12 de mar de 2014

Lendo Zero Hora

Antigamente, quando as pessoas queriam dar um testemunho de que alguma notícia provinha de uma fonte confiável, diziam “deu no Correio”. Nem sempre era verdade, mas o que o Correio do Povo publicava era aceito pela maioria das pessoas no Rio Grande do Sul como um testemunho de fé.

O velho Correio em tamanho standard (jornal sério não podia ser tablóide) morreu há alguns anos e deixou como sucessor uma versão menor, que ninguém mais toma como um testemunho da verdade, até porque nessa sua segunda vida ficou ligado a um grupo religioso, o que sempre conspira contra um apego à realidade factual.

Com isso, o grande jornal do Rio Grande do Sul – ainda que também na forma suspeita de tablóide ( no mundo inteiro, os tablóides são quase sempre jornais pouco sérios) — passou a ser a Zero Hora.

Surgida como um negócio de ocasião, depois que o golpe de 64 fechou a Última Hora (também um tablóide, às vezes muito próximo da imprensa marrom), o jornal de Samuel Wainer que dava cobertura ostensiva ao governo de João Goulart. Zero Hora (na época era nome de uma secção da Última Hora com pequena notícias que chegavam quase no fechamento do jornal) se integrava a um grupo que já tinha uma emissora de rádio e outra de televisão, mas estava longe de formar o grande grupo mediático que se tornou depois.

O chamado Grupo RBS cresceu e tomou conta do mercado do Rio Grande do Sul e Santa Catarina graças a seu apóio aos governos militares que comandaram o Brasil por quase 20 anos e pela aliança estratégica com a Rede Globo, também produto da ditadura.

Hoje, fortalecido pela presença em praticamente todas as plataformas de mídia e fazendo negócios também em outras áreas, o grupo RBS se transformou — numa era onde a comunicação é um item fundamental na sustentação de qualquer sistema político — no grande porta voz do conservadorismo gaúcho.

Embora envolto por uma capa de modernidade (todos os seus veículos ostentam o que existe de mais avançado na tecnologia de comunicação) o grupo defende os interesses dos segmentos retrógrados da população que mais se empenham em impedir à democratização da sociedade e o fim dos privilégios sociais e econômicos, criados por uma distribuição injusta da renda, o financiamento pelo Estado de grandes empresas e a falta de acesso da população marginalizada à educação e à saúde.

Embora estejamos vivendo numa época em que os meios audiovisuais sejam dominantes no dia a dia das pessoas, o jornal ainda tem um forte apelo junto aos cidadãos como um registro documentado dos fatos. Colocadas em letra de forma (embora a elaboração dos jornais hoje siga outro processo), certos fatos e opiniões ganham uma importância que nos outros meios de comunicação ainda não têm

A televisão e o rádio apresentam um fato com toda a dramaticidade que só o uso da imagem e do som consegue transmitir e o jornal depois explica as causas e conseqüências do fato, ajudando as pessoas a fazerem um juízo de valor.

Um grupo que disponha desses três veículos, como é o caso da RBS, está sempre multiplicando a força da sua mensagem.

Num ano eleitoral, a presença do jornal dentro do contexto geral dos meios de comunicação, cresce da importância, na medida em que a televisão e o rádio por serem concessões do Governo Federal, sofrem determinadas limitações.

Nesse ano de 2014, ano eleitoral de importância extrema para o Brasil, porque as forças de oposição vão usar todas as suas armas para impedir que o PT consiga completar seu quarto mandato na Presidência, igualando o que foi o sonho de FHC (o PSDB veio para ficar 20 anos no poder, dizia Sérgio Motta, o Sergião), Zero Hora vai desempenhar um papel importantíssimo no jogo político tanto estadual como nacional.

Não nos iludamos. Apesar de se declarar imparcial, o jornal vai usar todos seus recursos, que não são poucos, para valorizar os candidatos que defendem sua linha política. É possível que use novamente aquele argumento que utilizou no passado, de medir os centímetros de coluna com notícias de cada candidato para provar sua presumida isenção, como se o fato de ter a mesmo tamanho tivesse esse significado.

Zero Hora talvez seja o modelo mais acabado do uso de estratégias de marketing para “vender” essa idéia de isenção política, de um espaço aberto para todas as tendências, em toda a imprensa brasileira. No passado, eles chegaram a realizar uma campanha publicitária, onde pessoas conhecidas do meio intelectual e universitário davam testemunhos criticando a postura do jornal, junto com outras que a enalteciam. Zero Hora publicou em páginas inteiras cada um desses depoimentos, para tentar provar essa pretensa imparcialidade.

Hoje, basta dar uma passada na longa lista de colaboradores do jornal, alguns permanentes e outros eventuais, para encontrar nomes que cobrem praticamente todo o espectro ideológico do Estado. Numa mesma edição é possível ler o texto sempre magnífico do Luís Fernando Veríssimo e o tosco populismo do Paulo Santana; encontrar um radical de direita, como Percival Puggina e um defensor dos direitos humanos, como Marcos Rolim, isso na mesma página; um defensor do golpe de 64, Paulo Brossard e uma das vítimas desse golpe, Flávio Tavares; uma cobertura internacional quase sempre isenta de Luiz Antônio Araújo à crítica comprometida com o anti-socialismo de Léo Gerchmann.

Enquanto os colaboradores reforçam a idéia de uma diversidade política, a linha editorial do jornal vai martelando na cabeça dos seus leitores os valores da classe conservadora, mesmo que na essência eles sejam alheios aos interesses da maioria da população. Eles não são muitos, mas são fundamentais para os objetivos que o jornal, como integrante da elite econômica , defende: ampla liberdade formal (principalmente para fazer negócios), meritocracia em qualquer atividade, independentemente das condições sociais dos seus participantes e presença mínima do Estado em qualquer atividade.

Uma única exceção é a segurança pública, onde se clama diariamente por uma maior presença de policiais e presídios, porque certamente ela afeta o bem maior da sociedade capitalista, o patrimônio das empresas e por extensão, das pessoas.

A estes valores exponenciais que é preciso defender a qualquer custo, Zero Hora se dedica ainda a outras prioridades em sua linha editorial: critica permanente (muitas vezes justa) aos governos do PT; demonização dos movimentos sociais, principalmente os ativistas do MST; repulsa permanente ao aumento da liberdade de informação com o advento do controle social da mídia e finalmente, a defesa incondicional da política do governo de Israel contra os palestinos.

Fiel a essa política, o jornal vai tentar eleger sua ex-funcionária Ana Amélia Lemos governadora do Estado, como já fez com outros dois ex-funcionários (Antônio Britto e Yeda Crusius). Já teve um senador, Sérgio Zambiasi e vai tentar eleger outro, Lasier Martins.

Mesmo que o PT vença no plano federal, o que é quase certo e no plano estadual, o que é bem provável, os governos de Dilma e Tarso certamente não afrontarão, como não fizeram até agora, os objetivos políticos e sociais que o grupo da RBS representa e divulga em seus veículos, até mesmo porque, para garantir a estabilidade dos seus governos, continuarão a fazer as concessões políticas e econômicas que interessa aos setores que o grupo representa.

Aqui no Sul, temos ainda bem presente, o que significa contrariar diretamente os objetivos dos parceiros econômicos do Grupo RBS. O governo Olívio Dutra, possivelmente o que mais avançou nessa linha de confronto com estes interesses, sofreu um processo de desestabilização permanente, com uma guerra comandada pelo grupo da RBS, que deu sustentação mediática para a chamada “CPI do jogo do bicho”; que transformou o embate político de um governo, que tentava preservar o dinheiro público, com a multinacional Ford, numa manchete mentirosa, repetida mil vezes, de que o PT mandou a Ford embora; e que diariamente apresentava o Estado como se vivesse na mais completa insegurança pública. Era o “o caos na segurança” como dizia o jornal, juntando na mesma matéria todos os casos policiais do dia para ampliar a repercussão das notícias e que terminou, como por encanto, no dia seguinte à eleição de Germano Rigotto.

Vamos continuar lendo Zero Hora e democraticamente, vamos continuar a denunciar seu papel na política do nosso Estado e do nosso País.

Marino Boeira - Formado em História pela UFRGS. Jornalista e publicitário. Ex-professor de disciplinas da área de Comunicação na PUCRS e Unisinos. Publicou três livros de ficção: De Quatro, com outros três autores; Raul, Crime na Madrugada e Tudo que você NÃO deve fazer para ganhar dinheiro na propaganda. É um dos participantes dos livros de memória: Nós e a Legalidade, Salimen, uma história escrita em cores e Porto Alegre é assim.
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Tribunal da Suíça rejeita recurso de Marinho e deve liberar mais documentos ao Brasil

Ele

O Tribunal de Bellinzona, na Suíça, rejeitou recurso do conselheiro Robson Marinho, do Tribunal de Contas do Estado, que pretendia impedir o envio para o Brasil de toda a documentação relativa à sua movimentação financeira naquele país. Marinho pode recorrer da decisão perante o Tribunal Federal da Suíça.

A informação sobre o indeferimento do recurso foi transmitida para autoridades brasileiras que investigam o ex-chefe da Casa Civil do governo Mário Covas (PSDB) por suspeita de recebimento de propinas do caso Alstom - corrupção na área de energia do governo de São Paulo, entre 1998 e 2002.

Em 2010, a Justiça de São Paulo decretou o bloqueio de ativos do conselheiro no exterior. Na Suíça, a medida já estava em vigor - em 6 de julho de 2009, o Office Fédéral de la Justice, em resposta ao Ministério da Justiça, confirmou que Marinho possui valores patrimoniais embargados em Genebra.

Numa conta no Credit Lyonnais Suisse o saldo é de US$ 1,1 milhão. Mas os investigadores brasileiros suspeitam de que o conselheiro manteria quantia muito superior no sistema financeiro de Genebra. Ele não é o único réu no processo da Suíça. Outro brasileiro, Jorge Fagalli, está com US$ 7,5 milhões bloqueados e também recorreu.

No recurso para vetar a remessa da documentação bancária, advogados de Marinho alegaram cercamento de defesa, ofensa à ordem pública suíça e falta de sustentação legal para a cooperação com procuradores no Brasil. Pessoas próximas de Marinho argumentam que o recurso rejeitado por Bellinzona se refere "a um corréu". Mas admitem que a situação do conselheiro é a mesma.

Se Marinho perder no Tribunal Federal, os seus dados financeiros serão encaminhados para duas instâncias judiciais no Brasil, a 6.ª Vara Criminal Federal e a 13.ª Vara da Fazenda.

Pagador

A Suíça investiga o pagador de Marinho. O Ministério Público da Confederação pede ao Brasil interrogatório do empresário Sabino Indelicato, que fez oito depósitos na conta secreta do conselheiro no Crédit Lyonnais, somando US$ 953,69 mil, entre 1998 e 2005.

Foi aberto processo de investigação de polícia judiciária "por suspeitas de lavagem de dinheiro agravada, assim como por corrupção de agentes públicos estrangeiros". Deu no Estadão

A Suíça investiga o pagador do conselheiro Robson Marinho, do Tribunal de Contas do Estado, ex-chefe da Casa Civil do governo Mário Covas (PSDB). O Ministério Público da Confederação (Procuradoria de Genebra) pede ao Brasil interrogatório do empresário Sabino Indelicato, que fez 8 depósitos na conta secreta de Marinho, no Credit Lyonnais Suisse, somando US$ 953,69 mil, entre 1998 e 2005.

Os procuradores suíços querem saber por que Indelicato injetou dinheiro na conta de Marinho. Foi aberto processo de investigação de polícia judiciária "por suspeitas de lavagem de dinheiro agravada, assim como por corrupção de agentes públicos estrangeiros". Procuradores enviaram 38 perguntas a serem feitas para Indelicato. Algumas delas tratam especificamente das relações do empresário com o conselheiro. "O sr. teve em alguma ocasião relações profissionais com o Robson Riedel Marinho? Se for o caso, de que tipo exato foram essas relações e durante que período o sr. as manteve?"

A investigação da Suíça mira as transferências para Marinho no âmbito do contrato da Alstom com a área de energia do Estado de São Paulo. O conselheiro votou pela regularidade da inexigibilidade de licitação para extensão de garantia de equipamentos do contrato Gisel, da antiga Eletropaulo. Além de Indelicato, 10 ex-diretores das empresas, lobistas e ex-dirigentes de extintas estatais de energia são réus em ação penal na Justiça Federal. Por ter foro privilegiado, Marinho é investigado no Superior Tribunal de Justiça.

No Amigos do Presidente Lula
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Ex-titular da marca CBN em Manaus é indiciado por extorsão, calúnia e difamação

O radialista e ex-deputado Ronaldo Tiradentes, que até o ano passado era titular da marca CBN, da Rede Globo, em Manaus, foi indiciado por extorsão, calúnia e difamação pela titular da Delegacia de Combate ao Crime Organizado, delegada Maria Cristina Portugal. Além dele, o repórter Marcos Pontes foi arrolado no processo pelas mesmas acusações. As informações são do jornal A Crítica, de Manaus.

De acordo com as denúncias, Ronaldo Tiradentes estava por trás de um vídeo que tentava vincular nomes da família Calderaro – dona da Rede Calderaro, do próprio jornal A Crítica – e de políticos a casos de prostituição infantil. As investigações iniciaram em junho do ano passado. Segundo a delegada Maria Cristina Portugal, a tentativa de extorsão por parte de Tiradentes foi feita ao presidente do sistema A Crítica de Rádio e Televisão, Dissica Tomaz Calderaro.

Já o repórter Marcos Pontes, além da tentativa de extorsão, foi indiciado por calúnia e difamação contra a delegada Linda Gláucia Moraes, titular da Delegacia Especializada na Proteção a Criança e ao Adolescente (Depca). O processo tramita na 7ª Vara Criminal de Manaus, em segredo de Justiça. Ronaldo Tiradentes e Marcos Pontes poderão cumprir penas de até 13 anos de detenção e multas, caso o Ministério Público apresente ação penal e ambos sejam condenados.

“Operação Estocolmo”

O vídeo atribuído a Tiradentes era, segundo a Polícia Civil do Amazonas, uma tentativa de desqualificar o trabalho da delegada Linda Gláucia e impedir que o grupo de comunicação dos Calderaro desse ampla divulgação da operação “Estocolmo”. O vídeo mostra Renata de Oliveira Guerreiro fazendo acusações contra Dissica e políticos.

A operação Estocolmo foi coordenada em 2012 pela delegada Linda Gláucia, em uma série de ações que desarticulou uma rede de prostituição sexual infanto-juvenil em Manaus, com envolvimento de empresários e políticos amazonenses. A investigação começou em maio de 2012, depois que a mãe de uma adolescente de 13 anos denunciou que a filha era vítima do esquema de exploração sexual. As polícias Civil e Federal cumpriram oito mandados de prisão em residências em condomínios de luxo de Manaus.

Além dos mandados de prisão, foram cumpridos 46 mandados de busca e apreensão. A polícia teve acesso a mídias de CDs e DVDs, computadores, câmeras fotográficas, interceptações telefônicas e filmagens que revelou pelo menos 30 adolescentes — com idades entre 13 e 17 anos — sendo aliciadas e agenciadas.

Histórico de chantagens e ameaças

Ex-deputado, Ronaldo Tiradentes é dono da Rede Tiradentes da rádio, que carregou durante anos a marca “CBN Manaus”. Ele é conhecido no meio político amazonense por recorrer a ameaças e extorsões. Tiradentes, inclusive, é o personagem principal da série “A Primavera de Manaus”, em que o jornalista Luis Nassif reconta a trajetória de um grupo de internautas perseguido e ameaçado pelo radialista para blindar o então prefeito de Manaus, Amazonino Mendes.

O caso ficou mais conhecido pela implacável perseguição do radialista a uma médica que participava de um movimento cidadão contra a chamada “taxa do lixo”, aprovada pela Câmara Municipal de Manaus em 2009. Tiradentes usou a concessão pública para caluniar e ofender a profissional, que era servidora pública municipal. Apesar das falsas denúncias da então “CBN Manaus” e das vários aberturas de sindicâncias, nada foi provado contra a médica.

A perseguição de Ronaldo Tiradentes também envolveu uma profissional de uma multinacional instalada em Manaus. O radialista chegou a exigir de um diretor da empresa que demitisse sua funcionária apenas por participar do movimento cidadão, algo que não aconteceu na época. As ameaças de Ronaldo também foram feitas a jornalistas e cidadãos sem qualquer ligação com o meio político.

Ao dar visibilidade nacional ao caso, por meio da série “A Primavera de Manaus”, o jornalista Luis Nassif passou a receber ameaças anônimas, que também atingiam suas filhas. A diretora nacional de jornalismo da CBN, Mariza Tavares, chegou a ser procurada em diferentes ocasiões por várias pessoas ameaçadas pelo radialista, mas nada chegou a acontecer na época. No ano passado, após encerrar o contrato com a Rede Tiradentes, a Rede Globo repassou à marca ao empresário Phelippe Daou, proprietário da Rede Amazônica de Rádio e Televisão, afiliada à própria emissora dos Marinho.

Tiradentes tentou, de todas as formas, manter a marca CBN à Rede Tiradentes. Durante o processo de renovação contratual, ele chegou a usar seu blog para denunciar que o empresário não pagava o valor correto de IPTU de um terreno de sua propriedade. A CBN, contudo, passou para a Rede Amazônica e vai passar a operar em Manaus sob a marca “CBN Amazônia”.

No GGN
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Com apoio do PMDB, blocão de insatisfeitos impõe derrota ao governo

Na noite de terça, foi aprovada a comissão externa para investigar a Petrobras. Nesta quarta, o PMDB promete liquidar o sonho do marco civil da internet.

O novo blocão de partidos que reúne oposição e base insatisfeita conseguiu impor, na noite de terça (11), a primeira derrota significativa para o governo, desde o início da crise entre PT e PMDB, os dois maiores partidos da base aliada: aprovaram no plenário da Câmara a instalação de uma comissão externa que vai investigar se a Petrobrás recebeu ou não propina da empresa holandesa SBM Offshore, que aluga plataformas flutuantes. Apesar dos esforços do PT para retirar a matéria de pauta, a aprovação ocorreu por 267 votos favoráveis, 28 contrários e 15 abstenções.

A comissão externa não tem poderes de investigação como o de uma CPI, mas o governo teme que a exposição do nome da Petrobrás prejudique a imagem da petrolífera no mercado internacional. Apesar do Ministério Público da Holanda já ter afirmado que não há nenhuma investigação em curso contra a empresa brasileira, os deputados irão àquele país acompanhar o desenrolar das denúncias sobre práticas de corrupção por parte da SBM Offshore envolvendo empresas internacionais parceiras.

A oposição, que recebeu o inesperado reforço de parte da base, comemorou o feito. "A presidente vai ver que não pode tratar o Parlamento como ela trata", afirmou o líder do PSDB na Câmara, Antonio Imbassahy (BA), autor da proposta. O líder do PT, deputado Vicentinho (SP), reagiu: lembrou que o seu partido é o maior da Câmara e deverá estar em peso na composição da comissão externa. "Vamos cumprir o que foi aprovado, mas o PT é o maior partido e estará em maior número", declarou.

Mal encerrada a votação, o líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), já anunciava que a guerra continua. Segundo ele, nesta quarta (12), o partido irá trabalhar para colocar em pauta e derrubar o marco civil da internet, matéria considerada prioritária pelo governo e que tem o apoio dos movimentos organizados pela democratização da comunicação. "Nós queremos votar amanhã [quarta] e vamos votar para derrotar", afirmou.

Cunha, que vinha sendo isolado pelo Planalto como principal responsável pela crise entre PT e PMDB, recebeu apoio irrestrito da bancada de seu partido na terça. Dos 72 deputados, mais de 60 participaram da reunião que aprovou, por unanimidade, uma moção de apoio ao líder, desgastado após trocar farpas públicas com o presidente do PT, Rui Falcão, e se posicionar de forma irredutível contra o marco civil da internet, defendendo os interesses comerciais das empresas de telecomunicações. Mesmo o presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), que mantem boa interlocução com o Planalto, saiu em defesa do colega de partido. “Isolar o líder de uma bancada de 76 deputados não passa pela cabeça do PMDB”, disse ele.

Nesta terça (11), os líderes dos partidos da base que permanece fiel ao governo conseguiram retirar o marco civil da internet em pauta, por temer uma derrota. “A meta principal do PT é votar o marco civil da internet, mas parece que não será possível esta semana, já que alguns partidos da base não querem votá-lo, não por ser contra a proposta, mas por conta da conjuntura política”, justificou o líder do PT, deputado Vicentinho (SP). Hoje, a batalha continua.

Também nesta quarta, o PMDB promete conduzir o blocão a aprovar 21 convocações de ministros para prestar esclarecimentos ao parlamento. O campeão de pedidos é justamente o ministro da Saúde, Arthur Chioro, responsável pelo programa Mais Médicos, um dos principais acertos do governo Dilma e, por isso, uma das principais vitrines eleitorais da presidenta candidata à reeleição. A bancada do PMDB definiu, na tarde da terça, que irá apoiar pelo menos uma das convocações de Chioro, pela Comissão de Finanças.

Durante a terça, a presidenta Dilma Rousseff, que foi prestigiar a posse da presidenta Michelle Bachelet no Chile, tratou a crise com bom humor. Questionada pela imprensa, afirmou que “o PMDB só lhe dá alegria”. O vice-presidente Michel Temer, que reuniu Alves e Cunha em sua residência, esta manhã, para tentar costurar o fim do impasse, elogiou o comentário. "A presidenta foi clara em dizer que o PMDB só dá alegrias. E só dá alegrias mesmo para o governo, apoia o governo, ajuda o governo”, afirmou.

Na segunda, antes de seguir viagem, a presidenta se reuniu com líderes do PMDB para tentar costurar o fim da crise. Apesar dela ter prometido apoio político ao partido em pelo menos seis estados durante as eleições deste ano e acenado com a possibilidade de atender a exigência da sigla de ocupar um sexto ministério, as negociações não surtiram efeito.

Najla Passos
No Carta Maior
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A OTAN a as Matrioskas


Toda nação tem seus símbolos. Um dos mais tradicionais símbolos russos, à altura de Dostoiévski, e de Pushkin, são as Matrioskas, as bonecas de madeira, delicadamente pintadas e torneadas, que, como as camadas de uma cebola, guardam, uma dentro da outra, a lembrança do infinito, e a certeza de que algo existe, sempre, dentro de todas as coisas, como em um infinito jogo de espelhos e surpresas.

Ao se meter no complicado xadrez geopolítico da Eurásia, que já dura mais de 2.000 anos, o “ocidente” esqueceu-se dos russos e de suas Matrioskas.

Para enfrentar o desafio colocado pela interferência ocidental na Ucrânia, Putin conta com suas camadas, ou suas Matrioskas.

A primeira camada, a maior e a mais óbvia, é o poder nuclear.

A Rússia, com todos os seus problemas, é a segunda potência militar do planeta, e pode destruir, se quiser, as principais capitais do mundo, em uma questão de minutos.

A segunda é o poder convencional. A Rússia dispõe, hoje, de um exército quatro vezes maior que o ucraniano, recentemente atualizado, contra as armas herdadas, pela Ucrânia, da antiga URSS, boa parte delas, devido à condição econômica do país, sem condições de operação.

A terceira, é o apoio chinês, a China sabe que o que ocorrer com a Rússia, hoje, poderá ocorrer com a própria China, no futuro, assim como da importância da Rússia, como última barreira entre o Ocidente e Pequim.

A quarta Matrioska é o poder energético. Moscou forneceu, no último ano, 30% das necessidades de energia européias, e pode paralisar, se quiser, no próximo inverno, não apenas a Ucrânia, como o resto do continente, se quiser.

A quinta, é a financeira. Com 177 bilhões de superávit na balança comercial em 2013, os russos são um dos maiores credores, junto com os BRICS, dos EUA. Em caso extremo, poderiam colocar no mercado, de uma hora para outra, parte dos bilhões de dólares que detêm em bônus do tesouro norte-americano, gerando nova crise que tornaria extremamente complicada a frágil a situação do “ocidente”, que ainda sofre as consequências dos problemas que começaram — justamente nos EUA — em 2008.

Finalmente, existe a questão étnica e histórica. Para consolidar sua presença nas antigas repúblicas soviéticas, Moscou criou enclaves russos nos países que, como a Ucrânia, se juntaram aos nazistas, para atacar a URSS na Segunda Guerra.

Naquele momento, o nacionalismo ucraniano, fortemente influenciado pelo fascismo, não só recebeu de braços abertos, as tropas alemãs, quando da chegada dos nazistas, mas também participou, ao lado deles, de alguns dos mais terríveis episódios do conflito.

Derrotados pelo Exército Soviético, na derradeira Batalha de Berlim, em 1945, os alemães sabem, por experiência própria, como pode ser pesada a pata do urso russo, quando provocado.

E como podem ser implacáveis — e inesperadas — as surpresas que se ocultam no interior das Matrioskas.
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Foto desnuda a classe política que nós elegemos


Nada resume melhor o atual momento político no país do que a foto acima, registrando para a posteridade um momento sublime do Congresso Nacional, na noite de terça-feira. Seria algo absolutamente normal numa democracia, se os parlamentares flagrados num momento de euforia juvenil, após derrotar o governo numa votação, fossem da oposição. Só que a maioria deles pertence à base aliada do governo Dilma.

Na dança do bumba meu boi em que se transformou o plenário da Câmara, ninguém é mais de ninguém, e entramos naquele clima de salve-se quem puder, em que os derrotados, no final do espetáculo, acabam sendo sempre os mesmos, ou seja, nós eleitores, que escolhemos esta gente alegre para nos representar.

A coitada da bancada da oposição, com seus 90 deputados, não consegue aprovar sozinha nem voto de condolências. A acachapante derrota sofrida pelo governo por 267 votos (158 deles de deputados governistas) a 28, ao ver aprovada a proposta de criação de uma comissão externa para investigar irregularidades na Petrobras, foi comandada pelo PMDB, o maior partido aliado, que garantiu 58 votos dos seus 75 deputados que estavam no plenário, sob o comando de Eduardo Cunha, o líder da rebelião armada contra a presidente Dilma, que estava no Chile. Outros "aliados" que fizeram a festa da oposição foram PTB, PSC, PR e PSD.

Reparem bem na foto: mesmo que seus partidos, a começar pelo PMDB, apoiem oficialmente a reeleição da candidata do PT, alguém pode imaginar só uma destas excelências de braços erguidos e punhos cerrados, comemorando aos gritos a derrota do governo, vá mesmo fazer campanha para Dilma em seus Estados?

Por mais que não se acredite num rompimento formal do PMDB de Michel Temer, outro derrotado da noite, com o PT de Dilma, sempre é bom lembrar o que aconteceu nas eleições presidenciais de 2002.

Na sucessão de Fernando Henrique Cardoso, o PMDB decidiu oficialmente apoiar o tucano José Serra, candidato do governo, e até indicou a vice, deputada Rita Camata, do Espírito Santo. Ao longo da campanha, no entanto, vários diretórios estaduais do PMDB resolveram apoiar Lula, que acabou conquistando sua primeira vitória após três tentativas frustradas.

Pode ser que agora a presidente Dilma e seus principais auxiliares caiam na real e percebam que o problema não está só em Eduardo Cunha, um parlamentar de muitos negócios e interesses, que catalisou o descontentamento de amplos setores da antiga base aliada por não suportarem mais a onipotência do Palácio do Planalto baseada nas pesquisas favoráveis. Reunida durante três horas antes da votação, a bancada do PMDB na Câmara deu total apoio ao seu líder e fez novos ataques ao PT e ao governo.

Ficou mais uma vez evidente a falta de articulação politica do governo, cujas principais lideranças mantêm um obsequioso silêncio, deixando a presidente Dilma solta no espaço e desinformada a ponto de afirmar em Santiago que "o PMDB só me dá alegrias".

A goleada sofrida na terça-feira pode ter sido apenas a primeira derrota imposta ao governo, um aviso de que o jogo será pesado daqui para a frente. Cunha e sua turma podem ter gostado da brincadeira e já preparam novas cascas de bananas, como a convocação de ministros e da presidente da Petrobras. O pior de tudo é que não há o menor clima para votar o marco civil da internet, principal projeto do governo em discussão no Congresso, que os rebelados querem derrubar a qualquer preço, atendendo aos interesses de grandes empresas do setor.

Nestas horas, nunca é demais lembrar a célebre frase de Ulysses Guimarães, um líder político como não há mais, que ao ouvir de um colega que aquele era o pior Congresso que o país já tivera, advertiu: "Espere para o ver o próximo...".

Não nos esqueçamos que dia 5 de outubro temos eleições gerais, e não só para presidente da República. É a hora em que os eleitores podem dar a volta por cima e mandar muitos nobres parlamentares de volta para casa.

Ricardo Kotscho
No Balaio do Kotscho
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No tempo da ditadura


“Como é que a gente faz hoje quando entra num táxi e o motorista diz que tempos bons eram os da ditadura?”, me perguntou o amigo Nirlando Beirão.

Diz que:

No tempo da ditadura, a gente não podia escrever sobre o tempo da ditadura, nem qualificar o regime como uma ditadura. No tempo da ditadura, ao invés de uma análise crítica sobre a ditadura, digo regime, neste espaço teria um poema de Camões ou uma receita de bolo, pois seria censurada.

Todo mundo que era contra a ditadura era comunista. Todos se tornaram suspeitos, subversivos em potencial. E muitos que, em 1964, conspiraram com os militares, na missão de impedir que comunistas tomassem o poder, e o Brasil se transformasse numa diabólica ditadura do proletário, perceberam a manobra e foram depois acusados de ligações com comunistas.

No primeiro ato da ditadura, o AI-1 (Ato Institucional Número 1), baixado pela Junta Militar em 9 de abril de 1964, cassaram os opositores dos comunistas, os trabalhistas: João Goulart, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, parte da bancada do PTB, partido fundado por Getúlio Vargas, como Almino Afonso e meu pai, Jânio Quadros, Miguel Arraes, o deputado católico Plínio de Arruda Sampaio, o economista Celso Furtado, o jornalista Samuel Weiner, até o presidente da Petrobras, marechal Osvino Alves. Nenhum deles era comunista.

Entre outros cassados, estavam membros da corporação que mais perseguições sofreu durante a ditadura: os próprios militares, como o general-de-brigada Assis Brasil, o chefe do Gabinete Militar, Luís Tavares da Cunha Melo, e os almirantes Cândido de Aragão e Araújo Suzano. Milhares de oficiais foram expulsos das Forças Armadas durante a ditadura.

Bem antes ditadura, o PCB (Partido Comunista do Brasil) já era ilegal, e seus líderes, eles, sim, comunistas, viviam na clandestinidade. A intenção do Golpe de 64 era impedir o avanço comunista no Brasil e restaurar a democracia em dois anos. Não demorou muito, o ex-presidente Juscelino Kubitschek, candidato à reeleição, foi cassado acusado de corrupção e colaborar com comunistas.

No primeiro teste eleitoral, em 1965, não foram eleitos os candidatos dos militares em Minas Gerais e Guanabara. Baixaram o AI-2 (Ato Institucional Número Dois). Partidos políticos foram extintos. Poder Judiciário sofreu intervenção. Foram reabertos processos de cassação. Carlos Lacerda, então aliado, dormiu conspirador e acordou subversivo.

O novo partido da situação, Arena, não engrenava. Iria ser derrotado nos Estados mais populosos. A paciência dos militares se esgotou: o AI-3 foi baixado em 1966, determinando que eleição de governadores seria indireta, executada por colégios eleitorais, e prefeitos das capitais, estâncias e cidades de segurança nacional seriam nomeados.

O AI-4, de 1966, revogou definitivamente a Constituição de 1946 e proclamou outra. O AI-5, de 1968, suspendeu as garantias constitucionais da Constituição que tinham acabado de promulgar. Despachos da presidência de República passaram a valer mais que leis. Congresso, Assembleias Legislativas e Câmeras dos Vereadores foram fechados por um ano. O Presidente podia decretar intervenção de Estados e Municípios. Estavam proibidas atividades e manifestação de natureza política e suspenso o direito de habeas corpus.

Finalmente, parte da sociedade civil que apoiou o Golpe percebeu que militares não sabiam negociar nem ser contrariados. Não têm intimidades com jogo político. Na essência, não praticam a democracia: obedecem sem questionar um comando, uma hierarquia imposta de cima para baixo.

Foram acusados de comunistas os subversivos dom Elder Câmara, dom Pedro Casaldáliga e dom Paulo Evaristo Arns, que se encontrara em 1964 em Três Rios com tropas do general Olimpio Mourão Filho, deflagrador do Golpe, para oferecer assistência religiosa.

Nos tempos da ditadura, não se discutiam os grandes investimentos. Militares construíram uma usina nuclear com tecnologia obsoleta, numa região de difícil evacuação, e duas estradas paralelas ao Rio Amazonas, a Transamazônica e a Perimetral Norte, que foram tomadas pela floresta anos depois, devastando nações indígenas. Estatizaram companhias telefônicas e de energia. Colaboraram para o desmantelamento da malha ferroviária brasileira.

Editores de livros, como Ênio da Silveira, foram presos. Jornalistas, como toda a redação do Pasquim, entre eles, Paulo Francis, foram presos. Até um escritor no início simpático ao Golpe, como Rubem Fonseca, foi censurado. Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos e expulsos do Brasil. Raul Seixas foi convidado a se retirar, depois de ironizar o regime com “sou a mosca que pousou na sua sopa”. Chico Buarque se exilou. Teatros foram depredados, atores espancados. Parte da classe teatral, como Zé Celso e Boal, foi embora. Glauber Rocha também se mandou.

O contrabando e o jogo do bicho se associaram a agentes da repressão e se fortaleceram. O crime organizado nasceu. A promiscuidade entre polícia e bandido, tema do filme Lúcio Flávio (Babenco), se consolidou na ditadura, que promoveu e anistiou depois torturadores. O Comando Vermelho surgiu num presídio da ditadura.

Ao terminar em março de 1985, a ditadura deixou uma inflação que virou hiper (a acumulada de 1984 foi de 223,90%), uma moeda desvalorizada (um dólar valia 4.160 cruzeiros), uma dívida externa que nos levou à moratória (FMI suspendeu em fevereiro de 1985 o crédito ao Brasil, que não cumpria as metas depois de sete tentativas). Outra herança: desmantelamento do ensino público.

O Brasil é governado há 20 anos por três subversivos acusados de comunistas pela ditadura: FHC, ex-professor da USP cassado e exilado, Lula, sindicalista cassado e preso, e Dilma, terrorista acusada de liderar uma organização clandestina que praticava a luta armada. Líderes do antigo PCB fundaram o PPS. Todos estão na legalidade e participam da vida democrática, como o PCB e seu racha, o PCdoB, parte da base aliada.

O Brasil talvez tenha sido vítima de uma das maiores farsas da História: nunca correu o risco de virar comunista.

Marcelo Rubens Paiva
No SQN
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Globonews reprisa "A arte da fraude"

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Realidade

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Apologia ao crime versus liberdade de comunicação

Diante da apologia feita pela âncora do telejornal SBT Brasil de “justiceiros” vingadores que espancaram, despiram e acorrentaram pelo pescoço um suspeito adolescente, de 15 anos, a um poste no Flamengo, no Rio de Janeiro (ver aqui), permito-me relembrar artigo que publiquei no Observatório da Imprensa em dezembro de 2008, “A liberdade de comunicação não é absoluta”.

Logo após o desfecho do “sequestro de Santo André”, o Ministério Público Federal (MPF), por intermédio da procuradora Regional dos Direitos do Cidadão, Adriana da Silva Fernandes, ajuizou contra a Rede TV! uma Ação Civil Pública (ACP) na Vara Cível da 1ª Subseção Judiciária de São Paulo, em função de sua cobertura "jornalística" dos fatos.

Ao justificar sua competência para tratar do caso, o MPF lembrou que a RedeTV! é concessionária de um serviço público federal e que faz parte de suas funções constitucionais "a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis". Além disso, a lei complementar que dispõe sobre as atribuições do MP lhe atribui expressamente "zelar pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos da União e dos serviços de relevância pública e dos meios de comunicação social aos princípios, garantias, condições, direitos, deveres e vedações previstos na Constituição Federal e na lei, relativos à comunicação social".

De outro lado, quando apresentou as razões de direito, foram reafirmados princípios normativos recorrentemente questionados pelos representantes do sistema privado de radiodifusão, tais como os limites da liberdade de imprensa; o caráter de serviço público das concessionárias e sua consequente subordinação ao direito público; e a necessidade de “controle quando (a concessionária) incorrer em abuso”, no interesse da sociedade.

Diante das semelhanças com a situação que envolve a jornalista do SBT, vale a longa citação:

"A Constituição Federal garante plenamente a liberdade de expressão e de manifestação do pensamento, de criação, de expressão e de informação, vedando qualquer censura de natureza política, ideológica ou artística (art. 220, caput e § 2º). No entanto a liberdade de comunicação social não é absoluta, devendo estar em compasso com outros direitos inseridos na Constituição Federal, dentre eles o direito à privacidade, à imagem e à intimidade dos indivíduos (art. 220, § 1º; e art. 5º, X), bem como os valores éticos e sociais da pessoa e da família (art. 221, IV). Ademais, o art. 53 da Lei nº 4.117/62 declara que constitui abuso, no exercício da liberdade de radiodifusão, o emprego desse meio de comunicação para a prática de crime ou contravenção previstos na legislação em vigor no país, inclusive para incitar a desobediência às leis ou decisões judiciárias; comprometer as relações internacionais do país; ofender a moral familiar, pública, ou os bons costumes; colaborar na prática de rebeldia desordens ou manifestações proibidas.

É importante dizer que, ao contrário do que pensa o senso comum, a Ré não é "proprietária" do canal em que opera. É, na verdade, uma concessionária do serviço público federal de radiodifusão de sons e imagens, e, como tal, está sujeita às normas de direito público que regulam esse setor da ordem social.

Justifica-se o regime jurídico de direito público porque, diversamente do que acontece nas mídias escritas, as emissoras de rádio e TV operam um bem público escasso: o espectro de ondas eletromagnéticas por onde se propagam os sons e as imagens. Trata-se de um bem público de interesse de todos os brasileiros, pois somente por intermédio da televisão e do rádio é possível a plena circulação de ideias no país. A liberdade de comunicação deverá ser protegida sempre que cumprir sua função social, mas será submetida a controle quando incorrer em abuso. Referida liberdade é uma garantia instituída pela sociedade e para a sociedade, não se podendo admitir, portanto, que seja utilizada contra esta".

O comportamento da âncora do SBT Brasil, infelizmente, não constitui uma exceção no jornalismo que tem sido praticado na radiodifusão brasileira. Exatamente por isso e pelo rotineiro recurso das concessionárias desse serviço público ao argumento da “liberdade de expressão absoluta”, vale relembrar o caso da RedeTV!

Com a palavra, o Ministério Público.

Venício A. de Lima, jornalista e sociólogo, professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG e autor de Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012, entre outros livros
No Teoria e Debate
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Rusia: EE.UU. viola sus propias leyes al prestar ayuda a Ucrania

EE.UU. tiene prohibido proporcionar ayuda financiera a
cualquier país que sufre un golpe militar según la
legislación de ayuda exterior de 1961.
La Cancillería rusa sostiene que según las enmiendas aprobadas a la ley de 1961 sobre la prestación de ayuda exterior, EE.UU. tiene prohibido proporcionar asistencia financiera al Gobierno de cualquier Estado cuyo presidente legalmente electo haya sido derrocado por golpe militar o decisión ilegal.

El ministerio de Relaciones Exteriores de Rusia sostuvo que la ayuda financiera que ofrece Estados Unidos a los extremistas en Ucrania se sale de su marco legal.

"De acuerdo con las enmiendas aprobadas hace unos años a la ley de 1961 sobre la prestación de ayuda exterior, [las autoridades estadounidenses] tienen prohibido proporcionar asistencia financiera al Gobierno de cualquier Estado cuyo presidente legalmente electo haya sido derrocado en un golpe militar o mediante una decisión ilegal", comenta el Ministerio de Relaciones Exteriores de Rusia.

De acuerdo a los criterios, la financiación del régimen ilegítimo que tomó el poder por la fuerza es ilegal. por tanto, Rusia considera que, dada la posición actual de Washington, Estados Unidos no reconoce la ilegalidad de tal medida.

Además, señalan que la administración estadounidense pretende ignorar cómo en Kiev las fuerzas ultranacionalistas han desplegado una caza de disidentes y presionan a la población rusohablante "amenazan a los habitantes de Crimea por su deseo de autodeterminación".

El canciller ruso, Serguéi Lavrov, y el secretario de Estado de Estados Unidos, John Kerry, sostuvieron una conversación telefónica el martes para garantizar la paz civil y la concordia en Ucrania, y en la que acordaron continuar las consultas sobre la situación en el país.

El Gobierno legítimo de Yanukóvich fue derrocado por la fuerza por los grupos radicales más extremistas. "Eso significa que EE.UU. no puede prestar ayuda financiera a Ucrania, según su legislación, pero lo hace", denuncia el analista Jeffrey Steinberg.

En opinión del analista, "el presidente Yanukóvich tiene un derecho legítimo a hacer preguntas al respecto" y llevar el asunto al Congreso, al Senado y al Tribunal Supremo de Estados Unidos.

Steinberg llamó la atención sobre la política de dobles estándares en las acciones de Washington.  "Estados Unidos recurrió a esta ley cuando fue derrocado el presidente Mohamed Mursi en Egipto. Entonces el Gobierno de Obama y el Congreso debatieron calurosamente sobre si debía ser calificado de 'golpe de Estado'".

No teleSUR
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A cobertura marota da Folha sobre o mensalão tucano e a lista de Furnas

Eu não sei se o PT está ou não promovendo a ofensiva de que fala a Folha na reportagem acima. Tenho comigo que trata-se de uma justificativa para a cobertura pífia que, historicamente, o jornal fez do mensalão tucano, também chamado de “mensalão mineiro”.

O certo é que fica parecendo, ao leitor desavisado, que o presidenciável Aécio Neves não tem relação alguma com o mensalão tucano e que é vítima de uma campanha difamatória do PT, de mero oportunismo dos petistas em plena campanha eleitoral.

Esta possibilidade estaria descartada se a Folha tivesse dedicado ao mensalão tucano o mesmo espaço que o Viomundo, por exemplo, dedicou.

Se isso tivesse acontecido, as relações entre Aécio Neves e o mensalão tucano estariam absolutamente claras para os leitores.

Na reportagem, a Folha esmiuça supostas acusações do PT a Aécio e abre espaço para que o tucano se defenda. Especulo que pode se tratar de uma “vacina”, ou seja, de uma antecipação da defesa de Aécio diante de argumentos que serão usados na campanha.

A Folha menciona um suposto “exército na internet”, que seria o encarregado de ajudar o partido governista a colar Aécio no mensalão tucano, mas não entra em detalhes. Estaria preparando o terreno para alguma ação aecista?

O trecho que me chamou a atenção foi o seguinte:


É importante lembrar que existem dois episódios distintos e ainda não plenamente esclarecidos em Minas, referentes às campanhas tucanas: de 1998 (reeleição de Eduardo Azeredo e FHC)  e 2002 (com Aécio concorrendo ao governo do Estado e José Serra ao Planalto).

A Folha não trata do segundo, embora alguns personagens importantes se repitam.

1998 = mensalão mineiro

2002 = lista de Furnas

Quanto a 1998, a Folha sugere que Eduardo Azeredo e Aécio Neves pertenciam a grupos políticos distintos.

Talvez venha a dizer, eventualmente, que os dois nem se conheciam.

O fato é que o mensalão tucano buscava beneficiar políticos do PSDB e de partidos aliados ao PSDB! Aécio era um deles.

Quanto a 2002, as perícias atestaram que a lista de Furnas não foi uma montagem e que a assinatura de Dimas Toledo (então diretor de Furnas) não foi falsificada.

Porém, é óbvio que os peritos não tinham condições de atestar se aquele conteúdo representava algo real ou era ficção.

Algumas informações que a Folha sonegou a seus leitores:

1. O lobista Nilton Monteiro era homem dos bastidores do tucanato. Era o intermediário. A quem ele servia? Se a prisão dele não tem relação com a falsificação da lista do mensalão tucano, nem da lista de Furnas, por que noticiar que ele está preso por falsificação sem ouví-lo, como fizemos nós do Viomundo, que temos muito menos recursos que a Folha? Por que acreditar em Roberto Jefferson mas não em Nilton Monteiro? Do jeito que a Folha noticiou, fica parecendo que Monteiro caiu de paraquedas para ganhar algum.

2. A prisão de Nilton Monteiro não foi um caso isolado. Houve busca e apreensão na casa do advogado Dino Miraglia, que representou a família de Cristiana Aparecida Ferreira. A família sustenta que o assassinato dela tem relação com o papel desempenhado por Cristiana no mensalão tucano, o de transportar dinheiro vivo. Houve a prisão do jornalista Marco Aurélio Carone, a intervenção no site que ele dirigia e busca e apreensão na casa de um segundo jornalista que trabalhou com Carone, Geraldo Elísio Machado Lopes. Por que a Folha não cobriu o caso se, como dizem os tucanos, ele demonstra claramente a existência de uma quadrilha que tinha o objetivo de difamá-los? Por que a Folha não ouviu Carone, Miraglia e Geraldo Elísio, além de Monteiro?

3. A procuradora Andréa Bayão Pereira, do Rio de Janeiro, investigou a lista de Furnas. Ela ouviu Nilton Monteiro e executivos de empresas que teriam colaborado com a caixinha tucana. A procuradora confirmou vários aspectos da lista. Por exemplo, o deputado Roberto Jeferson confirma que recebeu os 75 mil reais atribuídos a ele na lista. Jeferson serve para denunciar o mensalão petista mas não para reforçar a credibilidade da lista? A procuradora chegou a oferecer denúncia contra Dimas Toledo, o diretor de Furnas acusado de organizar o esquema. Segundo a lista, R$ 5,5 milhões abasteceram a campanha de Aécio a governador, em 2002. Por que a Folha não tratou dos dois casos — mensalão tucano e lista de Furnas —, se ambos foram parar na Justiça e ambos repetem personagens?

4. As denúncias são sustentadas por duas das mais importantes lideranças da oposição em Minas. Os deputados Sávio Souza Cruz (PMDB) e Rogério Correia (PT). Pode se atribuir a eles motivação política — óbvia, nestes casos —, mas não se trata de dois irresponsáveis. Pelo jeito que a Folha noticiou, fica parecendo que um deles, Rogério Correia, caiu de paraquedas em Brasília, quando vem denunciando o caso faz muitos anos.

Estranho, muito estranho tudo isso. Parece uma coreografia do qual só a campanha de Aécio e a própria Folha sabem os próximos passos.

Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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Estudo técnico denuncia “atentado” do governo do PSDB ao Cantareira

Ao contrário do que a mídia e a oposição fazem em relação aos reservatórios das hidrelétricas, a equipe deste blog não torce para que falte água em São Paulo. Mas, também ao contrário do que fazem a mídia e a oposição, a equipe deste blog não tenta esconder e manipular a realidade.

Vejam, a imprensa faz alarde com qualquer redução dos reservatórios das hidrelétricas no país, pregando e torcendo pelo racionamento de energia. Faz editorial atrás de editorial atacando o governo federal por causa de um risco que o governo já esclareceu ser inexistente.

Mas quando é com os amigos tucanos, a mídia é outra. No máximo publica a notícia bem escondida. É o que fazem a Folha e o Estadão de hoje.

Ontem, o Consório PCJ, que reúne prefeituras, empresas e entidades de mais de 40 cidades, denunciaram “equívocos de planejamento e ações” no sistema Cantareira feito pela Sabesp, comandada pelos tucanos há 20 anos. A informação está num estudo técnico divulgado pelo grupo.

O Cantareira abastece diretamente quase 9 milhões de pessoas na Grande São Paulo e outros 5,5 milhões no interior.

O Consórcio PCJ diz que a Sabesp optou por não reduzir a dependência do Cantareira e de atentar contra a vida útil do sistema.

“Infelizmente, cometeu-se um erro histórico de planejamento e optou-se pela segunda grande alternativa apontada pelos estudos, que foi a construção do sistema Cantareira”, afirma o consórcio.

O grupo diz que a estatal paulista continuou tirando água do sistema no mesmo ritmo mesmo sabendo do risco para a vida útil do Cantareira, em dezembro, janeiro e fevereiro, levando os reservatórios a níveis “altamente críticos”.

O nível de armazenamento do Cantareira está em 16%, um dos menores da história. O consórcio acrescenta que há uma “falsa impressão” de que a região está “protegida e que possui um sistema interligado que garante seu abastecimento”.

Está aí, portanto, uma grave denúncia de um estudo técnico feito por dezenas de cidades. E a notícia é dada com discrição pelos jornais. O Estadão até que deu chamada no pé da primeira página, mas, como fez a Folha, não cita o PSDB nenhuma vez. Parece que a Sabesp, como já dissemos aqui, não tem comando, não é submetida ao governo estadual.

No Blog do Zé
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O maior problema de Eduardo Campos não é Marina Silva. É ele mesmo

Campos com Bornhausen: “renovação”
Eduardo Campos tem dois problemas. Um deles é Marina Silva. O outro, mais complicado, é ele mesmo.

Em Nazaré da Mata (PE), o governador de Pernambuco e virtual presidenciável disse que “não dá mais para ter quatro anos de Dilma. O Brasil não aguenta e o povo brasileiro sabe disso”. Afirmou também, referindo-se a Dilma, que “quem acha que sabe tudo não sabe de nada”.

Numa maratona de encontros em São Paulo, alguns deles ladeado por Marina, voltou à carga. “O arranjo político de Brasília já deu o que tinha que dar”, declarou. Dilma é “autoritária”, “foge do debate”, é “avessa ao diálogo”, vendeu uma imagem de gerente competente “que não se confirmou”, não fez a “faxina ética” que prometeu e “se acomodou” com os escândalos de corrupção” de seu governo. “Há uma crise de expectativa, uma crise política, uma crise econômica”, decretou.

Campos está em campanha e é, até certo ponto, natural ter subido o tom. Não decola nas pesquisas, não acontece, não nada.

Seu novo aliado é Jorge Bornhausen, ex-governador biônico de Santa Catarina, ex-senador e presidente do PFL. Hoje sem cargo, Bornhausen foi fundamental na criação do PSD de Kassab e deu uma mão a Marconi Perillo e Demóstenes Torres até o escândalo do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Seu filho, Paulo Borhausen, filiou-se ao PSB, que de socialista tem o nome.

Mas a grande questão de Campos passa pelas ideias. Onde elas estão? O que ele propõe, enfim?

Silêncio.

A tática de bater é um complemento à esterilidade que ele apresenta em sua conta nas redes sociais — um apanhado de lugares comuns, como “nossa vocação é pensar grande, é trabalhar para que os grandes sonhos e projetos do povo brasileiro virem realidade. É nisso que acredito”; “Só uma economia forte e pujante na sua sustentabilidade pode trazer um futuro melhor para os brasileiros”; “O Brasil precisa de um governo que jogue limpo, que trabalhe duro para defender nossa economia, que é a base da nossa soberania nacional”; “O IBGE divulgou hoje o medíocre PIB de 2013”. E blablablá.

Essa é a “nova política” de Eduardo Campos? No que a histeria ajuda agora? O que ele fez em Pernambuco de tão notável que o credencia a dar aulas? O estado está em 19ª posição no Atlas de Desenvolvimento Humano, aliás. Um empresário paulista que se mudou para o Recife teve dificuldades de registrar a empregada porque ninguém — ninguém — faz isso por lá.

É de uma miopia abissal. Ao invés de Bornhausen, Campos podia ser apresentado a gente como, por exemplo, Mujica ou o papa Francisco, dois reformadores e renovadores políticos. Um excelente template. Ou a alguém à direita com um conjunto de propostas. Qualquer coisa. O que o Brasil não aguenta — como ele diz — é o mais do mesmo que ele representa.

Kiko Nogueira
No DCM
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