26 de abr de 2014

Gabeira e a maldição do mito morto

Fernando Gabeira foi um ícone da minha adolescência e juventude. Ele, e não José Dirceu, era o candidato a Che Guevara verde e amarelo.

Hoje, José Dirceu ainda é o símbolo da resistência dos valores e lutas da sua geração, ainda pode erguer com legitimidade o braço esquerdo com o punho cerrado à frente de uma prisão e despertar na militância o sentimento de que há um líder a ser defendido. Gabeira, por seu lado, parece que, como outros da sua geração, tornou-se apenas mais alguém que chega à velhice com a alma curtida em ressentimentos.

Não é o único, há quase uma doença ou maldição atacando expoentes da rebeldia e da contestação das duas últimas gerações, algo como uma “síndrome de reacionarismo” da madureza e senescência.

É isso que deixa transparecer em seu artigo de 25/04/2014, no Estadão, "Bom dia, Cinderela".

Essa Cinderela é a Presidente Dilma Rousseff e, se Gabeira pretendia ser irônico ou mordaz com o tal título, acabou sendo apenas deselegante, senão grosseiro. Até onde eu saiba, este ainda é um caso de um homem se dirigindo a uma senhora.

O artigo em si é um longo texto repetitivo, um “samba de uma nota só”, carregado de preconceitos e ilações sobre Petrobrás e Copa no Brasil. Temas que, para quem tem informação, já encheram o saco.
“São cada vez mais claras as evidências de que se perdeu muito dinheiro em Pasadena.”
Verdade? Quais são essas evidências? O jornalista Gabeira não diz.
“Desde o ano passado ficou claro que muitas pessoas não compartilham o otimismo do governo nem consideram acertada a decisão de hospedar a Copa”.
Não, Gabeira. Não desde o ano passado. Desde a década de setenta há os que sonham que se o Brasil perder a Copa do Mundo o povo derrubaria o governo. Só foi invertido o sinal, na época, era a esquerda que sonhava com a derrubada da ditadura e hoje é a direita que sonha com um atalho para voltar ao poder. Paradoxalmente, Gabeira, você conseguiu estar nos dois grupos.

A Copa das Confederações demonstrou que foi um acerto. O povo, mesmo durante os maiores protestos desde os anos 80, lotou os estádios, cantou o Hino Nacional à capela, vibrou com a conquista e a Copa deu lucro. Isso na Copa das Confederações, imagina na Copa do Mundo, então.
“Bom dia, Cinderela. O mundo mudou. Dilma e o PT não perceberam, no seu sono, que as condições são outras”.
Mudou mesmo, Gabeira? Vejamos.

No plano internacional os EEUU [Gabeira irá, no final do artigo, se referir a eles como “grandes centros tecnológicos”], pois bem, os EEUU estão em pé de guerra com a Rússia, disputando poder de influência na Europa. Invadiram e destroçaram dois países, um no oriente médio e outro na Ásia. Guantánamo está repleta de prisioneiros de guerra. Da África partem ainda barcos de refugiados em direção à Europa. São os que ainda fogem da fome e da guerra. A Europa reage com um recrudescimento do nacionalismo e da intolerância com os imigrantes.

No plano nacional, José Dirceu e José Genoino estão presos. Acusaram-nos de “domínio do fato”. Nos jornais, a grande imprensa denuncia um “mar de lama” e a classe-média pede uma intervenção dos militares. A presidente, durante a campanha de 2010, foi acusada de ser terrorista e a direita católica, bradando pelo reestabelecimento da moral e dos bons costumes, acusou-a de “aborteira”. Isso é os anos 60 redivivos.

Parece até aquela coisa do Nietzsche, o “eterno regresso”.

Mas você tem razão, Gabeira, o mundo mudou.

Nos EEUU há um presidente negro. Tecnicamente é mulato, sua mãe era americana branca e seu pai um preto africano, do Quênia. O que, em termos americanos, tornaria impensável sua eleição. Pois ele foi vencedor até em Estados de maioria branca.

Fidel Castro não governa mais Cuba. Não, não foi derrubado pelos cubanos de Miami. Declarou ao mundo que já havia cumprido o seu papel e retirou-se. Na América Latina, a esquerda chegou novamente ao poder por vias democráticas. Lembra até o Chile e o Brasil da década de 60. Só que está firme e fazendo sucessores. Não que não aconteceram tentativas de golpe contra ela, aconteceram. Os EEUU, como sempre, apoiaram os golpistas. Gabeira, que loucura, o Brasil foi contra e saiu-se vencedor.

Poderia falar da China e da Rússia que, agora, têm economias capitalistas, mas acho mais relevante o Brasil ter a 6ª economia mundial, à frente da Inglaterra.

Aliás, no Brasil, um professor da USP, um metalúrgico do ABC e uma “guerrilheira” foram democraticamente eleitos presidentes. Não era seu sonho, Gabeira? A intelectualidade, a classe operária e seus colegas de lutas da juventude assumiram o poder.

Gabeira, no Brasil, agora, temos cotas para negros nas universidades e programas de acesso dos mais pobres à educação como o PROUNI e o PRONATEC, 15 mil médicos atendem a população carente dos locais mais pobres do Brasil, há um programa de construção de casas populares que já entregou mais de um milhão e meio de residências. Há um programa de transferência de renda que ascendeu mais de 22 milhões de pessoas à classe C. Somos agora um país de classe média.

Gabeira, sei que você não confia nas estatísticas oficiais: “O papel do IBGE e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), por exemplo, começa a ser deformado pelo aparelhamento político. Pesquisas que contrariam os números de desemprego são suspensas”.

Mas, Gabeira, para verificar in loco como o pleno emprego e a melhoria de renda está transformando a nossa sociedade, basta visitar um dos shoppings da elite paulistana. Neles, a classe média está botando a polícia para por para correr os filhos dos pobres que insistem em frequentá-los como clientes e usando roupas de grife.

Escolha sua realidade, Gabeira, o copo meio cheio ou o meio vazio, porque é aquilo mesmo que você afirma: “Sabemos que a verdade é mais nuançada.” E não uma visão rancorosa onde “tudo o que escapa, evidências, vozes dissonantes, estatísticas indesejáveis, tudo é condenado à lata de lixo da História”.

No mais, o texto de Gabeira é pura distorção de informação e preconceito.

Distorce a informação quando afirma “o PT estigmatiza a oposição como força do atraso. Ele se comporta como se a exclusão dos adversários da cena política e cultural fosse uma bênção para o Brasil”.

Parece até piada quando comparamos as CPIs que são aprovadas e funcionam nos governos do PT e as que são aprovadas e funcionam nos governos do PSDB. Não, se a oposição está excluída da cena política é por falta de propostas e não por falta de liberdade para atuar. Liberdade para atuar mesmo quando recorre às mais hipócritas escandalizações.

Gabeira pratica o preconceito quando se sai com pérolas destes quilates:
“E o Ipea foi trabalhar estatísticas para Nicolás Maduro, que acredita ver Hugo Chávez transmutado em passarinho e, com essa tendência ao realismo mágico, deve detestar os números.”


“Será a hora de pôr de novo em xeque a onipotente tática de eleger um poste”.


“Nem o poste nem seu inventor hoje conseguem iluminar sequer um pedaço de rua. Estão mergulhados no escuro e comandarão um exército de blogueiros amestrados para nublar as redes sociais”.


“Até nas relações exteriores o viés partidário sufocou o nacional, atrelando o País aos vizinhos, alguns com sonhos bolivarianos, e afastando-o dos grandes centros tecnológicos”.
Que pena, Gabeira, logo você que já foi vítima de tanto preconceito. Veja, se quisesse, bastaria dizer que esse seu texto não passa de efeito de uma síndrome de abstinência. Mas não, Gabeira, isso é prática usada por seus novos companheiros de luta e de imprensa.

Entendo seu ressentimento e o lamento profundamente, mais um dos meus ícones que se vai. Para você, reservo versos de Bandeira que também, ao fim, cantou dolorosamente “a vida inteira que podia ter sido e que não foi”. Ou a maldição que você mesmo roga, a de “se afogar nos próprios mitos”.

Sérgio Saraiva
No Blog do Júlio Garcia
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Dilma tem o rumo, mas não tem o método

Nesta quinta-feira participei de um evento de empresa que atua no mercado de alimentos. Sua divisão de alimentos cresceu 10% no ano passado, mais que o mercado. Está bem posicionada nas grandes redes de supermercados, tem liderança nos pequenos estabelecimentos, e começa a crescer nos restaurantes populares. Ou seja, está otimamente posicionada para capturar o enorme crescimento da renda e da inclusão laboral da classe C.

No entanto, havia um clima pesado de pessimismo no ar por parte de seus revendedores. Medo que o Brasil se torne uma Venezuela. Medo que venha um confisco de poupança como Collor. Medo que, se Dilma for reeleita, o país entre na mesma espiral que em 2002. Um medo supersticioso que os dirigentes da empresa diagnosticaram como "midiatite": doença que provoca mal estar e depressão devido à ingestão excessiva de manchetes econômicas pessimistas.

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Trata-se do chamado tiro no pé.

Primeiro, por derrubar o estado de espirito nacional, impactando diretamente as campanhas publicitárias. Depois, por desmoralizar algo que nunca foi tão necessário quanto agora: a crítica consistente.

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A crítica a ser feita é contra o estilo centralizador e voluntarista da presidente Dilma Rousseff, com um norte consistente mas um modelo desanimador de implementação de políticas.

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Por exemplo, há o diagnóstico claro de que um dos principais problemas das obras públicas é a ausência de uma metodologia de preparação do projeto executivo.

A Empresa de Planejamento e Logística (EPL) foi criada justamente para oferecer essa estrutura. Seu criador, Bernardo Figueiredo prometia que o avião conseguiria velocidade de cruzeiro a partir de 2015. Foi atropelado pela pressa de Dilma em obter resultados.

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No PAC, Dilma montou sistemas de avaliação, modelos exemplares de interação com estados e municípios, despertando a esperança de arejar a administração pública. O mesmo ocorreu com o plano de recriação da indústria naval.

O modelo de partilha do pré-sal e o papel conferido à Petrobras, de centro de uma política industrial do petróleo, ainda serão reconhecidos como dois feitos estruturantes do futuro.

Em todos esses casos, a ação tinha foco e estava ao alcance dos olhos de seu principal gestor, a própria Dilma.

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Quando tornou-se presidente, Dilma quis preservar a primazia da autoria, mas agora trabalhando em uma realidade extremamente complexa. A ela não basta o fato de que o presidente tem mérito em qualquer realização de seus ministros. Ela quer a participação direta em todos os planos e o mérito de todos os feitos do seu governo.

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Não dá.

Atrasou inúmeros projetos por pretender opinar em detalhes. Não deu liberdade a nenhum Ministro para construir sua própria obra e voar. Não deu voz aos fóruns criados para definir políticas de desenvolvimento. Tomou decisões intempestivas em áreas de extrema complexidade — como o modelo elétrico — sem ouvir as partes envolvidas. Tomou decisões de profundo impacto fiscal — como desoneração do IPI para o setor automobilístico — sem encaixá-las em uma política setorial.

* * *

Dilma tem o rumo, mais que seus competidores. Mas não tem o método. E não se trata de falta de conhecimento, mas da sua própria incapacidade para domar seu temperamento.

Bastaria sinais firmes de mudança de estilo para recuperar a esperança perdida.

Luiz Nassif
No GGN
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Uruguai: o país da maconha estatal não presenteia o narcotráfico

Para Pepe Mujica, assumir o controle do processo de produção e venda da erva é não "presentear" o narcotráfico e garantir o "direito à experimentação".

O Uruguai, um pequeno país que quase não é visto no mapa, é o primeiro país do mundo a legalizar a maconha e a assumir o controle de todo o processo de produção e venda da erva. A regulamentação da produção da marijuana reforça a agenda progressista do governo de José Pepe Mujica, que recentemente também legalizou o aborto e a Lei do Matrimônio Igualitário, que permite a união de casais homossexuais

O Uruguai já esteve sob forte pressão por parte dos vizinhos Brasil e Argentina para que se afastasse da legalização da marijuana, além da Junta Internacional de Controle de Narcóticos das Nações Unidas, que avalia este fato como uma violação às obrigações dos tratados internacionais. Internamente, os partidos tradicionais se opuseram tenazmente, sob o argumento de que essa lei dispararia o consumo de drogas mais pesadas.

Depois de ser por anos o principal palco da guerra contra as drogas, a América Latina está se transformando no epicentro da busca por novas alternativas. Na Cúpula das Américas de 2012, em Cartagena, Colômbia, os presidentes da Colômbia, Juan Manuel Santos, e da Guatemala, Otto Pérez Molina, fizeram um chamado ao debate regional sobre a legalização e a descriminalização das drogas. Nos meses e anos seguintes, as iniciativas de descriminalização ganharam força na Colômbia, no Equador e no México.

País conservador de tradição liberal, onde fumar marijuana não é ilegal, ao contrário do que acontece no Brasil e em muitos outros países latinos, o Uruguai começou a discussão do assunto há quase uma década.

Nesse país, desde 1915 até os anos da ofensiva neoliberal, a produção e comercialização do álcool e de bebidas alcoólicas (uísque, derivados da cana, rum, conhaque, grappa) era monopólio do Estado, e seus dividendos eram destinados à manutenção da saúde pública. É o que tentarão fazer agora também com o fim da comercialização da marijuana. Já no começo do século 20, o Uruguai era um Estado laico, onde a mulher podia optar pelo divórcio e a prostituição era regulamentada.

Os vícios de Mujica

O próprio presidente foi o maior defensor da medida, e em seu característico tom bonachão e com uma certa ironia, foi desmontando pessoalmente as objeções de seus adversários, uma por uma. Enfatizou que o "único vício saudável que existe (…) é o amor. Os demais são uma praga, mas existem diferentes níveis". "Há muitos anos que sabemos que o tabaco é ruim, que mata, e que o álcool também. Entretanto, continuamos fumando e bebendo. E com a marijuana... não acredito que nenhum vício seja bom. É má, é venenosa. Mas mais venenoso é ocultar, então nós vamos por outro caminho", acrescentou.

Não existe qualquer clima de permissividade diante da sanção da lei, que deixa claro que, ao consumir a maconha, as pessoas podem procurar as drogas mais pesadas.

Mujica defendeu a autorização do consumo de 30 gramas de maconha por pessoa, argumentando que será possível identificar o consumidor, pois cada cigarro legalizado possui uma composição molecular e um código genético únicos.

Por outro lado, previu que "se tivermos [o consumidor] como perseguido e clandestino, e o criminalizarmos, estamos entregando-o para o narcotráfico". E alguém precisará explicar como um "velho" de 78 anos se transformou em ídolo dos jovens.

O presidente reconheceu que o país e seus cidadãos não estão "totalmente preparados" para uma decisão com tais características, mas reivindicou "o direito à experimentação social" para justificar a legalização da marijuana. "Não se pode conseguir soluções fazendo sempre o mesmo e se estiver fracassando. O que não quer dizer que tenhamos a pedra filosofal", admitiu.

A influência de Milton Friedman

Mujica, um ex-guerrilheiro tupamaro que se tornou presidente em 2010, explicou que a "ideologia" por trás do projeto se baseou em abordagens do economista liberal Milton Friedman com quem ele não concorda em nada, com exceção de sua defesa da legalização das drogas. Sua análise do mercado e da política de governo norte-americano com relação às drogas "foi o que me inspirou que é preciso mudar", afirmou.

Mujica falou sobre a negociação capitalista que existe por trás da marijuana. "Tendo uma demanda, aparece quem a cubra... um empresário de alto risco que intervenha e utilize todos os métodos, todos os caminhos porque existe uma taxa de lucros enorme assegurada por conta da repressão existente", explicou ele, depois de denunciar que "o dinheiro se faz nos Estados Unidos, o dinheiro grosso, o mercado grosso", mas a América Latina é que paga pelos mortos.

"Para combater o narcotráfico é preciso derrubar o mercado", enfatizou. Para Mujica, trata-se de uma decisão política que "não é bonita", mas que é tomada para não "presentear os membros do narcotráfico".

"Contra os métodos do narcotráfico qualquer coisa vale. A via repressiva está fracassando. Se não precisa haver repressão? Sim, precisa, mas não se deve aumentar essa medida, como os domadores, que colocam a comida em uma mão e o chicote na outra. Não estamos tirando os jovens da clandestinidade para entrar pela porta do consumo sem saber onde vão sair. É preciso ter audácia e buscar novos caminhos", sentenciou.

Com números nas mãos, argumentou que o país enfrenta uma guerra desigual: apenas os presos por posse e consumo de ganja custam ao país mais de 30 milhões de dólares. No Uruguai existem mais mortos pelo tráfico de drogas (80 em 2013 por acerto de contas entre grupos rivais) do que pelo consumo de drogas propriamente dito (apenas três por overdose). "Então, o que é pior, a droga ou o tráfico?", provocou.

Apesar de a lei estar vigente desde meados de dezembro, será necessário esperar a regulamentação para determinar como serão outorgados os alvarás para plantar, quais variedades da droga serão produzidas, entre outros aspectos legais. "Eu reivindico o direito à experimentação social. Não é usar as pessoas como cobaia: é entrar no laboratório real de uma sociedade com práticas diferentes", explicou Mujica.

Para além do baseado

A legalização da cannabis será acompanhada de uma política de educação sobre o consumo de drogas. Segundo a lei, os maiores de 18 anos poderão ter acesso à droga mediante o cultivo para o próprio consumo, em clubes de consumidores ou comprando em farmácias – em todos os casos com limites e com prévio registro diante do Estado. As autoridades já adiantaram que a venda será limitada aos residentes no país. A norma permitirá ao Estado regulamentar a importação, produção, distribuição e venda do cânhamo no país de 3,2 milhões de habitantes, esperando enfraquecer o narcotráfico e administrar o consumo.

O governo uruguaio estuda usar a marijuana no tratamento de doenças neurológicas, no tratamento de doentes em estado terminal e em viciados em drogas mais pesadas. No marco da regulamentação da medida que legalizou em dezembro a produção e a venda da cannabis no Uruguai, o Ministério de Saúde Pública (MSP) trabalha com o uso medicinal da maconha em doenças neurológicas degenerativas, nos cuidados paliativos e no tratamento da dor nos momentos finais da vida e em seu uso para diminuir o consumo de outras drogas mais pesadas, como a pasta base da cocaína.

O primeiro efeito da lei foi a legalização do cultivo para consumo próprio, mas para que seja iniciada a plantação e venda é necessário esperar pela regulamentação da norma, que definirá como serão concedidas as licenças para plantar, os tipos de cannabis utilizados, entre outros aspectos. A marijuana seria produzida mediante alvará a privados, mas no começo, por uma questão de segurança, apenas em estufas dentro de prédios militares.

O certo é que dezenas de empresários manifestaram interesse em plantar, apostando na qualidade e no preço para combater o mercado clandestino. A ideia é permitir a plantação – permitida a privados, residentes no país e sob controle estatal – de quatro a seis variedades da erva para dar diferentes alternativas aos consumidores, estimados oficialmente em 120 mil, enquanto associações de consumidores falam que esse número pode chegar a 200 mil, em um universo de 3,2 milhões de habitantes.

O Uruguai se colocou na vanguarda do debate sobre a legalização das drogas leves, apoiado por ex-governantes latinos, como o mexicano Vicente Fox, o chileno Ricardo Lagos e o brasileiro Fernando Henrique Cardoso. Claro, nenhum deles se animou a percorrer este caminho, nem a pagar o custo político quando foram presidentes...

Aram Aharonian, jornalista e professor uruguaio-venezuelano, diretor da revista Questión e fundador da Telesur.
No Carta Maior
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Como um antigo torturador cometeria o crime perfeito

 
Vamos supor que um torturador de outrora quisesse eliminar dois dos seus congêneres, de tal forma que o assassinato não viesse a ser imputado nem a ele, nem a outros veteranos da repressão ditatorial.

Um dos alvos, porque estava próximo da morte e mantinha um minucioso arquivo sobre agentes do Estado que cometeram crimes contra a humanidade, como os cometeram, quem foram suas vítimas, que fim tiveram os respectivos restos mortais, etc. Sabia-se lá quem ficaria com tal arquivo quando ocorresse sua morte natural e qual o destino que a ele daria. Daí a conveniência de antecipar o desfecho, para o poder administrar convenientemente, só permitindo que viessem a público informações tornadas inócuas pelo passar das décadas.

Coronel Molina
Assassinados: o 1º colecionador de armas...

Outro, porque dera com a língua nos dentes num palco iluminado e, mesmo que não voltasse a fazê-lo (deixara de identificar comparsas vivos, mas poderia mudar de ideia), constituía-se num péssimo exemplo. Quantos pés na cova com os mesmos antecedentes não estariam queimando de inveja da notoriedade que ele alcançara? Para certo tipo de pessoas, serem relegadas ao esquecimento incomoda muito mais do que serem lembradas como ogros...

Como dizia o Dadá Maravilha, para toda problemática existe uma solucionática.

O hipotético torturador de outrora certamente conheceria bem um universo contíguo, o da contravenção, nele sentindo-se como um peixe dentro da água. Lembrem-se:
  • o famoso delegado Sérgio Fleury, nos tempos em que chefiava o famigerado Esquadrão da Morte, estava a serviço de um grande traficante, liquidando apenas seus concorrentes, enquanto fingia exterminar os bandidos em geral;
  • os torturadores da PE da Vila Militar (RJ), oficiais inclusos, quando começaram a escassear os proventos da repressão à guerrilha (as recompensas recebidas de grandes empresários e a rapinagem dos bens apreendidos com militantes), não só se tornaram parceiros de contrabandistas da região como tentaram passar-lhes a perna, tomando sua muamba à bala;
  • um destes oficiais, o Capitão Guimarães, não se conformou de, desmascarado, haverem aliviado para ele no sentido de salvar as aparências mas ter-se tornado um pária na caserna — optou por dar baixa e iniciar uma bem sucedida carreira como bicheiro de Niterói, acabando por se tornar um dos maiores chefões do crime organizado.
Paulo Malhães
 ...e o 2º colecionador de armas. Ambos quando mais convinha.
Então, para alguém da laia de um antigo torturador da ditadura militar, nada mais fácil do que encontrar ladrões homicidas aptos para tais missões e passar-lhes a dica de que os oficiais da reserva em questão possuíam bens valiosos, como coleções de armas, estando praticamente indefesos.

Com a recomendação expressa de que os mesmos deveriam ser assassinados, e ninguém mais.

Com a advertência expressa de que, se caíssem presos, não deveriam de forma nenhuma incriminá-lo, caso contrário sua rede (de veteranos dos porões e novos fanáticos do extremismo) cuidaria para que fossem mortos no cárcere.

Foi assim que as coisas se passaram? Se non è vero, è ben trovato, como dizem os italianos...

Celso Lungaretti
No Ousar Lutar!!! Ousar Vencer!!!
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João Paulo II: acobertamento e canonização

Os elementos disponíveis mostram o pontífice polonês tinha informações suficientes para conhecer os crimes de pedofilia de Marcial Maciel.

Slawomir Oder, o sacerdote polonês que lidera o processo de canonização de João Paulo II, afirmou na terça-feira (22) que não há sinais de participação pessoal do falecido pontífice no escândalo de pedofilia que envolveu a Congregação dos Legionários de Cristo e seu fundador, Marcial Maciel.

Se for considerado o contexto de críticas em que a canonização do polonês surgiu — tanto em setores progressistas da opinião pública como em grupos católicos ultraortodoxos —, a declaração de Oder representa uma medida de controle de estragos compreensível e até mesmo óbvia, cuja finalidade seria atenuar as denúncias: no mesmo sentido, parece considerar, conforme afirmaram alguns vaticanistas nas últimas semanas, a decisão adotada pelo papa Francisco de canonizar em uma mesma cerimônia João Paulo II e João XXIII — principal idealizador do Concílio Vaticano II — como uma forma de tirar protagonismo da figura de Karol Wojtyla e atenuar as acusações.

Contudo, os elementos disponíveis mostram que tanto o pontífice polonês como seu sucessor, Joseph Ratzinger, tiveram informações suficientes para conhecer os crimes de Marcial Maciel. Vale lembrar que, em 2004, o próprio Ratzinger teve a oportunidade de reabrir, quando ainda presidia a Congregação para a Doutrina da Fé, o expediente do fundador dos Legionários; a autoridade católica, entretanto, recusou submeter Maciel a um processo canônico e, com isso, selou a impressão de que o Vaticano preferia preservar a impunidade do religioso do que desatar um escândalo e uma confrontação com essa ordem, que possui grande parte de poder político e econômico. Com isso, o Vaticano não apenas acentuou os danos às vítimas de Maciel, como deu margem para a omissão de outros abusos sexuais contra menores no seio da Igreja e exibiu uma pauta de encobrimento de casos de pedofilia clerical nas esferas mais altas da hierarquia católica.

A insistência dos que impulsionaram a canonização de Wojtyla sob o pressuposto de que ele não tinha conhecimento dos crimes de Maciel é, ao contrário, anticlimática no contexto de um pontificado — liderado por Jorge Mario Bergoglio — que começou, pelo menos no discurso, com um claro espírito de renovação da Igreja católica e com uma nítida atitude de denúncia de alguns dos lastros e vícios mais palpáveis da hierarquia do Vaticano. Um dos principais elementos simbólicos dessa virada aconteceu há apenas algumas semanas, quando o papa Francisco pediu desculpas pelos casos de abuso sexual cometidos por sacerdotes.

A demarcação que a Igreja católica pode estabelecer em relação aos pontos obscuros do pontificado de João Paulo II talvez seja conveniente neste momento, quando a instituição parece estar mais preocupada em consumar a elevação do pontífice polonês à santidade do que em esclarecer as denúncias. Mas dificilmente ajudará a Igreja a recuperar sua credibilidade e seu prestígio: para isso é necessário que a hierarquia do Vaticano mostre a sensibilidade e o apego irrestrito à legalidade e um sentido elementar de justiça que até agora faltaram no que diz respeito aos episódios de pedofilia que envolvem integrantes do clero católico.

Editorial do La Jornada
No Carta Maior
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Entrevista com Hélio Fernandes


Testemunha das últimas oito décadas da história do Brasil, o jornalista conviveu com a cúpula política do país e com importantes nomes da imprensa. Entre eles, o polêmico Carlos Lacerda, de quem comprou a Tribuna nos anos 1960.

Combativo e controverso, Hélio Fernandes foi preso nove vezes, desterrado três e sofreu 37 processos. No programa, ele relembrou o início da carreira, ainda nos anos 1930, quando as teclas das máquinas de escrever das redações eram movidas a fumaça de cigarro e uísque.

Hoje, o jornalista converteu sua trincheira em um blog e critica duramente a falta de appeal das redações, que deixaram de funcionar como centros de cultura.

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“Tenho medo de morrer”, diz o piloto do helicóptero dos Perrellas

Na terceira matéria do nosso especial sobre o “Helicoca”, trazemos uma entrevista exclusiva com o piloto da aeronave, Alexandre José de Oliveira Júnior. 

O projeto “O Helicóptero de 50 Milhões de Reais” foi totalmente patrocinado pelos leitores através de crowdfunding.

Alexandre em reportagem para a RedeTV!: codinome “Marcelo Rezende”
Há um ano e meio, numa reportagem que mostrou São Paulo como a cidade com a maior frota de helicópteros do mundo, os repórteres da RedeTV! estiveram num hangar no Campo de Marte onde funcionava uma das escolas de pilotos que mais cresciam no Brasil.

Era a JR Helicópteros, de Alexandre José de Oliveira Júnior. Das quatro pessoas entrevistadas, três trabalhavam na escola.

Alexandre indicou quem daria entrevistas, mas não quis aparecer. Acompanhou tudo atrás das câmeras e se divertiu. No intervalo da gravação, pegou o microfone e se fez passar por repórter.

Eram os dias de glória da JR Helicópteros. Com uma política agressiva de captação de alunos, em dois anos a escola aumentou sua frota de dois para cinco helicópteros.

Um juiz da Justiça Federal, um delegado e um investigador da Polícia Civil faziam parte do grupo de instrutores da JR Helicópteros. Em quatro anos, Alexandre foi de estagiário da Agência Nacional da Aviação Civil, a ANAC, a empresário respeitado no Campo de Marte.

Com diploma de bacharel em aviação civil pela Universidade Anhembi-Morumbi, casou-se, aceitou o convite para fazer parte de uma loja maçônica e comprou um apartamento. Tudo isso com apenas 26 anos de idade.

No dia 24 de novembro, o sonho de Alexandre desmoronou. Ele foi preso depois de transportar quase meia tonelada de pasta base de cocaína a bordo do helicóptero que pertencia ao senador Zezé Perrella e seu filho, o deputado Gustavo Perrella.

“Estou acabado. Minha empresa quebrou e não consigo emprego. Quem vai entregar helicóptero para um piloto que foi preso com 445 quilos de cocaína?”, me pergunta Alexandre, na primeira entrevista que concedeu depois que foi solto pela Justiça Federal no Espírito Santo, após passar três meses e meio na cadeia.

Ao deixar a prisão, no dia 8 de abril, Alexandre voltou para São Paulo e, no dia 10 de abril, foi para o Campo de Marte, onde se reuniu com alunos da escola, em busca de uma solução para as horas de voo pagas e não entregues.

“A escola funcionava assim: eu vendia adiantado as horas de voo e os alunos me davam cheques pré-datados. Agora eu estou entregando os três helicópteros que restaram para outra escola dar as aulas”, afirma.

A reunião com os alunos no Campo de Marte durou pouco. A polícia foi chamada e quatro homens armados de fuzil expulsaram Alexandre dali. “Sou hoje um pária”, diz. “Tenho muita vergonha”.

documento

Além do flagrante no Espírito Santo, Alexandre foi citado como participante de um plano mirabolante para resgatar chefes do PCC presos em São Paulo.

“É mentira”, diz. “Foi para desmentir esta história sem pé nem cabeça que eu aceitei dar esta entrevista. Respondo pelos meus erros, mas não aceito que coloquem na minha conta o que eu não fiz”.

A entrevista com Alexandre, que durou quatro horas e meia, aconteceu no escritório do advogado dele, no bairro de Pirituba, aonde, com trânsito bom, se chega em 40 minutos de carro, a partir do centro da cidade.

Alexandre se atrasou. Ao chegar, cumprimentou o advogado com um beijo no rosto. Vestia calça jeans e camisa azul com três pequenas letras bordadas na altura do bolso – CKJ (as iniciais deles são AJOJ).

Usava um grande relógio no pulso esquerdo, um vistoso anel na mão direita, com uma pequena cruz vermelha em relevo, e uma corrente no pescoço. Tudo dourado.

Com a cabeça raspada à navalha e os acessórios chamativos, fez lembrar uma celebridade do funk ostentação.

Alexandre diz que só soube que transportava cocaína depois que chegou a Afonso Cláudio, quando dois homens que aguardavam o helicóptero abriram as bolsas pretas onde estava a droga, e retiraram tabletes.

“Eu fui contratado para trazer eletrônicos e medicamentos veterinários do Paraguai. Para mim, era contrabando de mercadorias, não tráfico de drogas”, afirma.

Nas mensagens encontradas pela Polícia Federal nos telefones móveis usados por Alexandre, a história é diferente.

Ele usa um BlackBerry e conversa com o piloto do senador Perrella, Rogério Almeida Antunes, por mensagens, possivelmente imaginando que a criptografia do programa impedia o grampo policial.

No início, Alexandre usa o codinome Fire I e diz a Rogério que, se ele fizer o transporte, “nunca mais vai precisar de $ e nem banca”. Banca é, segundo a Polícia Federal, um esquema ilícito de aprovação de pilotos na ANAC.

Rogério, que usa o apelido Canhão do Asfalto, pergunta:

– É açúcar? Farinha de trigo? KKKKKK.

Alguns dias depois, Alexandre volta a falar com Rogério, mas já usa outro aparelho e outro codinome, este mais curioso. Ele se apresenta como Marcelo Rezende, apresentador da Record.

Na mensagem, avisa:

– Oi, Barão. Vamos ganhar dinheiro.

Rogério, o Canhão do Asfalto, acha engraçado:

– Ahahahaha, fala Rezende… Corta pra Marte, corta pra São Paulo [uma referência aos bordões de Rezende].

Alexandre diz a Rogério que vai cobrar R$ 250 mil pelo transporte e garante que o piloto do senador Zezé ficará com aproximadamente R$ 150 mil, para cobrir as despesas com hora de voo, mais 50 mil por dia de trabalho.

Alexandre no Campo de Marte
Alexandre no Campo de Marte
Na entrevista, Alexandre diz que o pagamento seria feito por Harley, um codinome que aparece na transcrição das mensagens, mas ele diz não saber muito mais do que isso. Teria uma loja na 25 de Março, mas ele não sabe onde fica.

Confrontado com a fragilidade da informação, reconhece que é difícil mesmo acreditar na sua história. “Mas é a verdade.” Diz que foi usado e admite. “Tenho medo de morrer”.

Sobre o que pode contar, Alexandre dá detalhes. Diz que o voo do helicoca saiu de São Paulo sexta-feira à tarde, foi para o aeroporto de Avaré, onde pernoitou.

Estive neste aeroporto, que é administrado pelo governo do Estado de São Paulo. Soube que o avião chegou perto do por do sol, ficou ali, enquanto os dois tripulantes foram levados de táxi para o hotel Vila Verde.

Na manhã seguinte, reabastecido, saíram. Num aeroporto privado, em Porecatu, no Paraná, fizeram escala para reabastecimento e partiram para a região da fronteira.

O GPS indica que pousaram em Pedro Juan Caballero, do lado paraguaio. Alexandre diz que foi em Ponta Porã, do lado brasileiro. Não é apenas um detalhe.

Se assumir que esteve no Paraguai, Alexandre estará confessando participação no tráfico internacional de entorpecentes, com pena mais severa.

Da fronteira, os dois voltaram para São Paulo, com duas paradas, uma em Porecatu e outra em Avaré, onde permitiram que um funcionário fizesse o reabastecimento, apesar do helicóptero estar abarrotado de sacolas com cocaína.

De Avaré, foram para Jarinu, na Grande São Paulo, num pouso que, apesar de muito importante, ainda não teve a investigação aprofundada pela Polícia Federal.

“Deixamos a droga num hotel fazenda, com três homens num jipe verde”. O hotel fazenda é o Parque Danape, um dos maiores da região, e um dos proprietários tem de fato um jipe verde.

Com o helicóptero vazio, foram para o Campo de Marte, onde o helicóptero pernoitou. Os dois foram para o apartamento de Alexandre.

Neste apartamento, Rogério trocou mensagem com um primo e contou que transportava “coca”.

No dia seguinte, Alexandre diz que voltou ao hotel fazenda, onde a droga foi novamente colocada no helicóptero. Ele conta que havia três sacolas a menos, coisa de 50 quilos de cocaína que teriam ficado nesta escala.

Numa investigação preliminar, agentes da Polícia Federal estiveram nas imediações do hotel sem se identificar e produziram uma informação técnica que foi juntada ao inquérito.

No relatório da investigação, a Polícia Federal recomenda outras diligências e, entre parênteses, registra que ali podem estar os proprietários da droga. É um registro curto, até agora sem desdobramento.

Do hotel em Jarinu, o helicóptero foi para Divinópolis, em Minas Gerais, onde houve novo reabastecimento, com a droga no bagageiro e no banco traseiro da aeronave.

Em seguida, para Afonso Cláudio, onde aconteceu a apreensão.

O trajeto relatado por Alexandre tem algumas diferenças em relação ao definido no inquérito da PF feito com base nos registros do GPS.

Por esses registros, o helicóptero teria parado em Santa Cruz do Rio Pardo, a 60 quilômetros de Avaré, no aeroporto de Jundiaí e em Sabarazinho, no interior de Minas.

“Não paramos nestes lugares”, afirma Alexandre. Eu estive na zona rural de Santa Cruz do Rio Pardo, onde, em outros tempos, foi encontrada droga jogada do alto do avião.

No ponto informado pelo GPS há um pasto, com muitos vizinhos. Ninguém nunca viu ou ouviu helicóptero por ali.

“Às vezes, o helicóptero faz um 360 no ar, num movimento de espera. O GPS indica um ponto parado, mas não houve pouso. Ficamos no ar. É uma manobra para esperar o mau tempo passar”, diz o piloto. “Acho que foi isso que aconteceu”.

Por serem pilotos, Alexandre e Rogério se destacam no resultado da investigação, mas a elucidação deste caso talvez dependa mais de outras buscas.

O hotel em Jarinu é uma boa pista, como admite a polícia. Outra trilha ainda não percorrida é seguir o rastro de Robson Ferreira Dias, vulgo Vovô, qualificado no inquérito como comerciante em Araruama no Rio de Janeiro.

Robson, o "Vovô"
Robson, o “Vovô”
Robson era o homem que carregava o dinheiro e aguardava o helicóptero em Afonso Cláudio, na companhia de Everaldo Lopes Souza, um funcionário braçal.

O quinto indiciado neste caso de tráfico é o empresário Élio Rodrigues, do Espírito Santo.

Élio é dono da propriedade programada para receber o helicóptero e tem também uma empresa em Itapemirim, a Arte Rochas, que trabalha com mármore, um tipo de matéria prima usada para esconder cocaína em outros casos descobertos no Espírito Santo.

Élio prestou depoimento duas vezes na Polícia Federal. Na primeira, negou elo com o carioca Robson. Mas ele surgiu através da descoberta de que, em 2013, os dois se associaram num negócio de futebol profissional.

Élio e Robson levaram do Rio de Janeiro para Vitória um jogador de futebol de nome David. O atleta ficou hospedado numa quitinete de Élio, enquanto treinava no Desportiva, um dos principais times de futebol profissional do Espírito Santo.

Nas conversas com outros membros da quadrilha, Robson, que tem 56 anos, usa o codinome Vovô. Ele se reporta a dois homens que parecem superiores na hierarquia, Giga e Frajola, de quem recebe ordens.

Se a PF descobrir os nomes por trás desses apelidos, estará solucionado o mistério do Helicoca, que vai muito além de qualquer acrobacia de Alexandre.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Jornalismo sem responsabilidade


A Globo passou a semana fazendo uma devassa na documentação da refinaria de Pasadena. Não encontraram nada. A solução então foi criar mais um factóide, para o assunto não perder espaço no noticiário. Dessa vez o tema foi um saque de 10 milhões de dólares feito em uma das contas da refinaria. A notícia foi divulgada como “bombástica”. Durante a tarde, a Petrobras respondeu por meio do seu blog, mostrando que não havia nada de errado com esse saque, que operações como essa são comuns. Os 10 milhões foram para o lugar certo, que era uma outra conta da própria Petrobras nos EUA.

Podem apertar os cintos porque será assim até as eleições, um “escândalo” fabricado após o outro.

OBS: O blog da Petrobras voltou a funcionar a toda velocidade. Na medida em que a Globo e a Folha vão fabricando denúncias, ele está rebatendo com menos de 24 horas de prazo.

No DesmascarandoGloboFolha
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Carta sobre REF Brasil: resposta à Folha de S. Paulo


Leia a reportagem "Costa procurou Graça Foster, mas acordo não saiu" (versão online), publicada neste sábado (26/04) pelo jornal Folha de S. Paulo, e confira a resposta enviada ao veículo.

PAUTA: Gostaríamos de questioná-los acerca de uma série de documentos apreendidos pela Polícia Federal, aos quais tivemos acesso, na casa de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras.

1- Tivemos acesso a carta de Paulo Roberto Costa, encaminhada à Graça Foster, com detalhes sugerindo parceria com a empresa REF Brasil.

a) Quais dois acordos foram firmados pela Petrobras com a empresa REF BRASIL (CNPJ 18210511/0001-01): 1) forneceu petróleo a preços de mercado para a empresa REF processar e vender às distribuidoras; ou 2) A Petrobras fornece petróleo e contrata a REF por um sistema de tolling e todos os produtos são de propriedade da Petrobras?

2- Em 3/12/12, foi encaminhada carta à Petrobras e à assessora senior Carla Tozi carta da Petrodansk referente à planta industrial destinada ao fracionamento de nafta petroquímica. Essa empresa é ou já foi parceira da Petrobras? Qual o valor dos contratos firmados com ela? Qual foi a participação do ex-diretor Paulo Roberto Costa na negociação dessa parceria?

3- A Petrobras quitou dívida com as empresas Pro-Sal Petroleo e Gas e DGVL Construções Empreedimentos referente ao processo judicial 140860516669 na 10ª Vara Cívil de Salvador? Qual o valor pago pela empresa?

Qual foi a participação do ex-diretor Paulo Roberto Costa nesse acordo?

4- A Petrobras firmou algum contrato com a Carboflex para fornecimento de fluido e serviço em plataforma offshore? Quando e qual o valor do contrato?

5- A Petrobras atendeu pedido de patrocínio encaminhado em 3/10/2012 ao diretor de abastecimento José Carlos Cosenza para o VI Encontro Nacional de Maçons Petroleiros orçado em R$ 2,2 milhões apresentado por Valter Martins Martins Ramos? Qual o valor repassado? A Petrobras foi, de alguma forma, procurada pelo sr. Paulo Roberto para tratar desse assunto? Qual foi a participação do ex-diretor na negociação desse assunto?

6- A Petrobras vê algum impedimento no fato do ex-diretor da companhia, na condição de aposentado, atuar como consultor de empresas, pessoas físicas e jurídicas com interesses em fazer negócios, firmar parcerias, convênios ou resolver pendências com estatal?

Resposta (à pergunta 1):

A presidente da Petrobras, Maria das Graças Silva Foster, confirma ter recebido, em 17-01-2014, carta, sem número e sem data, do sr. Paulo Roberto Costa, propondo, em síntese, a assinatura de um Memorando de Confidencialidade com o objetivo de analisar opções de negócio de refinarias moduladas com a Petrobras.

Foram as seguintes opções apresentada na referida Carta:

1- "Petrobras fornece o petróleo a preços de mercado, a REF- Brasil processa e vende às distribuidoras";

2- "A Petrobras fornece petróleo e contrata a REF - Brasil por um sistema de Tolling e todos os produtos são de propriedade da Petrobras";

3- "Ou outro modelo que venha a ser discutido entre as partes".

O diretor de Abastecimento da Petrobras, José Carlos Cosenza, respondeu àquela carta por meio da correspondência DABAST 40.001/2014, de 03-02-2014, na qual ele afirma que a presidente da Petrobras, Maria das Graças Silva Foster, o incumbiu de responder sobre a inviabilidade de a Companhia participar de qualquer um dos modelos propostos, bem como não tinha interesse em discutir os projetos citados na referida Carta, e tampouco assinar qualquer Memorando de Confidencialidade com aquela REF - Brasil.

Obs: As demais questões não foram comentadas
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O coronel Paulo Malhães poderá ser perdoado?

Ele
De mortuis nihil nisi bonum.

Dos mortos, não faleis senão bem, diziam os latinos. Essa é a nossa reação tradicional à morte de alguém.

Mas e quando se trata do tenente-coronel Paulo Malhães, ex-agente do Centro de Informações do Exército, asfixiado em sua casa na Baixada Fluminense com todos os sinais de queima de arquivo? Ninguém, ao que se saiba, lamentou sua morte — que, aliás, foi comemorada.

Malhães é o sujeito que, em seu depoimento à Comissão da Verdade, mês passado, afirmou o seguinte:
“Naquela época, não existia DNA. Quando você vai se desfazer de um corpo, quais partes podem determinar quem é a pessoa? Arcada dentária e digitais. Quebrava os dentes. As mãos, [cortava] daqui para cima [referia-se às falanges]”.

“A tortura é um meio. Se o senhor quer saber a verdade, o senhor tem que me apertar”.

“Tantas quanto foram necessárias” [sobre quantas pessoas matou].

“Difícil dizer, mas foram muitos” [sobre quantas torturou].

Finalmente, sua resposta sobre se tinha alguma arrependimento: “Não”.
Malhães merece perdão? Sua morte deve ser comemorada? Ele tem família. Sua filha, aliás, contou que não sabia dos crimes do pai. A viúva estava presente no ataque ao marido.

Mas quem está sendo julgado não é apenas Malhães, e sim o que ele representa.

Trabalhou na Casa da Morte (seu codinome era Dr. Diablo), o centro clandestino de tortura e assassinatos da ditadura em Petrópolis, estado do Rio. A única sobrevivente, com várias sequelas, é a ex-militante da organização VAR-Palmares Inês Etienne Romeu.

Não pode existir nada de errado com a aversão a alguém cujo poder foi usado para a aniquilação. Isso não se altera com sua morte. A maldade de Malhães vai sobreviver a ele.

No livro “The Sunflower” (“O Girassol”), Simon Wiesenthal aborda a questão do perdão a partir de uma passagem durante seus dias no campo de concentração.

Wiesenthal fazia a limpeza de um hospital de campanha quando uma enfermeira alemã pediu-lhe que a seguisse até um quarto onde um soldado da SS estava agonizando. Karl queria um judeu para confessar as atrocidades que cometera. Numa conversa de horas, fez o relato de como seu destacamento prendeu 300 pessoas numa casa e a incendiou. Seu grupo ouvia impassível os gritos.

Karl era assombrado pela imagem do menino de 6 anos que executou. Wiesenthal sugerou-lhe a mão, espantou as moscas, deu-lhe água. Karl pedia, agora, perdão. “Sem sua resposta, não poderei morrer em paz”, diz o nazista. Wiesenthal saiu do quarto em silêncio.

“Esquecer é algo de que apenas o tempo se encarrega, mas o perdão é um ato de vontade, e só quem sofre está qualificado para tomar a decisão”, escreve Wiesenthal. “Você consegue trocar de lugar comigo mentalmente e se fazer esta pergunta crucial: O que eu teria feito?’”.

Kiko Nogueira
No DCM
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Dirceu, homem-teste


Esforço de Joaquim Barbosa para impedir Dirceu de exercer um direito saiu do plano racional — e isso é mais perigoso do que parece

É inacreditável que, no Brasil de 2014, se tente levar a sério — por um minuto — o pedido de investigar todas ligações telefônicas entre o Planalto, o Supremo, o Congresso e a Papuda entre 6 e 16 de janeiro.

A rigor, o pedido de investigação telefônica tem um aspecto terrorista, como já disse aqui.

Implica em invadir poderes — monitorar ligações telefônicas é saber quem conversou com quem mesmo sem acessar o conteúdo da conversa — e isso o ministério público não tem condições de fazer antes que o STF autorize a abertura de um processo contra a presidente da República.

O que queremos? Brincar de golpe?

Criar o clima para uma afronta aos poderes que emanam do povo?

Quem leva a sério o pedido de monitorar telefones do Planalto, com base numa denúncia anônima, sem data, nem hora nem lugar conhecido — o que permite perguntar até se tenha ocorrido — nos ajuda a pensar numa hipótese de ficção científica. Estão querendo um atalho para atingir a presidente? Assim, com a desculpa de que é preciso apurar um depoimento secreto?

Nem é possível fingir que é possível levar a sério um pedido desses.

Por isso não é tão preocupante que uma procuradora do DF tenha feito e assinado um pedido desses. É folclórico, digno dos anais da anti-democracia e da judicialização.

O preocupante é a demora de Joaquim Barbosa em repelir o pedido. Rodrigo Janot, o PGR, já descartou a solicitação. Mas Joaquim permanece mudo.

O que ele pretende?

O que acha que falta esclarecer?

Indo para o terreno prático. Estamos falando de uma área por onde circulam milhares de pessoas, que mantém conversas telefônicas longas, curtas, instantâneas ou intermináveis com chefes, assessores, amigos, maridos, motoristas, namoradas, amantes... sem falar na frota de taxi, no entregador de pizza e no passeador de cachorro...

Monitorar quem ligou para quem?

Imagine. Num dia qualquer entre 6 e 16 de janeiro de 2016 uma jovem assessora do Senado, que trabalha de minissaia e namora um musculoso agente penitenciário na Papuda, resolve encontrá-lo para tomar um sorvete. Mas o rapaz não aparece. Ela liga para o celular do amor de sua vida. O namorado atende dentro de um ônibus que, naquele momento, se encontra parado no sinal vermelho em frente ao Planalto.

Três meses depois, aparece o grampo:

— Alô, Zé Dirceu na linha? Onde você está? Aqui é a Maçã Dourada. Aquela, de 68. Lembra, na Maria Antônia... A gente não tinha marcado um encontro, 50 anos depois? Nossa turma tinha essa mania, lembra?

Está na cara que nada se pretende descobrir com uma investigação desse tipo. O que se pretende é ganhar tempo, como se faz desde 16 de novembro, quando Dirceu e outros prisioneiros chegaram a Papuda. Com ajuda dos meios de comunicação mais reacionários, os comentaristas mais inescrupulosos, pretende-se criar uma ambiente de reação contra o exercício de um direito típico dos regimes democráticos. Aguarda-se por uma comoção que impeça a saída de Dirceu. Você entendeu, né...

No plano essencial, temos o seguinte: Dirceu nunca deveria ter passado um único dia em regime fechado, pois jamais recebeu uma sentença que implicasse em pena desse porte após o trânsito em julgado.

Suas condições de detenção na Papuda se tornaram inaceitáveis a partir do momento em que ele — cumprindo as determinações legais à risca — conseguiu uma oferta de emprego para trabalhar em Brasília, obtendo a aprovação do Ministério Público e da área psicossocial.

No plano da investigação policial, temos o seguinte: nenhuma das possíveis alegações para impedir o exercício desse direito foi provada. Nenhuma.

O que mantém Dirceu na prisão?

Apenas a vontade política de negar um direito que a lei assegura a todos. Um pedido de monitoramento de milhares (ou centenas de milhares? Milhões?) de telefonemas expressa o tamanho dessa vontade delirante de castigar, de punir. Já se ultrapassou qualquer limite civilizado. E aqui entramos em nova área de risco.

Depois de passar por um campo de concentração do nazismo, e, mais tarde, conduzido a um campo soviético porque fazia oposição política a Josef Stalin, o militante David Roussett fez uma afirmação essencial:

"As pessoas normais não sabem que tudo é possível".

Ele se referia à câmara de gás, aos trens infectos, ao gelo, a fome, o frio — a todo sofrimento imposto a seres humanos em nome do preconceito de raça, de classe, da insanidade política, do ódio, da insanidade que dispõe de armas poderosas para cumprir suas vontades.

Não temos câmaras de gás no Brasil de 2014. Mas temos anormalidade selvagem. Já tivemos um julgamento onde os réus não tiveram direito a presunção da inocência. Quem não tinha foro privilegiado não teve direito a um segundo grau de jurisdição. As penas foram agravadas artificialmente.

Dirceu está sendo desumanizado, como se fosse uma cobaia de laboratório, mantida sob vigilância num cubo de vidro, 24 horas por dia.

Foi transformado num caso-teste.

O direito que hoje se nega a Dirceu amanhã poderá ser negado a todos.

Será tão difícil captar a mensagem?

Paulo Moreira Leite
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Enquanto isso, na Espanha...

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