabello ao que parece assimilou as críticas contra sua ausência dos debates da Copa e deu uma boa entrevista a TV Brasil, com números e argumentos sólidos.
A explicação para a anomia do governo com o tema foi chocante. O marqueteiro do Palácio desaconselhou qualquer campanha de esclarecimento porque, segundo ele, as pessoas não estavam associando Copa com governo e a campanha poderia estabelecer essa associação.

Luís Nassif
No GGN
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O Lado Sujo do Futebol




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Fifa vai pagar ao Brasil R$ 16 bi em impostos

Dados do governos desmentem vídeos divulgados pelo comentariosta Jorge Kajuru na internet

Em vídeos na internet, o comentarista esportivo Jorge Kajuru tenta convencer que a Copa do Mundo no Brasil é um mau negócio porque o dinheiro público investido não retornará. Ele alega que o País decidiu isentar a Fifa de impostos, ao contrário da África do Sul, Alemanha, Japão e outros países.

Tudo mentira. O fato é que cada bilhete vendido recolhe impostos, pois o Centro de Ingressos, o Comitê Organizador Local e prestadores de serviços da Fifa são tributados nos termos da legislação nacional.

A receita fiscal no evento deve chegar a US$ 7,2 bilhões (R$ 16 bilhões), nas contas da Ernst & Young e da Fundação Getulio Vargas — uma soma muito superior ao investimento público nos estádios.

O Kajuru também erra ao dizer que as obras custaram três vezes mais do que o previsto. O Castelão, em Fortaleza, saiu 17% mais barato. A Arena Corinthians já previa custo de R$ 820 milhões no primeiro orçamento, em 2011. Outras cinco arenas tiveram ajustes baixos: Arena Pernambuco (1%), Arena da Dunas (14%), Arena Fonte Nova (17%); Arena Pantanal e Arena da Amazônia (24%).

Mineirão, Maracanã, Arena da Baixada e Mané Garrincha tiveram seus orçamentos elevados entre 63% e 88%, por causa de mudanças nos projetos de engenharia. O único orçamento que dobrou foi o do Beira-Rio, em Porto Alegre (RS), em razão de alterações profundas na planta inicial.

Movimento na economia 

Apenas na construção e reforma dos 12 estádios da Copa do Mundo, calcula a Fundação de Pesquisas Econômicas (Fipe), foram criados 50 mil novos empregos. Um bom negócio, ainda mais em tempos de crise financeira internacional, quando os países competem para manter os postos de trabalho e a atividade econômica. Entre 2010 e 2014, os jogos vão movimentar cerca de R$ 142 bilhões a mais na economia brasileira com a geração de 3,6 milhões de empregos, segundo a FGV e Ernst Young.

A Fipe calculou que apenas a Copa das Confederações fez o PIB brasileiro aumentar em R$ 9,7 bilhões, com a manutenção de 303 mil empregos. Para a Copa do Mundo, os economistas da USP estimam um aumento de R$ 30 bilhões a mais no PIB.

Isenção

A Fifa ganhou isenção fiscal na importação de bens, como uniformes, carros e ônibus. Tudo vai permanecer no Brasil, mas não representa risco de mercado para alguma confecção de Joinville ou àquela nova fábrica da Fiat que está sendo montada em Pernambuco — com direito a centro de inovação tecnológica, a partir dos benefícios do programa federal Inovar-Auto.

A indústria nacional continua segura neste ponto, essas pequenas importações não representam exportação de empregos. Apenas facilitam a contabilidade dos jogos, pois os patrocinadores dão bens e não recursos.

As emissoras de TV também vão trazer muitas toneladas de equipamentos para garantir que as imagens do torneio brasileiro cheguem ao mundo todo e não vão pagar impostos por isso. O benefício de divulgar o Brasil vale muito mais do que o custo em renúncia fiscal, porque têm um impacto maior do que as campanhas que o governo federal poderia fazer com essa possível arrecadação.

O Congresso Nacional aprovou a Lei 12.350/2010, que concede isenção de tributos federais à Fifa, num processo normal e democrático. Essas permissões, como facilidades nos vistos de entrada de estrangeiros (turistas e trabalho), são compromissos razoáveis do país-sede para acolher o evento internacional.

Tanto a Alemanha quanto a África do Sul conferiram benefícios tributários à Fifa. País algum, porém, nem mesmo o Brasil, isentou a Fifa ou qualquer outro parceiro comercial (consultores, etc) de pagar tributos por negócios que não tenham vinculação direta com os jogos.

Se o leitor quiser comparar as concessões brasileiras às da África do Sul, por exemplo, basta clicar aqui, com documentos apenas em inglês.

Bola no campo

Kajuru repete em seus vídeos que o governo brasileiro foi bonzinho com a Fifa porque comprou o resultado final para ajudar na eleição presidencial.

Neste caso, além de mentir reiteradamente por ingenuidade ou total falta dela, Kajuru comete ilícitos de injúria calúnia e difamação. Como dizia nosso grande craque Garrincha, seria preciso combinar com os suíços (a sede da Fifa fica em Zurique) e também com outras nações pouco poderosas e dispostas a vir com seus hinos nacionais, bandeiras e heróis populares. Gente como os norte-americanos, franceses, japoneses, alemães, enfim, o G 7 e o G 20.

Agência PT de Notícias
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Por trás da desoneração

Cortes em receitas do Estado são caminho mais fácil para pressionar por cortes em programas de bem-estar social

Confesso que fiquei espantado com o mais recente pedido de grandes empresários que estiveram no Planalto para uma conversa com Dilma. Eles querem transformar a desoneração da folha de pagamentos — decisão provisória prevista para durar até o final de 2014 — em medida permanente.

Não conheço ninguém que goste de pagar impostos – nem mesmo aquele que paga sem saber – mas não consigo enxergar um motivo socialmente justificavel nem economicamente positivo para uma medida dessa natureza. Estamos falando de uma redução de receitas da ordem de R$ 20 bilhões por ano. É quase um Bolsa Família, que implicou num gasto de R$ 24 bilhões em 2013.

Mas ao contrário do Bolsa Família, cujos benefícios para o país são indiscutíveis, até agora não se demonstrou quais vantagens a desoneração trouxe ao país. Faltam números e argumentos sólidos para justificar a medida.

A tese mais comum é que as desonerações poderiam facilitar a contratação de trabalhadores, na medida em que reduzem os encargos das empresas. É uma forma generosa de apresentar as coisas, vamos combinar. O certo é que a redução de gastos com os trabalhadores implica numa elevação nos lucros das empresas. Não há nada de errado nisso, obviamente. Mas é bom saber do que estamos falando.

Economistas que procuraram respostas para o funcionamento do capitalismo real, como John Maynnard Keynes, sempre contestaram essa visão sobre o funcionamento do mercado de trabalho. Para eles, as empresas contratam trabalhadores quando precisam de mão-de-obra, pagando o que for necdessário para contar com seus serviços. Dispensam, sem piedade, quando não vale à pena. Durante a década de 1930, os Estados Unidos deixaram a Grande Depressão para trás criando novas leis sociais e distribuindo benefícios, o que implicou em fortalecer as receitas do Estado para que a renda pudesse ser redistribuída.

No pesadelo europeu posterior a crise de 2008, o corte de salários, benefícios e pensões foi uma das primeiras ideias lançadas para tirar o Velho Mundo da crise. Os resultados foram pífios, ou nulos, na maior parte.

No Brasil, costuma-se justificar a desoneração como uma maneira de diminuir a carga tributária, considerada elevada demais pelo consenso de economistas da oposição, ainda que ela tenha dado seu maior salto durante o governo FHC.

Sem deixar de debater ajustes e mudanças, aqui e ali, falta compreender um ponto importante. Alta, ou baixa, conforme o ponto de vista, a carga tributária deve ser compatível com aquilo que uma sociedade espera do Estado. Desde a Constituição de 1988, pelo menos, os brasileiros deixaram claro que optaram pela formação de um Estado de bem-estar social, ainda rudimentar, limitado, cheio de falhas — mas real. O ponto em debate é este: preservar, ou não, as possibilidades do Estado brasileiro assumir funções de proteção social, distribuição de renda e ampliação das oportunidades aos mais pobres. Ou devolver o futuro dos brasileiros às mãos do mercado. Enfim: quem falava em escolas padrão-FIFA, postos de saúde idem, só estava querendo enganar o povo que foi a rua fazer protesto?

Não vamos nos iludir. Receitas menores implicam, inevitavelmente, em pressões maiores para o Estado cortar gastos, diminuir investimentos, em nome do equilíbrio das contas públicas.

O jogo é assim. Nós sabemos, também, quem paga a conta.

Paulo Moreira Leite
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Dilma envia ao Congresso proposta de participação popular na reforma política

A presidenta Dilma Rousseff anunciou neste sábado, 24, que encaminhou ao Congresso Nacional uma proposta de participação popular no processo de reforma política. “Encaminhei ao Congresso uma proposta de participação popular para que todos possam participar do processo de reforma política. Estou convencida que sem a força da participação popular não teremos a reforma política que o Brasil exige e necessita”, disse a presidenta em discurso no 17º Congresso da União da Juventude Socialista (UJS).

Ela ressaltou a importância da educação no processo de desenvolvimento do país, e fez questão de mencionar vários programas do governo na área, como o Programa Universidade para Todos (ProUni), o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), além de citar os números do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), divulgados na manhã deste sábado (24), quando foram registrados 9,5 milhões de inscritos.
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‘Pó pará, governador’: o papel de Serra na fama de Aécio

Ambição assassina
As pessoas devem os problemas de drogas a elas mesmas, ainda que frequentemente procurem atribuir o vício ao mundo cruel.

Mas muitas vezes elas são vítimas mesmo numa coisa: nas calúnias que outros espalham.

Se Aécio consome ou não cocaína, é uma questão de foro íntimo — e não existe, até aqui, nenhuma comprovação de que o faça, a despeito da fama.

Quer dizer: foro íntimo até certo ponto, uma vez que, caso se trate de candidato à presidência, entra em cena o interesse público.

Defendi, na eleição de 2010, que Dilma deixasse claro, claríssimo seu estado de saúde, para que os eleitores tivessem certeza de que estariam votando nela e não em seu vice. Não fui ouvido, registre-se.

A maneira mais eficiente de Aécio se livrar dos boatos é com um choque de transparência. Pegue uma junta medida confiável — não vale juntar amigos como fez Barbosa para prender Genoino — e se submeta a uma apreciação.

Todo mundo sabia, desde sempre, que a fama iria atrapalhar Aécio em algum momento. Surpresa foi o PSDB não ter levado isso em consideração ao escolhê-lo. (Outra hipótese é a completa falta de alternativas.)

Mas eu disse, acima, na questão das calúnias.

Aécio sabe a quem responsabilizar por ter colado a cocaína à sua imagem: foi Serra, um selvagem fabricante de dossiês para prejudicar adversários.

Nas eleições de 2010, num momento em que Aécio disputava com Serra a indicação tucana, um colunista do Estadão  publicou um artigo com o seguinte título: “Pó pará, governador”.

O jornalista, Mauro Chaves, já morto, era intimamente ligado a Serra.

O artigo defendia que Serra era a opção certa do PSDB, e não Aécio. O título associaria, para sempre, a imagem de Aécio ao pó.

Serra é assim: um político sem escrúpulos, um — usemos a palavra certa — canalha para o qual a ética é uma abstração. Um Frank Urderwood, de House of Cards, sem a taxa de sucesso dele.

Aécio, neste caso, foi vítima da ambição assassina de Serra.

Os exegetas da política sustentam que a resposta de Aécio — denúncias nas privatizações com vantagens para gente ligada a Serra, a começar pela filha Verônica — daria, por vias tortas, no livro “A Privataria Tucana”.

Mas é outra história.

Na intimidade, Aécio pode dizer umas verdades a Serra. E deve.

Publicamente, sua melhor saída — controlar a internet é patético — é mostrar claramente aos brasileiros que não é o que Serra, pelas mãos de Mauro Chaves, disse que era.

Paulo Nogueira
No DCM
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Cerco inútil ao caixa 2

Na disputa eleitoral, em qualquer sistema, a competição pelo voto não se faz sem caixa 1 e... obviamente, sem caixa 2

O ministro Dias Toffoli em busca do meio-termo
Felipe Sampaio/SCO/STF
Entra ano, sai ano, as regras da competição eleitoral são mudadas no Brasil. Tudo é feito apoiado em discurso sobre a moralidade do pleito. As regras têm como objetivo criar dificuldade para a circulação do dinheiro, seja o legal, seja o clandestino, que alimenta o nebuloso caixa 2, do qual se servem praticamente quase todos os partidos políticos e, como se serviram, comprovadamente, em eleições recentes o PT, o PSDB e o DEM.

O foco das propostas de mudança em 2014 tem sido, principalmente, o dinheiro. Tentam bani-lo do processo eleitoral, como se fosse possível, em nome da sanção moral incentivada pelo julgamento dos “mensalões” do PT e do PSDB. Esse último tardiamente apurado e, hoje, politicamente confinado em Minas Gerais, onde o julgamento avança no ritmo ditado por uma parelha de jabutis.

Em velocidade mais ou menos semelhante, está no Supremo Tribunal Federal o julgamento de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) requerida pela Ordem dos Advogados do Brasil, cujo objetivo é acabar com as doações de empresas nas eleições.

Apresentada em setembro de 2011, ela começou uma caminhada vitoriosa no plenário do Supremo, mas, de repente, parou. O ministro Gilmar Mendes pediu vista e adiou o fim do julgamento já com o placar de 6 votos favoráveis à proposta da OAB. Mendes justifica sua decisão demonstrando muita intimidade com o funcionamento do sistema. Para ele, as doações já estão sendo feitas e seria inútil freá-las agora. Deve estar bem informado sobre isso.

Em linhas gerais, a Adin, bem recebida pelas empresas e mal recebida pelos políticos, pede que sejam declarados inconstitucionais dispositivos da legislação eleitoral que autorizam doações de empresas a candidatos e a partidos políticos. Na ação, a OAB requer ainda o estabelecimento de um limite para doações feitas por pessoas físicas.

Esperançoso, o ministro Dias Toffoli, ao assumir a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), há duas semanas, fez sugestão nessa direção de forma menos ambiciosa. Propôs ao Congresso criar um limite de gasto, a ser fixado até o dia 10 de junho.

Tanta lei, tanta regra, tanta restrição pode, aparentemente, fazer o dinheiro desaparecer da vista. Basta olhar, porém, por baixo da mesa para ver por onde ele também circula.

De fato, a contaminação produzida pelo dinheiro falseia a representação e, muitas vezes, alcança o patamar chamado por José de Alencar de “extorsão da soberania popular”. O romancista expressa o sentimento predominante no Brasil de que é possível, numa democracia de massa, em um país de dimensão continental com mais de 130 milhões de eleitores, realizar eleições sem dinheiro. Seja o dinheiro público, seja a contribuição privada.

Entra governo, sai governo e, na competição eleitoral, já se falou, todos seguem uma única regra: é proibido perder.

Maurício Dias
No CartaMaior
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Thatcher e Reagan são os pais da desigualdade moderna

Naomi Klein
Uma aula brilhante de mundo moderno. É uma maneira sintética de definir o livro A Doutrina do Choque, da escritora, jornalista e ativista canadense Naomi Klein, 44 anos.

Vou colocar, no pé deste artigo, um documentário baseado na obra, com legenda em português. Recomendo que seja visto, e compartilhado.

Naomi, como é aceito já consensualmente, identifica em Reagan e Thatcher, cada um num lado do Atlântico, um movimento que levaria a uma extraordinária concentração de renda no mundo.

Ambos representaram administrações de ricos, por ricos e para ricos. Os impostos para as grandes corporações e para os milionários foram sendo reduzidos de forma lenta, segura e gradual.

Desregulamentações irresponsáveis feitas por Reagan e Thatcher, e copiadas amplamente, permitiram a altos executivos manobras predatórias e absurdamente arriscadas com as quais eles, no curto prazo, levantaram bônus multimilionários.

O drama se viu no médio prazo. A crise financeira internacional de 2007, até hoje ardendo mundo afora, derivou exatamente da ganância irresponsável e afinal destruidora que as desregulamentações estimularam nas grandes empresas e nos altos executivos.

No epicentro da crise estavam financiamentos imobiliários sem qualquer critério decente nos Estados Unidos, expediente com o qual banqueiros levantaram bônus multimilionários antes de levar seus bancos à bancarrota com as previsíveis inadimplências. (Ruiria, com os bancos, também a ilusão de que o reaganismo e o thatcherismo fossem eficientes.)

Tudo isso, essencialmente, é aceito.
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Thatcher e Reagan

O engenho de Naomi Klein está em recuar alguns anos mais para estudar a origem da calamidade econômica que tomaria o mundo a partir de 2007.

O marco zero, diz ela, não foi nem Thatcher e nem Reagan. Foi o general Augusto Pinochet, que em 1973 deu, com o apoio decisivo dos Estados Unidos, um golpe militar e derrubou o governo democraticamente eleito de Salvador Allende no Chile.

Foi lá, no Chile de Pinochet, que pela primeira vez apareceria a expressão “doutrina de choque”. O autor não era um chileno, mas o economista americano Milton Friedman, professor da Universidade de Chicago.
Friedman dominou a economia chilena sob Pinochet

Um programa criado pelo governo americano dera, na década de 1960, muitas bolsas de estudo para estudantes chilenos estudarem em Chicago, sob Friedman, um arquiconservador cujas ideias beneficiam o que hoje se conhece como 1% e desfavorecem os demais 99%.

Dado o golpe, os estudantes chilenos de Friedman, os “Chicago Boys”, tomaram o comando da economia sob Pinochet e promoveram a “Doutrina do Choque” —reformas altamente nocivas aos trabalhadores, impostas pela violência extrema da ditadura militar.

Da “Doutrina do Choque” emergiria, no Chile, uma sociedade abjetamente iníqua que anteciparia, como nota Naomi Klein, o que se vê hoje no mundo contemporâneo.

O Brasil, de forma mais amena, antecipara o Chile: o golpe militar, também apoiado pelos Estados Unidos (e pelas grandes empresas de jornalismo, aliás), veio nove anos antes, em 1964. Tivemos nossos Chicago Boys, mas em menor quantidade, como Carlos Langoni, que foi presidente do Banco Central.

Com sua sinistra “Doutrina do Choque”, Friedman, morto em 2006, é o arquiteto do mundo iníquo tão questionado e tão merecidamente combatido em nossos dias.

Um dos méritos de Naomi Klein é deixar isso claro — além de lembrar a todos que situações de grande desigualdade são insustentáveis a longo prazo, como a guilhotina provou na França dos anos 1790.


Paulo Nogueira
No DCM
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♫♪ Que bom Bombom: o axé do proletariado 2.0 ♪♫



O Axé não saía das rádios brasileiras e algumas das mais geniais coreografias eram criadas. Era maio de 1999 e o novo hit do momento era lançado: “Xibom Bombom”, da banda baiana As Meninas. A letra dessa música, no entanto, chamava a atenção. Diferentemente de boa parte das composições do gênero, a banda de Carla Cristina trazia uma letra que questionava a situação do país.

Carinhosamente batizada de “axé do proletariado”, “Xibom Bombom” falava, com bom humor, da dificuldade do brasileiro em ter acesso à educação, à alimentação e a uma vida digna. Mais que isso, o clássico refrão questionava a grande desigualdade social do país. Afinal, o motivo da situação precária todo mundo conhecia: “o de cima sobe e o de baixo desce”.

Mas isso era em 1999! Nesta semana se completam 15 anos que essa música não sai de nossas cabeças. E em 15 anos muita coisa mudou. Já são 12 anos de um governo que faz quem tá lá “embaixo” subir, que investe na educação, na alimentação, na moradia, no emprego. ♪♫Tucano de novo, o Brasil não merece ♪♫

É por isso que, passada uma década e meia, revisitamos esse clássico. E, olha, tá bem melhor a vida d'As Meninas... canta com a gente:

♫♪ Que bom Bombom: o axé do proletariado 2.0 ♪♫

♪♫ Bom qui bom qui bom bom bom
Bom qui bom qui bom bom bom

Analisei essa cadeia hereditária
E vi que me livrei de uma situação precária

O Brasil cada vez fica mais rico
E agora cada vez tem menos pobre.

E o motivo todo mundo já conhece
Com tucano fora
O emprego cresce
E o motivo todo mundo já conhece
Com tucano fora
O salário cresce.

Bom qui bom qui bom bom bom
Bom qui bom qui bom bom bom

E agora eu eduquei meus filhos
Viraram cidadãos
Com muita dignidade
E agora eu como bem
Posso me alimentar
Com a grana que eu ganho
Já posso até voar

E o motivo todo mundo já conhece
Tucanoooo de novo, o Brasil não merece.
E o motivo todo mundo já conhece
Tucanoooo de novo, o Brasil não merece ♫♪
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As particularidades da eleição

Apesar da piora na avaliação da presidenta, a oposição permanece praticamente imóvel nas pesquisas eleitorais

Apesar da redução das intenções de voto da presidenta,
nenhum outro pré-candidato apresentou bom crescimento
nas pesquisas. Na imagem, Dilma Rousseff em evento da
Embraer, dia 20 de maio
Andamos um bom pedaço de 2014 e a eleição de outubro está a apenas quatro meses. Como a Copa do Mundo vai durar cerca de 60 dias (o período de realização somado a uma quinzena antes e outra depois), chegaremos a ela antes de nos darmos conta.

As últimas pesquisas mostraram queda na avaliação positiva do governo federal e redução nas intenções de voto na presidenta. Dilma Rousseff busca a reeleição e seu trabalho é escrutinado diariamente pelo eleitorado, que precisa decidir se ela merece permanecer no cargo. Os insatisfeitos querem sua saída.

Um de seus antecessores passou por algo parecido em momento análogo. Em 1998, Fernando Henrique Cardoso tentava novo mandato, direito que adquiriu à custa de pesados “argumentos” e muitos “entendimentos” no Congresso.

A certa altura daquele ano, parecia ter feito péssimo negócio. No fim de maio, segundo dados do Datafolha, seu governo era aprovado por 31% dos entrevistados, o que se refletia nas intenções de voto: empatava com Lula e estava em queda, enquanto a trajetória do petista era de ascensão. Apesar do Plano Real ainda jovem, da maciça propaganda governamental e do apoio da mídia corporativa, FHC estava mal.

A propaganda eleitoral o salvou. Apresentou realizações que a população desconhecia (algo fácil para qualquer governante), repaginou-se como personagem (ficou mais simpático aos olhos do eleitorado que, com razão, o considerava “elitista”) e se aproveitou do criativo slogan inventado por seus marqueteiros: “O homem que derrotou a inflação vai derrotar o desemprego”. Nada havia de verdade na formulação, como a população logo descobriria, mas foi suficiente para despertar esperanças. Sem sonhos não se ganham eleições. Para uma coisa a experiência serviu: ensinou a todos como vencer em condições parecidas.

As pesquisas feitas desde o segundo semestre de 2013 mostram um quadro surpreendente. As candidaturas de oposição permanecem fundamentalmente imóveis, mesmo diante das oscilações negativas do governo e da presidenta. Uma característica inédita das eleições deste ano.

De setembro de 2013 para cá, Aécio Neves, do PSDB, foi de 20% para… 20%, com pequenas variações no intervalo. Ao longo de nove meses, mexeu-se um pouco para a frente, um pouco para trás, e acabou no mesmo lugar.

Eduardo Campos, do PSB, fez igual, embora em patamar inferior. No período, passou de 10% para… 10%. Ele e o tucano disputam o campeonato da estabilidade, ou, mais exatamente, do não crescimento.

É interessante comparar o ocorrido em 2002 e o cenário atual. Especialmente por aquela ter sido uma genuína eleição de mudança, como alguns pensam que esta será. Nela, inexistiu estagnação igual.

De janeiro a maio daquele ano, o tucano José Serra viu sua intenção de voto multiplicar-se por quatro. Estava com 7% e foi a 28%, segundo o Datafolha. Depois caiu, mais perto da eleição. Anthony Garotinho, então no PSB, foi de 11% a 22% e assumiu o segundo lugar, atrás apenas de Lula. Perdeu, porém, o posto. Ciro Gomes, à época no PPS, começou o ano em quarto, com menos de 10%, e suplantou seus competidores mais próximos em julho. Chegou em 30%, a encostar em Lula, para terminar aniquilado por Serra.

Todos, salvo Lula, eram “desconhecidos”, mas a cada janela de mídia partidária cresceram em saltos expressivos, reflexo dos movimentos de um eleitorado que ativamente buscava opções. Que queria conhecer os nomes de quem disputava a Presidência e se expunha à comunicação política.

No fundamental, as regras não mudaram desde aquele tempo e os candidatos têm hoje as mesmas oportunidades de acesso ao eleitor (se não forem maiores). Por que Aécio Neves, Eduardo Campos e os nanicos mal se mexem?

A imobilidade das candidaturas de oposição pode derivar da lamentável e tola campanha de descrédito do sistema político em curso, patrocinada pela mídia conservadora e seus heróis, alguns encastelados no Judiciário. Pode decorrer da desconfiança básica do eleitor popular em relação aos nomes oferecidos pela oposição. Pode derivar de uma parte do País estar em compasso de espera, aguardando os acontecimentos dos próximos dias, em particular a Copa do Mundo.

A eleição deste ano é de fato estranha,  a mais parada desde o fim da ditadura. Pela lógica, esse comportamento deve beneficiar quem representa a continuidade.

Marcos Coimbra
No CartaCapital
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A verdadeira capa da Veja

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Queimar a Marca Brasil virou estratégia eleitoral

DELFT (Países-Baixos) — Estudiosos de marketing em todo o mundo dedicam-se a um campo relativamente novo nesta área, que é a criação e as características da chamada “nation brand” ou “marca-país”. Já em 1965, pesquisas aplicadas mostraram que o consumidor dá avaliações diferentes a um mesmo produto que lhe é oferecido, dependendo do rótulo “fabricado em…”, ou seja, ele leva em consideração a localidade de origem na hora de decidir uma compra.

A partir deste dado, muitos estudos se seguiram, e o conceito de “marca-país” passou a ser discutido seriamente como fator importante no comércio e na propaganda mundiais. Está consolidada, por exemplo, a distinção entre “identidade nacional” (conjunto dos elementos que dão personalidade a um país, incluindo sua história, geografia, artes, cidadãos famosos, etc.) e “imagem nacional” (a maneira como o país é visto nos demais países e no mundo como um todo). A identidade forma-se historicamente; a imagem pode ser melhorada, assim como pode piorar, e há vários métodos para medi-la tecnicamente.

A imagem é levada em conta, segundo pesquisas, também pelos executivos de grandes empresas com poder de decidir a destinação de investimentos num determinado país. Estudo do Communication Group e do Think Tank You Gov, da Grã-Bretanha, em 2006, concluiu que 92% desses executivos afirmam que a imagem de um país é “fator vital” para suas escolhas. 65% acham difícil decidir por um novo empreendimento apenas baseado em “hard factors” - fatores estritamente numéricos - e 60% afirmam que os “soft factors” (estilo de vida, arquitetura, artes, etc.) são crescentemente importantes.

Ora, um evento como a Copa do Mundo de Futebol é um momento privilegiado para o país-sede incrementar a sua imagem positiva no exterior, partindo de sua “identidade” e agregando novos valores ao conjunto de sua representação mercadológica. Segundo o professor Marco Antonio Ocke, da USP, “para o país-sede, a Copa mostra-se eficaz ferramenta de promoção da localidade como força econômica com o objetivo de captar investimentos, atrair visitantes, moradores e profissionais, fomentar o comércio, a indústria e as exportações”. Ao organizar o campeonato de 2006, a Alemanha usou-o para reaquecer sua economia, que atravessava fase de baixa depois dos custos da reintegração. Com o slogan “Um mundo entre amigos”, o país gerou cerca de 4 mil empregos por ano desde o anúncio dos jogos, alavancando cerca de 10 bilhões de euros para sua economia. Houve um crescimento geral do PIB e grandes obras e avanços nas áreas esportiva, de turismo e de tecnologia da informação.

A Copa é tal oportunidade de promoção mundial que a Austrália, por exemplo, de onde sairá o terceiro maior contingente de visitantes, cerca de 20 mil, realizará uma série de eventos culturais nas cidades onde sua seleção nacional se hospedará ou jogará, Vitória, Cuiabá, Curitiba e Porto Alegre. O país tem 40 bilhões de reais investidos no Brasil, recebe 20 mil estudantes brasileiros por ano, e quer aproveitar a Copa para ampliar sua presença em todos os setores. Também a Holanda promoverá exposições e eventos paralelos à Copa, como outros países. Cabe ao Brasil esperar que todos os países visitantes levam daqui muito mais do que vão trazer.

O fator político-eleitoral

Os planos do Governo brasileiro para a Copa de 2014 incluem “agregar novos elementos à imagem do país (economia forte, capacidade de inovação, sustentabilidade) sem deixar de reforçar as características positivas pelas quais o país já é conhecido (hospitalidade, belezas naturais, diversidade cultural)”. No tema “negócios”, o planejamento dos órgãos envolvidos com o mega-evento prevê, internamente,  “estimular a descentralização economica, potencializando e atraindo investimentos para as diversas regiões; e estimular a cultura do empreendedorismo a partir da Copa”. Na frente externa, pretende-se “imprimir à imagem dos produtos e marcas brasileiras atributos de tecnologia, qualidade, inovação e sustentabilidade, contribuindo para o aumento das exportações; apresentar o país como fonte de oportunidades para parcerias e soluções sustentáveis de alto crescimento; e atrelar à imagem do país sua importância para a economia e a política internacionais”.

Vê-se que muito além dos campos de futebol, que reunirão centenas de milhares de torcedores em doze capitais de Estados, há muito mais em jogo. O Brasil pode galgar um degrau importante no seu conceito geopolítico e comercial, ampliando sua presença no cenário internacional do século que começa. Ou pode mostrar-se um país carente de organização, governabilidade e eficiência, fatores que valem, no mínimo, tanto quanto a simpatia de seu povo, a beleza de suas paisagens, a riqueza de sua Cultura.

As manifestações de rua contra a realização da Copa não chegam a preocupar, já que são normais em todos os países democráticos. A menos que resvalem para depredações de grande porte, ou causem vítimas brasileiras e estrangeiras — para o que o governo federal, os estaduais e municipais afirmam estar devidamente preparados, inclusive com respaldo de órgãos de segurança dos países participantes — os protestos podem até servir de atestado de nossa estabilidade política, da ampla liberdade de manifestação, da maturidade democrática do país - pontos positivos para a “imagem”.

Esta imagem vinha melhorando ao longo dos últimos dez ou quinze anos. Em termos de eventos, a Copa das Confederações da FIFA, em meados do ano passado, foi um teste muito positivo. A audiência internacional de TV na final entre Brasil e Espanha foi 50%  maior do que a final da última Copa do Mundo, entre Holanda e Espanha. Dos estrangeiros que aqui estiveram para a competição, 75,8% disseram em pesquisas que pretendiam voltar ao Brasil para a Copa de 2014. 70% afirmaram que tiveram suas expectativas com o país atendidas ou superadas; 95% aprovaram os estádios; 72% aprovaram os transportes públicos (!), e 88% gostaram dos serviços de táxi. Também foi um sucesso a “disponibilidade dos funcionários nos estádios e outras instalações em dar informações”, elogiada por 89,5% dos turistas-torcedores. Já a qualidade e preço da alimentação nos estádios foi reprovada por 78,2%.

De poucos meses para cá, cresceu o número de reportagens negativas na mídia internacional sobre o Brasil, mas isso resulta do próprio fato de as atenções do mundo estarem se concentrando mais no país. Os problemas mostrados, e os preconceitos revelados, por exemplo, pela revista liberal The Economist, que chamou os brasileiros de “preguiçosos”, ou pelo jornal sensacionalista Daily Mirror, que colocou Manaus entre as cidades mais perigosas do mundo, cujos riscos incluem “cobras venenosas e tarântulas” são reversíveis. Tudo depende da normalidade dos jogos, da recepção aos turistas e torcedores, e do funcionamento razoável da infraestrutura.

O fator mais preocupante é outro: a oposição política ao governo Dilma Rousseff, nesse ano eleitoral, tem demonstrado que o fracasso da Copa do Mundo lhe convém. Ela teme que a vitória da seleção brasileira leve o país a uma tal euforia que isso contagie o governo e influa numa fácil vitória da candidata do PT. Assim, há evidente torcida entre forças políticas de extrema-esquerda, do centro-direita e de pequenos grupos de extrema-direita (aqueles que convocaram marchas em favor de um golpe militar, fracassadas em 22 de março último), para que o Brasil saia derrotado dentro e fora dos gramados. Um caos nas cidades-sede seria de grande proveito para as oposições na campanha eleitoral que se aproxima, e para a qual elas não parecem contar com propostas e candidatos capazes de reverter o favoritismo de Dilma em todas as pesquisas, até agora.

Apostar num fracasso da Copa, porém, envolve muito mais do que o episódio eleitoral. Como vimos, a “marca-país” é algo muito mais sério, importa a várias gerações, e seria lamentável que brasileiros, propositadamente, ajudassem a detonar uma construção tão difícil. Já nos bastam os problemas que realmente temos; não precisamos de outros gerados pela ambição de poder de alguns políticos. Além disso, não há provas de que o resultado da Copa influa decisivamente nas eleições. Já o prejuízo em termos de imagem internacional do país, caso o Brasil falhe, este é previsível cientificamente, e os danos custarão décadas a serem reparados, afetando, inclusive, o próximo megaevento, os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Antonio Barbosa Filho — Jornalista e escritor, autor de A Bolívia de Evo Morales e A Imprensa x Lula – golpe ou sangramento? (All Print Editora). Vive entre a Holanda e o Brasil, e visitou 32 países nos últimos oito anos, alguns várias vezes.
No GGN
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Manifs

Tantas fez a Soninha que conseguiu convencer o pai a mandá-la estudar em Paris. Estudar o quê? Não interessava. O importante era que fosse em Paris.

A mãe não entendia como a Soninha, que em casa tinha quem fizesse tudo por ela, que era incapaz de juntar uma calça do chão, iria se ver, sozinha, em Paris. A Soninha não sabia nem esquentar água! Mas talvez a experiência lhe fizesse bem. E a Soninha foi para Paris.

Seu primeiro telefonema para casa foi entusiasmado. Tinha alugado um apartamentinho, sexto andar sem elevador, banheiro e cozinha conjugados, uma gracinha. E já tinha um grupo de amigos. Colegas de curso? Não, não, o curso ainda não começara. Na verdade, ela ainda não sabia que curso iria fazer. Mas os amigos eram ótimos. Discutiam muito, quase brigavam, mas sempre numa boa. Paris era uma festa.

No seu segundo telefonema para casa, Soninha fez uma revelação. Estava namorando um moço chamado Piotr. Um imigrante. Lindo. Apesar da dificuldade em se comunicarem — Piotr recém-começava a dominar o francês, e falava com um sotaque indecifrável que Soninha também achava uma gracinha — estavam se dando muito bem .

— Iiiih... - foi o comentário do pai.

— Ai, ai, ai - disse a mãe.

No seu terceiro telefonema para casa, Soninha fez uma pergunta curiosa.

— Pai, qual é a nossa posição na questão do Querquistão?

O pai estranhou. Soninha nunca se interessara por política antes.

— O Querquistão, minha filha?

— É. Qual é o nosso lado?

O pai não podia confessar que não tinha a mínima ideia de onde ficava o Querquistão, ainda mais das suas questões políticas. A filha insistiu:

— Nós somos separatistas?

— Preciso me informar mais a respeito, minha filha...

— Eu preciso saber logo, pai. É urgente!

— Mas... O Piotr não é do Querquistão? Ele não pode lhe dar uma orientação?

— E eu entendo o que ele diz? Amanhã haverá duas manifestações na Bastilha, pró e contra os separatistas. Meu grupo de amigos vai participar, mas eu não sei de que lado. Eu preciso saber o que eu sou!

— Minha filha. Simplesmente não vá a nenhuma das duas manifestações. Fique neutra.

— O quê?! Como não ir? Isto aqui é Paris!

Luís Fernando Veríssimo
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As vítimas da surpresa


De um sinsicato que teve 16 líderes assassinados nas duas últimas décadas, em disputas de poder, e cerca de 20 presos por corrupção na própria entidade, nenhuma ação pode surpreender. Mas as ações comandadas por correntes sindicais dos motoristas de ônibus nos últimos dias, em São Paulo e em outras sete cidades, trouxeram duas surpresas — além do pasmo da população que saiu para seus afazeres e, sem sequer saber por quê, esperou em vão por seus ônibus.

A conturbação que tomou São Paulo não resultou só da provocação de desordem buscada por algumas centenas de motoristas coordenados para efetivá-la. Só a fizeram, porém, porque a sua disposição desordeira combinou-se, em proporção igual mas inversa, com a falta de intervenção policial. Fosse ou não inércia preferida pelo governo paulista.

A suspensão forçada do serviço de ônibus em desobediência a preceitos da lei de greve, entre os quais o primordial aviso aos usuários, já seria suficiente para a intervenção policial contra o desrespeito ao direito da população. A rigor, não houve greve. Houve, sim, a arbitrariedade da decisão e a violência, que fizeram da população a vítima indefesa e injustiçada de tudo.

A omissão do aviso às centenas de milhares de usuários foi, por si só, uma agressão. Apesar disso, os piquetes puderam transitar sem maior problema de uma volência para outra, utilizando ônibus, agredindo colegas em serviço ou ameaçando até com revólver quem tentou suprir ausências. Tudo sem o esperado risco de prisão ou repressão. Com liberdade, portanto, para ir mais longe, com ônibus atravessados nas ruas e a paralisação, a partir daí, não só de ônibus: da cidade mesma. Objetivo alcançado, pois. O governo do Estadopareceu não ter nem quem fizesse simples ligações diretas nos ônibus, para desimpedir as ruas com presteza.

Se fossem centenas os presos pela agressão e pelo desprezo à população, por certo não haveria surpresa. Nem haveria, nos dias seguintes, as reprises contra as populações de mais sete cidades.

A meu ver, é impossível ser compreensivo, em qualquer grau, tanto com a brutalidade da greve sem aviso e sem alternativa, como, a mesma medida, com a falta de ação das tantas instâncias do governo paulista. Porque é impossível não pensar nas pessoas que só chegaram em casa já madrugada alta, e nas que nem chegaram e dormiram nas estações do metrô, ou onde desse, e nos doentes e nas crianças em sua espera vã pela mãe, até para a comidinha por ela arranjada. Um sem-número de situações perversas, para satisfação de pessoas que talvez tenham razão nas reivindicações, mas não merecem vê-las atendidas.

Com as situações perversas vividas por milhares incontáveis, a outra surpresa: a quase indiferença que os meios de comunicação lhes dedicaram, como se tudo não passasse de um problema de transporte.

Interrogação

Um magistrado faz uma interpretação pessoal e excêntrica de uma lei e, com base nela, emite sua decisão determinante do destino de alguém, ou de uma causa, de um direito. Não é também uma forma de fazer justiça com as próprias mãos?

Denominações pomposas em geral bastam para estebelecer a distinção aparente e socialmente satisfatória.

Janio de Freitas
No fAlha
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O legado perverso de Aécio Neves


Mais uma vez uma tentativa de se tirar do ar um vídeo somente porque ele traz material que desagrada ao senador Aécio Neves. Apareceu uma reivindicação de direitos autorais, provavelmente feita por um robot, mas já entramos com contranotificação e estamos republicando o material por absoluta certeza do que estamos fazendo.

O vídeo é um pronunciamento feito pelo deputado Sávio Souza Cruz fazendo um balanço dos doze anos da administração tucana em Minas e o material foi fornecido pelo próprio gabinete do deputado. Assim fica evidente que alguém está tentando varrer da internet qualquer coisa que não agrade ao senador Aécio Neves. Se isso já vem ocorrendo na mídia mineira, nas redes sociais não será a mesma coisa. Aqui a coisa é diferente. Aqui não tem como a censura que foi imposta em Minas prevalecer. Aqui a liberdade de expressão, a possibilidade de divulgar dados verdadeiros ainda acontece.

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Aécio Neves e as drogas


Em 2006, durante um encontro com a Sociedade Americana de Editores de Revistas dos EUA, Obama foi questionado sobre o uso de drogas.

“Para começar, eu traguei”, disse ele, numa referência à famosa fanfarronice de Bill Clinton, ecoada por FHC (“fumei, mas não traguei”). ”Foi reflexo dos conflitos e da confusão de um adolescente”, continuou. “Adolescentes são frequentemente confusos”.

Ele já havia relatado em sua autobiografia, publicada em 1995, que fumou maconha, cheirou cocaína e não experimentou heroína porque não ia com a cara do traficante que tentava vendê-la.

O tema voltaria à baila mais algumas vezes. Dois anos depois daquela coletiva, Obama seria eleito.

Em Porto Alegre, a repórter Letícia Duarte, do Zero Hora, perguntou a Aécio Neves sobre os boatos na internet de que ele seria usuário de cocaína.

“Você sabe que existe hoje um submundo da política, nas redes. Anonimamente fazem qualquer tipo de acusação sobre seus adversários, esperando que alguém, talvez desavisadamente, com um pouco mais de credibilidade, possa trazer esse tema ao jornalismo sério. O que nós assistimos é uma guerrilha da internet”, falou.

“Eu me especializei em derrotar o PT. Há 15 anos eu ganho do PT no meu Estado no primeiro turno. Como não tem sobre a minha vida absolutamente nada (…). Eu fico feliz em ver que num momento desse o PT não consegue vir para o debate sobre o Brasil, o debate sério”.

Sua reação diante do assunto é destemperada — ou, no extremo oposto, demasiado calculada. Quando afirma que esse tema não é “jornalismo sério”, está intimidando ou tentando passar um recado para quem ousa falar nisso. Quis bloquear, na Justiça, as buscas no Google envolvendo seu nome. Segundo os advogados do Google, ele “parece ‘sensível’ demais às críticas sobre sua atuação”.

Em 2010, Aécio foi capa da revista Alfa (que eu dirigia). Depois de dias o acompanhando, bastou o repórter tocar no assunto para o tempo fechar. Aécio declarou, então: “Todo mundo teve 18 anos… Ah, experimentou um baseado com 18 anos? Sim. E ponto-final”. A entrevista acabaria ali.

Para o programa “Poder e Política”, da Folha, recentemente, ele trocou apenas alguns termos: “Quando tinha 18 anos, experimentei maconha e ficou por aí. E não recomendo que ninguém faça”.

Um estudante da PUC foi expulso de uma palestra com Aécio, em abril, depois de gritar uma questão sobre a “cocaína no helicóptero” (dos Perrellas, aliados de AN em Minas). Ficou na saudade.

Na saída, Marcelo Ximenes expôs uma dúvida talvez pueril, mas 300 vezes legítima: “Que democracia é essa que não se pode fazer uma pergunta?”

É a democracia de Aécio.

Kiko Nogueira
No DCM
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Em homenagem a Laurita Cureau


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O DEM "tem medo"... de acabar!

O programa do DEM, apresentado em cadeia nacional de rádio e televisão na noite da última quinta-feira (22), poderia ter sido encenado num cemitério. No caso dos demos, até mesmo no inferno — se o diabo autorizasse! Num dos trechos, um jovem ator afirma: "Eu não tenho medo de mudar. Eu tenho medo é de que tudo continue como está. Ou até piorar". De fato, este partido da velha oligarquia corrupta e patrimonialista deve estar com muito medo. Medo de acabar! A cada eleição, o DEM — ex-Arena ou ex-PFL — perde força. A sigla, que já teve mais de 120 deputados federais, hoje conta com apenas 28 teimosos direitistas. Sua única governadora, do Rio Grande do Norte, está totalmente desmoralizada.

Satélite do PSDB e aliado canino de Aécio Neves, o cambaleante presidencial tucano, o DEM usou a propaganda partidária para atacar o governo Dilma Rousseff. Tentou fazer um patético contraponto ao programa do PT, que exorcizou os "fantasmas do passado". Mas será difícil convencer alguém. Em outro trecho, os demos negam as conquistas dos últimos anos. Um jovem ator garante que "tudo o que eu conquistei nos últimos anos foi com esforço do meu trabalho". Coisa de ator de péssima memória. Por que ele não conquistou emprego e melhores salários no período de FHC, quando os demos estavam no governo e o desemprego bateu recordes e a renda foi duramente arrochada?

O mesmo ator, que deveria receber uma boa grana pelas besteiras que falou, afirma ainda que "não recebi nada de ninguém, muito menos do governo... O que o governo deveria ter feito com o dinheiro dos impostos não fez. Não melhorou a saúde nem a educação". Uma simples comparação entre o que foi realizado pelos governos Lula e Dilma nestas e outras áreas comprova o desastre do condomínio PSDB-DEM no triste reinado de FHC. A propaganda também trata de corrupção. Nesta caso, nem é preciso gastar o teclado. É só lembrar do ex-governador do Distrito Federal, o "honesto" Arruda, ou do ex-senador Demóstenes Torres, "o mosqueteiro da ética" da revista Veja.

O DEM deve, realmente, ficar com medo! Medo de nem o capeta aceitar os demos no inferno!

Altamiro Borges
No Blog do Miro
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