10 de mai de 2014

Thomas Piketty, a nova estrela da economia mundial


Elogiado pelos prêmios Nobel de Economia, Paul Krugman e Joseph Stiglitz, ressaltado pelo influente editor do jornal Financial Times, Martin Wolf, e analisado em profundidade pelo semanário The Economist. “Capital in the 21st Century” [O capital no século XXI], do economista francês Thomas Piketty (foto), contém um duro ataque ao capitalismo e um traço que considera inerente ao seu funcionamento: uma crescente desigualdade que, cedo ou tarde, será “intolerável”.

A mensagem recorda (assim como o título da obra) as predições de Karl Marx sobre o inevitável antagonismo entre uma minoria cada vez mais rica e uma maioria cada vez mais relegada.

Não em vão, The Economist chamou Piketty como “o moderno Marx”, mas entre as surpresas deste suposto herdeiro do autor de “O Capital” e do “Manifesto Comunista” está o fato de que foi recebido, simultaneamente, pela Casa Branca e o Fundo Monetário Internacional para que explicasse as suas teses.

Em sua resenha para The New York Review, Paul Krugman procurou sintetizar o interesse que o livro desperta.

“Apresenta um novo modelo que integra o conceito de crescimento econômico com o de distribuição de ingressos salariais e riqueza. Mudará o modo como pensamos sobre a sociedade e a economia”, escreveu Krugman.

R contra G

Piketty não é o primeiro a falar de crescimento da desigualdade. O tema foi tratado por diversos autores, desde Joseph Stiglitz até o coreano Ha-Joon Chang, e mencionado como um dos grandes desafios de nossa época por dirigentes políticos mundiais, começando pelo próprio Barack Obama.

A diferença é que Piketty revoluciona a análise histórica com uma comparação que abarca desde inícios da revolução industrial, no século 18, até nossos dias. Segundo Piketty, o crescimento da desigualdade é inerente ao capitalismo porque a taxa de retorno ou rendimento do capital (R: rate of capital return) é superior à taxa de crescimento econômico (G: rate of economic growth), relação resumida na versão em inglês do livro como “R>G” (R maior que G).

Piketty analisou a evolução de 30 países, durante 300 anos, como explicou ao The New York Times.

“Caso se analise o período de 1700 até 2012, percebe-se que a produção anual cresceu em média 1,6%. Ao contrário, o rendimento do capital foi de 4 a 5%”, destacou Piketty ao jornal.

A consequência deste processo é que, a longo prazo, o próprio crescimento econômico se vê afetado. Em outras palavras, Piketty ataca de frente a ideia de que a distribuição da riqueza econômica é secundária à criação da mesma.

Os 25 anos dourados

Esta tese bate de frente com a premissa da economia neoclássica (baseada em Adam Smith e David Ricardo) que considera que a distribuição da riqueza é um tema secundário do crescimento e que em “economias maduras” (desenvolvidas) a desigualdade se reduz naturalmente.

Esta tese se baseava na chamada curva de Kuznets, que postulava que embora as economias fossem muito desiguais na primeira etapa da industrialização, tornar-se-iam mais igualitárias com o tempo, em virtude de um processo de amadurecimento intrínseco, resultado do crescimento.

Kuznets desenvolveu esta hipótese nos anos 1950 e 1960, no mesmo período em que o capitalismo gozou de seus “25 anos dourados” (1947-1973), em que o crescimento chegou a 4,5% anualmente.

Segundo Piketty este período é uma exceção em razão de fatores históricos aleatórios e institucionais.

“A grande crise de 1914-1945, com a destruição de capital pela inflação, as duas guerras mundiais e a Grande Depressão, somado a mudanças institucionais, como a criação do Estado de Bem-Estar, reverteram um pouco o processo de crescente desigualdade que víamos desde a revolução industrial”, destacou ao jornal The New York Times.

Em outras palavras, com o laissez faire a tendência natural é a desigualdade. Por outro lado, a intervenção da história, que afeta o rendimento do capital e seu investimento (guerras mundiais), e a do estado (redistribuição) podem alterar esta tendência.

Em sua “História do século XX”, o recentemente falecido historiador Eric Hobsbawm apresenta outro ângulo que leva a mesma conclusão: “Uma das ironias do século XX foi que a Revolução de Outubro, que tinha como objetivo a eliminação do capitalismo, acabou lhe salvando ao obrigá-lo a se reformar e planificar sua economia com políticas redistributivas como o New Deal, escrevia o historiador britânico em princípios dos anos 1990. Com a queda do Muro de Berlim, o capitalismo voltou a suas velhas raízes do laissez faire, hoje rebatizadas como neoliberalismo.

Críticas

O livro de Piketty foi criticado a partir de duas perspectivas.

A direita reconheceu a “extraordinária magnitude dos dados reunidos e comparados”, mas discordou da tese principal e da “pobreza” das soluções propostas.

O semanário The Economist sintetizou em sua última edição as críticas.

“Muitos pensam que Piketty se equivoca ao acreditar que o futuro será como o passado, o século XXI como o XVIII e XIX. Outros acrescentam que, na realidade, é cada vez mais difícil obter uma boa rentabilidade do capital investido. E, além disso, a maioria dos super-ricos de hoje conseguiu sua riqueza graças ao seu esforço e não por herança”, destaca o semanário.

A partir de uma perspectiva de centro-esquerda, Piketty também foi criticado porque sua tese se encontraria dentro dos limites da economia “neoclássica”.

O autor de “Post Keynesian Economics: Debt, Distribution and the Macro Economy”, o acadêmico estadunidense Thomas I. Palley, destaca que esta limitação torna possível “mudar algo para que não mude nada”, velha técnica do leopardismo.

“Piketty fornece uma explicação da crescente desigualdade no marco neoclássico e centra o problema na diferença entre a rentabilidade do capital e o crescimento. Este esquema neoclássico o faz enfocar o tema tributário como o remédio, sem prestar atenção às estruturas do poder econômico”, destaca Palley.

Há alternativas?

Em uma coisa todos concordam: a desigualdade cresceu nas últimas três décadas.

Segundo The Economist, hoje 1% da população tem 43% dos ativos do mundo. Os 10% mais ricos detém 83%.

A mensagem de Piketty é que esta situação irá continuar, a não ser que se adote uma série de medidas progressistas globais, como um imposto de 80% sobre a riqueza (não apenas sobre a renda).

Para além da questão se este remédio faz parte do esquema neoclássico, como critica Palley, dado o poder de lobby dos grandes capitais e, em muitos casos, sua direta manipulação da coisa pública (a política econômica de Barack Obama tem estado nas mãos de ex-banqueiros de Wall Street), é bastante improvável que se possa ir adiante. O próprio Piketty não é particularmente otimista.

“Hoje, os níveis de desigualdade nos Estados Unidos são semelhantes aos que existiam na Europa em inícios do século XX. A história nos ensina que este nível de desigualdade não é positivo para o crescimento econômico ou a democracia. Os sistemas democráticos não puderam responder de maneira pacífica e a situação apenas foi solucionada após duas guerras mundiais e violentos conflitos sociais. Vamos esperar que desta vez seja diferente”, destaca Piketty.

Marcelo Justo
No BBC
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Lula em Angola: "Quem tem fome não pode esperar"

Lula em Angola: “antes de chegarmos ao governo, 35% da população tinha que ter quase tudo e o resto tinha que ser pobre”

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Trecho do discurso de Lula no dia 7 de maio de 2014 em Luanda, Angola, durante o seminário "Experiências do Combate à Fome e à Pobreza em Angola e no Brasil".

Em um discurso de 50 minutos, Lula lembrou a trajetória do Brasil de decidir encarar como prioridade, o problema da pobreza e da fome. “O que aconteceu no Brasil foi resultado do nosso acúmulo histórico”. Logo no início, Lula deixou claro que a experiência brasileira não é para ser repetida em nenhum país, porque cada um tem suas peculiaridades, mas serve como estímulo para o desenvolvimento de soluções próprias. “Eu queria provar que era possível fazer aquilo que eu reivindicava que os outros fizessem”. A diferença foi governar para todos. “no Brasil, antes de nós chegarmos ao governo, se dava como certo que 35% tinham que ter quase tudo e o resto tinha que ser pobre”.

Lembrando a superação de preconceitos na sua história de vida, carreira política e no exercício da Presidência, e enumerando os resultados das políticas públicas brasileiras desses últimos 11 anos, Lula emocionou e foi interrompido em diversas passagens por aplausos, especialmente quando defendeu a urgência do combate à pobreza. “Aqueles que têm fome não podem esperar. É sagrado colocar essas pessoas como tarefa obrigatória. É para eles que se deve governar”.

Lula reiterou que recursos para os mais pobres não podem ser considerados gasto, mas sim como investimento. “Quanto damos dinheiro aos pobres, a gente não está gastando, mas investindo para que ele se transforme em um cidadão na sua plenitude”. O ex-presidente criticou a ideia de que apenas políticas voluntaristas são suficientes para acabar com a fome. “A fome tem de ser enfrentada por políticas de Estado.”

Antes do ex-presidente, a ministra Rosa Pacavira falou dos programas sociais angolanos, coordenados por uma comissão de 12 ministros, com investimentos de cerca de US$ 790 milhões anuais e dos esforços feitos em Angola para levar os serviços básicos a toda a população. Ela falou também sobre como aprendeu, com o Brasil e outros países, sobre experiências que serviram de subsídios para as ações do governo de Angola. “Adaptamos os programas a nossas realidades locais. Estamos aqui para ouvir o que o Brasil traz de experiência. Começamos há quatro anos, o senhor começou há mais tempo, e por isso queria ouvir sua experiência.”

Márcia Lopes, ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, e atual consultora da FAO, elogiou a iniciativa de Angola de fazer um censo este mês, que dará mais clareza sobre a população do país que precisa de políticas sociais e seus efeitos. Márcia também lembrou que o ex-presidente sempre defendeu a cooperação internacional. “O Brasil não pode se desenvolver sozinho. Precisamos que a América Latina e a África venham juntos conosco”.

Ouça a fala completa de Lula:



No Instituto Lula
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''Quero mostrar outro Brasil', diz cientista que prepara chute de paraplégico na Copa


No dia 12 de junho, o Itaquerão será palco de dois eventos históricos — e não apenas um.

O primeiro deles será a abertura da Copa do Mundo, um evento que volta a ser sediado no Brasil depois de 64 anos.

O outro é a estreia de uma tecnologia de ponta que, segundo cientistas, pode ajudar a mudar a vida de milhões de pessoas pelo mundo.

Na abertura da Copa do Mundo com o jogo Brasil x Croácia, será feita a primeira demonstração pública de um exoesqueleto controlado pela mente, que permite que pessoas paraplégicas caminhem.

Se tudo der certo, a roupa robótica será vista por 70 mil pessoas no estádio e por bilhões em todo o mundo, na televisão.

O exoesqueleto foi desenvolvido por um grupo de cientistas que fazem parte do projeto Walk Again ("Caminhar de Novo"), e é o resultado de anos de pesquisa de Miguel Nicolelis, um neurocientista brasileiro que trabalha na universidade de Duke, nos Estados Unidos.

Nicolelis acredita que a demonstração na Copa é uma forma de promover também a imagem dos cientistas brasileiros.

"Também é a nossa intenção mostrar para o mundo um outro Brasil. Mostrar que aqui no Brasil também se pode fazer grandes projetos científicos com impacto humanitário e mostrar que existe um outro país, um país que cresceu muito nos últimos anos, melhorou a vida de muita gente, mas que ainda pode fazer coisas muito impressionantes não só para os brasileiros, mas para todo o mundo."

Exoesqueleto

Em 2003, Nicolelis mostrou que macacos conseguiam controlar os movimentos de braços virtuais em um avatar através da atividade de seus cérebros.

Desde novembro, Nicolelis vem fazendo testes e treinamentos com oito pacientes em um laboratório em São Paulo. A imprensa especula que talvez um deles possa levantar de sua cadeira de rodas e dar o pontapé inicial no jogo entre Brasil e Croácia, na estreia da Copa.

"Esse era o plano original", revelou Nicolelis. "Mas nem eu posso falar sobre detalhes específicos de como será esta demonstração. Tudo está sendo discutido neste momento."

Exoesqueleto. Foto: divulgação
A bateria da tecnologia permite que ele seja usada por duas horas
Nicolelis explica que todos os pacientes têm mais de 20 anos de idade. O mais velho tem cerca de 35.

"Começamos treinando em um ambiente virtual com simulador. Nos primeiros dias, quatro pacientes usaram o exoesqueleto para dar seus primeiros passos e um deles usou o controle mental para chutar uma bola."

"Agora aumentamos nossas metas. O exoesqueleto está sendo controlado por atividade cerebral e está enviando sinais de retorno para o paciente."

Um capacete vestido pelo paciente capta os sinais do cérebro e os repassa para um computador na mochila do exoesqueleto que decodifica os sinais e os envia para as pernas. O terno robótico usa pistões hidráulicos e uma bateria, que dura duas horas.

"A ideia básica é que estamos gravando os sinais do cérebro e que depois estes sinais estão sendo traduzidos em comandos para que o robô comece a se mexer", explica Gordon Cheng, da Universidade Técnica de Munique, que trabalhou com Nicolelis e pesquisadores na França para construir o exoesqueleto.

"Estou mais na parte de engenharia e técnica, e uma das tecnologias fundamentais com a qual estamos contribuindo é o sensor que é de ponta", disse Cheng à BBC.

O sensor na pele artificial do robô consegue captar o ambiente de forma semelhante aos humanos.

"Quando o pé do exoesqueleto toca o chão, existe pressão e o sensor capta essa pressão. Antes que o pé toque o chão também existe um sensor pré-contato", explica ele.

Exoesqueleto. Foto: divulgação
Sensores no pé do exoesqueleto captam informações do chão antes do contato
"O sensor também registra a temperatura e informações sobre vibrações."

Nicolelis explicou que quando o exoesqueleto começa a se mexer e toca o chão, o sinal é transmitido para um vibrador eletrônico no braço do paciente.

"Quando você pratica por bastante tempo, o cérebro começa a associar esse movimento das pernas à vibração no braço. O paciente começa então a desenvolver uma sensação de que possui pernas e é assim que ele começa a caminhar."

Os componentes são construídos em diversos países.

"Estamos usando material feito com impressoras 3-D, a partir de plástico resistente, alguns deles mais fortes que metal e muito leves. E, é claro, estamos usando alumínio."

Alguns críticos disseram que a apresentação pública na Copa poderá passar a impressão falsa de que esta tecnologia estará disponível a todos em breve.

Nicolelis faz questão de deixar claro que isso é "só o começo". Cheng acredita que a tecnologia estará disponível pelo menos dentro dos próximos 20 anos.

Exoesqueleto. Foto: divulgação
Sinais do cérebro controlam os movimentos do exoesqueleto
"É assim que a ciência avança. Você precisa demonstrar e testar os conceitos. É uma forma de dizer à sociedade civil, que paga pela ciência no mundo, de que temos a possibilidade de sonhar com esta realidade, porque ká estamos trabalhando de forma experimental."

O ideal da ciência como forma de transformação social é um dos princípios do centro de pesquisas montado por Nicolelis em 2005 em Natal – o Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra (ELS-IINN), com contribuição da milionária família de banqueiros.

O centro conta não só com laboratórios, mas também com uma escola de ciências que atende 1,5 mil crianças e uma clínica que faz atendimento pré-natal gratuito para 12 mil mulheres por ano.
Criador e criatura
O criador e a criatura
No BBC Brasil
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Qual a razão de Veja para proteger Aloysio?

Em Veja, PQQ vira "cafajeste" e Pilha é o agressor


Ao relatar o episódio que resultou na prisão do blogueiro Rodrigo Grassi, conhecido como Rodrigo Pilha, Veja alivia a barra do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), afirmando que ele chamou o blogueiro de "cafajeste", quando as imagens revelam um parlamentar descontrolado, que o manda à "puta que o pariu" e o chama de "vagabundo"; Veja afirma ainda que Pilha foi preso por atirar uma garrafa d'água no senador, o que também não aconteceu, como demonstram as imagens de episódio; diante disso, a questão é: qual a razão para proteger Aloysio?

Ao relatar o caso da agressão do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) ao blogueiro Rodrigo Grassi, conhecido como Rodrigo Pilha, a revista Veja deste fim de semana reescreve a história e ignora as próprias imagens do episódio. Segundo a revista, ao ser provocado, Nunes o chama de "cafajeste", quando as imagens mostram um parlamentar descontrolado, que manda Pilha "à puta que o pariu" o chama de "vagabundo". Assista abaixo:


Na mesma reportagem, chamada "Talibãs à solta", Veja afirma que Pilha foi preso pela Polícia do Senado após atirar uma garrafa d'água no senador — o que as imagens também demonstram ser falso. Assista:


Diante disso, a questão é: o que leva Veja, que age com o fundamentalismo de um talibã, a proteger de forma tão ostensiva um senador que perdeu o controle de maneira desnecessária?
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Quando ameaças de morte são notícia e quando não são

Ele
E então ficamos sabendo que ameaça de morte — algo sempre condenável — é notícia e não é notícia, dependendo de a quem seja dirigida.

Um texto publicado há slgum tempo pelo publicitário Enio Mainardi, em sua página no Facebook, tinha o seguinte título: Dilma, a bruxa odiada. Em caixa alta.

Primeiro, ele torce para que o câncer volte para Dilma e para Lula. Mas ele não parece muito esperançoso de que isso ocorra.

“Vocês não vão desaparecer nunca, sabemos disso”, afirma Mainardi. Ele se referia aos petistas, genericamente. Mas deu alvo específico eram Dilma e Lula. “Não tem químio, não tem veneno de rato que acabe com a raça de vocês. São como baratas sobreviventes mesmo depois de uma explosão nuclear.”

Depois ele escreveu: “De vez em quando penduram um Mussolini pelo pescoço, enforcado numa praça pública. Ou matam um Pot-Pol a pauladas. Um parco consolo. Você, Bruxa Odiada, ainda não se tocou daquilo que é. (…) Então só nos resta lutar duramente contra você e contra todos os petistas do mundo. (…) Talvez tenhamos até que usar um fuzil automatico AR-15.”

AR-15. Mainardi cogitou usá-la contra a Bruxa Odiada. O texto mostra claramente um estado mental de extraordinária e ilimitada agressividade. Você pode até ver Mainardi com a AR-15 em busca das “baratas sobreviventes”.

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Alguém poderia se surpreender se ele saísse das palavras à ação?

Aí então diríamos: mas ele anunciou. Deu seu aviso prévio, numa candidez desconcertante. Só faltou ele anunciar no texto que estava comprando uma AR-15, no caso de alguém estar vendendo.

Mas não é notícia, e muito menos motivo para a Polícia Federal investigar o tamanho do risco representado por Mainardi.

Não é nada, em suma.

Mas quando entra em cena Joaquim Barbosa a não notícia vai para a manchete. A Veja toma, naturalmente, a iniciativa. É o que aconteceu hoje, quando o site da revista anunciou ameaças sofridas por JB.

“Disparadas por perfis apócrifos de simpatizantes petistas, mensagens foram encaminhadas ao Supremo. Em uma delas, um sujeito que usava a foto de José Dirceu em seu perfil no Facebook escreve que o ministro morreria de câncer ou com um tiro na cabeça”, escreveu a revista.

Morrer de câncer? Levar tiro? Alguém falou em AR-15? Só sabemos que Mainardi não é o autor de nenhuma das mensagens contra JB porque seu ódio se concentra nas “baratas sobreviventes”.

Continua a Veja: “Temendo pela integridade do presidente da mais alta corte do país, a direção do STF acionou a Polícia Federal para que apurasse a origem das ameaças. Dividida em dois inquéritos, a averiguação está em curso na polícia, mas os resultados já colhidos pelos investigadores começam a revelar o que parecia evidente.”

O que parecia evidente? Bem, para saber isso você tem que ser assinante da revista. O site para naquela frase enigmática.

Então digo eu, ou melhor, repito: evidente é que ameaça de morte é muita coisa em determinadas circunstâncias e nada, em outras.

Para nós do DCM, as ameaças são sempre absurdas.

Paulo Nogueira
No DCM
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Manifesto de Repúdio ao Racismo na PUC Campinas


O racismo é uma violência que mata, adoece, incapacita. É dever de toda instituição educacional não apenas entender mas garantir que o lugar do negro seja dentro da sala de aula como estudantes, professores e pesquisadores. Essa inclusão deve ser quantitativa e prezar pela qualidade, pela promoção de um ambiente seguro onde cada estudante negro possa desenvolver todo seu potencial acadêmico.

Negar o racismo é mais uma estratégia de manutenção do racismo. Num país como o nosso, onde o racismo é um elemento estruturante dessa sociedade, não se pode fechar os olhos para quando atitudes assim acontecem. O dever de uma instituição de ensino é promover o debate, fomentar a discussão e, acima de tudo, não ser conivente com tais práticas. Não pode incorrer em violentar duplamente quem está sendo a vítima.

Necessário e urgente perceber que a população negra vem sendo há séculos violentada e tendo seu acesso à cidadania negado por conta desse sistema ideológico que visa mantê-la à margem da sociedade. Logo, quando uma denúncia é feita, está se combatendo esse sistema e não pessoas. Pessoas que sentem ofendidas com determinadas denúncias são as mesmas que estão sendo privilegiadas há gerações por esse mesmo sistema. Questionar privilégios é o primeiro passo para se combater o racismo.

Como entender que uma instituição universitária que se diz compromissada com valores como solidariedade, compromisso social, pró atividade, responsabilidade com a formação integral da pessoa humana possa aceitar que atitudes racistas sejam repetidas vezes apresentadas por seus alunos? E, diante das denúncias deste racismo, argumentar cinicamente que aqueles que estão sendo denunciados estão se sentido prejudicados? Como essas pessoas podem se dizer ofendidas pelo fato de uma aluna negra denunciar o racismo que sofre? Por que se ofendem com a denúncia e não com o racismo que violenta? Estes são questionamentos necessários para quem diz querer combater esse mal.

Stephanie Ribeiro, mulher, negra, feminista, única estudante de Arquitetura e Urbanismo numa turma com outros 200 não negros teve sua liberdade de expressão cerceada quando seus comentários nas redes sociais sobre o racismo sofrido se tornaram conversas nos corredores da instituição. Logo em seguida, alguém e sentiu confortável o bastante para pixar em seu armário uma frase que em retrospecto parece profética – “Não ligamos para as bostas que você posta no Facebook”. Essa também tem sido a resposta própria PUC Campinas que, além de não verificar as denúncias sobre as violências a que tem sido submetida a estudante e providenciar a devida assistência agora compactua para a promoção do racismo ao retirar a jovem da sala de aula e submetê-la a uma reunião com diretores da instituição, onde foi informada de que Pais, Alunos e Professores estão se sentindo prejudicados por suas denúncias.

Racismo jamais é um mal entendido da parte de quem o sofre, a preocupação destas pessoas e da própria PUC Campinas deveria ser com a existência de tamanha violência dentro da instituição, ao invés de possuírem a necessidade de mascará-lo com o argumento de que somos todos humanos e desta forma tratados da mesma maneira.

Utilizar a desculpa de que somos todos humanos só encoberta a questão do racismo, não se pode invocar o conceito de igualdade abstrata quando na prática, o que se verifica é a desigualdade; a começar pelo número de estudantes negros e negras e do corpo docente. Apenas dizer “somos todos humanos”, é mais uma forma de manutenção de poder e das opressões, porque sabemos que socialmente uns são mais humanos do que outros. Que somos tratados desigualmente.

Negar o racismo é ser conivente com ele. Exigimos que as denúncias feitas sejam averiguadas e que Stephanie Ribeiro tenha salvaguardado seu direito de frequentar a universidade sem ser hostilizada e intimidada.

Repudiamos as atitudes racistas sofridas por Stephanie Ribeiro e consequentemente a inércia da instituição PUC Campinas ao não tomar uma atitude condizente com o enfrentamento do racismo, ser conivente com ele.

Não admitiremos que mais uma vítima seja silenciada, que mais um relato seja deslegitimado e que um crime seja tratado com a naturalidade de um sistema que cerceia direitos e violenta pessoas.  Não aceitaremos que a hegemonia branca atinja e prejudique nosso direito a uma educação digna. Exigimos que as denúncias de racismo sejam apuradas bem como a integridade física e psicológica da aluna seja garantida.

São Paulo, 09 de Maio de 2014

Subscrevem este documento

Blogueiras Negras – blogueirasnegras.org;
FPLP-SP Fórum de Promotoras Legais Populares de São Paulo;
FME-SP – Fórum Municipal de Educação de São Paulo;
Mapô – Núcleo de Estudos Interdisciplinar em Raça, Gênero e Sexualidade da UNIFESP – Guarulhos;
NNUG – Núcleo Negro UNIFESP Guarulhos;
Coletivo de Mulheres da Baixada Santista;
Moce você é Racista – fb.com/ pages/Moçe-Você-É-Racista/586164718067661;
Gorda e Sapatão – gordaesapatao.com.br;
COEP – Comunidade de Olho na Escola Pública;
Coletivo Meninas Black Power;
Coletiva das Vadias de Campinas;
Machismo Chato de Cada Dia – fb.com/MachismoChatoDeCadaDia;
Blogueiras Feministas ;
APROPUCSP- Associação dos Professores da PUCSP;
Coletivo Revide;
Marcha das Vadias Curitiba;
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Líder tucano na Câmara recebeu doação de empresa investigada pela PF


Uma das vozes mais ativas da oposição a favor da CPI da Petrobras, o líder do PSDB na Câmara, Antônio Imbassahy, aparece na lista dos 96 deputados que receberam doações para campanha de 2010 de empresas investigadas pela Polícia Federal na Operação Lava-Jato; algumas das empresas são investigadas por depositar recursos na MO Consultoria, empresa de fachada do doleiro Alberto Youssef; Imbassahy recebeu R$ 100 mil em doação

Não para de crescer a lista de parlamentares que teriam recebido dinheiro para campanha de empresas investigadas pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal, e surge mais um baiano nas investigações.

Depois de Mário Negromonte (ex-ministro das Cidades e presidente do PP na Bahia) e de Luiz Argôlo (ex-PP e atualmente no SDD), quem aparece na lista dos 96 deputados que receberam doações oficiais para campanha de fornecedores da Petrobras sob suspeita é o líder do PSDB na Câmara, Antônio Imbassahy.

Algumas das empresas são investigadas por depositar recursos na MO Consultoria, empresa de fachada do doleiro Alberto Youssef, ou são suspeitas de colaborar para o esquema de coleta de recursos tocado pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa.

Uma das vozes mais ativas da oposição a favor da CPMI (comissão parlamentar mista de inquérito) da Petrobras, Imbassahy teria recebido R$ 100 mil em sua campanha de 2010. Ao todo, já são oito deputados baianos acusados de envolvimento.
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Americana filma próprio aborto e vídeo viraliza na web


A americana Emily Letts, 25 anos, resolveu abortar assim que descobriu estar grávida. Então, ela decidiu filmar o processo cirúrgico. O vídeo foi publicado no YouTube e já alcançou mais de 1 milhão de visualizações.

Letts vive em Cherry Hill, em Nova Jersey, e trabalha como um doula (assistente de parto) na clínica de aborto Cherry Hill Women’s Center. Nesse estado americano, as clínicas de aborto são legais e funcionam com autorização do governo. Não há restrições de tempo de gestação para o aborto nessa área do país.

A americana era atriz, mas não se sentia bem com o seu próprio corpo. Ao ouvir relatos de uma amiga doula, resolveu seguir a mesma carreira. Enquanto estudava, descobriu que também existem doulas de aborto.

Letts contou sua história ao Cosmopolitan. "Eu nunca fui uma ativista a favor do aborto, mas a ideia de ajudar as mulheres em processo de aborto, dando apoio e explicando que elas ainda são maravilhosas e lindas soou muito bem para mim", disse.

Quando descobriu que estava grávida de duas semanas, Letts quis usar sua experiência para ajudar outras mulheres. "Nós falamos muito sobre aborto, mas ninguém sabe ao certo como o procedimento funciona", afirmou.

"Nos primeiros três meses da gestação, a cirurgia do aborto não demora mais do que de três a cinco minutos. É mais seguro do que o trabalho de parto. Não há cortes e o risco de causar infertilidade é inferior a 1%. Mesmo assim, as mulheres vão para as clínicas aterrorizadas", disse.

Segundo Letts, a quantidade de informações erradas sobre o aborto é absurda. O aborto para uma grávida de até três meses pode ser feito com remédio, com uma cirurgia em que a paciente é sedada ou um procedimento em que há apenas anestesia local e a grávida permanece acordada. "Eu podia tomar o remédio, mas queria mostrar para as mulheres o método que elas mais temem. Queria mostrar que não era assustador", afirmou.

As imagens do vídeo focam apenas no rosto de Letts. A equipe envolvida também não aparece. Veja abaixo:

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Mais uma manipulação da Globo


Anteontem um ex-diretor da CPTM, estatal que comanda o sistema de trens e metrô do estado de São Paulo, teve 1,2 milhões de dólares bloqueados em contas na Suíça. O ex-diretor está sendo investigado pelo suposto caso de corrupção no metrô paulista, que envolve administrações do PSDB no estado há 20 anos.

A Globo escondeu a notícia, só divulgando no portal G1, porém não mostrando nada na capa do “Globo.com”. É óbvio que o “Globo.com” tem um nível de acessos muito maior que o G1. As duas imagens foram retiradas no mesmo horário (20:00).

O curioso é que na capa do “Globo.com” foi destacado a quebra de sigilo da Petrobras, caso que envolve uma estatal comandada pelo PT. É claro que a forma como as matérias foram mostradas demonstra o que a Globo tem interesse de destacar e o que ela quer esconder.

No DesmascarandoGloboFolha
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Justiça do vislumbre

Alegação de Joaquim Barbosa contra Dirceu naquilo que dicionários definem como "visão incompleta" dos fatos

Após meses de subterfúgios, silêncios, protelações e outras iniciativas que lhe permitiram ganhar tempo, inclusive um surrealista pedido de monitoramento de ligações telefônicas do Planalto, o presidente do STF Joaquim Barbosa fez aquilo que — alguém duvida? — sempre quis fazer.

Negou a José Dirceu o direito de deixar o presídio para trabalhar.

Um dia antes de anunciar a decisão, Barbosa revogou o direito ao trabalho externo de outros dois prisioneiros da AP 470 que o exerciam por autorização da Vara de Execuções Penais.

A coreografia paralela tem sua utilidade.

Ninguém pode, com ela, acusar o presidente do STF de perseguir um prisioneiro em particular.

Também serve como alerta para os demais prisioneiros da AP 470 que podem — ainda — trabalhar fora.

Os cuidados com a qualidade do teatro não escondem o principal: José Dirceu é um perseguido político e, cada movimento que Joaquim Barbosa fizer para esconder este fato só revela com mais clareza a injustiça que está sendo cometida.

O presidente do STF negou o direito de Dirceu sair para trabalhar a partir de dois argumentos questionáveis.

O primeiro é alegar que a lei prevê que uma pessoa só pode cumprir o regime semi aberto depois de cumprir um sexto da pena. Isso é verdade. Mas a legislação diz também que o trabalho deve ser feito em colônias “agrícolas ou industriais”, que não existem na Papuda, o presídio para Dirceu foi enviado pelo próprio Joaquim Barbosa, quando estava condenado ao regime semi aberto.

Nessa situação, “o trabalho externo é admissível.” Tanto é assim que a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça — ultima instância do Judiciário antes do Supremo — autoriza o trabalho nessas condições.

O outro argumento é que Barbosa “vislumbra” uma ação entre amigos no emprego oferecido a Dirceu pelo advogado José Grossi, um dos mais conceituados do país. Então é assim.

Quando o presidente do STF “vislumbra” uma coisa, não precisa provar nem demonstrar. Basta “vislumbrar”, isto é, ter uma “visão incompleta, imprecisa”, uma “compreensão parcial” de um fato, como diz o Houaiss, para chegar a suas conclusões e produzir uma decisão que envolve a liberdade e o direitos de uma pessoa?

Vislumbre, esclarece Houaiss, é sinonimo de 'luz fraca."

Repare: não se acusa Dirceu de nenhuma falta disciplinar no presídio. Nenhum ato condenável, que poderia justificar a suspensão de um direito. Joaquim chega a alegar que Grossi nem sempre estará no escritório, o que pode dificultar o controle da atividade do prisioneiro.

Por esse raciocínio, é difícil imaginar que um prisioneiro sem diploma universitário possa vir a trabalhar de operário numa multinacional de 10.000 empregados cuja direção fica na Alemanha, concorda? Seja como for, o local foi examinado e aprovado previamente pelas autoridades responsáveis.

O debate, aqui, não envolve a culpa ou a inocência de Dirceu na AP 470. Nem sobre o caráter político do julgamento. Sabemos que enquanto Dirceu e os outros foram colocados atrás das grades, o ex-ministro Pimenta da Veiga, fundador do PSDB, que embolsou R$ 300.000 de Marcos Valério, nada sofreu. Dirceu não embolsou 1 centavo. Nenhuma prova dos autos indica que qualquer dirigente do PT, condenado na AP 470, tenha colocado a mão em tamanha quantia. Todos eles têm explicações melhores e mais sustentadas do que o ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso. Mas Pimenta está livre. Já montou candidatura para disputar o governo de Minas Gerais.

Mas a questão neste exato momento é outra.

Não é difícil perceber que uma sentença por vislumbre produz um vislumbre de Justiça.

Isso porque nenhuma pessoa — mesmo um prisioneiro — pode ser destituída de direitos humanos elementares. O fato do STF ter considerado Dirceu culpado por corrupção ativa — e inocente do crime de quadrilha — não lhe retira nenhum outro direito além da perda da liberdade.

Mesmo submetido a uma disciplina rigorosa, os direitos de Dirceu e de todos prisioneiros do Estado estão resguardados pelos mesmos princípios que protegem o cidadão comum.

Desde 1789, na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, diz-se no artigo nono que “Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado”.

Na Declaração Universal dos Direitos Humanos promulgada pela Organização das Nações Unidas, em 1948, afirma-se que:

“Art. XI. Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente, até que a culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público, no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.”

Já na atual Constituição da República Federativa do Brasil, preserva-se o mesmo princípio:

“Art. 5 º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:(...)

LVII – ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória;”

O que se define, aqui, são princípios básicos da Justiça, válidos em qualquer circunstância. Por isso um prisioneiro não pode ser humilhado, nem extorquido nem torturado. Isso é justiça.

Política é outra coisa. Admite-se que seja feita por vislumbre desde que, como lembrou um dos pais da sociologia, a verdade política inclui o direito à mentira.

Diz a Folha de S. Paulo, hoje:

“O caso de Dirceu só chegou às mãos de Barbosa porque a Folha revelou que o ex-ministro teria utilizado um celular dentro da prisão e ele virou alvo de investigação.”

É de chorar. A Folha “revelou” o que?

A conversa de celular entre o prisioneiro José Dirceu e um secretário do governo da Bahia é um caso típico de jornalismo declaratório e, nesse sentido, muito semelhante a Escola Base, aquele falso escândalo de 1994. Muito se falou e nada se demonstrou. Vislumbre verbal?

Em 1994, um delegado de polícia assoprou para repórteres que havia a suspeita de que crianças de uma escola de São Paulo sofriam abuso sexual por parte de diretores e professores. Nada se provou nem se demonstrou. Mas o delegado falou, os jornais reproduziram suas palavras e o escândalo se formou. Os donos da escola foram massacrados e reduzidos a miséria humana e material. Vinte anos depois, duas vítimas tiveram direito a R$ 100.000 de indenização cada uma.

Em 2014, a Folha revelou que um secretário do governo da Bahia disse a seus repórteres que havia conversado pelo celular com Dirceu. Era uma notícia — sem dúvida. Mas, quando se tentou encontrar fatos por trás das declarações, nada apareceu. O próprio secretario se desdisse. Nem precisava: a conta de seu telefone celular não registra nada que possa indicar uma conversa com Dirceu, ainda mais na Papuda.

A investigação da direção do presídio nada demonstrou. Na falta de provas, partiu-se para o vislumbre total.

Em vez de procurar vestígios sobre a conversa entre duas pessoas, tentou-se monitorar as ligações telefônicas entre a Papuda e o Planalto.

O curioso é que isso foi feito discretamente, sem chamar a atenção. Só se descobriu o que estava ocorrendo quando os advogados de Dirceu resolveram conferir os locais que deveriam ser monitorados. Foi assim que se constatou que estava em jogo, aí, o respeito a divisão de poderes e outras garantias constitucionais, que preservam a Presidência da República e mesmo o direito de milhares de cidadãos que poderiam ter suas ligações violadas. Diante do vexame, a pressão contra Dirceu depois da "revelação" chegou ao fim da linha.

Sem novos argumentos ou alegações, Joaquim Barbosa decidiu negar o pedido de trabalho externo. Empregou argumentos que poderia ter levantado 24 horas depois que os advogados protocolaram o pedido em nome de Dirceu. Não precisava ter esperado que o Ministério Público aprovasse o direito de Dirceu. Nem que a área psico-social desse seu acordo.

Fez isso três dias depois que o procurador geral da república Rodrigo Janot emitiu um parecer onde disse — sem apresentar nenhum fato novo — haver “indicativos claros” de privilégios e regalias para os prisioneiros da AP 470. Sim. “Indicativos.”

O mesmo Janot fez campanha para ser nomeado PGR por Dilma colocando-se como crítico do antecessor, Roberto Gurgel, que lançou a teoria do domínio do fato no julgamento. Estava indicando o que mesmo?

Deu para vislumbrar?

Paulo Moreira Leite
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Marcelo Itagiba, a melhor tradução do estilo Serra



O Twitter de Marcelo Itagiba poderia ser apenas uma manifestação grotesca de um guarda-costas que se pretendia frequentador das altas rodas, não fosse o fato de simbolizar um modelo de atuação política que dominou todo o círculo próximo do ex-governador José Serra — e que se transformou na parte mais truculenta do espectro político brasileiro.

Ambos têm um longo histórico.

A partir do momento em que assumiu o Ministério da Saúde, José Serra deu início à montagem de um sistema de arapongagem que não poupou nenhum adversário externo ao PSDB e interno, que pudesse disputar espaço com ele.

O ninho de arapongas do Ministério da Sáude contava com duas figuras-chave, capturadas no próprio aparelho de segurança do Estado: o delegado Marcelo Itagiba, da Polícia Federal, e José Santoro, Procurador da República.

É a partir dessas ligações que entram alguns dos grampos mais explosivos da República, envolvendo Carlinhos Cachoeira, Gilmar Mendes, Revista Veja.



Aqui, Marcelo Freixo acusando Itagiba de fomentar as milícias no Rio de Janeiro.


Luís Nassif
No GGN
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A incoerência da decisão de Barbosa é chocante



Há muitos anos os Tribunais brasileiros, em especial o Superior Tribunal de Justiça (STJ), entendem perfeitamente cabível a concessão de trabalho externo para o preso condenado ao regime semiaberto.

É uma questão jurídica pacificada, não existe controvérsia. Como prova, basta observar que o Procurador-Geral da República Dr. Rodrigo Janot, os representantes do Ministério Público do Distrito Federal e os juízes da Vara de Execuções Penais de Brasília, todos, sem exceção, concordaram que os presos da Ação Penal 470, condenados ao semiaberto, pudessem exercer imediatamente o direito ao trabalho externo.

O Ministro Joaquim Barbosa tinha absoluta ciência que os demais condenados da Ação Penal 470 estavam trabalhando fora do presídio e também não discordou da viabilidade jurídica deste importante direito.

Justamente no momento em que o Ministro Joaquim Barbosa teria que decidir sobre um condenado específico, o ex-Ministro da Casa Civil José Dirceu, sobreveio uma abrupta mudança de entendimento.

O Ministro Joaquim Barbosa passou a alegar que os brasileiros condenados ao regime semiaberto não possuem mais o direito ao trabalho externo. Devem,primeiro, cumprir o total de um sexto da pena imposta. Para justificar esta decisão, que contraria o entendimento atual unânime e consolidado dos tribunais brasileiros, citou julgados da década de noventa. Inovou no direito brasileiro, criando a jurisprudência que evolui para trás e caminha para o atraso.

O retrocesso pretendido pelo Ministro Joaquim Barbosa é ilógico e cruel. No seu entendimento, todo cidadão condenado ao semiaberto somente poderá trabalhar fora da prisão depois de cumprir um sexto da pena. Porém, depois deste período, o condenado deixa o regime semiaberto em progressão ao regime aberto. Na prática, o Ministro Joaquim Barbosa proclamou que nenhum preso condenado ao semiaberto poderá exercer o direito ao trabalho externo.

Em complemento, o Ministro Joaquim Barbosa afirmou que um escritório de advocacia não é adequado para José Dirceu exercer trabalho administrativo porque não permitiria a fiscalização do Estado. Esqueceu-se de observar que o escritório em questão foi devidamente vistoriado e aprovado pelos técnicos da Seção Psicossocial da Vara de Execuções Penais de Brasília. O Juiz e o Ministério Público de Brasília aprovaram a fiscalização realizada.

A incoerência da decisão do Ministro Joaquim Barbosa é chocante, pois ele próprio nunca manifestou oposição ao trabalho externo que os demais condenados da AP 470 exercem há meses. É importante que o Supremo Tribunal Federal casse imediatamente esta decisão individual de seu Presidente para evitar um desastroso impacto no sistema penitenciário brasileiro, que terá que absorver, não apenas os presos da AP 470, mas todos os outros sentenciados que hoje exercem pacificamente o trabalho externo e caminham para a ressocialização.

Por fim, a decisão adotada pelo Ministro Joaquim Barbosa deixa claro, para aqueles que ainda podiam ter alguma dúvida, que o julgamento da Ação Penal 470 foi um lamentável ponto fora da curva.

José Luis Oliveira Lima
Rodrigo Dall’Acqua
Advogados de José Dirceu

No Viomundo

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A guerra da mídia segundo Victor Hugo Morales

Novo livro de Victor Hugo Morales

"Audiência com o diabo narra com um olhar atento e preciso os mecanismos que a mídia hegemônica utiliza para perpetuar seu domínio. E o faz com uma escrita bela, muitas vezes poética, mas cheia de informações e de análises. Víctor Hugo Morales escreveu um livro no qual as reflexões sobre a política, o jornalismo e o poder convivem com as lembranças pessoais e sua própria visão do mundo. Audiência com o diabo é um retrato vivo, urgente, mas bem pensado, da época que temos que viver."

Para quem não lembra quem é esse jornalista uruguaio, recordemos sua histórica entrevista via CNN, quando Victor fez a própria CNN engolir todos os seus sapos verdes.


No Argetina etc
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O Rubicão da reeleição de Dilma


Embora a oposição se apresse em dizer o contrário e possa, a alguns, parecer paradoxal, o dia de hoje marca trecho final, em condições bastante razoáveis para Dilma Rousseff, do período eleitoral pré-Copa, o mais difícil para a candidatura da atual presidente à reeleição.

Os principais elementos negativos para ela já foram para a mesa: a inércia política de seu Governo, as dificuldades com a base parlamentar, a  ”ofensiva moralista” encarnada na exploração da Petrobras e, muito  mais importante, o quadrimestre bastante complicado em matéria de inflação, mais aguda por conta da seca e do represamento das tarifas de transporte no ano passado, que começou a retroceder, com a divulgação do IPCA (0,67%, contra uma “aposta” do mercado de 0,8%) e a primeira prévia do IGP-M marcando 0,06% (o índice cheio para o mês é previsto pelos bancos em 0,4%).

Por mais que o terrorismo inflacionário vá seguir, não há como esconder que para a parcela mais pobre da população, onde o INPC reflete melhor a pressão dos preços, o acumulado em 12 meses é, com seus 5,82%, muito menos aterrorizante que o de abril de 2013, quando somava 7,16%.

Não é o melhor dos mundos, mas também não é um cenário desesperador, como apostava — e não perdeu ainda as esperanças — a turma do “quanto pior, melhor”.

O último fator — a Copa — embora ninguém deva ter a ilusão de que aí não virão manifestações — não dá também sinais de que vá adquirir as proporções de um ano atrás, com a adesão de parcelas significativas da classe média.

Ao contrário, a tendência é a de que o clima da competição e a conclusão de muitas obras a ela ligadas aponte para uma dissolução das reservas que artificialmente se criaram sobre os “danos” que ela traria ao país.

Empolgação à parte,  o conservadorismo brasileiro tem, é certo, algo como 35% dos votos assegurados e, com Aécio consolidado como seu candidato, inclusive com um movimento de pesquisas que definem sua supremacia sobre um Eduardo Campos que começa a ser empurrado para o nada, como já fica claro nas pesquisas.

Contra ele, à medida em que a campanha avance, há o peso de um Lula que se conserva, intocado, com a maioria absoluta de intenções de voto.

Quanto ao jogo das pesquisas, apenas reproduzo o texto da revista Veja sobre uma pesquisa Ibope, menos de um ano antes da eleição que reelegeu Lula em 2006:

ecta“O Ibope divulgou pesquisa que, pela primeira vez, aponta para uma derrota do presidente Lula nas eleições de 2006. Segundo o levantamento, Lula perderia para o tucano José Serra, prefeito de São Paulo, já no primeiro turno das eleições de 2006, com um placar de 37% a 31%. As pesquisas mostram ainda a ascensão rápida do também tucano Geraldo Alckmin, governador de São Paulo. Quando o nome dele aparece como o escolhido pelo PSDB para enfrentar o presidente, Alckmin, que nunca fez campanha nacionalmente nem ocupou cargos federais, perde por apenas quatro pontos — quase dentro da margem de erro estatístico. Os números da pesquisa mostram Lula em uma rampa descendente íngreme na preferência popular — enquanto na rampa oposta, ascendente, estão vindo seus potenciais contendores na campanha do ano que vem.

Com base nos dados da pesquisa do Ibope e com a ajuda de técnicos do instituto, VEJA transformou as porcentagens em números absolutos e comparou-os aos resultados obtidos nas últimas eleições presidenciais pelos então candidatos Serra e Lula. O resultado é impressionante. Consagrado nas urnas em 2002 com 52 milhões de votos, Lula, três anos depois do pleito, perdeu 20 milhões de eleitores. Isso significa que quase 40% das pessoas que o queriam na Presidência hoje não querem mais. Só na Região Sudeste (que reúne 45% do eleitorado brasileiro), o presidente viu desertarem 10,6 milhões de eleitores desde que assumiu o cargo. O cálculo foi realizado com base nos porcentuais de intenção de voto atribuídos a Lula e Serra em um hipotético segundo turno — ponderados os índices de abstenção registrados nas eleições de 2002 em cada região do país e descontados os votos brancos e nulos. Por essas mesmas contas, Serra ganhou 11 milhões de eleitores em relação à última eleição presidencial. No dia seguinte à divulgação da pesquisa do Ibope, o Datafolha anunciou a sua, com números praticamente idênticos. “

Não é preciso mais do que as pesquisas para que você julgue as pesquisas, não é?

Fernando Brito
No Tijolaço
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Boechat é condenado por ofensas contra Requião

O jornalista da Band Ricardo Boechat
Reinaldo Canato/UOL
O jornalista do Grupo Bandeirantes Ricardo Boechat foi condenado a seis meses e 16 dias de prisão por crime de calúnia contra o senador Roberto Requião (PMDB-PR). A sentença foi proferida pela 1ª Vara Criminal do Fórum Regional de Pinheiros, em São Paulo. A juíza Aparecida Angélica Correa converteu a pena para três meses de trabalho comunitário.

Boechat foi condenado por comentário feito no dia 11 de maio de 2011 na Rádio Band News, onde ancora o noticiário matinal. Após reportagem sobre o incidente em que o senador pemedebista tomou o gravador das mãos de um repórter, Boechat acusou o senador de corrupção e nepotismo.

O jornalista fez acusações sobre a atuação do irmão do senador como gestor do Porto de Paranaguá e afirmou que a aposentadoria que Requião recebe como ex-governador do Paraná era "um roubo".

No mesmo comentário, Boechat disse que Requião o perseguia por atribuir a ele a divulgação de uma notícia que acusava o político paranaense de haver violentado uma menor, e tratou de esclarecer que jamais havia feito tal afirmação.

Após a sentença, Requião comentou a vitória judicial em comentário gravado enviado a emissoras de rádio e órgão de imprensa: "Eu sou absolutamente a favor da liberdade de imprensa, mas a irresponsabilidade de alguns jornalistas tem que ser questionada e as pessoas devem ir à juízo. A juíza acertadamente converteu a pena em trabalho social. Preso numa cadeia brasileira, Ricardo Boechat com certeza ficaria junto com pessoas piores que ele, e poderia sair pior que entrou".

Requião também defendeu a inclusão do direito de resposta na legislação brasileira. Nesta quinta-feira (8), pouco após saber da decisão, disse em discurso no plenário do Senado que trocaria a condenação pelo direito de resposta.

Um projeto de autoria dele tramita na Câmara e prevê que pessoas ou organizações citadas na imprensa teriam o mesmo espaço no veículo de comunicação para se defender, caso comprovem judicialmente a inverdade ou ofensa.

A Band, por meio da assessoria de imprensa, informou que vai recorrer da decisão.

Ao Portal Imprensa, Boechat declarou que mantém as declarações sobre o senador "Me avisaram que tinha uma condenação e o jurídico da Band vai recorrer. Não tem muito o que comentar, mas não mudo uma vírgula daquilo que eu disse", disse o jornalista.

Osny Tavares
No UOL
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