16 de abr de 2014

Conceição Lemes, 33 anos de estrada: Resposta em público a O Globo

Nessa segunda-feira 13, uma repórter de O Globo enviou-nos um e-mail:

“Estou fazendo uma matéria sobre a entrevista que o ex-presidente Lula concedeu a blogueiros na semana passada. Gostaria de conversar contigo por telefone”.

Pedi que enviasse as perguntas por e-mail. Hoje, às 12h27 elas foram encaminhadas:


Nada contra a repórter. Embora não a conheça, respeito-a profissionalmente como colega.

Já a empresa para a qual trabalha, não merece a nossa consideração.

Com essas perguntas aos blogueiros, O Globo parece estar com saudades da ditadura, quando apresentava como verdadeira a versão dos órgãos de repressão.  Exemplo disso foi a da prisão, tortura e assassinato de Raul Amaro Nin Ferreira, em 1971, no Rio de Janeiro.

Com essas perguntas, O Globo parece querer promover uma caça aos blogueiros progressistas. Um macartismo à brasileira.

O marcartismo, como todos sabem, consistiu num movimento que vigorou nos EUA do final da década de 1940 até meados da década de 1950. Caracterizou-se por intensa patrulha anticomunista, perseguição política e dersrespeito aos direitos civis.

O interrogatório emblemático daqueles tempos nos EUA:
Mr. Willis: Well, are you now, or have you ever been, a member of the Communist Party? (Bem, você é agora ou já foi membro do Partido Comunista?)

A sensação com as perguntas de O Globo é que voltamos à ditadura. Agora, a ditadura midiática das Organizações Globo. É como estivéssemos sendo colocados numa sala de interrogatório.

Afinal, qual o objetivo de saber se pertencemos a algum partido político?

Será que O Globo faria essa pergunta aos jornalistas de direita, travestidos de neutros, que rezam pela sua cartilha?

E se fossemos nós, blogueiros progressistas, que fizessemos essas perguntas aos jornalistas de O Globo?

Imediatamente, seríamos tachados de antidemocratas, cerceadores da liberdade de expressão, chavistas e outros mantras do gênero.

Como um grupo empresarial que cresceu graças aos bons serviços prestados à ditadura civil-militar tem moral de questionar ideologicamente os blogueiros que participaram da entrevista coletiva?

Liberdade de imprensa e de expressão vale só para direita e para a esquerda, não?

Como uma empresa que tem no seu histórico o colaboracionismo com a ditadura, o caso pró-Consult, o debate editado do Collor vs Lula, ter sido contra a campanha Pelas Diretas,  pode se arvorar em ditar normas de bom Jornalismo e ética?

Como uma empresa que deve R$ 900 milhões ao fisco tem moral para questionar outros brasileiros?

Como um grupo empresarial que recebe, disparadamente, a maior fatia da publicidade do governo federal pode criticar os poucos blogs que recebem alguma propaganda governamental?

O Viomundo, repetimos, não aceita propaganda dos governos federal, estaduais e municipais. É uma opção nossa. Mas respeitamos quem recebe. É um direito.

No Viomundo, não temos nada a esconder. Só não admitimos que as Organizações Globo, incluindo O Globo, com todo o seu histórico, se arvorem no direito de fiscalizar a blogosfera.

Por isso, eu Conceição Lemes, que representei o Viomundo na coletiva, não respondi a O Globo. Preferi responder aos nossos milhares de leitores.  Diretamente. E em público.

Seguem as perguntas de O Globo e as minhas respostas.

Qual a sua formação acadêmica?

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

Qual a sua atuação profissional antes do blog? Já cobriu política por outros veículos?

Sou editora do Viomundo, onde faço política, direitos humanos, movimentos sociais. Toco ainda o nosso Blog da Saúde.

No início da carreira, fiz um pouco de tudo: economia, política, revistas femininas, rádio…

Há 33 anos atuo principalmente como jornalista especializada em saúde, tendo ganho mais de 20 prêmios por reportagens nessa área. Entre eles, o Esso de Informação Científica, o José Reis de Jornalismo Científico, concedido pelo Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), e o Sheila Cortopassi de Direitos Humanos na área de Comunicação, outorgado pela Associação para Prevenção e Tratamento da Aids e Saúde Preventiva (APTA) com apoio do Unicef.

Conquistei também vários prêmios Abril de Jornalismo, a maioria por matérias publicadas na revista Saúde!, da qual foi repórter, editora-assistente, editora e redatora-chefe.

Em 1995, fui  premiada pela reportagem “Aids — A Distância entre Intenção e Gesto”, publicada pela revista Playboy. O projeto que desenvolvi para essa matéria foi selecionado para apresentação oral na 10ª Conferência Internacional de Aids, realizada em 1994 no Japão.

Pela primeira vez um jornalista brasileiro teve o seu trabalho aprovado para esse congresso. Concorri com cerca de 5 mil trabalhos enviados por pesquisadores de todo o mundo. Aproximadamente 300 foram escolhidos para apresentação oral, sendo apenas dez de investigadores brasileiros. Entre eles, o meu. Em consequência, fui ao Japão como consultora da Organização Mundial da Saúde.

Tenho oito livros publicados na área.

O mais recente, lançado em 2010, é Saúde – A hora é agora, em parceria com o professor Mílton de Arruda Martins, titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP, e o médico Mario Ferreira Júnior, coordenador de Centro de Promoção de Saúde do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Em 2003/2004, foi a vez da  coleção Urologia Sem Segredos, da Sociedade Brasileira de Urologia, destinada ao público em geral.

Os primeiros livros foram em 1995. Um deles, o Olha a pressão!, em parceira com o médico Artur Beltrame Ribeiro.

O outro foi a adaptação e texto da edição brasileira do livro Tratamento Clínico da Infecção pelo HIV, do professor John G. Bartlett, da Universidade Johns Hopkins, nos EUA. A tradução e supervisão científica são do médico Drauzio Varella.

Você é filiada a algum partido político?

Não sou nem nunca fui filiada a qualquer partido político.

Mas me estranha muito uma empresa que apoiou a ditadura, cresceu devido a benesses do regime e hoje se alinhe com todos os espectros da direita brasileira, questione a a filiação partidária de um jornalista.

Quer dizer de direita, tudo bem, e de esquerda, não?

Como você definiria os “blogueiros progressistas”? Existe uma linha política?

Somos de esquerda.

Defendemos:

Melhor distribuição da renda no país.

Reforma agrária.

Os movimentos sociais por melhores condições de moradia, trabalho, defesa do meio ambiente, saúde e educação.

Regulamentação dos meios de comunicação.

Valorização do salário mínimo.

Política de cotas raciais nas universidades.

Direitos reprodutivos e sexuais das mulheres brasileiras.

Combate à discriminação e promoção dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais

Imposto sobre grandes fortunas.

Financiamento público de campanha.

Reforma política.

Fortalecimento da Petrobras.

Sistema Único de Saúde.

Como você foi chamada para a entrevista? Recebeu alguma ajuda de custo do instituto?

Por e-mail. Nenhuma ajuda.

O que você achou da seleção de blogueiros para a entrevista? Incluiria, por exemplo, representantes da mídia ninja ou blogueiros “de oposição”, como Reinaldo Azevedo?

O Instituto Lula tem o direito de chamar para entrevistar o ex-presidente quem ele quiser.

Engraçado O Globo perguntar isso. De manhã à madrugada, de domingo a domingo, todos os veículos das Organizações Globo privilegiam, ostensivamente, sem o menor pundonor, vozes do conservadorismo brasileiro e internacional. Pior é que travestido de uma falsa neutralidade.

Por que O Globo pode chamar quem quiser e o ex-presidente Lula, não?

Por que as Organizações Globo não dão espaços iguais à esquerda e à direita, garantindo a pluralidade de opiniões?

No dia em que as Organizações Globo garantirem efetivamente a pluralidade de opiniões, respeitando a verdade factual, aí, sim, seus profissionais poderão questionar os nomes escolhidos por Lula.

Qual foi o ponto mais relevante da entrevista para você?

Ter falado três horas e meia com os blogueiros. Uma conversa em que nenhum assunto foi proibido. Tivemos liberdade plena de perguntar o que queríamos. Uma lição de democracia.

O instituto arcou com os seus custos de deslocamento?

Não. Fui de táxi. Paguei do meu próprio bolso.

Por que você acredita ter sido escolhida para a entrevista?

Quantos jornalistas brasileiros têm o meu currículo profissional? Quantos repórteres da mídia tradicional e da blogosfera produziram tantos furos jornalísticos quanto nós no Viomundo nos últimos cinco anos?

Por isso, deixo essa pergunta para você e os leitores do Viomundo responder.

O que você acha do movimento “Volta Lula”?

Quem tem de achar é a população e os militantes dos partidos da base de apoio do governo.

Sou apenas repórter. Cabe a mim, portanto, retratar o que presencio.

Qual nota você daria ao governo Dilma? Por quê?

O Globo tem fetiche por nota. Quem tem de dar a nota é o eleitorado. Sou repórter e minha opinião neste caso é irrelevante. A não ser que O Globo pretenda usá-la para fazer o que costuma fazer: manipular informação com objetivos políticos, em defesa de interesses da direita brasileira.

PS do Viomundo: Todas as nossas batalhas são financiadas exclusivamente pela contribuição de assinantes, a quem agradecemos por compartilhar conteúdo exclusivo generosamente com outros internautas. Torne-se um deles!
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Dilma segue favorita para vencer no 1º turno, mostra Vox Populi

Em meio aos embates pela CPI da Petrobras e o mau humor da economia, a presidenta mantém vantagem; os opositores somam 14 pontos a menos que a petista

Pesquisa Vox Populi / CartaCapital realizada entre os dias 6 e 8 de abril revela um cenário estável para a Dilma Rousseff (PT) a cerca de três meses do início da campanha eleitoral. A presidenta oscilou um ponto negativo em relação ao último levantamento, em fevereiro, e aparece como a candidata favorita de 40% dos eleitores. Juntos, os adversários somam 26% das intenções de voto. O cenário para a sucessão, portanto, praticamente não se alterou nos dois últimos meses, apesar do mau humor com a economia e da crise na Petrobras, alvo de embates por uma CPI no Congresso.

Em segundo lugar na pesquisa, o tucano Aécio Neves também oscilou um ponto para baixo. Em fevereiro, era lembrado por 17% dos eleitores. Hoje aparece com 16%. Eduardo Campos (PSB), que durante a semana anunciou a ex-senadora Marina Silva como a pré-candidata a vice em sua chapa, soma 8% (tinha 6% há dois meses). O Pastor Everaldo Pereira, pré-candidato do PSC, tem 2%.

Os pré-candidatos Levy Fidelix (PRTB), Randolfe Rodrigues (PSOL), Eymael (PSDC) e Mauro Iasi (PCB) não pontuaram. Votos brancos ou nulos somam 15%. O número de eleitores que não sabem em quem votar ou que não responderam a pesquisa é de 18%.

Nesta quinta-feira 17 serão divulgados todos os detalhes da pesquisa CartaCapital/Vox Populi.

Para a pesquisa, o instituto ouviu 2.200 eleitores em 161 municípios. A margem de erro é de 2,1 pontos percentuais. Os detalhes da pesquisa podem ser conferidos na edição impressa de CartaCapital, nas bancas a partir da quinta-feira 17.
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A história por trás do dinamarquês que teria desistido de cobrir a Copa no Brasil

O jornalista Igor Natusch se aprofundou no caso do suposto jornalista dinamarquês que deixou o Brasil porque estaria chateado com os desdobramentos da Copa do Mundo 2014

Pragmatismo Político entrou em contato com Igor Natusch, que nos autorizou a reproduzir a íntegra de sua investigação. A pesquisa completa e reveladora você pode ler abaixo.

Tanto falaram de Mikkel Jensen, o jornalista dinamarquês que desistiu de cobrir a Copa chocado com os dramas do Brasil, que resolvi pesquisar um pouco o cara. Não fui com uma tese pronta: apenas queria ver qual era. Achei infos que julgo interessantes, que postei no meu perfil do twitter e vou tentar (apesar do sono) compilar aqui. Se eu estiver errado em qualquer coisa, por favor me corrijam, já que não há nenhum AMOR PRÓPRIO meu envolvido. Não considero isso senão um levantamento divertido de fazer. Lá vai:

— Antes de mais nada: Mikkel Jensen não é o nome profissional dele. Será bem mais fácil achar referências sob o nome Mikkel Keldorf, que ele usa com bem mais frequência;

— Seu perfil no Facebook (https://www.facebook.com/mtkjensen) parece que não existia antes de fevereiro de 2013. Suas primeiras postagens, já críticas à Copa, são de 19 de novembro.

Antes, só likes. (que o perfil seja novo não é absurdo: muitos criam perfis em redes sociais para uso em viagens ou contato com pessoas em países distantes. Tenho amig@s nessa situação e pode perfeitamente ser o caso aqui. talvez não postasse porque não tinha o que dizer — usava apenas para falar no chat, sei lá);

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— O curioso é que a pessoa creditada como sua namorada, Melanie Festersen Spile (https://www.facebook.com/melanie.spile), também não tinha perfil no Facebook antes de fev/2013. Ela viajou junto com ele? Criou perfil exclusivamente para conversar com o namorado que viajava? É possível;

— O único lugar onde é possível achar contribuições frequentes de Mikkel Keldorf é no Pladepressen (http://pladepressen.dk), que parece ser um site focado na cena musical da região. Mikkel escreveu uns artigos e tirou fotos para o veículo, que durou um ano ou um pouco mais. As últimas atualizações na página do Pladepressen no Facebook (https://www.facebook.com/Pladepressen) são de… Fevereiro de 2013. Ou seja, razoável deduzir que Mikkel Keldorf era um dos sócios do Pladepressen e desistiu da empreitada quando resolveu vir ao Brasil, no começo do ano passado (se quiserem ler uma edição do Pladepressen: http://pladepressen.dk/wp-content/uploads/2012/10/PladePressens-e-mag-oktober.pdf);

— Então Mikkel Keldorf – que tem material esparso publicado em alguns lugares desde 2012, incluindo viagem à China e inclusive uma reportagem sobre Ronaldinho (http://www.tipsbladet.dk/content/druk-og-damer-ronaldinhos-fede-fodboldferie), mas nada antes disso – vem ao Brasil. Edita, até onde consegui puxar, um único material jornalístico entre setembro de 2013 e abril de 2014: uma reportagem em vídeo para a TV2 dinamarquesa (http://nyhederne.tv2.dk/2014-03-31-reportage-sikkerheden-i-rio-vakler-forud-vm) sobre ações policiais na Favela da Maré, no Rio;

— Aí como sabemos, ele se revolta com coisas que descobre em Fortaleza e, ao invés de fazer um material jornalístico bombástico sobre o que achou, decide largar a cobertura da Copa de mão (seu sonho) e volta para casa. Sabe onde sua decisão é noticiada primeiro? Na Dinamarca, mais precisamente no dia 9 de abril: http://ekstrabladet.dk/sport/fodbold/landsholdsfodbold/vm2014/article2258090.ece

Até aí, ninguém noticiou nada a respeito dele no Brasil;

— Curiosamente, um vídeo de quase 40min é publicado no canal de Mikkel Keldorf no Youtube no dia 12: https://www.youtube.com/watch?v=SjxWXjeOFc8.  Esse vídeo é curiosíssimo e para mim, intrigante. Nele, o jornalista não faz matéria alguma: é entrevistado por figuras ocultas, que em nenhum momento se identificam — o vídeo, embora editado de forma competente, não tem créditos senão o do próprio Mikkel, aqui também Keldorf e não Jensen. Quem o entrevista? Por que esse material (uma boa história em potencial) só aparece na página do próprio Keldorf e não da(s) pessoa(s) responsável(is) pelo vídeo? Por enquanto, não se sabe;

— Finalmente, dois dias depois de postar o vídeo no YouTube, Mikkel faz um desabafo em sua conta no Facebook, que serviu de base para todas as matérias feitas até aqui. Ninguém parece saber que a história foi divulgada semana passada na Dinamarca, nem que um vídeo enorme foi publicado pelo próprio Mikkel no fim de semana. Ou seja, ninguém falou com Mikkel Keldorf Jansen ou foi além do post no facebook para escrever suas matérias.

Meu palpite (e é tudo palpite mesmo, nada além): Mikkel Keldorf é um jornalista eventual — um cara que viaja para lugares distantes como turista e oferece material a jornais dinamarqueses para ajudar a pagar as contas. Posso ter pesquisado mal, mas não achei nenhuma produção jornalística consistente de sua parte, a não ser no Pladepressen, uma pequena revista regional sobre música que parece ter sido projeto dele próprio. Ou seja, dizer que é jornalista é algo que refere-se a parte de suas atividades, talvez sua formação, mas não é exatamente a coisa que ele mais faz na vida. Confiram o perfil profissional dele: http://www.mikkelkeldorf.dk/category/resume/.  Veio para o Brasil tentar cobrir a Copa e ganhar dinheiro, o que não conseguiu (vendeu uma só matéria, ao que parece). Acho razoável deduzir que volta à Dinamarca especialmente por isso, ainda que o choque com as mazelas do Brasil possa, é claro, ter influenciado sua decisão.

Antes de ir, alguém descobre sua história e faz o vídeo — pessoas das sombras, que não se identificaram e não fizeram menção de usar o material que fizeram ou jogá-lo na imprensa. Ninguém sabe nada dele além do Facebook — a própria versão que apresentam sobre sua carreira e sua preparação para cobrir a Copa é a que ele próprio oferece, sem nenhuma investigação por cima. E o vídeo — potencialmente bombástico, ainda que (frisemos) sem créditos — passa despercebido. Deduzo que alguém gravou o depoimento para uso futuro, mas não contava que o próprio Keldorf o publicasse — e talvez mais ainda, que os posts de Keldorf no Facebook chamassem atenção. O noticiário dinamarquês descobre o caso primeiro, de qualquer modo. Não é um cara com faro jornalístico — se fosse, tentaria vender sua história e iria atrás da pauta que descobriu, ao invés de voltar correndo para seu país natal.

Não: ele volta depois de vender uma só matéria televisiva, e após gravar um depoimento para pessoas misteriosas. Que acharam sua história ótima para um vídeo de 40min, mas que perdem a exclusividade dela para um post no facebook —  por acidente ou por plano, não sabemos. E que permitem (ou não impedem) que o próprio Mikkel Keldorf publique o vídeo em sua conta pessoal no YouTube.

Não acredito na história de Mikkel Keldorf. Para mim, ele voltou por falta de trabalho e romantizou a situação em benefício próprio, convencendo algumas pessoas no meio do caminho – que chegaram a gravar um vídeo, mas não o publicaram. Talvez por acharem que não valia a pena. Chamo a atenção para o fato de que o único trabalho que Keldorf comercializou aqui é… em vídeo. Editado por ele próprio. Talvez ele próprio tenha editado o vídeo, a partir de brutas que os autores originais não quiseram usar. Pode ser tudo um hoax razoavelmente bem elaborado, mas não creio nisso: acho que é apenas a tentativa de um jornalista meia-boca em tirar algo de bom de uma iniciativa profissional fracassada. E uma mostra de como, para ganhar cliques, nossa imprensa brasileira publica qualquer coisa. Inclusive longas matérias cuja única fonte é uma postagem de um desconhecido no Facebook.

É isso. Eu achei divertido. Espero que vocês também tenham achado! Para quem leu esse catatau, meu muito obrigado.

Igor Natusch
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Os civis da ditadura se mantiveram no poder


No aniversário de 50 anos do golpe de 64, os militares passaram praticamente em silêncio. 

Não houve notas públicas, ordens do dia ou reuniões de reformados em aberta e ostensiva comemoração — como já ocorreu várias vezes em efemérides anteriores.

Com o silencio militar, talvez até por determinação da presidência da república, sobressaiu-se, quem diria, um professor de direito do Largo São Francisco, que tentou impingir a seus alunos a leitura de uma tortuosa explicação de sua opção preferencial pela ditadura, chamado de Continência a 64.

Os estudantes da Faculdade de Direito da USP, a mesma invadida em 1968 para prender alunos que protestavam contra a ditadura, e palco da leitura da Carta aos Brasileiros pelo professor Goffredo Silva Telles Jr., na década seguinte, repudiaram tal continência. 

Opuseram-se à tamanha desfaçatez encenando, com gritos e capuzes, um interrogatório nos porões ao mesmo tempo em que cantavam Opinião, de Zé Keti. Ensinaram mais sobre a ditadura a seus colegas do que o texto em que o professor elogiava o regime militar e se dizia, num discurso bolsonaro, um combatente da peste rubra.

O silêncio militar, em grande parte, permitiu que outras vozes dessem vazão às defesas explícitas ou envergonhadas do golpe — ilustrando um fato que a muitos ainda escapa, que a ditadura amealhou apoios entusiasmado de políticos, empresários e donos de jornais.

As organizações Globo fizeram recentemente um mea culpa sobre o apoio à ditadura que se instalou com o golpe — semanas depois, veio a lume, por intermédio de documentos norte-americanos já tornados públicos, a pressão que Roberto Marinho fazia junto a Castelo Branco para evitar a realização de eleições diretas em 1965, como até então se estipulava no calendário eleitoral.

Embora nada inusitado pelo teor das manifestações da Globo à época, o fato só revela que o relacionamento da imprensa com o poder militar pode ter sido muito menos submisso do que já se fez crer.

Afinal, o clima de catastrofismo e de perigo comunista instado pela imprensa na época foi condição sine qua non para a chegada dos militares ao poder. 

Quadro que contou, inclusive, com a ocultação de pesquisas realizadas pelo Ibope, às vésperas do 1º de abril, indicando que a popularidade do presidente João Goulart continuava alta. Elas só se tornaram conhecidas dos leitores, com quem os jornais afirmam peremptoriamente compromissos de eterna lealdade, com um atraso de 50 anos.

Embora o dispositivo militar tenha dissuadido uma reação do presidente Jango, é de se lembrar que foram os parlamentares em um Congresso aberto, que arremataram o golpe com a declaração de uma vacância que jamais existiu.

Os militares ocuparam o poder com cinco generais e abriram as portas para as extremas violências que se multiplicaram no período. 

Mas jamais estiveram sós nessa empreitada. 

Empresários que os financiaram e jornalistas que os aplaudiram, políticos que os sustentaram e juristas que os legitimaram, deixam evidente que o exercício arbitrário do poder não ficou limitado a fardas e coturnos. 

A diferença é que os civis não voltaram a seus quartéis e jamais deixaram de frequentar os espaços do poder.

Marcelo Semer
No Terra Magazine
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Uma bancada alternativa para entrevistar Lula, inspirada no Globo

Quem disse que jornalista não tem amigos?
E o Globo procura os blogueiros que entrevistaram Lula em busca de informações para uma reportagem que mostre a razão de terem sido convidados.

O Globo parece fugir da resposta mais simples: é que fazem um jornalismo menos viciado do que o do Globo.

Para Kiko, vieram poucas perguntas. Mas vejo agora que para Conceição Lemes, que representou o Viomundo, foi uma série infindável de perguntas, como se fosse um interrogatório.

Ela as publicou, com as respostas — dadas não ao Globo, mas aos leitores do Viomundo.

Chegaram a perguntar a ela se recebera dinheiro para se deslocar até o Instituto Lula, em São Paulo, onde foi feita a entrevista.

Conceição disse que não. Pagou o táxi com suas próprias posses. Não fez o que o Globo fez quando foi cobrir uma palestra de Joaquim Barbosa na Costa Rica.

O contribuinte pagou a conta da jornalista do Globo que acompanhou JB — aliás num jato da FAB.

Mas a questão que mais me chamou a atenção no interrogatório do Globo foi o que Conceição achava da ideia de Lula incluir entre os convidados “blogueiros de oposição”, como Reinaldo Azevedo.

Azevedo foi citado nominalmente, e então peço pausa para rir.

Seria de fato uma grande ideia. Tão boa que o próprio Globo poderia adotar e convidar Paulo Henrique Amorim para uma futura entrevista que os irmãos Marinhos concedam, de preferência ao vivo, como foi o caso de Lula.

Outra possibilidade é Miguel do Rosário, para discutirem o caso da sonegação bilionária da Globo na Copa de 2002. Foi um furo de Miguel, com seu Cafezinho.

Reinaldo Azevedo começaria se dirigindo a Lula, respeitosamente, por “Apedeuta”. O Brasil, para cuja autoestima ele tanto colabora, seria tratado como “Banânia”. E os petistas seriam, claro, os “petralhas”, uma palavra da qual ele se orgulha como se tivesse criado não ela, mas Guerra e Paz.

A bancada de entrevistadores de Lula poderia ser reforçada com outros nomes, na linha sugerida pelo Globo.

Diogo Mainardi poderia enriquecer, de Veneza, por Skype, a entrevista. Ele trataria Lula, com a devida deferência, como “Anta”. E levaria também as saudações de seu pai, Ênio, que fraternalmente vive pedindo a Deus que traga de volta o câncer a Lula.

Augusto Nunes é outro nome que deveria estar na bancada. Com sua habitual elegância, e com seu apreço pelos brasileiros do Nordeste, Nunes batizou Lula de “presidente retirante”.

Outras maneiras de Nunes se referir a Lula variam, britanicamente, de “Molusco” a “Cachaceiro”, de “Afanador” a “Burro”.

Podemos ver Nunes pedir a Molusco que envie lembranças a “Dois Neurônios”, como ele chama carinhosamente Dilma.

Num gesto de extrema civilidade, ele poderia entregar a Lula a capa emoldurada da Veja na qual “Molusco” leva um chute no traseiro.

Para seguirmos na excelente ideia do Globo, jornalistas da casa deveriam estar presentes também.

Merval Pereira, por exemplo, teria boas contribuições ao indagar Lula sobre o lulopetismo, o lulodilmismo e o lulobolivarianismo. Merval embelezaria a ocasião se se apresentasse engalanado com sua farda de Imortal.

Jabor é outro que não poderia ser esquecido. Ele compartilharia com Lula suas ponderadas reflexões sobre a bolchevização comunoestalinista do Brasil pelo PT.

Realmente, uma grande ideia a do Globo.

Caso Lula saiba dela, tenho certeza de que ele em breve convocará uma outra entrevista, com os grandes jornalistas listados acima e mais alguns outros de igual grandeza.

Paulo Nogueira
No DCM
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Globo aposta todas suas fichas em protestos de rua em massa


Muito satisfeitos com os resultados do ano passado, em que a popularidade de Dilma caiu de 55% para 31% em três semanas, empresa dos Marinho acelera a campanha anti-copa.

A postura da Globo é dúbia. De um lado lucra com anúncios, do outro incentiva a população a ir para as ruas, certa de que assim como no ano passado, os protestos não tem a capacidade de suspender o andamento do torneio. Dessa forma, o seu lucro está garantido. 

Ontem no horário de maior acesso ao “Globo.com” o jornal falava sobre um superfaturamento do Maracanã, sem informar que o estádio e a reforma são de responsabilidade do governo do estado do Rio de Janeiro. Logo abaixo, em uma outra reportagem, o site divulgava uma reportagem suspeita sobre um estrangeiro que teria falado mal da copa. O texto escrito em um português quase perfeito, teria sido feito por um dinamarquês que chegou no país há somente três meses. Resumidamente, o texto mostra a surpresa de um europeu quando descobre que o Brasil é um paií de terceiro mundo. O conteúdo é óbvio e cheio de clichês.

A campanha anti-copa já começa a ter resultados. Ontem cerca de 300 pessoas protestaram em São Paulo (é bom lembrar os protestos de 2013 dessa forma).

No Desmacarando GloboFolha
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Quem mobiliza estes vândalos contra a Copa?


A menos de dois meses do início da Copa, com todos os estádios prontos, à exceção do Itaquerão do Corinthians, continuam as "manifestações pacíficas" contra o evento promovidas nas grandes cidades, seguindo religiosamente um calendário, preparado por alguém que ninguém sabe quem é. Nesta terça-feira, tivemos mais um em São Paulo e o próximo já está marcado para o próximo dia 29.

Inventaram até um "protestômetro" para divulgar os atos marcados em todo o país para antes e durante a Copa do Mundo do Brasil. O que eles querem, afinal? Derrubar os estádios? Derrubar o governo? Provocar um clima de caos antes das eleições presidenciais?

O que me parecia um negócio de malucos desocupados, como estes "black blocs", que aparecem sempre no final dos "protestos" afrontando a polícia e quebrando tudo que encontram pela frente, está virando um movimento muito bem organizado, que não mostra suas lideranças nem os objetivos que os levam a fechar ruas e avenidas, provocando enormes congestionamentos nas capitais que sediarão a Copa. Atribui-se tudo a uma anônima mobilização feita pelas redes sociais.

Desde as grandes manifestações de junho do ano passado, que começaram pacíficas e terminaram em confrontos com a polícia e enormes prejuízos para os comerciantes, não teve semana em que não promovessem algum protesto por qualquer motivo, muitas vezes em parceria com os "black blocs".

Assim como os "manifestantes", batalhões de policiais comparecem pontualmente aos locais marcados e, vez ou outra, prendem alguns mais exaltados.  Centenas já foram presos — só ontem, a polícia levou mais de 50 deles —, mas acho que nenhum permanece atrás das grades. Antes de soltá-los, no ritual que já se tornou uma rotina, será que os órgãos de segurança não poderiam pelo menos fazer uma pequena investigação para saber quem são, de onde vêm e a serviço de quem estão estas figuras estranhas que fizeram dos protestos uma profissão?

O de ontem foi o quinto ato do "Não vamos ter Copa" este ano. Lá estavam 750 PMs para tomar conta de 1.500 manifestantes. Nos dois protestos anteriores, havia mais policias do que participantes das marchas de protesto. Quanto custa isto ao Estado em recursos humanos e equipamentos? Quem paga esta conta? Parando o transito por onde passavam, da avenida Paulista ao Largo da Batata, em Pinheiros, cruzando toda a avenida Rebouças, eles conseguiram infernizar a vida de milhares de paulistanos que estavam voltando do trabalho ou da escola para suas casas.

Para marcar sua presença, antes do "protesto" acabar os "black blocs" destruíram três agências bancárias e correram corajosamente para dentro da estação Butantã da linha 4 do Metrô, onde foram cercados por 150 policias. Depois de revistados, foram levados para os ônibus da PM, que já estavam aguardando por eles. A polícia encontrou até coquetéis molotov nas mochilas dos "pacíficos manifestantes".

Até quando nós vamos continuar assistindo a esta baderna pré-programada sem fazer nada?

Ricardo Kotscho
No Balio do Kotscho
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‘Esquerda caviar’

Infelizmente, a atitude intelectual de Rodrigo Constantino é desonesta, procedendo por reduções e simplificações grosseiras

O mundo já é muito complexo e turvo para os que se propõem a compreendê-lo honestamente. Por compreensão honesta designo fundamentalmente a atitude intelectual que tem como princípio examinar quaisquer argumentos sem o preconceito ideológico que costuma obscurecer a construção coletiva do diagnóstico da realidade. Todos têm, de modo consciente ou não, posições ideológicas prévias, mas essas devem ser sempre submetidas ao teste da realidade; são pontos de partida, não pontos de chegada. Infelizmente, a atitude intelectual de Rodrigo Constantino — como demonstrou Jean Wyllys, com a clareza devida, em artigo recente — é desonesta, procedendo por reduções, simplificações grosseiras, maniqueísmos sistemáticos, diversos procedimentos que agem no sentido de obscurecer o trabalho público e coletivo da compreensão da realidade (sem falar no abuso da dimensão imaginária das polêmicas — recorrendo sempre a argumentos ad hominem e ridicularizando pessoas famosas, a fim de produzir uma espécie de sensacionalismo intelectual).

Ao contrário, vou propor aqui uma leitura honesta do que considero, até onde li, seus argumentos principais na defesa da pertinência da expressão “esquerda caviar”, com tudo o que ela carrega de desqualificação. Vou fazê-lo porque julgo que por meio dessa expressão pode-se compreender melhor quais os sentidos e as possibilidades efetivas da esquerda no mundo atual.

O argumento principal de Constantino é o que a expressão sugere de cara: haveria uma contradição entre ser de esquerda e usufruir das benesses propiciadas pelo capitalismo às classes sociais mais altas. Admitida essa contradição, segue-se logicamente que os ricos autodeclarados de esquerda são hipócritas, apenas adotando o semblant de uma retórica socialmente valorizada — e que a sua diferença para os ricos de direita está tão somente em que esses últimos não capitulam a coerção social da hipocrisia.

Comecemos então por nos perguntar: o que é ser de esquerda? Sem dúvida, ser de esquerda significa primordialmente considerar a redução das desigualdades econômicas e sociais um objetivo fundamental. Isso, entretanto, não implica necessariamente adotar uma perspectiva anticapitalista utópica, seja nos moldes da experiência efetiva da esquerda no século XX ou de algum modelo a se inventar. Concordo com T. J. Clark, para quem, em vez disso, é preciso que a esquerda contemporânea faça profundamente a experiência da sua derrota, das catástrofes intoleráveis por ela produzidas, e se esvazie de sua dimensão utópica, engajando-se antes numa política moderada, operando no interior do capitalismo, “por pequenos passos”, “propostas concretas” agindo no sentido de produzir igualdade em diversos âmbitos.

Provavelmente a experiência de esquerda mais bem-sucedida no mundo hoje é a dos países nórdicos, capazes de dirigir o capitalismo por meio de um Estado pequeno, porém eficaz no sentido de promover equilíbrio social, conciliando assim os princípios do mercado e da seguridade social, da individualidade e do coletivo, em suma, da liberdade e da igualdade (como mostrou ampla matéria da revista “The Economist”, recentemente). Ser de esquerda não implica portanto um anticapitalismo sistêmico e revolucionário — concordo ainda com T. J. Clark quando escreve que, nas condições atuais, a esquerda moderada é que é revolucionária —, cuja prova pessoal de coerência seria uma espécie de franciscanismo, de resto inútil. Mas sim engajar-se, seja por qual via for, na luta pela promoção da igualdade de direitos (conforme fazem, cada um a seu modo, as pessoas desqualificadas por Constantino como símbolos da “esquerda caviar”: Wagner Moura, Regina Casé e Gregorio Duvivier, entre outros).

É oportuno desconstruir outra suposta contradição. Segundo Constantino, os membros da “esquerda caviar” costumam criticar instituições, notadamente a polícia, mas recorrer a elas quando necessário. Deveria ser escusado lembrar que a crítica é um princípio democrático de aperfeiçoamento, e não um instrumento de negação absoluta. Quando pessoas de esquerda criticam a polícia, não estão a defender sua extinção, ingênua ou irresponsavelmente; antes repudiam a sua ação hierarquizante, logo antidemocrática.

O que nos leva a um último aspecto da expressão. Ao negar a possibilidade de cidadãos de classe média e alta serem de esquerda, é nada menos que a mediação social da solidariedade o que se está anulando. Parece ser impossível para Constantino assimilar a ideia de que há pessoas dispostas a defender causas igualitárias mesmo em detrimento de suas vantagens pessoais. Mas, pasme, é precisamente isso o que, como princípio, define a esquerda.

Francisco Bosco
No Globo
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Na louca cavalgada pela CPI da Petrobras, a maior vítima é a verdade


A CPI da Petrobras é uma das maiores palhaçadas da vida política, econômica e jornalística nacional dos últimos tempos.

O perfeito desfecho, nesta primeira etapa, tinha que ser mesmo a entrega da decisão do formato da CPI para o STF.

Mais especificamente, para a ministra Rosa Weber, que se notabilizou no julgamento do Mensalão por dizer que se julgava apta a condenar Dirceu mesmo sem provas.

A oposição defende uma CPI focada na Petrobras. O governo quer estender a investigação para outros assuntos, como o escândalo do metrô de São Paulo.

Alguém tem dúvida sobre a decisão de Weber?

O Mensalão deixou claro como o STF é hoje muito mais um tribunal político que jurídico, e então já podemos antever o que dirá Rosa Weber com altíssima chance de acerto.

Escrevi, recentemente, que a CPI da Petrobras é o novo Mensalão, e repito isso agora.

Mais uma vez, o papel da mídia é decisivo. Não importa informar, não importa esclarecer: a missão da imprensa é criar um clima que leve a uma CPI feita apenas para atrapalhar a campanha de Dilma.

Repare como a cobertura vai se adaptando às novas circunstâncias.

Primeiro, numa manipulação grosseira e desonesta, se dizia  que a Petrobras comprara por 1 bilhão de dólares uma refinaria que custara 42 milhões.

As insinuações — acusações, na verdade — eram claras: haveria corrupção aí. Batata.

Dilma deu uma contribuição milionária aos opositores ao dizer, desastradamente, que só assinou a compra — ela chefiava o Conselho de Administração da Petrobras — porque o sumário executivo era falho.

Ela quis tirar sua responsabilidade na compra e, na prática, tornou enorme um problema que era pequeno.

Com o passar dos dias, ficou claro que não era bem assim — embora a Petrobras tenha demorado uma eternidade a se defender. Nem a compra fora por um valor tão baixo e nem a venda posterior por um valor tão alto.

Desfeita a falácia dos números absurdamente inflados, a luta pela CPI deveria murchar.

Mas então a mídia se incumbiu de encontrar um novo foco por conta de uma declaração de Graça Foster, presidenta da Petrobras.

Ela disse, ontem no Senado, que a compra de Pasadena foi um “mau negócio”. Pronto: a mídia só fala nisso.

Que companhia não faz, aqui e ali, um mau negócio? Isso não seria motivo suficiente para uma CPI, naturalmente — mas a mídia, como está interessada em tumultuar e não em elucidar, decidiu que é.

A editora Abril da Veja comprou, nos anos 1990, uma boa parte das ações das revistas da chinesa Joana Woo. Rapidamente a Abril perdeu 75 milhões de reais com a aquisição. (A Veja deu uma bofetada estridente no presidente da Abril, Fabio Barbosa, ao simplesmente desprezar o depoimento em que ele esclareceu a compra da refinaria. Barbosa era do Conselho de Administração.)

A Globo — sem o ambiente protegido que tem no Brasil — fez um péssimo negócio ao tentar se globalizar com uma emissora na Europa. Terminou em lágrimas e prejuízos a aventura transatlântica da Globo.

Nenhum negócio, como disse Graça Foster, é 100% seguro. Mas o bombardeio da mídia se concentra na admissão de Foster de que foi um “mau negócio”.

Faltou provavelmente treinamento para Foster sobre como enfrentar um grupo que vai ficar horas à procura de uma brecha, por menor que seja, para criar um clima de histeria propício à convocação de uma CPI.

Situações extraordinárias pedem ações extraordinárias, como disse Guy Fawkes, o rebelde inglês que tentou explodir o Parlamento no início dos anos 1600.

Graça Foster tinha que ter se preparado para uma situação extraordinária, na qual uma frase sincera seria, como está sendo, usada com propósitos assassinos.

O fato é que, na louca cavalgada pela CPI da Petrobras, a maior vítima  tem sido a verdade.

Paulo Nogueira
No DCM
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PF flagra homem de confiança de Eduardo Campos pedindo dinheiro para Youssef


Ex-presidente da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) e irmão do ex-ministro Fernando Bezerra, Clementino de Souza Coelho foi flagrado na Operação Lava Jato, da Polícia Federal, pedindo dinheiro para o doleiro Alberto Youssef.

Clementino presidiu por um ano a Codevasf, uma empresa pública vinculada ao Ministério da Integração Nacional, comandado por Fernando Bezerra de 2011 a 2013. Bezerra, que escolheu o irmão para o cargo, chefiou o ministério por indicação do PSB e é homem de confiança do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, pré-candidato do PSB ao Planalto.

A PF interceptou trocas de e-mails de Clementino com o doleiro, preso desde março.

A polícia encontrou nas mensagens comprovantes de depósito em valores fracionados para “João”, além de pedidos de dinheiro para “Maria” e “Fábio”.

Números indicados por Youssef nas mensagens como os dos CPFs dos favorecidos correspondem aos documentos de João Clementino de Souza Coelho e Maria Cristina Navarro de Brito, respectivamente, filho e mulher de Clementino de Souza Coelho.
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Senado aprova nova tributação para multinacionais brasileiras


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CPI contra a corrupção? É o pré-sal, estúpido!

A cerrada campanha com que a mídia partidarizada vem sangrando a Petrobrás nas últimas semanas segue incólume, sem as devidas reações por parte dos gestores da empresa. Além das disputas eleitorais que movem a oposição, sabemos que o arsenal de ataques contra a Petrobrás tem por trás interesses muito maiores: acabar com o regime de partilha que fez da estatal a operadora única do maior campo de petróleo da atualidade. “É o pré-sal, estúpido!”, como diria o marqueteiro de Bill Clinton, que nas eleições norte-americanas de 1992, resumiu a vitória dos democratas com uma frase ácida que tornou-se célebre em todo o mundo: “É a economia, estúpido!”.

A última edição da revista Veja não deixa dúvidas sobre as reais intenções da campanha que tenta desmoralizar a gestão estatal da Petrobrás, visando sua privatização. “Como o PT está afundando a Petrobras” é a matéria de capa da  revista,  cuja linha editorial é claramente tucana. Detalhe: o presidente da editora Abril, Fábio Barbosa, foi conselheiro da Petrobrás entre 2003 e 2011 e um dos que mais defendeu na época a compra da refinaria de Pasadena.

O senador Aécio Neves (PSDB/MG), o  principal articulador da campanha contra a Petrobrás, também reafirmou aos empresários paulistanos suas intenções em relação à empresa: “Acredito que as concessões são a melhor forma de atrair investimentos”, declarou no dia 31 de março durante um almoço no Grupo de Líderes Empresariais.

Provável candidato tucano à Presidência da República, Aécio já havia defendido o regime de concessão para o pré-sal em outubro do ano passado, após o leilão de Libra. “A Petrobras não terá condições, sei lá, sequer de participar com os 40% devidos desse leilão de agora, como poderá pensar em participar daqui a dois anos, se fosse necessário, estratégico para o Brasil fazer outros leilões?”, discursou na época no Plenário do Senado.

FHC é outro tucano que voltou a defender publicamente as privatizações do seu governo. Em artigo recente, ele conclama a oposição a “tomar à unha o pião dos escândalos da Petrobras”, “reafirmando a urgência de mudar os critérios de governança das estatais”.

É por essas e outras que precisamos alertar a sociedade e o povo brasileiro para as reais intenções dos setores conservadores que atacam a Petrobrás, inclusive por dentro da empresa, tentando retomar a agenda neoliberal que nos anos 90 sucateou e privatizou parte considerável da estatal.  A Petrobrás é e continuará sendo estratégica para o desenvolvimento do país. Não podemos permitir que sangrem um dos maiores patrimônios do povo brasileiro. Defender a Petrobrás é defender o Brasil!

Federação Única dos Petroleiros-FUP
No Escrevinhador
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Governo Federal manifesta solidariedade a Adelir Carmem Lemos de Goes

As Secretarias de Direitos Humanos e de Políticas para as Mulheres da Presidência da República e o Ministério da Saúde vêm a público se solidarizar com Adelir Carmem Lemos de Góes, que foi submetida, contra sua vontade, a uma cesárea por decisão da Justiça no dia 1º de abril na cidade de Torres (RS). Na oportunidade manifesta também apoio à medidas adotadas pelo governo do Rio Grande do Sul. A situação vivida por Adelir — parto cirúrgico sem consentimento — aponta para uma série de questões que envolvem os Direitos Humanos na Saúde e coloca as seguintes reflexões para nossa sociedade.

Os princípios de Direitos Humanos preconizam que as todas gestantes têm direito a acesso a atendimento digno e de qualidade no decorrer da gestação, parto e puerpério, e que a assistência seja realizada de forma humanizada e segura. A mulher tem o direito de escolher como será o parto, a posição do parto e quem deve acompanhá-la nesse momento. Isso é Lei no Brasil. A não observância dessas questões — e outras — se configura em flagrante violação de direitos. A Resolução nº 50, da Organização das Nações Unidas (ONU), reconhece que Direitos Humanos são parte dos princípios e valores inerentes à saúde.

O Brasil é um dos países que mais realiza partos cirúrgicos — mais da metade dos nascimentos — situação que nos faz refletir sobre a cultura da cesárea em nosso país.

A atenção obstétrica humanizada e segura é foco de ação do governo federal, que em 2011 apresentou a Rede Cegonha para a sociedade brasileira. Essa estratégia atua para qualificar a atenção à mulher, articulando o planejamento reprodutivo, o cuidado à gravidez, parto e puerpério e a atenção à criança desde o nascimento, estendendo os cuidados até os dois anos, período decisivo para o seu desenvolvimento. Assim, a atenção obstétrica e neonatal no SUS caminha para outro modelo, que considera que parto pertence à mulher, que deve ser respeitada, assistida e amparada.

É importante que profissionais de saúde saibam manejar conflitos e sejam capazes, sem prejuízo ético e técnico, de direcionar sua ação para a produção de consensos que permitam chegar a uma condução terapêutica, contemplando interesses e necessidades de ambas as partes.

O Brasil deve aproveitar esse fato para ampliar o debate sobre o cuidado obstétrico e neonatal, incluindo a violência obstétrica em todas as suas formas e a observância de Direitos Humanos na Saúde, sem o qual o direito à saúde, consagrado em nossa Constituição, não se faz valer plenamente.

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