15 de mar de 2014

Oliveira Lima: Veja faz antijornalismo


O advogado José Luiz de Oliveira Lima, que defende José Dirceu, se mostrou indignado com a capa da revista Veja deste fim de semana, que atribui a seu cliente supostos privilégios na Papuda, em Brasília. "O que Veja fez foi uma demonstração cabal de antijornalismo", disse, ao 247, Oliveira Lima.

A reportagem de Veja foi feita a partir de relatos em "off" — ou seja, declarações de supostos agentes penitenciários que "dizem" que Dirceu teria tido direito a picanha, peixada, lanches do McDonald's e tratamento com um podólogo. O objetivo declarado da reportagem é fazer com que Dirceu seja enviado a um presídio federal, de segurança máxima, o que contraria a decisão do próprio Supremo Tribunal Federal — uma vez que ele foi condenado ao semiaberto, embora esteja há quatro meses em regime fechado.

"A matéria, que nem poderia ser chamada de matéria, é fruto apenas de ilações", diz Oliveira Lima. "Faz parte de uma campanha feroz e diária da revista Veja contra meu cliente que está prestes a ter seu pedido de trabalho externo avaliado pela Vara de Execuções Penais do Distrito Federal", afirma. "Pedido este que conta com recomendação favorável do Ministério Público".

Segundo Oliveira Lima, na semana passada, Dirceu depôs ao juiz Bruno Ribeiro, da VEP/DF e nada lhe foi perguntado sobre supostos privilégios. Além disso, o suposto uso de um celular, argumento usado para impedir seu trabalho externo, foi negado por sindicância das autoridades prisionais. "A VEP visita regularmente o presídio e não fez qualquer apontamento sobre supostos privilégios ou regalias", diz Oliveira Lima.

Para saber mais sobre a mais recente tentativa de Veja de manipular o Poder Judiciário, leia:

Sem provas e em "off", Veja aponta regalia de Dirceu


A revista Veja, que já invadiu um quarto de hotel em Brasília, numa operação feita em parceria com o bicheiro Carlos Cachoeira, entrega, neste fim de semana, mais uma armação jornalística a seus leitores, com o objetivo de manipular o Poder Judiciário. O alvo, mais uma vez, é o ex-ministro José Dirceu, por quem Veja nutre um estranho fascínio, tantas as capas que lhe foram dedicadas. Desta vez, a reportagem trata de supostos privilégios que Dirceu estaria recebendo na Papuda.

Em resumo, os privilégios seriam picanha, lanches do McDonald's, visitas fora de horário e acesso a um podólogo, para tratar uma unha encravada. As provas... bem, as provas, elas não existem. Todo o texto de Veja está ancorado em declarações em "off" de supostos servidores da Papuda. Ou seja: supostas fontes que se mantêm no anonimato. "Nas últimas semanas, VEJA ouviu funcionários da Papuda que, sob a condição de anonimato, revelaram detalhes do regime especial a que estão submetidos os mensaleiros. 'Aqui já teve até picanha e peixada feitas exclusivamente pra eles', conta um servidor", diz um trecho da reportagem.

Notícias desse naipe, sem nenhuma comprovação factual, atingem seus objetivos. Foi a suspeita de uso de um celular no presídio, lançada na imprensa mas negada por uma sindicância interna, que impediu a análise do pedido de trabalho externo de José Dirceu. Foi também uma nota sobre uma feijoada o argumento usado pelo juiz Bruno Ribeiro, filho de um dirigente do PSDB no Distrito Federal, para mandar Delúbio Soares de volta para a Papuda.

Com a capa desta semana, Veja tem alguns objetivos. Um deles é garantir a volta de José Genoino à prisão. "Numa conversa entreouvida por um servidor, um médico que atendia Genoino revelou ter escutado do próprio petista a admissão de que deixara de tomar alguns remédios para provocar uma arritmia cardíaca e, assim, poder pleitear a prisão domiciliar", diz Veja. A prova? Mais uma vez, uma "conversa entreouvida".

No caso de Dirceu, o que move a publicação é mais grave. Veja pretende manipular a Justiça para que um réu condenado ao semiaberto e recentemente inocentado da acusação de formação de quadrilha seja enviado a um presídio de segurança máxima — o que contraria a própria decisão do Supremo Tribunal Federal. "A Justiça está analisando um pedido do Ministério Público para que, diante da impossibilidade de controlar os privilégios concedidos aos mensaleiros pelo governo petista de Brasília, todos eles sejam transferidos para um presídio federal."

Nos próximos dias, o Brasil saberá se uma reportagem da insuspeita Veja, em off, será acolhida como prova pelo Poder Judiciário. Esculhambação? Sim, esculhambação total.
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A valentia do General Nini, o que se esconde atrás do tempo

Ele, o de cima
O general Newton Cruz dá entrevista à Folha, o jornal da ditabranda.

E o general Nini, como ficou conhecido, fala com a arrogância dos impunes.

Não com o garbo dos tempos de cavalariano, mas com a pequenez daqueles a quem nem o tempo traz arrependimento e serenidade.

Não há novidade na sua confissão de que sabia que o atentado a bomba do Riocentro estava em vias de se realizar e que nada fez para impedir.

Já havia dito isso ao repórter Geneton de Moraes, da Globonews, num vídeo patético, que reproduzo abaixo.

É obvio que mente, pois ninguém imagina que o chefe de Informações do SNI possa ficar sabendo que um grupo de militares vai explodir uma bomba e vá para casa ver televisão.

Mesmo nessa falsa confissão, segue mentindo.

O general, que vivia fazendo pose de valente e, quando se fez um “buzinaço” pela aprovação das eleições diretas, em 1984, saiu pelo meio do engarrafamento de rebenque em punho, sovando os capôs dos carros, agora se oculta numa suposta proteção da Lei da Anistia, para seu ato de omissão cúmplice (no mínimo).

Mas a Anistia foi em 79 e o Riocentro em 1981.

O argumento que resta seria a prescrição do crime, pelos 33 anos passados.

Mas para esses crimes, segundo os tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, não há prescrição.

A punição para estes casos é o menos importante, em si.

Mais valor tem o sentido pedagógico que isso traria, de mostrar que, mesmo três décadas depois, não se admite que uma instituição nacional, como nossas Forças Armadas, se rebaixe ao nível de tolerar núcleos terroristas e antidemocráticos.


Fernando Brito
No Tijolaço

A íntegra da entrevista do general Nini a Geneton de Moraes Neto:


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Nove coxinhas de jaleco vaiam Dilma e ganham capa no Globo


Realmente, o Globo é muito “isento” e “imparcial”.

A presidente foi à Araguaína, no interior de Tocantins, inaugurar 1.788 unidades de casas do programa Minha Casa Minha Vida, numa versão mais avançada do programa, onde os imóveis são de “alto padrão”, equipados até com placas de energia solar.

É recebida com euforia por milhares de pessoas, a começar pelos beneficiados e suas famílias.

Aí aparecem nove coxinhas estudantes de Medicina, que protestavam contra o programa Mais Médicos, vaiam a presidente e gritam um lugar comum idiota do udenismo: “PT Corrupção”.

Eu até consegui uma foto dos meninos, onde vimos quatro cartazetes improvisados. Os coxinhas estavam esmagados no meio do povo que aplaudia e escutava a presidente:

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Realmente, é um protesto “enorme”!

O que aparece na capa do Globo?

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Detalhe curioso: no jornal impresso, a matéria fala em “dez estudantes de Medicina”. No site, corrigiram para nove estudantes.

As quase 1.800 casas irão beneficiar mais de 7.000 pessoas. Imagine o impacto social e econômico de uma medida dessa numa pequena cidade do centro-oeste brasileiro.

É interessante assistir à fala da Dilma no evento. Ela se emociona ao lembrar do que lhe disse uma senhora sobre o que representava para ela ter, enfim, uma casa com endereço. Em muitas comunidades pobres, e são centenas de milhares espalhadas pelo Brasil, as casas não tem endereço porque foram construídas de maneira irregular. Não tem cadastro sequer na prefeitura da cidade.

Enquanto isso, Aécio Neves, informa Jorge Bastos Moreno, em sua coluna de hoje, não sai de “certo restaurante de comida japonesa no Rio, na companhia de bacanas”.

Talvez o tucano ganhe o voto dos nove coxinhas de jaleco. Possivelmente serão os únicos votos em Aécio na cidade.

Eu editei o vídeo para ficar bem curtinho e fácil de assistir.


Vale a pena também, se puder, assistir o vídeo sobre as casas:


O programa Minha Casa Minha Vida, assim como os Mais Médicos, pela sua magnitude, tornou-se um programa estruturante, sobretudo em sua nova etapa, na qual os conjuntos habitacionais trazem também postos de saúde, escolas e creches.

Isso explica a forte popularidade de Dilma junto à população mais pobre e nas cidades pequenas.

Miguel do Rosário
No Tijolaço
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Água: a imprensa é cúmplice de um crime em São Paulo.


O sistema Cantareira, amanhã, cairá abaixo dos 15% de reserva d’água.

O que, se já é pouco, ainda não é o retrato do drama do abastecimento de água em São Paulo.

Porque o coração do sistema, com 82% de sua capacidade, está se apagando.

O reservatório Jaguari-Jacareí só tem, hoje, 9,2% de seu volume de água.

Amanhã, terá 9%.

E quando chegar aos 5% não poderá mandar mais água para ser transferida a São Paulo.

E sem ele, o sistema passa a viver das outras três represas, pequenas, e incapazes de sustentar o consumo da metrópole senão por algumas semanas, até a falência total do sistema.

Ontem, o Jaguari-Jacareí deu 19 mil dos 28 mil litros que São Paulo consome a cada segundo.

Mas recebeu dos seus afluentes apenas 3 mil litros por segundo.

O Governador do Estado fiz que tudo está sob controle e nega o racionamento que, de fato, vai impondo aos municípios que dependem desta água, reduzindo os despachos, como fez com Guarulhos, ou simplesmente deixando faltar água em diversas localidades.

Como a imprensa, salvo os espasmos de notícias durante dois dias, não fala da gravidade da situação, é natural que o paulistano, há vários dias debaixo de chuva, não compreenda o drama que está para viver.

Os temporais que caem sobre São Paulo, quase todo dia, amenizam a percepção do problema da água.

Porque a chuva forte que abasteceria o Cantareira faz tempo que não cai, porque ela teria de ser localizada bem ao Norte da cidade e em Minas Gerais, na região de Extrema.

Para o sistema baixar menos, à espera de uma chuva salvadora, seria preciso, no mínimo, dobrar o corte na captação em relação ao corte de 3 m³ por segundo já praticado pela Sabesp. Ainda assim, isso seria suficiente para reduzir apenas à metade o declínio dos reservatórios.

O que estamos dizendo aqui, há vários dias, não é alarmismo ou exploração política a seca.

É aquilo que, diante de qualquer problema sério, jornalistas e governantes têm a obrigação de expor claramente à população.

E nem mesmo sequer uma reportagem sobre a falada instalação de bombas para sugar o volume morto (abaixo das tomadas de água) que “esticaria” o fornecimento de água, mesmo que de pior qualidade e riscos de sobrevivência do sistema na época mais seca.

Quem informa com lealdade o que está acontecendo, aí sim, passa a ser cúmplice do sofrimento que, inevitavelmente, será imposto à população.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Cavalo não desce escada: PMDB não sai do Governo


“Cavalo não desce escada”, avisava o folclórico Ibrahim Sued, pai do colunismo social, antes de seu “ademã, que eu vou em frente”.

Muito menos o PMDB sai de Governo, a não ser que tenho outro prontinho, ali na frente, para colocar os pés.

E, claro, as mãos.

O Blocão durou apenas o tempo do blefe mal sucedido, porque a rosa de Malherbe não merece a comparação com o odor fétido que se expeliu das nossas valorosas representações parlamentares.

Diz a Folha “que dos oito partidos governistas que integravam o blocão, só restam quatro: PMDB, PR, PTB e PSC.”.

O PR já avisou que vai desembarcar na terça. O PTB, creio eu, deve sair até antes.

O Governador Sérgio Cabral, com uma carinha de falsa compunção, jura que vai apoiar Dilma e só quem aceita nota de três reais acredita na historinha que ele mandou plantar, de que a Presidenta Dilma disse que candidatura do PT no Rio é “invenção do Lula”.

Eduardo Cunha se apresentará para negociar com suas tropas reduzidas aos dissidentes de sempre no PMDB.

E nesta tropa estropiada, nem 10% se interessam pela votação do marco civil da internet. Essa causa – chamemos assim, por elegância – é do próprio Cunha.

Dependendo das articulações que passam ao largo do “Jim Jones” peemedebista, ele não leva essa.

Vai ser tratado com seco respeito, por determinação de Dilma Rousseff.

Hoje, sentido o peso, Cunha passou a manhã a xingar a imprensa no seu twitter, depois de ter chamado ontem a revista Istoé de “Quantoé”.

Agora o alvo é , além de André Singer, por seu artigo na Folha, o colunista Lauro Jardim, da Veja (onde Reinaldo Azevedo salta em sua defesa), de quem diz servir como “jardim do Governo”.

A razão? Esta nota.

“O Palácio do Planalto detectou alguns movimentos feitos por Eduardo Cunha antes de articular a convocação de dez ministros para depor na Câmara.

Cunha encontrou-se com Eduardo Campos e Aécio Neves. De acordo com as informações com as quais Dilma Rousseff trabalha, quem intermediou a conversa entre Aécio e Cunha foi Sérgio Cabral.

A propósito, o governo já definiu qual será o próximo lance de seu enfrentamento com o líder do PMDB. O alvo escolhido é Fabio Cleto, feito em 2013 vice-presidente da CEF pelas mãos de Eduardo Cunha.

Cleto é também integrante do conselho do Fundo de Investimentos do FGTS, que cuida de uma bolada de 32 bilhões de reais em investimentos, e pleiteia a presidência do órgão. Sua cabeça deve rolar até o fim de março.”

Cunha caminha para ser um destes paradoxos: vai ser engolido por sua própria goela.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Trajetória exemplar


Alguns dados biográficos do líder do PMDB, Eduardo Cunha, ajudam a entender a lavada, de 267 a 28, que o governo levou na votação da última terça-feira, quando a Câmara decidiu criar comissão para investigar a Petrobras.

Mais de um ano atrás, Janio de Freitas, referência do jornalismo político brasileiro, já advertia que, com a presença de Cunha junto a Renan Calheiros e Henrique Alves no comando do Congresso, Dilma iria ter dificuldades. Na época, o jornalista lembrava que Cunha "é cria de Paulo César Farias, que o pinçou do vácuo para a presidência da então Telerj, telefônica do Rio". Corria o ano de 1990. Não demoraria muito para que o mandato de Fernando Collor de Mello fosse tragado por denúncias. No epicentro da debacle collorida estava PC Farias.

Consta que Cunha aproximou-se do meio evangélico do Rio de Janeiro. Filiado ao PPB (hoje PP), de Paulo Maluf, e com apoio religioso, candidatou-se a deputado estadual em 1994, iniciando uma carreira política própria, o que o levou a ser eleito para a Assembleia Legislativa daquele Estado em 2000, galgando daí a passagem para a Câmara dos Deputados em 2002, sempre pela agremiação malufista.

No meio desse caminho, alinhado à direita, nem por isso deixou de participar do governo Garotinho (1999-2002), então no PDT, no Estado do Rio. No entanto, as relações entre ambos depois se deterioraram. Por ocasião da MP dos Portos, alguns meses atrás, os dois ex-colegas de administração travaram carinhoso diálogo no plenário da Câmara, segundo relato de Merval Pereira, de "O Globo". O ex-governador do Rio disse que a emenda patrocinada por Cunha cheirava mal e tinha motivações escusas. Em resposta, o ex-auxiliar teria se referido a Garotinho como batedor de carteira.

Em 2006, Cunha reelegeu-se deputado federal, agora pelo PMDB, sempre com apoio evangélico — em 2010, conseguiu 150 mil votos. A disputa entre Cunha e Dilma vem desde o início do mandato desta, quando, após denúncias em Furnas envolvendo, segundo o "Valor" (25/7/2011), um "grupo ligado" ao deputado, ela nomeou para dirigir a estatal nome fora do círculo de influência do parlamentar carioca.

Em 2007, Cunha havia segurado a Medida Provisória que prorrogava a CPMF até Lula nomear indicação sua para a presidência de Furnas. Maior empresa da Eletrobras, com orçamento bilionário e fundo de pensão importante, Furnas é joia muito cobiçada. A perda do controle sobre a estatal explicaria a posição belicosa do comandante do PMDB na Câmara em relação a Dilma.

Em resumo, é quase um quarto de século de experiência acumulada em controvertidas matérias republicanas. Convém não subestimar.

André Singer
No SQN
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House of Cunha

Como o deputado Eduardo Cunha acumulou força política para esfacelar a base de apoio de Dilma e impor derrotas em sequência ao Planalto no congresso

Francis J. Underwood, o protagonista da série “House of Cards” interpretado pelo ator Kevin Spacey, é um ambicioso senador que, sentindo-se traído pelo presidente dos EUA, inicia um ardiloso plano de vingança. O jogo bruto de Underwood, que se tornou o símbolo máximo de político inescrupuloso, parece ter se materializado em Brasília nas últimas semanas. Na versão nacional, o papel de vilão vem sendo desempenhado, sem o charme do ator Kevin Spacey, pelo líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ). Desde o início do ano, Cunha cumpre uma rotina parlamentar dedicada unicamente a esgarçar a aliança com o PT, engessar o governo de Dilma Rousseff e, quem sabe, inviabilizar sua reeleição. “Se ela não sabe o que é respeito, vai aprender da pior maneira”, repete Cunha a qualquer interlocutor que o aborda nos corredores do Congresso Nacional. Se a série americana virou mania entre líderes políticos, como Barack Obama e Fernando Henrique, a novela de Cunha promete manter em alta a audiência do noticiário político-eleitoral. Para suspender seu roteiro, Cunha cobra uma fatura alta: mais cargos, com mais poder e mais verbas.

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PROTAGONISTA
Eduardo Cunha: sem o charme do ator Kevin Spacey, que interpreta
Francis Underwood, de House of Cards, mas com o mesmo jogo bruto, conseguiu
impor uma enorme derrota à presidenta Dilma no plenário da Câmara, na terça-feira 11
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Usando uma escala de valores nada republicanos, parecida com a de Underwood, o deputado carioca vem colecionando sucessos. Na última semana, depois de não ser atendido em mais um pedido por postos na máquina pública – o que foi encarado por Dilma e seus auxiliares como crua chantagem –, Cunha articulou um levante no Congresso. Emparedou a presidenta e jogou o governo petista numa crise política sem precedentes. Além de comandar os rebeldes da bancada do PMDB na Câmara, dona de 75 assentos, conseguiu atrair insurgentes de outras legendas aliadas do PT, que também acumulam queixas contra o estilo Dilma de governar. Cunha impôs sucessivas derrotas ao Planalto. Na principal delas, por 267 votos a 28, o chamado “blocão”, que reúne as siglas rebeldes, conseguiu instalar na Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara uma investigação sobre denúncias na Petrobras. Como não tem status de CPI, a apuração não irá muito longe, mas pode momentaneamente se refletir sobre o valor das ações da estatal, o que é ruim para o País.

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ÁGUA NA FERVURA
Depois de se reunir com o vice Michel Temer, Dilma Rousseff
antecipou o anúncio de seis novos ministros

Outro revés forçado pela turna de Cunha tem um potencial maior para gerar dores de cabeça a Dilma. Nas comissões da Casa, os peemedebistas, com o apoio da oposição e aliados queixosos, conseguiram aprovar a convocação de quatro ministros e o convite a mais seis, a fim de prestar esclarecimentos sobre questões que, na melhor das hipóteses, podem constranger o governo. Entre eles a presidenta da Petrobras, Graça Foster, e o delegado Romeu Tuma Jr., que acusa o PT de implantar no País um estado policialesco. Foram convocados os ministros Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência), Aguinaldo Ribeiro (Cidades), Jorge Hage (CGU) e Manoel Dias (Trabalho), este denunciado por IstoÉ por suspeita de envolvimento em esquema de cobrança de propinas por cartas sindicais e desvio de verba por meio de ONGs. Na sexta-feira 14, meditando sobre as feridas institucionais, um cacique petista definiu assim o atual cenário político: “Este é o pior momento dos três mandatos do PT.”

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O ARTICULADOR
Eduardo Cunha em ação na quarta-feira 12 na Câmara:
ele liderou os insurgentes contra Dilma

A metodologia de Cunha

Eduardo Cunha já demonstrou inúmeras vezes sua capacidade de articulação, ao apadrinhar indicações de ministros, dirigentes de estatais e funcionários do segundo ao quarto escalão. Quando é contrariado, tenta dar o troco lançando mão do que há de pior nas práticas políticas: a ameaça e a chantagem. No governo Lula, cansou de utilizar esse expediente. Mas, normalmente, era driblado por uma articulação política eficaz. Desta vez, Cunha se aproveitou da fragilidade dos operadores políticos do governo para obter sucesso em sua empreitada.

No Rio de Janeiro, Eduardo Cunha controla o PSC,
partido que, durante a semana, anunciou oficialmente
o desembarque do governo Dilma

O líder do PMDB não se move por instinto. Metódico, ele cultiva há anos o mesmo modo de operar. Diariamente, recebe líderes empresariais e autoridades no apartamento da SQS 311 ou no número 50 da avenida Nilo Peçanha, no Rio, onde funciona seu escritório político. Chega a gastar R$ 15 mil da conta parlamentar só em telefonia. Os pedidos que atende são ecléticos: vão desde os de empreiteiras e empresas de telefonia até os de companhias prestadoras de serviço no setor elétrico. Dependendo da negociação, e do desejo do freguês, Cunha providencia a anulação de normas, inclui nas Medidas Provisórias as emendas-submarino (como são chamados no Congresso os adendos oportunistas que nem sequer precisam tratar do mesmo assunto da MP) e agiliza a aprovação de leis. É o trabalho de uma espécie de despachante com mandato parlamentar. Em troca desses favores, Cunha obtém apoio financeiro para suas campanhas e também as de quem o apoia no Rio de Janeiro, seja do PMDB, seja de legendas aliadas. Assim, cria uma bancada própria. Na política carioca Cunha controla o PSC, partido que, durante a semana, anunciou oficialmente o desembarque da aliança governista, e outras legendas nanicas. Em Brasília, seu poder amplia-se como nunca.

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Efeito dominó

Quando perdeu os cargos que controlava na diretoria internacional da Petrobras e em Furnas, no primeiro ano do governo Dilma, Cunha lançou ameaças públicas que não se concretizaram. Ele mesmo avaliou que as baixas dos apadrinhados poderiam ser recompensadas mais adiante, uma vez que vários setores do PMDB perderam indicações na primeira dança das cadeiras. Mas, para sua irritação, isso acabou não acontecendo. Com o aval do ex-presidente Lula e de Rui Falcão, presidente do PT, Dilma bloqueou dinheiro de emendas e impediu a aprovação de dispositivos legislativos que atendessem aos interesses do deputado carioca. No embalo, os articuladores políticos do governo, tendo o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, à frente, também deixaram de atender a muitos pleitos de outros aliados, evitando reuniões e audiências solicitadas reiteradamente pelas legendas da base. Dessa forma, criou-se uma legião de insatisfeitos. “Por várias vezes a ministra Ideli Salvatti (de Relações Institucionais) reunia os líderes para dizer que não haveria acordo. Ora, então para que convocá-los?!”, lembra um deputado do PMDB. Depois da confusão armada na semana passada, Rui Falcão comentava com interlocutores que ia propor à presidenta a troca de toda a articulação política do governo. A ideia é buscar uma saída honrosa para Ideli, que poderá se lançar candidata a deputada federal. Também para tentar jogar água na fervura da crise, na quinta-feira 13 a presidenta Dilma antecipou o anúncio de seis ministros. Após conversar com o vice-presidente Michel Temer, indicou Vinícius Nobre Lages, ligado ao senador Renan Calheiros, para o Ministério do Turismo; Gilberto Occhi, do PP, para as Cidades; o petista Miguel Rossetto para o Desenvolvimento Agrário; Neri Geller, da cota do PMDB, para a Agricultura; Clélio Diniz (PT) para a Ciência e Tecnologia; e Eduardo Lopes, do PRB, para a Pesca.

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ARMISTÍCIO
No PMDB do Senado, o clima por ora é de paz com o governo,
depois das novas nomeações. Resta saber até quando

As mudanças podem servir de atenuante, mas não é certo que resolverão de vez os problemas, pois eles ultrapassam as fronteiras do Congresso. Uma das raízes da querela com o PMDB é a falta de acordo para a montagem dos palanques regionais. Desde o domingo 9, a presidenta Dilma iniciou gestões para reverter essa situação. Primeiro reuniu-se com o vice, Michel Temer, a quem expressou a vontade de chegar a um acordo. Na segunda-feira 10, recebeu os demais caciques da legenda, o presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), e os líderes no Senado, Eduardo Braga (AM) e Eunício Oliveira (CE). Também participaram do encontro Temer e o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Mais tarde, juntaram-se ao grupo o presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RR), e o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN). Nas conversas, Dilma sinalizou apoio do PT a candidatos do PMDB em seis Estados: Maranhão, Pará, Sergipe, Alagoas, Tocantins e Paraíba. Avisou, porém, que o cenário no Rio de Janeiro é inegociável e que entregaria o sexto ministério à legenda, caso Eunício Oliveira desistisse de lançar-se candidato ao governo do Ceará contra os irmãos Cid e Ciro Gomes, fechados com o PT e o Palácio.

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O problema é que as promessas eleitorais não chegaram a entusiasmar o PMDB. Para piorar, depois da reunião com os líderes, quando tentou isolar Eduardo Cunha, a presidenta declarou, no Chile, que “o PMDB só lhe traz alegrias”. A afirmação foi tida como provocativa e ajudou Cunha a reunir insatisfeitos. “Ela verá quantas alegrias o PMDB ainda lhe trará”, disse o deputado em tom ameaçador. Não há ânimo para um rompimento total, mas o clima de tensão não tem prazo para se dissipar. Ao justificar uma ruptura com o governo, Eduardo Cunha diz que o PMDB exige respeito.

Relação desgastada

O fato é que o governo tanto resistiu a se curvar aos desejos de aliados que quando o fez já era tarde. A dificuldade de relacionamento entre Legislativo e Executivo vinha se evidenciando ao longo dos últimos meses, mas atingiu seu ponto mais crítico no início deste ano, com o anúncio de que dos mais de R$ 19 bilhões prometidos para emendas parlamentares sobrarão pouco mais de R$ 6 bilhões. Os cortes atingem a alma da política eleitoral, pois as emendas são o cartão de visita de quem tem mandato. Ao tesourar as emendas, Dilma comprou uma briga com todos os partidos. Eduardo Cunha soube enxergar esse flanco e passou a trabalhar nos bastidores para ampliar o coro dos descontentes.

Dilma sinalizou apoio do PT a candidatos do PMDB em
seis estados: Maranhão, Pará, Sergipe, Alagoas, Tocantins
e Paraíba. 
Mas as promessas não entusiasmaram

Para piorar, a tentativa do governo de se aproximar do PMDB do Senado, aquele que não age sob a orientação de Eduardo Cunha, fracassou. Foram dois os principais motivos. O primeiro é que os senadores, orientados por Temer, não toparam isolar a bancada da Câmara e ignorar o descontentamento generalizado dentro do partido. Além disso, os senadores demonstram insatisfação com o governo desde outubro, quando Dilma vetou, sem se preocupar com afagos, a indicação do senador Vital do Rego (PMDB-PB) para comandar o Ministério da Integração Nacional. A pasta é desejada por senadores do Nordeste pelo forte apelo político e por concentrar obras grandiosas e eleitoreiras, como o Canal do Sertão e a distribuição de recursos para obras emergenciais.

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DENÚNCIA
Entre os convocados para prestar explicações na Câmara está o ministro
do Trabalho, Manoel Dias, acusado de favorecer uma indústria de sindicatos no órgão

Como não conseguiu isolar o PMDB da Câmara, cujo porta-voz do descontentamento é Eduardo Cunha, o governo se enfraqueceu ainda mais. Com o aval dos colegas para seguir empatando a vida do governo no Congresso, Cunha se aproximou de integrantes de outros partidos dispostos a mandar recados de insatisfação ao Planalto. O blocão multipartidário que ele criou para reunir e ampliar o coro dos descontentes mostrou sua força ao longo da semana e, quem diria, transformou a oposição ao governo em coadjuvante nos ataques à atuação dos ministros. “Se os próprios aliados estão querendo convocar todo mundo do governo, nos poupa trabalho. Estamos assistindo a uma implosão e ao movimento de independência dos parlamentares. Até aliados dizem que há corrupção em ministérios”, disse o líder do DEM, Mendonça Filho (PE), ao perceber que todos os requerimentos da oposição recebiam apoio de partidos da base.

Cientes da existência de um artefato com potencial para explodir às vésperas das eleições, os oposicionistas comemoraram a convocação de quatro ministros e o envio de convites a outros seis, que terão de enfrentar a fúria dos insatisfeitos com o governo em sessões especiais de diferentes comissões da Casa. Na avaliação de parlamentares do próprio PT, é hora de promover uma mudança de cultura. “Acho que precisamos rever os erros e procurar saídas”, teoriza o líder do governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP), desgastado com o Planalto e prestes a jogar a toalha da liderança do governo Dilma na Câmara. Não se sabe ao certo como e quando a crise política terá um desfecho. No ano eleitoral, ainda há cartas a serem baixadas em tempos de House of Cunha.  

Claudio Dantas Sequeira e Izabelle Torres
Fotos:montagem sobre fotos: Roberto Castro/AG. ISTOÉ; Pedro Ladeira, Beto Barata, Sergio Lima/Folhapress; Givaldo Barbosa/ag. O Globo
No IstoÉ
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Últimas da direita Miami

Desespero na Flórida, na Barra da Tijuca, nos Jardins e em outros espaços artificiais da direita Miami.

Sente-se que a guerra da história começa a ser perdida.

Só os completamente desinformados ainda acreditam que o regime militar foi um paraíso sem corrupção, sem violência e instalado para defender o país dos comunistas comedores de criancinhas.

O golpe de 1964 foi dado contra as reformas de base, altamente necessárias, defendidas por Jango.

Jango caiu por ter tentado melhorar o Brasil antes do tempo.

Ele era perigoso.

Tinha bons ideias e uma excelente equipe.

Só não conseguiu dominar a mídia, os empresários conservadores e os militares manipulados pelos Estados Unidos.

Não contava com tanta traição.

Juremir Machado
No Correio do Povo
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PSDB no retrovisor


Com ideias que eleitor já rejeitou em 2002, 2006 e 2010, aniversário do Real vira encontro de nostalgias

Muitas coisas me incomodam nos festejos de 20 anos do Real.

Nem vou falar que estão comemorando o Real quando quem faz aniversário, nesses dias, é a URV. Marketing?

Nem vou falar que o presidente que criou o Real foi Itamar Franco, que merecia um lugar de honra em cada celebração, em cada discurso.

Talvez para dar a impressão de que era uma obra única, exclusiva, muitos tucanos gostam de fingir que o presidente que assinou o URV e o Real foi uma Rainha da Inglaterra nessa história. Está errado. Para quem até hoje reclama direitos autorais pelo Bolsa Família, é muito feio ignorar o papel de Itamar Franco

Outro aspecto é que a celebração tornou-se um encontro nostalgias da década de 1990, quando o pensamento neoliberal dava a impressão que iria durar para sempre.

De lá para cá nós tivemos o colapso da paridade cambial, que levou a falência dos grandes grupos econômicos brasileiros, que chegaram de joelhos ao final do governo FHC.

Também tivemos a crise de 2008, a maior da história do capitalismo desde 1929.

Nesses momentos, como o PSDB reagiu?

Sempre se recusou a fazer o contra-ciclo da recessão econômica, lição básica de John M Keynes para principiantes.

A política monetária de Pedro Malan apenas aprofundava as crises, aumentava o desemprego. Pagando juros cada vez mais altos, explodiu as contas do Estado e gerou mais inflação.

Apesar disso, nossos sábios comemoram o Real, e reclamam que a população não tem memória. É exatamente o contrário. E é isso que torna difícil competir em 2014.

Sonham em fazer o mundo voltar a 1994 quando, por merecidas razões, Fernando Henrique e o PSDB tiveram, pela primeira e até hoje única vez em sua existência, uma ligação real com as camadas pobres do povo.

É curioso que Gustavo Loyola, um dos inúmeros presidentes do BC no governo Fernando Henrique — o que dá uma ideia da instabilidade uma instituição que os tucanos querem tornar independente — chegou a reclamar que tudo ficou pior na economia brasileira depois de 2008.

Pois é. Em 2008 o mundo quebrou e o Brasil ficou de pé depois de um tropeção. A economia voltou a crescer. Os empregos continuaram em alta, o mercado interno se ampliou, a distribuição de renda prosseguiu. Ainda hoje, o desemprego é o menor da história e o crescimento em 2013, que todo mundo sabe que não foi grande coisa, já superou a média dos oito anos de FHC.

A partir de uma injeção generosa de recursos públicos nas linhas de crédito e outros estímulos, o Estado brasileiro faz o contra-ciclo a partir de 2008. Quem estava no ciclo virou a Grécia, Espanha, Itália, subjugados pela prioridade máxima do Banco Central europeu em preservar os investimentos financeiros alemães. Queriam ajudar o mercado a fazer seu serviço, destruindo benefícios e conquistas histórica do bem-estar social.

O Brasil foi para o contra ciclo. Não vamos falar que ficou tudo as mil maravilhas. Mas imagine quem se deu melhor.

Eu sei, você sabe.

Mas a turma que se reuniu para festejar a URV dizendo que era aniversário do Real sempre acreditou no fim da história e na supremacia definitiva do mercado sobre todas as coisas.

Acreditou tanto que seu Banco Central tinha criado uma moeda imortal que estimulou os empresários a enfiar o pé na jaca das dívidas em dólar. Quando a canoa virou, todos naufragaram. Nossas reservas eram uma casca de ovo, o que deveria levar a turma a lembrar que em 2014 temos reservas de 300 e tantos bilhões de dólares em vez de estimular o terrorzinho das agências de risco, o que é muito feio para autoridades que já ocuparam postos de alta responsabilidade num Estado nacional e sabem a diferença que isso faz.

Em 2008, o governo tucano de São Paulo preparou um plano de demissão em massa para enfrentar a crise. Queriam até suspender a CLT por seis meses — o que iria dar até uma crise política de bom tamanho.

Loucura?

Nem tanto. Para Pérsio Arida, um dos presentes na festa da URV, o “Estado deveria funcionar com uma empresa privada.”

Ninguém esqueceu como o ministro do Trabalho de FHC falava de desemprego. Era “empregabilidade.” Não era vida real. Era debate teórico.

Assim, na crueldade.

Com tais receitas, a Dilma deveria abrir mão do horário politico e pedir para esse povo defender essas ideias na TV. Deveria mandar o Eduardo Cunha levar sua turma para a campanha da oposição.

Assim eles teriam todo tempo do mundo para explicar como o Brasil era tão bom que foi parar no FMI, que só assinou o acordo depois que os sucessores de FHC também assinaram. Quanta credibilidade, não?

Poderiam lembrar que o governo era tão querido que tinha popularidade negativa em 13 pontos, coisa de protestos de junho sem os protestos de junho.

Paulo Moreira Leite
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O Supremo fraudou a lei

Reflexão saudável sobre a possibilidade de impeachment de Joaquim Barbosa, inspirado nas lições de Nilo Batista

A reflexão em torno de um impeachment do ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), não é mera picardia de petistas ou mesmo de advogados dos réus da Ação Penal 470, “o mensalão”, um julgamento no qual valeu tudo para alcançar a condenação dos acusados. É do interesse da própria Justiça.

O que deveria ter sido um processo sério, a Ação Penal 470, em torno de ilícitos flagrantes de alguns dos envolvidos e da ausência de provas contra outros, transformou-se num espetáculo de lutalivre, no qual valia de dedo no olho a pontapé no baixo- ventre.

Na última etapa do julgamento, a apreciação dos embargos infringentes em torno do crime de formação de quadrilha, o presidente do Supremo se expôs de forma complicada. No debate que provocou com o ministro Luís Roberto Barroso, quando este apresentava o voto, Barbosa confirmou o que os advogados de defesa, e mesmo alguns leigos, já suspeitavam.

“Da cadeira do mais alto posto do Poder Judiciário brasileiro, o ministro Joaquim Barbosa confessou que fraudara a lei”, afirma o criminalista Rafael Borges.

Segundo Borges, a fixação de penas, por vezes exorbitantes e desalinhadas com a jurisprudência da própria Corte, não se orientou pelos critérios legais estabelecidos, mas “pelo desejo ilegítimo e indecoroso” de evitar a prescrição e, com isso, a extinção da punibilidade de alguns réus condenados (íntegra no site CartaCapital.com.br).

Esse triste momento para o STF foi praticamente descartado das informações em torno daquela sessão. O criminalista, no entanto, inquietou-se com o silêncio conivente. O ponto máximo do episódio está exatamente aos 3:03 minutos do vídeo disponível no endereço eletrônico http://m.terra.com.br/video/7336925.

Em síntese, conforme explica o criminalista Rafael Borges, o ministro Barroso reiterava que não fazia sentido o aumento das penas do delito de corrupção ativa, passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e gestão fraudulenta, à razão de 15% a 21%, em contraposição ao aumento de 63% a 75% no delito de formação de quadrilha ou bando, embora “as circunstâncias judiciais fossem rigorosamente as mesmas”.

Com a polidez e a sutileza habituais, escalavrou um ponto obscuro e delicado ao dizer não ser do seu interesse debater “se essa exacerbação tinha sido feita para evitar a prescrição ou para mudar o regime de semiaberto para fechado”.

Perseguido por incômodo e doloroso problema de coluna, o ministro Barbosa tem conduzido as sessões do tribunal alternando sua posição. Ora sentado, ora de pé. Estava recostado no espaldar da cadeira no momento em que interferiu de forma truculenta na fala de Barroso: “Foi feito para isso, sim”.

Borges define a ação intempestiva do presidente do STF como “confissão indecorosa”. Ele a aproxima do delito de prevaricação e cita um argumento do penalista Nilo Batista, várias vezes citado no julgamento: “Um pena cuja aplicação ingresse (...) o componente de evitar a prescrição é nula na medida em que se vale de um critério que extrapola da lei”.

Para Rafael Borges, até o momento da confissão transmitida pela TV Justiça, a inobservância das normas relativas à fixação das penas não parecia fruto “de uma consciente fraude à lei”.

Ignorado esse problema, como vem ocorrendo, resta lamentar o péssimo exemplo dado pela mais alta Corte da Justiça brasileira.

Maurício Dias
No CartaCapital
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O descaso de Serra e Joaquim Barbosa com a Justiça


José Serra e Joaquim Barbosa, ex-grandes esperanças brancas, acabam de dar demonstrações eloquentes de descaso com a Justiça. Um velho amigo acupunturista os definiu como legítimos malandros agulha, com o que não concordei.

Barbosa não compareceu ao Supremo na votação dos recursos do ex-deputado João Paulo Cunha e de João Cláudio Genu, ex-assessor do PP. Em todo o julgamento do mensalão, desde 2 de agosto de 2012, foi a única vez em que JB faltou. Terminou em absolvição (seis a quatro no primeiro caso, seis a três no segundo).

Segundo sua assessoria, ele não participou porque “estava trabalhando” e acompanhou tudo “pela TV Justiça”.

Bem, é difícil saber onde começa e termina o cinismo. Até ontem, você achava que Joaquim Barbosa trabalhava naquela plenária do STF. Ok. Ele não trabalha lá. Onde, então? Ele não estava trabalhando nas outras sessões? Jamais saberemos? Ou ele perdeu a causa, fez um alerta aos brasileiros e decidiu que dane-se?

São perguntas que deveriam ocorrer ao cidadão comum. O cidadão comum tem medo de faltar ao trabalho e tem medo da Justiça por razões óbvias — e é bom, até certo ponto, que tenha. Barbosa não tem. Nem Serra.

Serra não compareceu a um depoimento como testemunha em inquérito civil do Ministério Público de São Paulo. Tratava-se de uma ação que apura irregularidades em um contrato firmado pela CPTM em 2008.

Seus advogados alegaram que não tiveram acesso aos autos e que o cliente não foi notificado a tempo. Um executivo da Siemens disse que foi pressionado pelo ex-governador a não interferir em uma licitação de prestação de serviço no setor metroferroviário. A empresa vitoriosa foi a espanhola CAF.

Segundo o jornalista Fausto Macedo, do Estadão, o promotor Cesar Dario Mariano frisou que Serra “não está sendo investigado”. Ele será novamente convidado a depor.

É muito difícil acreditar que os advogados do ex-governador “não tiveram acesso aos autos” e “não foram notificados a tempo”. Serra conhece o assunto e pode colaborar. Há alguns dias, afirmou: “Qualquer manual anticartel nos daria razão. Ganharíamos a medalha anticartel”.

Se ele está tão certo disso, qual o problema em depor, ainda mais como testemunha? Medo não é. Mais provavelmente, a sensação de que ele, como Barbosa, sabe como a Justiça funciona e, portanto, age de acordo com isso: com descaso, quando lhe convém.

Kiko Barbosa
No DCM
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Que médico se responsabilizaria por eventual morte de José Genoino na cadeia?


Os próximos dias serão cruciais para o ex-deputado federal e ex-presidente nacional do PT José Genoino Neto, condenado a 4 anos e 6 meses em regime semiaberto na ação penal 470, o chamado mensalão.

Na segunda-feira 10, por solicitação do Serviço de Perícia Médica da Câmara, ele se submeteu a dois exames complementares à avaliação clínica, realizada em 11 de fevereiro.

O holter 24 horas é um deles. Um minigravador, preso à cintura e conectado ao tórax por fios e eletrodos, registra os batimentos cardíacos durante as atividades de rotina de um dia e uma noite. Ele possibilita o diagnóstico de alterações que o eletrocardiograma às vezes não revela.

O outro exame é a angiorressonância de coração, aorta torácica e vasos supraórticos, que proporciona ao médico visualizar com imagem de muito boa qualidade os vasos sanguíneos do corpo. Detecta a formação de placas de gordura nas artérias — a chamada aterosclerose — que pode reduzir o fluxo sanguíneo.

Com base nesses exames e na avaliação clínica, a junta médica da Câmara definirá se o quadro de doenças de Genoino é incapacitante para o trabalho, o que lhe garantiria a aposentadoria por invalidez.

Esse mesmo relatório será usado pelo ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), para decidir como Genoino cumprirá a pena.

Joaquim Barbosa submeterá o relatório à junta médica da Universidade de Brasília (UnB). É a mesma que examinou Genoino em novembro do ano passado e concluiu: “não é imprescindível a permanência domiciliar fixa do indivíduo”.

Genoino está preso em Brasília há quase quatro meses. Mais precisamente a 119 dias. Desses, 111 em prisão domiciliar provisória devido a problemas de saúde.

Seus advogados já pediram ao STF e à Procuradoria Geral da República (PGR) que a pena seja cumprida permanentemente em casa devido ao “alto risco cardiovascular”.

A MÍDIA IGNOROU ALERTA DA JUNTA MÉDICA DA CÂMARA

Desde que foi preso, em 15 de novembro do ano passado, Genoino passou pela perícia de quatro juntas médicas oficiais.

A primeira, a pedido da Vara de Execuções Penais do Distrito Federal, foi realizada em 19 de novembro pelos médicos do Instituto de Medicina Legal da Polícia Civil do Distrito Federal. Seu resultado:


Dois dias antes, o médico responsável pelos atendimentos no Centro de Internamento e Reeducação (CIR), no Complexo Penitenciário da Papuda, advertira em relatório sobre a gravidade do caso e a inexistência no local de assistência emergencial no período noturno, fins de semana e feriados. Foi no CIR que Genoino ficou preso.


A segunda perícia, determinada pelo ministro Joaquim Barbosa, aconteceu em 23 de novembro e ficou a cargo de cinco doutores da Universidade de Brasília (UnB). Ela tinha como objetivo avaliar a necessidade de prisão domiciliar, solicitada por Genoino.

Num relatório de nove páginas, a junta médica da UnB afirmou cinco vezes: não é imprescindível a permanência domiciliar fixa do indivíduo (grifo, em negrito, da repórter). Abaixo duas delas:


A terceira avaliação oficial, em 25 de novembro, foi feita pelo Serviço de Perícia Médica da Câmara dos Deputados.

Tal qual a quarta perícia, ora em andamento, a finalidade era verificar se Genoino, dada à fragilidade de sua saúde, poderia se aposentar por invalidez.

Naquele momento, a junta médica da Câmara chegou à conclusão de que Genoino “não era portador de cardiopatia grave do ponto de vista médico pericial”, e o reavaliaria em 90 dias. O que está fazendo agora.

Porém, alertou sobre o risco de futuros eventos cardiovasculares. Também que, nas condições em que se encontrava, a atividade profissional poderia acarretar descontrole da pressão arterial que, em associação com anticoagulação inadequada, aumentaria o risco de eventos cardíacos e cerebrais.

Em português claro: Genoino tem risco de acidente vascular cerebral (AVC), popularmente conhecido como derrame cerebral, infarto do miocárdio e até nova dissecção da aorta (a maior e mais importante artéria do corpo humano), como a que quase o matou em 24 de julho do ano passado.


Tanto que, em 27 de novembro, na coletiva de imprensa da junta médica da Câmara, um dos seus integrantes, o cardiologista Luciano Janussi Vacanti, atenta para isso e o estresse que o trabalho poderia causar. Ele é bem didático para os jornalistas:

O estresse altera nitidamente os parâmetros da pressão. Para uma pessoa hipertensa, como é o caso em questão [José Genoino Neto], isso tem implicação muito grande no controle da pressão arterial.


Todas as pessoas submetidas a esse tipo de cirurgia [para tratamento da dissecção da aorta], ao longo do tempo, podem ter uma piora, podem precisar reoperar. E um dos componentes que aumenta muito o risco da e a pessoa precisar reoperar é a pressão [arterial] não estar bem controlada.

Ou seja, enquanto essa pressão não estiver bem controlada, existe um risco.  Por conta disso e por conta do estresse que o trabalho ocasiona, o trabalho atrapalharia o controle da pressão arterial e aumentaria o risco.

Então, por isso temporariamente não se recomenda a atividade no trabalho.

Isso funciona pra qualquer doença relacionada ao coração em que a pressão arterial tenha um componente importante.

Porque o trabalho e o estresse levam a um aumento de adrenalina, [a adrenalina] aumenta a frequência cardíaca, aumenta a pressão, e isso tudo vai causar problemas no futuro.

Tudo isso está gravado.



A mídia, porém, ignorou.

– Por quê?

Hipótese mais provável: esses esclarecimentos do cardiologista Luciano Janussi Vacanti  ajudariam a respaldar a prisão domiciliar requerida por Genoino, contrariando os interesses midiáticos e a conclusão da junta médica da UnB que essa mesma mídia tanto festejou.

A PERGUNTA CAPCIOSA DE JOAQUIM BARBOSA PARA MANTER GENOINO NO SEMIABERTO

A propósito 1. Curiosamente, a mesma junta da UnB, que frisou cinco vezes que a prisão domiciliar não era imprescindível, recomendou “a restrição da influência de fatores psicológicos estressantes”, como uma das medidas para a pressão arterial de Genoino não subir.


Um paradoxo. Afinal, o sistema carcerário no Brasil, mesmo no regime semiaberto, é psicologicamente estressante. Consequentemente, pode contribuir para aumentar a pressão arterial.

Ou será que junta médica da UnB vive em Marte e nunca ouvir falar da realidade prisional brasileira?

Ou pensa ser possível aprisionar Genoino numa redoma de vidro para ele não sentir efeitos estressantes da cadeia?

Ou tem visão reducionista, compartimentada da saúde, minimizando a influência do estresse negativo sobre a saúde mental e desta na saúde física?

A propósito 2. A junta médica da UnB avaliou Genoino quando ele já estava de alta do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal, onde ficou hospitalizado de 21 a 23 de novembro.

A pressão arterial já tinha baixado. As dores no peito e as “palpitações” (aumento dos batimentos cardíacos) que motivaram a internação haviam passado. Ele estava monitorado continuamente pela equipe do hospital. E, ainda, rodeado da família tão querida.

Não é o que vai ter numa prisão, mesmo em regime semiaberto.

A propósito 3. Genoino sofre de hipertensão arterial desde 1972, quando, capturado pelos militares na Guerrilha do Araguaia, foi torturado.

Assim, toda vez que passa por situação muito estressante, a sua pressão arterial sobe, mesmo ele tomando remédios anti-hipertensivos.

Após a sua prisão, em 15 de novembro, isso aconteceu duas vezes.

A primeira, durante o voo de São Paulo para Brasília, quando teve também palpitações e dores no peito. Foi aí que decidiu pedir a prisão domiciliar.

A segunda, em 21 de novembro, já na Papuda. A pressão chegou a 25 por 16 — o normal é 12 por 8. Acabou no Instituto de Cardiologia do Distrito Federal, onde ficou internado por três dias.

A propósito 4. Joaquim Barbosa perguntou à junta médica da UnB: é imprescindível a permanência domiciliar fixa do indivíduo?

Formulação flagrantemente capciosa, para forçar a resposta que ele queria em todos os questionamentos: NÃO.

Objetivo: manter Genoino preso no regime semiaberto. É o que lhe importava.

Se estivesse preocupado em garantir a saúde do apenado sob tutela do Estado, como diz a lei, a pergunta adequada seria: Genoino corre risco de vida se ficar preso no regime semiaberto? Ou: O risco de vida é maior no semiaberto do que na prisão domiciliar?

No mundo real, não dá para dissociar o indivíduo do que acontece no ambiente real em que ele está.

O regime semiaberto significa sair do presídio para trabalhar às 7h e estar de volta às 19h, de segunda a sexta-feira. Sábado, domingo e feriado, ficar encarcerado.

Semanalmente, somam 108 horas preso e 60 trabalhando.

Aí, outra questão se impõe: com a saúde fragilizada Genoino teria condições efetivas de trabalhar?

FATORES ASSOCIADOS GERAM ALTO RISCO CARDIOVASCULAR

Genoino está com 67 anos, teve dissecção da aorta há 7 meses e 15 dias. O AVC (ficou  com sequelas mínimas nas pernas) foi há 7 meses.

Especialistas descrevem a dissecção da aorta como um evento catastrófico.  Ou seja, problema gravíssimo, de alta mortalidade na fase aguda — mata mais do que infarto do miocárdio! —, cuja causa em cerca de 75% dos casos é a hipertensão arterial.

O hipertenso tem, ainda, cinco a seis vezes mais probabilidade sofrer AVC.

Atualmente, Genoino tem hipertensão arterial crônica, aumento de colesterol no sangue e aterosclerose nas coronárias e nas carótidas.

As coronárias levam sangue para o coração, que então o bombeia para o restante do organismo. As carótidas transportam o sangue oxigenado para o cérebro.

Com o tempo, placas de gordura (chamam-se ateromas) se acumulam no interior dessas artérias, estreitando-as. Diminui, assim, o fluxo sanguíneo nelas.

Em cima das placas de gordura às vezes se formam coágulos, que podem dificultar ou interromper a passagem de sangue. É como se a mangueira d’água ficasse parcial ou totalmente entupida. Se isso acontece nas carótidas, pode causar AVC. Se nas coronárias, infarto do miocárdio.

Mais recentemente passou a ter também síndrome depressiva leve, deflagrada em paciente idoso.

Pois é a associação desses fatores que torna Genoino uma pessoa de alto risco cardiovascular.

Para diminuí-lo, ele toma remédios contra a hipertensão arterial, o colesterol aumentado e a depressão. E ainda, devido ao AVC, o anticoagulante varfarina (“afina” o sangue, evitando a formação de coágulos, capazes de entupir as artérias).

A dieta tem de ser com pouco sal, pouca gordura e restrita em alimentos ricos em vitamina K, pois ela interage com o anticoagulante, diminuindo a ação desse remédio.

Isso significa consumir com parcimônia, por exemplo, brócolis, couve-flor, grão-de-bico, espinafre, nabo, beterraba, lentilha, fígado, aipo, feijão verde, abacate, azeite, mamão, agrião, mostarda e salsa.

– Como está o Genoino agora? 

Na petição dos seus advogados ao STF e à PGR, o cardiologista Geniberto Paiva Campos, que o acompanha em Brasília, diz que os níveis de pressão arterial, colesterol, coagulação do sangue estão normais, evidenciando o benefício do ambiente doméstico na evolução da enfermidade. Geniberto foi professor de Cardiologia na UnB.


– O vai acontecer se Genoino voltar para o presídio?

Basta pedir a Genoino um histórico detalhado do que lhe aconteceu nas duas vezes que passou mal em novembro do ano passado — é o que os médicos chamam de anamnese — para prever o que pode acontecer. Ele provavelmente ficará tenso, estressado, a pressão arterial subirá, mesmo ele tomando os anti-hipertensivos, com consequências imprevisíveis.

ESTRESSE, AUMENTO ABRUPTO DA PRESSÃO ARTERIAL E POSSÍVEIS CONSEQUÊNCIAS

Um fato muito estressante para uma pessoa não é necessariamente para outra.  Cada um de nós reage de uma forma ao estresse, à tensão, à pressão.

Agora, diante de um estresse agudo a pressão arterial costuma aumentar rapidamente.

Isso acontece com todo mundo, inclusive comigo que não sofro de hipertensão.

“A máxima aumenta sempre, a mínima pode aumentar só um pouco”, explica o cardiologista Luiz Antônio Machado César, diretor clínico da Unidade de Coronariopatia Crônica do Instituto do Coração (Incor) da Faculdade de Medicina da USP. “Isso acontece por causa da descarga maior de adrenalina no sangue.”

Ou seja, se você medir a sua pressão arterial numa situação de medo, perigo, tensão, vai descobrir que a máxima está elevada – 15, 16.

“Isso não quer dizer que o estresse cause hipertensão”, observa a endocrinologista Maria Teresa Zanella, professora titular da Faculdade de Medicina da Unifesp e do Hospital do Rim e Hipertensão. “Porém, uma situação estressante numa pessoa já  hipertensa pode fazer com que a pressão arterial dela aumente mais ainda, até em níveis muito altos.”

Explico. A adrenalina é o nosso mais poderoso estimulante endógeno. Trata-se de uma substância produzida pelas glândulas suprarrenais o tempo todo.

Contudo, em situações de perigo, nervosismo, medo, tensão, ansiedade, a adrenalina é liberada em maior quantidade no sangue. Essa descarga maior é para preparar o nosso corpo para se defender.

No ato, coloca-o em condições de luta contra supostas ameaças. A pessoa fica ligada. O coração bate mais depressa. A pressão arterial aumenta abruptamente para fornecer oxigênio suficiente para os músculos e vasos contraírem e você poder “fugir”.

O organismo reage como se, de repente, você desse de cara com um leão na sua sala. É uma reação normal a uma situação de perigo, mesmo que você não tenha de sair correndo de um leão.

Isso acontece toda vez que você sofre um estresse muito grande.

O organismo dos hipertensos, porém, tem reação maior à liberação de adrenalina do que os normotensos. Em consequência, há maior constrição de vasos  e músculos e às vezes até ocasiona sintomas como dor de cabeça e na nuca, náusea, tontura, sensação de aperto no peito, falta de ar, sudorese.

“Mesmo que o hipertenso tome medicação direito, se cuide, numa situação de estresse, nervosismo, tensão, pode haver, sim, aumento abrupto da pressão arterial”, atenta a professora Maria Teresa. “A liberação maior de adrenalina se sobrepõe à ação anti-hipertensiva do medicamento.”

– Mas essa subida rápida de pressão no hipertenso devido ao estresse oferece risco? 

“Em geral, há um pico de pressão, mas daqui a pouco ela abaixa”, afirma cardiologista Edson Stefanini, da Disciplina de Cardiologia da Faculdade de Medicina da Unifesp. “Mas pode, sim, oferecer risco ao paciente já hipertenso.”

Se o paciente hipertenso tiver um pico e mantiver a pressão muito elevada — 20 por 14, por exemplo – por horas a fio, ele pode ter uma hemorragia cerebral. É o acidente vascular cerebral.

O pico hipertensivo  por causa do estresse pode também contribuir para aumentar o trabalho do coração e comprometer o fluxo sanguíneo para o mesmo.

A pessoa sente dor como se estivesse infartando. Há falta provisória de sangue, que os médicos chamam de isquemia transitória. A elevação da pressão arterial por si só não é mecanismo causador de infarto.

“Agora, se essa pessoa tiver também obstrução nas coronárias por placas de gordura, ela pode ter um infarto do miocárdio”, adverte Stefanini.

“Quem sofreu uma dissecção da aorta, pode ter outra”, afirma Machado César. “Quando isso acontece, é no ponto onde se fez a cirurgia. Mas pode dissecar também em outro lugar, mas não é o que a gente costuma ver.”

A dissecção da aorta mata demais. A mortalidade é de 1% por hora. Quando há complicação, em 48 horas, metade já morreu.

Parêntese. Esta repórter tentou ouvir os médicos que cuidaram de Genoino quando ele teve dissecção da aorta e AVC, para entender melhor a relação estresse-aumento da pressão arterial.

Consultei previamente a família de Genoino, já que eticamente médicos são proibidos de falar sobre seus pacientes, a menos que eles autorizem.

Ela deu sinal verde. Mas os médicos declinaram.

O professor Fábio Jatene, do Instituto do Coração da Faculdade de Medicina da USP, alegou que ele apenas tinha feito a cirurgia. Faz sentido.

O cardiologista Roberto Kalil, do Hospital Sírio-Libanês, clínico responsável pelo caso, mandou simplesmente dizer que não iria falar.  Estranha a recusa. Afinal, é quem mais sabe o que aconteceu ao seu paciente, Genoino. Além disso, é tido e reconhecido como médico de famosos que adora dar entrevistas. Fechando o parêntese.

TEM DE SE CRUZAR OS PROBLEMAS DE SAÚDE DE GENOINO COM O AMBIENTE CARCERÁRIO

Conclusão: para evitar nova dissecção da aorta, outro AVC ou um infarto do miocárdio, é fundamental que Genoino mantenha sob controle hipertensão, colesterol e coagulação sanguínea.

Isso implica controle ótimo da pressão arterial com remédios, dieta, atividade física moderada e evitar o estresse, entre outras medidas.

O x da questão é como evitar o estresse da cadeia, que sabidamente altera bastante a pressão arterial de Genoino.

E a pressão arterial descontrolada pode causar novo AVC, nova dissecção da aorta e ou um infarto, já que ele tem aterosclerose nas coronárias. Acrescente-se aí o uso de anticoagulante que aumentaria o risco de problemas cardiovasculares.

Não se pode, portanto, considerar isoladamente os problemas de saúde de Genoino. Tem de se cruzá-los com a variável ambiente carcerário.

Não há também como prever quando problemas cardiovasculares acontecerão. Pior. De instalação abrupta, eles podem matar se não tratados rapidamente. E na Papuda, não há assistência emergencial no período noturno nem em fins de semana e feriados.  Semanalmente, são 108 horas a descoberto.

Assim, se eventualmente Genoino tiver algum problema cardiovascular à noite, por exemplo, a sua vida corre risco.

Que médico se responsabilizaria por eventual morte de Genoino, arriscando a própria carreira, para satisfazer o desejo de o ministro Joaquim Barbosa ver o ex-presidente do PT na prisão?

Em medicina, não existe risco zero.

E o médico que avalizar a ida de Genoino para a Papuda terá isso registrado no currículo pelo restante da vida.

Genoino, relembramos, está encarcerado desde 15 de novembro de 2013. Ele foi transferido, algemado durante o voo, para Brasília.

Pediu para cumprir a pena em São Paulo, onde  mora com a família, Barbosa negou: (http://www.viomundo.com.br/denuncias/dirceu-greco.html)  “O preso não pode escolher, ao seu livre alvedrio e conveniência, onde vai cumprir a pena que lhe foi definitivamente imposta”.

Bem diferente do tratamento dispensado por Joaquim Barbosa ao ex-deputado federal Roberto Jefferson, delator do mensalão.

Condenado a 7 anos e 14 dias de reclusão em regime semiaberto, ele só foi preso em 24 de fevereiro deste ano. Está em cela individual no Instituto Penal Francisco Spargoli Rocha, em Niterói, perto da sua casa no Rio de Janeiro. Quatro dias depois, teve problemas estomacais.

Em 2012, Jefferson foi operado de um câncer no pâncreas. Devido à extensão da cirurgia, é obrigado a fazer uma dieta complicada e rigorosa que é inviável na prisão. Tanto que o seu advogado entrou com novo pedido no STF para que ele cumpra em casa.

Do ponto de vista de saúde, há razões médicas suficientes para que Genoino e Jefferson cumpram a pena em casa. É um direito previsto em lei. Se não for por esses motivos objetivos, que seja por humanidade.

Conceição Lemes
No Viomundo
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Rodrigues vê chance de "hegemonia do PT"


Colunista Fernando Rodrigues, da Folha, afirma que o Partido dos Trabalhadores pode levar tudo nas próximas eleições: a presidência da República, além das maiores bancadas da Câmara e do Senado

O colunista político Fernando Rodrigues, da Folha de S. Paulo, avalia que o Partido dos Trabalhadores tem possibilidades reais de conquistar uma "hegemonia" nas eleições de 2014, levando a presidência da República e as maiores bancadas da Câmara e do Senado. Leia abaixo:

Hegemonia do PT

BRASÍLIA - Depois da ditadura militar, o PMDB dominou a política no Brasil. Embalado no Plano Cruzado, emergiu da eleição de 1986 com a maioria dos governadores e grande vantagem na Câmara e no Senado. Passado esse momento artificial, nunca mais um partido teve, ao mesmo tempo, o Palácio do Planalto e as presidências das duas Casas do Congresso.

O PSDB quase chegou lá com o Plano Real. Os tucanos elegeram 99 deputados em 1998. Mas, de lá para cá, foram ladeira abaixo. Hoje, na Câmara, ocupam meras 43 cadeiras.

O PT cresceu sem parar até 2002. O escândalo do mensalão representou um solavanco em 2006. A retomada se deu em 2010. A maior bancada da Câmara agora é a dos petistas, com 87 cadeiras — bem à frente do segundo colocado, o PMDB, que tem 75 representantes.

Ninguém dentro da Câmara, governista ou de oposição, duvida que o PT se preparou para voltar no ano que vem com uma bancada próxima a 100 deputados. Ou maior. Essa dianteira conduzirá um petista a presidir a Casa.

No Senado, o PMDB tem 20 cadeiras. O PT vem em seguida, com 13. Ocorre que sete peemedebistas precisam renovar seus mandatos em outubro, contra apenas três petistas. Não é um despautério imaginar o PT em 2015 com uma bancada de senadores quase igual ou até maior que a do PMDB — sobretudo se Dilma Rousseff for reeleita e alavancar as candidaturas de colegas pelo país.

Tudo considerado, o PT tem condições objetivas de ficar no ano que vem com a Presidência da República além das maiores bancadas individuais e os comandos da Câmara e do Senado. É essa eventual hegemonia que apavora a parte rebelada da base dilmista no Congresso. No momento, quando ainda não é majoritário, o PT trata aliados a pontapés. Os políticos ficam imaginando (e tremendo) ao pensar como será num cenário de poder institucional absoluto.
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Dominguinhos +

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Websérie e filme no cinema homenageiam Dominguinhos

“Um Dominguinhos que pouca gente conhece: jazzista, improvisador, universal. Virtuoso que nunca estudou música”. Ao longo da carta que escreveu a respeito do projeto que a envolveu por seis anos, Mariana Aydar sintetiza o porquê do seu interesse em realizar uma obra que homenageia Dominguinhos. Nela, a cantora menciona uma singularidade bastante marcante na obra desse exímio sanfoneiro: seu refinamento musical, sua universalidade. “Assim era Dominguinhos. Grande, muito grande. Simples, muito simples”, reforça ela.

Não por acaso, esse também instrumentista, cantor e compositor fez uma série de parcerias musicais ao longo de sua carreira. Dominguinhos já se apresentou e fez duetos com a própria Mariana, além de Elba Ramalho, Gal Costa, Hermeto Pascoal, Gilberto Gil, Nara Leão, Nana Caymmi e, claro, com seu “pai postiço”, como ele gostava de brincar, Luiz Gonzaga. Vencedor de dois Grammys Latino, o músico começou tocando pandeiro, ainda criança, em Guaranhuns, sua cidade natal.

Mariana, ao lado de Duani e Eduardo Nazarian, se associou à bigBonsai, produtora audiovisual paulistana e, juntos, começaram o trabalho de pesquisa e a marcação de encontros musicais. A ideia central, nesse momento, era reunir parceiros antigos e também músicos mais jovens – inspirados pela música de José Domingos de Morais, Nenê em seu início de carreira e Dominguinhos após novo batismo feito por Gonzaga.

O resultado desse trabalho são dois produtos audiovisuais que se completam, dão voz – e microfone – ao artista falecido em julho de 2013.

Na web série, aparecem seus últimos encontros em estúdio e as falas emocionadas de seus companheiros de estrada, instrumentos e palcos.

O documentário, por sua vez, traz imagens de arquivo e o próprio Dominguinhos narrando sua trajetória – o início da carreira, a chegada ao Rio, a primeira sanfona, as parcerias. As duas produções são assinadas pela bigBonsai.

Os produtores – Deborah Osborn, Felipe Briso e Gilberto Topczewski – explicam a complementariedade dos trabalhos: “À medida que nos aprofundávamos na vida e obra do mestre, ficava clara a necessidade de que essa história tivesse desdobramentos em diversas plataformas. O material era vasto e valioso e a vontade de contar essa história para o maior número de pessoas possível era um objetivo importante. Do cinema à internet, do livro ao Facebook, do disco ao Youtube. As ideias foram surgindo e a vocação do material foi se revelando”.

Lançamento do projeto: 12 de fevereiro, nas comemorações do aniversário de Dominguinhos.

Lançamento da websérie: 26 de fevereiro.

Lançamento do documentário: em breve nos cinemas.

Ficha Técnica websérie Dominguinhos+

Direção Geral: Felipe Briso
Direção Musical: Eduardo Nazarian, Mariana Aydar e Duani
Produção: Deborah Osborn e Gilberto Topczewski
Direção de Produção: João Felipe Keunecke
Direção de fotografia: Tiago Tambelli
Direção de Arte: Maurício Brandão
Engenheiro de som: Leonardo Nakabayashi
Montagem: Lucas Cirillo, Guilherme Silva e Oswaldo Santana
Coordenação de pós: Daniel Amaro
Correção de Cor: Felipe Ino

Ficha Técnica filme Dominguinhos

Idealização, Direção Musical e Produção Associada: Eduardo Nazarian, Mariana Aydar e Duani
Produção: Deborah Osborn, Felipe Briso e Gilberto Topczewski
Direção: Joaquim Castro, Eduardo Nazarian e Mariana Aydar
Produção Executiva: Deborah Osborn
Roteiro: Di Moretti
Montagem: Joaquim Castro
Pesquisa: Eloa Chouzal
Desenho de Som: Joaquim Castro e Edson Secco
Direção de fotografia: Tiago Tambelli, Pedro Urano
Direção de Cenas: Felipe Briso e Joaquim Castro
Finalização: Zumbi Post

Patrocínio:
Natural Musical

Copatrocínio:
Semp Toshiba
Grupo Contax

Apoio Cultural:
Oi Futuro

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