10 de fev de 2014

Santiago: a lógica da violência está nas ruas... e nas mídias

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Lição para anti-comunistas primitivos

Presidente da Odebrecht diz que capitalismo brasileiro foi quem mais ganhou no porto cubano de Mariel

O alvo prioritário de nosso conservadorismo tem uma nova estrela — a médica cubana que, de olho nas delícias de Miami, decidiu abandonar o programa Mais Médicos. É um direito dela tentar escolher o país onde pretende viver.

Mas é claro que nossos dinossauros da Guerra Fria pretendem fazer desse gesto uma demonstração do fracasso do programa. Bobagem.

Quem tem direito a dizer se o programa é bom ou ruim é a população interessada. E, ao que parece, os casos de sucesso são esclarecedores. O número de prefeitos que aderem ao programa não para de crescer.

A campanha contra os médicos cubanos faz parte de um exercício de anti comunismo primário que nasceu há meio século e, agora, tenta ganhar novo folego. Essa doutrina fazia parte do golpe que derrubou o governo constitucional de João Goulart. Antes, como agora, conservadores brasileiros querem convencer o país que todo esforço de aproximação com o regime de Fidel e Raul Castro só traz prejuízos ao país, atrapalha nosso desenvolvimento e diminui o emprego.

Eram chamados de “entreguistas” mas, anos de ditadura e de censura acabaram retirando a expressão de nosso vocabulário político.

Jango deixou de ser um interlocutor válido, em Washington, quando deixou claro que não iria dar o voto brasileiro para isolar Cuba no hemisfério.

Foi neste momento que John Kennedy mudou de lado, passando a sabotar o governo brasileiro até que fosse derrubado. Outros pontos eram importantes. Mas o inaceitável mesmo era a decisão de manter relações com Cuba e contrariar a polícia externa da Casa Branca. Dois bons historiadores, Jorge Ferreira e Moniz Bandeira, tem relatos claros e bem informados a esse respeito.

Cinquenta anos se passaram, o Muro de Berlim caiu, a União Soviética foi dissolvida mas até hoje o coro contra Cuba persiste.

Fala-se em defesa da democracia, sem um fiapo de sinceridade quando se recorda a postura assumida diante de golpes terríveis e prolongados que vieram depois, como o de Augusto Pinochet, ou patéticos mas ainda assim condenáveis, como aventuras recentes, no Paraguai, em Honduras.

Mas é um movimento tão distante das possibilidades e necessidades do mundo real, na segunda década do século XXI, que não enxerga sequer as vantagens que uma aproximação com o regime cubano pode trazer ao país – até do ponto de de vista capitalista.

Foi assim que assistimos a um coro ridículo e desinformado contra a inauguração do porto de Mariel, em Cuba. Não vou repetir os argumentos que foram divulgados nos últimos dias.

Chamo a atenção para um artigo que saiu na Folha. Seu autor é Marcelo Odebrecht, presidente do grupo Odebrecht, responsável pela construção do Porto de Mariel.

Partindo das críticas ao BNDES, apontado como a ponta de lança de uma política de exportação de capitais destinada a manter um “regime de servidão” em Cuba, o empresário explica que o banco financiou centenas de empresas brasileiras. Sua avaliação está resumida numa frase: “Se o porto será de grande importância para o socialismo cubano, foi o capitalismo brasileiro que mais ganhou até agora.”

Alguns exemplos:

a) O BNDES não investiu em Mariel. O BNDES financiou as exportações de cerca de 400 empresas brasileiras, lideradas pela Odebrecht, no valor equivalente a 70% do projeto.

b) o financiamento à exportação gera empregos no Brasil, porque não há remessa de dinheiro para o exterior. Os recursos são desembolsados aqui, em reais, para a aquisição de 85% dos bens e serviços produzidos e prestados por trabalhadores brasileiros (os demais 15% são pagos à vista pelo importador).

c) em 2012, o BNDES destinou cerca de US$ 7 bilhões para apoiar o comércio exterior e US$ 173 bilhões para o mercado interno.

d) para quem gosta de associar Cuba a pagamentos atrasados, o empresário lembra que a ocorrência de calotes não está relacionada a alinhamentos ideológicos: os maiores "defaults" recentemente enfrentados pelo Brasil vieram dos Estados Unidos e do Chile.”

Estes dados ajudam a entender que o mundo mudou — ainda que os nostálgicos da Guerra Fria possam dar a impressão de que não entenderam a mudança. É uma impressão falsa, porém. Praticam um entreguismo de novo tipo.

Eles analisaram, entenderam e fizeram uma opção diplomática, conhecida nos meios como "integração subordinada". "Nas palavras de um estudioso, consiste em reconhecer que todos os países são iguais mas alguns são mais iguais do que os outros."

Estão alinhados com a diplomacia do Eixo do Mal, criada no governo de George W Bush para justificar a derrubada de regimes que, de natureza muito diversas, refletindo opções políticas diferentes, possuíam um ponto de vista comum — a recusa em submeter-se a vontade de Washington e o esforço, ora bem sucedido, muitas vezes apenas quixotesco, de preservar um valor chamado soberania.

Nesse alinhamento, nossos conservadores são capazes de juntar-se à direita americana mais truculenta nas críticas à determinadas iniciativas de Barack Obama.

É essa visão, que enxerga na submissão uma forma legítima mas nem sempre confessável de atuação diplomática, que está em debate. Alimenta as campanhas a favor de uma política agressiva em relação a Cuba e os demais governos que não são do agrado de Washington mas, muitas vezes, podem representar aproximações valiosas para a diplomacia brasileira, inclusive do ponto de vista econômico.

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Azeredo participou “efetivamente” das decisões sobre desvios

Nas alegações finais sobre o “mensalão tucano”, Rodrigo Janot detalha ações de ex-governador mineiro e usa como base a “Lista Claudio Mourão”. Leia o documento

Nas alegações finais encaminhadas ao Supremo Tribunal Federal sobre o “mensalão tucano”, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, é enfático ao dizer que o ex-governador de Minas Gerais Eduardo Azeredo (PSDB) “participou ativamente” das decisões de sua campanha derrotada à reeleição em 1998. Principalmente, ressalta, das decisões referentes à parte financeira relacionadas com as práticas criminosas denunciadas na ação penal. Segundo Janot, “além de ter atuado na coordenação financeira da própria campanha, Azeredo, em momento posterior (a partir de 2002), participou do movimento para tentar impedir que os fatos (...) chegassem ao conhecimento das autoridades competentes”. (Leia a íntegra do documento aqui)

A afirmação vai de encontro ao argumento da defesa do tucano: a de que o hoje deputado federal desconhecia a engenharia de desvios de recursos públicos do estado para as empresas do publicitário Marcos Valério, condenado pelo Supremo Tribunal no esquema do “mensalão petista”, em 2012. As empresas usadas no esquema mineiro, segundo o procurador, foram a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), a Companhia Mineradora (Comig) e do Banco do Estado de Minas (BEMGE). As empresas contratavam os serviços da SMP&B, de Marcos Valério, para patrocínios de eventos esportivos. Mas o serviço de publicidade não era prestado: os recursos tinham como destino a campanha de Azeredo.

O procurador afirma que os valores dos patrocínios forjados eram discriminados em uma lista produzida pelo ex-tesoureiro do PSDB Claudio Mourão. Na denúncia, Mourão é citado como responsável por controlar os “fluxos de capitais utilizados na campanha à reeleição de Azeredo, cuja veracidade foi atestada em perícias realizadas pelo Instituto Nacional de Criminalística”.

Trata-se de uma lista, revelada em 2007, do total de repasses equivalente a 10,8 milhões de reais a parlamentares de 11 partidos, inclusive do PT (mas onde reinam soberanos o PSDB e o PFL, atual DEM). Mourão sempre tentou negar a veracidade da lista, mas foi obrigado a reconhecer sua assinatura no papel depois de ser desmentido por uma perícia da Polícia Federal. Em julho de 2013, CartaCapital trouxe à baila outra lista, desta vez assinada por Marcos Valério, entregue à PF e ao ministro Joaquim Barbosa pelo advogado Dino Miraglia, de Belo Horizonte. Miraglia conseguiu a lista com um cliente famoso, o lobista Nilton Monteiro, antigo operador das hostes tucanas em Minas, também responsável pela divulgação de uma terceira lista, em 2002, com doações clandestinas desviadas dos cofres da estatal Furnas Centrais Elétricas, a famosa “Lista de Furnas”, no qual o PSDB novamente aparece no comando da farra do caixa 2 (leia mais aqui).

As digitais de Mourão, citadas pela Procuradoria, reforçam a suspeita de que os denunciados conheciam a origem do dinheiro desviado para a campanha tucana. “A SMP&B, em junho de 1998, adiantou altas quantias à campanha do réu, obtidos por empréstimos firmados junto ao Banco Rural S/A, que posteriormente foram saldados por meio de recursos públicos”, escreveu Janot. A “lista Claudio Mourão”, assim nomeada pelo procurador, foi anexada às alegações finais encaminhadas ao Supremo.

Domínio dos fatos

Com base nos depoimentos ouvidos durante as investigações, Janot sustenta que Azeredo se preocupava com os “detalhes mais comezinhos” da campanha, como a pintura de muros e o apoio financeiro a campanhas de seus aliados.

“Ressai como inverossímil (...) admitir que não participasse dos dados mais relevantes, especialmente a origem e a destinação dos recursos vultuosos da campanha”.

Mais à frente, Janot diz haver depoimentos que provam que Azeredo participou de reuniões que sacramentaram o desvio de recursos públicos de cerca de menos 3,5 milhões de reais de em favor de sua campanha.

Ao fim, o procurador pede que o acusado seja condenado a 22 anos de prisão por pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro.

O relator do caso no Supremo é o ministro Luís Roberto Barroso, que deve abrir prazo de 15 dias para a defesa de Azeredo apresentar as suas alegações finais. O caso pode ser julgado ainda no primeiro semestre deste ano.

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Glamour em aeroportos: a falta de noção da professora que ridicularizou um homem no Santos Dumont


O advogado Marcelo Santos, que foi ridicularizado pela professora Rosa Marina Meyer, da PUC do Rio, por estar de regata no aeroporto Santos Dumont, publicou uma resposta em seu Facebook:
Boa tarde. Gostaria de agradecer as mensagens calorosas dos amigos, neste momento. Na oportunidade, informo que estava chegando de viagem de um cruzeiro internacional e tinha conhecimento do calor que estava no Rio de Janeiro, ocasião em que estava com trajes casuais. Ademais, por estar de férias, no Rio de Janeiro, não tinha porque estar usando terno e gravata apenas para usar um meio de transporte. Informo, também, que os comentários infelizes das pessoas na página do Facebook já estão sendo alvo de análise pelos meus colegas do escritório e, certamente, serão tomadas as medidas legais. É lamentável perceber que isso partiu de pessoas ligadas a educação de nosso país. Com efeito, apenas vem descortinar o preconceito existente por muitas pessoas que se julgam melhor apenas por questão de aparência.
Santos foi preciso ao dizer que lamenta que a presepada tenha partido de pessoas ligadas à educação. É um pouco mais triste. Rosa Marina se achou no direito de fotografar um sujeito sem que ele soubesse ou quisesse; de publicar; e de tirar um sarro dele, como se estivesse no boteco com as amigas.

Como legenda, tascou: “Aeroporto ou rodoviária?” Os colegas fizeram a festa: “O glamour foi pro espaço”, disse uma. Rosa Marina: “Para glamour falta muito! Está mais para estiva!”. Outra ainda acrescentou: “O pior é quando esse tipo de passageiro senta exatamente do seu lado e fica roçando o braço peludo no seu, porque — claro — não respeita (ou não cabe) nos limites do assento”.

Não é apenas falta do que fazer, maldade, burrice e preconceito. É também uma confissão de provincianismo e deslumbramento. Desde quando aeroportos são lugares glamourosos? Em que planeta esse pessoal vive?

Há décadas aeroportos servem para você entrar num avião e viajar de um ponto a outro, e só. Não, não são diferentes de uma rodoviária, com a exceção de que os ônibus atualmente estão bem mais confortáveis.

Se você estiver em Orly, Heathrow, JFK, Miami — onde for — vai encontrar não apenas viajantes de diferentes classes sociais, mas vestidos da maneira que consideram confortável para encarar a viagem.

A comida é ruim, o serviço de bordo está cada vez pior, o ar da aeronave é seco e cheio de bactérias, o banheiro está sempre ocupado, as chegadas e partidas atrasam, as aeromoças e comissários não estão interessados em seus problemas. O Santos Dumont, especificamente, está atingindo a temperatura de 55 graus no verão. Tudo muito sofisticado.

As piadas de Rosa Marina e seus companheiros estão na sintonia do hoje clássico artigo de Danuza Leão sobre o porteiro de seu prédio. Danuza, caso você não se lembre, se queixava de que Paris não era a mais a mesma desde que o moço da portaria passou a poder ir também para a França. Os franceses não estão desolados.

É a nostalgia de um mundo que não existe mais há muito tempo, que só fazia sentido nas propagandas da Varig e em que meia dúzia de caipiras ainda acredita.

Kiko Nogueira
No DCM
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Cinegrafista atingido por rojão no Rio tem morte cerebral


A Secretaria Municipal de Saúde confirmou há pouco a morte cerebral do cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Ilídio Andrade, de 49 anos. Ele foi ferido por um rojão durante manifestação no Rio de Janeiro na semana passada e permanece no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do Hospital Municipal Souza Aguiar aguardando a presença da família, que determinará os procedimentos que deverão ser tomados a partir de agora.

Santiago, que teve afundamento do crânio e perdeu parte da orelha esquerda, foi submetido a uma cirurgia para diminuir a pressão craniana, assim que chegou ao hospital. No sábado, uma tomografia comprovou que a hemorragia havia sido controlada, mas o estado de saúde do cinegrafista piorou.

O profissional foi atingido por um rojão enquanto filmava o protesto contra o aumento das passagens de ônibus no município do Rio, próximo à Central do Brasil, no centro da capital fluminense.

Casado com Arlita Andrade há 30 anos, o carioca Santiago Andrade tem uma filha e três enteados. Mora em Niterói. Profissional há cerca de 20 anos, ele trabalha na Rede Bandeirantes de Televisão há quase dez anos.

Santiago ganhou dois prêmios de jornalismo (“Prêmio Mobilidade Urbana”) por matérias sobre a dificuldade de transporte nas ruas nos anos de 2010 e 2012. Destacou-se na cobertura das chuvas na região serrana, em janeiro de 2011, e em Xerém, em janeiro do ano passado.

Os autores do crime contra Santiago Andrade poderão pegar pena de prisão de até 35 anos por homicídio qualificado e crime de explosão, segundo informou o delegado titular da 17ª Delegacia Policial de São Cristóvão, Maurício Luciano, responsável pelas investigações do caso.

Cristiane Ribeiro e Vitor Abdala
No Agência Brasil
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Renato Pompeu (1941-2014)

(Da Minha lista de blogs)


Renato Pompeu nasceu em Campinas, SP, em 1941, mas sempre morou em São Paulo. Em 1960 entrou no curso de Ciências Sociais da USP e no mesmo ano começou a trabalhar como jornalista, tendo atuado na Folha de S. Paulo, na revista Veja e no Jornal da Tarde, além de outras publicações. Ganhou três Prêmios Abril e um Prêmio Esso de Jornalismo, por trabalhos sobre males do coração, males do tabaco e futebol. Como escritor, tem 22 livros publicados, entre ficção e não-ficção. Atualmente colabora na Caros Amigos, Carta Capital, Diário do Comércio e Diário de S. Paulo, além do blog. Dos 22 livros publicados, destacam-se os romances "Quatro Olhos" (1976), "Samba-Enredo" (1992), ambos pela Editora Alfa-Ômega, e "O Mundo como Obra de Arte Criada pelo Brasil" (2008), pela Editora Casa Amarela. De não-ficção, "Memórias da Loucura" (1983), pela Alfa-Õmega, "Globalização e Justiça Social" (1996), pela Editora Scortecci, e "Canhoteiro, o Homem que Driblou a Glória" (2002), Ediouro.

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Último Post

O legado de Ruth Cardoso

Da Carta Capital - Ruth Cardoso, pela Sabesp e Natura - Num lançamento da Mameluco, editora dirigida pelo historiador e jornalista Jorge Caldeira, está sendo publicada, com patrocínio da Sabesp e da Natura, a “Obra reunida” da antropóloga e cientista política paulista Ruth Cardoso (1930-2008), mulher do ex-presidente da República, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Não se trata da obra completa dessa cientista social dotada de luz própria, bastante respeitada nos meios acadêmicos, enquanto o grande público a conhece mais como tendo criado o Comunidade Solidária, como primeira dama da Nação. Mas estão incluídos textos seus como antropóloga, notadamente sobre a progressiva integração e aculturação dos brasileiros de origem japonesa, e como cientista política, função em que foi uma das primeiras pessoas a perceber a importância dos movimentos sociais em São Paulo e no Brasil. Ela foi a primeira, fora desses movimentos que se desenvolveram como causas e efeitos da decadência do regime militar, a partir dos anos 1970, a perceber sua relevância política, tendo sido também a primeira a perceber, já quando os movimentos nasciam, a possibilidade, concretizada a partir do governo Lula, de sua absorção pela cooptação e pelo clientelismo de políticos e dos governantes. Também preciosos são os textos da organizadora, Teresa Pires do Rio Caldeira, que conta como o tema do doutorado de Ruth Cardoso, os japoneses, não foi escolhido por ela, mas por seu orientador, o antropólogo Egon Schaden – naquele tempo os homens mandavam nas mulheres mais do que hoje –, e do depoimento da também antropóloga e cientista política Eunice Ribeiro Durham. – RENATO POMPEU

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Morreu na manhã de ontem o jornalista e escritor Renato Pompeu, uma das mentes atormentadas mais brilhantes do país.

Morreu aos 72 anos e tentando reeditar seu excelente livro “A Saída do Primeiro Tempo”, lançado em 1978 e já esgotado, sem conseguir, no entanto, por inflexibilidade da Editora  Alfa-Ômega.

Pompeu, em julho de 2012, sabedor de minha admiração por seu livro, pediu-me que escrevesse o prefácio para uma eventual reedição, coisa que fiz prontamente e que aqui, por inédito, transcrevo como última homenagem ao amigo e demonstração de enorme respeito intelectual.

 A “Saída do Primeiro Tempo” é um clássico da literatura futebolística nacional.

Pena que, de tão vanguardista, tenha sido lançado ainda em 1978, razão pela qual, apesar de atualíssimo, o livro seja muito menos conhecido, e badalado, do que merece e precisa ser.

Precursor de obras como as de José Miguel Wisnik (“Veneno Remédio”) e Hilário Franco Júnior (“A Dança dos Deuses”), Renato Pompeu nos conta uma literalmente fantástica história da Ponte Preta, dessas que torcedor algum pode desconhecer.

E, se não bastasse, no intervalo entre o primeiro e o segundo tempos da saga do espectro da velha Macaca, Pompeu traça uma genial, criativa, obrigatória, Teoria do Futebol, tomando de empréstimo o primeiro capítulo de “O Capital” de Karl Marx, sobre a Mercadoria e seus fetiches.

Ninguém passa impune sobre as 74 páginas do ensaio, “O Futebol, Crítica da Economia Política”.

Ninguém.

Nem que não goste, até odeie ou despreze o futebol.

E ninguém que leia seguirá vendo futebol do mesmo jeito.

Em ótima hora, porque o Século 21, a Ponte Preta e as torcidas do Corinthians e do Flamengo merecem, para não falar das demais, é claro, a obra de Pompeu é relançada, para compor uma espécie de trilogia com Wisnik e Franco, compondo um triângulo que vai muito além das bermudas, porque das chuteiras, calções e camisas que produzem esse encantamento chamado jogo de futebol, com todos os seus segredos, seus mistérios mesmo, que quanto mais revelam mais escondem, num jogo mágico de labirintos sem fim.

Porque, como Pompeu explica sabiamente, as ciências sociais têm se preocupado mais com coisas chatas do que com as lindas e maravilhosas como o Futebol, que carrega em si a tendência de ser Atividade Única do mesmo modo que se sonha com a Religião Única ou com o Partido Único.

Ora, quem já pensou que o futebol implica na existência da Mulher, pois senão os jogadores não teriam nascido?

Pompeu pensou.

Quem já refletiu sobre a complexidade da Saída do Primeiro Tempo?

Pompeu refletiu.

E sobre a vocação democrática implícita do futebol?

Além do Doutor Sócrates, só Pompeu ponderou, e antes do Magrão.

O homem brinca com a bola que é redonda como o mundo é redondo e realiza pelo futebol o desejo de todos, o de brincar com o mundo.

Pompeu brinca com as palavras, com as ideias, as teorias, e nos diverte e instiga ao tratar o óbvio com a inteligência que só os mais bem providos são capazes.

Tanto que elege João Saldanha como o maior intelectual brasileiro e ensina que o gol é a vitória da Vida sobre a Morte, o triunfo do dinamismo contra o imobilismo, já que os jogadores e a bola são móveis, e, as traves, imóveis.

Não, não contarei mais.

Chega de estragar prazeres.

Pena que o velho alemão não poderá desfrutá-los como você.


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Leia matéria abaixo: Renato Pompeu (1941-2014)

Renato com Jô

Renato Pompeu, morto ontem aos 72 anos, estava certo: a imprensa brasileira piorou muito.

Basta dizer que o obituário do maior jornal brasileiro disse que ele se chamava Renato Pompeu de Toledo, numa confusão com o colunista da Veja, Roberto Pompeu de Toledo. (veja abaixo).

Mas os problemas da imprensa iam muito além de nomes errados, para ele.

Antes, os articulistas expressavam sua própria opinião, dissera Renato recentemente. E os editoriais eram o espaço dos patrões. Agora, os articulistas expressam a ideia dos patrões.

Neste ambiente jornalístico doentio, ele não via lugar para si mesmo. Nos últimos anos, ele estava à deriva, o que foi uma pena para os leitores.

Renato foi uma das figuras mais singulares do jornalismo paulistano. Era tão brilhante que conseguiu fazer uma carreira notável mesmo com os problemas psiquiátricos que tinha, por força dos quais, na mocidade, passou um ano no hospício.

Conheci-o na Veja, no começo dos anos 1980. Eu era um repórter iniciante, e ele um editor assistente que você não deixava de notar, tanto pela reverência que inspirava na redação quanto pelo seu jeito singular.

Todo dia, isso há 30 anos, ia trabalhar com uma camisa diferente de times estrangeiros de futebol. Posso vê-lo agora, vestido de Milan ou Inter de Milão, com seu andar lento, tão devagar quanto sua fala.

Uma vez o encontrei no banheiro da Veja, depois do almoço. Ele me contou que descobrira que era bom para os dentes não escová-los. Fazia meses que não escovava seus dentes.

Ele me explicou os motivos. Não guardei o as razões. Mas jamais esqueci o fato em si.

Outra vez, ele me contou que não conseguia ir ao cinema. Ficar duas horas numa sala era mais do que ele podia suportar.

Tive um contato distante com ele, mas mesmo assim venho-o citando ao longo de toda a minha carreira. Especificamente, no título que ele dizia ser o ideal para todo texto: “Leia matéria abaixo.”

Renato pertencia a uma família de grandes jornalistas. Paulo Pompeu e Helio Pompeu, seu pai e seu tio, se destacaram na Folha pré-Frias. Lembro bem de Helio, amigo de meu pai.

Seu irmão, Sérgio, foi diretor da Veja. Devo a Sérgio, morto já há alguns anos, minha entrada na Veja. Ele pegou um texto que eu fizera para a revista Senhor, tirou cópias e os enviou aos editores da Veja. Um deles me deu uma chance, e eu acabaria ficando na Abril 25 anos.

Sérgio é uma das histórias mais tristes que conheci no jornalismo. Jamais se recuperou inteiramente de ter sido afastado da Veja para que fosse contratado Elio Gaspari, então no Jornal do Brasil. Na realidade, recontratado, porque Elio saíra da Veja.

Era um grande e sábio jornalista, mas mentalmente instável. Uma vez, lhe perguntei sobre Elio, de quem os jornalistas falavam muito naqueles dias.

Jamais esqueci a resposta. “Você só conhece alguém quando é chefiado por ele. Eu chefiei o Elio.” Esta é uma verdade doída, como eu veria nos anos em que passei a ser chefe.

Na derrocada de Sérgio, fui visitá-lo algumas vezes nos finais de semana numa casa de repouso. Perdera tudo – a Veja, a casa bonita, o cargo, a mulher. E o juízo, e logo depois a vida.

Jornalista nenhum me comoveu tanto quando ele, e ainda hoje lembro com carinho e gratidão do grande Pompeu.

Quanto a Renato, termino o texto com um título do G1, o maior portal do Brasil, que reforça sua baixa opinião do jornalismo brasileiro destes anos. (veja abaixo).

“Estagiário de advogado diz que ativista afirmou que homem que acendeu rojão era ligado ao deputado estadual Marcelo Freixo.”

Como notado por muita gente na internet, concorre ao pior título da história do jornalismo no Brasil.

Muito mais eficaz teria sido o seguinte título: “Leia matéria abaixo”.

Paulo Nogueira
No DCM



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Barrigada da Folha


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Renatão no Programa Jô

Entrevista do jornalista e escritor Renato Pompeu em 2003 para o programa Jô Soares. Renato foi ao programa para falar do lançamento do livro "Canhoteiro - o homem que driblou a glória", da editora Ediouro. Sem dúvida, umas das melhores entrevistas da história do programa, cheia de informação e bom-humor.


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Folha puxa BrOi e dá tiro n’água

Quem estava comprado e descarregou ações da OIBR4 PN quando bateu em 4,08%?

Na foto, conjunto de xerifes contempla a oscilação das ações da BrOi

Como se sabe, o chamado “mercado de capitais” no Brasil se comporta com os princípios éticos que regem as rinhas de galo.

O xerife do mercado, a CVM, é especialista em esperar o vídeo-tape para marcar pênalti.

Como o CADE: espera as vítimas fecharem para localizar um cartel.

“Capitalismo selvagem”, capital Brasil!

Dessa notável esculhambação faz parte o PiG, exemplo exuberante, ele próprio, da selva que nos cerca.

Assim é que, na semana passada, como informou este ansioso blog, “a Folha puxou as ações daBrOi em 4%” e não aconteceu nada.

É que, segundo a Folha, a BrOi tinha caído no colo dos bancos.

A Folha sabia a participação percentual de cada banco no negócio, sabia até se o novo presidente ia ter elevador privativo e banheiro de mármore!

Pois, qual não foi a surpresa de amigo navegante ao abrir a página B4 do Valor, o PiG cheiroso, que diz na primeira página “maioria dos conselheiros FORAM…” :

“União entre Oi e Portugal Telecom ainda tem muitas indefinições”!

“Minoritários — que serão devidamente enganados … PHA — questionam parte da operação”

“A Portugal Telecom não está disposta a ser protagonista de mais uma (sic) tentativa frustrada (sic) de re-estruturar e organizar a Oi”.

Quer dizer, a PT, sob a batuta do sr Zeinal Bava, segundo o respeitabilíssimo Valor, foge mais da Oi do que do fogo do Inferno.

E, pelo jeito, quer ver se arruma — “entre varias possibilidade”, diz o Valor — “investidores estrangeiros, já que até agora os minoritários demonstraram pouco apetite na operação”…

Por enquanto, diz o Valor, “não está definida a quantidade de ações que será oferecida pela Oi”.

Ou seja, diz o amigo navegante, seria o caso de mandar o camburão da Polícia para a Folha, para a CVM e a para a … Oi … PT …?

Quem passou a “informação” à Folha?

O Guilherme Bastos, aquele notável repórter de Economia da Folha, capturado na Operação Satiagraha, especialista em BrOI?

Quem estava comprado e descarregou ações da OIBR4 PN quando ela bateu em 4,08%  de aumento ?

Ora, diz o amigo navegante, não seja ingênuo, ansioso blogueiro!

Viva o Brasil!, diz ele, antes de cair na gar-ga-lha-da, com aquela dramática ênfase do  Mi-nis-tro-Gil-mar-Dan-tas!

Por falar nisso, quando vai ser a licitação do porto da Santos Brasil?

Em tempo:
às 13h00 desta segunda-feira, as ações OIBR4 PN subiam 3%. A CVM recebeu (aleluia!) uma nota relevante em que a empresa assegura que não há risco de a operação não acontecer!

Paulo Henrique Amorim
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Os processos de Ali Kamel contra blogueiros

Kamel

A Justiça brasileira lida de duas formas com processos de imprensa.

Quando o processo é contra blogueiros indefesos, ela é rigorosa.

Quando o processo é contra jornalistas de grandes companhias, ela é o oposto.

O caso Collor X Augusto Nunes, do site da Veja, é exemplar. Collor foi chamado de chefe de bando e coisas do gênero. Na ação que moveu, lembrou que o STF — tão louvado por Nunes — o absolveu das acusações.

Nem isso foi suficiente para que ele ganhasse a causa. Não houve ofensa, segundo a Justiça.

A mesma boa vontade dos juízes não se observa quando os processados são blogueiros. É mais ou menos como Sheherazade ao julgar Justin Bieber e o “malginalzinho”. Risos e amor para um, caretas e ódio para o outro.

As várias ações movidas por Ali Kamel contra eles provam a diferença de tratamento para blogueiros diante de juízes.

O caso mais recente envolve Marco Aurélio de Mello (não confundir com o magnífico homônimo).

Mello trabalhou com Kamel na Globo. Saiu há sete anos, e hoje está na Record. Mantém — ou mantinha, porque afirmou que se afastará dele — o blog DoLaDoDeLá.

Dias atrás, Mello anunciou que estava sendo processado por Kamel por um texto em que fez críticas ao antigo chefe e ao jornalismo da Globo.

Mello diz que Kamel adotou o jornalismo “bolinha de papel” na Globo, e que inspira terror na equipe. Mas não disse nada parecido com “chefe de bando”.

Ele já perdeu uma ação movida por Kamel, e está recorrendo dela, o que não é barato. O novo processo o deixou preocupado com o estado de suas contas. E então ele decidiu pedir doações para poder enfrentar Kamel.

Não sou juiz para entrar no mérito das causas de Kamel.

Mas existe uma injustiça no quadro. Kamel tem enorme vantagem competitiva diante dos juízes brasileiros.

Quem quer se indispor com o chefe do telejornalismo da Globo? Na contrapartida, que juiz não quer ser bem visto pela Globo?

Do ponto de vista econômico, é também um massacre, um combate entre desiguais. Mover um processo para Kamel é uma coisa simples. Uma secretária pode cuidar de quase tudo aquilo que toma tempo de quem aciona alguém.

Ele pode obter orientação do departamento jurídico da Globo, e advogado nenhum vai cobrar excessivamente dele.

Dada a vaidade dos advogados, eles podem acalentar a esperança de um dia aparecer numa reportagem do Jornal Nacional, caso trabalhem numa causa de Kamel, e esta exposição com certeza traria clientela e honorários mais altos.

Não estou dizendo que isto aconteça, mas as coisas, nos bastidores, são menos bonitas e desinteressadas do que gostaríamos que fossem.

Mello, ao contrário de Kamel, não tem uma Globo por trás. Suas armas são bem mais modestas, incluída aí a possibilidade financeira de bancar disputas judiciais.

É uma disputa fundamentalmente injusta.

Num mundo menos imperfeito — na Dinamarca, por exemplo — um sistema jurídico menos inclinado aos poderosos talvez igualasse as forças na contenda.

Mas estamos a 10 mil km da Dinamarca, e a muitos anos de sua sociedade quase utópica.

E então blogueiros de grandes companhias podem chamar as pessoas de bandidas, corruptas, bêbadas, e sair por aí dando risada e se gabando diante dos amigos.

Mas blogueiros como Marco Aurélio de Mello recebem um tratamento completamente diferente, e é uma mostra de quanto temos que avançar como país.

Paulo Nogueira
No DCM
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O Globo muda de direção

Não tá fácil pra ninguém e menos ainda para os jornais impressos. Assim, O Globo resolveu mexer na direção para ver se consegue sair do marasmo. Na sexta-feira, caíram, de uma vez, o diretor de Mercado (nome bacana para o velho e bom comercial), o veterano de casa Mário Rigon, o Financeiro, Luiz Cláudio Vieira, e o de Tecnologia, Cláudio Martini.

O motivo dos pés-na-bunda é mudança de estratégia. Nos últimos anos, O Globo deu muito espaço ao Rio de Janeiro, mas , agora, com o dinheiro curto, a ideia é “nacionalizar e modernizar”, sejá lá o que se entenda por isso nas Organizações Globo. Uma pista é que o diretor comercial (ou de Mercado) vai ficar em São Paulo, o lugar da grana. Não sei se os jornais paulistas vão gostar disso.

Na redação, por enquanto, tudo como dantes — sem passaralho, mas também sem contratações para substituir quem saiu. A questão é que, pelo menos para nacionalizar a cobertura, gente precisará ser contratada, já que há poucos correspondentes fora do eixo Rio-BSB — mesmo em Sampa a sucursal não é lá essas coisas. Enfim, vamos ver como fica.

No Coleguinhas, uni-vos!
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Jornais impressos sofrem duro golpe

O pior dos mundos para os jornais impressos começa a surgir no horizonte, com a instrução da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que autoriza as companhias de capital aberto a publicar comunicados e fatos relevantes em portais da internet a partir de março.

Até agora, as empresas só podiam fazer essas publicações em jornais de grande circulação, o que, na prática, representava uma fonte de receita fácil e incessante para eles.

A medida foi pessimamente recebida pela Associação Nacional dos Jornais, a ANP, entidade que há anos vem exercendo um lobby fortíssimo pela manutenção do monopólio da publicação da chamada "publicidade legal".

A CVM, por sua vez, atendeu aos pedidos das empresas, que têm um custo elevado com a publicação desses comunicados.

A briga entre empresas e jornais, porém, está longe de terminar.

A medida da CVM não satisfaz inteiramente o desejo das empresas de capital aberto.

O que elas querem é que acabe a obrigatoriedade de publicação dos balanços anuais nos jornais impressos.

A medida adotada pela CVM é um indicativo de que em breve o pleito das empresas será atendido — e aí, sim, os jornais perderão uma das suas mais importantes fontes de receita.

Há jornais no Brasil que têm sobrevivido nestes últimos anos graças à publicidade legal, como o "Valor Econômico", que tem cerca de 80% de sua receita vinculada à publicação de balanços e comunicados empresariais — e por isso tem realizado investimentos pesados em formas alternativas de faturamento, como o serviço de tempo real lançado há cerca de um ano.

A situação da mídia impressa no Brasil é bem ruim.

Os principais veículos não conseguiram fazer a transição para a mídia eletrônica — estão ainda discutindo o que fazer com a internet, perplexos com o avanço veloz da "novidade" que já tem duas décadas de existência.

A verdade é que não há nenhum futuro para os jornalões — com ou sem a obrigatoriedade da publicação da publicidade legal.

No máximo, os patrões vão conseguir prolongar a agonia de seus negócios, muitos deles, como o Estadão, já em profundo coma.

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Fazendo Sochi em pedaços... no bom sentido

Iceberg Skating Palace
Bolshoy Ice Dome
Adler Arena
Quase todos os jornalistas ocidentais estão empenhadíssimos em desqualificar os feitos dos russos e em ampliar os fracassos dos russos, desde o dia em que Putin foi eleito e pôs o ‘jornalismo’ ocidental em modo-síndrome de piração coletiva. Putin os aterroriza! Putin os atormenta até em seus pesadelos, como confessou recentemente Shaun Walter, do The Guardian. Assim sendo, não surpreende a detonação preventiva dirigida contra os Jogos Olímpicos de Sochi.

Mas, dessa vez, o que mais chama a atenção é a baixa qualidade do trabalho: é horrível, o trabalho do pessoal “jornalístico” que os russos chamam, com sarcasmo, de “jornalistas democráticos” que trabalham na Rússia.

O primeiro ataque tinha a ver com uma suposta corrupção em tudo que tivesse a ver com os Jogos Olímpicos de Sochi. Em 2010, a edição russa da revista Esquire estimava que os 48 km de estradas em torno de Sochi teriam consumido nada menos que US$ 8 bilhões de dinheiro dos contribuintes, soma suficiente para pavimentar todas as estradas com caviar beluga de primeira! [A jornalista] Julia Ioffe encarregou-se de transmitir esses cálculos ginasianos para toda a anglosfera. Problema? Esses doidos “de jornal & televisão” cuidadosamente omitiram que a tal estrada incluía 50 pontes e 27 km de túneis em terreno de montanha… o que converte o custo, de estratosférico, para perfeitamente razoável. Mas... o que foi planejado para ser metáfora da corrupção de Sochi acabou por aparecer como metáfora do mais desatinado e infundado ataque contra Sochi.

Adler Railway Station
(parte dos infames US $8 bilhões da"estrada")
Foguete Soyuz (comunicações)
Gorki Gorod parte do Krasnaya Polyana (hotéis e comércio)
Os jornais e televisões de todo o mundo não se cansam de comparações com os US$8 bilhões gastos durante os Jogos Olímpicos de 2010 no Canadá. Convenientemente, ninguém “noticia” que Whistler já era resort de ski de fama mundial, enquanto, em Sochi, toda a infraestrutura teve de ser construída do zero e em prazo relativamente curto.

Os custos reais relacionados aos Jogos Olímpicos de Sochi chegam a US$ 7 bilhões, dos quais a metade saiu do orçamento do estado. Não implica que ninguém tenha roubado — claro que houve roubo, porque a corrupção é problema real na Rússia, e é especialmente endêmico na indústria da construção [como em todo o planeta e também nos EUA e particularmante no Estado de São Paulo, Brasil].

Navalny criou um website inteiro sobre isso e coordenou campanha contra Sochi com Buzzfeed e o New York Times — que o jornal O Estado de S.Paulo, Brasil, COPIOU integral e imediatamente.

Mas o que mais chama a atenção é que, diferente dos níveis faraônicos de assalto aos cofres públicos que se deveriam esperar pelo tom apocalíptico-moralista das matérias “jornalísticas”, na maioria dos casos os gastos equivalem a algo entre 50%-100% dos custos “comparáveis” de projetos ocidentais (e selecionados só os casos mais notáveis já conhecidos).

Não que seja “bom”, é claro. Mas absolutamente não é caso jamais visto na experiência ocidental. Em todos os casos, houve alguns casos criminosos que se converteram em processos judiciais, o que implica que a impunidade não é garantida. (A “vítima” mais famosa, Akhmed Bilalov, fugiu do país reclamando que havia sido envenenado — exatamente o que se poderia esperar dos barões-ladrões do fim da ex-União Soviética).

Hospedarias
Rampa para salto de esqui
Paisagem
A maior parte dos US$ 50 bilhões investidos em Sochi — cerca de 80%, aproximadamente — foram aplicados em projetos de infraestrutura para fazer de Sochi uma estação de ski padrão mundial que garantirá empregos para as agitadas populações do norte do Cáucaso, e como início de uma cultura de esportes de inverno na Rússia, que tente, pelo menos, fixar por aqui uma parte das patrióticas elites russas que passam o inverno em Courchevel.

O segundo principal alvo de ataques é a “perseguição”, na Rússia, aos gays. Tem a ver, presumivelmente, com as novas leis russas que proíbem, para crianças, propaganda de práticas homossexuais — e nem faz qualquer diferença que até 2003 tenha havido leis semelhantes, por exemplo, na Grã-Bretanha (“Section 28”) e que a sodomia ainda fosse considerada crime em vários estados dos EUA, com certeza, até o mesmo ano.

Lembro essas coisas menos porque sejam importantes em si, mas para mostrar que os padrões morais que o “ocidente” considera tão essencial e fundamentalmente importantes só foram alcançados (ou abandonados?) na última década. Além do mais, grande parte do mundo rejeita muito mais furiosamente muitas dessas posições, que a Rússia. Por tudo isso, a campanha nessa direção acaba ganhando ares de tão absurda, arrogante presunção, que não há quem não suspeite de que, sim, há motivo bem sórdido, por trás dela. E quem pressuponha a “correção” e a “moralidade” ocidentais como parâmetro a seguir, que se informe, para começar, sobre Snowden e sobre a Síria.

Em terceiro lugar, e de longe a mais repulsiva, há a trolagem ocidental sobre “o terrorismo” em Sochi. Depois de vários ataques terroristas muito bem-sucedidos na Rússia, não faltaram “especialistas” para proclamar que ali estariam exemplos de que “a autocracia de Putin não está funcionando para os russos comuns” (Kathryn Stoner-Weiss); que os russos “não podem confiar na proteção de seu governo (David Satter), etc.. Por extensão, o Comitê Olímpico Internacional é selvagemente irresponsável por “por em perigo a segurança do público e dos atletas”, admitindo que se realizem jogos olímpicos na Rússia (Sally Jenkins).
Aleksei A. Navalny, o Detrator
(No Brasil há muitos, além da imprensa-empresa, é claro,
vide Black Bloc, naovaitercopa e Banco Itaú p. ex.)
De fato, segundo o maior banco de dados sobre terrorismo no mundo, o número de mortos em ataques terroristas na Rússia caiu vertiginosamente na última década, e o movimento jihadista foi reduzido a uma sombra do que foi; hoje, explodir um ônibus num subúrbio de Volvogrado já é considerado grande façanha entre os jihadistas. Não quero desafiar a sorte e descartar completamente o risco, mas com o “anel de aço” instalado, monitoramento de todas as telecomunicações e cooperação com agências de inteligência de todo o mundo, como se vê na segurança montada para Sochi, é baixa a probabilidade de qualquer ataque terrorista.

Uma vez que os fatos não ajudaram, a “crítica” foi assumindo ares cada vez mais alucinados, distantes cada vez mais da realidade, mais ou menos como o supercomputador HAL, que se põe a balbuciar tolices infantilóides quando é desligado. Milhares de pessoas evacuadas, as casas delas destruídas e suas terras roubadas... e todos cuidam de não noticiar que cada família deslocada recebeu US $100 mil por pessoa. Parece até que Sochi foi erguida sobre os esqueletos dos Circassianos. OK. Se Sochi é um cemitério, o que dizer do continente norte-americano? Um mundo da morte?

A ideia de que Sochi seria “resort subtropical inadequado” porque não tem neve... Ora bolas! Avisem lá, então, o pessoal da Bay Area da California, que esquia em Tahoe até o final de abril, e onde as temperaturas de fevereiro são significativamente superiores às da região de Sochi. Seja como for, as condições estão excelentes, agora, em Sochi, para esportes de inverno.

O recorde de fundo do poço foi atingido por Steve Rosenberg, da BBC, que fotografou duas privadas sanitárias lado a lado, e distribuiu sua peça para toda a imprensa-empresa privada (epa!) da anglosfera; o New York Times adorou e repetiu. (E no Brasil, o Grupo GAFE [Globo-Abril-FSP-Estadão], que vive de macaquear o subjornalismo universal, não perderia essa chance de fazer papel ridículo: a des-notícia das “privadas” ganhou manchete na revista Exame, da Editora Abril).
Foto das privadas de Steve Rosemberg (BBC)
Problema, só, que a foto foi tomada durante as construções. Mas, ora... por que negar a jornalistas de esgoto, a oportunidade de, de fato, se autofotografarem, pensando que fotografavam algum “fato”?!

Nada disso é para dizer que os Jogos Olímpicos de Sochi são algum monumento às virtudes do esporte e à fraternidade universal. Não são. Nada é. Desde a origem, na sábia Grécia, a questão sempre foi dinheiro, competição, vitória e prestígio. Putin, ele mesmo, disse claramente que um de seus objetivos era exibir ao mundo uma nova Rússia. Não há leis que proíbam que governos ocidentais movam campanha “de mídia” contra Sochi, que se recusem a enviar presidentes para as cerimônias de abertura — são atitudes mesquinhas, medíocres, que falam mais mal dos próprios autores, que de qualquer outro assunto. Que não apareçam. Não farão falta alguma.


No Redecastorphoto
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Cascata requentada

 Imperdível 

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Este ano eleitoral já começa a colocar desafios metodológicos aos organizadores do KofK - King of the Kings-2014 (ou seja, eu): uma cascata do ano anterior pode ser reapresentada, requentada, numa edição posterior do KofK? A questão se deve à cascata publicada semana passada — de modo mais descarado, pelo Estadão do sábado, 8: a de que estamos passando perigo de racionamento de energia elétrica.

Você deve lembrar que essa mesma cascata concorreu ao KofK-2013, ficando em terceiro lugar (aqui o texto de apresentação). Como em 2013, não há esse ano perigo de racionamento de energia, mas ainda assim, os coleguinhas voltaram cascatear sobre o tema e, da maneira que ocorre muitas vezes, esgrimindo números. Agora, o Estadão diz que “Dados do ONS apontam para o racionamento”, ação esta que se concentraria no Sudeste, que deveria cortar 5% de seu consumo. Tremenda cascata. Os tais números do ONS vêm da operação de um software que calcula o preço da energia elétrica — isso mesmo, nada a ver com perigo ou necessidade de racionamento. O programa funciona assim:

1. O usário diz pra ele: “software, para a “oferta O” e “demanda D”, qual o mix de fontes de energia que preciso para manter o preço na faixa de (digamos) R$ 500 a R$ 600?”.

2. Em cima de um monte de variáveis (entre as quais, a capacidade média de geração de todo tipo de usina que se encontra em sua base de dados e a “curva de aversão ao risco”, que mostra exatamente o mínimo de vazão nas hidrelétricas capaz de afastar o perigo de racionamento), o programa responde: “Precisa de H de geração de hidrelétricas, T de térmicas, N de nucleares e F de alternativas”.

3. Aí o usuário pergunta: “software, tenho menos H’ de hidrelétricas, mas tenho sobra de T’ de térmicas, sendo T’1 a gás, T’2 a óleo e T’3 a carvão. Acionando todas T’1, metade das T’2 e um terço das T’3, qual será o preço e em quanto ele superará o teto da faixa?”.

4. Após novos cálculos, o programa responde: “O novo preço será de R$ 630,00, 5% acima do preço teto”.

Sacou? O que o programa diz é que o preço da energia excederá o teto em 5%, assim, para que ele voltasse à faixa desejada, a demanda deveria ser cortada naquele percentual, dadas aquelas variáveis — se aumentar o H das hidrelétricas, reduzindo a diferença H’, por exemplo, o percentual cai ou até some. Como dá para notar, esse é um número extremamente volátil — é só chover o suficiente em algumas das bacias hidrográficas corretas ou esfriar uns três graus em Rio e São Paulo que ele muda. Na verdade, é alterado de semana em semana e os coleguinhas sabem disso.

Segundo ponto. Como acontecem racionamentos? De qualquer coisa – comida, combustível, bonequinhos de Pokémon…? Quando a demanda supera a oferta e não há perspectiva de equilíbrio no curto prazo, certo? O preço dispara e o governo, para evitar o colapso de produtos essenciais (minha sobrinha mais velha acha bonequinhos de Pokémon itens de primeira necessidade), decreta racionamento — e, automaticamente, cria um mercado negro do produto com preços escorchantes — no caso da energia elétrica, no Brasil, não se chama “negro”, mas “livre”, e está previsto em lei.

Só que, em termos de energia, temos é excesso. Como o país não cresceu os 5% ao ano que se esperava nos anos pré-crise de 2008 (construindo-se um monte de térmicas para esperar a carga), hoje há energia suficiente para passar pelos apertos de dois verões pouco chuvosos, como os que vivemos. Vamos pagar os olhos de cara — porque esse excesso é proveniente de térmicas e não de hidrelétricas, bombardeadas pelo Ministério Público e por ambientalistas — mas energia vai haver. E os coleguinhas sabem disso tanto quanto eu, mas escrevem matérias com essa do Estadão assim mesmo. Sobre o que eles deveriam escrever é a respeito da falta de campanha permanente — e não só no momento de aperto — em favor do uso racional de energia, algo útil em qualquer época, país ou planeta. Mas eficiência energética não é assunto que influencie em campanha eleitoral, daí…

Terceiro ponto. Os coleguinhas sabem, pois foi informado, que os níveis de água nas hidrelétricas está, em média, cinco pontos percentuais acima do que havia na mesma época ano passado, quando, como eu tinha previsto, não houve racionamento. Os coleguinhas, obviamente, não noticiaram o fato, ou o fizeram o mais discretamente que puderam, visando sustentar a cascata do racionamento.

O motivo? Bem, no texto do ano passado, eu já explico e o que aconteceu semana passada corrobora a hipótese — depois da interrupção de terça passada, na quarta veio o primeiro boato de racionamento (lançado pela Fitch, via Valor) e as ações das elétricas caíram 4% na Bolsa. No dia seguinte, sem que nada houvesse mudado, subiram 2%. Imagine quanto se ganhou só nessas 24 horas. Para quem foi o dinheiro? Acredito que para os analistas malandros, mas, nessa altura do campeonato, já começo a duvidar do que escrevi no texto de 2013: sim, pode ser que tenha coleguinha se dando bem em cima desse cascatol.

Ah, sim… Essa cascata do Estadão vai disputar o KofK-2014.

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É o calor

Pode acontecer. A moça do tempo na TV entra no bar com um grupo de amigos. É recebida com óbvio desconforto pelos frequentadores do bar. Ouve-se um zum-zum-zum de desaprovação à sua presença. O grupo da moça ocupa uma mesa. Depois de algum tempo, um homem da mesa ao lado não se contém e pergunta:

— Você não é a moça do tempo, na TV?

A moça diz que é, sorrindo, mas o homem não sorri. Pergunta:

— Até quando vai esse calor?

— Pois é — diz a moça, ainda sorrindo. — Está difícil de prever. Tem uma zona de pressão na...

— Não — interrompe o homem. — Não me venha com zona de pressão. Chega de enrolação.

Uma mulher de outra mesa se manifesta:

— Há dias que você põe a culpa pelo calor nessa zona de pressão. E não toma providências.

— Minha senhora, eu...

Outros começam a gritar.

— Sensação térmica de 51 graus. Onde já se viu isso?

— Não dá mais para aguentar!

— Faça alguma coisa!

A moça do tempo na TV agora está em pânico.

— O que eu posso fazer? Eu só descrevo o tempo. Não tenho o poder de...

— Alguém tem que assumir a culpa, minha filha! Sensação térmica de 51 graus, alguém tem que ser responsável.

— A culpa é da Natureza!

— Rá. Natureza. Muito bonito. Muito conveniente. É como culpar a corrupção pela índole do brasileiro. Aqui ninguém tem culpa de ser corrupto, é a índole. A índole do tempo, num país tropical, é essa. E quem pode reclamar da índole? Ou da Natureza? De você nós podemos reclamar, querida.

— Mas a culpa não é minha!

— Estamos cansados do seu distanciamento enquanto mostra no mapa que o calor só vai aumentar. Seu ar superior, como se não tivesse nada a ver com aquilo. Chega!

A mesa da moça do tempo na TV está cercada. Caras raivosas. Ameaça de violência. A moça do tempo na TV se ergue e grita:

— Esta bem! Está bem! Amanhã eu faço chegar uma frente fria. Eu prometo!

As pessoas se acalmam. Todos voltam para as suas mesas. O garçom vem tirar o pedido do grupo da moça do tempo na TV e tenta explicar:

— É o calor... O pessoal fica meio louco.

Luis Fernando Veríssimo
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