8 de mai de 2014

Linchadores por todos os lados

Nas edições de quinta-feira (8/5), os jornais seguem dando repercussão ao linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, trucidada no sábado (3/5) por uma multidão no bairro de Morrinhos, município de Guarujá, litoral paulista. O leitor encontra referências à investigação policial e declarações do criador da página do Facebook que teria espalhado o boato sobre uma suposta sequestradora de crianças, tido como o motivo do crime.

No meio do espanto geral, uma entrevista do marido da vítima ao Globo parece uma voz deslocada dessa algaravia, por sua triste serenidade. O viúvo conta como foi o último dia com Fabiane e fala sobre a rotina da família, o drama dos surtos que ela sofria quando faltavam medicamentos para a depressão. O resto da reportagem descreve como ela foi confundida com a figura mitológica da sequestradora que estaria usando crianças para rituais de magia negra.

O contexto é o da mais absoluta miséria social, aquela que afeta o discernimento das pessoas, descrita no vocabulário marxista clássico como o ambiente do lumpemproletariado.

Dificilmente se irá encontrar essa abordagem na imprensa hegemônica, porque isso significaria penetrar nas contradições do capitalismo e nas dores que uma sociedade sofre no processo de reduzir as diferenças sociais. Por essa razão, o leitor de jornais precisaria buscar algumas fontes primárias para compreender como determinados segmentos da população podem viver na fronteira da civilização com a barbárie, em pleno século 21.

Antes, porém, convém observar que a visão de mundo obscurantista não é característica exclusiva do indivíduo miserável, sem educação formal. Essa espécie de analfabetismo político, que inibe a consciência do papel do indivíduo no contexto social, também se revela nas camadas superiores de renda e de escolaridade.

As manifestações de não-civilidade das classes privilegiadas podem ser observadas na opinião de colunistas da imprensa que estimulam o radicalismo e a intolerância. Trata-se, neste caso, de uma lumpemburguesia, tão pobre de espírito quanto os lumpemproletários.

As dores da democracia

A expressão lumpemburguesia foi criada por Andreas Gunder Frank (1929-2005), sociólogo e economista americano de origem alemã, cujas ideias, curiosamente, têm origem semelhante às que levaram o sociólogo brasileiro Fernando Henrique Cardoso a adaptar a teoria da dependência econômica à América Latina.

Frank elaborou essa derivação da expressão marxista para identificar a presença do analfabetismo político no topo da pirâmide social, ao descrever o perfil reacionário e irracional de certa classe burguesa latino-americana, que repudia sua nacionalidade e age contra os interesses de seu próprio povo.

Por que estamos derivando para esse tema? O que isso tem a ver com o assassinato brutal de Fabiane Maria de Jesus?

Porque a imprensa, objeto de nossa observação, parece justificadamente indignada com o trucidamento da dona de casa, mas não percebe o mal que produz ao tolerar os linchamentos morais que fazem a rotina de suas páginas. Ao despejar seletivamente suas rajadas contra as instituições públicas, a imprensa provoca a demonização dos poderes republicanos, criando no imaginário do lumpemburguês e do lumpemproletário uma aversão ao regime democrático e à legitimidade da ordem social.

É função da imprensa fazer a crítica pública do poder, mas também é sua obrigação fazer a defesa do regime democrático, sem o qual a própria imprensa deixa de existir. O descrédito de instituições como o Congresso Nacional, por exemplo, tem origem no desempenho de parte de seus integrantes, atados em alianças que desfazem o sentido ideológico do sistema político, mas não há como fugir à evidência de que as denúncias espetaculosas, sempre discriminadas em função desta ou daquela sigla, dão ao analfabeto político a convicção de que é tudo a mesma porcaria.

O lumpemproletário se julga dotado de uma razão pura ao promover o que considera “justiçamento”. O lumpemburguês considera justificados seus preconceitos pela visão depreciativa que a imprensa lhe apresenta diariamente de seu próprio país e seu povo.

Entre os dois focos da ignorância, a democracia brasileira sofre as dores do crescimento.

Luciano Martins Costa
No OI
Leia Mais ►

Uma receita para a desigualdade

Os gêmeos ideológicos e a mídia complacente desconversam sobre os efeitos indigestos da receita que anunciam como se fosse um biscoito fino para o país.

O conservadorismo costuma se declarar vítima do maniqueísmo que regularmente carimbaria na testa de seus candidatos rótulos depreciativos aos olhos da população.

Elitistas e entreguistas, por exemplo.

O problema real parece ser outro. Candidaturas conservadoras mostram dificuldade para conciliar o discurso de palanque com a identidade do projeto que defendem para o país.

Na história recente tornou-se emblemático o caso do governador Geraldo Alckmin.

Presidenciável tucano em 2006, ele se fantasiou com adesivos de estatais brasileiras na vã tentativa de afastar compreensíveis suspeitas do eleitor.

Convenceu tanto quanto o lobo vestido de vovozinha na história da Chapeuzinho Vermelho.

Ou então Serra. Em 2010, já descendo a ladeira, aliado ao humanista bispo Malafaia para atacar gays, aborto e petistas, o tucano chegou a acenar com um gesto generoso.

O governo propunha então R$ 538 reais para o salario mínimo válido a partir de 2011, um valor calculado conforme a regra pactuada com CUT e sindicatos quatro anos antes.

‘Acho pouco’, disse o tucano e sapecou:

‘Vou fixar em R$ 600 reais’ veja aqui:


Não contente, prometeu um aumento de 10% para os aposentados.

E arrematou com o compromisso de incluir 15 milhões no Bolsa Família (o programa reunia então 12,3 milhões; hoje são 13, 8 milhões), ademais de assegurar um 13º pagamento a todos os beneficiados.

Digamos que Dilma tomasse decisão semelhante hoje.

O que diriam os centuriões do equilíbrio fiscal que saíram de faca na boca diante do reajuste de 10% para o Bolsa Família, somado à correção da tabela do IR, ambos anunciados no discurso presidencial do 1º de Maio?

No caso de Serra, zumbiu um silencio obsequioso.

Inútil.

A credibilidade do discurso tucano não superou as desconfianças entranhadas no personagem.

O resultado é sabido: Dilma venceu as eleições de 2010, no 2º turno, por uma diferença de mais de 10 milhões de votos sobre o delfim do conservadorismo.

Tome-se agora o caso dos gêmeos ideológicos, Aécio & Eduardo.

Ambos querem devolver aos mercados o comando do país.

Há diferenças de estilo, mas nisso são univitelinos.

Em linguagem explícita ou cifrada vão alternando, como num jogral, detalhes de como se faz esse cozido de uma Nação.

Junte um Banco Central independente (da sociedade), a um choque de juros; acrescente mais duas voltas de arrocho com um superávit de 3,5%. Pique a meta da inflação ao gosto dos rentistas. Depois misture tudo com a batedeira da liberdade irrestrita aos capitais; leve ao forno da abertura comercial plena, geral e irrestrita.

Sirva fervendo.

Só falta explicitar à opinião pública os custos de cada ingrediente.

Colunistas isentos (ideológicos são os blogueiros) adornam a omissão com uma condescendência melosa e enjoativa.

A exemplo do que fizeram com Serra não arguem o preço social e estratégica do cardápio maturado na cozinha dos gêmeos ideológicos.

Coube à Presidenta Dilma quebrar o segredo culinário nesta 3ª feira, ao calcular aquilo que se omite deliberadamente:

‘Baixar a meta da inflação para 3% (como querem os gêmeos) jogaria 8,2% dos trabalhadores no desemprego’, advertiu escancarando a linha tênue que separa o salitre impopular do lacto purga antipopular.

Preguiçosa nos cálculos quando se trata de escarafunchar a cozinha conservadora, a mídia reagiu celeremente ao discurso do 1º de Maio.

Manchetes faiscantes denunciavam no dia seguinte a ‘gastança’: R$ 8,9 bi vai custar o reajuste de 10% para o Bolsa Família e a correção da tabela do IR.

A assimetria da reação reflete uma divergência de prioridades.

Um aumento anterior de impostos providenciado pelo governo, sobre cervejas e refrigerantes, custeará quase a metade da despesa anunciada no 1º de Maio (R$ 3,6 bi).

O mercado financeiro reagiu inconsolável.

Do Itaú, o Banco Central tucano, veio a explicação: ‘esperava-se que a receita extra fosse cobrir despesas das elétricas para não prejudicar ainda mais o superávit de 2014’.

Em bom português: teme-se que a hidráulica fiscal vire o registro para subtrair água dos que já tem a caixa cheia, em benefício de que vivem de gota em gota.

Só no 1º trimestre deste ano, por exemplo, R$ 13,048 bilhões foram adicionados à caixa dos rentistas da dívida interna.

O volume poderia ser significativamente menor se o registro dos juros girasse para baixo.

O Brasil paga o terceiro juro real mais alto do mundo, cerca de 5%, depois de uma queda de braço em que Dilma conseguiu, momentaneamente, trazer para 3,5%, uma taxa real que foi da ordem de 11,5%, em média, no segundo governo Lula e de 18,5% na média do segundo governo FHC.

As medidas que os gêmeos ideológicos listam para o país requisitam um cavalo de pau nessa trajetória descendente.

Com elevado risco de retornos pífios em relação aos seus próprios objetivos.

É o que demonstra o pulso agonizante de países europeus que desde a crise de 2008 vem sendo tratados com o receituário que Aécio & Eduardo querem agora ministrar aqui.

Vejamos.

Depois de três anos de arrocho, que decepou 7% de sua economia, a dívida pública em Portugal saltou de 108% para 129% do PIB. O desemprego médio passa de 15%; e supera os 30% entre os jovens.

Na Espanha, que começou o arrocho antes do vizinho ibérico, ainda com o PSOE, e o aprofundou com a chegada da direita ao poder, em 2011, o quadro é ainda mais sombrio.

A ponto de o país registrar um déficit fiscal que é quase o dobro daquele anterior à crise.

O arrocho congelou a economia e decepou a receita do governo. A recessão fez o resto e tornou a crise autossustentável.

Há quase seis milhões de desempregados na Espanha (24% da força de trabalho)

A população ativa encolhe mês a mês pela desistência pura e simples de se procurar o que não tem: emprego.

Hoje ela é inferior à existente há seis anos — evolução semelhante a uma situação de guerra, quando os adultos em idade produtiva, jovens, sobretudo, vão para os campos de batalha e não retornam.

Na Espanha eles estão indo às filas de embarque .

A taxa de desemprego na juventude espanhola passa de 55%. Significa que metade de uma geração inteira talvez nunca encontre trabalho em sua terra.

Pior só a Grécia.

Seis de cada 10 jovens gregos estão desempregados e cerca de 4 milhões dos seus 11 milhões de habitantes vivem em um labirinto de pobreza e exclusão.

Há seis anos sob implacável terapia de arrocho, o país perdeu 25% de seu PIB. Em compensação, a taxa de suicídio aumentou 45% desde 2007.

O conservadorismo sabe as consequências da receita que preconiza para o Brasil.

O colunismo especializado, que encena esclarecimento diante do livro de Thomas Piketty (‘O Capital no Século XXI’), tem a exata dimensão do que está em jogo.

Está em jogo assegurar aos endinheirados uma fatia da riqueza crescentemente superior ao desempenho médio da economia. Exatamente o traço forte do capitalismo atual denunciado minuciosamente por Piketty.

Ao fixar essa estaca, a conta de chegar não fecha para o resto da sociedade.

O capitalismo assume a sua genética como usina imbatível de assimetrias sociais.

Ou não será exatamente essa a raiz da desordem europeia nos dias que correm?

Rentistas e banqueiros (alemães, sobretudo) festejam a ‘retomada’, laços sociais se desintegram e a extrema direita colhe os frutos desesperados da pobreza e do desemprego propondo uma ordem policial contra a anomia neoliberal.

Os gêmeos ideológicos e a mídia complacente desconversam sobre os efeitos indigestos da receita que anunciam como biscoito fino para o país.

Apenas os mais afoitos admitem que o segredo da massa remonta a uma tradição que vem da casa grande no trato com a senzala.

Trata-se da receita da desigualdade, segundo a qual , para uma sociedade avançar, é preciso o seu povo regredir.

Saul Leblon
No Carta Maior
Leia Mais ►

O tomate voltou no Bom dia Brasil e menos virou mais no preço dos alimentos

Enquanto Ceagesp diz que a tendência é de redução
de preços para a maioria dos legumes e verduras,
jornal da Globo reafirma campanha pela inflação
Nesta quinta-feira (8), uma matéria veiculada no jornal Bom Dia Brasil, da Rede Globo, afirma que o preço dos alimentos continua em alta. Direto do Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), em São Paulo, a repórter Veruska Donato, com um tomate na mão, disse que o alimento subiu 42,8%. A reportagem cita como fonte os economistas do próprio Ceagesp.



Este blogueiro sujo foi checar a informação. E descobriu que o que companhia informa em seu blog oficial é completamente diferente da abordagem da Globo.

De acordo com o Ceagesp, em notícia veiculada também nesta quinta, “frutas, legumes e verduras registraram retração dos preços praticados”. Em abril, o índice de preços Ceagesp recuou 4,84%.

Segundo os economistas da companhia, no mesmo blog, “apesar de algumas elevações pontuais neste inicio de maio como o tomate, o mês de maio deve continuar com preços em queda em razão da retração no consumo (lado da demanda) e de condições climáticas satisfatórias, com temperaturas amenas e pouca incidência de chuvas nas regiões produtoras (lado da oferta)”.

A TV Globo segue sua máxima, dane-se a verdade factual. E seus jornalistas econômicos, como Mirian Leitão, que estava hoje na bancada comentando essa mágica que faz menos virar mais, são experts neste jogo da manipulalação. Em janeiro, na Globonews, Sardenberg apresentou um gráfico com uma distância desproporcional do 5,81%, de 2013, do centro da meta de 4,5%.

grafico inflacao

Segue abaixo a matéria do Ceagesp sobre a tendência de redução de preços para a maioria dos legumes e verduras. E fica a dica, não assista a Globo, busque informação econômica em fontes criveis.

Índice CEAGESP recua 4,84% em abril


Queda acentuada de legumes e verduras impulsiona redução do indicador. No ano, o índice CEAGESP acumula alta de 5,36%  e, nos últimos 12 meses, elevação de 1,90%

São Paulo, maio de 2014 – Em abril, o Índice de preços CEAGESP recuou 4,84%. Frutas, legumes e verduras registraram retração dos preços praticados. Os setores de diversos e pescados apresentaram ligeira alta.

“Esta é uma época muito favorável à produção e de retração no consumo. Assim, apesar de algumas elevações pontuais, mais de 90% dos produtos pesquisados devem figurar como opções de compras e manter, portanto,  a inflação do setor em queda”, destaca Flávio Godas, economista da CEAGESP.

O setor de frutas apresentou retração de 1,71%. As principais quedas foram laranja lima (-24,8%), caju (-24,6%), atemoia (-21,8%), limão Taiti (-19,1%), maracujá doce (-15,4%), melão (-11,9%) e laranja pêra (-10,3%). Principais altas: uva Itália (17,8%), morango (10,8%), abacate (9%) e goiaba (6,3%).

O setor de legumes registrou queda de 16,09%. As principais quedas foram do chuchu (-47,5%), vagem (-38,1%), pepino (-29,7%), beterraba (-27,1%), quiabo (-19,4%), abobrinha italiana (-19,55), tomate (-17,8%) e cenoura (-12%).  Não houve altas significativas no setor.

Já o setor de verduras caiu 17,30%. As principais quedas do setor foram  coentro (-79,7%), alface crespa (-33,1%), alface lisa (27%), couve-flor (-26%), almeirão (-25,1%), nabo (-21,2%), milho verde (-18%), escarola (-15,2%), cebolinha (-16,3%) e agrião (-16,1%). Dos 40 produtos acompanhados, as duas únicas altas no setor foram brócolis (25,2%) e salsão (-2,6%).

O setor de diversos  registrou alta de 9,14%. As principais elevações foram batata lisa (27,8%), batata comum (17%), coco seco (16,3%), ovos (7,5%) e cebola nacional (3,5%). Principais quedas: Milho de pipoca (-4,1%) e alho (-1,5%).

Por fim, o setor de pescados registrou ligeira elevação de 0,3%. As principais altas foram do robalo (22,6%), abrotea (14,4%), pescada (13,7%) e namorado (10,2%). As principais quedas foram do cação (-22,3%), anchovas (-15,6%), polvo (-7%) e tainha (-6,4%).

Tendência:

Apesar de algumas elevações pontuais neste inicio de maio como o tomate, o mês de maio deve continuar com preços em queda em razão da retração no consumo (lado da demanda) e de condições climáticas satisfatórias, com temperaturas amenas e pouca incidência de chuvas nas regiões produtoras (lado da oferta).

Somente se ocorrerem geadas nas regiões produtoras esta situação deverá se inverter.

Mesmo o tomate e a batata, com preços em alta neste inicio de maio, em razão da grande quantidade de opções de compra, não deverão permanecer com preços tão elevados. Com o quadro atual, os consumidores substituem ou compram em menor volume, fazendo com que os preços não se sustentem em patamares tão elevados.
Assim, a tendência é de redução de preços para a maioria dos legumes e verduras comercializados na CEAGESP.

No setor de frutas, vários produtos em plena safra como laranjas pêra e lima, limão, caqui, morango, entre outros, além da retração no consumo de frutas tropicais como coco verde, melancia, melão e abacaxis deverão manter os preços do setor em patamares reduzidos.

O setor de pescados, passado o mês de maior consumo em razão da Páscoa e fim da época de defeso de produtos importantes como sardinha, camarão, entre outros, também deverá apresentar redução dos preços praticados.








 S E D E S


SEÇÃO DE ECONOMIA E DESENVOLVIMENTO

SETOR
VR. CESTA – R$
PARTICIP
ABR-14
MAR-14
VAR.(%)

FRUTAS
302,50
52,00%
157,30
160,04
-1,71%

LEGUMES
141,72
25,00%
35,43
42,23
-16,09%

VERDURAS
314,33
8,00%
25,15
30,41
-17,30%

DIVERSOS
124,66
11,00%
13,71
12,56
9,14%

PESCADOS
873,62
4,00%
34,94
34,84
0,30%

TOTAL
1.756,83
100,00%
266,53
280,08
-4,84%

Renato Rovai
No Blog do Rovai
Leia Mais ►

Garrafinha d'água é nova bolinha de papel dos Tucanos!

Leia Mais ►

Divergências à parte

Duas figuras eminentes, mas divergentes em política e no mais que se sabe de ambas, coincidiram no teor de pronunciamentos relevantes, feitos nos últimos dias em circunstâncias diferentes. Partiram ambos de uma percepção generalizada no Brasil e chegaram quase à mesma proposta, aparentemente capaz de satisfazer a opinião pública. Não obtiveram, no entanto, repercussão alguma, seja nos meios políticos (nem mesmo nos seus), seja nos meios de comunicação.
Quem no domingo ultrapassou o título do extenso artigo de Fernando Henrique Cardoso — o caduco "A que ponto chegamos!", um lugar tão comum que até ficou incomum — deparou, primeiro, com algo conhecido: a mesma crítica feita por todos ao sistema político deteriorado pela existência de mais de 30 partidos, com exigências extorsivas sob as quais, no dizer do articulista, "nenhum governo pode funcionar". Mas, por fim, a leitura sai do óbvio e suas redondezas para uma proposta sem contorções: a ação conjugada de "todos os que exerceram ou exercem a Presidência" para "fazer conjuntamente o que nossos partidos, por suas impossibilidades [?] e por seus interesses, não querem fazer: mudar o sistema".

Não poderia deixar de seguir-se uma delicadeza à la Fernando Henrique: "Sei que se trata de um grito um tanto ingênuo, pedir grandeza". Os outros que "exerceram ou exercem a Presidência" são, portanto, desprovidos de grandeza, exclusividade dele. Mas lá estava a proposta.

Dois dias depois, em encontro com donos e dirigentes de supermercados, Marina Silva suscitou a necessidade de um pacto com Lula e Fernando Henrique para chegar-se à aprovação das reformas que o Congresso, por si só, não efetiva. Marina, porém, não incluiu Dilma. E nem sequer Eduardo Campos entrou no seu proposto pacto.

Também dotada do gênero especial de delicadeza, na ocasião em que se propunha a entendimento com os dois ex-presidentes Marina fez-lhes o seu agrado: o pacto seria "para aposentar da política a Velha República, como Sarney, de quem Lula ficou refém; o mesmo que aconteceu com Fernando Henrique em relação ao senador Antonio Carlos Magalhães". Seu pacto seria, pois, com dois paus-mandados.

Como as propostas de acordo ou de pacto não dependem das maneiras pessoais, tinham o suficiente para merecer a atenção dos que, na política e nos meios de comunicação, identificam na ausência de reformas a causa primordial do desarranjo no dispositivo de condução legislativa, administrativa e judicial do país. A degeneração nacional.

As possibilidades das duas propostas dependeriam de tantos fatores que nem vale a pena cogitar senão do mais evidente: a improvável conciliação das rígidas posições dos próprios pactuados. Fernando Henrique girou em torno de realidades a serem mudadas no sistema político, mas Marina referiu-se também à contribuição que PSDB e PT poderiam dar às reformas tributária, previdenciária e trabalhista. Nas três primeiras, não há como imaginar fórmulas que conciliem a essência neoliberal, ou "mercadista", do PSDB, confirmada na equipe que monta o programa socioeconômico de Aécio Neves, e o que é indispensável para a justiça social, na visão do PT.

Só discutir tais questões talvez já representasse, e até produzisse, algum avanço. Embora apenas bradar contra o estado de coisas e pela necessidade de reformas seja, de fato, muito menos trabalhoso.

Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►

O caminho

Um espectro ronda a Europa e o resto do mundo onde a receita neoliberal contra a crise é austeridade para os pobres e liberdade total para os ricos enriquecerem cada vez mais. O espectro tem nome e sobrenome: Thomas Piketty. É um jovem economista francês cujo livro O Capital no Século Vinte e Um é um best-seller internacional e está apavorando muita gente. Não há resposta para a sua tese de que a ideia de que basta deixar os ricos se lambuzarem que sobrará para os pobres, todos se beneficiarão e a desigualdade acabará no planeta é furada como um "donut" — a não ser chamá-lo de um marxista com preconceitos previsíveis. Mas justamente o que assusta em Piketty é que sua tese foge da ortodoxia marxista e é baseada em retrospectiva academicamente irretocável e fatos e números inegáveis, não em ideologia. Ela apenas prova que a lição dos últimos anos, quando o capital financeiro se adonou do mundo, é não apenas que o caminho tomado está errado e só levará a mais desigualdade como todos os argumentos usados para justificá-lo são falsos. A concentração de renda não se deve a nenhum tipo de meritocracia, já que vem principalmente de dinheiro herdado ou produzido pelo próprio dinheiro, sem nenhum proveito social, e nem as oligarquias mais "esclarecidas" estão prontas a renunciar à sua capacidade de autogeração, que, no caso, é a possibilidade de se autorremunerar ao infinito. A continuar assim, diz Piketty, a história do capitalismo no século 21 será a do crescente confronto com a desigualdade e com a revolta que ela, cedo ou tarde, mas fatalmente, provocará.

Gosto daquela cena num filme dos irmãos Marx em que Groucho, no papel de um general, se prepara para explicar a seus comandados o significado de um mapa na parede. "Uma criança de 3 anos entenderia este mapa", diz Groucho. E, depois de estudar o mapa por alguns minutos: "Tragam uma criança de 3 anos!". Sem querer diminuí-lo — ao contrário —, acho que monsieur Piketty é a criança de 3 anos desta história. Ele traz uma visão nova de uma situação que todo mundo está vendo, mas nem todo o mundo enxerga ou quer enxergar, e que a criança de 3 anos veria com a mesma simplicidade, sem os mesmos recursos do francês. Mas também desconfio que, passado o primeiro susto, a tese de Piketty terá o mesmo efeito da explicação da hipotética criança de 3 anos — muito pouco. A lição que Piketty aprendeu ou apreendeu no passado estava evidente. Se o caminho errado continua o mesmo é porque interessa economicamente e politicamente a quem tem o poder, e não quer distribuí-lo como se distribui renda. É um caminho para o desastre conscientemente assumido.

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

Qual é a de Rodrigo Pilha?

O petista rebelde
Não é difícil entender a personalidade histriônica, iconoclasta e combativa do blogueiro Rodrigo Pilha, militante petista.

Pilha vem fazendo o que quase todo petista gostaria de fazer mas não faz por motivos de prudência, cautela ou, simplesmente, medo.

De uma forma geral, o PT se acostumou a apanhar calado desde o Mensalão. Se foi um erro histórico, ou um acerto primoroso, o tempo dirá.

Para jovens idealistas com pouco a perder como Pilha, não reagir é uma provação. Imagine você, jovem, ver, sistematicamente, seu pai ou avô serem insultados.

As duas ações que projetaram Pilha ao centro do noticiário parecem se encaixar neste perfil psicológico.

Que petista não gostaria de dizer certas coisas a Joaquim Barbosa, como Pilha fez numa noite recente em Brasília?

Mas quantos têm a bravura, ou a irresponsabilidade, necessária para fazer o que ele fez? Barbosa teve que dormir com aquelas palavras escarnecedoras, e foi obrigado depois a vê-las reproduzidas nacionalmente na mídia.

Da mesma forma, Pilha realizou a fantasia de muitos petistas ao se acercar do senador Aloysio Nunes e lhe fazer perguntas que repórter nenhum na mídia domesticada ousa fazer.

A primeira e essencial: se Nunes vê tantas virtudes em CPI, por que seu partido sistematicamente as bloqueia em São Paulo, na Assembleia Legislativa?

Depois, Pilha perguntou a Nunes sobre sua alegada participação no escândalo das propinas do metrô.

O senador não foi nada estoico. Mandou Pilha para a puta que o pariu. Provavelmente não imaginasse que o vídeo precário que Pilha estava fazendo seria publicado e ganharia ampla repercussão.

A Era Digital tem dessas coisas.

Os desdobramentos do caso são igualmente fascinantes quanto o caso em si.

O senador alegou — numa versão comprada integralmente pela Folha — que o vídeo postado por Pilha fora editado para não mostrar uma garrafa de água que lhe teria sido atirada.

Mais uma vez, a internet mostrou que as coisas hoje são diferentes.

Pilha postou um vídeo em seu Facebook em que a aparece a tal garrafa da água. Mas não da maneira como Nunes e a Folha disseram.

Claramente, a garrafa é jogada no chão, lentamente, teatralmente. Pilha usa a garrafa para se referir à falta de água em São Paulo.

Mas o senador, com o apoio da Folha, viu ali uma agressão.

Foi uma coisa tão despropositada, como se viu num segundo vídeo postado por Pilha, que logo surgiu a associação com a bolinha de papel que vitimou, aspas, Serra na campanha de 2010.

Em vez da chancela da Folha, daquela vez o apoio ao atentado da bolinha de papel foi dado pela Globo, numa memorável reportagem no Jornal Nacional em que um especialista provava — pausa para rir, de novo — o atentado petista contra Serra.

Pilha é, de alguma forma, uma resposta ao padrão conciliador estabelecido por Lula no começo de seu mandato em duas ocasiões.

A primeira foi quando assinou uma Carta aos Brasileiros nas qual se comprometia, em resumo, a não se esquerda.

A segunda foi quando ele compareceu ao funeral do homem que fez tudo para destruí-lo, Roberto Marinho.

O PT demonstrou, então, que não seguiria o caminho de outras administrações de esquerda, como a de Chávez na Venezuela e, mais recentemente, a de Correa no Equador. Ou mesmo a de Cristina Kirchner, na Argentina.

A conciliação de Lula foi, desde o princípio, encarada como fraqueza. Na mesma medida em que o PT tirou o pé do acelerador, a mídia — que é a voz da oposição — acelerou, e a Veja é apenas o caso mais extremo no abandono do jornalismo por motivações políticas.

Como a história verá tudo isso?

Caso Dilma perca — uma possibilidade remota, mas que não pode ser ignorada —, o PT verá que deixou de promover mudanças essenciais para as quais teve doze anos de poder.

Um exemplo disso é uma lei que determine limites para a mídia, algo que toda sociedade desenvolvida tem. Outro é uma máquina de verbas oficiais que alimentam pouquíssimas empresas e tornam bilionários seus donos — que se batem pela manutenção de privilégios que levaram o Brasil a ser um dos campeões mundiais de desigualdade social.

Caso Aécio se eleja, esqueça uma Lei de Mídia, ou alguma mudança na distribuição de verbas que no final patrocinam Jabor, Sheherazade, Datena, Azevedo etc etc.

Pilha é talvez um novo PT, mais aguerrido — mas que pode ter chegado tarde demais para verdadeiramente mudar as coisas.

Paulo Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

ANS: Entidades apelam a Mercadante e Chioro contra nomeação de diretor

José Carlos de Souza Abrahão, presidente da
Confederação Nacional de Saúde (CNS)
Entidades da Saúde e Defesa do Consumidor recorrem contra nomeação de José Carlos Abrahão ao cargo de direção na ANS

As entidades apelam ao Plenário do Senado Federal e aos Ministros da Saúde, Arthur Chioro e da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Se Abrahão for nomeado diretor da ANS, entidades irão recorrer à Comissão de Ética da Presidência da República.

Desde março, o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) junto a várias organizações civis da Saúde – ABRASCO (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), CEBES (Centro Brasileiro de Estudos da Saúde) e ABRES (Associação Brasileira de Economia da Saúde) – encabeçam movimento contrário à indicação, pela Presidência da República, do médico José Carlos de Souza Abrahão ao cargo de diretor na ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar).

Agora, as entidades apelam ao Plenário do Senado Federal e aos Ministros da Saúde, Arthur Chioro e da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que respondem pelos dois Ministérios envolvidos na indicação. Se, mesmo assim, Senado e Governo Federal mantiveram a nomeação, as organizações irão recorrer à Comissão de Ética Pública da Presidência da República, encarregada de analisar a conduta ética na Administração Pública Federal.

Desde a indicação

Com a indicação, conforme publicado no Diário Oficial, no dia 20 de março, as entidades enviaram questões aos senadores membros da Comissão de Assuntos Sociais – CAS do Senado Federal, mas que não foram consideradas durante a sabatina.

No dia 30 de abril a Comissão de Assuntos Sociais – CAS do Senado Federal aprovou, por 19 votos a um, seu nome em sabatina, após parecer favorável do relator, Senador Humberto Costa. A indicação seguiu para o Plenário do Senado em regime de urgência. Se aprovado, o Senado encaminha o nome à Presidência da República, que publica a nomeação.

Os argumentos das entidades contrárias à nomeação:

Com esses argumentos, as entidades buscam sensibilizar o Plenário do Senado e o Governo Federal sobre a inadequação da indicação de José Carlos Abrahão.

1.José Carlos Abrahão ocupava, desde 2003 até sua indicação à ANS, a presidência da Confederação Nacional de Saúde (CNS), entidade que representa estabelecimentos de saúde, hospitais, laboratórios e operadoras de planos e seguros de saúde.

2.Abrahão, com atuação como empresário do setor saúde, foi diretor presidente da ASSIM – Assistência Médica Integrada, atualmente uma operadora de planos de saúde.

3. A CNS, presidida por quase 10 anos pelo indicado, é autora de uma ação contra o ressarcimento ao SUS. Trata-se da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIn) nº 1931-8, que está em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF). Conforme define a Lei de Planos de Saúde (art. 32 da Lei nº 9.656/980), o SUS deve ser ressarcido toda vez que um consumidor de plano privado é atendido na rede pública de saúde.

4. A CNS , no passado,  posicionou-se contra a extensão de coberturas de procedimentos por planos de saúde. A entidade propôs uma ação direta de inconstitucionalidade (ADIn nº 1589) em face da Lei nº 9495/1997, do Estado de São Paulo, que determinava que empresas que prestam serviços de assistência privada à saúde são obrigadas a atender a todas doenças relacionadas no Código Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde – direito que foi consagrado na Lei dos Planos de Saude (art. 10 da Lei nº 9656/98)

5.Em 2010, na condição de presidente da CNS, Abrahão manifestou-se publicamente contra o ressarcimento ao SUS pelas operadoras, em artigo publicado no jornal Folha de São Paulo.

6.Em seu currículo enviado ao Senado Federal, em que elenca os textos de sua autoria, Abrahão omite o artigo e outras manifestações suas contrárias ao ressarcimento.

7. A diretoria da ANS, da qual Abrahão poderá fazer parte, julga inúmeros recursos e processos de planos de saúde contrários ao ressarcimento. Por exemplo, conforme ata da 396ª Reunião Ordinária da Diretoria Colegiada da ANS, de 7 de março de 2014, foram votados 99 recursos de planos de saúde envolvendo o ressarcimento ao SUS.

8. A participação de Abrahão na diretoria da ANS é incompatível com o princípio da eficiência na administração pública, conforme preconiza o art. art. 37, caput, da Constituição Federal. Antes mesmo de tomar posse o diretor já estaria impedido de votar nos processos administrativos envolvendo temas prioritários na fiscalização da ANS.

As entidades chamam atenção do que dispõe o art. 18 da Lei nº 9.784/1999:

“Art. 18. É impedido de atuar em processo administrativo o servidor ou autoridade que: I – tenha interesse direto ou indireto na matéria; II — tenha participado ou venha a participar como perito, testemunha ou representante, ou se tais situações ocorrem quanto ao cônjuge, companheiro ou parente e afins até o terceiro grau; III – esteja litigando judicial ou administrativamente com o interessado ou respectivo cônjuge ou companheiro”.

Se Abrahão for nomeado, as entidades recorrerão junto à Comissão de Ética da Presidência da República, alegando conflito de interesses, omissão de informação relevante no currículo e necessidade de abstenção do diretor, durante reuniões da Diretoria da ANS, em todos os processos que envolvem o ressarcimento ao SUS e as exclusões de cobertura pelos planos de saúde, o que na prática, considerando o volume de ações nestes temas, inviabilizaria sua participação no colegiado.

Em outubro de 2013, decisão da Comissão de Ética da Presidência da República, a partir de ação do Idec e entidades, levou à queda de outro diretor da ANS, Elano Figueiredo, que havia sido nomeado em agosto do mesmo ano. A Comissão entendeu que Elano não teve conduta ética ao omitir em seu currículo enviado ao governo e ao Senado que trabalhou para empresas de planos de saúde.

IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor)

ABRASCO ( Associação Brasileira de Saúde Coletiva)

CEBES (Centro Brasileiro de Estudos da Saúde)

ABRES (Associação Brasileira de Economia da Saúde).

No Viomundo
Leia Mais ►

Gilmar Mendes deveria despir a toga e disputar eleição

Leia Mais ►

Jair Rodrigues


Leia Mais ►

O mito da impunidade no Brasil


O mito é o falso que se torna mais verdadeiro do que a verdade. Todo mito é hiper-real. É mito, por exemplo, a ideia de que não pode mais existir um goleador de bigode. O mito transforma a parcela de verdade de alguma coisa em totalidade indiscutível. Pelé, para certos brasileiros, é indiscutível. Mito. Assim se faz uma tese ou se conquista um lugar no panteão dos intelectuais. Um dos mitos mais consolidados é o de que há impunidade no Brasil. Apesar das cadeias superlotadas, há quem sustente que todos os males do Brasil não são mais provocados pelas saúvas, mas pela falta de punição.

Impunidade para quem, cara pálida? Por que cara pálida?

Pelo simples fato de que é preciso mostrar a face descolorida ao sustentar tamanho absurdo.

Pode não haver punição para a turma dos camarotes. Já a plebe é punida até por respirar. Fernando Collor foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal por falta de provas. Antes disso, sofreu a punição da perda do mandato. Só Lula e Fernando Henrique Cardoso escaparam ileso dos maiores escândalos dos seus governos, o mensalão e a compra da emenda da reeleição. O resto do país paga o pato. O recente linchamento de uma mulher em São Paulo rasga a bandeira do excesso de punição. A culpa é da mídia sensacionalista que vive falando da falta de punição e desejando uma justiça mais expedita. Não é a impunidade que incomoda, mas o ritual jurídico. Há suspeita, é culpado. Para que toda essa história de provar? Por que só aceitar provas legais?

A mídia tem pressa. Quer baixar a idade penal para colocar crianças na cadeia. A mídia é medieval. Só acredita no fogo do inferno. Quer cadeia para tudo. No limite, quer mais do que isso. Flerta com o linchamento. Nas entrelinhas, estimula a justiça com as próprias mãos. Detesta a “infinidade” de recursos em favor do acusado. Ignora que a justiça deve proteger o réu de qualquer condenação mal sustentada. O povo, como se diz, quer sangue. Certa mídia adora provocar o lado obscuro da violência do “bem”. Se deixa-la liberar os seus instintos, não haverá cadeia que chegue. Em termos de perspectiva psicossocial, essa mídia é comportamentalista. Só acredita em punição e recompensa. É cenoura e chicote. Nada mais.

Essa tendência ao simplismo conquista a adesão primária. Mas tem seu preço. O linchamento da mulher em São Paulo coloca essa mídia no banco dos réus. É aquela que só se contentaria com prisão perpétua, pena de morte e, por que não?, olho por olho e dente por dente. Estamos avançando para trás. Se essa mídia triunfar, roubo de galinha dará 30 anos de cadeia. Sem direito à progressão de pena. O populismo midiático, defensor de sempre mais repressão nas formas mais vingativas, anda na contramão dos estudos mais especializados.

Colocada diante dessa informação, a mídia defende-se com o seu tradicional desprezo pelo mundo dos intelectuais fora da realidade.

— Os intelectuais estão descolados da sociedade – diz-se.

Muitas vezes se deve ao fato de os intelectuais estarem mais adiantados. O sistema punitivo precisa ser reinventado.

O furor repressivo é uma tara de senhor de escravos.

Ou é mito?
Leia Mais ►

Dilma: “Fizemos lá (no Nordeste) o que o companheiro Alckmin não fez em São Paulo”


“Fizemos lá [no Nordeste] o que o companheiro Alckmin não fez em São Paulo”, disse a presidente Dilma Rousseff num encontro em Brasília com o diretor regional de Jornalismo da TV Record, João Beltrão.

Ela se referia a um projeto que, aparentemente, vai acabar virando tema na campanha eleitoral, diante da falta d’água em São Paulo: a instalação de cisternas no Nordeste por parte do governo federal.

O governador paulista, Geraldo Alckmin, é acusado por adversários de não ter feito os investimentos necessários para evitar uma crise no abastecimento de água.

Por outro lado, no Nordeste, até o final do mandato Dilma deverá entregar 750 mil cisternas como parte do programa Água para Todos.

Segundo a presidente, além de garantir o abastecimento de milhões de pessoas as cisternas reduziram a corrupção, ao eliminar os carros-pipa que eram usados por autoridades para conquistar eleitores. De acordo com Dilma, os carros-pipa que hoje fazem o serviço em casos de emergência são do Exército.

A alfinetada em Alckmin demonstra que Dilma está antenada no potencial do tema na campanha eleitoral que se avizinha. É uma questão que pode ajudar o candidato do PT a governador, o ex-ministro Alexandre Padilha, a ganhar votos para a chapa petista em São Paulo.

Pesquisa do Data Popular divulgada nas últimas horas demonstra isso.
Deu no Estadão:
Mônica Reolom – O Estado de S. Paulo

Uma pesquisa dos institutos Data Popular e Ideia Inteligência revelou que 23% dos paulistas tiveram problema de falta de água nos últimos três meses. O número corresponde a 6 milhões de pessoas. Se for considerada apenas a região metropolitana, que é abastecida pelo Sistema Cantareira, o índice sobe para 35%.

“A falta de água não é mais uma questão teórica, é uma questão prática”, afirma o coordenador da pesquisa e diretor do Data Popular, Renato Meirelles. “Essa falta de água é real e por isso as pessoas estão com receio de que continue faltando água no resto do ano. Esse temor em véspera de eleição faz com que a pauta de falta de água entre no calendário eleitoral”, diz.

O levantamento foi feito pelo telefone com 18.534 pessoas de 70 cidades do Estado, e tem margem de erro é de 0,7%.
Os paulistas também estão pessimistas: 59% acreditam que vão enfrentar falta de água até o final do ano, em casa ou no trabalho. Segundo a pesquisa, a escassez de água é duas vezes maior entre as famílias de menor renda (que recebem até um salário mínimo) do que entre famílias de renda superior (que ganham mais de dez salários): os índices são de 25% que relataram o problema no primeiro grupo contra 12% do segundo.

Os entrevistados também apontaram que o principal culpado pelo problema de abastecimento é o governo estadual (41%), seguido pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), com 29%.
Eleitoralmente, o mais constrangedor nos números da pesquisa acima é que os pobres teriam sido mais afetados pela falta d’água em São Paulo que os ricos.

Durante o encontro com o representante da Record — parte de uma série de encontros com jornalistas — a presidente Dilma estava tranquila quanto à campanha eleitoral, embora tenha admitido que vai “apanhar de todo lado”.

Disse não entender a onda de pessimismo nas questões relativas à economia. Ressaltou o crescimento minúsculo dos Estados Unidos e notou que o México, muito elogiado ultimamente, cresceu menos que o Brasil.

Confessou que às vezes fica chateada com o noticiário negativo, mas afirmou ter “casca grossa”.

Deu outra pista sobre a campanha: afirmou que os números de seu governo são melhores que os dos governos anteriores.

Resumiu: “Vou para a guerra”.

Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
Leia Mais ►

A receita indigesta de Aécio para o Brasil

Leia Mais ►