27 de mar de 2014

A inconsistência estatística do Ibope

Por dados do Ibope, Dilma não perdeu popularidade. Pesquisa de hoje é mais antiga que a dos 43%. Aliás, estava pronta quando esta foi publicada


Primeiro, semana passada, o boato de que a pesquisa Ibope traria uma queda — que não houve — da intenção de voto em Dilma Rousseff.

Seis dias depois, uma “outra” pesquisa do Ibope, estranhamente, capta uma súbita mudança de estado de espírito da população e Dilma (que tinha 43% das intenções de voto na tal pesquisa eleitoral) e registra uma perda de sete pontos percentuais em sua aprovação: curiosamente dos mesmos 43% para 37%…

Puxa, como foi rápida a queda, em apenas seis dias, quase um por cento por dia…

É, meus amigos e amigas, é mais suspeito do que isso.

A pesquisa de intenção de voto, divulgada na sexta-feira, foi registrada no TSE no 14 de março, sob o protocolo BR-00031/2014, com realização das entrevistas entre os dia 13 e 20/03/14.

Já a de popularidade recebeu o protocolo BR-00053, no dia 21 passado, mas quando já se encontrava concluída, com entrevistas entre os dias 14 e 17.

Reparou?

Quinta feira à tarde, dia 20, uma intensa boataria toma conta do mercado de capitais, dizendo que Dilma perderia pontos numa pesquisa Ibope a ser divulgada no Jornal Nacional.

O estranho é que ninguém tinha contratado, isto é , ninguém pagou por essa pesquisa. Em tese, é claro.

A pesquisa é divulgada sem nenhuma novidade.

Mas, naquele momento, o Ibope já tinha outra (outra, mesmo?) pesquisa, terminada três dias antes e certamente já tabulada.

Vamos acreditar que o Ibope fez duas pesquisas diferentes, com a mesma base amostral e 2002 entrevistas exatamente cada uma…

O boato, portanto, não saiu do nada.

No mínimo veio de dentro do Ibope, que tinha nas mãos duas pesquisas totalmente contraditórias.

Uma, “sem dono”, que dizia que Dilma continuava nadando de braçada.

Outra, encomendada pela CNI de Clésio Andrade, um dos senadores signatários da CPI da Petrobras, apontando uma queda de sete pontos em sua popularidade.

Mas a gente acredita em institutos de pesquisas, não é?

O Ibope teve nas mãos duas pesquisas com a mesma base, realizadas praticamente nos mesmos dias, com resultados totalmente diferentes entre si?

Se o PT não fosse um poço de covardia estaria exigindo, como está na lei, os questionários das “duas” pesquisas.

Aliás, nem devia ser ele, mas o Ministério Público Eleitoral, quem deveria exigir explicações públicas do Ibope, diante destes indícios gravíssimos de — vou ser muito suave, para evitar um processo — inconsistência estatística.

Ainda mais porque muito dinheiro mudou de mãos na quinta-feira e hoje, com a especulação na Bolsa.

Mas não vão fazer: esta é uma nação acoelhada diante das estruturas suspeitíssimas dos institutos de pesquisa.

Fernando Brito
No Tijolaço
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A Globo no seu esforço diário para mostrar um cenário caótico, mais um post para a coleção…


No DesmascarandoGloboFolha
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Privataria: Ano a ano, os estragos que FHC fez na Petrobras


Em reação às crescentes manifestações contra a chamada CPI da Petrobras, criada pela oposição ao governo Lula, o senador Sérgio Guerra (PSDB/PE) disse que as críticas dos manifestantes vão “bater no vento”. “Não estamos atacando a Petrobras, estamos defendendo a empresa. Vamos atrás de gente que não merece estar nessa empresa. É desnecessária a forma como se deu o discurso ofensivo contra o PSDB, isso já compromete essa manifestação na sua origem”, avaliou Guerra, em matéria no Jornal do Brasil, dia 22 [de maio de 2009].

Para refrescar a memória do senador e demais entusiastas da CPI, Fernando Siqueira, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet), selecionou “Dez estragos produzidos pelo governo FHC no Sistema Petrobras”.

Crimes sem castigo: Aepet denúncia dez estragos do governo FHC na Petrobras

Fernando Siqueira, via Portal do Mundo do Trabalho em 26/5/2009

Estragos produzidos na Petrobras, pelo governo FHC, visando desnacionalizá-la.

1993 Como ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso fez um corte de 52% no orçamento da Petrobras, previsto para o ano de 1994, sem nenhuma fundamentação ou justificativa técnica.

Ele teria inviabilizado a empresa se não tivesse estourado o escândalo do Orçamento, fazendo com que se esquecessem da Petrobras.

Todavia, isso causou um atraso de cerca de 6 meses na programação da empresa, que teve de mobilizar as suas melhores equipes para rever e repriorizar os projetos integrantes daquele orçamento.

1994 Ainda como ministro da Fazenda, com a ajuda do diretor do Departamento Nacional dos Combustíveis, Fernando Henrique manipulou a estrutura de preços dos derivados do petróleo, de forma que, nos seis últimos meses que antecederam o Plano Real, a Petrobras teve aumentos mensais, na sua parcela dos combustíveis, em valores 8% abaixo da inflação. Por outro lado, o cartel internacional das distribuidoras de derivados teve, nas suas parcelas, aumentos de 32% acima da inflação.

Isto significou uma transferência anual, permanente, de cerca de US$3 bilhões do faturamento da Petrobras para o cartel dessas distribuidoras.

A forma de fazer isso foi por meio dos dois aumentos mensais, que eram concedidos aos derivados, pelo fato da Petrobras comprar o petróleo em dólares, no exterior, e vender no mercado, em moeda nacional. Havia uma inflação alta e uma desvalorização diária da nossa moeda. Os dois aumentos repunham parte das perdas que a Petrobras sofria devido a essa desvalorização.

Mais incrível: a Petrobras vendia os derivados para o cartel e este, além de pagá-la só 30 a 50 dias depois, ainda aplicava esses valores, e o valor dos tributos retidos para posterior repasse ao Tesouro, no mercado financeiro, obtendo daí vultosos ganhos financeiros, em face da inflação galopante então presente. Quando o Plano Real começou a ser implantado, com o objetivo de acabar com a inflação, o cartel reivindicou uma parcela maior nos aumentos, porque iria perder aquele duplo e absurdo lucro.

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1995 — Em fevereiro, já como presidente, FHC proibiu a ida de funcionários de estatais ao Congresso para prestar informações aos parlamentares e ajudá-los a exercer seus mandatos com respaldo em informações corretas.

Assim, os parlamentares ficaram reféns das manipulações da imprensa comprometida. As informações dadas aos parlamentares no governo de Itamar Franco, como dito acima, haviam impedido a revisão da Constituição Federal com um claro viés neoliberal.

Fernando Henrique emitiu um decreto, nº 1.403/95, que instituía um órgão de inteligência, o Sial, Serviço de Informação e Apoio Legislativo, com o objetivo de espionar os funcionários de estatais que fossem a Brasília falar com parlamentares. Se descobertos, seriam demitidos.

Assim, tendo tempo de trabalho para me aposentar, solicitei a aposentadoria e fui para Brasília por conta da Associação. Tendo recursos bem menores que a Petrobras (que, no governo Itamar Franco, enviava 15 empregados semanalmente ao Congresso), eu só podia levar mais um aposentado para ajudar no contato com os parlamentares. Um dos nossos dirigentes, Argemiro Pertence, mudou-se para Brasília, às suas expensas, para ajudar nesse trabalho.

Também em 1995, FHC deflagrou o contrato e a construção do Gasoduto Bolívia-Brasil, que foi o pior contrato que a Petrobras assinou em sua história. FHC, como ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, funcionou como lobista em favor do gasoduto. Como presidente, suspendeu 15 projetos de hidrelétricas em diversas fases, para tornar o gasoduto irreversível. Este fato, mais tarde, acarretaria o “apagão” no setor elétrico brasileiro.

As empresas estrangeiras, comandadas pela Enron e Repsol, donas das reservas de gás na Bolívia, só tinham como mercado o Brasil. Mas a construção do gasoduto era economicamente inviável. A taxa de retorno era de 10% ao ano, enquanto o custo financeiro era de 12% ao ano. Por isso, pressionaram o governo a determinar que a Petrobras assumisse a construção. A empresa foi obrigada a destinar recursos da Bacia de Campos, onde a taxa de retorno era de 80%, para investir nesse empreendimento.

O contrato foi ruim para o Brasil pelas seguintes razões: mudança da matriz energética para pior, mais suja; ficar dependente de insumo externo dominado por corporações internacionais, com o preço atrelado ao do petróleo e valorada em moeda forte.

Foi ruim para a Bolívia, que só recebia 18% pela entrega de uma de suas últimas riquezas, a mais significativa. Evo Morales elevou essa participação para 80% (a média mundial de participação dos países exportadores é de 84%) e todas as empresas aceitaram de bom grado.

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E foi péssimo para a Petrobras que, além de tudo, foi obrigada a assinar uma cláusula de “Take or Pay”, ou seja, comprando ou não a quantidade contratada, ela pagaria por ela. Assim, por mais de dez anos, pagou por cerca de 10 milhões de metros cúbicos, sem conseguir vender o gás no mercado nacional.

Ainda em 1995, o governo, faltando com o compromisso assinado com a categoria, levou os petroleiros à greve, com o firme propósito de fragilizar o sindicalismo brasileiro e a sua resistência às privatizações que pretendia fazer. Havia sido assinado um acordo de aumento de salário de 13%, que foi cancelado sob a alegação de que o presidente da Petrobras não o havia assinado. Mas o acordo foi assinado pelo então ministro das Minas e Energia, Delcídio Amaral, pelo representante do presidente da Petrobras e pelo ministro da Fazenda, Ciro Gomes.

Além disso, o acordo foi assinado a partir de uma proposta apresentada pelo presidente da Petrobras. Enfim, foi deflagrada a greve, após muita provocação, inclusive do ministro do TST, Almir Pazzianoto, que disse que os petroleiros estavam sendo feitos de palhaços. FHC reprimiu a greve fortemente, com tropas do exército nas refinarias, para acirrar os ânimos. Mas deixou as distribuidoras multinacionais de gás e combustíveis sonegarem os produtos, pondo a culpa da escassez nos petroleiros. No fim, elas levaram 28% de aumento, enquanto os petroleiros perderam até o aumento de 13%, já pactuado e assinado.

Durante a greve, uma viatura da Rede Globo de Televisão foi apreendida nas proximidades de uma refinaria, com explosivos, provavelmente pretendendo uma ação de sabotagem que objetivava incriminar os petroleiros. No balanço final da greve, que durou mais de 30 dias, o TST estabeleceu uma multa pesada que inviabilizou a luta dos sindicatos. Por ser o segundo maior e mais forte sindicato de trabalhadores brasileiros, esse desfecho arrasador inibiu todos os demais sindicatos do país a lutar por seus direitos. E muito menos por qualquer causa em defesa da Soberania Nacional. Era a estratégia de Fernando Henrique para obter caminho livre e sangrar gravemente o patrimônio brasileiro.

1995 — O mesmo Fernando Henrique comandou o processo de mudança constitucional para efetivar cinco alterações profundas na Constituição Federal de 1988, na sua Ordem Econômica, incluindo a quebra do monopólio estatal do petróleo, por meio de pressões, liberação de emendas, barganhas e chantagens com os parlamentares.

Manteve o presidente da Petrobras, Joel Rennó, que, no governo Itamar Franco, chegou a fazer carta ao Congresso Nacional defendendo a manutenção do monopólio estatal do petróleo, mas que, no governo FHC, passou a defensor empedernido da sua quebra.

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As cinco mudanças constitucionais promovidas por FHC

1. Mudou o conceito de empresa nacional. A Constituição de 1988 havia estabelecido uma distinção entre empresa brasileira de capital nacional e empresa brasileira de capital estrangeiro. As empresas de capital estrangeiro só poderiam explorar o subsolo brasileiro (minérios) com até 49% das ações das companhias mineradoras. A mudança enquadrou todas as empresas como brasileiras. A partir dessa mudança, as estrangeiras passaram a poder possuir 100% das ações. Ou seja, foi escancarado o subsolo brasileiro para as multinacionais, muito mais poderosas financeiramente do que as empresas nacionais.

A Companhia Brasileira de Recursos Minerais havia estimado o patrimônio de minérios estratégicos brasileiros em US$13 trilhões. Apenas a companhia Vale do Rio Doce detinha direitos minerários de US$3 trilhões. FHC vendeu essa companhia por um valor inferior a um milésimo do valor real estimado.

2. Quebrou o monopólio da navegação de cabotagem, permitindo que navios estrangeiros navegassem pelos rios brasileiros, transportando os minérios sem qualquer controle.

3. Quebrou o monopólio das telecomunicações, para privatizar a Telebrás por um preço abaixo da metade do que havia gasto na sua melhoria nos últimos três anos, ao prepará-la para ser desnacionalizada. Recebeu pagamento em títulos podres e privatizou um sistema estratégico de transmissão de informações. Desmontou o Centro de Pesquisas da empresa e abortou vários projetos estratégicos em andamento, como capacitor ótico, fibra ótica e tevê digital.

4. Quebrou o monopólio do gás canalizado e entregou a distribuição a empresas estrangeiras. Um exemplo é a estratégica Companhia de Gás de São Paulo, a Comgás, que foi vendida a preço vil para a British Gas e para a Shell. Não deixou a Petrobras participar do leilão por meio da sua empresa distribuidora. Mais tarde, abriu parte do gasoduto Bolívia-Brasil para essa empresa e para a Enron, com ambas pagando menos da metade da tarifa paga pela Petrobras, uma tarifa baseada na construção do Gasoduto, enquanto que as outras pagam uma tarifa baseada na taxa de ampliação.

5. Quebrou o monopólio estatal do petróleo, por meio de uma emenda à Constituição de 1988, retirando o parágrafo primeiro, elaborado pelo diretor da Aepet, Guaracy Correa Porto, que estudava Direito e contou com a ajuda de seus professores na elaboração. O parágrafo extinto era uma salvaguarda que impedia que o governo cedesse o petróleo como garantia da dívida externa do Brasil. FHC substituiu esse parágrafo por outro, permitindo que as atividades de exploração, produção, transporte, refino e importação fossem feitas por empresas estatais ou privadas. Ou seja, o monopólio poderia ser executado por várias empresas, mormente pelo cartel internacional.

1996 — Fernando Henrique enviou o projeto de lei que, sob as mesmas manobras citadas, se transformou na Lei 9.478/97.

Esta Lei contém artigos conflitantes entre si e com a Constituição Brasileira. Os artigos 3º, 4º e 21º, seguindo a Constituição, estabelecem que as jazidas de petróleo e o produto da sua lavra, em todo o território nacional (parte terrestre e marítima, incluído o mar territorial de 200 milhas e a zona economicamente exclusiva) pertencem à União Federal. Ocorre que, pelo seu artigo 26º — fruto da atuação do lobby, sobre uma brecha deixada pelo projeto de lei de FHC — efetivou a quebra do monopólio, ferindo os artigos acima citados, além do artigo 177 da Constituição Federal que, embora alterada, manteve o monopólio da União sobre o petróleo. Esse artigo 26º confere a propriedade do petróleo a quem o produzir.

“O petróleo agora é vosso.”

1997 — Fernando Henrique criou a Agência Nacional do Petróleo e nomeou o genro, David Zylberstajn, que havia se notabilizado como Secretário de Minas e Energia do Estado de São Paulo, desnacionalizando várias empresas de energia por preços irrisórios, inclusive a Eletropaulo, vendida para a empresa americana AES que, para essa compra, lançou mão de um empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e não pagou.

Cabe salientar que, dos recursos do BNDES, 50% são originários do FAT — Fundo de Amparo ao Trabalhador — e foram emprestados a empresas estrangeiras para comprar empresas nacionais, que demitiram, em média, 30% dos trabalhadores. Ou seja, o FAT foi usado para desempregar os trabalhadores.

Zylberstajn, no ato de sua posse, com o auditório cheio de empresas estrangeiras ou de seus representantes, bradou: “O petróleo agora é vosso”.

Empossado, iniciou os leilões de áreas, já com alguma pesquisa feita pela Petrobras, com tal avidez entreguista que os blocos licitados tinham áreas 220 vezes maiores do que a dos blocos licitados no Golfo do México.

Zylberstajn, inicialmente, mandou que a Petrobras escolhesse 10% das áreas sedimentares, de possível ocorrência de hidrocarbonetos, nas 29 províncias onde ela já havia pesquisado, para continuar explorando por mais três anos, quando, se não achasse petróleo, teria que devolvê-las à ANP. Depois de 6 meses de exaustivos estudos, a Petrobras escolheu as áreas que queria.

Surpreendentemente, Zylberstajn, aproveitando que a atenção do país estava voltada para a Copa do Mundo de futebol, em realização na França, retomou 30% dessas áreas que a Petrobras havia escolhido, sob rigorosos critérios técnicos, pelos seus especialistas. Assim, a Petrobras passou a ter direito de explorar apenas 7% do total das rochas sedimentares brasileiras. Esse prazo de três anos se mostrou inviável e foi estendido para cinco anos. Nós publicamos informativos mostrando que as multinacionais tinham oito anos de prazo contra os três da Petrobras.

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1998 — A Petrobras é impedida pelo governo FHC de obter empréstimos no exterior para tocar seus projetos — a juros de 6% a.a. —, e de emitir debêntures que visavam à obtenção de recursos para os seus investimentos.

FHC cria o Repetro, por meio do Decreto 3.161/98, que libera as empresas estrangeiras do pagamento de impostos pelos seus produtos importados, mas sem, contudo, dar a contrapartida às empresas nacionais. Isto, somado à abertura do mercado nacional iniciada por Fernando Collor, liquidou as 5 mil empresas fornecedoras de equipamentos para a Petrobras, gerando brutais desemprego e perda de tecnologias para o País. Essas empresas haviam sido criadas por meio do repasse de tecnologia que a Petrobras gerava ou absorvia. A presença do fornecedor nacional facilitava em muito a operação da empresa.

Ainda em 1998, seis empresas multinacionais (duas delas comandaram a privatização da YPF Argentina — Merryl Linch e Gaffney Cline) passaram a ocupar o 12º andar do prédio da Petrobras (Edise) para examinar minuciosamente todos os dados da Companhia, sob o argumento de que se tratava de uma avaliação dos dados técnicos e econômicos necessários à venda de ações da Empresa, em poder do governo.

Durante dois anos, essas empresas receberam todas as informações que quiseram dos gerentes da Petrobras, inclusive as mais confidenciais e estratégicas, de todas as áreas. Reviraram as entranhas da Companhia, de uma forma jamais realizada em qualquer empresa que aliene suas ações.

1999 — Muda-se o estatuto da Petrobras com três finalidades:

  1. permitir que estrangeiros possam ser presidentes da empresa (Philippe Reichstul);
  2. permitir a venda de ações para estrangeiros;
  3. retirar os diretores da empresa do Conselho de Administração, colocando em seu lugar representantes do Sistema Financeiro Internacional, como Jorge Gerdau Johannpeter (comandante do lobby para a quebra do monopólio), Roberto Heiss, Paulo Haddad e outros;
Reichstul inicia o mandato cancelando atabalhoadamente (propositalmente?) o contrato da empresa Marítima — fornecimento de seis plataformas para perfuração exploratória — um mês antes dela incorrer numa grave inadimplência. O cancelamento salvou a Marítima de pesadas multas e ainda deu a ela argumentos para processar a Petrobras, pedindo R$2 bilhões de indenização pelo incrível cancelamento. Ganhou em primeira instância.

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Reichstul viaja aos EUA com o ex-jogador Pelé e, juntos, fazem propaganda do lançamento e venda de ações da Petrobras em Wall Street; o governo vende, então, 20% do capital total da Petrobras, que estavam em seu poder. Posteriormente, mais 16% foram vendidos pelo irrisório valor total de US$5 bilhões.

Como a “Ação Direta de Inconstitucionalidade” da Aepet contra o artigo 26, já mencionado, assinada pelo governador Roberto Requião (Paraná), foi derrubada, e a Petrobras é dona das reservas, em detrimento da União, esses acionistas incorporaram ao seu patrimônio um acervo de 10 bilhões de barris — 36% de 30 bilhões de barris nas mãos da Petrobras (incluindo 16 bilhões do pré-sal, já cubados) — os quais, pela Constituição pertencem à União.

Como, agora, estamos no limiar do pico de produção mundial, o barril de petróleo, em queda temporária, vai ultrapassar os US$100, esse patrimônio transferido, gratuitamente, valerá mais de US$1 trilhão. Considerando que já existiam no mercado cerca de 20% das ações em mãos de testas de ferro, o governo, hoje, detém 54% das ações com direito a voto, mas apenas 40% do capital total da Petrobras (antes das mudanças, o governo detinha 87% do capital total da Companhia).

O poder dos novos e felizardos acionistas de Wall Street os levam a exigir da Petrobras a quitação dos débitos que a Companhia tem com o Fundo de Pensão (Petros), de preferência pelo menor preço possível. Reichstul usa R$8 bilhões em títulos de longuíssimo prazo do governo (NTN tipo B, recebidos na privatização das subsidiárias da Companhia — prazos de 23 e 32 anos) e quita a dívida, financeiramente, mas não atuarialmente, pelo valor de face dos títulos. A Petrobras contabiliza a saída dos títulos por R$1,8 bilhão e o Fundo de Pensão os recebe por R$8 bilhões.

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Reichstul dobra o salário dos gerentes da Petrobras, amplia o número deles, e lhes dá poderes ilimitados para contratar empresas e pessoas. Ganha com isso o apoio para fazer todas as falcatruas que planejava. Desmonta a competente equipe de planejamento da Petrobras e contrata, sem concorrência, a Arthur De Little, empresa americana, presidida pelo seu amigo Paulo Absten, para comandar o planejamento estratégico da Companhia.

Isto resulta numa série de desastres consecutivos. Entre eles, a compra de ativos obsoletos na Argentina, na Bolívia e em outros países. Os gerentes — cooptados — se fartam de contratar empresas e pessoas, sem controle. A terceirização atinge o estrondoso absurdo de 120 mil contratados, com nepotismo e corrupção, enquanto os empregados efetivos caem de 60 mil para cerca de 30 mil, seguindo a estratégia aplicada na Argentina, de enxugar para desnacionalizar. Abre-se acesso às entranhas da empresa para pessoas alocadas por empreiteiras e concorrentes estrangeiras.

Reichstul tenta mudar o nome da empresa para Petrobrax, para facilitar a pronúncia dos futuros compradores estrangeiros. Causa uma reação de indignação nacional e recua. Mas segue a sua meta desnacionalizante e divide a empresa em 40 unidades de negócio, seguindo a proposta do Credit Suisse First Boston, apresentada ao Governo Collor, para a desnacionalização da Companhia. Pulveriza as equipes técnicas, desmantelando a tecnologia da empresa e preparando para, por meio do artigo 64 da Lei 9.478/97, transformar cada unidade de negócio em subsidiária e privatizá-las, como iniciou fazendo com a Refinaria do Rio Grande do Sul, a Refap.

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Essa privatização foi feita pela troca de ativos com a Repsol Argentina (pertencente ao Banco Santander, braço do Royal Scotland Bank Co.), onde a Petrobras deu ativos no valor de US$500 milhões — que avaliamos em US$2 bilhões — e recebeu ativos no valor de US$500 milhões, os quais, dois dias depois, com a crise da Argentina, passaram a valer US$170 milhões.

A avaliação dos ativos foi feita pelo Banco Morgan Stanley, do qual Francisco Gros era diretor, acumulando, desde o início da gestão Reichstul, o cargo de membro do Conselho de Administração da Petrobras. Gros, segundo sua biografia publicada pela Fundação Getulio Vargas, veio para o Brasil, como diretor do Morgan Stanley, para assessorar as multinacionais no processo de privatização. Por meio de sindicalistas do Rio Grande do Sul, entramos com uma ação judicial na qual ganhamos a liminar, cassada, mas que interrompeu esse processo de desnacionalização.

A gestão Reichstul levou a empresa a um nível de acidentes sem precedentes na sua história: 62 acidentes graves — em dois anos — contra a série histórica de 17 acidentes em 23 anos (1975 a 1998), segundo relatório publicado pelo Conselho Regional de Engenharia do Estado do Paraná.

Nós pedimos investigação de sabotagem aos vários órgãos de segurança: Polícia Federal, Marinha, Procuradoria Federal. Não investigaram, mas os acidentes cessaram.

2001 — Reichstul, desgastado, dá lugar a Francisco Gros, que, ao assumir a presidência da Petrobras, num discurso em Houston, EUA, declara que, na sua gestão, “a Petrobras passará de estatal para empresa privada, totalmente desnacionalizada”.

Gros compra 51% da Pecom Argentina, por US$1,1 bilhão, embora a dita empresa tenha declarado, publicamente, um déficit de US$1,5 bilhão; cria um sistema para mascarar acidentes, nos quais os acidentados não os possam reportar; tenta implantar um plano de Benefício Definido no fundo de pensão — Petros.

Faz, ainda, um contrato de construção de duas plataformas com a Halliburton, com uma negociação obscura, sem concorrentes, que resulta, além de um emprego maciço de mão de obra estrangeira, em dois atrasos superiores a um ano e meio. Esses atrasos fizeram com que, pela primeira vez na história da empresa, houvesse uma queda de produção, fato ocorrido em novembro de 2004. Apesar desses atrasos, a Halliburton não pagou multa e ainda ganhou cerca de US$500 milhões adicionais da Petrobras, em tribunal americano.

Com a eleição de Lula para a Presidência da República, antes da sua posse, houve uma renegociação em massa dos contratos de serviço em andamento, com novos prazos, superiores a quatro anos, de forma a criar uma blindagem ao novo governo, impedindo as reanálises, renegociações ou revogações dos contratos feitos sem concorrência, incluindo empresas ligadas aos amigos de alguns gerentes do governo FHC.”

Fernando Siqueira, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras em 26/5/2009.
No Limpinho & Cheiroso
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No golpe dos empresários, “se uma empresa foi beneficiada, a mais beneficiada foi a Globo”


Fabio Venturini fez o mestrado na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo sobre os empresários e o golpe de 64. Está concluindo o doutorado sobre os empresários e a Constituição de 1988.

Ele esmiuçou os detalhes de “como a economia nacional foi colocada em função das grandes corporações nacionais, ligadas às corporações internacionais e o Estado funcionando como grande financiador e impulsionador deste desenvolvimento, desviando de forma legalizada — com leis feitas para isso — o dinheiro público para a atividade empresarial privada”. Segundo ele, é isto o que nos afeta ainda hoje, já que os empresários conseguiram emplacar a continuidade das vantagens na Carta de 88.

Venturini cita uma série de empresários que se deram muito bem durante a ditadura militar, como o banqueiro Ângelo Calmon de Sá (ligado a Antonio Carlos Magalhães, diga-se) e Paulo Maluf (empresário que foi prefeito biônico, ou seja, sem votos, de São Paulo).

Por outro lado, apenas dois empresários se deram muito mal com o golpe de 64: Mário Wallace Simonsen, um dos maiores exportadores de café, dono da Panair e da TV Excelsior; e Fernando Gasparian. Ambos eram nacionalistas e legalistas. A Excelsior, aliás, foi a única emissora que chamou a “Revolução” dos militares de “golpe” em seu principal telejornal.

Sobre as vantagens dadas aos empresários: além da repressão desarticular o sindicalismo, com intervenções, prisões e cassações, beneficiou grupos como o Ultra, de Henning Albert Boilesen, alargando prazo para pagamento de matéria prima ou recolhimento de impostos, o que equivalia a fazer um empréstimo sem juros, além de outras vantagens. Boilesen, aliás, foi um dos que fizeram caixa para a tortura e compareceu pessoalmente ao DOI-CODI para assistir a sessões de tortura. Foi justiçado por guerrilheiros.

Outros empresários estiveram na mira da resistência, como Octávio Frias de Oliveira, do Grupo Folha, que apoiou o golpe. Frias e seu sócio Carlos Caldeira ficaram com o espólio do jornal que apoiou João Goulart, Última Hora, além de engolir o Notícias Populares e, mais tarde, ficar com parte do que sobrou da Excelsior. Porém, o que motivou o desejo da guerrilha de justiçar Frias foi o fato de que o Grupo Folha emprestou viaturas de distribuição de jornal para campanas da Operação Bandeirante (a Ultragás, do Grupo Ultra, fez o mesmo com seus caminhões de distribuição de gás). Mais tarde, a Folha entregou um de seus jornais, a Folha da Tarde, à repressão.



“Se uma empresa foi beneficiada pela ditadura, a mais beneficiada foi a Globo, porque isso não acabou com a ditadura. Roberto Marinho participou da articulação do golpe, fez doações para o Ipes [Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais, que organizou o golpe]. O jornal O Globo deu apoio durante o golpe. Em 65, o presente, a contrapartida foi a concessão dos canais de TV, TV Globo Canal 4 do Rio de Janeiro e Canal 5 São Paulo”, diz Fabio Venturini.

“Porém, na década de 70, a estrutura de telecomunicações era praticamente inexistente no Brasil e foi totalmente montada com dinheiro estatal, possibilitando entre outras coisas ter o primeiro telejornal que abrangesse todo o território nacional, que foi o Jornal Nacional, que só foi possível transmitir nacionalmente por causa da estrutura construída com dinheiro estatal”, afirma o pesquisador.

“Do ponto-de-vista empresarial, sem considerar o conteúdo, a Globo foi a que mais lucrou”, continua, já que em 1985, no ocaso da ditadura, “Roberto Marinho era o dono da opinião pública”.

Segundo Fabio Venturini, na ditadura imposta a partir de 1964 os militares se inspiraram na ditadura de Getúlio Vargas.

Lembra que, naquela ditadura, o governo teve vários problemas para controlar um aliado, o magnata das comunicações, Assis Chateaubriand.

“No golpe de 64 o Assis Chateaubriand já estava doente, o grupo Diários Associados estava em decadência. O Roberto Marinho foi escolhido para substituir Assis Chateaubriand. Tinha o perfil de ser uma pessoa ligada ao poder. Tendo poder, tendo benefício, ele estava lá. A Globo foi pensada como líder de um aparato de comunicação para ser uma espécie de BBC no Brasil. A BBC atende ao interesse público. No Brasil foi montada uma empresa privada, de interesse privado, para ser porta-voz governamental. Se a BBC era para fiscalizar o Estado, a Globo foi montada para evitar a fiscalização do Estado. Tudo isso tem a contrapartida, uma empresa altamente lucrativa, que se tornou uma das maiores do mundo [no ramo]“, conclui.

Venturini fala em pelo menos dois mistérios ainda não esclarecidos da ditadura: os dois incêndios seguidos na TV Excelsior, em poucos dias, e a lista dos empresários que ingressaram no DOI-CODI para ver sessões de espancamento ou conversar com o comandante daquele centro de torturas, Carlos Alberto Brilhante Ustra.


Na entrevista abaixo, o pesquisador também fala do papel central no golpe desempenhado por Julio de Mesquita Neto, do Estadão [leia aqui reportagem da revista Fortune, de setembro de 64, que deixa isso claro].

Comenta a tese, muito comum na Folha de S. Paulo, de que houve um contragolpe militar para evitar um regime comunista, o que chama de “delírio” [leia aqui como o PCB havia assumido, na época, compromisso com a via eleitoral].

Venturini também fala do papel de Victor Civita, do Grupo Abril, que “tinha simpatia pela ordem” e usou suas revistas segmentadas para fazer a cabeça de empresários, embora não tenha conspirado.

Finalmente, explica a relação dos empresários com as nuances da ditadura pós-golpe. Um perfil liberal, pró-americano, em 64; um perfil ‘desenvolvimentista’, mais nacionalista, a partir de 67/68.

Compareça ao evento deste sábado, TV Globo: Do golpe de 64 à Censura hoje para saber muito mais sobre o papel da mídia na quartelada do primeiro de abril.




Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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A ditadura como berço da impunidade


Os nostálgicos garantem que houve um tempo em que havia punição no Brasil.

Os bandidos iam para a cadeia.

Quando foi que isso acabou?

Depois da implantação da ditadura de 1964.

Aqueles que resistiram ao golpe e à ditadura pagaram com cadeia, exílio, tortura, morte, cassação de mandatos, julgamento pelo Tribunal Militar, humilhações, execuções e todo tipo de perseguição.

Os criminosos de Estado — ditadores e torturadores — nunca pagaram.

Quando se faz uma lei para acobertar torturadores e golpistas, decreta-se o fim da crença na punição.

O Brasil tornou-se o país da impunidade com a Lei da Anistia, feita sob medida para acobertar os criminosos que nunca foram julgados nem submetidos a qualquer processo. O resto é falácia. Um lado, o da resistência ao crime contra a sociedade brasileira, que foi a ditadura, foi julgado, condenado e punido. O outro, não.

Até quando?

A Lei da Anistia precisa ser revista para que os criminosos a serviço do Estado sejam julgados.

Só assim se começará a desmontar a impunidade no Brasil.

Juremir Machado
No Correio do Povo/SQN
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Militantes do PT querem impugnar candidatura de Vaccarezza


Nesta quinta-feira (27) militantes do PT-SP protocolaram, junto à Secretaria Estadual de Organização do partido, pedido de impugnação da pré-candidatura do atual deputado federal Cândido Vaccarezza.

De acordo com o Estatuto do PT, tais pedidos devem ser encaminhados à Comissão Executiva Estadual, que deve analisar o caso e apresentar aos delegados e delegadas do Encontro Estadual que aprovará a lista de candidatos e candidatas proporcionais do PT um relatório circunstanciado das impugnações solicitadas, contendo os motivos e razões apresentados, bem como seu parecer e decisão.

O pedido protocolado apresenta resoluções de Congressos, do Diretório Nacional, da Comissão Executiva Nacional e da Bancada do PT na Câmara, sobre a reforma política para provar que Vaccarezza “reiteradamente desrespeitou e não cumpriu as resoluções partidárias”. Além disso, analisando o conteúdo do projeto (PEC352/13) apresentado pelo Grupo de Trabalho para debater a reforma política, coordenado por Vaccarezza “à revelia e a contragosto tanto da bancada quanto da direção partidária”, o documento afirma que o sentido de sua atuação parlamentar foi “contrário às orientações e posições das instâncias”.

Os solicitantes concluem, portanto, que “um partido que defende a reforma política, nos termos e nos prazos em que o PT a defende, não pode ceder sua legenda para um parlamentar que tem trabalhado de forma ostensiva contra a reforma política desejada pelo PT”.

Para baixar o pedido de impugnação, clique aqui.

No Página13
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Alckmin, o governador invisível


Geraldo Alckmin está no Governo de São Paulo desde 1995, quando era vice de Mário Covas. Após um hiato de 4 anos, entre 2007 e 2010, voltou em 2011 ao governo. São, portanto, 15 anos à frente do Palácio dos Bandeirantes.

Alguém percebeu isso? 15 anos! O mesmo governador!

Difícil se perceber quando se trata de um governador que permaneceu invisível durante anos. Mas por que invisível?

Simplesmente porque não aparecia. Não saía na mídia. Ninguém comentava. Só aparecia em época de eleição com seu velho bordão: ''É preciso cuidar das pessoas''. Por causa disso, ganhou até o apelido de ''picolé de chuchu'' (sem gosto, sem sabor).

Mas por que não se falava dele?

Primeiro: dois dos maiores problemas que afligem o povo brasileiro, todo mundo acha que é competência única e exclusiva do Governo Federal, no caso, Dilma: Saúde e Educação. Mas não é.

Justamente duas áreas que contam com recursos vultosos que crescem a cada ano, mas que não são contemplados com uma gestão competente e eficiente.

Então, quem acaba levando a culpa pelas deficiências nessas áreas é sempre o Governo Federal. O Governador fica invisível. E tome paulada na Dilma (lembram-se das ''jornadas de junho''?).

Alckmin ao privatizar uma série de serviços que o Governo prestava, acabou tendo seu rol de responsabilidades reduzido.

Vejam o caso das estradas estaduais: foram privatizadas.

A Eletropaulo: foi privatizada.

A Telesp: foi privatizada.

Outras competências do Governo Estadual são as Universidades Estaduais, o Hospital das Clínicas, a Companhia do Metrô e a Sabesp.

São três as Universidades sob o comando de Alckmin, a USP, a UNICAMP e a UNESP. Todas contam com suas respectivas reitorias que lhes garantem autonomia de administração. Alckmin só envia os recursos.

O Hospital das Clínicas é uma autarquia do Governo do Estado que possui também administração autônoma. Alckmin só envia os recursos.

A Companhia do Metrô é uma empresa de capital misto cujo maior acionista é o próprio Governo do Estado. Alckmin não precisa enviar recursos. O Metrô se autosustenta. E não falaremos aqui do enorme esquema de corrupção denunciado recentemente.

A Sabesp é uma concessionária de economia mista cujo maior acionista é o próprio Governo do Estado. Possui ações nas Bolsas de Valores de São Paulo e Nova Iorque, tendo lucrado 4 bilhões de reais só no Governo Alckmin. A Sabesp dá lucro para o Governo.

Pois bem, a única atribuição que Geraldo Alckmin tem de fato é a Segurança Pública. Deveria ser seu único motivo para ter dores de cabeça. Mas ele não tem. Ele cuida da Segurança com a preguiça dos que tem pouca coisa pra fazer durante o dia. Sua indolência é tão grande nessa área, que até o PCC demonstra ter mais interesse em se ocupar dela.

Outro fator que lhe confere invisibilidade é a blindagem que a mídia lhe faz. Nada é com ele. Nada é contra ele. Ele sempre faz tudo muito bem feito. Para a imprensa, é um administrador competente.

O Governo Federal, ao contrário, tem muita visibilidade. Não passa um dia sequer sem que Dilma apareça em algum jornalão. E sempre pra sofrer críticas. Por que? Ora, governar significa criar projetos, programas, planejamentos para melhorar a vida do povo. Acerte ou erre, sempre haverá críticas. Os jornais vivem disso. Com relação à Prefeitura de São Paulo ocorre o mesmo. Haddad que o diga.

Mas quanto ao Alckmin, qual o projeto, qual o programa que ele criou? Nada. Há 15 anos no governo e nada foi feito.

O Rio Tietê continua poluído desde o tempo do Fleury quando se iniciou o projeto de despoluição.

A criminalidade só aumentou no seu governo. O PCC parece um braço auxiliar dentro da (In)segurança Pública. Manda e desmanda. A Polícia Militar que poderia ter sido objeto de um projeto de Alckmin para sua desmilitarização, está cada vez mais violenta.

A aplicação dos recursos da Educação poderia ter garantido uma recuperação salarial para os professores da rede estadual, mas o que vemos é cada vez mais arrocho e contratações temporárias sem concurso.

Mas, por mais que Alckmin tenha tentado se esconder no seu manto de invisibilidade, de uns tempos pra cá, tem aparecido bastante na mídia. Não por conta da campanha para sua reeleição (sim, o homem quer ficar mais 4 anos!), mas por causa das graves denúncias do propinoduto tucano e, mais recentemente do problema da falta de água.

A Sabesp, que tem a atribuição de fornecer água e saneamento aos paulistas, hoje é uma empresa que investe em ações na bolsa. Nada errado em se fazer isso, desde que os bônus e dividendos sejam repassados para investimentos em infra-estrutura e produção de água, o que, absolutamente não foi feito ao longo destes 15 anos de Governo Alckmin.

E sobre este assunto, falaremos mais detalhadamente na próxima oportunidade.

Fernando Castilho
No PataxóCartoons
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Boas-pintas

A foto do Bellini levantando a taça no final da Copa do Mundo de 58, na Suécia, a primeira que nós ganhamos, virou ícone instantâneo. De todas as imagens que ficaram daquela Copa sem TV — o Garrincha fazendo vários joãos dançarem, o Didi pegando a bola no fundo do nosso gol depois que a Suécia marcou primeiro, no último jogo, e caminhando com ela embaixo do braço como um pai carregando uma criança malcriada pra casa, o lençol do Pelé sobre um sueco atônito, antes de marcar o mais bonito dos seus seis gols na competição — a do gesto triunfal do Bellini foi a que mais ficou. Tanto que, dizem, nas convocações para as Copas futuras houve a preocupação de se prever a repetição da cena: quem levantasse a taça teria que ser uma figura igualmente hierárquica e bonita. Na Copa seguinte — 62, no Chile —, o Bellini estava na delegação, mas o titular foi o paulista Mauro, que também era alto e, como se dizia na época, boa-pinta, e fotogênico. Foi ele quem levantou a taça. Não sei se é verdade, mas contavam que depois do Bellini o quesito "boa-pinta" passou a ser critério para escolha do capitão, ou pelo menos de um dos zagueiros, da seleção. Só isto explicaria a convocação, por exemplo, do baiano Fontana, um jogador supostamente medíocre, mas bonito, que fazia dupla com o Brito no Vasco da Gama e não faria feio imitando o Bellini de 58 numa vitória no México em 70. Fontana não chegou a jogar na Copa do México, que eu me lembre. Brito e Piazza foram os nossos zagueiros de área. Mas diziam que no caso da vitória do Brasil na final estar assegurada, o Brito, com sua cara de homem das cavernas, seria rapidamente substituído pelo Fontana antes do fim do jogo só para este ser fotografado levantando a taça. Mas isto já deve ser maldade.

Nada a ver, mas também dizem que uma das condições para chegar a comandante de aviões de passageiros é ter voz de comandante. Duvido que exista mesmo esta norma, mas a verdade é que até hoje não ouvi nenhum comandante de voz fina. O preconceito não se justificaria: nada impede que um piloto de voz fina seja menos confiável do que um de voz grossa. Mas entende-se a preocupação. Os cursos de pilotagem incluiriam aulas de dicção e impostação de voz, ou então — também se especula — alguns aviões teriam, na cabine de comando, um locutor cuja única função seria se dirigir aos passageiros numa voz máscula e firme, de quem estará nos controles e saberá o que fazer não importa a situação, no lugar de um piloto esganiçado, que poderia causar pânico entre os passageiros com sua primeira comunicação. Para voar com segurança, você precisa imaginar que o comandante é o William Bonner.

Luiz Fernando Veríssimo
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72% aprovam governo Dilma

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Se pensar pequeno, o governo escorrega na goela conservadora

O day after da Standard & Poor's foi um fiasco. O jornalismo isento se vestiu de gala com manchetes garrafais à espera da 3ª feira sombria que não veio.

Para quem acha que capitalismo é apenas um sistema econômico, não uma relação de poder, o Brasil se oferece como um incentivo à revisão de conceitos.

Tome-se a luta de chifres entre os resultados da economia e a guerra santa das expectativas.

Estamos a sete meses das eleições presidenciais

A manada de bisão acantonada nas redações afia os cascos no chão e recobre o horizonte brasileiro de uma espessa poeira cinza asfixiante.

É imperioso ligar o aspirador de pó à passagem do tropel noticioso. A mesa do café da manhã fica imprestável, dividida com a edição do dia.

A culpa pelas más notícias nunca é do carteiro.

OK.

Exceto se ele exorbita e troca a entrega da correspondência pela ordem de despejo que lhe confere o mando do imóvel, às expensas dos ocupantes legítimos.

O pisoteio dos cascos isentos faz mais ou menos isso ao reduzir a partículas ínfimas qualquer saliência que desafie a pauta do Brasil aos cacos.

Não entrega a correspondência. Ou o faz rasurando seu conteúdo — frequentemente alterando-o.

Nenhum vestígio positivo do passado e do presente mas, sobretudo, os brotos do futuro, sobrevivem à passagem diária do tropel.

Repita-se: isso, há sete meses do pleito que pode dar um quarto mandato à coalizão centrista comandada pelo PT.

Há quem ache merecido.

Até sorri ao ouvir o barulho do Brasil esmigalhando diariamente sob as patas do tropel.

As alianças ‘escolhidas’ pelo PT, afinal, sem falar no próprio, submeteram a sociedade a uma camisa de força conservadora, justificam os sorridentes.

‘Contra tudo isso que está aí’, vale tudo.

Até a parceria com autênticos partisans do novo amanhecer.

Combatentes da cepa de um Jarbas Vasconcelos, por exemplo; ou da estirpe de Agripino, le rouge, companheiros de caminho dos que pretendem levar ao Procurador Geral, Rodrigo Janot, um pedido de investigação contra a Presidenta Dilma Rousseff pelo caso Pasadena.

A manada ganhou esta semana outro reforço de notórios compromissos com o país.

A agencia Standart & Poor’s, de impoluta credibilidade, mostrou a que veio ao rebaixar a nota do país para deixá-lo a um degrau acima dos Estados falidos.

E não ficou nisso: ‘Os sinais enviados pelo governo ainda não são claros’, advertiu a agência em tom imperial. ‘Houve uma piora consistente nos indicadores’, reforçou a senhora Lisa Schineller , analista da ‘S&P’, em teleconferência à mídia embevecida.

A senhora Schineller é treinada para tocar a sensibilidade aguçada desse tipo de plateia que tem vínculos de orelhada e holerite com o cuore neoliberal.

Ela foi direto ao centro do alvo que é para ninguém ter dúvida do que é o principal na vida de uma nação: ‘(a punição) é um reflexo da política fiscal (a economia para pagar os juros dos rentistas), ’cuja credibilidade se enfraqueceu de forma sis-te-máti-ca’, escandiu a executiva.

Orgasmos intelectuais na plateia.

Nesse bacanal da isenção com a equidistância a ninguém ocorreu lhe perguntar se a mesma corrosão da credibilidade teria atingido a agência de risco pelo desempenho pregresso.

Em agosto de 2008 a ‘S&P’ atribuiu ao banco Lehman Brothers um esférico triple A: a nota máxima do ‘rating’ de credibilidade, da qual ela afastou o Brasil um pouco mais agora.

Desconfia-se que já como parte da desesperada tentativa de continuar empurrando títulos do Lehman na goela dos incautos, como forma de mitigar as perdas dos grandes acionistas, diante da quebra inevitável.

Trinta dias depois de receber a faixa de máxima higidez o banco implodia acionando a espoleta da maior crise do capitalismo desde 1929.

Há um outro recuerdo ilustrativo do que move a engrenagem por trás da fala assertiva da senhora Schineller.

A ‘S&P’ foi responsável por rebaixar a nota do Brasil em julho de 2002.

As pesquisas do Datafolha então mostravam o candidato Lula na liderança das intenções de voto, com 38% da preferências dos eleitores, seguido de Ciro Gomes.

Só depois vinha o delfim da eterna derrota conservadora: José Serra.

O risco da argentinização sob um governo petista era o mote do jogral conservador, ao qual a S&P adicionou seu grave de tenor.

Como corolário da impoluta trajetória ética e técnica recorde-se que o governo norte-americano encontrou um erro de cálculo de ‘apenas’ US$ 2 trilhões nas contas que orientaram a mesma Standard & Poor’s a rebaixar o rating do país em 2012.

Uma desastrada tentativa de se reabilitar após o vexaminoso endosso a práticas e instituições que explodiram a ordem financeira mundial.

Esse é a folha corrida.

Cuja detentora era aguardada com ansiedade pela manada e seus candidatos amigáveis à sucessão.

A bala de prata não negou fogo, como se viu.

Mas o tiro saiu pela culatra.

O day after da apoteose foi talvez o maior fiasco já enfrentado pelo jornalismo isento que se vestiu de gala com manchetes garrafais à espera de uma 3ª feira negra que não veio.

O dia de fúria aconteceu ao contrário

O dólar caiu ao menor nível em quatro meses; o capital estrangeiro continuou a desembarcar no país — uma parte, ressalve-se, apenas para desfrutar dos juros altos — mas US$ 9,2 bi em investimento efetivos aportaram no 1º bimestre.

A Bolsa atingiu a maior pontuação desde setembro de 2013.

As ações da Petrobras se mantiveram em espiral ascendente, com alta de mais 0,90% na 3ª feira.

Para finalizar, o Tesouro anunciou uma arrecadação recorde em fevereiro — em frontal desacordo com o veredito da ‘inconsistência fiscal’ alegada pela ‘S&P’ para cortar o ‘rating’ do país.

O que aconteceu no day after, na verdade, só reafimou aquilo que os indicadores tem mostrado neste início de ano, à revelia das manchetes alarmistas.

O Brasil tem problemas.

Mas está longe de ser a terra arrasada produzida pelos cascos que esmagam e amesquinham tudo o que se opõe à pauta do Brasil que vai descambar — se não for hoje, de amanhã não passa.

Nesta 2ª feira, por exemplo, o insuspeito jornal Valor reuniu 18 indicadores atualizados para medir a temperatura da economia neste início de ano.

Treze dos dezoito apontavam um desempenho positivo.

São eles: renda, emprego, atividade industrial, vendas do varejo, vendas de serviços, venda de aços planos, crédito, inadimplência, nível de atividade do BC, vendas de automóveis, fluxo de veículos pedagiados e vendas de papel para embalagem.

Dos cinco indicadores negativos, apenas um se referia a atividade produtiva de fato: vendas de automóveis (influenciada pela antecipação da demanda ao final de 2013 por conta do IPI).

Os demais dizem respeito à formação das expectativas, diretamente contaminadas pela guerra eleitoral manipulada das redações — intenção de consumo, confiança da indústria, confiança do consumidor, indicador antecedente da FGV.

Em resumo, os mercados, ao contrário do jornalismo colegial, sabem que as candidaturas conservadoras não emplacam.

Enquanto cuidam de faturar, usam as redações isentas, a exemplo dos serviços pagos da ‘Standard & Poor’s para chantagear o final do governo Dilma.

Tirar uma lasca — mais uma alta da Selic, por exemplo.

Mas, sobretudo, engessá-la no palanque de outubro. E assim desossar sua eventual reeleição, circunscrevendo-a num círculo de ferro de mesmice e mediocridade.

Nenhuma surpresa. Estamos diante do capitalismo, que antes de ser economia — é uma relação de forças.

A transição de ciclo de desenvolvimento vivida pelo Brasil adiciona desafios e dificuldades a esse embate histórico.

Mas não é a determinação dos dias que correm.

A determinação é o mutirão da plutocracia local e a de além-mar para engessar o governo e impedir que ele seja de fato o portador do desejo mudancista do eleitorado, majoritariamente associado à condução do processo pela própria Presidenta-candidata.

Trata-se de tanger Dilma e o PT a pensarem pequeno.

Pensarem um futuro governo menor que o país.

Menor que as suas possibilidades e urgências.

Menor que o pré-sal.

Menor que a ponte necessária para transformar a prostração democrática cevada pelo neoliberalismo em uma repactuação consistente do futuro com a sociedade, feita de prazos e metas críveis para a construção da cidadania plena.

Se pensar pequeno, o governo que finda e o seu novo mandato correm o risco de ficar do tamanho da goela conservadora.

Que não terá dúvida em mastigá-los até a última lasca.

Saul Leblon
No Carta Maior
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A imprensa, inimiga de si mesma

A Folha de S. Paulo divulga na edição de quinta-feira (27/3) parte do resultado do mais recente relatório do Centro de Pesquisas Pew sobre o “Estado da Mídia” nos Estados Unidos. O jornal paulista destaca o fato de que os veículos originários da mídia impressa ainda recebem a maior parcela (61%) da receita destinada pela publicidade aos meios noticiosos americanos. Os telejornais de emissoras locais e de TV a cabo ficam com 14,1% do bolo publicitário e apenas 2,1% vão para os noticiários nacionais em TV aberta.

Paralelamente, o relatório destaca a evolução dos veículos nascidos na era digital, cujas redações crescem e começam a ampliar sua influência internacional. O exemplo mais próximo dos brasileiros seria, no caso, a chegada do Huffington Post, que se associou ao grupo Abril para lançar seu conteúdo em português (ver aqui). O estudo conclui que a chamada imprensa tradicional ainda respira, pelo menos nos Estados Unidos, mas está longe de alcançar um sistema de captação de receita capaz de assegurar sua sobrevivência no longo prazo.

A questão específica do modelo de negócio vem sendo estudada há anos por especialistas e profissionais experientes, como explica Caio Túlio Costa em entrevista reproduzida no Observatório (ver aqui). No entanto, há outras questões que não são captadas na pesquisa anual do Centro Pew sobre a imprensa americana e que afetam de maneiras diversas os mercados específicos.

Uma delas é, certamente, o grau de diversidade que os veículos de alcance nacional oferecem à sociedade. Nos Estados Unidos e na Europa, embora predomine uma imprensa conservadora, há muito mais alternativas para os que pensam de maneira diversa. No Brasil, a predominância de três diários e duas revistas semanais como principais captadores de verba publicitária destinada a veículos da chamada imprensa de papel ocorre num contexto em que eles funcionam praticamente como um único título, dada a homogeneidade de suas opiniões sobre política e economia e do recorte ideológico que representam.

Isso define em boa parte a resistência de seus dirigentes a adotar projetos realmente inovadores e sua preferência por contratar consultorias igualmente conservadoras.

Jornalismo e imprensa

Na análise sobre alternativas disponíveis para a mídia jornalística tradicional, Caio Túlio Costa observa que talvez seja necessário dar vazão ao complexo de Édipo, ou conforme a preferência do observador, ao complexo de Electra, ou seja, para sobreviver na era digital, os títulos clássicos da mídia noticiosa nascida no papel teriam que matar sua própria empresa-mãe.

Um exemplo desse processo pode ser observado no grupo Folha, onde o portal UOL se consolida progressivamente como a locomotiva, enquanto a versão de papel perde público.

No Brasil, há uma enorme complexidade de desafios a serem enfrentados, entre os quais a dificuldade de monitorar os hábitos voláteis dos brasileiros mais jovens, que não incluem entre suas prioridades a leitura de notícias da forma como são tradicionalmente organizadas pela imprensa.

Deve-se levar em conta um processo de mudança no traçado demográfico e de renda da sociedade brasileira, que altera a distribuição da população segundo as faixas etárias, revelando um maior protagonismo dos jovens e de famílias resgatadas recentemente da pobreza. Contraditoriamente, o modelo econômico adotado pelo governo que a imprensa ama detestar tem assegurado a receita publicitária capaz de amenizar a queda no número de leitores.

Claramente, a política econômica adotada há dez anos, com foco na criação de um mercado interno dinâmico, é a responsável pela profusão de anúncios que sustentam os jornais. O crescimento de uma nova classe de renda média, produzido por políticas sociais que a imprensa sempre condenou, estimula a concorrência no comércio, na indústria automotiva, na construção civil e em outros setores ligados ao consumo, alimentando os cofres das empresas jornalísticas.

Essa constatação induz a uma discussão paralela e fundamental sobre a necessidade de separar os conceitos de imprensa e jornalismo. Nesse sentido, há um aspecto crucial a ser encarado pelas redações: a quase irresistível tentação da imprensa em agir contra seus próprios interesses.

Para simplificar, mas longe de esgotar esse filão, basta observar que a insistência dos jornais em produzir um clima de pessimismo na economia atenta contra o dinamismo do mercado que sustenta a própria mídia.

Luciano Martins Costa
No OI
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A presidente falará esta noite?


Quando amanhecer o dia 31 de março, o país estará tomado pela recordação de uma etapa histórica dramática. Milhões de brasileiros lembrarão — e serão lembrados — dos 50 anos da deposição do presidente João Goulart por um bloco cívico-militar que imporia a longa ditadura dos generais.

Muitos artigos e entrevistas, nos mais diversos veículos de comunicação, resgatarão os fatos daquele período. Homens e mulheres da resistência contarão a epopeia da luta antifascista e o terror da repressão. Até cúmplices e protagonistas do golpe de 1964, como é o caso de boa parte da velha mídia, verterão lágrimas de crocodilo pela sedição antidemocrática.

Aberrações também terão vez. Militares da reserva, e oxalá que apenas esses, celebrarão o feito e farão apologia do crime de lesa-pátria que orgulhosamente exibem em sua biografia. Pequenos grupos de reacionários também andam mostrando suas garras.

Milhares e milhares de cidadãos, no entanto, estarão à espera que se pronuncie a voz de uma só mulher. Uma valente militante contra a ditadura, que enfrentou tortura e prisão. Quis o destino que essa combatente, Dilma Vana Rousseff, viesse a ser presidente da República no cinquentenário do regime militar. Ela poderia, como representante maior do Estado, falar à nação sobre aquela era sombria.

Um discurso breve e contundente, que permitisse ao país fechar as cicatrizes do arbítrio, determinar responsabilidades históricas e anular o ultraje institucional que ainda permite, a torturadores e assassinos, esconder seus crimes ou reivindicá-los com galhardia. Talvez algo como as palavras abaixo entrelaçadas:

“Brasileiros e brasileiras,

Dirijo-me essa noite à nação, como presidente da República e comandante-em-chefe das Forças Armadas, para falar de um momento trágico de nossa história. Refiro-me ao golpe militar de 1964, que chega hoje a seu cinquentenário.

Oficiais de então, aliados a setores antidemocráticos do parlamento e da sociedade civil, levaram os três ramos de nossas estruturas militares a romper com a Constituição, impondo um regime de terror e arbítrio que durou 21 anos.

O presidente João Goulart, governante legal e legítimo, foi derrubado porque a política de reformas que implementava, a favor da distribuição de renda e riqueza, em defesa da independência nacional e do nosso desenvolvimento, contrariava interesses poderosos, aos quais se alinharam os generais que assaltaram o poder.

Os protagonistas dessa sedição cometeram um crime de Estado. Governaram através do terror, pisotearam a democracia, calaram a imprensa e as organizações populares. São responsáveis por delitos de lesa-humanidade.

Cabe a mim, pelas funções institucionais que exerço, pedir desculpas à nação, em nome das Forças Armadas, por estes fatos que envergonham nossa história.

Quero comunicar que ordenei, através do Ministério da Defesa, a leitura de ordem do dia, em todos os quartéis, condenando os crimes da ditadura, proibindo qualquer forma de apologia ao regime militar e assumindo o compromisso que jamais o Exército, a Marinha e a Aeronáutica brasileiras voltarão a pisar em nossa Constituição. Nunca mais as armas da pátria serão usadas contra o povo e a democracia.

Também desejo lembrar todos os que dedicaram sua vida à resistência democrática. Centenas foram assassinados ou estão desaparecidos. Milhares se defrontaram com a prisão e a tortura. Muitos acabaram banidos ou obrigados ao exílio. O Estado brasileiro considera esses homens e mulheres heróis nacionais, a quem muito devemos a reconquista da liberdade.

A Comissão da Verdade, instituída por meu governo, logo chegará a relatório conclusivo sobre este período histórico, depois de longa investigação. Estaremos prontos, então, para novo salto civilizatório, como determinam pactos internacionais dos quais é signatário o Brasil. Nossas instituições terão que decidir se é aceitável que crimes dessa natureza continuem impunes, com seus autores protegidos por uma lei imposta pela própria ditadura.

Boa noite. E obrigada pela atenção.”

Breno Altman, jornalista e diretor editorial do site Opera Mundi
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Governo do Estado lança Diálogos da Copa em debate com sociedade e movimentos sociais

Primeiro evento foi realizado e transmitido ao vivo pelo Gabinete Digital na terça-feira
Foto: Caco Argemi
No dia em que a Assembleia Legislativa aprovou o projeto de lei que viabiliza a construção das estruturas temporárias para a Copa do Mundo, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul deu início aos Diálogos da Copa, uma série de debates e consultas em torno da realização da competição esportiva na capital gaúcha. O primeiro evento, realizado e transmitido ao vivo pelo Gabinete Digital na noite de terça-feira (25), reuniu principalmente atores e representantes de movimentos críticos à Copa, que dialogaram diretamente com o governador Tarso Genro e secretários.

Conduzido pelo secretário Vinícius Wu, o evento transitou entre diversos temas, com especial destaque aos impactos sociais da Copa; remoções, alterações no calendário escolar, atuação da Brigada Militar, elitização do esporte, comércio de ambulantes e ocupação dos espaços públicos, entre outros. Presencialmente, participaram do debate Cláudia Favaro, do Comitê Popular da Copa, João Hermínio Marques, da Frente Nacional dos Torcedores, José Araújo, morador da Vila Cristal, e Olanda Campos, da Associação de Ambulantes de Cachoeirinha, e o cartunista Carlos Latuff. Por videoconferência, debateram Juca Kfouri, jornalista esportivo, e Antonio Lassance, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Espetáculo e oportunidades

Em sintonia com as reivindicações, o governador Tarso Genro concentrou sua fala nos aspectos polêmicos do evento. “Políticas e negócios sempre estiveram envolvidos no esporte. A Copa hoje é um grande negócio, uma relação mercantil que tem o futebol como centro”, pontuou. Em resposta às críticas sobre o atraso na abertura para o diálogo, o governador defendeu a perspectiva da copa enquanto oportunidade. “Concordo que o diálogo deveria ser orientado, antes, pelo Governo Federal. Soubemos das invasões à soberania do país tardiamente. A decisão de assumir a Copa nessas condições foi uma roubada. Mas é preciso diferenciar o espetáculo esportivo do evento mercantil. É uma oportunidade, apesar de todas as injustiças”, completou. Tarso também lembrou que o Rio Grande do Sul espera 200 mil turistas e que as movimentação financeiras no período da Copa devem gerar cerca de R$ 80 milhões em impostos para o Estado.

João Hermínio, da Frente Nacional dos Torcedores, posicionou-se a favor de uma copa mais popular e acessível. “Não assumimos uma postura extrema, de dizer que não vai ter copa ou que vai ter copa. Nossa crítica é ao modelo excludente da Fifa, com ingressos caros e pouco alinhados aos interesses populares”, afirmou. Já a ambulante Olanda Campos, acostumada ao comércio na frente do estádios em dias jogos, expressou sua preocupação com o trabalho dos pequenos comerciantes e trabalhadores no entorno do Beira-Rio: “a nossa classe já é massacrada e está sempre lutando pela inclusão”.

Juca Kfouri e Antônio Lassance, falando de São Paulo e Brasília respectivamente, parabenizaram a abertura para o diálogo e abordaram de diferentes perspectivas o tema em debate. “Acredito que esta iniciativa do governo gaúcho é inédita”, afirmou Juca. “Lamento que o diálogo não tenha se iniciado antes, quando o país foi escolhido como sede. Estamos tentando fazer a Copa do Mundo da Alemanha no Brasil, em vez de fazer a Copa do Mundo do Brasil”, colocou o jornalista. Já para Lassance, grandes eventos tornam mais visíveis os problemas do país. “A Copa virou uma espécie de Judas. Ninguém lembra que 30% dos gastos foram destinados para estádios, enquanto os restantes 70% foram aplicados em obras de mobilidade urbana, projetos de segurança, ampliação de aeroportos, qualificação profissional e outros setores”, disse o pesquisador do IPEA.

Cláudia Favaro e José Araújo, ambos do Comitê Popular da Copa, assumiram um tom mais crítico. “Seremos impedidos de ir e vir em território público em razão de uma lógica de desenvolvimento excludente, em prol da especulação imobiliária e em detrimento dos pobres, prédios históricos, e árvores seculares”, afirmou Cláudia, que também sugeriu atividades e alimentação nas escolas públicas nos dias em que não haverá aulas durante a Copa. Araújo, que reside próximo à Vila Tronco, alegou que o movimento popular reivindicou diálogo com a prefeitura mas não obteve resultados. “A nossa maior preocupação é com a remoção das famílias sem recolocação adequada, indenização injusta e sem dignidade”, disse.

Retirada

O evento iniciou com atraso em razão da reivindicação de membros do Comitê Popular da Copa de que três integrantes tivessem espaço de fala, apesar da presença de Cláudia Favaro, considerada uma liderança do movimento, entre os convidados oficiais. Em razão do início tardio, o governador precisou sair antes do final do evento para um compromisso oficial, e os representantes do Comitê Popular se retiraram. "Quero saber se vai ter diálogo com a Brigada Militar", disse o cartunista Latuff. O debate prosseguiu sem a presença do governador. Os secretários Airton Michels, da Segurança Pública, Ricardo Petersen, do Esporte e Lazer, e Marcio Cabral, do Turismo, bem como Mauríci Santos, coordenador-executivo do Comitê Gestor da Copa 2014, permaneceram e deram continuidade ao diálogo.

O debate continua

O secretário-geral de Governo, Vinícius Wu, destacou, ao término do debate, que todas as propostas geradas e apresentadas no diálogo presencial e enviadas pelas redes, serão analisadas e receberão retorno do Governo do Estado. “Nós escolhemos dialogar e não fugir do debate, plural, transparente e aberto entre governo e sociedade”, afirmou. O evento de abertura dos Diálogos da Copa também marcou o início de uma consulta pública, realizada por meio da ferramenta "Governo Responde", do Gabinete Digital. Até o dia 18 de abril, os gaúchos e gaúchas terão a oportunidade de enviar perguntas e votar nas questões que considerarem mais pertinentes em relação ao tema. Todas as contribuições receberão respostas ao término da consulta e os autores das perguntas mais bem votadas serão convidados a participar de uma atividade dos Diálogos da Copa com o governador Tarso Genro. O próximo debate está marcado para o dia 22 de abril.

Luiz Damasceno
No RS.gov.br
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Porto-alegrenses podem comemorar, a segunda ponte sobre o Guaíba vai sair


A presidenta Dilma Rousseff anunciou, nesta quinta-feira (27), para rádios gaúchas, o início imediato das obras para a construção da segunda ponte sobre o rio Guaíba, que terá mais de sete quilômetros de extensão. O prazo para a conclusão das obras é de três anos. É esperado um tráfego de 50 mil veículos por dia na nova ponte, melhorando o trânsito na região metropolitana de Porto Alegre e a ligação com a região Sul do estado.
“A nova ponte facilita a vida de todos os gaúchos. Menos tempo no trânsito é mais qualidade de vida. A empresa que venceu a licitação é a mesma que construiu a BR-448 e vai iniciar imediatamente os trabalhos. (…) A assinatura do contrato será agora no dia 31. (…) Todos que amamos Porto Alegre sabemos a importância dessa nova ponte e vamos comemorar”, afirmou a presidenta.
O resultado da licitação para a construção da segunda ponte do Guaíba foi publicado na edição de hoje do Diário Oficial da União (DOU).
“O vencedor foi o Consórcio Ponte Guaíba – Construtora Queiroz Galvão S.A e EGT Engenharia, lote único, que apresentou a proposta mais vantajosa, pelo valor de R$ 649.622.699,00, valor 26,28% abaixo do orçado, resultando numa economia de R$ 231.582.737,22 para os cofres públicos”, segundo trecho publicado no DOU.

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O negócio dos esquecidos

Vai escapando de fininho um grupo
situado bem na encruzilhada decisiva
do negócio de Pasadena

Depressa foram escolhidos pela imprensa, como de praxe, os culpados na compra desastrada da refinaria de Pasadena, EUA — Nestor Cerveró, ex-diretor financeiro da BR Distribuidora, e o Conselho de Administração da Petrobras então presidido por Dilma Rousseff. Graças a isso, vai escapando de fininho, sem sequer uma citação nos tantos quilômetros de papel e incontáveis horas de TV/rádio dedicados ao caso, um grupo de pessoas situado bem na encruzilhada decisiva do negócio. Naquele ponto em que uma transação se define pela segurança e a decência, ou se abrasileira.

Citadas em artigo na Folha como "cláusulas draconianas daquele contrato" de compra da refinaria, exatamente por sua frouxidão é que essas cláusulas criaram a via para um negócio já injustificável nos iniciais US$ 360 milhões (US$ 190 milhões por 50% da refinaria e US$ 170 milhões pela matéria-prima em estoque). E terminado, se já terminado mesmo, em mais de US$ 1,1 bilhão.

Os estudos preliminares do negócio indicaram a necessidade de investimento de uns US$ 200 milhões, se efetuada a compra, da Petrobras e da Astra Oil, detentora dos outros 50% da refinaria. Mais: comum em sociedade entre poucos, a Petrobras estava ciente da possibilidade de dissolução da parceria. Apesar disso, a precariedade do contrato firmado pela Petrobras, para compra de metade da refinaria, não a protegeu da recusa de investimento pela Astra. E, como decorrência, de ver-se forçada à compra da segunda metade, o que foi feito por meio judicial e elevou o preço da refinaria, para a estatal, ao US$ 1,1 bilhão.

Sem dissolver outras possíveis responsabilidades pelo teor do contrato, tecnicamente ridículo e eticamente suspeito, a farta equipe jurídica da Petrobras e sua direção devem muitas explicações. O mesmo quanto às assessorias contratadas, participantes da preparação do negócio, e aos responsáveis pelas respectivas contratações.

Nesse grupo, até agora favorecido pelo noticiário e o comentarismo da pressa satisfeita, encontram-se grandes responsabilidades tanto pelos disparates do negócio, nas duas transações, como pela cobertura que lhe deu aparência de ação justificável.

O Marco

A primeira intransigência do black blocão criado pelo PMDB na Câmara foi derrotada, com a aprovação do "Marco Civil da Internet" incluindo os itens repelidos pelo deputado Eduardo Cunha em nome da tropa. Mas desse avanço para a internet no Brasil não se deduza que, em sua área, tudo está resolvido.

O projeto aprovado pela Câmara pode até surpreender, em se tratando dos deputados. Leva para a apreciação do Senado, porém, um problema de extrema gravidade: a proteção moral das pessoas ficou, na prática, reduzida a nada. Salvo em caso de obscenidade pessoal, a vítima de postagem difamatória ou injuriosa não terá como obter a retirada senão com recurso judicial. Ou seja, com a velocidade do Judiciário, o difamado de amanhã só terá a difamação retirada em tempo de que seu futuro neto não a encontre ao se tornar internauta.

O direito dos difamados não pode desaparecer em uma lei que se chamará de "Marco Civil".

Janio de Freitas
No fAlha
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O mundo maravilhoso do “repórter” da Época, a fábrica de salsichas jornalísticas


Eu disse ontem que ia deixar passar, pela insignificância a que foi reduzido o rapaz, que nem sequer redigiu uma resposta, limitada a um pedido de desculpas para os “erros” factuais.

Mas pensei melhor e resolvi mostrar a todos este impagável exemplo de como é a fábrica de salsichas da revista semanal que é a Época, nascida à imagem e semelhança da Veja, apenas — creia! — um pouco mais higiênica.

Vejam que meiga a romântica descrição da longa amizade entre Joaquim Barbosa e Celso de Mello, o decano do STF:

(…) ambos se encontraram em Brasília, nos anos 1990. Celso já era ministro do Supremo; Joaquim, um procurador da República pouco interessado no ofício do Ministério Público e muito envolvido com suas reflexões acadêmicas sobre igualdade racial e a Constituição brasileira. Não demorou para que ambos desenvolvessem uma relação de mútua admiração. Joaquim admirava a erudição jurídica de Celso, que já assombrava Brasília. (…) Celso admirava o vigor intelectual de Joaquim, que nunca parava de se aprofundar nos estudos.

Mas não era uma admiração puramente intelectual. Celso se impressionava com a orgulhosa altivez de Joaquim(…). Num traço que se acentuou com o avanço dos anos e a concomitante ascensão na elite do Direito brasileiro, Joaquim nunca permitia, recorrendo a gestos e a palavras duras, talvez mais do que o necessário, que o reduzissem ao papel do negro subserviente, cordial – do negro que se força a esquecer o racismo, em nome de uma igualdade racial que, infelizmente, inexiste no Brasil. No que muitos outros enxergavam um exagero, quiçá um complexo de inferioridade, Celso percebia a necessária afirmação do que Joaquim era, por inteiro. E como essa afirmação moral de indignação moldaria o juiz que Joaquim se tornaria.

Não foi por acaso, portanto, que, em 2001, Celso escreveu o prefácio de um livro em que Joaquim disseca a legalidade de medidas como cotas raciais: Ação afirmativa e princípio constitucional da igualdade. Nele, Celso defende o trabalho — e a visão de mundo — de Joaquim. Como continuou a fazer, quando os dois se encontraram no Supremo em 2003, a partir da posse de Joaquim. Votaram de modo semelhante em todos os casos que, na década passada, estabeleceram o Supremo como uma instituição progressista em questões comportamentais(…)É o que se convencionou chamar de ativismo judicial — aquilo que a Suprema Corte americana fizera nos anos 1960, e Celso e Joaquim, além de outros ministros, tanto admiravam. Autorizado pela Constituição, o Supremo começara a fazer o trabalho de que o Congresso abdicara.

Quando o caso do mensalão chegou ao Supremo, a afinidade jurídica e moral entre Celso e Joaquim estava completa. Joaquim virou relator do caso, aconselhando-se amiúde com Celso. Isolado na casa de amigos na Áustria, ouvindo música erudita e relembrando as lições de raciocínio lógico e argumentação que tivera na Alemanha, Joaquim preparou o voto de sua vida. Nele, aceitou larga parte da sólida denúncia do então procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. Ela descrevia as provas e os raciocínios legais para sustentar a tese jurídica de que os crimes contidos no mensalão envolveram a alta cúpula do governo petista. Os demais ministros concordaram com Joaquim, para satisfação de Celso.

Maravilhoso, não é? Faltou apenas a música de violinos…

Ah, e um pequeno, infimo, desprezível detalhe: nada disso aconteceu.

O Celso que escreveu o prefácio do livro de Joaquim é outro e o Celso do texto — o Ministro — Barbosa só conheceu em 2003, quando chegou ao STF.

Tudo é história da carochinha, um conto de ficção desonesto.

Teria sido o primeiro da carreira deste rapaz?

Vejam este trecho de “reportagem” do Dieguinho:

“João Augusto estava em silêncio. Permanecia inclinado à frente, apoiava-­‐se na mesa com os antebraços. Batia, sem parar, a colherzinha de café na borda do pires – e mantinha o olhar fixo no interlocutor. Parecia alheio à balbúrdia das outras mesas no Café Severino, nos fundos da Livraria Argumento do Leblon, no Rio de Janeiro, naquela noite de sexta-­‐feira, dia 2 de agosto.

A xícara dele já estava vazia. O segundo copo de água mineral, também. João Augusto falava havia pouco mais de uma hora. Até então, pouco dissera de relevante sobre o assunto que o obrigara a estar ali: as denúncias de corrupção contra diretores ligados ao PMDB, dentro da Petrobras.”

Outro romance ficcional?

E seu espelho da Editora Abril, a Veja, não escreveu outro pequeno romance sórdido com as embalagens de Mc Donald’s na cela de José Dirceu?

Se a Época, como a Veja, se anunciasse como “revista semanal de literatura”, vá lá. Seria apenas má literatura.

Mas se dizem “revistas de informação”.

Imagine se nós, o que eles chamam de “blogueiros sujos” inventássemos historinhas assim?

É assim que, lá dentro, se fazem carreiras.

Que podem ser de qualquer coisa, menos jornalismo.

Fernando Brito
No Tijolaço
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