24 de mar de 2014

Rusia invita a Brasil a fabricar cazas de quinta generación T-50


Rusia mantiene abierta su propuesta a Brasil de unirse al desarrollo y fabricación del caza furtivo de quinta generación T-50 (PAK-FA), señalan funcionarios del sector ruso en una exposición de armas en Chile.

Al no participar en la licitación de suministro a la Fuerza Aérea brasileña de cazas, recientemente ganada por el caza JAS-39 Gripen de la empresa sueca Saab, Rusia ofrece a Brasil fundar una empresa mixta para el desarrollo y producción de avanzados cazas rusos (los T-50, conocidos también como PAK-FA, no participaron en el concurso).

"Lamentablemente ya no participamos en la licitación para el suministro de 36 cazas abierta en Brasil. Sin embargo nuestra propuesta a la parte brasileña de desarrollar conjuntamente la producción del caza multifuncional T-50 permanece en vigor", dijo Alexander Fomin, director de la agencia estatal rusa de cooperación técnico-militar en vísperas de la feria FIDAE-2014 de Chile, citado por RIA Novosti.

Según Fomin, Rusia está dispuesta a ofrecer esta posibilidad durante las próximas conversaciones con Brasil que se celebran en el marco de la alianza estratégica dentro de los países del grupo BRICS, al que pertenecen Brasil y Rusia.

¿Qué otros países participan en el proyecto del T-50?

En diciembre de 2010 la compañía rusa Rosoboronexport, el consorcio aeronáutico Sujói y Hindustan Aeronautics Limited (HAL) firmaron un contrato para el desarrollo del diseño conceptual y técnico de una aeronave para la Fuerza Aérea India. Está previsto que el diseño del caza partiera del cazabombardero furtivo ruso Sujói T-50 (o PAK-FA) con modificaciones estructurales y del equipo adaptadas para las necesidades de la Fuerza Aérea de la India.

Inicialmente, el Ministerio de Defensa indio solicitó 166 cazas monoplazay 48 biplaza. El primer prototipo del T-50 'indio' debería ser desarrollado en 2015-2016.

No RT
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Há dez anos, Argentina transformava em memorial maior centro clandestino de tortura da ditadura

“A Auschwitz argentina”: Transformada em memorial em 2004, ESMA vitimou cerca de 5 mil pessoas entre 76 e 83
Foto: Marcelo Brodsky/ Memória en Construción ESMA
Dez anos atrás, em 24 de março de 2004, a Argentina dava um importante passo para preservar o direito à memória e à verdade daqueles que lutaram contra a ditadura militar ao transformar em memorial o maior centro clandestino de detenção e tortura do país. Entre 1976 e 1983, passaram pela sede da ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada) mais de 5.000 dentre os 30 mil desaparecidos pelo terrorismo perpretado pelo Estado argentino, segundo levantamentos de organizações humanitárias.

Na mesma data em que se relembra o golpe militar de 76 — que completa o 38º aniversário nesta segunda — o então presidente Néstor Kirchner assinou um decreto incumbindo o poder público de construir no local um museu da memória, para que jamais seja esquecido que ali operava o mais perverso centro sistemático de extermínio, chamado por muitos de “a Auschwitz argentina”.

Na Argentina, o dia em que foi interrompido o processo democrático com um golpe militar é rememorado com um feriado nacional — coincidentemente, apenas oito dias de distância do 1º de abril brasileiro que depôs o presidente João Goulart em 1964. Como ocorre todos os anos, diversas organizações de direitos humanos preparam atos para celebrar o “Dia Nacional da Memória pela Verdade e Justiça”: as Avós e as Mães da Praça de Maio, H.I.J.O.S (Filhos e Filhas pela Identidade e Justiça contra o Esquecimento e o Silêncio) repudiarão a ditadura militar em marcha que percorrerá a Avenida de Maio, via que conecta a Casa Rosada (sede da presidência) e o Congresso.

Em repúdio a ditadura militar, manifestantes se aglomeram em frente à sede da ESMA / Foto: Divulgação/Telam
Em repúdio a ditadura militar, manifestantes se aglomeram em frente à sede da ESMA
Foto: Divulgação/Telam
Para além da oficialização do memorial da ex-ESMA (atualmente Espaço Memória e Direitos Humanos), outro gesto do então presidente naquele 24 de março de 2004 traria, entretanto, maior peso simbólico ao processo de transição na Argentina. Néstor Kirchner foi o primeiro mandatário democrático a pedir perdão, em nome do Estado nacional, pelos erros cometidos ao lidar com a memória dos desaparecidos no país.

Tuíte de Alicia Kirchner, irmã do ex-presidente, lembra momento em que Néstor ordenou ao chefe do Exército para que retirasse da parede os quadros dos ex-ditadores argentinos / Foto: Reprodução/Twitter
Tuíte de Alicia Kirchner, irmã do ex-presidente, lembra momento em que Néstor ordenou ao chefe do Exército para que retirasse da parede os quadros dos ex-ditadores argentinos
 Foto: Reprodução/Twitter
“As coisas precisam ser chamadas por seus nomes e aqui, se vocês me permitem, já não mais como companheiro e irmão, mas sim como presidente da nação argentina, venho pedir perdão por parte do Estado nacional pela vergonha de haver calado durante 20 anos de democracia tantas atrocidades”, disse Kirchner, na ocasião.

E completou: “Não é rancor nem ódio que nos guia. Me guia a justiça e a luta contra a impunidade. Os que perpetraram estes feitos tenebrosos e macabros em tantos campos de concentração, como foi a ESMA, têm apenas um nome: são assassinos repudiados pelo povo argentino”. Em 2005, a Suprema Corte da Argentina declararia inconstitucionais as chamadas “leis do perdão”, responsáveis por anistiar e proteger os agentes de Estado que cometeram crimes durante a ditadura.



Felipe Amorim
Opera Mundi
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A “aflição” da mídia com o apagão nacional e o “tudo sob controle” do “secadão”paulista

É impressionante a paralisia da imprensa brasileira diante da ameaça de desabastecimento de São Paulo, em contraste com o terror diário que se faz sobre a possibilidade de um “apagão” por falta de água nos reservatórios que movimentam as usinas hidroelétricas.

Até o Príncipe do Apagão, Fernando Henrique Cardoso vem dando pitaco de que o Governo deveria pedir que se economizasse energia, por causa dos riscos.

É claro que a situação dos reservatórios não é a melhor possível,  é pior que a do ano passado mas está longe de apresentar uma situação caótica.

Agora compare esta “onda” que você está vendo como a crise elétrica com o que está acontecendo em São Paulo e que só há 15 dias passou a receber cobertura da imprensa, assim mesmo com toda ela aceitando o “tudo sob controle” com que o Governador Geraldo Alckmin a trata?

A água “federal” é “imprevidência e falta de planejamento”. A paulistana é “seca”.

Tive o trabalho de coletar os números dos reservatórios – os do sistema elétrico e os do Cantareira, hoje e na exata data de hoje, há um ano, para que você mesmo compare.

Ainda mais porque os reservatórios das hidroelétricas têm seus níveis em discreta elevação ( 1,1% e 8,5%, nas regiões mais críticas, Sudeste e Sul, deste o início do mês) e os do Cantareira caem de forma expressiva ( menos 2,15%, no mesmo período).

E mais: mesmo sendo os mais importantes do país, os reservatórios do Sudeste podem ser complementados com o uso de energia de outras regiões. O Cantareira, não.

Agora imagine que o Governo Federal estivesse dizendo ia fazer uma obra, para daqui a dois anos, que resolveria em parte o problema?

Seria, com toda a razão, ridicularizado.

Porque é que Fernando Henrique, portanto, não guarda seus conselhos para Alckmin?

Fernando Brito
No Tijolaço
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Os 50 anos da campanha “Ouro para o bem do Brasil”


2014 marca o cinquentenário de uma campanha que enganou famílias inteiras e até hoje ninguém explicou o que aconteceu com os valores arrecadados. O nome do golpe: “Ouro para o bem do Brasil”. Tudo aconteceu em 1964 após a crise política alicerçada pela inflação galopante, que levou as Forças Armadas a promoverem uma quartelada que levou ao poder o marechal, Humberto de Alencar Castelo Branco.

Evidentemente, o país estava de cofres vazios, sem reservas cambiais que pudessem conter a alta exorbitante do dólar. Diante do quadro desolador, os Diários e Emissoras Associados — grupo de mídia comandado por Assis Chateaubriand, o “Chatô”— lançam uma campanha na qual a população doaria jóias em ouro para gerar lastro e assim produzir dinheiro que ajudaria o Brasil a sair da crise. Os casais que doassem suas alianças de casamento, por exemplo, receberiam de volta alianças de metal e um diploma com os dizeres: “Doei ouro para o bem do Brasil”.

Com chamadas no rádio, televisão e reportagens pelos jornais do então poderoso grupo empresarial, a população menos informada se mobilizou para aquele que seria mais um “ato de cidadania”. Houve quem doasse colares, brincos e outros objetos de ouro, até dinheiro do próprio bolso, para ajudar o país a se levantar dos infortúnios do período que antecedeu à “Redentora”, denominação dada ao movimento militar, por parte daqueles que se posicionaram favoravelmente ao novo regime.

Assis Chateaubriand, cujo nome completo era Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, comandava um verdadeiro império das comunicações. Só em São Paulo tinha duas emissoras de rádio, duas TVs e dois jornais, além de uma revista poderosíssima, “O Cruzeiro”, de circulação nacional. O nome para a campanha foi inspirado na Revolução Constitucionalista de 1932, onde o povo contribuiu com “Ouro para o bem de São Paulo”, criando uma moeda paulista que circulou em todo o estado durante o boicote comercial imposto pela ditadura Vargas. Só que após o desenlace daquela revolução gloriosa, o ouro arrecadado foi utilizado na construção de um prédio no centro da cidade,  de pé até hoje, com o formato da bandeira paulista e na Rua Álvares Penteado, 23.

A campanha “Ouro para o Bem do Brasil”, em 1964, também foi forte recebendo o apoio de empresas e prefeituras que promoveram manifestações com desfiles em vias públicas, onde escolares portando faixas, exibiam dizeres alusivos à proposta.  A Dulcora, de São Bernardo do Campo, fabricante de balas e doces ajudou na campanha modificando a cor da embalagem de seu principal produto, o drops Dulcora que de multicolorido passou a ter unicamente a cor ouro.

A revista “O Cruzeiro”, em 13 de junho de 1964, apresenta um balanço parcial da campanha informando que mais de 400 quilos de ouro e cerca de meio bilhão de cruzeiros haviam sido doados pelo povo e por autoridades civis e militares. Diz mais: “… a campanha, primeiro grande movimento dos ‘Legionários da Democracia’, foi aberta com a presença do senador Auro Soares de Moura Andrade, presidente do Congresso Nacional, que recebeu do Sr. Edmundo Monteiro, diretor-presidente dos Associados Paulistas, a chave do cofre em que será colocado o ouro e as doações em dinheiro que serão entregues, posteriormente, ao presidente da República, marechal Castello Branco…”

A revista acrescenta que inúmeras personalidades do governo federal compareceram ao saguão dos Associados, na rua sete de abril, no centro da capital bandeirante durante uma vigília cívica de 72 horas, para se emprestar apoio e fazer doações para a campanha do ouro. “… o ministro do Trabalho, Sr. Arnaldo Sussekind, representando o general Amaury Kruel e diversas outras autoridades prestigiaram o movimento dos ‘Legionários da Democracia’. O Governador Adhemar de Barros doou, de livre e espontânea vontade, os seus vencimentos do mês de abril, num montante de 400 mil cruzeiros…”. informa ainda a publicação.

Mais de 100 mil pessoas doaram pertences, “desde as mais modestas até as mais abastadas, depositando cheques de até 10 milhões de cruzeiros, alguns provenientes de firmas, além de carros oferecidos pela indústria automobilística nacional e inúmeras outras doações de grande monta”.

As TVs Tupi Canal 4 e Cultura Canal 2, do grupo associados, transmitiam da sede da empresa, com o repórter, José Carlos de Moraes, o “Tico – Tico” narrando ao vivo os acontecimentos, mas nada ficou arquivado. Não há registro na internet de nenhuma gravação alusiva a essa campanha. Nos jornais, Diário de São Paulo e Diário da Noite se noticiou que o “Ouro para o Bem do Brasil” seguiria na capital, até o dia 9 de julho, quando então a peregrinação teria início no interior do estado.

Apesar da campanha, não há registro de qualquer pronunciamento por parte do governo militar, seja a favor ou contra. Seguimentos mais esclarecidos da sociedade, entretanto, não se mobilizaram porque era previsível que não se alcançaria um valor suficiente em ouro doado proveniente de joias para cobrir as reservas cambiais de um país que arrecada divisas nas atividades do comércio, da indústria e agricultura, gerando bens, empregos e proporcionando os negócios da exportação e importação que tocam a economia. Claro que a campanha não foi adiante, entretanto jamais foi informado onde foi parar todo o ouro e o dinheiro arrecadado. Do novo regime não houve também uma nota sequer de agradecimento ao povo. Em lugar nenhum encontramos os números definitivos dessa campanha que terminou silenciosa.

Presidindo a sessão de 1º de Abril de 1964, o Senador Auro
Soares de Moura Andrade declarou vaga a Presidência da
República, tendo em vista a " fuga" de João Goulart diante ao
Golpe, Revolução ou mesmo Contra-Revolução Militar de 64.
Nunca se soube do paradeiro da chave do cofre entregue de maneira simbólica ao senador Moura Andrade, nem se ele repassou a chave do cofre ao marechal Castelo Branco. Isso evidencia que a campanha “Ouro para o Bem do Brasil” pode ter sido uma farsa, um  tremendo golpe em cima de famílias honestas que doaram suas alianças de casamento em troca de nada. Foi mais uma dessas grandes malandragens que passam impunes entre tantas outras neste país.

Se hoje achamos que a ladroeira alcançou níveis insuportáveis, a campanha dos ”Ouro para o bem do Brasil”deixou claro que a picaretagem já agia solta há 50 anos e o que muda é apenas a maneira de se roubar. Impunes, os ladrões continuam cada vez mais criativos.

Geraldo Nunes
No Estado de S.Paulo

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Auro de Moura Andrade declara vaga a Presidência 1964


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O Cruzeiro - 13 de junho de 1964

Ouro para o bem do Brasil
São Paulo repete 32


Mais de 400 quilos de ouro e cêrca de meio bilhão de cruzeiros foram doados ao Brasil pelo povo paulista e autoridades civis e militares, dentro da campanha, promovida pelos Diários Associados, “Ouro para o bem do Brasil”, como resultados das primeiras 2 semanas de vigília cívica que teve início às 18 horas do último dia 13. A campanha que é o primeiro grande movimento dos “Legionários da Democracia”, foi aberta com a presença do Senador Auro de Moura Andrade, presidente do Congresso Nacional, que recebeu do Sr. Edmundo Monteiro, diretor-presidente dos Associados paulistas, a chave do cofre em que seriam colocados o ouro e doações em dinheiro, para entregá-las, posteriormente, ao Presidente Humberto de Alencar Castello Branco.

Inúmeras personalidades do Govêrno Federal compareceram ao saguão dos Diários Associados, durante a vigília cívica de 72 horas, para emprestar o seu apoio e fazer suas doações para a campanha do ouro. O Ministro do Trabalho, Sr. Arnaldo Sussekind, representante do General Amaury Kruel e diversas outras autoridades prestigiaram o movimento dos “Legionários da Democracia”. O Governador Adhemar de Barros doou, de livre e espontânea vontade, os seus vencimentos do mês de abril, num montante de 400 mil cruzeiros.

Mais de 100 mil pessoas fizeram doações, que foram desde as mais modestas, até cheques de 10 milhões, dados por firmas, carros fornecidos pela indústria automobilística e inúmeras outras doações de grande monta.

Os populares que doaram objetos de ouro de uso pessoal, tais como alianças, anéis e outros, receberam em troca uma aliança de metal, com os dizeres: “Legionários da Democracia”.

A campanha deverá seguir, agora, depois da vigília que contou com os dois canais de televisão associados, em transmissão contínua, em ritmo normal na Capital, até o dia 9 de julho, quando começará a peregrinação pelo interior do Estado.
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'Marcha da Família com Deus pela Liberdade' completa 50 anos; saiba quem a financiou e dirigiu


Tidas como protagonistas do movimento que depôs João Goulart, organizações femininas lideradas por mulheres de classe média eram, na verdade, financiadas e instruídas pelos homens da elite empresarial-militar que queriam derrubar Jango

Há 50 anos, em 19 de março de 1964, era realizada na cidade de São Paulo a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Estima-se que entre 500 mil e 800 mil pessoas partiram às 16h da Praça da República em direção à Praça da Sé, no centro, manifestando-se em resposta ao emblemático comício de João Goulart, seis dias antes, defendendo suas Reformas de Base na Central do Brasil. Passaram à história como as genuínas idealizadoras e promotoras da marcha organizações femininas e mulheres da classe média paulistana. No entanto, por trás deste aparente protagonismo feminino às vésperas do golpe que deu lugar a 21 anos de regime ditatorial, esconde-se um poderoso aparato financeiro e logístico conduzido por civis e militares que tramavam contra Jango. Um detalhe: quase todos eram homens.

Certamente, a atuação de alguns grupos femininos como “pontas-de-lança” da opinião pública contra o governo Goulart foi peça-chave na conspiração levada a cabo pelo complexo empresarial-militar do Ipês-Ibad (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais – Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Destas instituições femininas, as principais eram: a carioca CAMDE (Campanha da Mulher pela Democracia) e as paulistas UCF (União Cívica Feminina) e MAF (Movimento de Arregimentação Feminina).

Conforme disseca a historiadora Solange Simões em seu livro Deus, Pátria e Família: As mulheres no golpe de 1964, a inserção das mulheres na conspiração que resultou no golpe foi estratégica. Com o intuito de fomentar uma atmosfera de desestabilização política e convencer as Forças Armadas a intervir, as campanhas femininas buscavam dar "espontaneidade" e "legitimidade" ao golpismo, tendo sido as mulheres incumbidas — pelos homens — de influenciar a população.

“Aqueles homens, empresários, políticos ou padres apelavam às mulheres não enquanto cidadãs, mas enquanto figuras ideológicas santificadas como mães”, escreve a pesquisadora. A própria dona Eudóxia, uma das lideranças femininas, reconhece, em entrevista à historiadora, sua função tática:
Nós sabíamos que como nós estávamos incumbidas da opinião pública, os militares estavam à espera do amadurecimento da opinião pública. Porque sem isso eles não agiriam de maneira nenhuma. A não ser que a opinião pública pedisse. E foi isso que nós conseguimos.
Graças a uma bem-sucedida ação, eventos considerados aparentemente “desconexos” foram tomados como "reações espontâneas" de segmentos da população. Na verdade, essas manifestações apresentavam uma sólida coordenação por parte da elite.
Protagonismo feminino? Mulheres estavam na linha de frente da marcha, mas quem dirigiu e organizou foram os homens do Ipês
Veja abaixo os principais aspectos desse movimento feminino que esteve à frente da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” de 19 de março de 1964.

1.) Como surgiu e quem liderava?

Quem eram, afinal, essas mulheres que despontavam na rua, em passeatas e comícios, como “donas-de-casa” e “mães-de-família brasileiras”, envolvidas na conspiração civil-militar? Já chamadas de “guerrilheiras perfumadas” ou confundidas com mulheres “das classes médias”, as direções dos movimentos eram constituídas, essencialmente, por mulheres com baixa formação intelectual da burguesia e das elites militares e tecnoempresariais.

Essa ala feminina do golpe foi criada meses antes das eleições gerais de outubro de 1962. Suas principais líderes eram parentes próximas dos grandes nomes do setor empresarial e militar envolvidos na conspiração. Contaram, obviamente, com todo o aparato financeiro e logístico de seus cônjuges, primos e irmãos para erguer suas instituições. “O meu marido me incentivava: ‘Eu ajudo no que precisar’, dizia ele”, relembra em entrevista concedida a Solange Simões, a vice-presidente da CAMDE, Eudóxia Ribeiro Dantas, mulher de José Bento Ribeiro Dantas, empresário ipesiano presidente da Cruzeiro do Sul, uma das maiores companhias aéreas do país.

Do lado carioca, por exemplo, a CAMDE foi criada por Amélia Molina Bastos, irmã do general Antônio de Mendonça Molina, do setor de informação e contrainformação do Ipês. A ideia partiu declaradamente do vigário de Ipanema, Leovigildo Balestieri, e dos líderes ipesianos engenheiro Glycon de Paiva e general Golbery do Couto e Silva. A CAMDE foi lançada no auditório do jornal O Globo, no Rio, oferecido por seu diretor-proprietário, Roberto Marinho. Na manhã do dia 12 de julho de 1962, o periódico carioca estampava na capa: “A Mulher Brasileira está nas Trincheiras”.

Já em São Paulo, nas reuniões de fundação da UCF, compareceram figuras como: Antonieta Pellegrini, irmã de Júlio de Mesquita Filho, diretor-proprietário do jornal O Estado de S.Paulo, e Regina Figueiredo da Silveira, primeira presidente da união paulista e irmã do banqueiro João Baptista Leopoldo Figueiredo, presidente do Ipês e primo do último presidente do ciclo militar.

2.) Em termos práticos, o que fizeram?

Desde sua fundação, a CAMDE carioca e a UCF paulista se engajaram na ação política de combate e desestabilização do governo Goulart, orientadas ideologicamente e materialmente pelo complexo Ipês-Ibad.

“Caravana a Brasília”: pelo veto a Santiago Dantas

Em 1962, as mulheres organizaram uma “Caravana a Brasília” com o objetivo de formar um efetivo “coro popular” para impedir a posse de San Tiago Dantas como primeiro-ministro. Esse movimento integrava parte da política de rejeição, pela elite, de uma composição com a ala moderada do trabalhismo. Para tanto, entregaram ao presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, 60 mil cartas pedindo a não aprovação do plebiscito antecipado, bem como o impedimento da delegação de poderes ao conselho de ministros, fundamental à continuidade das Reformas de Base do governo Goulart.
A primeira-dama de SP, dona Leonor de Barros (cent.), ladeada pelos deputados Herbert Levy (últ. à dir.) e Cunha Bueno (penúlt. à dir.)
Boicote ao Última Hora, o “diário da guerra revolucionária”

Um dos poucos jornais que se atreveram a criticar a tentativa de deturpar o processo eleitoral por parte dessas organizações femininas, o Última Hora, de Samuel Wainer, foi sistematicamente perseguido pela CAMDE e UCF. Caracterizando o periódico como “o diário da guerra revolucionária que se travava no Brasil”, as senhoras passaram a formar comissões de visitas a empresários, industriais e comerciantes que anunciavam no jornal, pedindo para que suas verbas publicitárias fossem suspensas. A coordenação dessa campanha de boicote foi feita em grande parte em sincronia com o Ibad, liderado pelo integralista Ivan Hasslocher, outra figura central na campanha anti-Jango. Hasslocher se exilou em Genebra depois de comprovados, pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) de 1963, os atos de corrupção de seu instituto no processo eleitoral de outubro de 1962.

"Marchas da Família com Deus pela Liberdade": quem convocou, dirigiu e financiou

Logo após o discurso de Goulart na Central do Brasil, em 13 de março de 1964, a CAMDE se engajou em campanhas por telefone, incitando as mulheres a permanecerem em casa e acenderem velas em suas janelas como sinal de protesto e fé cristã. A massiva “Cruzada do Rosário em Família”, do padre norte-americano Patrick Peyton, pároco de Hollywood, foi o ensaio-geral para as marchas anticomunistas de abril e março de 1964, fundadas no lema “A família que reza unida permanece unida”.

"Marcha da Família com Deus pela Liberdade" 
percorre o Viaduto do Chá, no centro de São Paulo
Seis dias depois do comício de Jango, em 19 de março, data em que se comemora o dia de São José, padroeiro da família, realizou-se em São Paulo a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, coroando o auge dos esforços das associações femininas orientadas pelo Ipês.

A marcha reuniu entre 500 mil e 800 mil pessoas para protestar contra o comício de Goulart na Central do Brasil. A idealização da marcha partiu do deputado federal Antônio Sílvio Cunha Bueno (PSD), um grande proprietário de terras e diretor da norte-americana Willys-Overland Motors do Brasil, cuja matriz ficou famosa pela fabricação, em parceria com a Ford, do jipe usado pelos norte-americanos na Segunda Guerra Mundial. Ao contrário da propagandeada supervalorização do papel dessas mulheres na condução dos protestos, a organização da marcha não ficou a cargo nem da UCF nem do MAF, ambas entidades sediadas em São Paulo. Quem levou o evento adiante foi o próprio Cunha Bueno, além de outros políticos paulistas, como o vice-governador Laudo Natel, Roberto de Abreu Sodré (UDN) e Conceição da Costa Neves (PSD), deputada mais votada no estado nas eleições de 1962.

Acompanhados de suas esposas, políticos importantes se fizeram representar nas marchas: Adhemar de Barros e sua mulher, dona Leonor; além de Carlos Lacerda, governador do Rio, e dona Letícia. O deputado Herbert Levy, integrante da UDN e líder do Ipês, bradava: “o povo não quer ditaduras, o povo não quer comunismo, o povo quer paz e progresso”. Cunha Bueno discursava: “Todos vocês nessa praça representam a pátria em perigo de ser comunizada. Basta de Jango!”.

Em São Paulo, os banqueiros Hermann Morais Barros (Banco Itaú), Teodoro Quartim Barbosa (Comind) e Gastão Eduardo Vidigal (Banco Mercantil), líderes ipesianos do primeiro escalão, ficaram incumbidos de articular e obter adesão das entidades de classe de todo o país para as marchas.

“O Ipês de São Paulo também fez contribuições diretas e em dinheiro para o movimento feminino: consta do relatório de despesas de 1962 e do orçamento de 1963 uma contribuição mensal para a UCF”, conclui a historiadora Solange Simões.

A organização logística da marcha foi feita no prédio da Sociedade Rural Brasileira, supervisionada pelo Ipês e contando com a presença de membros de diversas entidades patronais e associações industriais. No bem aparelhado quartel-general do movimento feminino fizeram-se ainda pôsteres, cartazes e bandeiras com as seguintes palavras de ordem:

  • Abaixo o Imperialismo Vermelho
  • Renúncia ou Impeachment
  • Reformas sim, com Russos, não
  • Getúlio prendia os comunistas, Jango premia os traidores comunistas
  • Vermelho bom, só o batom
  • Verde, amarelo, sem foice nem martelo
Cartaz na marcha estampava "Vitória da Democracia"; golpe que derrubou presidente eleito viria semanas depois

3.) Houve protagonismo feminino?

Uma vez vitorioso o golpe de Estado de 1º de abril de 1964, foi deflagrada a chamada “Marcha da Vitória”, reunindo 1 milhão de pessoas no Rio de Janeiro. Logo no dia 3 de abril, o líder do Ipês João Baptista Leopoldo Figueiredo, que estava em reunião na Guanabara na qual discutiam a escolha do “novo candidato” à presidência, telefonou para sua irmã Regina Figueiredo Silveira, presidente da UCF. Motivo: o banqueiro primo-irmão do último presidente militar solicitava à irmã-ativista que o lançamento da candidatura de Castello Branco fosse feito pela própria UCF.

Paulo Ayres Filho, outro líder ipesiano e empresário da indústria farmacêutica, ficou incumbido de elaborar, junto com uma equipe da UCF, o manifesto feminino de apoio ao marechal, levado às estações de TV e jornais pelas senhoras.

O general Olympio Mourão Filho, que marchou de Minas Gerais em 31 de março, antecipando-se ao plano dos conspiradores do eixo Rio-São Paulo, comentou, sobre as marchas das mulheres, que “como todos os homens que participaram da revolução, nada mais fez do que executar aquilo que as mulheres pregavam nas ruas para acabar com o comunismo”. Cordeiro de Farias foi ainda mais longe, de acordo com Solange Simões, “ao afirmar que a revolução foi feita pelas mulheres”.
Generais que participaram do golpe de 64 exergam protagonismo feminino como ponto central para o sucesso do movimento
Historiadores que estudaram o período são mais céticos: não veem a movimentação das mulheres como sintoma do engajamento universal da população brasileira no combate a Jango. Na verdade, essas mulheres, teriam funcionado como massa de manobra dos conspiradores — todos homens — para criar uma sensação de “espontaneidade” e “clamor popular” apta a dar “legitimidade” ao novo governo. Como aponta a pesquisadora Solange Simões, a marcha foi “ostensivamente uma manifestação das classes média e alta”. E mais: foi muito restrita, pois em uma cidade de 6 milhões de habitantes, como São Paulo, apenas 500 mil pessoas participaram.

Até o embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, notório por seu apoio ao golpismo, percebeu a falta de apoio popular no movimento, conforme relata a Washington em um telegrama de 2 de abril de 1964: “A única nota destoante foi a evidente limitada participação das classes mais baixas na marcha”. Seu espião militar no Brasil, o coronel Vernon Walter também atesta que, até a realização das passeatas, havia um receio de que o movimento para derrubar João Goulart fracasse por falta de apoio popular.

Desferido o golpe em 1º de abril, as marchas do Rio e São Paulo foram seguidas de outras menores, organizadas pelas associações femininas em Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Santos.

“Se antes os maridos enalteciam o papel de mãe e esposa para manter a mulher no lar e discriminadas na esfera pública, passam agora a enaltecer aquele papel para comprometê-la na ‘política’”, arremata Solange Simões. Assim, revelando o ilusório protagonismo vislumbrado pelo espetáculo dessas marchas de massivas mobilizações, “a ‘mulher-dona-de-casa’ que respeitava, no lar, a autoridade do chefe da família, deveria, enquanto mulher-cidadã procurar a autoridade do Estado – autoridade que residia principalmente no seu braço armado”, conclui a historiadora.

Principais fontes: René Armand Dreifuss (‘1964: A conquista do Estado: Ação Política, Poder e Golpe de Classe’) e Solange de Deus Simões (‘Deus, Pátria e Família: As mulheres no golpe de 1964’)
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Marcha da Família com Deus no Rio de Janeiro


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Golpistas e Maconheiros

Enquanto jovens que querem legalizar a maconha são tratados na pancada, quem defende golpe militar é tratado a pão de ló

A importância dos protestos a favor de um golpe militar no fim de semana reside em sua desimportância.

O povo fez sua parte. Ao ignorar as manifestações, demonstrou sua rejeição a aventuras contra a democracia e contra a liberdade.

Os sociólogos e analistas políticos que adoram falar numa “cultura autoritária” do brasileiro, sempre útil quando se quer achar uma justificativa para o próprio autoritarismo, já estavam com o argumento no bolso para ser utilizado caso algum protesto tivesse reunido um pouco de gente a mais. Tiveram de ficar em silêncio.

O fiasco da marcha dos golpistas não terminou bem para todo mundo, porém. A marcha foi tratada de forma tolerante, hospitaleira até, por determinados meios de comunicação.

O que se viu foi o seguinte.

— Você vai ao cinema?

— Não. Vou pedir um golpe de Estado.

E isso é grave, até porque não resiste a uma comparação.

Há vários anos que assistimos a um ritual conhecido. Toda vez que estudantes e jovens procuram organizar uma marcha pela legalização da maconha, surgem vozes dispostas a proibir a manifestação. Mesmo reconhecendo que vivemos num país onde a liberdade de expressão é um direito fundamental, não faltam questionamentos.

Já em 2010, o desembargador Sergio Ribas afirmou:

“Enquanto não houver provas científicas de que o ‘uso da maconha’ não constitui malefícios à saúde pública e que a referida substância deva sair do rol das drogas ilícitas, toda tentativa de se fazer uma manifestação no sentido de legalização da ‘maconha’ não poderá ser tida como mero exercício do direito de expressão ou da livre expressão do pensamento, mas sim, como sugestão ao uso estupefaciente denominado vulgarmente ‘maconha’, incitando ao crime, como previsto no artigo 286, do Código Penal, ou ainda, como previsto na lei especial, artigo 33, 2º, da Lei 11.343/2006.”

Um ano antes, em 2009, a desembargadora Maria Tereza do Amaral já havia dito que: “não se desconhece o direito constitucional à liberdade de expressão e reunião, que, à evidência, não está se afrontando neste caso, porquanto, não se trata de um debate de idéias, mas de uma manifestação de uso público coletivo da maconha”.

Não sou a favor da legalização da maconha. Mas admito que há um lugar para que isso seja debatido em nossa sociedade e que as pessoas favoráveis a medida possam expressar-se. O argumento para proibir a marcha da maconha dizia a que a liberdade de expressão também tem limites numa sociedade democrática, principalmente quando atenta contra a ordem pública/jurídica, ou a paz social.

Ordem pública? Paz social? Com golpe?

Pergunto por que esses mesmos questionamentos não foram feitos diante da marcha dos golpistas.

Acho que ninguém precisa de “provas científicas” de que as ditaduras fazem mal a nossa vida pública.

Não estamos falando de uma medida pontual, que diz respeito a uma droga específica, como a maconha, mas de uma garantia fundamental do Estado de Direito. A democracia, para os brasileiros, não está mais em discussão desde 1988, pelo menos. Naquele ano, ela entrou na Constituição como cláusula pétrea — que não pode ser reformada e que, conforme entendimento do Supremo, o Congresso sequer tem o direito de debater se irá reformar ou não. O artigo 60 da Carta diz:

“Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir:

I - a forma federativa de Estado;

II - o voto direto, secreto, universal e periódico;

III - a separação dos Poderes;

IV - os direitos e garantias individuais.

Isso quer dizer o seguinte. Não se pode debater o retorno da censura nem da tortura nem tentar legalizar o racismo. O voto direto não pode ser abolido e assim por diante.

Desse ponto de vista, o que se viu no fim de semana foi puro absurdo — reforçado quando se verifica o tratamento dispensado aos garotos que pediam a legalização da maconha. Eles tomaram porrada. Foram feitas prisões. Com o pretexto de que eles pretendiam fumar maconha na rua — o que é proibido e pode ser punido na forma da lei — proibiu-se que manifestassem sua opinião, o que é perfeitamente legítimo.

E aí o que nós vimos no fim de semana foi outro fenômeno político.

Em vez de ser rejeitado de forma absoluta pretendeu-se dispensar à ideia de um golpe de Estado um tratamento relativo, com argumentos supostamente equilibrados, ora contra, ora a favor.

Vamos “debater” a ditadura? Procurar seu lado "bom"?

É inaceitável. O que se fez na rua no fim de semana foi a apologia de um crime.

Mas dá para compreender como manifestação política.

A experiência ensina que a democracia sempre se torna um valor relativo quando deixa de atender a determinados interesses. Nessas horas, as juras de amor pelo regime são acompanhadas de muitos mases, poréns, entretantos e todavias... Erros, falhas, incongruências de um governo são apresentados como falhas do próprio sistema, como justificativas para questioná-lo nas entrelinhas.

Fico imaginando se alguém questiona a democracia, nos Estados Unidos (nos Estados Unidos!) toda vez que Barack Obama tem o governo paralisado porque atingiu o limite de gastos no orçamento.

É isso o que se vê hoje e nós sabemos muito bem por que. Apos três derrotas consecutivas em eleições presidenciais, ameaçados de enfrentar um quarto fracasso em outubro, conforme dizem todas as pesquisas de intenção de voto, os filhos, netos e bisnetos ideológicos dos golpistas de 64 sonham com uma revanche.

Acredite: sonham com uma Venezuela e o sufoco imposto a Nicolas Maduro.

Não suportam a possiblidade de enfrentar mais quatro anos longe do poder, com um governo que, apesar de muitos trancos, barrancos e solavancos, tem conseguido manter uma política de distribuição de renda, preservação com emprego e dos salários.

Confiando na perda de memória de 1964, os marchadeiros de 2014 mostram que perderam até a vergonha. Têm coragem de falar que só querem uma intervenção pontual, de curta duração. Nem neste aspecto são originais.

No 1º de abril de 1964, é bom lembrar, falava-se uma intervenção tão curta que os militares iriam se retirar a tempo da retomada do calendário eleitoral, em 1965.

O país foi obrigado a atravessar um quarto de século de treva autoritária antes de recuperar seus direitos soberanos.

Paulo Moreira Leite
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"Barack Obama no merece el Premio Nobel"

Obama com seu novo visual, ensaiando para a sua provável ida a Kiev
Charge / Maurício Porto - No Ladeiras do Silêncio
Lyudmila Bókova, miembro del Consejo de la Federación de Rusia, señala que el presidente estadounidense lleva una política de dobles estándares en lo referente a la situación en Ucrania y, por lo tanto, no merece su Premio Nobel de la Paz.

"La política de dobles estándares no es compatible con el laureado Premio Nobel. Creo que el Comité del Premio Nobel tiene que revisar objetivamente la situación y considerar la posibilidad de retirar este título a Barack Obama",
declaró la senadora rusa en una entrevista concedida al diario 'Izvestia'.

Las últimas declaraciones y las acciones del señor Obama están dirigidas contra las iniciativas de solución no violenta del problema ucraniano, además el presidente estadounidense busca fortalecer la hegemonía mundial de EE.UU. y en último lugar toma en consideración los intereses del pueblo ucraniano", apuntó Bókova.

Obama fue galardonado con el premio Nobel de la Paz en 2009 "por los esfuerzos extraordinarios dirigidos a fortalecer la diplomacia internacional y la cooperación entre pueblos", hecho que provocó mucha polémica en los medios mundiales debido a la política llevada por el mandatario norteamericano.

Según Bókova, EE.UU. ya hace tiempo que se convirtió en el gendarme mundial que impone violentamente a diferentes pueblos y estados sus propios intereses y valores. "La política de dobles estándares se ha convertido en el principal 'modus operandi' de EE.UU. en la arena mundial. Todo el mundo en repetidas ocasiones ha sido testigo de que la aplicación de dobles estándares en la política no solo es inaceptable, sino también peligrosa, y conlleva el aumento incontrolable de la violencia y de las violaciones de derechos humanos", asegura Bókova.

Otros políticos rusos comparten la opinión de la senadora. Así, por ejemplo, el vicepresidente del Comité para la Legislación Constitucional de la Duma Estatal, Viacheslav Lýkov, señala que le parece "absolutamente adecuada" la idea de Bókova. "Actualmente la política de dobles estándares de EE.UU. y su hipocresía se ven claramente", apunta.

El pasado 16 de marzo en Crimea se celebró un referéndum en el cual la mayoría absoluta se pronunció a favor de la reunificación con Rusia. El plebiscito "está en consonancia con el derecho internacional y la Carta de las Naciones Unidas, y se tuvo en cuenta, en particular, el famoso precedente de Kosovo", señaló al respecto el presidente de Rusia, Vladímir Putin, durante una conversación telefónica con Obama. No obstante, tras la reintegración de Crimea en la Federación de Rusia, EE.UU. y la UE aplicaron una serie de sanciones contra Rusia.

No RT
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O tamanho da corrupção na ditadura


Nunca é demais refrescar a memória dos renitentes.

Tortura corrompe. Mas os que dizem não ter havido corrupção na ditadura, na medida em que a imprensa era proibida de divulgá-la, só se importam com patrimônio. Para eles, corrupção é apropriação indébita. Matar e torturar seriam pecadilhos.

A corrupção durante o regime militar foi uma constante. O historiador Carlos Fico, em “Como eles agiam”, mostra que a ação contra a suposta “crise moral” foi o mote dos militares. Sempre que a expressão “dissolução de costumes” se espalha, tem autoritarismo no ar. Os ditadores queriam acabar com a corrupção, que viam como um traço cultural muito “característico do brasileiro”.

O ministro Armando Falcão, pilar da ditadura, chegou a dizer: “O problema mais grave no Brasil não é a subversão. É a corrupção, muito mais difícil de caracterizar, punir e erradicar”. Com o AI-5, de 1968, a ditadura dotou-se de mecanismo mais contundente para confiscar bens de corruptos. A Comissão Geral de Investigações, de 17 de dezembro de 1968, propunha-se a “promover investigações sumárias para o confisco de bens de todos quanto tenham enriquecido ilicitamente, no exercício do cargo ou função pública”. A roubalheira correu solta durante todo o regime militar. Carlos Fico conta que, entre 1968 e 1973, auge da ditadura, a CGI analisou 1.153 processos de corrupção. Aprovou 41 confiscos de um total de 58 pedidos. Entre os investigados ou condenados, “mais de 41% dos atingidos eram políticos (prefeitos e parlamentares) e aproximadamente 36% eram funcionários públicos. Num único ato, em 1973, chegaram ao Sistema CGI cerca de 400 representações ou denúncias”. Seria o caso de dizer: nunca se roubou tanto no país quanto em 1973.

O alto comando militar do país, quando confrontado com a roubalheira, exclamava: “Não sabíamos”.

E explicava: “Estamos investigando. Vamos punir”.

Carlos Fico pergunta: “Por que, então, fracassou a iniciativa de ‘combate à corrupção’ do regime militar pós- AI-5?”. A resposta vai enfurecer os adeptos da nostalgia: “Em primeiro lugar, a impossibilidade de manter os militares num compartimento estanque, imunes à corrupção, notadamente quando já ocupavam tantos cargos importantes da estrutura administrativa federal. Não terão sido pouco os casos de processos interrompidos por causa da identificação de envolvimento de afiliados ao regime”. Fico sabe do que fala. Foi um dos primeiros a ter acesso a arquivos com material sigiloso do regime. Examinou todos os processos de confisco no Arquivo Nacional. Cláudio Guerra, no recente “Memórias de uma guerra suja”, afirma que o regime financiou a repressão, na sua fase final, com dinheiro do jogo do bicho. Cita empresários, como o dono da Itapemirim, que receberam vantagens oficiais pelos bons serviços à repressão.

Uma determinação do Ministério da Justiça orientava a mídia: “É vedada a descrição minuciosa do modo de cometimento de delitos”. Não foi possível divulgar a descoberta de uma carga de drogas no quartel da Barra Mansa. O ministro do Trabalho, o gaúcho Arnaldo Prieto, em 1974, censurou as notícias sobre sua desastrada política salarial. Foram censuradas também as “gravuras eróticas de Picasso”. O consumo de drogas era considerado parte do “variado arsenal do movimento comunista internacional”.


Ainda a Corrupção e a Ditadura Militar

por Jasson de Oliveira Andrade é jornalista em Mogi Guaçu

O assunto sobre a corrupção e Ditadura Militar ainda não está esgotado. A imprensa, escrita e falada, afirma que a corrupção atual é a maior da História do Brasil. Com essa crítica, uma pequena parte de brasileiros, decepcionada, deseja a Ditadura Militar com a finalidade de combater os corruptos. No entanto, a corrupção no tempo da Ditadura Militar era infinitamente superior, como irei mostrar.

O jornalista e escritor J. Carlos de Assis escreveu três livros, no final da Ditadura Militar, em 1984, mostrando os escândalos desse período. Um deles, o mais famoso, “A Chave do Tesouro, anatomia dos escândalos financeiros no Brasil: 1974/83”, revela essa corrupção. Alguns capítulos: Caso Halles, Caso BUC, Caso Econômico, Caso Eletrobrás, Caso UEB/Rio-Sul, Caso Lume, Caso Ipiranga, Caso Aurea, Caso Lutfalla (família de Paulo Maluf, marido de Sylvia Lutfalla), Caso Abdalla, Caso Atalla, Caso Delfin, Caso TAA. Cada “Caso” é um capítulo. Por este motivo, é impossível detalhar esses escândalos financeiros, que trouxeram prejuízos inimagináveis à Economia daquela época!

Em outro livro, “A dupla face da Corrupção”, também em 1984, J. Carlos de Assis revela: “A censura (sic) da era Médici manteve o submundo da economia tão longe da curiosidade pública como as masmorras sombrias da repressão política. (...) Esta era uma atmosfera particularmente favorável ao apaniguamento (sic) e à proteção econômica e administrativa dos amigos do regime (…) Foi à sombra desse período obscurantista que a maioria dos arrivistas e aventureiros do mercado, esgueirando-se por essas omissões originais da lei ou pelos espaços abertos por sua deformação propositada (sic), penetrou no sistema financeiro e nele engordou seus conglomerados fraudulentos (sic), para explodir posteriormente em escândalos”, acrescentando: “Vários grupos de aventureiros e de gangsters de gravata (sic) foram postos na engorda junto aos cofres públicos (sic), com total contemporização e cumplicidade da autoridade administrativa”.

Adiante o escritor comenta o escândalo da Corretora Laureano, em 1976, fazendo essa estarrecedora denúncia: “Seu dono, contudo, precavidamente, havia lastreado suas ousadas operações num ativo intangível de valor incalculável nas circunstâncias: a amizade com o Ministro-chefe da Casa Civil, o condestável do governo Geisel, General Golbery do Couto e Silva. A relação estava selada, além disso, por um contrato de trabalho do filho de Golbery como diretor da Corretora (sic). E o General não tinha maiores constrangimentos éticos (sic) em encaminhar seu amigo às boas graças de algum colega de Ministério, em especial o que detinha as chaves dos cofres públicos, o Ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen”. Na página 85, outra denúncia grave: a compra pela Coroa-Brastel (uma empresa que também fazia parte do escândalo financeiro) da Metalúrgica Castor: “A Metalúrgica era propriedade do banqueiro de bicho Castor de Andrade, em sociedade com Osório Pais Lopes da Costa, sogro do Johnny Figueiredo, filho mais velho do Presidente da República (na época em que o livro foi publicado, 1984, o General João Figueiredo era o Presidente).

No ambíguo depoimento, Paim [dono da Coroa-Brastel] relata que foi contatado por Álvaro Leal em outubro de 1982. O consultor lhe teria dito que a Metalúrgica estava para quebrar e lhe sugeria comprar a empresa. “atendendo a um pedido do Chefe” (sic) – o próprio Presidente, no caso. Ele receberia por isso as “compensações devidas” , através do Banco do Brasil (sic)”. Era uma empresa suspeita comprando outra falida “atendendo o pedido do Chefe”! O escritor foi corajoso ao fazer essa denúncia contra o General-Presidente em plena Ditadura Militar, mesmo que nesse ano, 1984, o regime estava mais brando!

Existem outras denúncias de corrupção no período ditatorial, mas ficam para outro artigo.

Juremir Machado
No Correio do Povo
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Nós torturamos para não matar

Fernando Jorge é um baita intelectual.

Escreveu um livro espetacular sobre Getúlio Vargas. O requentador Lira Neto tentou dar uma de gostosão dizendo que tinha descoberto o discurso de formatura de Vargas. Já estava tudo no livro de Fernando Jorge.

O mesmo Fernando Jorge, em “Cale a boca, jornalista”, descreve uma das cenas de tortura mais devastadoras dos primeiros dias do regime militar de 1964, acontecida em Recife.

Jorge cita uma declaração de um militar, Hélio Ibiapina, torturador de primeira hora em Pernambuco, feita ao jornalista Márcio Moreira Alves na frente de Dom Hélder Câmara. Algo para entrar na história universal da infâmia sem Borges:

“Muitas vezes o senhor tem vindo ao IV Exército reclamar de torturas contra presos políticos. Traz os nomes e as torturas a que esses homens foram submetidos e não sei como consegue estas informações. Invoco o seu testemunho para dizer que nunca neguei que as torturas existissem. Elas existem e são o preço que nós, os velhos do exército, pagamos aos jovens. Caso tivessem os oficiais jovens empolgado o poder, os senhores estariam hoje reclamando não de torturas, mas de fuzilamentos. Nós torturamos para não matar.”

Essa citação chama a atenção quem pesquisa a nossa história recente. Eu destaquei parte dela em Jango, a vida e a morte no exílio.

É a confissão de um torturador de primeira hora. Castelo Branco mandou Ernesto Geisel investigar. O futuro ditador voltou com um resultado espantoso: nada mais do que boatos. A ditadura era surda, cega e cínica.

Juremir Machado
No Correio do Povo
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A entrevista com o torturador Ustra


Coronel Ustra: "Excessos, pode ter havido de ambos os lados"

Um muro transparente, de vidro, guarda a residência de um dos mais famosos agentes da ditadura. Gaúcho radicado em Brasília, o coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra foi o primeiro militar a ser reconhecido pela Justiça como torturador. Nos três anos e quatro meses em que comandou o Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo, 502 pessoas teriam sido torturadas no local e 50, mortas pelo órgão. Ustra insiste, há décadas, em negar todas as acusações, apesar dos inúmeros relatos de ex-presos e até de ex-agentes.

(Arquivo Pessoal) 
A tese de defesa do coronel nascido em Santa Maria — que no fim da década de 1970 também atuou no Centro de Inteligência do Exército, em Brasília, e comandou o 16° Grupo de Artilharia de Campanha, em São Leopoldo — começou a ser escrita há 29 anos pelo punho de sua própria esposa, Maria Joseíta. Em outubro de 1985, dois meses após a então deputada Bete Mendes reconhecer Ustra como seu torturador — fato que levou o nome do militar (na ocasião adido militar no Uruguai) às primeiras páginas de jornais de todo o país —, Joseíta escreveu uma carta às filhas, Renata e Patrícia, o que seria a introdução de um álbum dedicado às herdeiras do casal. No lugar de fotos da família, recortes de jornais, documentos e anotações, para que, no futuro, as filhas não se envergonhassem de carregar o sobrenome do militar. Dali veio a inspiração para o primeiro livro do militar, Rompendo o Silêncio, lançado em 1987, que reproduz e amplia os argumentos e exemplos citados no manuscrito assinado pela esposa.

Apesar da saúde mais debilitada que a do companheiro, aos 76 anos, Joseíta — uma paraibana elegante, de fala pausada e postura altiva — continua sendo o alicerce e a bússola de Ustra, com quem é casada há 54 anos. Avesso a entrevistas, Ustra abriu uma exceção ao receber Zero Hora em sua casa no Lago Norte, numa quinta-feira ensolarada de fevereiro. Em duas horas e meia de conversa, Joseíta fez 17 interferências, e o militar também recorreu à memória da mulher seis vezes.

Prestes a completar 82 anos, Ustra diz manter uma rotina agitada. Além de sessões de acupuntura, leva a esposa e o neto ao médico, vai ao mercado, envia exemplares de seu último livro, A Verdade Sufocada, pelos Correios. Também dedica mais de cinco horas por dia para selecionar e responder e-mails. Os contatos são feitos através do site homônimo do livro, atualizado por Joseíta.

Nesta entrevista, Ustra admite, pela primeira vez publicamente, que "excessos" podem ter sido cometidos. Ele ainda assume que usava o codinome de Doutor Tibiriçá e que também participava dos interrogatórios de militantes presos pelo regime. O militar demonstra convicção ao defender ter cumprido sua missão, evitando, assim, que o comunismo fosse implantado no Brasil.

"Todos dizem que foram torturados"

O senhor responde a processos por tortura, sequestro e ocultação de cadáver, foi o primeiro militar reconhecido pela Justiça como torturador. Nos três anos e quatro meses em que comandou o DOI-Codi em São Paulo, dezenas de pessoas foram mortas pelo órgão.
O senhor tem dormido bem à noite?

Sempre dormi. Graças a Deus, tenho dormido muito bem à noite. Nunca tive problema de consciência, porque não fiz nada de errado.

O senhor participou ou tinha conhecimento da realização de sessões de tortura no DOI-Codi?

Não. Eu não participei e não tinha conhecimento de sessões de tortura. Isso não havia. Excessos podem ter havido de ambos os lados. Não vou dizer para você que não houve. Pode ter havido excesso de um lado, o cara perder a paciência... Isso pode ter havido. Mas isso é explorado pela esquerda, que quer nos desmoralizar com esse problema de tortura. Mario Lago (ator, autor e comunista) já dizia isso: "Quando saírem da prisão, vocês sempre digam que foram torturados".

Que excessos podem ter sido cometidos?

Não me lembro. Excessos... Eu não me lembro, assim, de excessos que podem ter cometido.

Excessos durante interrogatórios?

Se cometeu, às vezes, no ato da prisão. Pode ter sido. O cara reagia, brigava, havia luta corporal... Você sabe, terrorista não é brincadeira. Não é fácil, entendeu? Mas todos dizem que foram torturados. Uma das poucas que disse em juízo que não foi torturada foi a Bete Mendes. No depoimento, chorou e disse que não foi torturada. E assinou o documento com dois advogados de defesa presentes. Chorou, disse que estava arrependida.

Por que tantos anos depois, quando vocês se reencontraram no Uruguai (em 1985, Ustra era adido militar e Bete, deputada federal) ela o acusou de tê-la torturado?

Aí, minha filha, eu é que quero saber por que que ela mudou. Quando elas foram presas eram umas crianças. Ela não, era maior (de idade).

Ela não pode ter se sentido coagida, com medo?

Mas coagida na frente do juiz, do júri, com pessoas assistindo, com dois advogados ao lado? Todos os presos chegavam lá e diziam: "Eu fui torturado horrivelmente". E ela se arrependeu, chorou. Ela esteve presa 20 e poucos dias, era a líder do grupo que doutrinava. Eram meninos do secundário, 18, 17 anos. Fui ao general e pedi para entrar em contato com o juizado de menores. Foi lá a dona Zuleika Sucupira, dava assistência e declarou: "Eles, aqui, estão sendo muito mais bem tratados do que nós poderíamos tratá-los". Depois, saíram de lá nenhum disse que foi torturado. Um pai até me escreveu uma carta agradecendo pelo tratamento.

Mas o que justifica a existência de inúmeros relatos de ex-presos e até de ex-agentes do DOI-Codi (como o ex-sargento Marival Chaves e o ex-escrivão Manoel Aurélio Lopes) que indicam que a tortura era uma prática comum no destacamento?

Olha, esse escrivão diz que serviu no DOI de 1972 a 1978, (Ustra pega um jornal e lê) "admitiu que houve torturas sistemáticas de presos políticos". Estou olhando a fotografia dele. Não me lembro de jeito nenhum. Uma coisa tenho certeza: pelo nome, da equipe de interrogatório ele não era. Uma coisa que a gente levava a sério era a compartimentação: quem era do interrogatório, era do interrogatório. Ninguém tinha nada que saber o que um e o que outro fazia. Ele disse que viu por uma porta, com certeza, não teria entrado lá.

Agora, esse sargento Marival serviu comigo uns dois meses. Esse cara, não sei o que aconteceu com ele. Eu sei, mas não posso dizer por que ele está fazendo isso. Não posso falar porque não tenho provas, mas sei por que aconteceu. Me consta que ele foi comprado, que ele recebeu grana para fazer isso. Ele disse na Comissão da Verdade que eu era senhor da vida e da morte. Ora, eu era senhor da vida e da morte de quem, meu senhor?

O senhor escreveu no seu último livro que "vidas humanas dependiam das suas decisões".

Sim, claro. A vida dos meus subordinados. Quando eu mandava meus subordinados para a missão — e existiam várias em que eu ia — , muitas vezes, levava o capelão militar para nos abençoar antes de sair. E nós partíamos para cumprir o nosso dever.

Qual era esse dever?

O dever? Era impedir que a luta armada vencesse e introduzisse o comunismo no Brasil, conforme eles estavam programados para fazer. Sim, esse era o nosso dever.

Vídeo: Coronel Ustra por Coronel Ustra



O senhor é autor de dois livros (Rompendo o Silêncio e A Verdade Sufocada). Quais foram os motivos que levaram um militar a se aventurar como escritor?

(Reprodução) 
Não me aventurei como escritor, porque não sou escritor. O primeiro livro escrevi porque um dia cheguei em casa e deparei com um álbum que Joseíta estava fazendo para nossas filhas, depois que a Bete Mendes fez aquele escândalo, aquela farsa toda. Saiu em tudo que é jornal. Zero Hora deu: "Coronel torturador some da embaixada". Jornal Nacional também.

Quando vi que ela estava escrevendo para nossas filhas, dizendo que não era bem assim, que eu era vítima de uma injustiça, resolvi escrever o livro. Mesmo na ativa, resolvi escrever o livro para me defender, para defender a minha família, para dizer: "Não, isso não é verdade, isso não aconteceu". Tanto não aconteceu que eu não fui substituído. Fui mantido no cargo até meu último dia. Foi para rebater a Bete Mendes, a chamei de mentirosa, desfiz ponto por ponto todas as mentiras dela. E ela calou. Não entendi até hoje por que montaram essa coisa.

O senhor acha que foi por causa desse episódio que virou uma espécie de símbolo do regime?

Não sei por que sou o bode expiatório. Acho que isso foi um dos fatores que, realmente, mostrou para o povo "ó, esse cara é torturador". O outro livro escrevi porque quando houve a contrarrevolução (o golpe de 1964), depois que acabou tudo, houve a Lei da Anistia. Os militares se recolheram e era proibido falar nisso. Então, silêncio total sobre o passado, respeito à lei. Como já tinha passado para a reserva, podia falar. Não queria que só eles dessem a versão deles.

A figura de Luiz Carlos Prestes chegou a ser idolatrada por seu pai, Célio, e seu tio Lupes, tanto que os dois, quando eram soldados, fizeram parte da Coluna Prestes. Lupes morreu durante a marcha. Mais tarde, a adesão de Prestes ao comunismo revoltou seu pai, que achava que a morte do seu tio tinha sido em vão. Como esses episódios influenciaram suas escolhas de seguir a carreira militar e de lutar contra o comunismo?

A Coluna Prestes fazia parte do movimento tenentista. Eles queriam mais avanços. Eram jovens idealistas, não comunistas. Meu pai contava essa história. Quando viu que tinham lutado atrás de um homem que virou comunista, ficou revoltado. Ele falava do comunismo, falava que tinham matado militares que estavam dormindo. Isso me incentivou o civismo e a entender que o comunismo não era uma coisa boa. Fui lutar contra o comunismo pelas circunstâncias da minha vida profissional. Cheguei em São Paulo quando os terroristas já tinham assaltado mais de 300 bancos e carros pagadores, matado mais de 66 pessoas e mandado mais de 300 para Cuba fazer curso de guerrilha.

Como foi o convite para chefiar o DOI-Codi?

(Arquivo Pessoal/Arquivo Pessoal) 
O presidente Médici baixou uma diretriz de segurança interna determinando que o Exército assumisse o combate ao terrorismo. Um dia, o general Canavarro (José Canavarro Pereira, ex-comandante do 2º Exército) me chamou e disse: "Major, o senhor foi designado para comandar o DOI-Codi do 2º Exército. Estamos numa guerra. Vá, assuma e comande com dignidade". Encarei como uma missão. Cheguei em casa e disse para a Joseíta: "Olha, fui escolhido para comandar o DOI. Nossa vida agora mudou. Não vamos poder mais sair. Vamos ter que ficar com cinco homens comendo e dormindo aqui em casa, noite e dia, para nossa segurança". Foi uma missão de sacrifício, escapei de dois sequestros e muitas ameaças de morte. O número do telefone tinha de mudar quase que semanalmente, queriam sequestrar minha mulher ou minha filha, para me trocar por elas. Durante três anos, fui uma só vez ao cinema.

Suas filhas nunca o questionaram sobre essa missão?

Não, absolutamente não. Todas sempre foram muito solidárias ao pai.

Nenhuma editora de projeção aceitou publicar seu último livro, A Verdade Sufocada, lançado em 2006. Depois, apenas uma livraria se dispôs a vendê-lo. Por que a sua verdade parece não convencer?

Não convencer a população? Acho que é o patrulhamento ideológico que não deixa meu livro ser publicado. Por que os jornais não dizem que eu lancei um livro? É a história que a esquerda não quer que o Brasil conheça.

Mas a sua versão também não convenceu a Justiça, que o reconheceu como torturador.

Pois é. Foi no processo da Maria Amélia Teles. Quando ela foi presa com o marido, também me informaram que havia duas crianças no local. Disse, então, para levarem as crianças para o DOI. Na sala de interrogatório, informei que as crianças não poderiam ficar lá e que iria mandá-las para o juizado de menores. Ela começou a chorar e uma tenente ficou com dó e disse que levaria as crianças para a casa dela, se eles autorizassem. Um parente do casal, da Polícia Civil de Minas, ficou de buscar as crianças em dois dias. Com pena da dona Maria Amélia Teles, pedi para a tenente trazer as crianças para ficar com os pais uma duas horas por dia, até os tios chegarem, para elas não ficarem tristes. No processo, ela disse que eu levava as crianças para ver a mãe torturada.

Fui condenado por causa disso, minha filha. Agora, ela disse, também, que eu torturava as crianças, mas o juiz me absolveu dessa parte. Dou resposta para isso tudo. Nunca ocultei cadáver, nunca torturei criança, nunca bati em nada. Se ela estava machucada, não a machuquei. E ninguém machucou. Minha filha, olha para mim, para minha casa, para minha mulher. Vou ter cara de pegar uma criança de 4, 5 anos e (Ustra altera a voz): "Olha aqui a tua mãe toda machucada, fala aqui com a tua filha". Eu iria fazer isso? Um animal faria isso. Eu não faço isso, mas estou sendo acusado. Pergunto a você: e a Lei da Anistia? Para provar, eles sempre pegam quatro ou cinco pessoas que estavam presas na mesma época e combinam o que vão dizer. O juiz acredita e eu sou condenado.

O senhor já processou alguém por calúnia?

Não posso processar, porque ela vai pegar cinco ou seis testemunhas, ex-militantes, ex-terroristas. Combinam tudo e aí vão dizer para o juiz que me viram torturando. E eu vou fazer o quê? Vai ser a minha palavra contra a deles. Não tem como, minha filha. Eles fazem isso. Infelizmente, a nossa Justiça é essa.

Por que essas pessoas se uniriam contra o senhor?

(Risos) Ora, minha filha, a ideologia comunista. É revanchismo, raiva de terem perdido a guerra e não terem implantado o comunismo aqui. E também por dinheiro.

Dinheiro de quem?

O nosso, das indenizações.

Se o objetivo dos militares com o golpe era o de apenas zelar pela democracia, como vocês afirmam, por que o regime se estendeu por mais de 20 anos?

Pois é. Nosso objetivo era passar o governo o mais rápido possível para os civis, quando eles começaram essa luta, que foi crescendo. Essas organizações não foram criadas depois do AI-5. Acho que se estendeu por 21 anos por causa do terrorismo. Minha opinião é que o regime deveria ter terminado no governo Médici. Se perdurou mais tempo, única, pura e exclusivamente foi por causa do terrorismo. Não se podia passar o governo para os civis com o terrorismo naquele auge e com estatutos de organizações que queriam claramente implantar o comunismo. Desaprovei essa continuação, mas quem sou eu? Isso aconteceu na América Latina toda. O Brasil estabeleceu um modelo de combate ao terrorismo. Quantos mortos nós tivemos? Não chegou a 500 mortos de ambos os lados - 119 do nosso e quase 400 deles. Isso no início, porque depois apareceu morto de tudo quanto que é lado. Todo mundo quer ser indenizado. Tínhamos mais de 40 organizações terroristas, de todos os calibres. Você acha que o terrorista brasileiro é menos capaz, menos corajoso, menos doutrinado ideologicamente, menos valente do que o argentino ou uruguaio? Não! São todos iguais. Como que na Argentina, para combater o terrorismo, foram 30 mil mortes? No Uruguai, pequenininho, foram 5 mil mortes; Peru, 30 mil; Chile, quase 30 mil. Colômbia, que quis manter a democracia, está até hoje lá, território dividido, mais de 45 mil mortos. Se fôssemos combater igual aos outros, era 150 mil no mínimo. Pense bem. Foi menos de 500 porque nós, militares das Forças Armadas, combatemos de uma maneira diferente, de maneira profissional.

E como isso foi possível?

Demos um modelo para o mundo, com a criação dos Codis, dos DOIs e com alterações na Lei de Segurança Nacional como a incomunicabilidade de 30 dias, não tinha habeas corpus, entendeu? O povo continuou com as leis comuns, tudo igualzinho, tudo certinho.

A censura não foi uma medida antidemocrática?

Olha, não sei porque se censurava. Não tenho um ponto de vista, mas também não foi tanto assim. Às vezes, para o próprio andamento das operações, por se trabalhar com um número reduzido de vítimas, havia necessidade da censura. Foi uma necessidade nossa para acabar com isso da maneira que acabamos. É gritante. Vocês têm que entender isso, gente!

Que tipo de necessidade?

Uma necessidade nossa de lutar e não deixar que essas organizações ocupassem o Brasil. Nossa presidente, em seu discurso de posse disse: "Nós, os combatentes da liberdade, que lutamos pela democracia...". Não! Eles lutavam para derrubar o regime militar para reempossar Jango, botar o comunismo. Isso todos queriam. Minha filha, se não fosse a nossa luta, se não fosse o nosso trabalho, você não estaria aqui hoje, porque iria existir só um jornal. Isso aqui seria uma Cuba. A própria esquerda reconhece isso.

Mas a imprensa também tinha dificuldades de trabalhar na época do regime.

Devia ter, claro. Devia ter, não tenho dúvida. A gente talvez tinha de ter censura para acabar com o terrorismo o mais rápido possível.

O senhor nega que tenham ocorrido mortes dentro do DOI. Por que, então, um relatório do próprio Exército, com estatísticas do órgão, aponta 50 mortos até setembro de 1975?

Porque houve 50 mortos.

Mortos de que forma?

Em combate, fazendo cobertura de pontos. Quando prendíamos um terrorista, sabíamos que um terrorista não sabia o nome do outro, um não sabia onde o outro morava. Então, eles se comunicavam através de pontos, que eram locais de encontro. Tinha o ponto de polícia, para onde eles iam se eram presos. Tinha o ponto frio, inventavam um ponto que não era o de encontro para ganhar tempo. Quando as organizações desconfiavam que eles estavam presos, tentavam resgatar o companheiro, e aconteciam tiroteios. Como terrorista sempre usava duas armas, quando encontrava o companheiro preso (que era levado pelos militares ao ponto e entrava sozinho, como isca para tentar prender mais militantes), eles decidiam reagir, e dava tiroteio. Outras vezes, eles tentavam se suicidar, se jogando embaixo de carros. Quando morria uma pessoa, você não podia chamar a perícia e isolar a área, porque eles andavam com cobertura, vinham e metralhavam a gente. Então, acabou o tiroteio, tinha morto? Levava para o DOI. Estava doente, ferido? Levava para o hospital. No DOI, o corpo ficava ali num lugar deitado, guardado. Eram pequenas as nossas instalações. E esse Marival dizia que eu botava os corpos em exposição. Onde é que eu ia botar? Deixava no pátio esperando chegar o rabecão. A gente entrava em ligação com o Dops, que providenciava tudo. Logo vinha o rabecão. Levavam os corpos, IML, autópsia, sepultamento. Tudo feito pela polícia. Isso que dizem, que eram os militares que iam lá para enterrar os corpos, é mentira. Mentira deslavada! Nenhum dos militares ia lá enterrar ninguém. Isso era missão da polícia. Nossa missão acabava quando o rabecão levava o morto embora.

Se vocês temiam um contra-ataque, porque não deixavam os corpos no local do tiroteio...

(Interrompendo) Para eles recolherem os terroristas?

Não havia um procedimento legal, de perícia na área?

Não podia fazer, não dava tempo. Minha filha, aquilo era uma guerra. Lidar com o terrorismo é guerra. Qualquer país que luta contra o terrorismo não faz isso, nem os Estados Unidos. Não pode, não dá para fazer porque eles vêm em cima. Quando você está numa guerra, é assim.

Mas a Convenção de Genebra...

(Ustra interrompe)
Ah, bom! A Convenção de Genebra... Eles não estavam na Convenção de Genebra.

A Convenção de Genebra prevê que os mortos durante conflitos sejam identificados e suas famílias, informadas. As autoridades da época não violaram essa regra ao permitir que militantes fossem enterrados com nomes falsos, mesmo sabendo de quem se tratava?

Não. Não violamos regra nenhuma. Vou explicar por quê. Estou sendo processado por ocultação de cadáver de Torigoe (estudante de medicina Hirohaki Torigoe). Esse rapaz morreu em um tiroteio portando documento falso (com o nome de Mashiro Nakamura). No meu livro, está lá o nome da rua, a hora, tudo direitinho. Não sabia onde morava a família do Torigoe, mas botamos no jornal. Se a família fosse informada ou se os companheiros dele informassem a família, a família iria saber que ele tinha morrido. Por lei, a gente não podia enterrá-lo com o nome Hirohaki Torigoe. A gente achava que era o Torigoe pelas fotografias. Mas como enterrá-lo como Torigoe se ele estava com uma identidade verdadeira, tirada em um registro de identificação, através de uma certidão falsa que pegou lá no interior de não sei aonde? Tem até um caso de um militante que entrou na Justiça para voltar a usar o nome verdadeiro, e a Justiça negou. Ele só conseguiu depois, com aquela comissão que dá as indenizações. Imagina nós durante o combate, com o corpo ali insepulto, vamos procurar para saber se é Hirohaki Torigoe... A gente enterrava com aquele nome. O inquérito que ia para a Justiça dizia "tudo indica que se trata de Hirohaki Torigoe". Dali para frente, saíam à cata da datiloscópica dele em algum lugar do Brasil - desse Hirohaki Torigoe parece que levou seis, oito meses. Então, ele era obrigado a ser enterrado com aquele nome. Isso não é ocultação de cadáver, meu Deus do céu! E nem violação. O José Dirceu não viveu (com nome falso) não sei quantos anos lá no Paraná, teve filhos, fez negócio, fez isso e aquilo? Se ele tivesse morrido lá, iria ser enterrado com que nome? De José Dirceu ou com o que ele usava?

Nesse processo todo, as famílias não eram informadas.

Não sabíamos como informar as famílias. Esse Hirohaki Torigoe acho que nem a família sabia onde andava. Eles eram clandestinos.

Como o senhor se sentiria se não conseguisse enterrar um filho ou irmão?

Eu sentiria como qualquer ser humano sente. Mas, infelizmente, era guerra. Quando se está na guerra e tem que enterrar um soldado, como fica? Como é que fica a família? Infelizmente, não tínhamos como informar a família.

No DOI, o senhor teve contato com o empresário Henning Boilesen, que teria financiado o regime e participado de sessões de tortura?

Conheci o Boilesen socialmente, em um jantar. Durante o meu comando, uma vez no Natal, ele foi lá levar um lampião a gás que estavam lançando. Ele estava distribuindo aquele presente para vários órgãos. Eu o recebi na minha sala e o levei até o portão para me despedir dele. Dizem que ele financiava o DOI, a mim ele nunca financiou. Dizem que ele visitava o DOI, só se foi em outro comando, não no meu. Nunca recebi um tostão do Boilesen.

O senhor teve algum envolvimento com o sequestro dos uruguaios Lílian Celiberti e Universindo Díaz, que ocorreu na capital gaúcha em 1978, quando o senhor comandava o 16º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado, em São Leopoldo?

Soube disso pelo jornal. Quando isso aconteceu, já tinha deixado o Serviço de Informações, e lá, quando a gente sai, sai. Depois vai fazer outra coisa e não toma mais conhecimento. O Jair Krischke (presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos) me acusa de ter participado disso.

Tenho sentido vontade de processá-lo e vou exigir danos morais. Como é que eu ia participar do sequestro? Iria deixar o comando do GAC? Por coincidência, depois fui para o Uruguai, mas porque era perto de Santa Maria e poderia visitar meus pais de carro.

O fato de o senhor ser amigo do então delegado e chefe do Dops gaúcho, Pedro Seelig, e do coronel Átila Rohrsetzer, ex-diretor da Divisão Central de Informações, além de estar no RS na época, não passou de coincidência?

Não tem nada a ver. Nunca soube do sequestro.

Como são os encontros anuais dos ex-integrantes do DOI-Codi?

Nos reunimos uma vez por ano, em um determinado lugar, como uma churrascaria. Três quartos dos ex-integrantes já morreram, mas vão os filhos muitas vezes. Alguns estão bem velhinhos, esclerosados. A última vez que fui, em novembro, tinha uns 150. A gente conversa sobre o dia a dia, ninguém mais tem condição de conspirar. É um bando de velhos. Eles fazem questão da minha presença.

Como o senhor se sentiu ao ver chegarem ao poder pessoas que estiveram do lado oposto durante o regime?

Ah, vejo, com satisfação, que o nosso trabalho não foi em vão. Porque nós lutamos para que isso acontecesse, para que o povo elegesse, dentro da democracia, aqueles que queriam no governo. As organizações queriam implantar o comunismo pela luta armada, o que não era possível. Mas, depois, eles optaram por via democrática, se candidataram, organizaram partidos, estão no poder.

Me sinto realizado. Infelizmente, eles não estão produzindo a democracia que gostaríamos de ter. Estamos vivendo essa ditadura democrática que eles estão implantando.

Entre seus colegas militares e grupos conservadores, o senhor é visto como um herói nacional. Já para a esquerda e militantes dos direitos humanos, o senhor é um monstro. Quem, afinal, é o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra?

Olha, sou um homem que mantenho minha consciência muito tranquila. Cumpri com meu dever, durmo tranquilo, sou respeitado, graças a Deus, pelas pessoas de bem. Sou um monstro para quem está impregnado com a ideologia do outro lado, pessoal de esquerda. Sou apresentado como um monstro, também, apesar de eu achar que não sou um monstro, mas eu não sei por que fizeram esse estereótipo da minha pessoa. Não sei se foi raiva ou vingança.

Tiveram vários DOIs no Brasil. Herzog (jornalista Vladimir Herozg, morto em 1975, em São Paulo) não é comigo, Fiel Filho (metalúrgico, morto em 1976, em São Paulo) também não. Mas me sinto um homem realizado dentro da minha profissão, me sinto um homem tranquilo. Realmente, foi difícil a fase que vivi. Foram momentos muito tensos e difíceis, mas eu achei que era necessário fazer aquilo que fiz para que você tenha o que tem hoje. Eu ajudei a fazer isso.

E o que exatamente o senhor fez, que foi necessário?

Foi necessário combater o terrorismo, entrar em combate com eles nas ruas. Foi necessário? Foi. Se não fosse entrar em combate, eles estavam mandando até hoje.

Quais são as causas dessas manifestações que ocorrem no país desde junho passado?

É uma demonstração de que o povo está cansado. Está cansado de corrupção, de impunidade, dessa roubalheira toda, dessas coisas que estão acontecendo, entendeu? Está cansado da falta de segurança, dos hospitais quebrados, de ver o Brasil dando dinheiro para Cuba, e os nossos portos precisando de dinheiro e a soja não podendo ser exportada porque os portos não estão aparelhados. Está faltando dinheiro para os hospitais, mas dá dinheiro para ditadores africanos, que têm fortunas guardadas.

Não entendo como um governo democrático bajula tanto governos ditatoriais. Cuba é ou não é uma ditadura? É uma ditadura, gente. Aquilo lá não é democracia de jeito nenhum. PC do B não mandou uma mensagem para a Coreia do Norte? Pelo amor de Deus, Coreia do Norte? Mas o povo se retraiu por causa dos black blocs, que, para mim, foi algo plantado. Esses movimentos sempre começam em São Paulo, porque tem que desestabilizar o Alckmin. O PT, em 2006, fez a mesma coisa. Acho que isso não vai dar certo. Estão metendo os pés pelas mãos.


Cleidi Pereira
No Zero Hora
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