16 de fev de 2014

O que o brasileiro médio sabe da América Latina?

A elite brasileira há muito tempo tem parte nessa nossa ignorância sobre a vizinhança. A escola e a imprensa também tem sua responsabilidade por isso.

No ofício de professor universitário e ligado a um programa de pós-graduação sobre Integração da América Latina sempre que posso recomendo à garotada de graduação que assim que tiverem tempo e algum dinheiro metam uma mochila nas costas e saiam pelo nosso continente.

Nunca vi nenhuma pesquisa sobre o que e o quanto de América Latina o brasileiro médio sabe. Mas posso apostar que é muito pouco. Provavelmente menos até do que nossos vizinhos conhecem sobre o nosso país. E de maneira ainda mais superficial. E isso é sim um problema. Num mundo globalizado e dividido em grandes blocos como hoje, nada mais estratégico do que a aproximação com as nações com as quais um país tem identidades históricas, geográficas, culturais e econômicas.

Suponho que os séculos em que América hispânica e a América lusitana estiveram mutuamente de costas uma para a outra colaboraram para nossa ignorância sobre o que se passa aqui pertinho da gente.

Aliás o próprio termo América Latina é invenção forânea, europeia. Coisa de franceses, no início do século XIX. Dizem que Napoleão III desejava assenhorar-se desta parte do mundo recém-liberto do jugo espanhol e português. Queria impedir que a Inglaterra, anglo-saxônica, o fizesse. Daí o recurso napoleônico à nossa latinidade em comum, entre nossos jovens países desta parte do mundo com a França.

Mas bote-se aspas nesse “em comum”, já que naquela altura do campeonato por essas bandas talvez só a pequena elite branca descendente de espanhóis e portugueses tivesse alguma identidade cultural e linguística com a nobreza europeia. De resto, éramos nações predominantemente indígenas, negras ou mestiças.

A França, a bem da verdade, chegou até a emplacar um governo no México já independente. Botou no poder Maximiliano de Habsburgo, um nobre austríaco, que governou aquele país entre 1864 e 1867, mas que acabou deposto e assassinado por nacionalistas mexicanos. Foi um projeto frustrado, e quem na verdade conseguiu levar a América Latina para sua área de influência foi a Inglaterra, e, mais tarde, os EUA.

A elite brasileira, portanto, há muito tempo tem parte nessa nossa ignorância sobre a vizinhança. Mas para além de séculos de História olhando pro Atlântico e de costas para a América Latina, nossa escola e nossa imprensa também têm suas parcelas no desconhecimento quase completo que o brasileiro médio tem sobre nossos vizinhos. É pouquíssimo o que se ensina sobre América Latina para nossas crianças e adolescentes. Provavelmente o assunto mais abordado seja a Guerra do Paraguai, sempre naquela versão oficial de que Solano Lopez era um terrível ditador que pôs em risco a soberania de três jovens nações democráticas como Argentina, Brasil e Uruguai.

Heróis de esquerda ou de direita da libertação da América Latina, como San Martin, Sucre, Hidalgo, Artigas, O´Higgins ou Simón Bolívar, provavelmente jamais foram citados na maioria das nossas escolas. Bolívar, aliás, que mais do que um brilhante militar foi um pensador com sólida formação intelectual, passa inclusive em brancas nuvens em muitos cursos de Ciência Política das universidades brasileiras, os mesmos nos quais Jay, Madison e Hamilton, pais fundadores dos EUA, são leitura obrigatória.

E a imprensa? Quantos correspondentes do jornalismo pátrio temos na América Latina? Muito poucos. Dizem que no passado foram até mais, não sei. Quais os temas historicamente recorrentes nas nossas tevês, revistas e jornais sobre nossos vizinhos? Copa Libertadores da América de futebol, crise econômica argentina, o regime cubano, o comércio popular na fronteira paraguaia, o tráfico de drogas, a Copa do Mundo de 1970 no México... e vamos parando por aí. O brasileiro médio conhece quais personagens latino-americanos? Maradona, Fidel Castro, Hugo Chávez e o Cháves, do SBT. E tirando este último, provavelmente odeia os outros três.

Fato é que não sabemos quase nada da região do mundo na qual estamos inseridos. Nossa elite branca e endinheirada sempre olhou para a Europa (primeiro Lisboa, depois Paris e Londres), e de algumas décadas pra cá tem Nova York e Miami como parâmetros. Não que as elites argentina, venezuelana ou mexicana, ou qualquer outra, sejam muito diferentes. Mas enfim, nossa elite tem como modelo os países ricos, e nutre ódio mortal por Cuba e seu regime socialista.

Detesta também governos de esquerda mais recentes da região, como nos casos de Venezuela e Argentina. Os termos venezuelização e argentinização, cada vez mais usados em nosso país, que o digam. Nossa elite talvez até nutra alguma simpatia pelo uruguaio Mujica, que apesar de esquerdista tem sua agenda liberal de governo, calcada em direitos civis como união homoafetiva e legalização da maconha. E nossa elite não tem formação e informação suficientes para compreender outros governos de esquerda do continente, como a Bolívia ou o Equador. Na dúvida, porém, dá-lhe adjetivos como populistas e caudilhos a quaisquer governantes nacionalistas que surjam na vizinhança.

Para a grande maioria de nós, brasileiros, seja nossa elite, seja o cidadão médio influenciado por ela, países como a Bolívia e o Peru são no máximo destinos turísticos exóticos. Colômbia e Venezuela, para além dos estereótipos propagados na imprensa, seriam apenas rota de passagem nas viagens aos EUA. O Equador e os países da América Central são tão conhecidos entre nós quanto a Tailândia, Moçambique ou a Bulgária. E o que dizer de Guiana e Suriname, que a rigor não são latino-americanos culturalmente falando, mas que se proclamam cada vez mais sul-americanos? Bem, para o brasileiro médio talvez a Guiana e o Suriname sejam tão familiares quanto Netuno e Plutão. É uma pena!

Wagner Iglecias, doutor em Sociologia e professor do Curso de Graduação em Gestão de Políticas Públicas e do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP.
No Blog do Júlio Garcia
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A temível frota K

Sucessão de falhas nos trens reformados com contratos superfaturados provoca caos no metrô de São Paulo. Poucas vezes foi possível comprovar uma relação tão direta entre o desvio de recursos públicos e os prejuízos causados às pessoas

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Na quarta-feira 12, o Centro de Controle Operacional do Metrô de São Paulo registrou uma falha no sistema de fechamento de portas de um trem que saía da estação Bresser-Mooca e tinha como destino a estação Corinthians-Itaquera, ambas integrantes da Linha-3 Vermelha. O problema impediu que o veículo seguisse viagem com as portas fechadas, colocando em risco a segurança dos passageiros. No mesmo dia — e no mesmo trajeto — houve um defeito no sistema de tração e o trem passou a operar no modo manual, em que o limite de velocidade permitido é de 30 quilômetros por hora. As duas falhas fizeram com que na estação Tatuapé o trem fosse evacuado. A paralisação, que ocorreu por volta das 18 horas, durou 30 minutos, impediu a passagem de outras composições e gerou atrasos na rede inteira. O trem que apresentou problema é conhecido como K-07, o mesmo que descarrilou em agosto do ano passado. “O Metrô quer acobertar essas situações, mas o K-07 é o único trem que opera com um supervisor de maquinista”, diz um funcionário do Metrô paulista que não quis se identificar. “Isso é um absurdo. É como se eles reconhecessem os perigos que o K-07 oferece às pessoas.”

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O K-07 é um dos dez trens que integram a chamada frota K, que está no centro do caso de corrupção na área de transportes sobre trilhos paulista nas gestões de José Serra e Geraldo Alckmin. Como IstoÉ revelou há dois anos, o Ministério Público investiga irregularidades nas reformas das composições da frota K. Ao contrário do argumento do Metrô de que os reparos seriam vantajosos por razões econômicas, constatou-se que os veículos foram renovados a preços mais altos do que o de um trem novo em folha. A modernização de 98 trens — incluindo os da frota K — das Linhas Azul e Vermelha foi orçada em R$ 1,6 bilhão. A conta final, porém, chegou a R$ 2,5 bilhões, o que representa um rombo de R$ 857 milhões aos cofres públicos. De acordo com a apuração do Ministério Público de São Paulo, dos 98 trens que precisavam ser reformados, somente 46 foram entregues. Hoje, restam 52 composições sem reforma, mas que permanecem em circulação.

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As falhas da frota K são o retrato pronto e acabado de como a corrupção é nefasta. Poucas vezes foi possível comprovar uma relação tão direta entre a malversação dos recursos públicos e os prejuízos causados às pessoas. Agora, dois dossiês obtidos com exclusividade por IstoÉ junto ao Sindicato dos Metroviários revelam que, além de colocar em risco a vida de operadores e usuários, o lote de trens reformados pelo consórcio liderado pela Alston e investigado pelo Ministério Público causa um prejuízo anual de R$ 168 milhões ao governo de São Paulo. De acordo com o Sindicato dos Metroviários, os trens da temível frota K são obrigados a parar para fazer manutenção com frequência maior do que outras linhas, graças às recorrentes falhas. Isso gera danos aos usuários e perdas ao Erário. O último dossiê produzido pelo Sindicato dos Metroviários, entre outubro e novembro do ano passado, registrou 696 problemas somente nesse período em sete trens que haviam sido reformados. Desses, mais de 300 falhas ocorreram no trem K-07.

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O caso mais grave foi a pane que paralisou os trens da Linha-3 Vermelha no dia 4 de fevereiro. De acordo com um relatório produzido pela Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa), foram levantadas dez anormalidades técnicas nas composições, o que contraria a afirmação do secretário de Transportes Metropolitanos de São Paulo, Jurandir Fernandes, de que o tumulto teria sido causado por “grupos organizados” (ver quadro). “Os seguranças do Metrô relataram na reunião extraordinária que não viram ninguém com o rosto coberto ou pessoas envolvidas em atos de vandalismo que pudessem caracterizar grupos organizados”, disse à IstoÉ um condutor da Linha Vermelha. Os perigos são imensos diante da quantidade de usuários da Linha 3 do Metrô. São aproximadamente 629 mil passageiros por dia. Para atender à forte demanda, os trens são colocados em circulação mesmo apresentando falhas graves. “Provar a eficiência dos trens se torna uma prioridade em detrimento da segurança das pessoas”, diz um funcionário do Metrô. O mesmo operador diz que os maquinistas foram impedidos de ter acesso aos softwares que registram as falhas técnicas. “É inadmissível uma sequência de falhas como as que foram vistas em um metrô moderno como o de São Paulo, que transporta milhões de usuários”, afirma Cláudio Weber Abramo, diretor-executivo da ONG Transparência Brasil.

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Procurado por IstoÉ, o Metrô informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que “todos os sistemas de metrô do mundo estão sujeitos a falhas e elas são proporcionais ao número de viagens realizadas, à quilometragem percorrida e à quantidade de passageiros”. A assessoria informou ainda que “os trens da frota K passam pelo mesmo processo de manutenção preventiva das demais frotas novas ou modernizadas. Essas frotas, que recentemente iniciaram sua operação, necessitam de um período de ajustes até que comecem a apresentar seu melhor desempenho”. O problema é que parte da frota K circula desde 2011.  

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Fotos: Hélvio Romero/AE - Eduardo Anizelli/Folhapress
Fabíola Perez
No IstoÉ

A publicidade enganosa do governo do tucano Alckmin:

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Gilmar Mendes não sabe o que diz ou não diz o que sabe


Insinuações e ironias de ministro do STF não tem apoio nos autos da AP 470

O esforço de Gilmar Mendes para tentar desmoralizar a campanha de solidariedade de tantos brasileiros aos condenados da AP 470 ajuda a entender o caráter precário do foi chamado de "maior julgamento da história."

Ao sugerir que o senador Eduardo Suplicy liderasse uma campanha para ressarcir "pelo menos parte dos R$ 100 milhões subtraídos dos cofres públicos" no caso do mensalão" Gilmar Mendes assume uma postura espantosa para um ministro do STF.

Faz afirmações que não pode provar, insinua o que não consegue demonstrar.

A atitude de Gilmar é política.

As doações, em escala que surpreendeu os próprios condenados, mostram o repúdio de um número crescente de brasileiros diante dos abusos do julgamento.

Veja só: um ex-ministro do Supremo, como Nelson Jobim — um dos responsáveis pela indicação do próprio Gilmar ao STF —, deu um cheque de R$ 10 000 para Genoíno. Celso Bandeira de Mello, jurista de folha irretocável, que patrocinou a presença de Ayres Britto na Corte, deu dinheiro para Genoíno e já disse que vai contribuir para José Dirceu.

Ao lado de militantes e de cidadãos comuns, a presença de respeitáveis homens de Direito na campanha pelas doações mostra até onde vai a crítica a AP 470.

Não é para menos.

A ideia de que houve desvio de recursos públicos é desmentida pelo processo.

A noção que eles chegam a R$ 100 milhões não tem base real alguma. É apenas um novo chute.

Quando o julgamento começou, os ministros falavam num desvio de R$ 115 milhões. Recuaram sem maiores explicações para uma estimativa de R$ 73,8 com base num cálculo desinformado, absurdo mas cômodo. Explico os três adjetivos.

Como esse foi o total de gastos de recursos do Fundo de Incentivo Visanet com a agência DNA naquele período, passou-se a uma crença absurda: de que 100% desse dinheiro foi roubado, não sobrando um único centavozinho honesto para ser gasto com publicidade de verdade. Nenhuma página de jornal, nem um spot de rádio, nem 30 segundos na TV.

É claro que é uma conta de chegar. Era preciso falar em desvio, era preciso dar um número — apontou-se para aquele que estava à mão. Parece absurdo e é. Mas absurdos ganham verossimilhança e circulam como afirmações verdadeiras em sociedades onde nenhuma instituição cumpre seu papel de fiscalizar e conferir o que dizem as autoridades. Este papel, como se sabe, deve ser cumprido pela imprensa. Mas você e eu sabemos muito bem onde os repórteres se encontravam no julgamento, certo?

Numa prova de que são os principais interessados em conferir gastos e e demonstrar o que foi feito, os advogados da defesa acabam de enviar, às 20 maiores empresas de comunicação do país, uma notificação judicial.

Solicitam apenas que elas confirmem – ou desmintam – aqueles recursos que a DNA declara ter enviado a elas.

Em novembro de 2005, os parlamentares da CPMI dos Correios receberam um documento "para uso interno – confidencial" da Visanet.

Os parlamentares perguntaram lá atrás:

" A Visanet é uma empresa pública?

Resposta. "Não. É uma empresa de capital privado."

Essa mesma afirmação foi confirmada por uma auditoria do Banco Brasil, encerrada em dezembro do mesmo ano. Ali se diz, com base no estatuto da Visanet, que seus recursos deveriam ser destinados a ações de incentivo, "não pertencendo os mesmos ao BB investimento nem ao Banco do Brasil."

Se a denúncia de desvio de dinheiro público está errada, como conceito, também se desmente, nos números. As contas batem, com diferenças contábeis que podem ser explicadas por razões técnicas — e que nem de longe chegam aos R$ 100 milhões a que Gilmar Mendes se referiu.

(Quantias nesse volume gigantesco, e até maiores, foram mobilizadas por empresas privadas de telefonia que eram clientes das agencias de Marcos Valério. Nenhuma delas, por sinal, foi chamada a prestar contas no julgamento. Nenhuma. Foi assim que se pretendia " punir os poderosos", entendeu?)

Por fim, a afirmação de que foram dirigentes do PT que fizeram esses desvios é ainda mais absurda. Não estou falando de Delúbio Soares, por exemplo, que distribuia recursos para o partido e negociava apoio de empresas.

Estou falando de quem tinha acesso ao cofre. Sem ele nada se faz, certo?

Pode-se ler, no laudo 2828, uma questão básica para se entender o papel do PT na denúncia de desvio de recursos — públicos ou privados.

O relator Joaquim Barbosa pergunta a quem "competia fazer o gerenciamento dos recursos" do Fundo Visanet repassados a agencia DNA?

Em bom português, o relator queria saber quem fazia os pagamentos — sem o quê, obviamente, não dá para tirar nem uma nota de 1 real de forma indevida.

O Banco do Brasil responde: quatro diretores eram responsáveis pela gestão do fundo de incentivo entre 2001 e 2005. (Estamos falando dos dois últimos anos do governo FHC, quando a DNA ganhou um bom pedaço da verba publicitária do Banco do Brasil, e dos dois primeiros anos do governo Lula).

Em sua resposta ao relator, o Banco do Brasil faz até um gráfico pequeno, com nomes e datas, para ninguém ficar em dúvida. Até uma criança pode entender: nenhum dirigente indicado pelo PT encontra-se entre eles. Os responsáveis eram todos executivos indicados pelo PSDB. Está lá, numa tabela. Nenhum deles sentou-se no banco dos réus. Repito porque é escandaloso: nenhum. Quem asssinava os cheques ficou de fora. Eram afilhados tucanos.

Cabe a cada um fazer a pergunta que não quer calar: por que o laudo 2828, com uma informação tão preciosa, foi mantido em sigilo no próprio STF, e só foi distribuído para o plenário de ministros DEPOIS que a denúncia da AP 470 já fora aceita?

Minha opinião é a seguinte: temia-se, em 2006, que o debate sobre informações inesperadas e surpreendentes pudessem comprometer a denúncia e estragar o carnaval cívico em torno do STF. Imagine se fosse possível criminalizar o governo Lula — até se falava em impeachment, em 2005 — se a denúncia envolvesse o PSDB, também. Imagine se alguém começasse a perguntar assim: se haviam tucanos no comando do esquema, quem é que colocou essa turma ali?

Política, meu caro. Política.

Foi a mesma atitude de 2011, quando os ministros resolveram levar o julgamento em frente sem conhecer o inquérito 2474, com revelações que contrariavam o final feliz já anunciado e prometido. Veja você: desistiram de ler o inquerito 2474 sem saber o que tinha lá dentro.

Não é de espantar que, agora, se veja uma situação constrangedora e grave de um ministro que faz afirmações que contrariam aquilo que se encontra no processo.

Ou Gilmar Mendes não sabe o que diz. Ou não diz o que sabe.

Você decide o que é mais grave.

Paulo Moreira Lima
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As observações de Wendi Murdoch sobre a bunda de Tony Blair

Murdoch e Wendi

Quais as chances de funcionar um casamento como o de FHC, 82 anos, com Patrícia Kundrát, 36?

Todo casamento é complicado, é verdade. Mas quase meio século de diferença torna as coisas ainda mais difíceis, definitivamente.

Agora mesmo isso pode ser visto nos detalhes que emergem do naufrágio de um casamento parecido, o que uniu o barão da mídia Rupert Murdoch, 82 anos, e a chinesa Wendi Deng, 44.

Os tabloides britânicos estão em polvorosa depois que a revista americana Vanity Fair publicou uma reportagem em que detalha os casos que Wendi manteve no final de seu casamento.

Foi por causa deles que Murdoch se divorciou de Wendi, com quem teve duas filhas.

O caso mais sensacional foi com o ex-premiê Tony Blair, padrinho de uma das filhas de Murdoch e Wendi.

A revista publicou uma anotação à mão que diz ser de Wendi, escrita em “inglês sofrido” e repleta de paixão carnal e espiritual por Tony, 60 anos.

Na nota, Wendi diz sentir terrivelmente falta de Tony. Elogia seu corpo, seus olhos, sua bunda, seu magnetismo no palco e “muito mais, muito mais, muito mais”.

A fazenda de Murdoch em Carmel
A fazenda de Murdoch em Carmel

Blair, casado, negou enfaticamente o romance, quando os boatos de que ele foi o pivô da separação começaram a circular, algum tempo atrás.

Mas sabe-se que Blair é um dos mais competentes e compulsivos mentirosos do mundo moderno. Ao lado de Bush, ele disse que o Iraque tinha armas de poder de destruição de massa, uma mentira que levou a uma guerra que matou meio milhão de iraquianos.

A Vanity Fair conta que eles se encontravam numa fazenda cinematográfica de Murdoch em Carmel, na Califórnia.

Wendi dava um jeito de encontrar seu amor. Num fim de semana, ela disse ao marido que ia promover “um encontro de meninas” na fazenda.

Relatos dos empregados mostram o que de fato aconteceu. Wendi levou uma única amiga, que logo foi embora para que o terreno ficasse livre para Blair.

Blair, nestas ocasiões, estava sempre acompanhado de seguranças pagos pelos contribuintes ingleses.

As visitas furtivas de Blair — e não só dele — acabaram chegando a Murdoch pelos empregados da fazenda.

A Vanity Fair diz que Wendi teve outros casos com homens notórios. Um deles é o principal executivo do Google, Eric Schmidt.

Também sobre Schmidt vazou uma anotação de Wendi. Mas bem menos lisonjeira. Ela o chamou de “muito feio”, e disse que ficava “beeeem feliz” por estar longe dele.

Na última vez que o casal Murdoch foi objeto de artigos na mídia inglesa antes do divórcio, Wendi parecia a esposa perfeita.

Foi no curso dos depoimentos que a Justiça inglesa colheu para discutir uma nova regulação da mídia.

Numa das vezes em que Murdoch depôs, um popular irrompeu na corte para jogar uma torta na sua cara.

Wendi, que estava na plateia, prontamente se atirou contra o agressor, num gesto que comoveu muitas pessoas.

Mas os fatos conhecidos posteriormente mostrariam que já ali, ao defender o marido, ela estava com a cabeça nas pernas, nos olhos e em outras coisas de seu Tony.

No DCM
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Todo cristão é 99,96% ateu

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Shirleys

Houve uma época em que os pais davam o nome de Shirley às filhas na esperança de que fossem adoráveis como a Shirley do cinema. E o mundo se encheu de Shirleys. Poucas corresponderam ao que, implicitamente, se esperava delas. As outras só foram Shirleys no nome. Mas durante um breve instante de suas infâncias todas foram Shirleys autênticas em potencial, projetos de Shirley que só porque a vida é injusta não deram certo.

O que restou da desilusão foi uma geração inteira de Shirleys desperdiçada, como uma plantação frustrada em que nada floresceu. A própria Shirley do cinema só foi a Shirley dos sonhos por um instante fugidio. Depois cresceu, ficou adulta, foi infeliz no amor, virou política e, pior, republicana, e só o que ficou do seu instante de Shirley foram as covinhas.

‘Tonight’

Só falo no assunto porque mexeu com meu vespeiro particular de memórias, pois não tem nenhuma relação com nossa realidade, com o beijo gay ou com os destinos da Nação. Nós estávamos nos Estados Unidos quando começou na TV o programa “Tonight”, o protótipo de todos os talk-shows de fim de noite que existem hoje. Isso há, meu Deus, 60 anos!

O show era feito em Nova York e o Jô Soares deles, na época, era o Steve Allen, que tocava piano, gostava de jazz, era um bom entrevistador e, com o seu “cool”, como dizem os franceses, e seu humor inteligente personificava, pra mim, tudo o que Nova York tinha de mais nova-iorquino.

Os cantores do programa eram o Steve Lawrence e a Eydie Gorme, casados, o Andy Williams e outra cantora cujo nome que não encontro no vespeiro. A segunda fase do “Tonight” foi com o Jack Paar, que provocou uma grande crise quando, em protesto por uma censura que sofreu, abandonou o programa em plena transmissão — mas depois voltou. Em seguida veio o Johnny Carson, que ficou anos, quando o programa já era feito na Califórnia.

E agora chegou a notícia de que Jay Leno, que substituiu Carson, também vai se aposentar. E, mais importante, que o “Tonight” vai voltar para sua origem, Nova York. Infelizmente, não posso voltar para os meus 17 anos. E a gente nunca volta para a mesma Nova York.

Papo Vovô

O pai da nossa neta Lucinda, de 5 anos, é de Yorkshire, e ela só fala inglês com ele. E desenvolveu um vocabulário em inglês surpreendente, que muitas vezes não sabemos de onde vem. No outro dia a mãe dela a viu sentada na privada, pensativa, e perguntou se era xixi ou cocô. E ela: “I’m evaluating.” Ainda não tinha avaliado o que iria fazer.

Luis Fernando Veríssimo
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Dilma escolhe o adversário

Por ora, trata-se de Eduardo Campos. E se Marina Silva entrar no páreo?

Na festa de comemoração, no dia 10, dos 34 anos de vida, o Partido dos Trabalhadores parece ter tomado uma decisão importante quanto ao rumo da batalha presidencial pela reeleição da presidenta Dilma Rousseff. Os petistas indicam que farão do governador de Pernambuco, o presidenciável Eduardo Campos (PSB), o principal adversário nessa etapa inicial da corrida eleitoral.

Despida dos rituais da Presidência, Dilma discursou na festa petista com os recursos de um velho truque de palanque. Mandou chumbo na oposição. Mas entre os oposicionistas havia um alvo preciso, Eduardo Campos, ao qual se dirigiu sem dar o nome. Ela falou genericamente aos “pessimistas” descrentes do Brasil.

“Eles têm a cara de pau de dizer que o ciclo do PT acabou, que o nosso modelo se esgotou”, atacou a candidata. Quem primeiro desfraldou a bandeira foi Eduardo Campos. Ex-aliado e ex-ministro de Ciência e Tecnologia do governo Lula, inscreveu-se com esse prelúdio na lista de presidenciáveis. Na sequência apoiou-se em discursos a respeito de uma “nova política” e outras melodiosas aos ouvidos conservadores.

Fazer de Campos um adversário preferencial não nasce de revanchismo de petistas gerado pela troca de camisa nem é temor do enfrentamento com o tucano Aécio Neves. A razão é outra. Os petistas usam conhecida tática comum em certos momentos do jogo eleitoral. Ela permite ao candidato mais forte escolher o adversário de sua conveniência.

Tudo indica que essa possível opção por Campos tem uma lógica guiada principalmente pelos números das pesquisas. A mais recente, de meados de janeiro, circulou restritamente por não ter sido registrada no Tribunal Superior Eleitoral. Nela há somente uma variação. A pequena queda do tucano de 15% para 13%. O porcentual de Dilma gira em torno dos 43%, onde está empacada. Campos patina em torno de 8%.

O confronto com o socialismo maroto do PSB mantém o nome de Eduardo Campos no noticiário. Dá mais visibilidade e força uma disputa secundária entre ele e Aécio Neves. Caso Marina Silva assuma a posição de vice na chapa do PSB, como é esperado no partido dele, talvez agregue ao porcentual de Campos votos suficientes para superar o candidato tucano.

A situação de “lanterninha”, a despeito de outros candidatos de menor porte eleitoral, pode não ser uma situação definitiva para o tucano. O PSDB tem potencial de votos. Minas Gerais e São Paulo podem ajudar Aécio a retomar a posição de agora. Entre os eleitores mineiros, ele projeta, com convicção, uma maioria absoluta. E Marina, as pesquisas já mostraram, tem intenções de voto bem razoáveis entre os paulistas. A serem confirmados nas urnas, porém.

Esse tripé do Sudeste, formado pelos três maiores colégios eleitorais do País, decidirá a peleja entre os dois principais adversários de Dilma. Nessa etapa também estará sendo definido o curso da eleição.

Haverá segundo turno? Os números de agora indicam que não. Se a maré mudar, Eduardo ou Aécio teriam mais condições de apagar a estrela do PT em 2014?

Maurício Dias
No CartaCapital
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EUA buscaram brecha para derrubar Jango antes de 1964

Documentos da CIA mostram preocupação da inteligência americana com não alinhamento da política externa do governo João Goulart

Revista circulava entre agentes de inteligência
Documentos confidenciais da CIA (agência central de inteligência americana) revelam que o governo americano monitorava os desdobramentos da política brasileira e buscava uma brecha para derrubar o então presidente João Goulart antes do golpe de 1964.

Segundo o texto de 17 de agosto de 1962, divulgado na publicação Current Intelligence Weekly Review, da CIA, "intensas manobras políticas continuam em Brasília enquanto o regime esquerdista de Goulart tenta aumentar seu poder vis-a-vis o Congresso conservador”. O informe dizia ainda que “muitos moderados no meio político e círculos militares desgostam do sistema parlamentar, mas não parecem dispostos a restaurar a presidência por causa das tendências de esquerda do presidente Goulart e do primeiro-ministro Francisco Brochado da Rocha”.

A preocupação com a tendência de esquerda do governo João Goulart era tamanha que autoridades americanas nutriam esperanças de que o então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, conseguisse apoio suficiente para fazer frente a Jango. “(...) governador da Guanabara, Lacerda, que lidera o movimento anticomunista no Brasil, está inclinado a apoiar a restauração de poderes da presidência, exceto em relação aos gabinetes individuais de ministros, que poderiam continuar responsáveis pelo Parlamento."

O texto, que está disponível na biblioteca online da CIA, mostra a atenção da inteligência americana em relação a uma chamada "preocupação inusual" de Jango em relação à economia. “Ao mesmo tempo, Goulart — que tem pouco conhecimento ou interesse em economia — parece estar preocupado com a situação financeira crítica do Brasil”, ressalta o informe antes de avaliar: “o custo de vida, que cresceu 18% no Rio de Janeiro nas primeiras seis semanas de 1962, aumentou mais de 37% no mesmo período em Salvador, capital da Bahia e uma cidade chave para o empobrecido nordeste.”

Não alinhamento

O documento, mantido sob sigilo até maio de 2011, mostra preocupação também em relação a novas “movimentações” em relação à política externa “independente” do governo do presidente deposto pelo golpe militar de 1964.
"O ministro do Comércio Exterior da Alemanha Oriental [Julius] Balkow — o primeiro alto oficial da Alemanha Oriental a visitar o continente americano — recentemente visitou o Brasil em resposta a um convite oficial para a abertura das três semanas de exibição industrial da Alemanha Oriental em São Paulo. A Polônia, no fim de julho, abriu um novo consulado em Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, onde o cunhado de Goulart, Leonel Brizola, é governador.”

Ainda nesse sentido, o relato mostra preocupação em relação ao acordos comerciais do Brasil com a União Soviética, como fica claro no trecho: “O ministro da Aeronáutica brasileiro informou no dia 30 de julho à missão soviética no Brasil que estaria interessado em adquirir um total de três helicópteros. Essa é uma indicação adicional de que o Brasil pode estar indo em direção a uma cooperação com a União Soviética no campo da aviação civil.”

Filho do ex-presidente morto em dezembro de 1976, João Vicente não se recorda de comentários de seu pai a respeito de qualquer monitoramento feito pelos Estados Unidos, mas lembra que o desde 1963 o Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) fornecia material impresso, apoio operacional e dinheiro a candidatos a governador, deputados e senadores anticomunistas e contrários a João Goulart. Através de empresas como Texaco, Esso, Coca-Cola, Bayer e IBM, o dinheiro dos EUA ajudou a eleger ainda mais de 150 deputados na Câmara que fizeram frente ao governo Jango.

“Um ano antes do golpe já se sabia da presença, através da embaixada americana, da circulação de dólares e também da compra de redações de jornal. Entre 1962 e 1964 o Ibad financiou mais de 200 filmetes de propaganda contra o governo João Goulart”, explica João Vicente. “E temos ainda gravações da Casa Branca que mostram o Kennedy, antes mesmo do (Lyndon) Johnson, falando com o (então embaixador norte-americano no Brasil) Lincoln Gordon: ‘Pô, mas estamos acusando o Jango de comunismo, e o Partido Comunista no Brasil é incipiente’. Ao que Johnson responde: ‘Não importa, agora já está montado e ele vai ser acusado da mesma forma’.”

Marsílea Gombata
No CartaCapital
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O novo antigo

Novidade, mesmo, só a que vive a família de Santiago Andrade. No mais, a retumbância provocada pelas circunstâncias chocantes da morte de Santiago, e muito também por ser um profissional do jornalismo, compôs-se assim: uma bagagem de realidades já fartamente conhecidas, mas postas com embalagem de fatos novos. As razões de tal transfiguração podem ser encontradas, segundo a preferência do freguês, tanto no jornalismo atual como nos atuais enfrentamentos políticos. Difícil pode ser a separação das sutis diferenças entre uma coisa e outra. O que não será novidade no jornalismo, na política e muito menos para a cabeça do leitor/espectador/ouvinte.

No depoimento sem o advogado que o deu como recebedor de R$ 150 por manifestação violenta, Caio Silva de Souza negou receber esta ou outra quantia. Sabe de dinheiro para passagens, de quentinhas, outros auxílios operacionais. Fatos, portanto, que textos e imagens noticiaram com abundância durante o acampamento na Cinelândia, a bagunça diante do apartamento de Sérgio Cabral e a invasão da Assembleia Legislativa.

Novidade seria a remunereção de R$ 150. Da qual a família de Caio também nunca teve conhecimento. E não mencionada pelo outro acusado, Fábio Raposo. Nem pelo advogado Jonas Tadeu até a prisão de Caio. Assim como não confirmada pelo delegado Maurício Luciano. Não existe tal remuneração?

Sem resposta. A hipotética novidade, por ora, só figura em afirmação e em desmentido de Caio Souza, e na insistência do advogado Jonas Tadeu em citá-la sem indicar alguma base para tanto. Se for novidade, só o será se quando envolta em elementos mais seguros do que um preso que se contradiz e um advogado que já disse recorrer a inverdades.

Os partidos PSOL e PSTU são os apontados como fomentadores e apoiadores materiais dos atos de violência, acampamentos e invasões. Sérgio Cabral, comentaristas, editoriais e políticos já diziam isso há oito meses, desde as badernas iniciais em vários estados. Os serviços de informação das polícias investigam o grau dessa vinculação há muito tempo. Sem conseguir até agora, que se saiba, mais resultados do que já era notório. Novidade, nenhuma.

Nem sequer a ocorrência da morte em meio à arruaça violenta trai a regra do episódio. Mesmo aqui neste espaço, onde a futurologia não goza de prestígio, a tendência a um episódio fatal foi acentuada como efeito do desatino black bloc e dos choques com a PM. O que aconteceu foi terrível como se deu, quando e com quem se deu, mas não foi surpreendente que se desse. Seguiu a lógica previsível.

Foras

Reinaldo Azevedo, na Folha de sexta-feira, incluiu este trecho: Janio de Freitas "referiu-se a mim — 'um comentarista que já aparecia na rádio...' — porque perguntei a Jonas, na Jovem Pan, se grupos de extrema esquerda financiavam arruaceiros". Admito perder muito, mas não sou ouvinte da Jovem Pan e das ponderações de Reinaldo Azevedo. O comentário por mim citado foi transmitido pela CBN, em torno de 12h20 de quarta-feira, como pode ser comprovado por meio do saite da emissora.

Também não é verdadeiro que "Janio de Freitas especulou sobre a honorabilidade de Jonas Tadeu Nunes, advogado dos assassinos de Santiago, porque já foi defensor de Natalino Guimarães, chefe de milícia". Para quem lê sem má-fé ficou claro que citei Jonas Tadeu como ex-advogado de Natalino Guimarães para uma informação de entrelinha: os advogados de milicianos, e similares, em geral são definidos no meio advocatício, por suas artimanhas, com palavra que não desejei aplicar.

Por mim, Reinaldo Azevedo pode continuar tentando.

Janio de Freitas
No fAlha
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O jogo perigoso da desinformação; O fundo do poço

O jogo perigoso da desinformação

Os três principais jornais de circulação nacional, que ainda definem a agenda institucional no País, fecham a semana com uma proeza digna de figurar na longa lista de trapalhadas da imprensa, cujo troféu mais lustroso é o caso da Escola Base.

Por uma dessas ironias da história, no dia 22 do mês que vem completam-se vinte anos do noticiário que inventou um caso de pedofilia numa escola infantil de São Paulo, e o roteiro se repete perversamente.

A morte do cinegrafista Santiago Andrade, atingido na cabeça por um rojão de alta potência durante manifestação no Rio de Janeiro, tem todos os ingredientes para se tornar uma versão revista e ampliada desse que foi o marco do jornalismo espetaculoso e irresponsável no Brasil.

Os ingredientes para uma grande farsa estão reunidos: os dois jovens que foram identificados como autores do homicídio são compulsoriamente representados por um advogado que ganhou dinheiro com a defesa de milicianos e — colocados no grande liquidificador da mídia —, produzem uma sucessão de declarações que, a rigor, não poderiam ser incluídas num inquérito.

E tudo que dizem — ou alguém diz que disseram — vira manchete.

Nesta sexta-feira(14/2), o alvo do noticiário é uma lista de doadores que contribuíram para a realização de uma festa, no dia 23 de dezembro do ano passado, intitulada "Celebração da Rua - Mais Amor, Menos Capital".

O evento foi realizado na Cinelândia, no centro do Rio, com coleta de doações em benefício de moradores de rua e vítimas das enchentes (ver aqui), juntando militantes de todos os tipos, inclusive professores e ativistas contra a Copa do Mundo.

Os jornais citam vereadores, um delegado de polícia e até um juiz do Tribunal de Justiça, insinuando que eles estavam apoiando o movimento chamado Black Bloc.

Nessa corrente de declarações, suposições e especulações, a imprensa já afirmou que os atos de vandalismo que acompanham a onda de protestos no Rio de Janeiro tem o dedo do deputado Marcelo Freixo, do PSOL; depois, o Globo citou uma investigação que acusa o deputado e ex-governador do Rio Anthony Garotinho, do PR, de incentivar a violência.

Um exemplo desse jornalismo de fancaria: o título publicado no dia 9/2 pelo portal G1, do grupo Globo (ver aqui): "Estagiário de advogado diz que ativista afirmou que homem que acendeu rojão era ligado ao deputado Marcelo Freixo".

O fundo do poço

Nesta sexta-feira, os jornais fazem malabarismos para concentrar a denúncia no PSOL, PSTU e numa organização pouco conhecida chamada Frente Independente Popular.

A citação dessas organizações foi tirada de uma frase do auxiliar de limpeza Caio Silva de Souza, acusado de haver acendido o petardo que matou o cinegrafista.

Segundo os jornais, o jovem disse acreditar que os partidos que levam bandeiras às manifestações são os mesmos que pagam a ativistas que se dedicam a depredações e a enfrentamentos com a polícia.

Nenhuma referência às investigações sobre a participação de militantes ligados a Anthony Garotinho, ainda que tais informações tenham como fonte um inquérito oficial em vez de declarações fora de contexto.

Exatamente como no caso da Escola Base, o julgamento apressado produz desinformação: pinta-se um perfil bipolar dos dois jovens, ora como se fossem perigosos terroristas, ora como se se tratasse de duas criaturas desamparadas que foram aliciadas por forças políticas interessadas em uma espécie de "revolução bolivariana", para usar a expressão irônica da colunista Barbara Gancia, na Folha de S. Paulo (aqui).

Nas duas versões, o enredo vai compondo um painel cujo resultado parece a cada dia mais claro: a demonização da política partidária, com foco muito claro em agremiações de pouca expressão eleitoral, todas coincidentemente alinhadas à esquerda do espectro político.

Pode-se discordar de objetivos e estratégias de partidos, indivíduos e organizações que se consideram artífices de uma revolução, pode-se acusá-los de tentar compensar a falta de correligionários com bumbos e palavras de ordem, mas o jogo torna-se muito perigoso quando a imprensa, hegemonicamente, atua no sentido de criminalizar o direito à manifestação pública de opiniões sobre o que quer que seja.

Nas redes sociais, esse noticiário tendencioso e irresponsável alimenta o extremismo reacionário ao ponto de inspirar chamamentos ao crime.

Se não é o fundo do poço para a imprensa, estamos quase lá.

Luciano Martins Costa
No OI
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Lei antiterrorismo serve principalmente aos EUA

Patrick Mariano: “O filtro será dado por delegados, promotores, juízes e, é claro, pela mídia”

Tramitam no Congresso vários projetos de lei que visam regulamentar atos de terrorismo.

O mais conhecido é do senador Romero Jucá  (PMDB-RR) com contribuições do ex-deputado federal Miro Teixeira (PROS).

“Não podemos começar a Copa, as Olimpíadas, sem a lei regulamentada. A Constituição tem essa lacuna que precisa ser preenchida”, afirmou numa comissão mista do Congresso.”A regulamentação dos atos de terrorismo será votada ainda este ano.”

Foi numa comissão mista do Congresso, realizada foi em 12 de agosto de 2013


Provavelmente essa pressão forte fez a iniciativa refluir e o projeto acabou não sendo votado.

A morte trágica de Santiago Ilídio Andrade, repórter cinematográfico da TV Bandeirantes, fez com que os parlamentares de forma oportunista decidissem levar o projeto a votação.

Está na pauta do plenário e pode ser votado a qualquer momento. Numa decisão de líderes, os senadores nomearam o colega Eunício Oliveira como relator de plenário.

Mas os senadores Eduardo Suplicy (PT-SP) e Randolfe (PSOL) querem que antes o projeto passe por duas comissões. Uma delas é a de Direitos Humanos. Ou seja, há um impasse.

“Não há a menor necessidade de tipificar crime de terrorismo. E uma vez tipificado, você perde totalmente o controle sobre quem será punido”, alerta o advogado Patrick Mariano. “O filtro que será realizado para determinar se tal conduta é terrorismo ou não será dado por delegados, promotores, juízes e, é claro, pela mídia”.

“Essa lei serve principalmente aos interesses norte-americanos, que querem nos impor a adoção das mesmas medidas antiterror que adotaram no pós 11 de setembro”, denuncia Mariano. “Se aprovado esse projeto de lei, o reflexo será menos democracia e mais sufocamento da participação social.”

Patrick Mariano é advogado, mestre em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília (UnB) e integrante da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares – Renap.

Viomundo — É necessário tipificar o crime de terrorismo no Brasil?

Patrick Mariano — Não, em absoluto. O Brasil já dispõe de legislação penal suficiente para tanto.

Terrorismo é um conceito ideológico, uma quimera que serve à política dos EUA para justificar as desumanidades cometidas em Guantánamo e no pós 11 de setembro em todo o mundo.

Por aqui, serviu para justificar atrocidades e tortura nos anos de 1960 e 70, quando os militares davam as regras. Muitos quadros da esquerda brasileira foram torturados e mortos com base nesta justificativa.

– O senador Romero Jucá justifica a necessidade da lei por conta da Copa e das Olimpíadas. O Brasil já não tem leis capazes de enquadrar qualquer eventual ação cometida em sede dos grandes eventos?

— Sem dúvida. Há legislação penal pra dar e vender. Basta lembrar, neste ponto, que a Lei de Segurança Nacional, editada na ditadura militar ainda está em vigor e serve, vez ou outra, para criminalizar movimentos sociais.

— Quem são os pais da ideia no Senado e na Câmara?  No ano passado, eles estavam assanhados… Depois arrefeceram. Mas com o caso do Santiago voltaram a agir.

— Olha, na verdade, os verdadeiros pais são os americanos, que querem nos impor a adoção das mesmas medidas antiterror que adotaram no pós 11 de setembro e a venda de armas.

No Brasil, os pais são aqueles que servem aos interesses dessa ideologia. Quer por inocência, quer por afinidade. Existem vários projetos sobre o tema, o mais famoso dele é do Romero Jucá com contribuições do Miro Teixeira.

De fato, no ano passado, ocorreu um debate na Câmara dos Deputados. O inusitado é que os movimentos sociais não foram sequer convidados. Assim como agora ocorre no Senado Federal. Ou seja, na “casa do povo”, este não entra. Lembrou a música de Cazuza “não me convidaram para esta festa pobre que os homens armaram para me convencer”.

— O que está por trás dessa iniciativa de tipificar o crime de terrorismo no Brasil? É mais uma tentativa de criminalizar os movimentos sociais?

— Com certeza. Zaffaroni, argentino e um dos maiores penalistas do mundo, diz que toda vez que aumentamos o estado policial, diminuímos o estado de direito. Neste caso, seria uma tragédia para as lutas sociais a tipificação, um retrocesso democrático.

Recentemente, Obama justificou a espionagem que fez na presidenta Dilma com base no argumento de que era para combater o terrorismo. Ou seja, se viola a intimidade de presidentes de países com base neste argumento!

O debate é ideológico. Implica dizer, seremos submissos a esta ideologia norte-americana? A mesma ideologia que “justifica” a tortura, a espionagem sorrateira, Guantánamo, Abu Ghraib e os campos de concentração relatados no filme Zero Dark Thirty (A Hora Mais Escura)?

– A quem interessa, ideologicamente, tipificar o crime de terrorismo no Brasil?

– Como o termo “terrorista” é uma construção ideológica, funciona mais ou menos assim: você primeiro cria politicamente o termo e depois vai atrás daquilo que você entende que seja.

Somente para argumentar, imaginemos aquele terrorista dos filmes de Hollywood, ok? Se ele existe, nunca passou pelo Brasil ou pela maioria dos países.

Nosso País não entra em guerra há mais de 100 anos, temos um tradição, portanto, pacífica.

Outros países que tipificaram a conduta e aceitaram o jogo dos EUA, ao não encontrar aquele perfil que o Jack Bauer, do seriado 24 horas tem como inimigo, acabaram por criminalizar movimentos sociais. Sim, porque uma vez tipificado, você perde totalmente o controle sobre quem será punido. O filtro que será realizado para determinar se tal conduta é terrorismo ou não será dado por delegados, promotores, juízes e, é claro, pela mídia!

Interessa ao pensamento ideológico de Bush no pós 11 de setembro. Pensamento tão forte politicamente, que nem mesmo Obama conseguiu refrear, embora houvesse prometido acabar com Guantánamo.

— Quais os impactos da tipificação para os movimentos sociais, já que hoje, não é raro promotores enquadrarem as ações do MST na Lei de Segurança Nacional?

— São imprevisíveis. Seria a ampliação do estado policial ainda mais. O reflexo é menos democracia e mais sufocamento da participação social.

O recado dado seria uma sociedade ainda mais doente, com medo de falsos fantasmas criados para justificar atrocidades mundo afora.

Uma sociedade em que o medo é estimulado, abre mão de valores fundamentais para a vida em comunidade tais como a solidariedade, fraternidade e aceitação do outro.

Reforçaria preconceitos e atenderia à indústria de segurança, que é muito forte no mundo. A Lei de Segurança Nacional é um bom exemplo que você deu.

Em pleno regime democrático, existem promotores que enxergam na atuação do Movimento dos Sem Terra um atentado à segurança nacional. Não só, ainda elaboram denúncias criminais contra esses trabalhadores, com base neste pensamento.

Como palpite, diria que estudantes, professores, sem terra e todos aqueles e aquelas que ousassem ir para as ruas reivindicar direitos sociais, seriam etiquetados como terroristas.

Conceição Lemes
No Viomundo
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A nota divulgada por Joaquim Barbosa


Eis a íntegra da nota, divulgada pela assessoria do Ministro do STF Joaquim Barbosa:

1) O Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Joaquim Barbosa, ratifica que não é candidato a presidente nas eleições de 2014.

2) Com relação a uma possível renúncia ao cargo que hoje ocupa, o Ministro já manifestou diversas vezes seu desejo de não permanecer no Supremo até a idade de 70 anos, quando teria que se aposentar compulsoriamente. No entanto, não existe nenhuma definição em relação ao momento de sua saída. Ele não fez consulta alguma ao setor de recursos humanos do STF sobre benefícios de aposentadoria.

3) No que se refere ao seu futuro após deixar o Tribunal, o Ministro reserva-se o direito de tomar as decisões que julgar mais adequadas para a sua vida na ocasião oportuna. Entende que após deixar a condição de servidor público, suas decisões passam a ser de caráter privado.

4) O Ministro Joaquim Barbosa não faz juízo de valor sobre nenhum dos partidos políticos brasileiros, individualmente. A respeito do quadro partidário, já expressou sua opinião no sentido da realização de uma ampla reforma política que aprimore o atual sistema. Apesar de já ter tornado público o seu voto nas últimas três eleições presidenciais, o Presidente do STF, Tribunal que é o guardião da Constituição, ratifica seu respeito por todas as agremiações partidárias, seus filiados e eleitores.
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