30 de mar de 2014

Aécio e Eduardo

A estratégia do tucano contribui para consolidar a cultura democrática. A de Campos baseia-se no velho personalismo

Quais as estratégias de campanha de Aécio Neves?
José Cruz/Agência Brasil
A prevalecer o quadro hoje desenhado, faremos neste ano uma eleição presidencial diferente de todas as outras desde a redemocratização. Pela primeira vez, os dois principais candidatos são genuínos representantes de seus partidos.

Do lado do PT, isso não é novidade e Dilma Rousseff está escalada. Vem do PSDB a inovação. Está claro que é cedo para decretar que chegaremos a outubro com as intenções de voto no padrão de hoje. Mas as pesquisas são unânimes ao mostrar que, somados, os candidatos dos demais partidos mal alcançam 10%. Em outras palavras, a polarização entre PT e PSDB tem boa chance de se repetir.

Desta vez, eis a questão, os tucanos caminham para apresentar algo que não têm desde Mario Covas, um candidato do partido. Fernando Henrique Cardoso foi lançado e se reelegeu praticamente sobre a alcunha de “homem do real”. Em 1994 e 1998, seus eleitores mal sabiam a sua filiação partidária. Estivesse filiado a qualquer outro, o resultado não seria diferente.

Nas duas eleições das quais participou, José Serra foi candidato de si mesmo. Os correligionários tinham de ouvi-lo na televisão para se inteirar de suas pretensões e propostas. Em 2010, tanto mandava e desmandava que levou o PSDB para onde quis: associou-o ao moralismo conservador e ao que de mais reacionário existe na política e na sociedade brasileiras.

Geraldo Alckmin era desprezado pela elite tucana e foi escolhido para ser derrotado por Lula. Nunca expressou o sentimento da cúpula e das bases de seu partido (salvo, talvez, em Pindamonhangaba).

Agora, não. Aécio Neves caminha para a eleição como candidato genuíno do PSDB. Para o bem e para o mal.

Isso fica claro no modo como responde ao dilema que angustia os tucanos desde 2002, o de como lidar com a “herança de Fernando Henrique Cardoso”. Ao pensarem em termos eleitorais, Serra e Alckmin fizeram o lógico: esconderam a herança de FHC e tentaram se desvencilhar da impopularidade do ex-presidente. Como chegou a dizer Serra em 2010, no ápice da desfaçatez: “Eu sou o Zé que vai continuar a obra do Lula”.

Aécio, ao contrário, faz tudo para associar sua imagem àquela de FHC. Suas propostas, seus assessores e seu discurso têm Fernando Henrique escrito por todos os lados, a ponto de ensejar especulações a respeito da participação do ex-presidente como companheiro de chapa (algo impensável nas candidaturas de Serra).

Importa pouco se Aécio age assim por obrigação ou desejo. Se ele se oferece ao posto de continuador da “herança de Fernando Henrique” por convicção ou para assegurar a vaga de candidato do partido. O fato é que o faz. Torna-se assim um “legítimo tucano”, expressão da legenda e não de si mesmo.

É o oposto de Eduardo Campos, cuja candidatura é a enésima encarnação de um fenômeno recorrente em nossa história eleitoral, o personalismo daqueles que se apresentam como “indivíduos notáveis” e se creem dotados de atributos especiais. Nada há de estranho em estar ao lado de Marina Silva, outra dessas “personalidades” transbordantes de si mesmas, que se projetam acima dos partidos e pedem um cheque em branco ao eleitor (pretensamente garantido por seus “bons propósitos”).

Do modo como está formulada, a candidatura de Aécio traz uma contribuição para a consolidação de nossa cultura democrática. O pernambucano aposta nos preconceitos antipartidários e no velho estereótipo de que, na escolha eleitoral, o importante é “a pessoa do candidato”. O mineiro não esconde de que lado está e a quem está ligado. Sem discutir sua motivação, o relevante é o fato de educar o eleitor, enquanto o outro quer se aproveitar de seu equívoco.

Dizê-lo não é avaliar a utilidade estratégica das opções de ambos. “Tucanizar-se” pode ser (muito) nefasto para as pretensões eleitorais de Aécio, enquanto fingir-se “apartidário” pode ser uma estratégia esperta de Campos. Ou vice-versa.

Nada disso deve, porém, ter consequências de curto prazo nestas eleições. Mantidas as tendências conhecidas e a se considerar o cenário da disputa a seis meses do pleito, a chance de qualquer um dos dois, independentemente do que fizerem, é pequena. Dilma Rousseff é a favorita.

A discussão concentra-se no que deve acontecer no médio e longo prazos. Nesse horizonte, quem faz a coisa certa é Aécio Neves. Se não tomar cuidado, o futuro de Campos é ser mais um jovem político promissor perdido no meio do caminho. A estrada está cheia deles.

Marcos Coimbra
No CartaCapital
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A verdade enjaulada

Em um país incapaz de explicar o passado, torturadores e financiadores da repressão continuam a distorcer a história e a justificar as barbáries do regime

Mais brutal de todas as violências é, sem dúvida, a violência da inexistência. Esta é uma forma muito pior de extermínio, pois não se trata apenas da eliminação física. Ela é uma eliminação simbólica, desta que afirma que nada existiu, que a violência não deixou traços e indignação.

Neste exato momento, o Brasil é vítima, mais uma vez, dessa forma mais brutal de violência.

Talvez ninguém esperasse que, em 2014, 50 anos após o golpe militar, estaríamos em um embate para saber se, no fim das contas, existiu ou não uma ditadura no País, com todas as suas letras. Era de se esperar que neste momento histórico estivéssemos a ler cartas abertas das Forças Armadas com pedidos de perdão por terem protagonizado um dos momentos mais infames da história brasileira, cartas de desculpas de grupos empresariais que financiaram fartamente casas de torturas e operações de crimes contra a humanidade. Todos esses atores não se veem, no entanto, obrigados a um mínimo mea-culpa.

Há de se perguntar como chegamos a esse ponto. Uma resposta-padrão consiste em dizer que os setores progressistas da sociedade brasileira não tiveram força suficiente para impor aos governos exigências de dever de memória e justiça de transição. A história brasileira recente é, em larga medida, uma história de transformações abortadas.

Já a luta pela anistia foi abortada quando o regime militar conseguiu impor sua própria lei da anistia, que livrava os funcionários de Estado responsáveis por crimes contra a humanidade, isso enquanto ainda deixava na cadeia integrantes da luta armada que participaram de assaltos a bancos e ações com mortes. Àqueles que têm o despudor de afirmar que a lei da anistia foi fruto de acordo nacional, devemos lembrar que a votação que aprovou a referida Legislação no Congresso Nacional foi de 206 votos a favor e 201 contrários, sendo os votos favoráveis saídos todos das fileiras do então partido governista (a Arena). Faz parte das ditaduras a criação de uma novilíngua, na qual os termos ganham sentidos contrários. No Brasil, a imposição da sua vontade por meio da coerção é chamada de "acordo".

Depois, a luta por eleições diretas para presidente da República foi abortada em famosa votação no Congresso, o afastamento de líderes ligados ao regime militar foi abortado com a elevação de José Sarney à Presidência do Brasil, seguido de Fernando Collor. Em todos esses processos não foi a sociedade brasileira que se mostrou fraca, mas o poder que se demonstrou suficientemente astuto para se perpetuar sob o manto da transformação. Falamos de uma ditadura que conseguiu permanecer no governo mesmo depois de seu fim, graças a uma manobra transformista que alçou o então PFL a fiador da República.

Da mesma forma, as Forças Armadas conseguiram criar a ilusão de ser um ator que deveria ser deixado em paz, sob o risco de maiores instabilidades institucionais. Essa lógica levou os primeiros governos realmente pós-ditadura (Fernando Henrique Cardoso e Lula) a nunca adotar uma política efetiva de criminalização da ditadura. Assim, chegamos em 2014 sem um torturador punido, sem um general obrigado a reconhecer a experiência terrível dos anos de chumbo.

Dentro desse quadro desolador, o governo Dilma Rousseff resolveu criar uma Comissão da Verdade, que deve entregar o relatório de suas atividades ainda neste ano. Composta de alguns nomes de inquestionável valor e dedicação, indivíduos com largo histórico de defesa dos direitos humanos e intervenções na mídia em favor de uma política efetiva de memória, a comissão teve condições mínimas de trabalho.

Dos sete integrantes iniciais, ela agora funciona com cinco. Mesmo ao levantar novos dados, principalmente a respeito da repressão no campo e contra Indígenas, ela não conseguiu mobilizar a opinião pública, talvez por ter preferido não divulgar parcialmente resultados ou encaminhá-los diretamente às cortes internacionais de Justiça (pois as cortes brasileiras estão açodadas devido à decisão canalha do Supremo Tribunal Federal a respeito da perpetuação das leituras correntes a respeito da lei da anistia). Caso tivesse optado pela ampla divulgação e enviado os resultados às cortes internacionais, uma situação jurídica nova teria sido criada e obrigaria o governo a sair de sua política de minimização de conflitos. Foi graças a uma intervenção exterior, lembremos, que o Chile conseguiu, enfim, começar a enfrentar a brutalidade de seu passado. Se Augusto Pinochet não tivesse sido preso na Inglaterra por causa de um pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón, há de se imaginar que o Chile estaria em situação muito diferente.

A Comissão da Verdade brasileira deveria assumir experiências de outras comissões e, ao menos, desenvolver um procedimento parecido àquele aplicado na África do Sul. Nesse caso, antigos funcionários do apartheid tiveram seus crimes perdoados se os confessassem abertamente diante das vítimas ou familiares das vítimas, pedindo publicamente perdão. Certamente, no Brasil, algo dessa natureza teria, neste momento, grande força, certamente muito maior do que aquela que o procedimento demonstrou na própria África do Sul. Pois, entre nós, o verdadeiro problema é interromper, de uma vez por todas, a violência produzida pela tentativa de jogar o sofrimento social do período militar à condição de inexistência.

Creio ser útil partilhar um fato pessoal. Depois de escrever um artigo a respeito da tendência de negação predominante em parte de nossa historiografia recente, com seu desejo de apagar os traços da ditadura, recebi uma mensagem singela de alguém que dizia que a ditadura não existiu para ele, cidadão ordeiro e trabalhador. Ela existiu apenas para os indivíduos que queriam transformar este país em uma nova União Soviética. Eu diria que ele tem razão. De fato, a ditadura não existiu para ele, pois esse senhor, como vários outros, fez parte da ditadura. Não haveria ditadura sem cidadãos como este, que hoje não temem em demonstrar claramente suas escolhas.

Não há ditadura sem um conjunto de "carrascos voluntários", que, mesmo não trabalhando diretamente nos aparatos repressivos, atua indiretamente no suporte e na reprodução das justificativas de suas ações. Há de se apontar para os carrascos voluntários da ditadura brasileira. Por isso, o País nunca conseguirá encerrar o legado ditatorial sem um processo de culpabilização coletiva. Quem votou na Arena foi um carrasco voluntário da ditadura e há de se tratar tais indivíduos dessa forma. Muito mais gente deveria estar no banco dos réus. Pois devemos lembrar, mais uma vez: só há perdão quando há, do outro lado, reconhecimento do crime. Você não pode perdoar o que não existiu. Então, se para certas parcelas da população, a ditadura não existiu, não há razão alguma para perdoá-los. O Brasil segue e seguirá em conflito, como quem vive uma história em suspenso.

Vladimir Safatle
No CartaCapital
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Por que Putin se transformou no Mal em pessoa para o Ocidente

Mais uma vez, parece que a Rússia e os Estados Unidos estão encontrando dificuldades para chegar a acordo sobre a forma de lidar com as respectivas ambições. Este choque de interesses atingiu o auge na crise ucraniana. A provocação, neste caso particular, como sugere a gravação que vazou de uma diplomata dos EUA, Victoria Nuland, dizendo “Foda-se a União Europeia”, veio de Washington.

Várias décadas atrás, no ápice da Guerra Fria, George Kennan, um estrategista da política externa americana informou a audiência de suas palestras: “Não há, deixe-me assegurá-los, nada na natureza mais egocêntrico do que a democracia em apuros. Logo ela se torna vítima de sua própria propaganda. Em seguida, ela tende a dar a sua causa um valor absoluto que distorce a sua própria visão… O inimigo se torna a personificação de todo o mal. Ela é o centro de todas as virtudes”.

E assim continua. Washington sabe que a Ucrânia tem sido sempre um assunto delicado para Moscou. Os ultranacionalistas que lutaram com o Terceiro Reich durante a Segunda Guerra Mundial mataram 30 mil soldados russos e comunistas. Pavel Sudoplatov, um chefe da inteligência soviética, escreveu em 1994: “As origens da Guerra Fria estão intimamente entrelaçadas com o apoio ocidental à agitação nacionalista nas áreas bálticas e na Ucrânia ocidental.”

Quando Gorbachev assinou o acordo da reunificação alemã, o secretário de Estado dos EUA Baker assegurou-lhe que “não haveria expansão da jurisdição da Otan nem uma polegada para o leste”. Gorbachev repetiu: “Qualquer expansão da Otan é inaceitável.” A resposta de Baker: “De acordo”. Uma das razões que levaram Gorbachev a apoiar publicamente Putin na Crimeia é que sua confiança no Ocidente foi tão cruelmente traída.

Enquanto Washington acreditava que os líderes russos cegamente faziam o que lhe interessava (especialmente o bêbado Yeltsin), Moscou teve apoiou. O ataque de Yeltsin ao parlamento russo em 1993 foi festejado nos meios de comunicação ocidentais. As agressões à Chechênia por Yeltsin e depois por Putin foram tratadas como um pequeno problema local por George Bush e Tony Blair. “A Chechênia não é o Kosovo”, disse Blair depois de sua reunião com Putin em 2000.

O livro de Tony Wood, “Chechênia: A Favor da Independência”, fornece capítulo e versículo dos horrores que foram infligidos a esse país. A Chechênia tinha sido independente entre 1991 e 94. Seu povo observou a velocidade com que as repúblicas bálticas fizeram sua independência e queria o mesmo para si.

Em vez disso, foram bombardeados. Grozny, a capital, foi praticamente reduzida a pó. Em fevereiro de 1995 dois economistas russos corajosos, Andrey Illarionov e Boris lvin, publicaram um texto no Moscow News a favor da independência da Chechênia e o jornal também publicou algumas excelentes reportagens que revelaram atrocidades em grande escala, superando o cerco a Sarajevo e o massacre de Srebrenica. Estupro, tortura, refugiados desabrigados e dezenas de milhares de mortos. Nenhum problema para Washington e seus aliados da União Europeia.

No cálculo dos interesses ocidentais não há sofrimento, qualquer que seja a sua dimensão, que não possa ser justificado. Chechenos, palestinos, iraquianos, afegãos, paquistaneses são de pouca importância. No entanto, o contraste entre a atitude do Ocidente em relação à guerra na Chechênia e a Crimeia é surpreendente.

A invasão da Crimeia não teve nenhuma perda de vida e a população claramente queria fazer parte da Rússia. A reação da Casa Branca foi o oposto da sua reação à Chechênia. Por quê? Porque Putin, ao contrário de Yeltsin, está se recusando a baixar a cabeça para a expansão da Otan, as sanções ao Irã, a Síria etc. Como resultado, ele se tornou o Mal em pessoa. E tudo isso porque decidiu contestar a hegemonia dos EUA usando os métodos frequentemente implantados pelo Ocidente. (As repetidas incursões da França na África são apenas um exemplo.)

Se os EUA insistem em usar o ímã da Otan para atrair a Ucrânia, é provável que Moscou irá separar a parte oriental do país. Aqueles que realmente valorizam a soberania ucraniana devem optar pela independência real e uma neutralidade positiva: nem um brinquedo do Ociente e nem de Moscou.

Tariq Ali
No DCM
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Erros de Aécio e PSDB levam à vitória de Dilma no 1º turno, diz Cesar Maia


O ex-deputado federal e ex-prefeito do Rio César Maia (DEM) faz duras críticas à forma como o principal partido de oposição conduz a campanha do seu pré-candidato a presidente, Aécio Neves. Para o político fluminense, os "erros" do tucano e a até agora baixa competividade de Eduardo Campos (PSB) podem levar a uma vitória de Dilma Rousseff no primeiro turno da disputa pelo Planalto em outubro.

Em entrevista ao programa Poder e Política, da Folha e do UOL, Maia faz um diagnóstico bem negativo de como vem sendo a atuação de Aécio Neves — a quem recebeu em sua residência, no Rio, no último domingo (22). O tucano está "priorizando a conversa com as elites. É um erro". A crítica também é dirigida a Eduardo Campos, pré-candidato a presidente pelo PSB.

"Você vê fotografia deles em vários lugares. Não vê em nenhuma favela, por exemplo. Por que não? A gente não vê essa marca de nenhum deles. A gente vê com a Fiesp, com a Firjan, com a associação dos bancos, com o agronegócio", reclama Maia. Para ele, o PSDB está "patinando ali naquela centro-elite brasileira, do Sudeste — a sudestina".

No encontro que teve com Aécio, uma parte dessas críticas foram apresentadas de maneira direta. "Faça também essas reuniões [com a elite], mas não só elas. Aí a [colunista da Folha] Mônica Bergamo faz uma matéria dizendo quem estava presente na reunião, que foi servido salgadinho. Isso não dá em nada. Dá para a coluna dela, prestígio. Para o candidato, não dá um voto".

Estrategista político, Maia diz ver um ruído no ressurgimento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na linha de frente da campanha eleitoral dos tucanos. "Eles tinham que ter coragem de fazer uma pesquisa para saber se a impopularidade de Fernando Henrique continua a mesma. Se ele dá voto ou se ele tira. Tem que saber. Para saber se o Aécio tem que ter um mentor guardado, oculto, ou se tem que ter um mentor na linha de frente".

Estudioso de novos meios de comunicação, Maia reclama da forma como os partidos atuam na internet. "O site do PSDB... O que que traz o site? O que o blog do PSDB agrega? Eu recebo mensagens. Estou no cadastro deles. Eu me mobilizaria em função daquelas informações que eu recebo? Zero, nada".

Se continuar atuando como fez até agora, Aécio não ganha a eleição? "Ah, não. Não tem maioria", responde. "Eu tenho 68 anos. Não tenho mais idade de entrar numa eleição achando que algumas coisas estão erradas e ficar calado".

O ex-prefeito do Rio acha que ainda dá tempo para a oposição se reposicionar. Uma das estratégias defendidas por Maia é aumentar o nível de críticas ao governo de Dilma Rousseff, algo que ele já diz enxergar um pouco nos últimos dias. "O Eduardo Campos acelerou o discurso. Intensificou a marca. Ainda não tenho convicção de que ele tenha fôlego para crescer. Se eu tiver razão — posso não ter, né? —, eu acho que aí favorece Dilma vencer no primeiro turno".

Um fenômeno que pode prejudicar a oposição neste ano é o desencanto com a política por parte do eleitorado. "Há uma probabilidade de o 'não voto' crescer nesta eleição. Chamo de 'não voto' o seguinte: abstenção, branco, nulo, não sabe, não respondeu. Há uma probabilidade de esse não voto se aproximar de 40%. Quem perde? A Dilma não perde — tem o voto do Nordeste, do interior, que tem uma máquina grande. Isso pode gerar um primeiro turno. Se essa massa de 'não voto' crescer, ela pode ganhar no primeiro turno com 40%", especula.

Sobre a estratégia tucana de contratar 9.000 militantes digitais, como revelou a coluna "Painel", da Folha, Maia classifica essa iniciativa de "antirrede social". Para ele, "essa forçação de agências, de marketing de guerrilha e internet é um fracasso completo".

O DEM é o principal possível aliado do PSDB na disputa presidencial e esperança dos tucanos de ter um pouco mais de tempo na propaganda de TV e rádio. Embora os demistas tenham ensaiado desistir da aliança no final do ano passado, Maia acha que esse é hoje um cenário remoto.

Neste ano, o PSDB tem considerado lançar uma chapa pura, só com tucanos. Um possível candidato a vice-presidente com Aécio deve ser o senador Aloysio Nunes Ferreira, de São Paulo. "Estão completamente errados", afirma Maia. Para ele, o nome ideal para a vaga de vice seria o do senador José Agripino (DEM-RN), para dar diversidade geográfica ao projeto.

Na campanha presidencial em São Paulo, o PSDB teria de se fiar na força do próprio partido e de seus quadros. Mas e se José Serra não se engajar na campanha? Responde Maia: "O Serra é um poço de mágoa". O tucano paulista estaria agora dando "o troco" para Aécio, de quem não teria recebido o apoio na campanha pelo Planalto em 2010.

Para minimizar o fato de o DEM não indicar o candidato a vice-presidente na chapa do PSDB, Maia sugere uma compensação pragmática. Por exemplo, exigir que os tucanos ajudem demistas a se elegerem deputados federais em alguns Estados. A meta do partido é tentar chegar neste ano ao mesmo número de representantes eleitos em 2010 — foram 43, mas agora só restam 26, pois a sigla foi canibalizada por novas legendas.

A seguir, trechos da entrevista realizada no último dia 27, em Brasília:

— O seu partido, PFL e hoje Democratas, elegeu 105 deputados em 1998. Em 2002, 84 deputados; em 2006, 65 deputados; em 2010, última eleição, já como Democratas, 43 deputados. A curva é descendente. O que aconteceu?

— É igual à curva do PSDB. Só que o PSDB foi para 50 e nós fomos para 43 deputados.

O que aconteceu é que há uma exaustão do ciclo do pensamento de centro-direita. O governo Fernando Henrique foi um governo basicamente de centro-direita. Esse espaço político perdeu estímulo do eleitor. Ele buscou uma mudança, uma alteração. Foi para o outro lado.

Mas há uma distinção entre o PSDB e o Democratas. Por conta da criação de novos partidos, foi no Democratas que essas novas siglas foram beliscar alguns deputados... Qual a perspectiva de bancada para o Democratas na eleição de outubro?

Em janeiro de 2013, o Democratas fez em Salvador uma reunião com todo mundo. Teve uma discussão a respeito de duas linhas. Eu propus um grupo de crise. O José Agripino, nosso presidente, achava que a gente tinha que ser pragmático, tratar de eleger deputados. O ACM Neto [prefeito de Salvador] concordou com essa linha. E dali se fez uma espécie de levantamento Estado por Estado que indicou que o Democratas estaria apto a eleger de 36 a 48 deputados. Eu diria que a perspectiva do Democratas é quase repetir a bancada que elegeu em 2010: 43 deputados. O nosso objetivo é repetir a nossa bancada.

Nós tivemos uma perda muito grande na Bahia. Agora, com a popularidade do prefeito ACM Neto, teremos uma recuperação. No Rio, estamos com dificuldades. Nossa perspectiva é eleger 1 ou 2 deputados federais. Quando eu fui candidato a governador, em 1988, elegemos 9 deputados federais.

Por que o Democratas não se profissionalizou enquanto esteve no poder central e com mais de 100 deputados?

Nenhum partido.

Por que isso não aconteceu?

No Brasil só há partidos parlamentares.

Mas não poderia ter feito algo?

Poderia. Neste momento é outro tempo. Antes estávamos em um ciclo no qual o PT cresceu muito, com a força dos movimentos sociais, sindicatos, associações, ONGs. Hoje, estamos em um mundo da democracia direta eletrônica que esvaziou essa representação associativa.

O grande perdedor das redes são os sindicatos, as associações e os partidos parlamentares, que é o nosso caso e o de todos os outros partidos.

Se soubermos trabalhar adequadamente essa nova democracia direta e combiná-la com a democracia representativa, podemos recuperar representação. Isso é possível. Tem que trabalhar bem. Eu vi no "Painel" da Folha que o Aécio está contratando 9.000 militantes. Aquilo ali é antirrede social...

Por quê?

Porque as redes sociais são horizontais. Desierarquizadas. Cada indivíduo se sente empoderado. Cada vez que na rede social você tenta dizer "aquele cara é um líder de uma ideia", esvazia. As organizações não têm força. Tem até a rejeição das redes sociais. As redes sociais são de indivíduos anônimos. Quando você tem um grupo grande de indivíduos anônimos que pensa como você, você cresce por sinergia na opinião pública. Você está dizendo uma coisa que está sendo dita nas redes e vocês se encontram nas ruas, na eleição.

Essa forçação de agências, de marketing de guerrilha e internet... Isso é um fracasso completo.

Aécio Neves erra se entrar nessa área?

Totalmente, totalmente. O que ele tinha que fazer é, já nesses últimos anos, um levantamento dos militantes, simpatizantes que já estão na rede. Colocar turista na rede não leva a lugar nenhum. Quem está na rede? Você quer vir aqui? Vamos conversar? Vamos trocar ideias?

Mas esse é o slogan, "Vamos conversar?", que Aécio vem usando...

Então, conversar não é o que ele está fazendo com 9.000 militantes que vão se encontrar em 300 reuniões setoriais. Essa não é a lógica das redes. Se ele identifica 500, não 9.000, que estão nas redes, que têm presença, que são sistemáticos, que estão nos cotidianos das redes e vai com esse cadastro empurrando ideias, sugestões para que eles espontaneamente multipliquem essas ideias — aí está certo — contra Dilma e a favor de suas ideias. Se coloca o nome e cola o nome aí já perdeu credibilidade. As redes são multiplicadoras de ideias e não de personagens — na área política, não na área de entretenimento.

Contratar militantes profissionais para entrarem nas redes e tentar promover determinado candidato é um erro completo?

Não funciona. Se as ideias que as redes vão multiplicando coincidirem com as ideias que dão marca a você, isso gera uma sinergia de opinião pública. Mas não é dizendo "vote no fulano de tal". Aí é razão da ironia, da brincadeira, do "não multiplicador". Espero que eles não se equivoquem.

O sr. sempre formulou a respeito desses temas. Por que então o Democratas, e antes como PFL, não adotou esse tipo de estratégia já que ela parece tão clara para o sr.?

Olha, porque entrou tarde. O Democratas fez sua primeira reunião em matéria de redes há um ano.

Por que demorou tanto?

Por quê? Muito simples. Não sei se o número é esse, mas se não for esse é parecido: 95% dos parlamentares pensam que estão nas redes e não estão nas redes. Eles pegam a mala direta deles antiga e de 15 em 15 dias disparam uma newsletter para esse cadastro. A lógica da internet é interativa. Eles não têm paciência para receber um e-mail ou mensagem no Facebook de um cidadão para o qual eles não dão tanto valor assim. Nem para responder. Acham que não é importante.

Fogem da lógica da internet. Fizemos [Democratas] uma reunião um ano atrás e não tivemos ali nenhum deputado presente. Tinham os gabinetes. Estamos fazendo reunião agora, tivemos na primeira metade da reunião, um [deputado] presente.

Essa é notícia que o sr. relata é ruim para o seu partido...

Só para o meu partido?

É geral. O deputado usa internet para tornar a mala direta barata mandando diretamente para o seu eleitor. Ele não vive a internet. Não vive a interação. Não gostam de receber xingamentos e não respondem a eles.

A lógica da internet é essa: pulverização.

De volta ao encolhimento de alguns partidos. Há diferenças entre o seu partido e o PSDB. O PSDB manteve governos estaduais importantes e continuou a aspirar ao poder central, com candidato próprio a presidente. O Democratas encolheu porque se resignou à posição de satélite do PSDB?

Concordo.

Isso aconteceu?

Aconteceu. Na prática foi isso.

A política majoritária em grandes Estados, na Presidência da República, é uma campanha de personagens. O Democratas não conseguiu construir esse personagem. O PSDB construiu.

Sobre o seu partido, o Democratas: é correta a interpretação de que ao se tornar um satélite do PSDB nas eleições...

Total. Agora mesmo nós estamos vivendo isso.

E por que mantendo essa estratégia o seu partido vai recuperar terreno, como o sr. diz?

Eu também tenho dúvidas. Nem sei se essa estratégia agora ela vai ser bem-sucedida.

Por quê?

Porque uma coisa é você ter o Marco Maciel como vice-presidente do Fernando Henrique. Ter a Procuradoria da República indicada, a Receita Federal indicada, a presidência da Caixa Econômica. Enfim, o DEM era forte. Tinha Minas e Energia. Era forte dentro do governo Fernando Henrique Cardoso. Outra coisa é você...

Apoiar só eleitoralmente sem perspectiva de vitória...

...E com uma dúvida: se entra o vice ou não entra o vice. Se você perguntar qual vai ser a decisão do Aécio...

Na eleição de 2010, quando José Serra indicou Índio [da Costa] para ser o candidato a vice-presidente foi um desrespeito ao partido. Não pelo Índio, que é um bom quadro, mas porque o marqueteiro achou que ele tinha sido relator do projeto da Lei da Ficha Limpa e que aquilo o descolava do PFL — que tinha uma marca negativa. Um desrespeito completo. E aceitou-se esse desrespeito.

Agora, o nome do senador José Agripino [DEM-RN] não é favorito na escolha do Aécio para quem será o vice-presidente. Espero que seja ele, mas não é favorito. Eles estão pensando em São Paulo.

Eles estão certos ou errados?

Eles quem?

O PSDB.

Estão errados. Completamente errados.

Por quê?

Eles têm que contar com a força do PSDB em São Paulo. Com um governador como o [Geraldo] Alckmin, que é imbatível no interior. O PSDB vai levar a candidatura do Aécio e permitir a ele fazer um cruzamento regional para agregar mais votos do que colocando alguém de São Paulo como vice. Enfim, o senador Aloysio Nunes Ferreira [PSDB-SP]: o que vai agregar em São Paulo?

Talvez seja uma tentativa de trazer os votos serristas para o candidato Aécio Neves?

O Serra é um poço de mágoa. Em 2010 o Aécio colocou-se como candidato. O Serra acha que essa candidatura retardou o processo de amadurecimento da candidatura dele. O Aécio só saiu em dezembro [de 2009]. Ele [Serra] também só saiu em dezembro, para dar o troco. Acho que não contribui. Acho que ele devia entrar. Entender que o partido dele no poder contribuiria muito mais na maneira de eles pensarem o Brasil.

Tudo indica que deve ser escolhido algum tucano para ser candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Aécio Neves. Nesse caso, o Democratas aceitará de maneira bovina essa decisão e dará seu tempo de TV para o PSDB?

Eu não participo dessas articulações.

Mas o sr. é um quadro do partido.

Não participo dessas negociações de bastidores. Agora, no mínimo, uma decisão dessa, para ser tomada, gera algum tipo de compensação na eleição de deputado.

Por exemplo?

Chegar em um Estado e dizer: "Eu quero nesse Estado ter uma coligação que me garanta eleger dois deputados federais" ou "eu quero ter recurso para fazer a campanha nesse Estado para deputado". Enfim, tem maneiras de gerar uma compensação que te eleja mais três deputados federais, ou quatro ou dois, e que você abra mão de um direito que seria natural de ser o maior partido que apoia o Aécio Neves.

Dado que é incerta a eleição de Aécio Neves, entregar a candidatura de vice-presidente para o PSDB e fazer acordo para eleger deputados é mais vantajoso para o Democratas?

Depende do segmento do Democratas.

Como assim?

Tem um segmento no Democratas que ainda insiste na candidatura presidencial do [deputado federal] Ronaldo Caiado [DEM-GO], dizendo: "Vamos entrar pela direita, não tem esse vetor representado na política brasileira. Nós partimos de uma representação forte do agronegócio. Entramos com valores conservadores, valores cristãos, conservadores.

Isso daí nos eleva para 9%, 10% do eleitorado". Há esse vetor.

E há outro vetor que é o de que o partido é o mais forte que apoia o Aécio e leva tempo de televisão e que a gente deve ter a Vice-Presidência com a presença do José Agripino.

E tem a tese do completo pragmatismo.

O sr. abraça qual dessas três correntes?

A de que o partido devia ter candidato próprio.

Ronaldo Caiado?

Isso ficou muito forte em dezembro e janeiro. Hoje essa tese se tornou pouco viável.

O Democratas tem dois candidatos a governador. Eu, que sou um candidato a governador com 10% das intenções de voto. A minha presença como candidato a governador parte do fortalecimento de bancadas. Existe uma vinculação entre o candidato majoritário e legenda para deputado estatual e deputado federal.

Temos também candidato a governador Paulo Souto, que é favorito na Bahia.

João Alves, em Sergipe, seria favorito em pesquisa, mas está reticente em querer ser candidato a governador.

Esse é um quadro difícil. É um quadro em que se tem que trabalhar olhando para o fortalecimento do ponto de vista parlamentar.

Ronaldo Caiado seria a pessoa ideal para ser candidato a presidente pelo Democratas?

Acho que seria ideal. Carismático, grande orador. Um grande quadro nosso.

Mas a chance de o Democratas marchar para essa solução de ter candidato próprio a presidente é diminuta?

Eu diria que se formou uma maioria em dezembro. Hoje, já não se tem mais essa maioria. Porque você se aproxima da eleição e as pessoas, com essa taxa de rotatividade do parlamento brasileiro, vão tratar do seu quintal e da sua eleição.

Resumindo: na sua opinião o melhor seria o Democratas ter candidato próprio a presidente, Ronaldo Caiado, mas isso é muito difícil. Então o partido vai acabar tendo que se conformar e ficar sem candidato a presidente nem a vice, e apenas apoiando os tucanos?

É isso. Foi um círculo que foi superado, infelizmente. Agora mesmo, domingo [23.mar.2014], o senador Aécio Neves esteve na minha residência para discutir o quadro...

O sr. falou tudo isso para ele?

O que eu disse é que, em função da Copa do Mundo no Brasil, nós não vamos ter pré-campanha. Isso volta na segunda quinzena de julho.

Então, como é que eles vão crescer? Os dois, Aécio Neves e Eduardo Campos, em um quadro desses? Eles têm que esperar o mês de agosto. O único caminho que se tem para começar a produzir segundo turno é a Dilma cair. Não adianta querer imaginar que vai crescer o Aécio, que vai crescer o Eduardo Campos.

Pense bem: o Aécio foi um bom governador de Minas e teve uma marca que foi o "choque de gestão". O que passou de imagem para os outros Estados? Nada, só em Minas Gerais.

Qual é a marca do Eduardo Campos no país todo? Nenhuma. Tirando ali Pernambuco e as adjacências.

Eles vão ter que trabalhar a queda da Dilma para poder começar...

Como trabalham isso?

Estão trabalhando. As declarações de Eduardo Campos têm sido fortes em relação à Dilma. Nesse caso da Petrobras, Aécio entrou também forte. Conseguiram mobilizar. Nós temos 20% do Congresso, mas conseguiram mobilizar uma CPI.

A CPI, por mais que se queira que tenha um caráter técnico, será mais a crítica à corrupção, à gestão. A crítica à corrupção combina com o que o eleitor entende desse momento. Isso pode produzir ou deve produzir uma queda de pontos de Dilma. E a perda de pontos para quê? Para dar segundo turno. Dilma tem hoje 50% de chance de ganhar no primeiro turno, mas se ela for pro segundo turno, ela tem 50% de chance de perder o segundo turno. Ela não é favoritíssima no segundo turno, independentemente de pesquisas. Quando você faz o cruzamento e o corte daqueles que não votariam nela e que se opõe ao governo que está aí, é uma eleição sem favorito.

Dos dois candidatos de oposição, quem demonstra ter mais discurso para eventualmente derrotar uma presidente da República que disputa a reeleição no cargo?

Certamente o Aécio. Teve um esfriamento do nome da Marina Silva. Aqueles marcavam Marina queriam vê-la em cima do pódio. Na medida que ela veio para baixo do pódio, há uma perda de entusiasmo. Essa queda da Marina fere muito a candidatura do Eduardo Campos, que contava muito com ela como vice como elemento alavancador da candidatura dele.

Parece que não vai ocorrer isso da forma que ele imaginava.

Então o sr. acredita, na hipótese de haver segundo, que a disputa seja entre Dilma e Aécio?

E ela vai com uma chance enorme de perder eleição. O Aécio tem essa consciência. Um segundo turno muda completamente o patamar dele, o patamar do voto contra a Dilma.

Quero lembrar que o Geraldo Alckmin perdeu para o Lula em 2006 por uns 12 ou 13 pontos. O José Serra perdeu para a Dilma em 2010 por quanto? Oito pontos? Isso em uma eleição com a economia crescendo 7,5%. O Lula, se fosse para o Vaticano, era capaz de assumir o papado. Enfim, com todas as condições favoráveis. Essa foi a diferença.

A chance de que em um segundo turno a Dilma perca a eleição no Brasil é muito grande. Agora, o problema é ter segundo turno. Essa deveria, no meu ponto de vista, ser a estratégia dos dois [Aécio e Eduardo Campos]: produzir segundo turno.

Uma pesquisa do Ibope realizada em março indica que a aprovação do governo de Dilma Rousseff é de 36%, com 7 pontos de queda de dezembro para cá. Esse deslize na popularidade é algo orgânico e vai continuar ou foi um soluço?

Depende da ação da oposição. Agora, é uma chance.

O primeiro número que eu tive é que a diferença daqueles segmentos de renda maior, de maior instrução, aumentou. A segunda informação que tive é sobre os jovens.

Quando a gente fala em jovens, fala em três coisas. Primeiro, no voto evangélico. Os evangélicos cresceram excepcionalmente entre os jovens. Segundo, redes sociais. O terceiro elemento é essa antipolítica, a reação, a rejeição à corrupção, que também marca muito o jovem e combina um pouquinho com redes sociais.

Há uma razão, uma lógica. Todo esse noticiário de Petrobras é compreendido absolutamente por aqueles que leem jornal todos os dias — 20% das pessoas leem jornal. Isso pega no segmento. Tira de Dilma esse segmento que ela vinha perdendo.

Aécio Neves e Eduardo Campos estão parados nas pesquisas há vários meses. Por quê?

Eles estão priorizando a conversa com as elites. É um erro. Você vê fotografia deles em vários lugares. Não vê em nenhuma favela, por exemplo. Por que não? Aécio é um senador da República, Eduardo Campos é governador do Estado de Pernambuco. Não podem subir uma favela e verificar o que está acontecendo com esse descontrole de segurança pública no Rio? Uma situação gravíssima. Os números estão mostrando. Então, vai lá. Quer ter uma posição? Vai lá na [favela da] Maré. O Exército vai entrar, não tem risco nenhum. Que política é essa das UPPs? Eu quero conhecer, quero ver de perto, quero conversar com as pessoas, entrar em um barraco.

A gente não vê essa marca de nenhum deles. A gente vê com a Fiesp, com a Firjan, com a Associação dos Bancos, com o agronegócio.

Ou seja, mais povo e menos elite?

É. E vamos ser pragmáticos. Esse tipo de reunião os obriga a fazer afirmações que tiram voto em campanha. Na nossa América Latina, o pensamento liberal tira voto. O pensamento conservador dá voto.

O PSDB fica com uma calça justa porque quer ser socialdemocrata. Essa franja está ocupada. Essa franja o PT ocupou bem, não apenas trazendo teses, como trazendo o populismo e o social-liberalismo por meio de sindicatos e multinacionais.

Por onde que entra o PSDB aí? Para onde ele vai? Caminha para a direita. Por que não afirma esse caminho onde tem voto, que é o eleitor conservador? É por aí que tem que caminhar. Se deixar o eleitor conservador solto, ele vai caminhar para o voto do populismo evangélico.

O sr. disse tudo isso para Aécio Neves?

Não disse tudo isso...

Mas, por exemplo, "você precisa aparecer mais em favelas e menos na Fiesp", alguma coisa assim?

Não disse isso. Mas disse que essas reuniões são prazerosas, são bem servidas, geram para o candidato uma alegria muito grande. Mas precisa ter a marca em outras áreas. Precisa ir lá.

Lembro-me quando o [Geraldo] Alckmin, na campanha eleitoral de 2006, teve uma série de dois ou três programas indo à fronteira do Brasil, mostrando que não havia militares, não havia policiamento. Vai lá, vai lá e mostra. Por que tem tanta droga no Brasil? Por onde que entra essa cocaína? Vai lá e faz uma imagem. A imprensa não vai acompanhar?

Claro.

E tem também a internet. O site do PSDB é um site que... O que que traz o site? O que o blog do PSDB agrega? Eu recebo mensagens. Estou no cadastro deles. Eu me mobilizaria em função daquelas informações que eu recebo? Zero, nada.

E o partido que tem governador de Minas, do Paraná, de São Paulo, que tem grandes quadros, que tem presença nacional, como é que pode ficar confortável, patinando ali naquela centro-elite brasileira, do Sudeste — a sudestina?

O sr. tem muitas críticas ao PSDB. Nem parece que o seu partido vai apoiar Aécio Neves.

Não sou um amigo íntimo, mas me considero amigo do Aécio Neves. Todos nós aqui queremos fazer a campanha. A nossa aflição é que ele ganhe a eleição, porque a gente pode estar errado.

Se ele continuar desse jeito não ganha?

Ah, não. Não tem maioria.

Mas o tempo vai levando a gente ter razão ou não ter razão. Se a gente não tiver razão, e ele tiver razão e ganhar, nós vamos ser os primeiros a ficar debaixo do palanque, aplaudindo. Nenhuma dificuldade quanto a isso.

Agora, a ansiedade... Eu tenho 68 anos. Vou fazer 69. Não tenho mais idade de entrar numa eleição achando que algumas coisas estão erradas e ficar calado, boca calada.

Então liste três erros desta fase de pré-campanha que precisam ser ajustados. O primeiro seriam essas reuniões com a elite?

Faça também essas reuniões, mas não só elas. Aí a [colunista da Folha] Mônica Bergamo faz uma matéria dizendo quem esteva presente na reunião, que foi servido salgadinho. Aí o empresário tal falou com não sei quem... Isso não dá em nada. Dá para a coluna dela, prestígio. Para o candidato, não dá um voto.

Então o enfoque da presença do candidato só em reuniões não é bom, nessas reuniões de elite.

Não.

E os outros pontos a serem ajustados?

Esse segundo eles estão entrando agora. Que é entrar na Dilma, derrubar a Dilma.

Entrar na Dilma é atacar a administração Dilma Rousseff?

É. E em terceiro, não se iludir com o PMDB. Não achar que essa dissidência do PMDB é alguma coisa que produz resultado eleitoral para o Aécio ou para quem for. É entender que essa é a natureza do PMDB. Essas dissidências fortalecem o PMDB, que é um partido confederado.

O PMDB, no final, fará a campanha que fortaleça o PMDB. Com que condições o Aécio ou o Eduardo Campos podem aumentar a bancada de deputados federais dele, PMDB? Não tem instrumento para isso, só se fosse em Minas.

Se o PSDB e Aécio Neves continuarem insistindo no que o sr. classifica de erros, perdem a eleição? E Dilma ganha talvez no primeiro turno ou outro candidato ocupa o lugar de Aécio Neves e cresce?

Acho que neste momento o Eduardo Campos acelerou o discurso. Intensificou a marca. Ainda não tenho convicção de que ele tenha fôlego para crescer. Se eu tiver razão — posso não ter, né? —, eu acho que aí favorece Dilma vencer no primeiro turno.

A Dilma venceria no primeiro turno?

Poderia. Inclusive tem que se tomar muito cuidado. Há uma probabilidade de o não voto crescer nessa eleição. Chamo de "não voto" o seguinte: abstenção, branco, nulo, não sabe, não respondeu. Eu somo isso tudo e chamo de não voto.

Há uma probabilidade de esse não voto se aproximar de 40%. Quem perde?

A oposição?

A Dilma não perde — tem o voto do Nordeste, do interior, que tem uma máquina grande, uma máquina de gente.

Perde a oposição?

Claro. [Dilma] perde menos. Isso pode gerar um primeiro turno. Em condições normais de temperatura e pressão, ela precisaria ter 47% para ganhar no primeiro turno. Nas últimas eleições, com 43%, isso produz segundo turno. Se essa massa de "não voto" crescer, ela pode ganhar no primeiro turno com 40%? Pode.

O sr. está com um viés pessimista...

Não. Estou com viés construtivo. É muito diferente. Se eu estivesse em setembro, eu diria que estou com viés pessimista. Não estou. Nós estamos no mês de março.

Há tempo para reação?

Há, total. Com essas delegações de futebol chegando, você tem que sair do palco e fazer a campanha no contato direto.

É o caminho que se tem.

É um quadro que exige habilidade estratégica. O presidente Fernando Henrique, que é, vamos dizer, o mentor do Aécio Neves.

Eles tinham que ter coragem de fazer uma pesquisa para saber se a impopularidade de Fernando Henrique continua a mesma. Se ele dá voto ou se ele tira.

Porque eu nunca vi o Fernando Henrique em uma situação de disposição como hoje. Faz palestra em tudo quanto é lugar.

Mas as pesquisas anteriores indicavam que ele não dava voto...

Tirava. Agora, como é que está isso hoje? Isso tem que se saber, tem que se colocar. Se votaria num candidato apoiado ostensivamente pelo presidente Fernando Henrique. Tem que saber. Para saber se o Aécio tem que ter um mentor guardado, oculto, ou se tem que ter um mentor na linha de frente.

Aparentemente, pesquisas reservadas, sobretudo de dentro do governo, dizem que Fernando Henrique continua não dando voto. Nesse caso, é um erro a exposição dele junto com Aécio?

Total. Tem que botar pesquisa. Votaria em quem? Lula ou Fernando Henrique? Expõe logo, direto. Dilma ou Fernando Henrique? Expõe direto. Para ver o que que significa a contribuição no voto. Contribuição nas ideias não há no Brasil ninguém que possa contribuir mais com Aécio do que Fernando Henrique Cardoso.

Foi bom o PFL trocar de nome para democratas?

Péssimo. Isso foi uma ideia do [Antonio] Lavareda. A ideia do Lavareda era "Partido Democrata", copiando o americano. Mas aí refluíram e improvisaram o Democratas. Um erro da maior gravidade. O Democratas não é nada — [só] ver pesquisa. O PFL tinha lá 4%, 5%, [hoje] não tem nada. Um erro grave.

Tem como reverter?

Vamos ver. Acho que dentro dessa linha, vamos eleger 43 deputados, como elegemos em 2010.

O sr. proporia voltar ao nome PFL?

Não. Aí já era, não dá mais.

O [Jorge] Bornhausen foi um excelente presidente do partido, fez o congresso da refundação. Parecia que as coisas estavam bem pensadas para Partido Democrata. Mas nunca para um Democratas genérico. Você tem que botar "o" Democratas, e a pessoa acha que tem um erro.

O sr. é pré-candidato a governador do Estado do Rio de Janeiro. Tem chance de o sr. desistir dessa candidatura?

Não, nenhuma chance. Nenhuma chance. Quem está na frente tem 17%, 18%. [Marcelo] Crivella, [Anthony] Garotinho. Quem está lá atrás, que é o [Luiz Fernando] Pezão e o Miro [Teixeira], tem 5%, 4%. Todos sabem, pois todos são profissionais, que quem passar de 15% tem chance de ir para o segundo turno.

Eu já fui para o segundo turno em 1992 com 16%. Já fui para o segundo turno em 2000 com 20%. Fôlego para ir para o segundo turno, passando de 15%, eu posso ter. Principalmente porque a situação do Rio de Janeiro é da maior gravidade em matéria de descontrole administrativo e de segurança pública.

Quem é o mais competitivo, na sua opinião, de todos já pré-lançados?

Depende. No primeiro turno, o próprio Garotinho ou Crivella. No segundo turno, os dois perdem. Aí ficam todos ansiosos para ver quem vai ao segundo turno com Garotinho ou Crivella, para ganhar a eleição.

A grande surpresa que a gente está tendo é essa performance pré-eleitoral do Lindbergh [Farias]. O Lindberg foi eleito senador com uma votação espetacular. Talvez seja o político que melhor faz campanha na rua, vai bem na televisão.

Como é que Lindbergh pode estar nesse momento com 11%, 10%, como deu o último Ibope? Como é que pode?

O Crivella tem uma explicação. Ele me disse, pessoalmente: "Cesar, o problema é que há uma fatia grande da população que acha que essas manifestações todas passaram do ponto e há um 'bagunção' nisso tudo. E como ele [Lindbergh] tem essa origem, colaram ele nisso. Ele tem que fazer um descolamento".

Qual é a expectativa hoje dele [Lindbergh]? É que o Lula venha com a mão salvadora, que ele sente no colo do Lula. Só que como é que o Lula faz isso numa campanha com tantos candidatos no Rio de Janeiro da chamada base aliada? Você sabe que a Dilma não engole o Lindberg. Não engole. Você sabe que o Crivella é o mais confiável de todos eles. Confiável é aquele que faz campanha onde você não tem voto. O Crivella fará isso daí. Então como é que o Lula vai se movimentar numa campanha como essa? A Dilma é muito próxima do Pezão, estabeleceu uma linha de amizade quando era ministra ainda. Então, enfim, é uma situação difícil para eles mexerem.

Fernandes Rodrigues
No fAlha
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Tudo em nome de deus

Seria esta a imagem de deus?

Há muitos e muitos anos, nasceram três personagens que mudariam a História para sempre.

Os três tinham em comum o de serem árabes.

O iraquiano Abraão.

O egípcio Moisés.

O palestino Jesus.

Os 3 tinham em comum raciocinar em língua morta.

E o último dos profetas falava uma língua viva.

Isso até as oliveiras palestinas sabem.

Mas como nunca ninguém viu deus, cada qual começou a interpretá-lo de acordo com os seus interesses.

E aí foi aquele deus nos acuda.

Em seu nome cometeram horrores.

Em seu nome cometeram crueldades.

Em seu nome fizeram fortunas.

Invadiram nações.

Saquearam riquezas.

Sangraram velhos, mulheres e crianças.

Destruíram culturas.

Tudo em nome de um deus que nunca ninguém viu.

E arrumaram até um parceiro para ele.

Pobre diabo...

No Blog do Bourdoukan
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Embaixador russo na ONU contesta os insultos de uma jornalista da CNN

Vitaly Churkin, Embaixador da Rússia na ONU
Christiane Amanpour, na 5ª-feira (20/3/2014), em seu programa na CNN:
Continuamos tentando fazer contato com o governo russo para que comente [o que acontece na Ucrânia], incluindo com ocupantes de altos cargos, como o embaixador russo na ONU, Vitaly Churkin. Até agora não tivemos sorte, mas talvez pessoas como Churkin sintam que não devam abandonar sua zona de conforto.
Christiane Amanpour
Amanpour também mencionou a filha de Churkin, jornalista, que trabalha em Russia Today e, há poucos dias, fez perguntas incômodas à porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Jen Psaki, sobre suas declarações sobre a crise da Ucrânia.
No passado, ela informou até sobre o próprio pai – disse a apresentadora da CNN.
Pelo visto, os mesmos valores éticos aos quais se refere a jornalista norte-americana não se aplicariam à própria Amanpour que, certa vez, entrevistou o próprio marido, James Rubin, então assistente da ex-Secretária de Estado, Madeleine Albright. Da mesma “entrevista” também participou o marido de Victoria Nuland, Robert Kagan, membro da direção da Iniciativa de Política Exterior (Foreign Policy Initiative, FPI), e, coincidentemente, agente ativo no caso da recente história de autodemissão, no ar, de Liz Wahl, apresentadora de Russia Today.

Em resposta ao que disse Amanpour, o representante permanente da Rússia na ONU resolveu escrever-lhe uma Carta Aberta, para apresentar sua própria visão da situação:
Estimada Sra. Amanpour,

Fui surpreendido pelos ataques pessoais aos quais a senhora recorreu em seu programa do dia 20/3. Conheço seu programa há muitos anos (inclusive de várias entrevistas) e em geral respeito seu trabalho. Por isso me surpreendeu um pouco que minha total impossibilidade de lhe conceder outra entrevista tenha provocado aquele surto.

Quanto à minha falta de vontade para deixar, como disse a senhora, “minha zona de conforto”, tem toda a razão. Depois de oito reuniões do Conselho de Segurança sobre a situação na Ucrânia e Crimeia (seis delas realizadas diante das câmeras de televisão), sinto-me muito confortável, ao ver que se começa, afinal, a compreender a situação real.

Se, ainda assim, a senhora insinua que eu não quereria responder perguntas difíceis, é porque não é suficientemente madura para saber que falei para recinto apinhado de gente, na Catedral Nacional de Washington, em outubro de 1983, duas semanas depois que o avião de passageiros da Coreia do Sul fora derrubado; e que em maio de 1986 testemunhei no Congresso dos EUA, depois do desastre nuclear de Chernobyl; para nem falar de centenas de entrevistas em centenas de outros veículos, e das entrevistas “ao vivo”. Sou homem que pode dar aulas a muita gente sobre deixar “zonas de conforto”.

Mas não estaria escrevendo à senhora, se a senhora não tivesse resolvido atacar pessoalmente também minha filha, sua colega de profissão, mais jovem que a senhora, jornalista de uma rede russa de televisão. Sou muito orgulhoso de minha filha, não só porque é boa jornalista, mas porque sabe manter estritamente a distância profissional em relação a mim.

Lembro-lhe, sobre esse tipo de comportamento, que a senhora está casada com o porta-voz do Departamento de Estado. Como ficou sua credibilidade durante o noivado?

Não se dê o trabalho de responder. Sua resposta não me interessa.

Vitali Churkin
No Redecastorphoto
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Mensaje de la Juventud Bolivariana a la Patria


(se necessário, ative a legenda em espanhol)
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As redes sociais rompem o cerco midiático

Acostumada a ditar regras ou modismos e a conduzir a vida política e cultural do país a mídia tradicional depois de "reinar" absoluta por décadas encontra hoje um contraponto exemplar: a internet. Longe de controles econômicos ou paradigmas a internet chegou para tirar o bolor e a manipulação constante do noticiário, notadamente, da chamada grande imprensa e seus articulistas que se consideram os "donos da verdade".

A aprovação do Marco Civil da Internet coloca o Brasil na vanguarda e libera as redes das amarras do mercado. A vitória da neutralidade da rede na Câmara impediu de a mesma se transformar em uma mera TV a cabo que geraria o aumento dos custos para os usuários e dificultaria o acesso das camadas populares aos benefícios da internet.

O engajamento de diversos setores da sociedade e o firme propósito da Presidenta Dilma em garantir o Marco Civil resultaram em uma votação quase unanime na Câmara dos Deputados, fato relevante para assunto de tamanha envergadura.

As esquerdas por terem tido sua voz omitida nos grandes veículos e por terem sofrido uma longa e sistemática perseguição pela ditadura do pensamento único devem estimular o uso das redes sociais. Se já existissem as ferramentas de rede social a escandalosa manipulação perpetrada pela Rede Globo de Televisão do debate entre Lula e Collor em 89 teria sido desmascarada em tempo real. A farsa do ataque da bolinha de papel engendrada pelo então candidato José Serra em 2010 com o auxílio das redes sociais pode ser denunciado e desmascarado.

Competir com o poderio econômico dos meios tradicionais de comunicação é dificílimo. Estabelecidos há décadas e bafejados pelos poderes financeiros nacionais e internacionais, os grandes meios de comunicação construíram no Brasil verdadeiros oligopólios midiáticos de gestão familiar. Essa condição monopolística não encontra paralelo em nenhuma grande democracia do mundo moderno. Como pode um único grupo de comunicação possuir Tvs abertas e fechadas, rádios, jornais, revistas, editoras e até gravadoras? Nos Estados Unidos, Meca do capitalismo mundial, as leis vigentes não permitem tal situação.

Aqui, fortalecidos pela subalternidade de variados setores políticos, eles podem isso e muito mais. Tem sido difícil garantir o Direito de Resposta contra ataques desferidos pela mídia, objetivando arruinar a reputação de pessoas físicas e jurídicas. Eles acobertam-se com o manto da "liberdade de expressão" que só vale para um lado: o lado deles!

O Partido dos Trabalhadores já percebeu o dinamismo das novas ferramentas de comunicação. O PT, por ser um partido de militantes e ativistas, muitos com o "couro curtido", pela longa disputa política, vem mostrando a face e agindo à luz do dia nas redes.

A contribuição da valorosa e combativa militância do PT, divulgando as ações dos governos populares e, ao mesmo tempo, combatendo as mentiras e calúnias que se apresentam no dia a dia tem sido um diferencial.

Diferentemente dos partidos políticos, cuja principal função é a disputa eleitoral, o PT mantém e amplia seus vínculos com os movimentos sociais e com as pautas que visam o aprofundamento da democracia no Brasil. O caminho a se percorrer para que sejam ampliadas as conquistas da imensa maioria de brasileiras e brasileiros que vive à mercê da pausterização do noticiário é longo.

Disputar a pauta de mudanças é tarefa nossa. Quanto mais ativos e participantes formos, mais condições teremos de alcançar os setores da sociedade brasileira que se encontram do lado de fora das discussões políticas, seja por desconhecimento, pelo afastamento ou por desencanto provocado pelo denuncismo, sem fim, dos meios de comunicação tradicionais.

Submetidos ao bombardeio reiterado da imprensa comercial e da pusilanimidade de certos intelectuais que são meros porta-vozes do antiprogressismo, grande parcela da nossa população não tem acesso a outro tipo de opinião.

Por tudo isso apoiar a mídia alternativa também é uma obrigação das forças populares. O simples fato de amplificar as vozes no panorama da comunicação já é de grande valia. Mesmo quando um blogueiro ou outro não pense como nós.

Há espaço de sobra para uma atuação firme que vise apresentar novidades. A mesmice é a razão da força do status quo. Sejamos diferentes esse é o caminho do futuro.

Alberto Cantalice, Vice-Presidente do PT
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Julgamento do mensalão mobilizou 'robôs' em 2013


Mais de 20 mil perfis de usuários falsos foram utilizados para espalhar pelo Twitter mensagem contra recursos no STF

No ano passado, um exército de "robôs" entrou em campo no Twitter durante o julgamento do mensalão com o provável objetivo de levar um slogan aos "trending topics" — a lista de termos mais citados, espécie de "pódio" dos assuntos debatidos na rede social.

Tudo começou quando, no dia 15 de setembro de 2013, uma usuária do Twitter postou uma mensagem para o perfil do Supremo Tribunal Federal com os dizeres "diga #NaoAosEmbargosInfringentes" - referência a um possível recurso que, se aceito pela Corte, poderia levar à redução de penas de alguns dos condenados pelo mensalão. O texto trazia ainda um link para um vídeo no YouTube, intitulado #OperaçãoBrasilSemPT.

No dia seguinte, a mensagem foi "retuitada" (reproduzida) por outros 23.846 usuários do Twitter — um volume expressivo e inusual. Análise feita pelo Estadão Dados detectou que apenas três das 23.846 reproduções do conteúdo foram feitas por pessoas de verdade e as demais, por perfis falsos.

Os "robôs" tinham várias características em comum: eram seguidos por zero usuários e também não seguiam ninguém no Twitter; entraram na rede em 13 ou 14 de setembro; e tinham em sua descrição biográfica ditados populares como "Pense duas vezes antes de agir", "A fome é a melhor cozinheira", "Onde come um, comem dois" - todos retirados de uma mesma página na internet.

A articulação provocou impacto na rede social: em determinado momento do dia 16 de setembro, #NaoAosEmbargosInfringentes foi o 153.º termo mais popular em todo o mundo no Twitter.

Daniel Bramatti
No O Estado de S. Paulo

* * *

Aécio sabia do que falava. Há mesmo o “mensalão da Internet”: o da direita…

No final de maio do ano passado, o senador Aécio Neves publicou um artigo na Folha, fazendo coro às acusações de Marina Silva de que havia um ”Mensalet” ou “mensalão da internet”, “uma indústria subterrânea voltada a disseminar calúnias e a tentar destruir reputações”.

“Fingindo espontaneidade, perfis falsos inundam as áreas de comentários de sites e blogs com palavras-chaves previamente definidas; robôs são usados para induzir pesquisas com o claro objetivo de manipular os sistemas de busca de conteúdo; calúnias são disparadas de forma planejada e replicadas exaustivamente, com a pretensão de parecerem naturais”., escreveu Aécio.

Hoje, o Estadão mostra que o presidente do PSDB sabia do que estava falando.

Pouco antes do julgamento dos embargos infringentes, segundo o jornal, “um ‘exército de “robôs” entrou em campo no Twitter durante o julgamento do mensalão com o provável objetivo de levar um slogan aos “trending topics” — a lista de termos mais citados”.

A mensagem “diga #NaoAosEmbargosInfringentes” foi espalhada por 23.846 usuários.

Deles, apenas três pessoas de verdade.

Os outros 23.843 eram perfis falsos, criados em série e, informa o repórter Daniel Bramatti, “seguidos por zero usuários e também não seguiam ninguém no Twitter; entraram na rede em 13 ou 14 de setembro”.

Todas as mensagens remetiam a um vídeo no Youtube, o “#OperaçãoBrasilSemPT”.

O senador Aécio Neves, que foi à Justiça tentar bloquear menções a seu nome que o associassem a entorpecentes ou a desvios de verba, certamente vai apoiar uma investigação sobre este “exército” de “robôs” que visava pressionar o Supremo e criar um clima de comoção nas redes sociais, não é?

E não precisa ser sob sigilo de Justiça, como fez ele, identificando-se apenas como “A.N. da C.”.

Pode e deve ser aberto, conduzido pelo Ministério Público Eleitoral, já que a menção ao “Brasil sem PT” deixa evidente o cunho de propaganda antipartido da propaganda e, portanto, tão propaganda eleitoral irregular quanto aquela que é a favor.

Basta imaginar o que estariam fazendo, a esta hora, os tucanos se a chamada fosse para um “#OperaçãoBrasilsemPSDB”.

É, simples, simples, descobrir a origem: basta pedir ao Twitter os “IP” dos criadores ou do criador dos perfis falsos, naqueles dois únicos dias. Identificado, ver quem o contratou.

Você acredita que o PT vá pedir essa apuração? Nem eu.

E os “brucutus” tucanos vão continuar agindo na certeza da impunidade.

No Amoral Nato
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A tortura foi a patologia de um regime hediondo

De um documento oficial: “O DOI/CODI de São Paulo deixou a herança de mais de 6.000 vítimas de prisão, todas talvez torturadas, e de mais de 60 mortes. Para esta ação, são considerados 64 casos descritos no relatório oficial da Presidência da República Direito à Verdade e à Memória. Esse relatório foi elaborado a partir da apreciação dos pedidos de reparação de danos formulados por familiares na forma da Lei n° 9.140/95. Consta ali o reconhecimento da prática de HOMICÍDIOS, DESAPARECIMENTOS e TORTURAS pelos agentes do DOI/CODI·SP, nos períodos de comando dos réus USTRA e MACIEL. Para dar a dimensão da gravidade dos fatos, apresenta-se, a seguir, a transcrição de alguns dos casos”.

Basta um caso para dizer tudo.

“SÔNIA MARIA DE MORAES ANGEL JONES

– Há duas versões para a morte de Sônia. A primeira, do primo do pai dela, coronel Canrobert Lopes da Costa, ex-comandante do DOI-CODI de Brasília e amigo pessoal do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI de São Paulo: ‘Depois de presa, do DOI-CODI/SP foi mandada para o DOI-CODI/RJ, onde foi torturada, estuprada com um cassetete e mandada de volta a São Paulo, já exangue, onde recebeu dois tiros.

A segunda, do ex-sargento Marival Dias Chaves do canto, do DOI-CODI/SP, em entrevista concedida à revista Veja, em 18/11/1992. Segundo ele: ‘Antônio Carlos e Sônia foram presos no canal 1 em Santos, onde não houve qualquer tiroteio, e nem ao menos um tiro, apenas a violência dos agentes de segurança que conseguiram imobilizar o casal aos socos, pontapés e coronhadas. Eles foram torturados e assassinados com tiros no tórax, cabeça e ouvido (…) Foram levados para uma casa de tortura, na zona sul de São Paulo, onde ficaram de cinco a 10 dias até a morte, em 30 de novembro. Depois disso, seus corpos foram colocados à porta do DOI-CODI, para servir de exemplos, antes da montagem do teatrinho. Foram sepultados como indigentes no Cemitério de Perus, Sonia com nome falso. Ao final do Auto de Exibição e Apreensão do DOI-CODI, datado de 30/11/1973, porém, encontra-se a ressalva: ‘Em Tempo: Material encontrado em poder de Esmeralda Siqueira Aguiar, cujo nome verdadeiro é Sônia Maria Lopes de Moraes’”.

Ustra é um animal que vive solto.

Protegido pela Lei da Anistia.

Um “herói” do glorioso regime militar implantado como a moralizadora “redentora”.

Juremir Machado
No Correio do Povo
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Mineiros dispostos a conversar com o cambaleante candidato


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Nunca vi o presidente João Goulart planejar um golpe comunista

Ex-ministro do trabalho de jango defende seu governo e aponta o interesse dos EUA como um dos motivos que provocaram sua deposição


No golpe de 1964, o então deputado amazonense Almino Affonso (PTB) tentou defender no Congresso o mandato do presidente João Goulart, de quem havia sido ministro do Trabalho. A resistência durou pouco. Cassado, foi ao exílio. Voltou ao país em 1976 e retomou a carreira em São Paulo. No PMDB, foi vice-governador na chapa de Orestes Quércia (1987-1991). Em 1994, no PSDB, se elegeu para a Câmara novamente.

Prestes a fazer 85 anos, Affonso lança nesta semana o livro "1964 na Visão do Ministro do Trabalho de João Goulart". Cinquenta anos depois, faz uma defesa veemente do presidente à época: nega qualquer intenção de Goulart em promover um golpe à esquerda e vê no interesse dos EUA um dos principais motivos de sua deposição.

— Quais os motivos do golpe?

— Em primeiro lugar, o presidente João Goulart assume o governo já em plena crise econômica.

A inflação subia fortemente já no final do governo Kubitschek (1956-61). Foi um período empreendedor, mas que teve consequências pesadas no plano inflacionário. Agravado logo em seguida pelo período Jânio Quadros (1961), que passa apenas sete meses no governo e renuncia.

Quando o presidente João Goulart assume o governo sob o sistema presidencialista, em 24 de janeiro de 1963, a inflação já estava em torno de 55%. Em dois meses, estava em 60%. Ou seja, é um governo que herdou um quadro dramático em termos inflacionários.

Como decorrência, se refletiu na crise social. O salário começa a ser corroído, e a forma clássica é o trabalhador ir pra greve, luta de pressão social pra recuperar seus ganhos. Ou seja, ele já começa com um quadro extremamente difícil.

Para enfrentar isso, ele tinha de ter negociações imediatas com os EUA para reescalonar a dívida externa, também altíssima, herdada. Nós tínhamos uma política externa legítima, mas contrariava interesses dos EUA.

Por exemplo, o reatamento das relações diplomáticas com a União Soviética. Para nós, era importantíssimo, porque abria espaço maior para negociações internacionais, a começar pela eventual compra do nosso café em troca de petróleo. Mas, para os EUA, era agressão, havia um quadro de choque no plano diplomático, que se refletia no plano econômico e social.

Segundo, houve o Plano Trienal, o primeiro plano que se esboça no país. Foi elaborado por Celso Furtado [ministro do Planejamento]. Quando o governo se instala, tinha objetivo e projeto previsto. E, nesse plano, havia algumas reformas consideradas necessárias para poder levar adiante as mudanças.

Dessas reformas, uma delas era a reforma agrária, que se tornou centro politizador do governo e da sociedade. O governo fazia, através do presidente João Goulart, campanha entusiasta pela necessidade de reforma agrária, mas os latifundiários se opunham de uma maneira radical.

Essa mentalidade, essa visão política dos latifundiários, era majoritária na Câmara. Logo, não tínhamos como alterar a Constituição.

— Jango preparava um golpe, como alegava seus adversários?

— O [discurso] anti-Jango foi montado de uma forma impressionante. Dou vários exemplos: primeiro, de que o Jango estava tramando um golpe de Estado com o Partido Comunista para instalar um governo paracomunista.

É um absurdo tão imenso, que me espanta que tenha prosperado de uma maneira que era literalmente repetido por toda a imprensa, com a exceção do "Última Hora". Toda a imprensa, inclusive a nossa Folha. Isso ajudava aqueles que tinham posições contrárias ao campo do latifúndio, ao direito de greve etc. Era uma forma de fortalecer o contraditório.

Veja os ministros de João Goulart no primeiro mandato. João Mangabeira [Justiça] era um dos maiores constitucionalistas do país, uma história política exemplar. O ministro da Fazenda, San Tiago Dantas, um dos homens mais inteligentes e cultos que conheci na vida.

Nunca havíamos tido um Ministério do Planejamento. O primeiro se monta aí. Quem organiza? Celso Furtado. Ministro da Agricultura: José Ermírio de Morais. Uma das maiores lideranças industriais. Quem deles faria, com o presidente, qualquer trama golpista de caráter comunista? A falsidade espanta.

Não vi nunca, jamais, um gesto do presidente tramando um golpe. Eu multiplicaria exemplos para demonstrar que, em várias oportunidades, não faltaram os que sugeriram medidas dessa ordem. Ele recusou sistematicamente.

Um dia, nós vínhamos da Granja do Torto para o Palácio do Planalto, eu vinha ao lado do presidente e estava o general Amaury Kruel na frente. Quando passamos pelo Congresso, o Kruel disse: "Presidente, com um regimento, eu fecho isso e pronto, acaba tudo". E o presidente disse: "Pra quê, general?".

Pela esquerda, Jango era descrito como político inapto...

É só analisar os fatos. Muito jovem, foi eleito deputado estadual. Logo, é presidente do Partido Trabalhista (PTB). Depois, é o coordenador da campanha de Getúlio Vargas, em 1950. Logo, é ministro do Trabalho, com 34 anos.

Ele abre o ministério para o diálogo com os trabalhadores. Vai adiante e vira candidato a vice-presidente da República com Juscelino Kubitschek. Na época, a chapa era individualizada. Com JK, ele tem votação de vice maior do que Juscelino. Será porque ele é um inábil, tolo, boboca? Não parece muito.

Ele foi candidato na chapa com o marechal [Henrique Teixeira] Lott, o candidato anti-Jânio. Ele teve votação maior do que o Lott. O João Goulart não era homem brilhante, de maior cultura. Mas era de uma sensibilidade política extraordinária e fez uma carreira política rara.

Qual é a sua posição sobre a revisão da Lei da Anistia?

Eu compreendo que queiram rever a Lei da Anistia, mas não vejo viabilidade. Quando a correlação de forças sociais permite, você avança o quanto pode. Ninguém inventa as mudanças, salvo pelas armas.

A abertura no Brasil foi com suavidades. No Chile, na Argentina, no Uruguai, se derrubou o regime militar. Aqui, houve quase uma transação, senão explícita, pelo menos implícita. Criaram-se os limites do avanço.

Fabiano Maisonnave
No fAlha
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Momento dramático

Não levar a sério a Petrobras, e tudo
que lhe diga respeito, é ser 
irresponsável com o país

As duas táticas que o PT planeja, para conter efeitos eleitorais de uma CPI da Petrobras contrários a Dilma Rousseff, não prometem o que os petistas delas esperam e têm um componente ainda pior.

É fácil protelar a instalação de CPI. O PT e seus duvidosos aliados podem, de fato, levá-la em suspenso até as proximidades ou o início da Copa. A partir daí, instalada ou não, nem a oposição se empenharia em movimentá-la, na inviável concorrência com o interesse popular pelos jogos.

Mas não é bem fundada a crença dos petistas de que, passada a Copa, em agosto o contingente político estará forçosamente dedicado à campanha eleitoral, buscando recuperar em oito semanas o tempo perdido. A CPI pode ser, ela própria, um veio fértil para campanha eleitoral, justificando esforços para dar-lhe repercussão. E, nesse sentido, os partidos de oposição nem precisariam de grandes feitos: uma sessão ferina por semana será suficiente para que os meios de comunicação alimentem e engrandeçam a temática oposicionista até a sessão seguinte. E assim em diante.

O efeito eleitoral de escândalos é criado nos meios de comunicação, não é obra dos políticos.

Quando instalada a CPI, a tática de desviá-la dos objetivos oposicionistas com temas originários do PSDB, na Petrobras ou nas transações paulistas com cartéis, não seria tão simples. Exigiria, entre outros fatores, uma bancada petista bem preparada. O que está muito longe da realidade. Basta ver sua preguiçosa incompetência para trabalhar com as negociatas em governos peessedebistas, só abordadas por pequena parte dos jornais.

O PT está diante de um problema que não se limita a possíveis reflexos eleitorais de uma CPI da Petrobras. Entradas VIP para a Fórmula 1 são abuso de agora, mas ridículo em comparação com os indícios emitidos pela compra da refinaria nos Estados Unidos e com os desatinos perceptíveis na sociedade e na obra da refinaria em Pernambuco. E estes dois casos são de responsabilidade direta do PT e do que há de mais importante para o PT: o governo Lula e o próprio.

Não levar a sério a Petrobras, e tudo que lhe diga respeito, é ser irresponsável com o país. O que adverte para a utilização política que dela façam os oposicionistas e contém uma indagação dramática para o PT.

Mais mais

Mesmo com seus novos ares de agremiações políticas, ou por causa deles, o Conselho Federal de Medicina e a Associação Médica Brasileira devem suas apreciações sobre a constatação — do Datafolha, não do governo — de que 14 milhões de brasileiros, ou 10% de toda a população com mais de 16 anos, foram atendidos por algum médico estrangeiro em menos de seis meses do Mais Médicos.

Claro que se espera o argumento, respeitável, de que a qualidade do atendimento importa mais que a quantidade. Se as duas entidades tiverem o que dizer a respeito, não façam cerimônia. Os futuros 14 milhões de beneficiados aguardam.

Original

General Leônidas Pires Gonçalves, sobre os 50 anos do golpe: "Nós, militares, nunca fomos intrusos na história".

A história conhecida pelo general não inclui nem a Proclamação da República.

Janio de Freitas
No fAlha
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A imprensa e o golpe de 64

Um aliado dos generais
Folha, Globo e outros jornais estão fazendo especiais sobre os 50 anos do Golpe.

É uma tragédia e ao mesmo tempo uma comédia.

Qualquer esforço sério para falar do Golpe tem que tratar do papel crucial da mídia. O que jornais como o Globo, a Folha, o Estadão e tantos outros fizeram, portanto.

Alguma linha sobre o assunto?

Pausa para rir, ou para chorar. Você escolhe.

1964 não teria existido sem a imprensa, este é um fato doído para nós, jornalistas.

Os jornais construíram um Brasil fantasioso – de mentira, sejamos diretos – que chancelaria a ação dos militares.

Como mostrou o jornalista Mário Magalhães em seu blog nestes dias, o presidente João Goulart tinha alta popularidade em março de 1964.

Numa pesquisa do Ibope, não divulgada à época e nem por muitos anos, ele aparecia bem à frente na lista de intenções de voto para as eleições presidenciais de 1965.

Como não seria popular um presidente que tinha uma agenda pró-povo como Jango? Entre outras coisas, em seu governo foi criado o 13.o salário, que o Globo — numa hoje amplamente exposta e debochada primeira página — tratou como calamidade.

Mas o noticiário criava a sensação de que os brasileiros em massa eram contra Jango. O Globo conseguiu dizer que a democracia fora “restaurada” com o golpe que mataria tantas pessoas e faria de seu dono o homem mais rico do país.

Mesmo o grande jornal que mais tarde foi uma trincheira na oposição aos militares — o extinto Correio da Manhã — produziu duas manchetes que entrariam tristemente na história.

Uma delas dizia “Basta!” e a outra “Fora!” Como maus exemplos prosperam, a Veja copiaria o Correio da Manhã na capa em que, décadas depois, anunciou a saída de Collor. (E sonharia por oito anos repetir a cópia na gestão de Lula.)

O apoio da mídia à ditadura se manteria enquanto os militares foram fortes para beneficiar seus donos. (É extraordinário o trabalho do professor Fabio Venturini em mostrar como os generais,com dinheiro público, enriqueceram os donos das empresas jornalísticas. Venturini foi ouvido pelo site Viomundo.)

A campanha da Folha pelas eleições diretas só veio quando a ditadura cambaleava: politicamente, a insatisfação galopava, e a economia era um caos insustentável.

Antes, Octavio Frias se comportara de maneira bem diferente. Cedera carros da Folha para a caça a opositores da ditadura, o que o levou a temer ser justiçado como outro empresário que fez o mesmo, Henning Albert Boilesen, da Ultragás.

Frias mostrou também sua combatividade seletiva quando, depois de uma crônica de Lourenço Diaféria que dizia que o povo mijava na estátua do Duque de Caxias, patrono do Exército, recebeu uma ordem de um general para afastar o diretor de redação Claudio Abramo.

Afastou — não um mês, uma semana, um dia depois. Afastou na hora. Covardemente, ainda mandou retirar seu próprio nome — dele, Frias — da primeira página do jornal como “diretor responsável”.

Pôs o de Boris Casoy, escolhido para substituir Claudio por causa de seus notórios vínculos com a ditadura. Boris foi integrante do Comando de Caça aos Comunistas, o CCC. Não sabia escrever, mas isso era um detalhe.

Depois, quando a ditadura desabava, Frias autorizou valentemente a campanha das Diretas Já, tão enaltecida como nascida da grandeza de Frias ainda hoje por jornalistas de renome como Clóvis Rossi.

Quando penso no papel desempenhado pela imprensa no golpe, tenho vergonha de ser jornalista. Mas aí me lembro de como o DCM é diferente de tudo aquilo e sigo adiante, para combater o bom combate por um país libertário, ensolarado para todos, meritocrático de verdade, socialmente justo — um ‘Brasil Escandinavo’, em suma.

Paulo Nogueira
No DCM
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