31 de mar de 2014

Livro mostra a relação ‘pragmática’ da Inglaterra com a ditadura

Geisel com a rainha Elizabeth em visita oficial ao Reino Unido em 1976
“No século XIX, nós possuíamos tudo nesse país, com exceção apenas do nome. O Brasil era efetivamente uma colônia mercantil britânica. Nós monopolizávamos o comércio do país. Depois, construímos portos, estradas e ferrovias. No século XX, vendemos tudo para pagar por duas guerras mundiais, ou perdemos a concessão. Agora, somos uma sombra fraca do que fomos um dia. Será que podemos recuperar alguma das antigas posições? Será que de fato queremos?”

Em 1967, o embaixador inglês John Russell traduzia assim a relação e os interesses de seu país com o Brasil. Esse documento, e muitos outros, fazem parte do recém-lançado “A Ditadura que o Inglês Viu”, de Geraldo Cantarino.

Nascido em Niterói e radicado na Inglaterra há 15 anos, com passagens pelas redes Globo e Bandeirantes, Cantarino reuniu papeis confidenciais guardados no Arquivo Nacional, em Londres, recolhidos durante um ano e meio de pesquisas. “Eu nasci em 1964 e cresci ouvindo muitas histórias desse período. Não tem como a gente não se envolver e querer saber mais para entender o que se passou”, disse ele ao DCM.

Cantarino esmiuça a viagem de Geisel à Grã-Bretanha em 1976, a primeira de um presidente brasileiro à Ilha. “A visita gerou centenas de correspondências diplomáticas e tornou-se o episódio com maior volume de documentos do período da ditadura no Arquivo Nacional britânico. Como resultado dessa visita, cinco substanciais acordos comerciais foram assinados ou rubricados”, afirma.

A seguir, trechos da entrevista de Geraldo Cantarino para o DCM.

Torturas

Essas acusações chegavam à Inglaterra, eram publicadas na imprensa e provocavam reações na população em geral e até entre deputados no Parlamento britânico. Uma pasta catalogada como secreta reúne documentos que expressam essa preocupação internacional com violações de direitos humanos. Entre eles estão dezenas de cartas enviadas, no início de 1972, por membros de diferentes grupos da Anistia Internacional na Inglaterra e Escócia para o governo britânico, em protesto contra maus-tratos e tortura de presos políticos no Brasil. Em 1974, uma nota interna e confidencial do governo britânico afirma o seguinte: “A posição pública do governo brasileiro sobre tortura é que ela não está autorizada nem aprovada. No entanto, não há dúvida de que a brutalidade e a tortura ocorrem de fato, como tão frequentemente acontece em regimes autoritários com uma poderosa polícia”.

Seqüestro 

Na segunda-feira, 22 de junho de 1970, dia seguinte à vitória da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo no México, o embaixador britânico na época, Sir David Hunt, enviou um telegrama confidencial notificando Londres do risco de sequestro para ser trocado por prisioneiros políticos, conforme ocorreu com os embaixadores dos Estados Unidos e da Alemanha, e posteriormente da Suíça. A informação sobre o possível atentado foi fornecida, inicialmente, pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar) e repetida sete meses depois pelo serviço de inteligência do Exército brasileiro. O diplomata britânico teve a sua segurança reforçada e evitava passar pelos mesmos caminhos nos mesmos horários.

A visita de Geisel 

Ao contrário dos três militares que o antecederam na presidência, o general não vinha diretamente de funções no Exército. Tinha sido presidente da Petrobras por quatro anos. Além disso, ao tomar posse, ele anunciou sua intenção de “governar com o mínimo necessário de restrição interna para manter a segurança nacional”, como observou Derek Dodson, embaixador britânico no Brasil. Essa perspectiva de liberalização se tornaria peça-chave na justificativa do convite junto à opinião pública britânica.

Havia oportunidades extremamente vantajosas para a indústria britânica no fornecimento de equipamentos e serviços ao Brasil em três setores: siderúrgico, ferroviário e energético. Assim, “foi finalmente decidido que o presidente Geisel deveria ser convidado pelo governo de Sua Majestade a fazer uma visita à Grã-Bretanha em 1976”. Contribuiu para a decisão o fato de o presidente Geisel já ter sido convidado para visitar a França e o Japão naquele mesmo ano. Após uma longa demora na resposta do lado brasileiro, o que acabou gerando especulações sobre a visita, o convite formal da rainha foi entregue no dia 11 de fevereiro de 1976, em Brasília. No mesmo dia, uma moção de protesto foi apresentada na Câmara dos Comuns pelo deputado trabalhista Martin Flannery e cinco outros parlamentares, recolhendo em pouco tempo 112 assinaturas.

Herzog 

Em um dos documentos consultados, o oficial de informação do consulado britânico em São Paulo, John Guy, confidenciou o conteúdo de uma conversa reservada que tivera com o cônsul-geral da França, Michel de Camaret. Nessa conversa, o cônsul francês contou que tinha sido informado que Herzog havia sido torturado por seis a sete horas antes de morrer. Sua fonte para essa informação era um cidadão francês que estava detido há cerca de 30 dias também no DOI-Codi. Portanto, já havia naquela época provas que derrubavam a versão oficial de morte “por voluntário suicídio por enforcamento”.

Geraldo Cantarino
Geraldo Cantarino



* * *

O livro traz também um despacho confidencial do embaixador John Russell três meses antes de deixar o posto. Intitulado “O declínio e a queda da democracia no Brasil: governo militar e um presidente prisioneiro”, foi dirigido ao ministro das Relações Exteriores e assinado com data de 15 de maio de 1969. Ao realizar a intervenção militar, o exército, diz Russell, exerceu o seu tradicional papel: “estabilizar e se retirar”. Só que “dessa vez não se retirou”.

O parecer de Russell:

Um novo elemento foi, assim, injetado na vida pública, ou seja, o contínuo exercício pós-crise do controle militar, que é, inevitavelmente, acompanhado da esterilização da vida política do país. O Exército colocou-se agora, firmemente, acima da lei e extinguiu aquelas mesmas liberdades que interveio para defender. Tendo provado o doce e inebriante sabor do poder, os coronéis (expressão que compreende todo o oficialato politicamente consciente das três Forças, de segundo-tenente a general de quatro estrelas) estão relutantes em retornar aos seus quarteis maçantes.

Na América do Sul, o termo “governo militar” abrange um amplo espectro político, desde a clássica opressão fascista ao constitucionalismo liberal imposto. O conceito não soa, necessariamente, hostil aos ouvidos latino-americanos ou carrega as implicações pejorativas que lhe são intrinsecamente atribuídas em Westminster. Mais de um país aqui na América do Sul tem sido grato ao seu Exército pela restauração de suas instituições democráticas.

A história, penso eu, irá dizer que, no interesse a longo prazo do Brasil, a revolução de 1964 foi benéfica e até necessária. A outra alternativa seria certamente um desastre. Por extensão, o mesmo poderia ser dito, inicialmente, sobre a reafirmação da Revolução em dezembro de 1968. Em quatro anos de poder, os altos propósitos morais de 1964 tinham decaído e havia espaço para uma reforma acentuada, tanto no Executivo como no Legislativo. Porém, começo a ter agora uma sensação desagradável de que o expurgo foi longe demais e continua muito longo. Seria inútil fingir que a democracia prática sobrevive hoje no Brasil. 

É verdade que o homem comum não se queixa de estar sob um regime autoritário. É sobre as liberdades políticas superiores que os coronéis passam por cima. Habeas corpus está suspenso, a imprensa rigidamente censurada, o Congresso indefinidamente em recesso, líderes de oposição em números cada vez maiores destituídos de seus direitos políticos. (O Brasil felizmente não tem a pena de morte).

Eleições populares estão adiadas sine die, a classe trabalhadora proibida de fazer greve, as universidades subjugadas e o Supremo Tribunal Federal reduzido à conformidade, enquanto as Forças Armadas em todo o país arrogam às suas muitas personas os simultâneos e inapeláveis papéis de promotor público, juiz, júri e carcereiro. Os banimentos continuam, e, no final de abril, uma nova lista com mais de cem cassações foi divulgada.

Os liberais, os intelectuais, a imprensa, as universidades e os jovens não gostam, claro, nem um pouco dessa arregimentação arbitrária, vingativa e aparentemente contínua. Entretanto, na opinião da massa da burguesia e das classes trabalhadoras, o principal sentimento, penso eu, é de alívio pela restauração da ordem pública e por ter parado um pouco a corrupção e a expectativa de ameaça de uma tomada de poder da esquerda.

Não há em lugar nenhum qualquer nostalgia da farsa do desonesto Congresso, com seus monótonos bancos de vinil cinza, em Brasília. O Congresso Nacional precisava ganhar o respeito público, e sua suspensão tem sido recebida com indiferença geral.

Kiko Nogueira
No DCM
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A última conversa telefônica de João Goulart com o general que o trairia

Jango e Kruel
A cena está num dos melhores livros sobre a ditadura, “Brasil: de Castelo a Tancredo”, do brasilianista Thomas Skidmore.

Ela conta muito sobre o caráter do presidente João Goulart, o Jango, deposto pelos militares há 50 anos.

Era o dia 1º de abril de 1964, e Jango recebera a notícia no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, onde pernoitara, de uma sublevação militar.

Unidades do Exército marchavam contra ele para depô-lo. Tropas do Primeiro Exército, baseado no Rio, foram enviadas para deter os golpistas, mas acabaram se juntando a estes.

Mas havia uma saída.

Se o general Amaury Kruel, comandante do Segundo Exército, sediado em São Paulo, não aderisse à insurreição, ela simplesmente não prosperaria, dada a força paulista nas coisas nacionais.

Kruel não conspirara contra o governo, em parte por não gostar de um dos líderes do movimento, o general Castelo Branco, que acabaria sendo o primeiro presidente da ditadura.

Jango ligou para Kruel.

Este condicionou seu apoio a uma coisa: que Jango rompesse com a central sindical, a CGT, controlada pela esquerda e abominada pelos militares em seu anticomunismo feroz.

Se Jango dissesse sim, seu governo sobreviveria. Mas Jango disse não. “Então, senhor presidente, não há nada que possamos fazer”, respondeu Kruel.

Kruel pode não ter sido apenas desleal, mas desonesto.

Um coronel reformado do Exército afirmou recentemente, numa sessão da Comissão da Verdade de São Paulo, que Kruel foi subornado pela Fiesp para aderir ao golpe.

Esta afirmação não está no livro de Skidmore, e nem poderia estar, porque é recente.

O coronel disse ter visto três homens colocarem maletas cheias de dólares no carro de Kruel, depois de um encontro no dia 31 de março entre ele e o presidente da Fiesp, Raphael Noschese. O preço pago por Kruel, segundo o coronel, foi 1,2 milhão em dinheiro da época, algumas dezenas de milhões em valores de hoje.

Com ou sem as malas de dólares, o fato é que Jango preferiu cair com honra a trair os sindicalistas que lhe eram tão caros.

Era, então, ao contrário do que os detratores apregoaram por tantos anos, um presidente altamente popular.

Uma pesquisa Ibope do começo de 1964 mostrava que ele estava na frente entre os eleitores para as eleições presidenciais marcadas para 1965.

Terminada a conversa telefônica com Kruel, Jango logo sairia do governo e do país.

Sem apoio militar, e sem desejar mergulhar o Brasil numa guerra civil, foi embora para o Uruguai, refúgio tradicional de líderes políticos sul-americanos.

Em circunstâncias parecidas, sem mentor, Getúlio Vargas, dera uma década antes um tiro no coração para, como escreveu em sua carta testamento, deixar a vida e entrar na história.

Jango optou por entrar na história sem deixar a vida — mas apenas a presidência. Tinha filho pequeno para criar, e uma bela mulher para cuidar de suas feridas.

Morreria doze anos depois, em circunstâncias obscuras, na Argentina. A razão oficial foi um ataque cardíaco, mas amigos e familiares sustentam que ele foi envenenado.

A máquina de propaganda da ditadura moldou a imagem de um presidente impopular, indeciso, inepto.

Mas o tempo começa a mostrar um outro Jango, um presidente disposto a fazer reformas essenciais ao desenvolvimento social do país, e com uma agenda de mudanças ainda hoje atual.

Mas, acima de tudo, emerge o homem honrado que preferiu deixar o poder a trair seus aliados, como queria o general Kruel.

Paulo Nogueira
No DCM
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#50anosdogolpe 15 filhos



O documentário "15 filhos", de Maria Oliveira e Marta Nehring, retrata a época da ditadura militar no Brasil por meio da memória de infância dos filhos de militantes presos, mortos ou desaparecidos. Esses depoimentos, dentre os quais se incluem os das diretoras do vídeo, mostram um ângulo pouco conhecido da violência política no Brasil.

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A grande imprensa apoiou o golpe e a ditadura

Os grandes veículos se passam por adversários da ditadura, mas colaboraram com ela e não tiveram papel relevante para o fim do regime

Notícia sobre morte de Marighella
Desde fins da da década de 1990, parte da historiografia brasileira sublinha que o (equivocado) processo de Anistia cunhou a (errônea) visão de que vivemos envoltos em uma tradição de valores democráticos. A partir das lutas pela Anistia, como sublinha Daniel Aarão Reis, “libera-se” a sociedade brasileira de “repudiar a ditadura, reincorporando sua margem esquerda e reconfortando-se na ideia de que suas opções pela democracia tinham fundas e autênticas raízes históricas”. Nesse momento, plasmou-se a imagem de que a sociedade brasileira viveu a ditadura como um hiato, um instante a ser expurgado. Confrontando-nos à tal memória inventada, há no período republicano longos momentos de exceção – como nos referimos aos regimes ditatoriais.

Se tais premissas correspondessem aos fatos, restaria explicar: por que houve apenas restritos episódios de resistência vinculados igualmente a pequenos grupos? Por que se permitiu aprovar uma Anistia recíproca, que mesmo nestes 50 anos após o golpe civil-militar, ainda é tema espinhoso de revisão?

A luta contra o arbítrio, de forma armada ou não, definitivamente não caiu nas graças do povo deste berço esplêndido. E, certamente, os meios de comunicação de massa – a grande imprensa e posteriormente, a TV – têm um papel preponderante nas escolhas sociais implantadas.

São clássicos os editoriais do Correio da Manhã nas vésperas do 1º de Abril de 1964, clamando por “Basta” e “Fora” a Jango. Igualmente, é emblemática a noção de que este jornal, ao realizar um “mea-culpa” e se colocar em oposição ao novo regime, foi punido com perseguições que levaram a sua falência. Esquecem-se, contudo, os amplos problemas de gerenciamento vividos por Niomar Moniz Sodré.

Ícones de resistência são lembrados, afirmados, expostos e sublinhados maciçamente para ratificar a tradição democrática brasileira, como: a meteorologia para o 14/12/1968, no Jornal do Brasil; as receitas de bolo do Jornal da Tarde; os poemas de Camões no Estadão; os inúmeros jornalistas perseguidos, demitidos, torturados e mortos; etc., que definiriam a grande imprensa brasileira como resistente ao golpe e, posteriormente, ao arbítrio. Mesmo com todo este esforço, o processo ditatorial perdurou por mais de duas décadas.

Meio século depois e com inúmeros textos publicados sobre a mais recente ditadura brasileira, poder-se-ia ressaltar que nunca a grande imprensa brasileira estampou na primeira página dos periódicos um aviso claro afirmando: “Este jornal está sob censura”. As estratégias acima apontadas e outras, que frequentemente voltam à tona para reforçar a ação resistente, contavam com a capacidade do público leitor em decifrar pistas.

O jornalista Oliveiros Ferreira, que por décadas trabalhou no Estadão, narrou as ligações recebidas pela redação indagando que a receita de bolo na primeira página do Jornal da Tarde estava errada. O bolo solava. Ou, como definiu Coriolano de Loyola Cabral Fagundes, censor desde 1961 e que atuou no Estadão, os poemas de Camões foram ali uma concessão. Certamente a censura federal apostava que o leitor não entenderia o seu porquê, ou se tranquilizaria na (efêmera) ilusão que mesmo no arbítrio lhe eram permitidos lampejos de resistência, os quais, efetivamente nada alteravam. Algo semelhante, contudo, não foi autorizado à (antiga) Veja, que, durante a “distensão” do governo Geisel, substitui as matérias censuradas por imagens de diabinhos, já que não se podiam publicar espaços em branco. Advertida, teve que parar, pois certamente o leitor de Veja à época entenderia o recado. Certamente como compreendeu a mensagem da revista quando da morte de Vlado, numa nota pequena de desculpas por não poder nada mais expressar.

Os inúmeros jornalistas perseguidos, demitidos, torturados e mortos sofreram estas horríveis barbáries enquanto atuavam como militantes das esquerdas, em ações armadas ou como simpatizantes, como demonstram os processos que arrolam os seus nomes. Da mesma forma, existiram imposições governamentais de expurgos nas redações. Tais limpezas ocorreram logo depois do golpe e perduraram até e inclusive no governo Geisel, que impunha a bandeira do fim da censura. Muitos jornalistas/militantes poderiam ser citados como vítimas destas ações, já que, como pontuava lúcida e ferinamente Cláudio Abramo, “nas redações não há lugar para lideranças. Os donos dos jornais não sabem lidar com jornalistas influentes que, muitas vezes, se chocam com as diretrizes do comando. O jornalista tem ali uma função, mas ‘ficou forte, eles eliminam’.”

Os meios de comunicação são empresas que buscam o lucro, vendendo a visão particular sobre um fato e, como Abramo por vezes demarcou, um “equívoco que a esquerda geralmente comete é o de que, no Brasil, o Estado desempenha papel de controlador maior das informações. Mas não é só o Estado, é uma conjunção de fatores. O Estado não é capaz de exercer o controle, e sim a classe dominante, os donos. O Estado influi pouco, porque é fraco. Até no caso da censura, ela é dos donos e não do Estado. Não é o governo que manda censurar um artigo, e sim o próprio dono do jornal. Como havia censura prévia durante o regime militar, para muitos jornalistas ingênuos ficou a impressão de que eles e o patrão tinham o mesmo interesse em combater a censura”.

Existiram pouco mais de 220 censores federais, muitos deles com o diploma de jornalista – sendo que o primeiro concurso público para o cargo ocorreu em 1974, quando Geisel prometia o fim da censura. Estas duas centenas de pessoas atuavam reprimindo: cinema, TV, rádio, teatro, jornais, revistas, etc., entre 1964 e 1988, em todo o território nacional. Para que as expectativas governamentais dessem certo, os donos das empresas de comunicação tinham de colaborar – e não resistir.

Inúmeros arquétipos podem corroborar tal ideia, até porque a autocensura não é desconhecida das redações, e não se iniciou no pós-1964 no Brasil. No Jornal do Brasil, por exemplo, editou-se, em 29/12/1969, como me cedeu o seu exemplar o secretário de Redação, José Silveira, uma circular interna de cinco páginas, elaborada pelo diretor do jornal, José Sette Câmara, para o editor chefe, Alberto Dines, denominada “Instruções para o controle de qualidade e problemas políticos”, criada com o objetivo de “instituir na equipe um (...) Controle de Qualidade (...) sob o ponto de vista político”.

Estabelecida dias antes do Decreto-Lei 1.077, de 26/01/1970, que legalizou a censura prévia, e um ano após o AI-5, a diretriz de Sette Câmara pontuava que “não se trata de autocensura, de vez que não há normas governamentais que limitem o exercício da liberdade de expressão, ou que tornem proibitiva a publicação de determinados assuntos. Em teoria há plena liberdade de expressão. Mas na prática o exercício dessa liberdade tem que ser pautado pelo bom senso e pela prudência”, já que “a posição do JB ao proferir que este não é a favor nem contra, (...) não é jornal de situação, nem de oposição. O JB luta pela restauração da plenitude do regime democrático no Brasil, pelo retorno do estado de direito. (...) Enquanto estiver em vigor o regime de exceção, temos que usar todos os nossos recursos de inteligência para defender a linha democrática sem correr os riscos inúteis do desafio quixotesco ao Governo. (…) O JB teve uma parte importante na Revolução de 1964 e continua fiel ao ideário que então pregou. Se alguém mudou foram os líderes da Revolução. [Nesse sentido, o JB deverá] sempre optar pela suspensão de qualquer notícia que possa representar um risco para o jornal. Para bem cumprirmos o nosso maior dever, que é retratar a verdade, é preciso, antes de mais nada, sobreviver”. Sette Câmara termina decretando que, “na dúvida, a decisão deve ser pelo lápis vermelho”.

Em meados da década de 1970, foi a vez da Rede Globo – uma concessão pública – formalmente instituir o “Padrão Globo de Qualidade”, ao contratar José Leite Ottati – ex-funcionário do Departamento de Polícia Federal – para realizar a censura interna e evitar prejuízos advindos da proibição de telenovelas. Segundo Walter Clark, a primeira interdição da censura na Globo ocorreu em 1976, na novela Despedida de casado. Para blindar a emissora, o “Padrão Globo de Qualidade” receberia o auxílio de pesquisas de opinião feitas por Homero Icaza Sanchez – o “Bruxo” –, encarregado de identificar as motivações da audiência.

Definindo toda essa tática, Clark explicou que, “(...) enquanto a Censura agia para subjugar e controlar a arte e a cultura do país, perseguindo a inteligência, nós continuávamos trabalhando na Globo para fazer uma televisão com a melhor qualidade possível.” Organizada a autocensura, o “Padrão Globo de Qualidade” teve acrescidos outros ingredientes para o seu sucesso. Em sintonia com a imagem, divulgada pelo governo autoritário, de um “Brasil Grande”, formulou-se também uma “assessoria militar” ou uma “assessoria especial” composta por Edgardo Manoel Ericsen e pelo coronel Paiva Chaves. Segundo Clark, “ambos foram contratados com a função de fazer a ponte entre a emissora e o regime. Tinham boas relações e podiam quebrar os galhos, quando surgissem problemas na área de segurança”.

Esquema semelhante a este foi adotado pela Editora Abril, exposto em uma correspondência de Waldemar de Souza – funcionário da Abril e conhecido como “professor” –, a Edgardo de Silvio Faria – advogado do grupo e genro do sócio minoritário Gordino Rossi –, na qual comunicava o contato tanto com o chefe do Serviço de Censura em São Paulo – o censor de carreira e jornalista José Vieira Madeira –, como com o diretor do Departamento de Censura de Diversões Públicas – Rogério Nunes – para facilitar a aprovação das revistas e a chegada às bancas sem cortes.

Estes vínculos do “professor” com membros do governo são anteriores a esse período e justificam seu potencial de negociação. Desde novembro de 1971 o relações-públicas do DPF, João Madeira – irmão de José Vieira Madeira –, expediu uma carta ao diretor-geral da Editora Abril na qual ratificava o convite do general Nilo Caneppa, na época diretor do DPF, a Waldemar de Souza para que fosse a Brasília ministrar um curso especial aos censores. Em maio de 1972, o próprio general Caneppa enviou a Vitor Civita, diretor-geral da Abril, uma correspondência de agradecimento pelas palestras sobre censura de filmes, que Waldemar de Souza proferiu na Academia Nacional de Polícia. Para continuar colaborando, no ano seguinte, Souza formulou uma brochura intitulada “Segurança Nacional: o que os cineastas franceses esquerdistas já realizaram em países da América do Sul e pretendem repetir aqui no Brasil”. E, em 1974, com o general Antonio Bandeira no comando do DPF, Waldemar de Souza, em caráter confidencial, expôs o porquê de censurar Kung Fu e sua mensagem que “infiltra a revolta na juventude”.

Por fim, mas não menos importante, há a atuação do Grupo Folha da Manhã, proprietário da Folha de S. Paulo e da Folha da Tarde, entre outros, no período. Em dezessete anos, entre 19/10/1967 e 7/5/1984, o país foi dos “anos de chumbo” ao processo das Diretas Já, e a Folha da Tarde vivenciou uma redação tanto de esquerda engajada – até o assassinato de Marighella –, como, a partir daí, de partidários e colaboradores do autoritarismo.

Durante uma década e meia sob o comando de policiais, o jornal adquiriu um apelido: o de “maior tiragem”, já que muitos dos jornalistas que ali trabalharam eram igualmente “tiras” e exerciam cargos na Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. A partir deste perfil de funcionários, a Folha da Tarde carrega a acusação de “legalizar” mortes decorrentes de tortura, se tornando conhecido como o Diário Oficial da Oban.

Isto explica o porquê de os carros do Grupo Folha da Manhã serem incendiados por militantes de esquerda, nos dias 21/9/1971 e 25/10/1971. A ação era uma represália, já que o grupo era acusado de ceder automóveis ao Doi-Codi que, com esse disfarce, montava emboscadas, prendendo ativistas.

Nesse momento de ponderações sobre os 50 anos do golpe, recordo-me que, quando dos 30 anos do AI-5, o jornalista Jânio de Freitas publicou na Folha de S. Paulo uma advertência não cumprida por seus pares, inclusive agora, nas reflexões dos periódicos aos 50 anos do golpe civil-militar de 1964. Corroborando com tudo o que foi exposto aqui, Freitas lembrava em 1998 que “a imprensa, embora uma ou outra discordância eventual, mais do que aceitou o regime: foi uma arma essencial da ditadura. Naqueles tempos, e desde 64, o Jornal do Brasil [...] foi o grande propagandista das políticas do regime, das figuras marcantes do regime, dos êxitos verdadeiros ou falsos do regime.  (...) Os arquivos guardam coisas hoje inacreditáveis, pelo teor e pela autoria, já que se tornar herói antiditadura tem dependido só de se passar por tal”.

O jornalista ao finalizar, adverte, e peço-lhe licença para me utilizar aqui, de suas conclusões. Trocarei 30 por 50 anos, AI-5 por golpe civil-militar de 1964, e o que estiver entre colchetes é de minha autoria. Assim: precisamos aproveitar os 50 anos do golpe civil-militar de 1964 para mostrar mais como foi o regime que [se instaurou a partir dali], eis uma boa iniciativa. Mas não precisava [como fizeram muitas narrativas recentes] reproduzir também os hábitos de deformação costumeiros naqueles tempos.

Beatriz Kushnir, historiadora, doutora em História pela Unicamp, autora, entre outros de, Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988 (Boitempo, 2012)
No CartaCapital
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1964 e a Batalha de Itararé

Cenas cômicas, narradas por um general, do primeiro dia de um confronto que não houve, mas gerou uma trágica ditadura de 21 anos

O golpe que derrubou o presidente João Goulart, desferido no dia 31 de março de 1964, foi antecipado por alguns dias. O movimento era para ser desencadeado entre 2 e 10 de abril. Havia uma razão transcendental. Uma crença.

“O movimento não pode ser entre 2 e 8 porque é quarto minguante; tudo que começa em quarto minguante não dá certo. Ou será antes do dia 2 ou será depois do dia 8”, afirmou, sem disposição de recuar, o general Carlos Luiz Guedes, da 4ª Infantaria Divisionária (ID-4).

Guedes estava sob as ordens do general Olympio Mourão Filho, comandante da ID-4, em Juiz de Fora. Os dois, mineiros, tiveram papel determinante no golpe. O cômico gerou o trágico. Uma ditadura de 21 anos.

Esse é o trecho de uma palestra do general Antonio Carlos Muricy (1906-1999), que, somada a outras, também feitas por ele, formaram o livreto denominado Os Motivos da Revolução Democrática Brasileira.

O palestrante fardado contou suas dificuldades para articular o golpe, no qual teve papel decisivo. Não deixou de mencionar, entretanto, um “dado anedótico”, como admite, surgido nos preparativos da viagem clandestina dele para Minas Gerais: “Quando fui à casa do coronel Caracas Linhares, ele estava atrasado (...) e demorou-se botando a gravata. Disse-lhe então: ‘Deixe a gravata para depois’. Ele respondeu-me: ‘General, eu não sei andar sem gravata’. E fez toda a guerra com gravata.”

Muricy partiu após reunir alguns oficiais: “No caminho, encontramos tudo calmo, sereno, e chegamos mesmo a ficar preocupados com tanta serenidade. Será que saiu mesmo a revolução?”

Mais ou menos na divisa entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais poderia ocorrer a batalha decisiva entre as forças sublevadas e as tropas fiéis ao governo.

Ele lembrou: “Progredi em direção a Areal (RJ). Pouco depois, recebi notícia de que na região norte dessa localidade estava chegando tropa inimiga (...), iniciando uma instalação defensiva (...). Dei ordem para (que) se montasse um dispositivo de ataque (...)”.

“Imediatamente mandei (...) procurar entendimento (...) com o general Cunha Melo, que comandava a tropa contrária em Areal (...) dizendo-lhe também que a minha intenção era cumprir a minha missão, mas se pudesse evitar o derramamento de sangue eu o faria.”

Muricy descreve o desdobramento da batalha que não houve.

“Cerca de uma hora ou duas depois recebi a visita do major Granja (...), o general Cunha Melo mandava dizer que tinha tido a missão de me deter e que ia cumprir sua missão, mas que sua tropa declarava que não seria a primeira a atirar (...).”

Foi firmado, então, o compromisso. Nunca antes e talvez nunca depois esse acordo será repetido: “Antes de atacar avisar que ia desencadear a ação”.

Ninguém atirou em ninguém. Nada anormal. Assim ocorreu na fracassada insurreição paulista de 1932. Uma das frentes da guerra anunciada era a cidade de Itararé, na divisa com o Paraná.

Seria, enfim, o confronto entre a reação da oligarquia paulista com as forças da revolução de 1930.

Aparício Torelly, provável pioneiro do humorismo político brasileiro, batizou a guerra que não houve de “Batalha do Itararé”. E, com ironia, incorporou o título ao qual deu fama: “Barão de Itararé”.

Maurício Dias
No CartaCapital
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#50anosdogolpe Jango



Do cineasta Sílvio Tendler, uma homenagem ao presidente João Goulart que, por defender a democracia e os trabalhadores, amargaria até sua morte, 12 anos depois, o exílio e a dor de não poder ver de novo o país que tento amava.

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50 anos do golpe: por que o Brasil é o país que menos avançou no julgamento dos crimes da ditadura


Os 50 anos do golpe militar contra João Goulart são um claro sinal de tudo o que falta no caminho dos direitos humanos e da verdade no Brasil. Este caminho foi sinuoso na América Latina. O Julgamento das Juntas Militares na Argentina nos anos 1980, a aplicação da jurisdição universal pelos crimes de direitos humanos impulsionada pelo juiz Baltasar Garzón e a prisão de Augusto Pinochet nos anos 1990, a derrogação das leis de impunidade pelo kirchnerismo e os julgamentos no Chile foram marcos ofuscados pelos vaivens do uruguaio ou pelo ferrolho da Lei de Anistia noBrasil.

O julgamento oral do Plano Condor que se iniciou no ano passado na Argentina pode ajudar a destravar este árduo caminho da Justiça pela via da extradição de pessoas amparadas pela legislação de um país, mas puníveis em outro. O Centro de Estudos Legais e Sociais CELS) da Argentina, um dos líderes da investigação regional na matéria, estudou os diferentes caminhos que Argentina, Brasil, Chile, Peru e Uruguai seguiram. O Página/12 conversou com a coordenadora da área de investigação do CELS, Lorena Balardini.

Historicamente, como vocês avaliam a caminhada das causas dos direitos humanos nestes países?

Está claro que cada país tem sua especificidade, mas também que o que acontece em um país, de negativo ou positivo, tem efeitos nos outros. O efeito da jurisdição universal e a prisão de Pinochet, conhecido como o efeito Pinochet pelas pessoas que estudam como tudo isto evoluiu na América Latina, teve um claro impacto sobre os diferentes países. Na Argentina, poucos dias depois da prisão de Pinochet, deu-se a prisão de Videla e Massera pelo roubo de bebês, um dos crimes que podia ser perseguido penalmente por ficar fora das características das leis de ponto final e obediência devida, e no Chile começa a apresentação de demandas massivas. Outro fenômeno regional indiscutível é a importância do Sistema Interamericano de Direitos Humanos, que dá argumentos às Cortes Supremas dos diferentes países para que não se anistie crimes de lesa humanidade. A sentença no caso Barrios Altos foi fundamental para a possibilidade de um julgamento de Alberto Fujimori no Peru e para a inconstitucionalidade das leis de anistia na Argentina.

No relatório de 2013, o CELS reconhecia problemas comuns a todos estes países na consecução da Justiça. Mas alguns fazem parte das deficiências dos sistemas de justiça em geral e outros são mais específicos com relação aos direitos humanos.

Nós encontramos demoras na administração da justiça por falta de recursos, problemas em torno da tomada de testemunhos e o trato das testemunhas, como, por exemplo, no Chile, onde apenas recentemente se considerou os sobreviventes como vítimas, ou no Peru, onde existe uma enorme distância cultural entre as vítimas e os operadores judiciais, e não se toma o testemunho das vítimas e familiares como válido em um julgamento por sua suposta parcialidade. Outro problema é a escassa porcentagem de sentenciados em relação aos imputados, algo muito claro no Peru e na Argentina. Há também a recusa na aplicação do Direito Internacional de Direitos Humanos em Tribunais locais. Isto é particularmente preocupante no Brasil, Chile e Uruguai, como se viu numa recente sentença da Suprema Corte de Justiça do Uruguai, onde se declara inconstitucional a Lei 18.831, que anulou a Lei de Caducidade em 2012. Por último, há as discussões sobre a anulação das anistias que são matéria corrente no Brasil e no Chile, e agora novamente no Uruguai.

No Brasil, precisamente o primeiro empecilho foi a Lei de Anistia dos próprios militares, ratificada há quatro anos pelo Supremo Tribunal Federal. O governo de Dilma Rousseff instaurou a Comissão Nacional da Verdade em 2012. O testemunho do coronel retirado Paulo Malhãesesta semana, no qual reconheceu torturas e assassinatos, marca os limites deste tipo de ziguezague. Como vocês avaliam a situação no Brasil?

Dos países que analisamos no Cone Sul, o Brasil é aquele em que menos se avançou. Isto tem a ver com a Lei de Anistia, que é muito diferente da do resto dos países do Cone Sul. A vigência desta anistia e a recusa de levar em conta as recomendações do Sistema Interamericano são responsáveis pelo fato de que não se tenha conseguido avançar em causas penais. No ano passado, o novo Procurador manifestou-se favorável ao desmantelamento da anistia e do julgamento destes crimes. Havia muitas expectativas com relação às mudanças na Suprema Corte para que esta iniciativa prosperasse, mas são avanços muito graduais. É preciso ver o impacto que terão tanto a Comissão da Verdadenacional e as estaduais que se formaram. Creio que a informação que está saindo está rompendo uma ideia muito forte instalada no Brasil de que aquilo foi uma “ditabranda”, em comparação com o resto do Cone Sul, por não ter colocado em prática uma política sistemática de desaparecidos. As informações que começam a aparecer contradizem esta ideia.

No ano passado começou na Argentina um julgamento pelo Plano Condor. Que efeito teria uma condenação na Argentina sobre os militares ou civis implicados de outros países?

É preciso ter em conta que, embora os autores que estão sendo julgados sejam argentinos e um uruguaio, as vítimas são de todo o Cone Sul. É claro que o julgamento está gerando impacto no resto dos países. Sem dúvida, é uma oportunidade para que fique plasmado em uma sentença que analise e distribua responsabilidade penal em relação à coordenação da repressão entre diferentes países. Fala-se de coordenação em geral, mas ainda não está comprovado como se realizou esta coordenação, o que ela implicou e que impactos teve. Este julgamento é uma oportunidade para a produção de informações, intercâmbio entre os países e a possibilidade de cooperar no envio de dados.

Poderia acabar provocando o julgamento de militares ou civis de outros países?

É preciso analisar as possibilidades de extradição que há em cada país. Neste julgamento há um imputado que é uruguaio, Manuel Cordero, que foi extraditado. Os demais uruguaios implicados na causa Condor foram julgados e condenados em seu próprio país. A consequência direta disto é que poderiam ser extraditados para a Argentina uma vez que terminaram de cumprir sua condenação em seu país. Há antecedentes, como o caso de Enrique Arancibia Clavel, o ex-agente da DINA chilena (Direção Nacional de Inteligência, organismo responsável pela repressão durante os anos de 1974 a 1977) condenado pelo assassinato do general chileno Carlos Prats e sua esposa em Buenos Airese que foi extraditado à Argentina, onde cumpriu uma pena de 11 anos.

Página/12
No DCM
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6 Bi - A Vivo e a Receita Federal


Enquanto o país continua pagando uma das mais altas tarifas do mundo em banda larga e telefonia celular, aumenta o descalabro nas telecomunicações e o atrevimento das multinacionais estrangeiras no Brasil.

Na semana passada — por pressão de investidores e pequenos acionistas que acreditam que os ativos da Portugal Telecom estão sendo sobrevalorizados no acordo — a CVM teve de voltar atrás de sua aprovação para o prosseguimento da fusão entre a empresa de telecomunicações lusitana e a OI, sob, o pretexto de que o Presidente da Oi, o moçambicano Zeinal Bava, tinha infringido leis brasileiras em uma entrevista.

Até a divulgação da decisão da Comissão de Valores Mobiliários na noite de quinta-feira, a fusão da Oi com a Portugal Telecom estava praticamente certa com a aprovação do aumento de capital pelos grandes acionistas, e o sinal verde dado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e o CADE - Conselho Administrativo de Defesa Econômica, que aprovara a proposta em janeiro.

Agora, para completar, informações de fora do país dão conta de que a espanhola Telefónica — leia-se Vivo — que já pegou 3 bilhões de reais emprestados com o BNDES, estaria devendo mais 6 bilhões de reais, para a Receita, em impostos — como o ICMS — que ela vem contestando reiteradamente na justiça, sem fazer provisionamento no balanço, caso venha a ter que pagar.

Dinheiro para quitar o que devem ao país os espanhóis não têm. Mas continuam mandando bilhões de euros em remessas de lucro todos os anos para a matriz. E aumentaram, de 46,7% para 66% o seu capital na Telecom Itália. O que os transformou, para descrédito do sistema de regulação da concorrência no Brasil, nos controladores, de fato, da Vivo e da TIM, as duas maiores empresas de telefonia celular do país.

Como ninguém se manifesta com firmeza com relação ao assunto, os espanhóis vêm enrolando gostosamente as autoridades brasileiras — entre elas o CADE — com medidas paliativas e cosméticas, para não dizer de aberta subestimação da inteligência nacional.

Entre elas, destaca-se a recente “saída” de César Alierta e Júlio Linares, Presidente e Vice-Presidente da Telefónica, do Conselho de Administração da Telecom Itália, como “sinal ao Brasil”, enquanto, para seus acionistas, na Espanha, a diretoria diz que, em caso de problemas, recorrerá à justiça para defender a sua posição.

Para mandar, dono não precisa ter cargo. Basta ter telefone, para ligar para seus prepostos — italianos ou espanhóis — e ordenar o que quiser, combinando eventualmente preços e tarifas para arrancar melhor o couro dos usuários da Tim e da Vivo no Brasil.

Afinal, telefone com sinal é o que não falta para os donos da Telefónica, só para os comuns mortais — como nós — que têm apresentado, com quase nenhum resultado, todos os meses, milhares de queixas contra as duas empresas, na ANATEL.
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#50anosdogolpe



Extraordinário documentário que revela minuciosamente a participação do governo dos Estados Unidos no golpe militar de 1964 que durou até 1985 e instaurou a ditadura no Brasil.

Pela primeira vez, documentos do arquivo norte-americano, classificados durante 46 anos como "Top Secret" são expostos ao público.

Textos de telegramas, áudio de conversas telefônicas, depoimentos contundentes e imagens inéditas fazem parte desse documentário, narrado pelo jornalista Flávio Tavares.

O Dia que durou 21 anos é uma coprodução da TV Brasil com a Pequi Filmes, com direção de Camilo Tavares. Roteiro e entrevistas de Flávio e Camilo Tavares.


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Médica sem Fronteiras fala sobre trabalho em “lugares em que a população não têm acesso nenhum à saúde”

Em seu trabalho como médica, Rachel já esteve no Níger, Sudão do Sul e República Democrática do Congo
Foto: Isabel Corthier/ Divulgação MSF
Desde 2011, a médica Rachel Soeiro já morou em três países africanos: Níger, Sudão do Sul e República Democrática do Congo. Em cada um, passou pelo menos sete meses atendendo as populações locais em áreas com pouco acesso à saúde. Esse trabalho é realizado pelas equipes de Médicos sem Fronteiras, que vão até lugares onde não há alternativa de saúde pública para as comunidades.

A organização humanitária existe há quarenta anos e atua em mais de 70 países, sendo construída de forma independente pelos profissionais que se dispõem a trabalhar em locais remotos, auxiliando populações que passam por epidemias, desnutrição e desastres naturais.

Rachel sempre quis trabalhar com medicina humanitária, e após sua especialização em Medicina de Família e Comunidade pela Unicamp, que terminou em 2010, candidatou-se para entrar na organização. Selecionada, ela então partiu para sua primeira missão: tratar crianças menores de seis anos que sofrem por desnutrição no Níger. Hoje, aos 35 anos, ela não se vê sem viajar e realizar missões em outros lugares do mundo, embora esteja morando em Campinas para se preparar para entrar em um curso de mestrado. Nos dias 22 e 23 de março, Rachel veio a Porto Alegre participar da exposição “Campo de refugiados no coração da cidade”, ocasião em que conversou com o Sul21. Promovida por MSF, a mostra buscou aproximar os moradores de metrópoles à realidade das milhares de pessoas que vivem em campos de refugiados. Agora, está exposta em Curitiba, de onde seguirá para Belo Horizonte.

Sul21 — Tu sempre quiseste trabalhar com Médicos sem Fronteiras? Quando entrou para a organização?

Rachel — Eu trabalho com MSF desde 2011, faz três anos. Eu sempre quis fazer medicina e desde que estava na faculdade eu queria fazer trabalho humanitário. Eu tive mais contato com a organização no segundo ano da faculdade, quando um pessoal do Médicos sem Fronteiras foi lá e contou como funcionava. Então quando eu terminei a minha especialização eu entrei no site e mandei meu currículo. Algum tempo depois me chamaram para fazer a entrevista. Na verdade é um dia inteiro de recrutamento no Rio de Janeiro, com dinâmica de grupo, testes de línguas, e entrevista. E uma semana depois me ligaram e disseram que eu tinha sido aprovada, que eu tinha perfil para a organização, e começaram a procurar um projeto para me enviar.

— Como funciona o contrato de trabalho?

— Nosso contrato é por missão, por projeto. E nosso contrato não é aqui no Brasil, a sede da organização fica na Bélgica. Meus contratos sempre foram com o escritório em Bruxelas. O contrato é por período, então quando estamos de volta no Brasil não temos salário, benefícios. Agora eu estou aqui no Brasil e aí eu falo, por exemplo, “quero ficar dois meses para descansar” ou “quero ficar seis meses para estudar”. E para te mandar para missões eles vão tentando encaixar nos projetos que têm. Dependendo do contexto do país tem missões de um ano, ou de um mês, seis semanas.

— Para quantas missões tu já foste?

— Fui para três missões. Na minha primeira missão, em 2011, fui para o Níger por sete meses. Depois para o Sudão do Sul, por nove meses, e por último para a República Democrática do Congo, por quase dez meses.

"É um contexto muito difícil, tinha que ter muita delicadeza para lidar com eles, porque é uma realidade muito dura”

— Como é a situação nesses países?

— É uma realidade muito diferente da brasileira. Mas cada país tem a sua realidade, sua situação local, socioeconômica, diferenças culturais e climáticas. O Níger é quase no deserto do Saara, uma parte é deserto. Então é tudo muito seco, quase nada se produz. Tem uma fome muito grande, eu fui para lá em um projeto de combate à desnutrição. Além disso, é um país muçulmano, então precisei lidar com uma cultura muito diferente.
 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“Todos os contextos foram riquíssimos culturalmente”
Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Já o Sudão do Sul é um país que vinha de uma guerra civil de 20 anos, quando eu cheguei lá tinham acabado de ficar independentes. Os funcionários locais que trabalhavam com a gente nunca tinham estudado em escolas, sempre em campos de refugiados. Então eles tinham um nível muito abaixo do que estamos acostumados, tivemos que treinar eles com muita paciência, devagar. E sempre tinham um pai ou irmão que lutaram na guerra, ou até eles mesmos. É um contexto muito difícil, tinha que ter muita delicadeza para lidar com eles, porque é uma realidade muito dura.

E na República Democrática do Congo eu estava em um lugar que sempre tinha sido um campo de refugiados. A região tinha sido atacada e o pessoal migrou para lá. Quando eu cheguei, eles já tinham se adaptado, estavam em casas e não em tendas, acabaram ficando naquele lugar mesmo. E às vezes passava um camburão ou um grupo que parecia rebelde e já ficava todo mundo super assustado, porque eles reviviam aquilo que tinham vivido alguns anos antes. Mas todos os contextos foram riquíssimos culturalmente, uma troca de experiências muito grande.

— Como funciona a comunicação com as populações locais?

— Cada país tem suas línguas oficiais. No Níger e no Congo é o francês, e no Sudão o inglês. Ma daí tem os dialetos, porque a população que a gente atende não sabem essas línguas, eles têm as línguas locais. Então a gente sempre atende com alguém do staff nacional. Eu sempre tinha um enfermeiro comigo para ajudar nessa comunicação. E no meu caso, como eu fiquei muito tempo em cada lugar, acabei aprendendo um pouco das línguas locais. Eu sempre brinco que aprendi as palavras feias, como “diarréia”, “vômito”, “febre”, são as primeiras palavras que eu aprendo, para conseguir me comunicar. E é claro que tem muito da linguagem não-verbal também, a gente gesticula, tem o olhar, acabamos nos comunicando assim também com o paciente.

“Se nós não estivéssemos lá, não teria ninguém lá para fazer isso”

— O tempo das missões já é planejado desde o início? Vocês podem escolher o tempo?

— Sim, depende da gente. Mas combinamos o tempo desde o início. Se por acaso você ficar doente ou não se adaptar, existe a possibilidade de voltar antes. Assim como o contrário, se você está muito bem lá, pode continuar ao invés de abrir para outra pessoa. Os tamanhos dependem do contexto, em locais mais tranquilos dá para ficar um ano. Eles levam por base que o máximo de tempo é um ano, porque você está longe da família, de casa, em uma cultura diferente, é muito desgastante. Mas tem gente que prolonga, ou depois volta pela segunda vez para o mesmo país.

Mães esperam na fila para serem atendidas com seus filhos por MSF | Foto: Rachel Soeiro/ Arquivo Pessoal
Mães esperam para receber atendimento
para seus filhos por MSF
Foto: Rachel Soeiro/ Arquivo Pessoal
Tem projetos que já são planejados para serem mais curtos. Por exemplo, as pessoas que foram para as Filipinas depois do tufão, era trabalho muito intenso, de domingo a domingo, sem folga. Então ninguém podia ficar mais de um mês, mesmo se quisesse, a organização dizia que não. Eu estava saindo do Congo quando aconteceu esse desastre e falei que queria ir, e não deixaram, disseram que como eu tinha acabado de sair de 10 meses de missão, estava sem energia.

— Como tu avalias a importância do trabalho de MSF nessas missões? 

— É fundamental. Eu acho que faz toda a diferença porque são lugares em que a população muitas vezes não têm acesso nenhum à saúde. Nesses países, quando se fala em saúde pública, o governo banca as estruturas, mas tudo é pago, não é realmente pública. A população tem que pagar pelo atendimento médico, medicamento, vacina. E isso sem falar na dificuldade de acesso. Porque Médicos sem Fronteiras vão onde ninguém consegue chegar.

No Congo por exemplo, era no meio de uma floresta. A gente tinha uma pista construída pelos nossos logísticos para chegar de helicóptero, porque era o único jeito de chegar, lá tudo alaga. Não teria como passar. Se nós não estivéssemos lá, não teria ninguém lá para fazer isso. No Sudão, tinha mães que andavam dois dias para conseguir chegar e ter atendimento para seus filhos, porque éramos o principal hospital da região. Tinha outro do Ministério da Saúde um pouco mais longe, mas era pago. É muito importante porque possibiltiamos o acesso e saúde pública.

Foto: Rachel Soeiro/ Arquivo Pessoal
“Médicos sem Fronteiras vai onde ninguém consegue chegar”
Foto: Rachel Soeiro/ Arquivo Pessoal
— Como a organização percebe que países precisam de ajuda?

— A gente tem equipes que fazem a exploração do local. Lá na República Democrática do Congo onde eu estive, por exemplo, a gente ouve as pessoas falarem de algum local onde teve uma explosão ou um conflito e mandamos uma equipe para lá. No caso da Síria, quando começou a guerra, também enviaram uma equipe para ver a necessidade da população, o número de desabrigados, desnutridos. Sempre olhamos a população mais vulnerável. Vamos até os campos de refugiados para ver qual a situação de nutrição das pessoas. E em lugares que não têm acesso nenhum, também. Lugares em que não chega nada de saúde e tem uma mortalidade muito alta, vai essa equipe, a gente olha os indicadores, e se necessário pensamos no projeto de intervenção. E tem as catástrofes naturais que daí nem precisa de triagem, vai direto.

— Onde os médicos moram quando vão para as missões?

— Depende do lugar. No Níger, era um projeto que existia há muito tempo, tinha um hospital construído por Médicos sem Fronteiras e ali perto alugaram uma casa para a gente morar. Ali moravam os estrangeiros, cada um com seu quarto, dividindo os espaços comuns da casa. No Sudão do Sul, como era muito no meio do nada, tinha um hospital construído, uma tenda que fazia o atendimento cirúrgico, e daí tinha uma cerquinha que separava as nossas casas. No início eram tendas, e depois construíram para nós no estilo das casas sudanesas, de alvenaria. Cada um tinha a sua, no mesmo espaço do hospital. E no Congo o hospital ficava na frente e organização alugou um antigo convento que ficava atrás, ainda da época da colonização francesa.

— Vocês recebem algum treinamento antes de ir para as missões?

— Tem treinamento específico se eles julgarem necessário. No Níger, por exemplo, fui para um projeto de pediatria, com crianças menores de seis anos. E eu já tinha experiência no Brasil trabalhando como pediatra, eu era médica de família e trabalhava em um posto de saúde e fazia muito plantão de pediatria. Mas enquanto eu estava lá, me mandaram para um curso de pediatria tropical, para melhorar meus conhecimentos. Então se precisar, de tempos em tempos eles fornecem cursos. Mas sempre vão tentar encaixar o primeiro projeto com a experiência que a pessoa já tem.

“É muito triste saber que aquela pessoa está naquela situação por causa de comida em um mundo em que se desperdiça tanto, mas é muito recompensador poder ajudar”

— Lá no Níger o maior problema era a desnutrição?

— Sim, era só desnutrição de crianças de zero a seis anos. E daí depois teve a malária, quando tem dois meses de chuva, a malária aumenta muito. E daí atendíamos todas as crianças afetadas também.
 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
Rachel esteve em Porto Alegre para participar da exposição
 “Campo de refugiados no coração da cidade”
Foto: Ramiro Furquim/Sul21
— E em geral tu trabalhaste principalmente com desnutrição?

— No Níger, sim, no Sudão tivemos um crescimento de desnutrição grande porque as pessoas estavam voltando da guerra desnutridas e montamos uma enfermaria para desnutridos enquanto eu estava lá. No Congo eu trabalhei menos, trabalhei bem mais com HIV. Mas eu gosto de trabalhar com desnutridos porque a resposta é muito rápida, é muito recompensador. Claro que é muito triste saber que aquela pessoa está naquela situação por causa de comida em um mundo em que se desperdiça tanto, mas é muito recompensador poder ajudar.

— Tu foste para três países da África nas tuas missões. Foi coincidência ou há um motivo específico para isso?

— Foi coincidência. Eles nos mandam a proposta, com o projeto, e eu acabei aceitando essas na África. Me ofereceram também ir para o Afeganistão, mas na época eu tinha acabado de sair do Níger, que também era um país muçulmano, e queria ir para outra experiência, então eu não quis.

— Como funciona a segurança durante os projetos?

— Quando as equipes vão aos lugares para estabelecer um novo projeto, sempre pensam na segurança. Mas nós também temos que tomar medidas de precaução para não se expor a riscos. No Níger não podíamos andar na rua, sair. Tinha um carro que pegava a gente da nossa casa e levava para o hospital, mesmo que fosse perto. O tempo todo que eu fiquei lá era sempre casa-trabalho-casa. No Sudão do Sul, tínhamos uma liberdade um pouco maior, mas mesmo assim depois das 19h não podia sair daquele terreno onde ficava o hospital e as nossas casas. Então depende do lugar e do contexto.

— As populações em geral receberam bem o trabalho de vocês nesses três países?

— Sim, em todos os países somos bem recebidos, mas fazemos esse trabalho primeiramente de nos apresentarmos, explicar o que vamos fazer lá, que tipo de atendimento oferecemos.
Mães com seus filhos que sofrem de desnutrição e malária malária esperam na fila para a primeira consulta com a equipe de MSF. A organização fica em constante alerta durante a estação das chuvas, entre julho e novembro, por conta da combinação perigosíssima de desnutrição e malária | Foto: MSF/ Divulgação
Mães com seus filhos que sofrem de desnutrição e malária
esperam na fila para a primeira consulta com a equipe de MSF,
no Níger
Foto: MSF/ Divulgação
— Imagino que a população saiba da presença de vocês também pelo boca a boca.

— Sim, eu sempre falo que eles são os melhores divulgadores do nosso trabalho. Uma mãe que leva o filho lá praticamente sem vida, desnutrido, e uma semana depois ele está melhor, é ela que depois vai voltar para o vilarejo e vai falar ‘estive lá no hospital, meu filho melhorou, realmente funciona’. Eles mesmos que divulgam nosso trabalho.

“Percebemos que às vezes aquilo que dávamos tanto valor não é tão importante, começamos a olhar de um jeito diferente para tudo”

— Vocês enfrentaram algum tipo de problema em relação a diferenças culturais, religiosas nas missões que tu foste?

— Problema, não. É que a gente tem que saber respeitar a cultura dele. E para nós, ocidentais, é um mundo novo, não estamos acostumados com uma cultura de funcionários que têm que sair cinco vezes por dia para rezar, por exemplo, como os muçulmanos. E você tem que respeitar isso, porque é a cultura deles. Ou então mães que estão no hospital e dizíamos que precisava mandar os filhos para um cirurgião, elas pediam para esperar os maridos ficarem sabendo e também autorizarem. É uma outra estrutura social que temos que aprender a conhecer e respeitar.

— De que forma as tuas experiências nesses lugares mudaram tua maneira de pensar sobre o Brasil?

— Cada lugar tem as suas necessidades. O Brasil tem suas necessidades, mas tem outras coisas que ajudam, não estamos isolados de tudo. E é claro que a forma de pensar a vida muda muito. Percebemos que às vezes aquilo que dávamos tanto valor não é tão importante, começamos a olhar de um jeito diferente para tudo. O que às vezes a gente gasta em um restaurante aqui poderíamos gastar para comprar comida nutricional para uma criança por cinco semanas. Então a gente começa a se perguntar sobre o que estamos valorizando.

— Tua família se preocupa muito contigo quando vai para as missões? 

— Meus pais, minhas irmãs e amigos me apoiam, mas claro que todos se preocupam muito. Às vezes ficamos sem internet durante as missões, demoro um tempo para dar notícias, eles ficam desesperados. Se eu passo uma semana sem responder e-mails, quando eu olho de novo eles estão muito preocupados. Acho que se eles pudessem escolher, iam preferir que eu trabalhasse aqui.
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Exposição de MSF esteve em Porto Alegre até o dia 23
Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
— Médicos sem Fronteiras atuam em missões aqui no Brasil também?

— Apenas em casos pontuais, como quando tiveram enchentes no Alagoas, deslizamento em Petrópolis, no Rio de Janeiro, atendimento psicológico no incêndio da boate Kiss em Santa Maria. Um dos pilares da organização é mesmo realizar atendimentos pontuais nesse tipo de caso.

— Quais teus planos atuais? Ir para mais missões?

— Agora eu estou aqui para estudar, então só poderia ir em missões curtas, de um mês. Por enquanto eu não posso mais me disponibilizar para missões longas, mas terminando os estudos eu quero voltar sim. Voltei para o Brasil há três meses, estou morando em Campinas para fazer meu projeto de mestrado.

“Nós acreditamos no trabalho. Esse trabalho é muito importante e faz toda a diferença no mundo”

— E sobre essa exposição que veio para Porto Alegre até o fim de semana passado. Eu percebi que tinha a presença de muitos médicos da organização, inclusive de outros estados. Vocês que se prontificaram para vir?

— É, eles perguntam quem está disponível, dizem que precisam de ajuda. E eu disse que durante a semana estava estudando, mas me prontifiquei a vir nos fins de semana. Nós acreditamos no trabalho, acho que a melhor coisa é divulgar para as pessoas conhecerem. Esse trabalho é muito importante e faz toda a diferença no mundo.
 | Foto: Ramiro Furquim/Sul21
“É chocante ver a situação dessas crianças por
uma coisa totalmente evitável, como a fome”
Foto: Ramiro Furquim/Sul21
— O que tu achaste dessa logística da exposição, a ideia de receber uma identidade no início e depois descobrir que é de uma pessoa real?

— Eu achei fantástico, porque é uma realidade com a qual não temos nenhuma ligação, é muito distante da gente. E na hora que você vê, diz ‘é uma história, é interessante’, e as pessoas já vão descobrindo como vive um refugiado enquanto passa pelas sessões, mas quando você olha a foto que você concretiza. Daí você vê ‘nossa, existe isso mesmo, uma pessoa passou por isso’, fica muito mais real.

— E deve ser muito chocante chegar nesses lugares na vida real, nada te prepara para o que tu vais encontrar.

— Exatamente. Eu nem imaginava como era a realidade. Na primeira vez que eu cheguei ao Níger, aquele calor de 45 graus, tudo deserto, chegar no hospital e ver aquele monte de criança desnutrida… eu pensei ‘nossa, isso existe’. Eu nunca tinha visto uma criança desnutrida até então, é chocante ver a situação dessas crianças por uma coisa que é totalmente evitável, como a desnutrição. Mas ao mesmo tempo saber que você pode fazer muita coisa com muito pouco é muito gratificante. O olhar de uma mãe que viu o filho renascer não se compara a nada, é incrível.

Débora Fogliatto
No Sul21
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Somos educados para o analfabetismo econômico

Somos treinados a concordar com coisas que não fazem sentido. Por exemplo, pagamos um Mineirão dia, em juros da dívida, e achamos que a Copa é o problema.

Os barões ladrões que rebaixam o Brasil

A agência Standard & Poors, uma das que fazem classificação de risco de países e empresas, alterou a nota do Brasil para pior: de BBB para BBB-.

E se alguém acha que esse é um debate econômico, está redondamente enganado. A economia continua sendo um assunto importante demais para ficar restrito aos economistas.

A elevação ou o rebaixamento da nota de um país são entendidas, mundo afora, como um sinal do quanto um país é rentável e confiável.

Confiável segundo agências de classificação especializadas em dizer aos grandes financistas internacionais onde investir seu dinheiro para obter maiores lucros, com a garantia de que não tomarão um calote.

Na imagem, manual da "Poors Directory", 
que daria origem à Standard & Poors. 
A empresa foi criada no século XIX, 
nos Estados Unidos, por Henry Varnum 
Poor, em plena época dos chamados 
barões ladrões.
 A Standard & Poors foi criada no século XIX, nos Estados Unidos, por Henry Varnum Poor, em plena época dos chamados barões ladrões.

Os grandes investidores que Henry Poor avaliava e recomendava ganhavam dinheiro com ferrovias,  siderúrgicas e empresas de petróleo.

Uma parte significativa dos lucros desses magnatas vinha da apropriação de terras e outros ativos públicos e da arte de usar e roubar o dinheiro de pequenos investidores desavisados, que depositavam suas economias no nascente mercado de ações.

Esses barões ladrões do século XIX não eram tão diferentes dos mais recentes, que causaram a grande crise financeira de 2008 e 2009. Todos bem recomendados pela Standard & Poors.

A avaliação de risco do Brasil basicamente expressa o quanto o país continua sendo um dos paraísos mundiais do rentismo, a mágica de ganhar dinheiro com o trabalho dos outros. Quanto mais a política econômica de um país é ditada pelos interesses dos rentistas, melhor a nota.

Para não ser rebaixado pelas agências, um país precisa rebaixar sua política econômica. Tem que seguir uma receita orientada pelo objetivo de fazer crescer o volume de dinheiro movimentado pelas finanças, e não o de fazer crescer o país.

E ainda tem gente que acha que nosso grande problema é a Copa

Se o Brasil sofreu o rebaixamento de um único pontinho, “o que eu tenho a ver com isso?”, pode e deve perguntar o cidadão. Como diria o velho Brecht, tem a ver com o custo de vida, o preço do feijão, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio. Não deveria ter, mas tem.

Para dizer a verdade, esse rebaixamento tem a ver até com a Copa do Mundo de futebol, pois, enquanto tem gente preocupada, com razão, com o custo dos estádios, esqueceram-se do principal.

Para se ter uma ideia: o País vai gastar cerca de 8 bilhões em estádios. É, de fato, muito dinheiro. Mas o analfabetismo econômico ajuda todo mundo a se esquecer de fazer a conta que importa.

O Brasil gastou, em 2013, R$ 248 bilhões com o pagamento de juros, segundo o Banco Central. Pois bem, dividindo esse valor pelos 365 dias do ano, pagamos mais de R$ 679 milhões por dia.

Vamos comparar com a copa? Dá quase para construir um estádio do Mineirão por dia. Aliás, registre-se que o Mineirão só tem R$11 milhões de dinheiro público envolvido em seu financiamento. O restante será pago pela iniciativa privada. Dois dias de juros da dívida pagam mais de um Maracanã.

E ainda tem gente que acha que a copa é o absurdo dos absurdos do gasto em dinheiro público. É a prova cabal do quanto perdemos a noção das coisas.

Perdemos a noção de grandeza e a de proporção. Com isso, perdemos também o senso crítico em relação a esse buraco negro de nossas finanças públicas. Depois, perdemos o foco das prioridades.

Finalmente, erramos o alvo das manifestações. Tem gente malhando o Judas (a Copa, a Fifa) fingindo que está enfrentando o Império Romano. Se não for piada, é teatro.

Quem sabe, um dia, alguém se lembre de escrever a frase em um cartaz: “Cada 1% de aumento na taxa de juros custa R$20 bilhões aos brasileiros”. É uma mensagem mais consistente e valiosa do que “Não é só pelos 20 centavos”.

Vinte bilhões são duas vezes e meia, por ano, o que iremos investir em estádios, que serão pagos em 15 anos em empréstimos ao BNDES — ou seja, dinheiro que voltará aos cofres públicos.

O rebaixamento do debate econômico nos fez perder a noção das coisas

O verdadeiro rebaixamento que o país sofre não é de hoje e não é só o da Standard & Poors. O mais prejudicial de todos é o rebaixamento do debate sobre os rumos da economia do país.

O Brasil continua sendo um carro em que os mecânicos  do mercado puxam o freio de mão e culpam o motorista pela dificuldade de acelerar o crescimento, melhorar a infraestrutura e a qualidade do serviço público.

A primeira mudança para uma tomada de consciência é superar a visão de que os juros são um problema só da macroeconomia e que sua conta é paga pelo governo. Não é.

O governo é apenas quem assina o cheque. Quando falamos “o Brasil”, muita gente ainda acha que estamos falando do governo. Perdemos, talvez na ditadura, e ainda não recuperamos a noção de que o Brasil são os brasileiros.

Quem confunde isso com nacionalismo barato e governismo acaba por reproduzir, às avessas, a velha maneira de pensar ensinada pela própria ditadura. Puro analfabetismo cívico.

Quem paga a conta cara dos juros altos são todos os que pagam impostos, principalmente os mais pobres, que, proporcionalmente, pagam mais impostos.

A luta para inverter prioridades precisa convencer milhões de brasileiros de que é preciso virar as finanças públicas de cabeça para baixo.

Hoje, a principal função do Estado brasileiro é pagar juros, os maiores do planeta. O Brasil é um dos três países que mais comprometem recursos públicos com o pagamento de juros, em proporção do PIB, conforme diz até o Fundo Monetário Internacional.

A educação, a saúde, a segurança pública e os investimentos em infraestrutura são pagos com o troco do que sobra do pagamento de juros.

Somos educados para o analfabetismo econômico

O problema que temos em mãos lembra o alerta feito por um professor de Matemática, com cara de cientista maluco, chamado John Allen Paulos, em seu livro “O analfabetismo em Matemática e suas consequências" (publicado originalmente em 1988).

O divertido livro de Paulos relembra casos famosos que denunciam a falta nem tanto de habilidade, mas de uso prático e corriqueiro até das operações matemáticas mais simples.

A principal denúncia de Paulos é ao quanto nos desacostumamos da operação mais essencial de todas, não exclusiva da Matémática: pensar sobre os problemas e raciocinar logicamente sobre eles.

Paulos nos avisa que isso é um perigo. Corremos riscos diários com essa nossa preguiça de pensar logicamente sobre os problemas e com a nossa incapacidade de extrair resultados práticos e numéricos dessas operações.

O que acho mais curioso nesse livro, e muito similar ao que acontece em nosso debate econômico, é que esse tipo de analfabetismo é ensinado diariamente.

É como se fôssemos educados para o analfabetismo. Somos treinados a esquecer a lógica dos argumentos e a concordar com coisas que não fazem o menor sentido.

Paulos usa, dentre tantos exemplos, o livro “Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift (1667-1745). O matemático nos mostra como o autor de Gulliver, ao descrever um gigante em uma terra de pequeninos (Lilliput), lascou o livro de grandezas absurdas, que não fazem o menor sentido.

As histórias de Gulliver são de 1726. Para não parecer tão distante, Paulos escreveu, em 1995, “Como um Matemático lê os Jornais”, publicado no Brasil como “As Notícias e a Matemática” ou “Como um Matemático lê jornal”.

Acertou na mosca. A imprensa é useira e vezeira em nos deseducar a usar não só os números, mas a lógica. É assim também com as notícias cujo título é contraditado pelas próprias matérias, armadilha comum aos que leem jornal com o espírito crítico repimpado e babando no sofá.

Terrorismo fiscal, um atentado ao raciocínio lógico

A notícia sobre o rebaixamento da nota do Brasil foi uma farra nesse sentido de propagar o analfabetismo econômico.

A conclusão enfiada goela abaixo é a de que o País precisa aumentar seu rigor fiscal e seu controle sobre a inflação.

Ou seja, o Brasil precisaria urgentemente cortar gastos e continuar elevando sua taxa de juros. Como assim, se o nosso principal gasto extraordinário é com juros? Não faz sentido, faz? Depende pra quem.

A ideia brilhante para atender às agências de risco é cortar o que o governo faz para pagar mais juros. Faz todo o sentido — para o financismo, não para a maioria dos brasileiros.

Mal começou o ano, os problemas sazonais dos preços dos alimentos, que impactam também os alugueis, são traduzidos na conclusão disparatada e tão absurda quanto os números das “Viagens de Gulliver”.

A lógica é a seguinte: se choveu muito, ou se choveu pouco, a inflação de alimentos elevou-se. Solução: aumentem os juros. Elevando-se os juros, as pessoas vão comer menos alimentos e os agricultores assim plantarão mais alimentos. Com juros mais altos, choverá a quantidade certa, no lugar certo. Entendeu? Nem eu.

O preço do tomate disparou, então o remédio é aumentar os juros. A pessoa irá desistir de levar tomates quando pensar que a taxa Selic está mais alta. Quando a taxa Selic alcança dois dígitos, as pessoas trocam a macarronada a bolonhesa por lasanha ao molho  branco.

Os alugueis subiram, então os juros precisam aumentar, pois, em Lilliput, a terra de quem pensa pequeno, quando os juros sobem, ao contrário do que ocorre em qualquer lugar do mundo, mais imóveis são construídos e os alugueis baixam.

Engraçado, pensávamos que seria o contrário; que, com juros mais baixos, mais pessoas poderiam comprar seus próprios imóveis e se livrar dos alugueis. Aumentaria a própria oferta de imóveis e os aluguéis cairiam. Difícil entender os lilliputianos.

Essa falta de parâmetros e de noção do debate econômico causa uma deficiência grave em nossas políticas públicas.

Figuras exemplares que alertam sobre isso, como fazem Paulo Kliass, Ladislaw Dowbor e Amir Khair aqui na Carta Maior, há muito tempo, falam de coisas sobre as quais deveríamos não só prestar mais atenção, mas usar em nosso dia a dia.

Os movimentos sociais precisam se lembrar de explicar essa lógica dos argumentos aos seus militantes.

Precisam fazer as contas de quantos trabalhadores do setor público poderiam ser contratados e pagos com esses valores estratosféricos e escatológicos pagos com juros.

Precisam mostrar para a opinião pública quanto custa o reajuste de salários de suas categorias e compará-los com o que se paga em juros aos banqueiros.

Quem sabe, uma boa ideia seria acampar no gramado em frente ao Banco Central toda vez que ocorre uma reunião do Copom. E por que não fazer pelo menos um dia de luto quando se decreta aumento na taxa de juros.

Imagine todo mundo com a fitinha preta no braço explicando quanto vai nos custar pagar 0,25 ou meio ponto percentual a mais na taxa Selic, e quanto deixará de ser aplicado em prioridades para o país.

Pode até não ajudar a pressionar a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, mas, pelo menos, seria um sinal de quantas pessoas terão se livrado do analfabetismo econômico atroz que nos acomete.

Antonio Lassance, cientista político.
No Carta Maior
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